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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Lembrar o 2 de Novembro de 1981:


Era um dia como tantos outros. De manhã, como vem sendo habitual, os católicos deslocaram-se à Igreja Matriz de Freamunde, para assistir à missa que é celebrada em honra dos Fiéis Defuntos, hoje foi celebrada na Capela do Cemitério Nº. 2, e assim se dar início a mais um dia dois de Novembro.
Ao contrário do de hoje, aquele estava um dia de estio, próprio para as ceifas e desfolhadas que se realizavam ao ar livre nos campos ou eiras dos lavradores de Freamunde. Não faltavam familiares e amigos nessa ajuda. Contavam-se histórias da vida vivida e cantavam-se as modas da altura do folclore português: “Freamunde é Lindo e Encantador”, “Ceifeiras de Freamunde” e outras que o Rancho Folclórico de Freamunde vai usando no seu vasto reportório.
Para mim também era mais um dia no calendário da vida. Desempenhava funções de Guarda Prisional no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira e como sempre de manhã por volta das sete horas e quinze minutos deslocava-me para ali. A minha esposa já tinha começado o seu dia de trabalho. Saía de casa às cinco horas e trinta minutos para começar o seu dia de labuta às seis horas na fábrica (Luteme) de Luís Teles de Meneses.
Com a minha saída de casa, saía depois da minha esposa, a nossa filha Sónia ficava sozinha até por volta das oito horas e trinta minutos, hora a que a minha cunhada Ana a vinha buscar para casa dos meus sogros. Não frequentava os infantários pelo motivo de ser caro para mim em conformidade com filhos de outros colegas meus. Como era funcionário público e não podia fugir aos descontos, ao contrário dos meus amigos, por isso não concordava, porque não estava para pagar para outros, sabendo que eles tinham melhores posses. Por esse motivo a minha filha Sónia não pôde disfrutar dessa regalia.
O meu dia de trabalho decorreu normalmente, digo normalmente, porque nas cadeias o que é normal, nas empresas privadas é um dia turbulento mas, tínhamos de viver com essa realidade e esse era o pão nosso de cada dia. Por volta das dezanove horas dava-se o encerramento e quando tudo estava certo era o findar do dia de trabalho para quem andava fora de escala que era o meu caso: trabalhava de segunda a sexta-feira.
Cheguei a casa e vi a minha esposa deitada no sofá da sala a queixar-se com dores. Andava de parto e sabia que andava por dias mas nunca pensava que era nesse devido ao facto de ter ido trabalhar e ter aguentado o dia todo de trabalho. Desloquei-me a casa de meus pais, moravam no lugar da Bouça, Freamunde, a ver o que a minha mãe me aconselhava. Veio comigo, mais a minha irmã Fátima, para se inteirarem se as dores eram de parto. Disse-me que o parto estava por horas e o melhor era levar a minha esposa para a maternidade.
Quando nasceu a minha filha Sónia a Maternidade de Paços de Ferreira prestava serviço aos habitantes do concelho. Assim, ali nasceu, mas registada como se tivesse nascido no lugar do Calvário em Freamunde. Quando a fui registar e disse que tinha nascido na minha residência fui ameaçado que se isso não correspondesse à verdade mais tarde podia ser ressarcido dos abonos atribuídos. Com estas advertências não me importei porque sabia que um dia mais tarde a minha filha me responsabilizava por essa tomada de posição e gosto que a milha filha tenha estampada no seu Bilhete de Identidade a sua terra, ao contrário de muitos.
Nessa altura a Maternidade de Paços de Ferreira tinha encerrado e tive de levar a minha esposa para o Hospital de Lousada. Assim, eu, a minha esposa e a minha irmã nos deslocamos para o Hospital de Lousada na minha viatura pelo centro de Freamunde, refiro isto, porque gosto de lembrar que na passagem, passamos pelo meu pai e a minha irmã mais nova, Fernanda, a minha irmã Fátima que me acompanhava dizer-me: - olha a "Nandinha" vai agarrada ao pai de certeza ele já vai com a “pinga”. Vezes sem conta esta frase vem-me à memória e quem me lê não sabe o gosto que tinha em ver novamente o meu pai com a “pinga”. Relembro, esta peripécia, porque o dia de hoje é em memória dele e de muitos que como ele se encontram nos prados de repouso.
Chegados ao Hospital de Lousada e depois das formalidades para a entrada da minha esposa não demorou muito a que a minha irmã me trouxesse a notícia que tinha nascido um rapaz. Fiquei contente. Passados uns dias fui registar o Victor Hugo ao Serviço de Registo e Notariado de Paços de Ferreira. Fui atendido pela mesma funcionária que registou a minha filha Sónia e aqui não fui confrontado com o sítio em que meu filho nasceu. Sei o motivo disso. Como a Maternidade de Paços de Ferreira tinha encerrado de certeza que receberam ordens para o não fazer porque senão o concelho de Paços de Ferreira um dia mais tarde não tinha habitantes aqui nascidos.
E assim, se colhe letras e frases para recordar o dia dois de Novembro de mil novecentos e oitenta e um. Recordar é viver. 
Que o Victor Hugo tenha um dois de Novembro em cheio na companhia da sua companheira e filho, meu neto, Diogo e que em La Ricamarrie, S. Etinne, França, o dia seja de estio como o de mil novecentos e oitenta e um, mesmo sem o folclore de Freamunde.   

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