Era um dia como tantos outros. De manhã, como vem sendo
habitual, os católicos deslocaram-se à Igreja Matriz de Freamunde, para
assistir à missa que é celebrada em honra dos Fiéis Defuntos, hoje foi celebrada
na Capela do Cemitério Nº. 2, e assim se dar início a mais um dia dois de
Novembro.
Ao contrário do de hoje, aquele estava um dia de estio, próprio para as
ceifas e desfolhadas que se realizavam ao ar livre nos campos ou eiras dos
lavradores de Freamunde. Não faltavam familiares e amigos nessa ajuda.
Contavam-se histórias da vida vivida e cantavam-se as modas da altura do
folclore português: “Freamunde é Lindo e Encantador”, “Ceifeiras de Freamunde”
e outras que o Rancho Folclórico de Freamunde vai usando no seu vasto
reportório.
Para mim também era mais um dia no calendário da vida. Desempenhava
funções de Guarda Prisional no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira e
como sempre de manhã por volta das sete horas e quinze minutos deslocava-me
para ali. A minha esposa já tinha começado o seu dia de trabalho. Saía de casa
às cinco horas e trinta minutos para começar o seu dia de labuta às seis horas na
fábrica (Luteme) de Luís Teles de Meneses.
Com a minha saída de casa, saía depois da minha esposa, a nossa filha
Sónia ficava sozinha até por volta das oito horas e trinta minutos, hora a que
a minha cunhada Ana a vinha buscar para casa dos meus sogros. Não frequentava
os infantários pelo motivo de ser caro para mim em conformidade com filhos de
outros colegas meus. Como era funcionário público e não podia fugir aos descontos, ao
contrário dos meus amigos, por isso não concordava, porque não estava para pagar
para outros, sabendo que eles tinham melhores posses. Por esse motivo a minha
filha Sónia não pôde disfrutar dessa regalia.
O meu dia de trabalho decorreu normalmente, digo normalmente, porque
nas cadeias o que é normal, nas empresas privadas é um dia turbulento mas, tínhamos
de viver com essa realidade e esse era o pão nosso de cada dia. Por volta das
dezanove horas dava-se o encerramento e quando tudo estava certo era o findar
do dia de trabalho para quem andava fora de escala que era o meu caso:
trabalhava de segunda a sexta-feira.
Cheguei a casa e vi a minha esposa deitada no sofá da sala a queixar-se
com dores. Andava de parto e sabia que andava por dias mas nunca pensava que
era nesse devido ao facto de ter ido trabalhar e ter aguentado o dia todo
de trabalho. Desloquei-me a casa de meus pais, moravam no lugar da Bouça,
Freamunde, a ver o que a minha mãe me aconselhava. Veio comigo, mais a minha
irmã Fátima, para se inteirarem se as dores eram de parto. Disse-me que o parto
estava por horas e o melhor era levar a minha esposa para a maternidade.
Quando nasceu a minha filha Sónia a Maternidade de Paços de Ferreira
prestava serviço aos habitantes do concelho. Assim, ali nasceu, mas registada
como se tivesse nascido no lugar do Calvário em Freamunde. Quando a fui
registar e disse que tinha nascido na minha residência fui ameaçado que se isso
não correspondesse à verdade mais tarde podia ser ressarcido dos abonos
atribuídos. Com estas advertências não me importei porque sabia que um dia mais
tarde a minha filha me responsabilizava por essa tomada de posição e gosto que
a milha filha tenha estampada no seu Bilhete de Identidade a sua terra, ao
contrário de muitos.
Nessa altura a Maternidade de Paços de Ferreira tinha encerrado e tive
de levar a minha esposa para o Hospital de Lousada. Assim, eu, a minha esposa e
a minha irmã nos deslocamos para o Hospital de Lousada na minha viatura pelo
centro de Freamunde, refiro isto, porque gosto de lembrar que na passagem,
passamos pelo meu pai e a minha irmã mais nova, Fernanda, a minha irmã Fátima
que me acompanhava dizer-me: - olha a "Nandinha" vai agarrada ao pai
de certeza ele já vai com a “pinga”. Vezes sem conta esta frase vem-me à
memória e quem me lê não sabe o gosto que tinha em ver novamente o meu pai com
a “pinga”. Relembro, esta peripécia, porque o dia de hoje é em memória dele e
de muitos que como ele se encontram nos prados de repouso.
Chegados ao Hospital de Lousada e depois das formalidades para a entrada da minha esposa não demorou muito a que a minha irmã me trouxesse a notícia que tinha nascido um rapaz. Fiquei contente. Passados uns dias fui registar o Victor Hugo ao Serviço de Registo e Notariado de Paços de Ferreira. Fui atendido pela mesma funcionária que registou a minha filha Sónia e aqui não fui confrontado com o sítio em que meu filho nasceu. Sei o motivo disso. Como a Maternidade de Paços de Ferreira tinha encerrado de certeza que receberam ordens para o não fazer porque senão o concelho de Paços de Ferreira um dia mais tarde não tinha habitantes aqui nascidos.
Chegados ao Hospital de Lousada e depois das formalidades para a entrada da minha esposa não demorou muito a que a minha irmã me trouxesse a notícia que tinha nascido um rapaz. Fiquei contente. Passados uns dias fui registar o Victor Hugo ao Serviço de Registo e Notariado de Paços de Ferreira. Fui atendido pela mesma funcionária que registou a minha filha Sónia e aqui não fui confrontado com o sítio em que meu filho nasceu. Sei o motivo disso. Como a Maternidade de Paços de Ferreira tinha encerrado de certeza que receberam ordens para o não fazer porque senão o concelho de Paços de Ferreira um dia mais tarde não tinha habitantes aqui nascidos.
E assim, se colhe letras e frases para recordar o dia dois de Novembro
de mil novecentos e oitenta e um. Recordar é viver.
Que o Victor Hugo tenha um dois de Novembro em cheio na companhia da sua companheira e filho, meu neto, Diogo e que em La Ricamarrie, S. Etinne, França, o dia seja de estio como o de mil novecentos e oitenta e um, mesmo sem o folclore de Freamunde.
Que o Victor Hugo tenha um dois de Novembro em cheio na companhia da sua companheira e filho, meu neto, Diogo e que em La Ricamarrie, S. Etinne, França, o dia seja de estio como o de mil novecentos e oitenta e um, mesmo sem o folclore de Freamunde.

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