Para Ler o Pato Donald (ou alguns "subsídios", sem custos
para o erário público, para que entendamos melhor os discursos tipo
Ulrich/Jonet com um cheirinho a Cavaco)
"Na minha "revolucionária" juventude foi muito popular entre o
"estudantariado" de esquerda uma obra de Ariel Dorfman e Armand
Mattelart intitulada "Para Ler o Pato Donald" em que é feita uma
exegese das histórias de quadradinhos da Disney enquanto veículos ideológicos
do Capitalismo. Também por essa altura o psiquiatra Bruno Bettelheim publicou a
"Psicanálise dos Contos de Fadas" defendendo que são, na verdade,
contos de uma palavra bastante parecida, em que só muda uma vogal. Ora, um
método semelhante pode ser utilizado para fazer a hermenêutica do discurso
ideológico de certos figurões bem escorados no "establishment",
quando peroram, em termos moralistas, sobre as "virtudes perdidas" e
a "valia redentora" dos sacrifícios (Obviamente para os outros. Mesmo
quando dizem "temos que empobrecer", esse "temos" é apenas
figurativo e estão bem conscientes disso, embora, no calor da abnegação discursiva,
possam episodicamente "esquecê-lo").
É comum entre as "elites" nacionais (apesar de muitos dos
apelidos o não serem) a divulgada opinião que os portugueses "têm vivido
acima das suas possibilidades". Como se os portugueses vivessem todos da
mesma maneira e como se isso, a ser verdade para o País considerado como um
todo estatístico, não tivesse decorrido de uma espécie de
"enriquecimento" sem causa, sobretudo sem base de sustentabilidade,
promovido precisamente pelos mesmos que agora vêm dizer "Ai aguenta,
aguenta" sobre a austeridade com que os seus interesses continuam a lucrar
(o Banco do Dr. Ulrich, por exemplo, é um dos que foi buscar financiamento ao
"bolo" da Troika e o que vai para ele é o que não vai para as funções
sociais do Estado). De facto se os bancos não tivessem lucrado com o festim do
"crédito fácil" (esta do "fácil" é como a outra que foi a
julgamento acusada de ser uma mulher da "vida fácil" e perguntou ao
juiz, se era assim tão fácil, porque não experimentava ele próprio?!). Foram os
interesses "económicos" e financeiros que estimularam o consumismo e
abriram hipermercados e centros comerciais por todo o lado; foram os bancos que
"avocaram"; com o indispensável beneplácito dos governos, o
totalitário crédito à habitação eclipsando o mercado de arrendamento; foram os
bancos que instalaram caixas ATM (vulgo multibanco) a uma das mais altas taxas
por número de habitantes do mundo para estimular o despesismo; foram os
interesses bancários que "fabricaram" dinheiro através do crédito sem
garantias reais, criando "descobertos" autorizados e estimulando
"bolhas"; foi toda uma "cultura" ilusionista, com pés de
barro, dada como irreversível, que favoreceu nos sectores que hoje verberam a
sua própria obra através da culpabilização das "presas" (afinal com
papas e bolos se enganam os tolos), nisto semelhando aqueles roceiros coloniais
que montavam tabancas à saída das plantações por onde os
"contratados" tinham obrigatoriamente que passar para regressar aos
"alojamentos", de modo a que a escassa "féria" que tinham
recebido ficasse logo lá, "derretida" em álcool e bugigangas.
Foi isto que aconteceu no Portugal do "oásis" nos últimos
vinte e muitos anos, desde o consulado do cavalheiro "amnésico" que
enquanto Presidente da República anda a propugnar a
"reindustrialização" do País, e o "regresso ao mar" e à
agricultura, quando, como Primeiro-ministro, promoveu o desmantelamento da
Indústria, da Agricultura, das Pescas, a destruição da via-férrea e a
"terciarização" do País, ou seja a ilusão da "vida-fácil". Como
a outra senhora deve ter saudades de ir a Marrocos e ouvir, entre regateios, a
ladina adulação dos comerciantes dos "souks":
- "J'aime beaucoup les portugais, parce qu'ils sont pauvres comme
nous"."

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