VIRIATO SOROMENHO MARQUES
Vítor Gaspar voltará a invocar as exigências da troika para defender,
no Parlamento, um Orçamento que, em matéria social, é uma verdadeira máquina do
tempo: em poucos meses arrisca-se a transportar Portugal aos indicadores de
pobreza de há trinta ou quarenta anos, antes da existência de um mínimo de
"Estado social". Sabemos que os credores são sempre duros. Os alemães
têm, nesse capítulo, muito para contar. Em 11 de janeiro de 1923, 100 000
soldados belgas e franceses entraram pela zona carbonífera do Ruhr, tentando
assegurar, em géneros, o pagamento das dívidas que os alemães não conseguiam
honrar. Há, todavia, duas diferenças capitais entre os devedores alemães de
1923 e os devedores portugueses de 2012. Em 1923, a Alemanha estava a pagar as
dívidas de uma guerra que tinha iniciado, e que perdeu. A dívida dos vencedores
não seria justa, mas a derrota alemã não inocentou a política imperialista do
Kaiser. Os portugueses de 2012 pagam o erro de ter acreditado que a União
Económica e Monetária seria um projecto de solidariedade política e não uma
organização de prestamistas capazes de utilizar o terror social como técnica de
cobrança contra os membros devedores. Segunda diferença: os governantes da
República de Weimar, a começar pelo chanceler Wilhelm Cuno, apelaram à
resistência contra as tropas de ocupação. Houve greves gerais e sabotagens.
Centenas de civis foram mortos e feridos. Milhares encarcerados. Na Lisboa de
2012, reina o colaboracionismo, em duas versões: a entusiástica, de Passos
Coelho ("ir para além da troika"), ou a variante fatalista, de Gaspar
("não há margem de manobra"). A Alemanha não só não pagou as suas
dívidas como voltou, compulsivamente, a fazer compras no estrangeiro. Depois de
1939...«DN»

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