terça-feira, 30 de outubro de 2012

Veja as diferenças:


VIRIATO SOROMENHO MARQUES

Vítor Gaspar voltará a invocar as exigências da troika para defender, no Parlamento, um Orçamento que, em matéria social, é uma verdadeira máquina do tempo: em poucos meses arrisca-se a transportar Portugal aos indicadores de pobreza de há trinta ou quarenta anos, antes da existência de um mínimo de "Estado social". Sabemos que os credores são sempre duros. Os alemães têm, nesse capítulo, muito para contar. Em 11 de janeiro de 1923, 100 000 soldados belgas e franceses entraram pela zona carbonífera do Ruhr, tentando assegurar, em géneros, o pagamento das dívidas que os alemães não conseguiam honrar. Há, todavia, duas diferenças capitais entre os devedores alemães de 1923 e os devedores portugueses de 2012. Em 1923, a Alemanha estava a pagar as dívidas de uma guerra que tinha iniciado, e que perdeu. A dívida dos vencedores não seria justa, mas a derrota alemã não inocentou a política imperialista do Kaiser. Os portugueses de 2012 pagam o erro de ter acreditado que a União Económica e Monetária seria um projecto de solidariedade política e não uma organização de prestamistas capazes de utilizar o terror social como técnica de cobrança contra os membros devedores. Segunda diferença: os governantes da República de Weimar, a começar pelo chanceler Wilhelm Cuno, apelaram à resistência contra as tropas de ocupação. Houve greves gerais e sabotagens. Centenas de civis foram mortos e feridos. Milhares encarcerados. Na Lisboa de 2012, reina o colaboracionismo, em duas versões: a entusiástica, de Passos Coelho ("ir para além da troika"), ou a variante fatalista, de Gaspar ("não há margem de manobra"). A Alemanha não só não pagou as suas dívidas como voltou, compulsivamente, a fazer compras no estrangeiro. Depois de 1939...«DN»

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