«1. Quinta-feira de manhã, o líder do CDS informou- -nos que
o seu partido iria viabilizar o Orçamento de Estado. Têm razão os que dizem que
há um problema de comunicação no Governo: levou três dias para que o ministro
de Estado e dos Negócios Estrangeiros comunicasse ao presidente do CDS o que
tinha sido aprovado por ele no Conselho de Ministros.
Um ministro de Estado que também é presidente dum partido da
coligação escrever uma carta em que anuncia que apoia o Governo é um episódio
que fica para sempre no anedotário da política nacional. Se fosse a primeira
vez em que Paulo Portas nos brindava com este tipo de cenas dava para um
cidadão se indignar. Agora, já não. É só mais uma na opereta que está a encenar
em que nos tenta convencer que está no Governo mas não está, em que apoia o
Executivo mas não apoia, que concorda com as medidas mas não concorda. Para dar
colorido a este triste espectáculo ainda temos Vítor Gaspar a fazer
"enormes" piadas de mau gosto com ele e Miguel Relvas - que renasceu,
provavelmente convencido de que está tudo esquecido - a dar indirectas sobre
estados de alma. Patético.
2. O CDS, segundo o comunicado do seu presidente, não
confundir com o ministro dos Negócios Estrangeiros, afirma que "todos têm
um contributo a dar para assegurar a estabilidade política, o consenso nacional
e a coesão social em Portugal". É por isto e por ser um partido
responsável que votará favoravelmente o Orçamento para 2013. Ora, ou Vítor
Gaspar, Passos Coelho e, agora, Paulo Portas são os únicos cidadãos a viver em
Portugal, e nesse caso há consenso em redor do Orçamento, ou o líder do CDS
deve estar a falar de outro país qualquer. E só pode ser piada de mau gosto
dizer, num mesmo documento, que se aprova o Orçamento e que se está a
contribuir para a estabilidade política e a coesão social. Falências,
desemprego em massa, miséria, destruição da classe média , instituições em
colapso não serão propriamente a imagem dum país estável e coeso socialmente. E
só estes três senhores é que pensam que executar este Orçamento ri- ma com
responsabilidade. A esmagadora maioria dos portugueses, as principais figuras
do PSD e do CDS, todos os ex-presidentes da República - o actual Presidente
está escondido no Facebook, demasiado assustado com a dimensão do problema que
vai ter de resolver -, os nossos credores e até as agências de rating, sempre
ávidas de mais e mais austeridade, acham este Orçamento uma criminosa
irresponsabilidade, um projecto inaplicável, um insulto aos portugueses, uma
loucura dum cientista alucinado. Portas quer evitar uma crise política. Ainda
não percebeu que está no meio duma. E não é só governativa, é uma que abana os
próprios alicerces da democracia. E ele está a colaborar activamente no
aprofundamento dessa crise.
3. O CDS, alinhando com este Orçamento, perde toda a
credibilidade, sobretudo face ao seu eleitorado tradicional. O partido do
contribuinte perde todo o seu capital político (fica para mais tarde falar do
projecto de destruição em curso do mais importante partido português, o PSD).
O CDS depende da sua capacidade de condicionar políticas, de
mostrar ao seu potencial eleitorado que consegue impor parte da sua agenda. Se
não o consegue fazer, particularmente num momento como este, deixa de fazer
sentido. Que dirá Paulo Portas aos seus eleitores quando daqui a uns meses o
País estiver no caos e Portugal estiver a pedir o segundo resgate? Que foi
forçado a assinar o Orçamento? Que se enganou? Ninguém acreditará nele, nem os
seus mais fervorosos seguidores. O CDS não tem implantação autárquica, não está
ligado a movimentos sociais como sindicatos ou organizações cívicas. Responde
apenas pelos seus actos, não tem esses, digamos, mantos protectores. Portugal
cedo ou tarde levantar-se-á, o CDS assinou a sua certidão de óbito. E da maneira
mais infeliz de todas: colaborando num Orçamento que, implementado, destruirá o
País por muitos anos.
4. Convinha acabar duma vez por todas com a conversa da
falta de alternativa. Desde quando o suicídio colectivo é o único caminho
possível? É bom que os deputados, aquando da votação do Orçamento, se lembrem
disso. Em última análise serão eles os responsáveis por tudo o que se irá passar
dentro de pouco tempo.» [DN]
Autor:
Pedro Marques Lopes.

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