Há
dois jornais diários que todos os dias dou uma vista de olhos. Não os compro,
não merecem o preço do custo, aproveito a Internet para ter acesso ao Diário de
Notícias e Jornal de Notícias. Faço-o por três cronistas que escrevem nesses
jornais. É uma delícia ler as suas crónicas. Umas vezes estou de acordo, outras
nem tanto, mesmo assim reconheço o valor das crónicas.
O
Diário de Notícias dá-nos o prazer de ter um cronista, para mim do melhor que
há, que se chama Ferreira Fernandes. O Jornal de Notícias tem dois, um escreve
diariamente, o outro semanalmente, mas tenho muita admiração por ambos.
Manuel António Pina e Marinho e Pinto - é deles que se trata - são os meus cronistas preferidos nesse jornal.
As suas críticas assertivas levam-me a passar os olhos pelo jornal, não fosse isso, não tinha o trabalho de ir à Internet.
As suas críticas assertivas levam-me a passar os olhos pelo jornal, não fosse isso, não tinha o trabalho de ir à Internet.
Hoje
foi ler a crónica de Marinho e Pinto e é um consolo ler “Devaneios num dia de
Verão”. É como ele descreve: não se pode ter “sol na eira e chuva no naval” ao
mesmo tempo.
"Nesse
dia eu acordara maldisposto, com os raios do sol a baterem-me agressivamente na
cara, pouco passava das seis da manhã. Era um dia lindo de agosto: o sol
brilhava em plenitude, o céu estava intensamente azul e a temperatura do ar
ultrapassava os 30 graus. Os invernos no Rio de Janeiro, às vezes, são
surpreendentes.
Almocei
com um português meu amigo, catorze anos mais velho do que eu, mas cheio de
força e de agilidade. Senti um ligeiro «toque» de culpa quando o vi comer com
moderação, quase frugalidade, enquanto eu me atirava à picanha com uma
tenacidade «bulímica». No final, ele, leve e ágil, foi para casa dormir a sesta
e eu, pesado e melancólico, fui passear para a praia.
Sentei-me
numa esplanada e contemplei a multidão. Homens e mulheres de todas as idades
ali estavam, seminus, passeando, jogando vólei ou, simplesmente, deitados na
areia curtindo um sol perpendicular. Um sentimento de frustração atingiu-me
quando reparei nos corpos esculturais de muitos homens da minha geração.
Inevitavelmente, eu os comparava com os meus noventa e tal quilos de peso e,
sobretudo, com os meus cento e muitos centímetros de perímetro abdominal. Por
que é que eu não sou como eles? - interroguei-me. Senti então uma espécie de
remorso por, outrora, não ter feito as escolhas adequadas.
Aqueles
corpos eram frutos de muita «malhação» nos ginásios, de joggings, de footings,
e coisas que tais, e de longas e extenuantes corridas solitárias. E eu teria
feito tudo isso? Eu, que na juventude praticara ginástica e judo, andebol e
futebol, teria tido força para renunciar a tudo o que me fizera abandonar o
culto do corpo em benefício do enriquecimento cultural e espiritual em
conformidade, aliás, com os paradigmas dominantes na minha geração?
Provavelmente sim; e, se o tivesse feito, teria hoje, com certeza, um corpo
como aqueles.
Mas,
se o tivesse feito não teria tido tempo para outras coisas. Provavelmente, não
teria participado nas longas discussões políticas e culturais até de madrugada,
na velha Clepsidra, no Tropical, no Atenas e no Trianon, sempre copiosamente
regadas com cerveja; não teria tido tempo para as assembleias magnas ou os
infindáveis plenários contra a guerra colonial, Nixon e Pinochet, a agressão
imperialista ao Vietname, os assassínios de Che Guevara e de Salvador Puig
Antich e, principalmente, para protestar todas as solidariedades que esse tempo
me exigia.
Se
na minha juventude tivesse optado pelo culto do corpo, provavelmente nunca
teria empunhado os estandartes que ergui nem teria tido condições para
compreender por que é que a única unidade de massas historicamente possível é a
do proletariado e mais nenhuma ou por que o militantismo é o estádio supremo da
alienação ou por que os estudantes não são uma classe, mas sim um estrato
social sem futuro histórico ou ainda o que, de facto, esteve em causa no
Congresso de Haia da Primeira Internacional.
Nunca
teria entendido por que é que era imprescindível, naquela Coimbra de 1970, ler
a Crítica do Programa de Gotha, as Duas Tácticas, o Processo Histórico, o Que
Fazer?, a Revolução Permanente, o Renegado Kautsky, a Natureza do Estado Soviético
e muitos outros livros e panfletos dos séculos XIX e XX, para se poder
participar plenamente numa reunião de estudantes em que se discutia apenas uma
greve às aulas de um professor fascista.
Lembrei-me,
então, em catadupa, de milhares de outras coisas, boas e más, que fizera ou me
aconteceram, e que nunca trocaria pelo prazer narcísico de um corpo de Adónis a
envelhecer. As leituras, a prisão, as solidariedades, as certezas escatológicas
sobre a marcha da História, um novo sentido para a existência, a
reinterpretação dos factos do passado, a parusia marxista, tudo isso e mais uma
torrente infindável de outras recordações desabavam sobre mim
avassaladoramente.
Então,
de repente, senti-me bem comigo próprio. Olhei para a minha barriga, afaguei-a
com ternura e orgulho e disse para mim próprio: fizeste muito bem, António.
Levantei-me, deitei um olhar de desprezo para aqueles corpos que agora me
pareciam imagens fátuas da frivolidade e fui para o hotel ler uma velha
antologia poética de Ezra Pound."

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