Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Os cronistas dos jornais:


Há dois jornais diários que todos os dias dou uma vista de olhos. Não os compro, não merecem o preço do custo, aproveito a Internet para ter acesso ao Diário de Notícias e Jornal de Notícias. Faço-o por três cronistas que escrevem nesses jornais. É uma delícia ler as suas crónicas. Umas vezes estou de acordo, outras nem tanto, mesmo assim reconheço o valor das crónicas.
O Diário de Notícias dá-nos o prazer de ter um cronista, para mim do melhor que há, que se chama Ferreira Fernandes. O Jornal de Notícias tem dois, um escreve diariamente, o outro semanalmente, mas tenho muita admiração por ambos. Manuel António Pina e Marinho e Pinto - é deles que se trata - são os meus cronistas preferidos nesse jornal. 
As suas críticas assertivas levam-me a passar os olhos pelo jornal, não fosse isso, não tinha o trabalho de ir à Internet.
Hoje foi ler a crónica de Marinho e Pinto e é um consolo ler “Devaneios num dia de Verão”. É como ele descreve: não se pode ter “sol na eira e chuva no naval” ao mesmo tempo.
"Nesse dia eu acordara maldisposto, com os raios do sol a baterem-me agressivamente na cara, pouco passava das seis da manhã. Era um dia lindo de agosto: o sol brilhava em plenitude, o céu estava intensamente azul e a temperatura do ar ultrapassava os 30 graus. Os invernos no Rio de Janeiro, às vezes, são surpreendentes.
Almocei com um português meu amigo, catorze anos mais velho do que eu, mas cheio de força e de agilidade. Senti um ligeiro «toque» de culpa quando o vi comer com moderação, quase frugalidade, enquanto eu me atirava à picanha com uma tenacidade «bulímica». No final, ele, leve e ágil, foi para casa dormir a sesta e eu, pesado e melancólico, fui passear para a praia.
Sentei-me numa esplanada e contemplei a multidão. Homens e mulheres de todas as idades ali estavam, seminus, passeando, jogando vólei ou, simplesmente, deitados na areia curtindo um sol perpendicular. Um sentimento de frustração atingiu-me quando reparei nos corpos esculturais de muitos homens da minha geração. Inevitavelmente, eu os comparava com os meus noventa e tal quilos de peso e, sobretudo, com os meus cento e muitos centímetros de perímetro abdominal. Por que é que eu não sou como eles? - interroguei-me. Senti então uma espécie de remorso por, outrora, não ter feito as escolhas adequadas.
Aqueles corpos eram frutos de muita «malhação» nos ginásios, de joggings, de footings, e coisas que tais, e de longas e extenuantes corridas solitárias. E eu teria feito tudo isso? Eu, que na juventude praticara ginástica e judo, andebol e futebol, teria tido força para renunciar a tudo o que me fizera abandonar o culto do corpo em benefício do enriquecimento cultural e espiritual em conformidade, aliás, com os paradigmas dominantes na minha geração? Provavelmente sim; e, se o tivesse feito, teria hoje, com certeza, um corpo como aqueles.
Mas, se o tivesse feito não teria tido tempo para outras coisas. Provavelmente, não teria participado nas longas discussões políticas e culturais até de madrugada, na velha Clepsidra, no Tropical, no Atenas e no Trianon, sempre copiosamente regadas com cerveja; não teria tido tempo para as assembleias magnas ou os infindáveis plenários contra a guerra colonial, Nixon e Pinochet, a agressão imperialista ao Vietname, os assassínios de Che Guevara e de Salvador Puig Antich e, principalmente, para protestar todas as solidariedades que esse tempo me exigia.
Se na minha juventude tivesse optado pelo culto do corpo, provavelmente nunca teria empunhado os estandartes que ergui nem teria tido condições para compreender por que é que a única unidade de massas historicamente possível é a do proletariado e mais nenhuma ou por que o militantismo é o estádio supremo da alienação ou por que os estudantes não são uma classe, mas sim um estrato social sem futuro histórico ou ainda o que, de facto, esteve em causa no Congresso de Haia da Primeira Internacional.
Nunca teria entendido por que é que era imprescindível, naquela Coimbra de 1970, ler a Crítica do Programa de Gotha, as Duas Tácticas, o Processo Histórico, o Que Fazer?, a Revolução Permanente, o Renegado Kautsky, a Natureza do Estado Soviético e muitos outros livros e panfletos dos séculos XIX e XX, para se poder participar plenamente numa reunião de estudantes em que se discutia apenas uma greve às aulas de um professor fascista.
Lembrei-me, então, em catadupa, de milhares de outras coisas, boas e más, que fizera ou me aconteceram, e que nunca trocaria pelo prazer narcísico de um corpo de Adónis a envelhecer. As leituras, a prisão, as solidariedades, as certezas escatológicas sobre a marcha da História, um novo sentido para a existência, a reinterpretação dos factos do passado, a parusia marxista, tudo isso e mais uma torrente infindável de outras recordações desabavam sobre mim avassaladoramente.
Então, de repente, senti-me bem comigo próprio. Olhei para a minha barriga, afaguei-a com ternura e orgulho e disse para mim próprio: fizeste muito bem, António. Levantei-me, deitei um olhar de desprezo para aqueles corpos que agora me pareciam imagens fátuas da frivolidade e fui para o hotel ler uma velha antologia poética de Ezra Pound." 

Sem comentários:

Enviar um comentário