Replicam por mais que uma vez! Dlim dlam dlim dlam. São os sinos da Igreja Matriz, da Capela de S. Francisco e S. António em Freamunde a anunciar a saída do Compasso Pascal. O povo aglomera-se no adro da igreja - a missa das sete tinha acabado - para presenciar a saída dos vários compassos pascais. Sim! Em Freamunde são precisos vários para percorrer toda a cidade. Agora o replicar é das campainhas: tlim, tlim, tlim que fazem parte do grupo de leigos - Acólito, Homem da Cruz, da Caldeira da água benta, da Pasta de Oferendas e Campainha - que tem a missão de ir a cada casa das várias ruas que lhes estão destinadas. Ouve-se também o estralejar de foguetes a avisar a população da sua saída. Cada Compasso Pascal tem um itinerário pré-determinado que leva a cada casa interessada a boa nova da Ressurreição de Jesus. Para dar conhecimento das casas ou apartamentos interessados na visita, nas entradas, é posto um tapete de hera, flores ou verdura.
Antigamente eram três Compassos Pascais, representados por um padre, cada um. Eram tempos em que estes abundavam. Os padres das paróquias iam aos Seminários requisitá-los e assim todas as casas eram visitadas neste dia. Em certas freguesias não se procedia assim. Era o próprio padre que visitava todos os lugares e casas. Assim, na segunda - feira também era dia de Páscoa. Havia quem criticasse esta medida. Também não a compreendia. O dia de Páscoa devia ser para todos no mesmo dia.
Mais tarde, muito mais tarde, em pleno século vinte e um, tomei conhecimento de outra tradição. A Páscoa tinha sido no mês de Abril. Como todos os anos em minha casa abre-se a porta para receber o Compasso e comemorar-se essa tradição. Mas nesse ano, julgo dois mil e oito, desloquei-me à ilha da Madeira no mês de Maio, quando assim acontecia ficava alojado em casa de um meu irmão que ali reside. No domingo fui surpreendido pela visita Pascal em sua casa. Qual não foi o meu espanto! Os costumes são os mesmos só que ali se dá o nome do Espirito Santo.
Mais tarde, muito mais tarde, em pleno século vinte e um, tomei conhecimento de outra tradição. A Páscoa tinha sido no mês de Abril. Como todos os anos em minha casa abre-se a porta para receber o Compasso e comemorar-se essa tradição. Mas nesse ano, julgo dois mil e oito, desloquei-me à ilha da Madeira no mês de Maio, quando assim acontecia ficava alojado em casa de um meu irmão que ali reside. No domingo fui surpreendido pela visita Pascal em sua casa. Qual não foi o meu espanto! Os costumes são os mesmos só que ali se dá o nome do Espirito Santo.
Antigamente Freamunde era composto por muitos lugares e só uma rua: a do Comércio. Antes uns dias era uma azáfama para o pôr toda engalanado: muros pintados, valetas limpas e arbustos aparados. Via-se os cantoneiros e empregados da Junta de Freguesia, Sr. Manuel da “Joana” e Srª. Raquel, o Sr. Vitorino Ferreira no lugar de Miraldo, este a expensas suas, limpavam os caminhos e valetas.
Eram abertas as portas e janelas das casas de par em par com a finalidade dos seus aposentos serem limpos e receberem a brisa da Primavera para no dia de Páscoa estarem bem arejadas para receber tão ilustre visita: Jesus Cristo. Nas janelas eram colocadas colchas a dar um ar de festividade.
Nós, os garotos daquela época, prontificávamos a irmos arranjar hera e outras verduras. Deslocávamo-nos ao lugar do Coração de Jesus, na freguesia de S. João de Covas, às espadanas, uma flor muito usual, pelo menos nesta região, no uso de tapetes a assinalar a vontade do compasso visitar aquela casa. Eram sacos e mais sacos de espadanas. Alguns eram vendidos para angariar algum dinheiro para comprar amêndoas. Esses tempos eram míseros.
Hoje não faltam guloseimas: amêndoas, umas de açúcar, outras de chocolate. Também nos abeirávamos dos nossos padrinhos para receber o folar. A mim, os pais de meu padrinho ofereciam-me uma rosca de pão das grandes. O meu padrinho era estudante e todo o dinheiro que angariava para ele ainda era pouco. Os vizinhos e alguns familiares ofereciam aos rapazes umas roscas de pão com cornos, às meninas uma pomba de pão que nós chamávamos “pitinhas”.
Era usual naquele tempo, já lá vão mais de cinquenta anos, os Compassos Pascais fazerem a sua recolha ao fim do dia no lugar de S. Francisco em frente à casa do Sr. Luís Teles de Meneses. Juntava-se uma multidão de pessoas. Era uma festa. Era atirado pelas janelas da casa do Sr. Teles e da família Nunes que mora em frente, amêndoas e confeitos para a ganapada apanhar. Era o que mais podia agarrar.
Os participantes dos Compassos davam vivas de missão cumprida. Uns já com vários cálices de vinho do Porto a fazer efeito. O padre antes oito dias, na homilia, bem pedia aos chefes de família das casas visitadas para não fazer tal oferta. Mas quem resiste a não oferecer algo numa visita a sua casa e para mais num dia destes.
Os jovens que lêem este texto julgam que estou a delirar. Mas não. Estou lúcido. O que gosto é de relatar a vivência de antigamente. Creiam que eram tempos difíceis. Parece que estamos a caminhar para lá.
“Páscoa dia de Festa”
Ouço ao longe a campainha
mãe já não tarda o compasso
já ninguém faz farinha
das crianças do terraço.
Cá na nossa freguesia
todos fazem com amor
um tapete que anuncia
a chegada do Senhor.
Depois de tanta agonia
este é o dia da alegria
para os homens que no fundo.
Seguiram sempre a peugada
da palavra anunciada
do Salvador deste mundo.
Autor do poema: Rodela
Autor do poema: Rodela

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