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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Clubismo só encapotado


 por FERREIRA FERNANDES Ontem 27 comentários

"De João Gobern só havia a esperar, mesmo em pleno estúdio de televisão, que ao saber de um golo dramático do Benfica, o saudasse. O que fazia ele no estúdio de televisão? Opinava sobre futebol. Pois foi o que Gobern fez, e bem, de punho no ar. Ao contrário do que pensam os geómetras das linhas de passe e os aritméticos da situação de um para um, o futebol não é nada disso, é um jogo, é paixão. Esses nossos parolos cientistas da bola que falam dela como ninguém usa no mundo do futebol televisivo, exceto por cá, fazem passar a objetividade da opinião em futebol como uma virtude, quando é uma forma capada de o contar. As melhores páginas em língua portuguesa sobre futebol são de Nelson Rodrigues, cegueta incapaz de ver o relvado do meio da bancada do Maracanã, mas que narrava um jogo como ninguém, só iluminado pela cegueira pelo seu Fluminense. Soubessem as televisões o que é o futebol e só tinham gente sincera e talentosa a torcer pelos seus clubes ou, então, quem se derreta seja pela bola colada ao pé esquerdo de Messi, seja pela arrancada de galgo de Cristiano, torcendo pelo mais belo jogo do mundo. Gobern foi despedido por se emocionar com o futebol - quando essa era uma das justificações para ele ter sido escolhido. Entretanto, continuam os trios de amanuenses, cada um posto lá porque a direção de um clube o escalou, e que fingem que são imparciais em qualquer penálti, seja na "nossa" área, seja na "deles"."

Pode parecer declaração de parte interessada, mas não é. E dá-me igual que pensem que é. por PRD, Qui 05/Abr/12

"Entendo o futebol como entendo a música ou o cinema, a literatura ou a culinária: todos temos os nossos gostos, as nossas preferências, e isso não faz de nós piores pessoas. Pelo contrário: faz de nós pessoas - logo, melhores pessoas.

Quem comenta, critica, analisa, estas artes e actividades, não deixa de ter preferências pelo facto de comentar. Lembro-me sempre do meu pai, que muitas vezes me dizia que só valia a pena dizer mal do restaurante que nos desilude por ter obrigação de ser bom, não daquele que sempre foi mau. Ou seja, merece bola preta aquele de quem esperamos cinco estrelas e não nos convenceu.
Neste quadro, não consigo perceber a polémica que envolveu o meu amigo, “sócio” e compadre João Gobern – e o consequente afastamento do programa Zona Mista, na RTP-I. O facto de ser benfiquista nunca fez dele, um comentador menos rigoroso (até já ouvi acusações de que era excessivamente exigente para com o Benfica...), e não conheço um só amante de futebol que não vibre com as vitórias do seu clube. É o mínimo. É o âmago da coisa.
Entender o futebol como ciência e tratá-lo como assunto político – em que cada clube é um partido – é absurdo, estapafúrdio, e paradoxal com o próprio futebol, na essência uma actividade lúdica e que naturalmente legitima paixões. Não perceber isto é levar a vida demasiado a sério – “não bom”, como gosto de dizer...
Como se não bastasse, o caso serviu para alimentar a gritaria sobre o serviço público de televisão. Já percebi que agora é mesmo assim: qualquer coisinha que ocorre nos canais estatais de comunicação e aqui-del-rei que é o serviço publico e o povo a pagar e o catatau. Fica escrito: os mesmos que agora reclamam ainda vão ter muitas saudades do tempo em que havia dois canais de serviço publico de televisão. Como vão ter saudades da inteligência, do saber e do falar português (tão cada vez mais raro...) que o João levou à Zona Mista."
Ao ler estas duas crónicas só posso estar de acordo com os seus autores. Se aos comentadores fosse exigido fazer uma declaração de interesses, na certeza porém, que os consumidores destes programas não estranhavam tal atitude vindo de João Gobern, Bruno Prata ou de quem quer que seja. 
Se nestes programas não se pode manifestar com qualquer gesto, uma alegria, mais vale amarrar-lhes os braços, não mostrar a cara, sempre de cabeça para baixo para não se ver os gestos faciais, - tipo Victor Gaspar a ouvir as intervenções de João Galamba nas Comissões de Inquérito – para assim mostrar a sua imparcialidade. Não percebo qual a finalidade do programa, Zona Mista, ter como comentadores um simpatizante do Benfica e outro do Porto se estes não se podem manifestar. Ponham lá outros de clubes inferiores. 
Se em lugar de um gesto de alegria fosse de desagrado por a sua equipa ter sofrido um golo talvez não houvesse o mesmo procedimento. 
A não ser que a direcção da RTP compare este gesto ao de Manuel Pinho na Assembleia da República. O de Manuel Pinho foi de repúdio - insulto. O de João Gobern de paixão. Para que casos como o de João Gobern não aconteçam ponham lá robôs. 

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