Rádio Freamunde

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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Onde estavas no 25 de Abril de 1974?:

Nesse dia, como em tantos outros da semana, fui trabalhar por que era o modo de auferir um vencimento, para fazer face à vida, o que naquela época era bastante difícil. Tinha regressado um ano antes de Angola de cumprir o serviço militar.
Era uma quinta-feira. Estava no meu posto de trabalho, pela volta das dez horas, o “Bertinho” Barros, sócio da firma Albino de Matos Pereira & Barros, foi dar uma ordem sobre o trabalho que se estava a realizar na secção de estofos e colchoaria, disse que algo se estava a passar em Lisboa que as rádios, existentes nessa época, só transmitiam música de câmara. Ficamos apreensivos.
Ao meio dia quando fui almoçar inteirei-me do sucedido: foi um golpe de estado. Na parte da tarde começaram a surgir notícias de que tinha sido um grupo de oficiais dos três ramos das forças armadas, denominado pelo Movimento das Forças Armadas.
Depois do horário laboral, quando cheguei a casa, fui para a frente da televisão e com o rádio ligado para não perder pitada das notícias. Aí, as notícias começaram a surgir com mais veracidade. Foi um golpe de estado em complemento com o malogrado dezasseis de Março e que este estava a surtir o efeito desejado. Não se podia prever o desenlace. Mas tudo levava a crer que seria o Movimento das Forças Armadas a tomar o destino do País. 
    
Com o passar das horas tudo ficou mais claro. Marcelo Caetano rendeu-se e com ele todo o poder. A PIDE/DGS ainda fez frente, com tiros esporádicos da sua sede, na rua António Maria Cardoso, causando a morte de quatro pessoas e ferindo uns quantos outros. O Movimento das Forças Armadas nomeou a Junta de Salvação Nacional para gerir o destino de Portugal até às eleições livres e democráticas. 
No sábado, dia de descanso, já se praticava a semana-americana, de tarde fui até ao Porto, minha capital de distrito, à procura de acontecimentos. Quando estas coisas acontecem nas principais cidades dá-se lugar a manifestações quer dos prós ou dos contras. Dos contras havia poucos ou quase nada, a não ser algumas vozes mas em baixo tom, a desconfiar do sucedido.
Começaram a ser soltos os presos políticos e a vinda do estrangeiro de alguns políticos que ali estavam exilados, caso de Álvaro Cunhal e Mário Soares. Também começou-se a saber quais os militares e suas unidades que foram as obreiras do golpe de estado.
Não foi com surpresa que vi a minha antiga unidade, Batalhão de Caçadores 5, tirei ali a especialidade, a ser uma das obreiras e o seu Comandante, Major, Cardoso Fontão, numa acção de mobilização para com os seus oficiais. Esta unidade ficou-me sempre na memória e o seu comandante, Segismundo Gonçalves de Conceição Revés. Passei por algumas unidades militares e não fixei o nome deles, ao contrário deste, que metia respeito, derivado à sua rigidez. Passados dias deu-se o primeiro de Maio e a partir daí começou-se a democratizar o País.   

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