sexta-feira, 16 de março de 2012

16 de Março de 1973:


O dia nasceu calmo. Apesar dos acontecimentos do dia catorze, morte de soldados e captura pelo inimigo, do soldado condutor auto rodas Manuel Damas, da C. Caç. 3340, na emboscada sofrida nas Sete Curvas. Tínhamos de dar continuidade ao dia a dia.
Dezasseis de Março: era o dia esperado por nós, soldados, sargentos e oficiais. Metade da C. Caç. era rendida nesse dia de Balacende para Luanda, Grafanil - Campo Militar - local onde existiam vários quarteis de tropa. Uns aguardando a ida para a mata. Outros para regressar à Metrópole: era o nosso caso. A outra metade era passados oito dias que se juntavam a nós. Assim aconteceu quando fomos para Balacende. Os primeiros a partir foram os primeiros a regressar. 
Com a C. Caç. 2600, ver aqui, aqui e aqui, que rendemos não foi assim que aconteceu. Foram para a Fazenda Tentativa. Até nisso não tivemos sorte. Fomos de Lisboa para Luanda, Grafanil. Do Grafanil para Balacende e de Balacende para o Grafanil e daqui novamente para Lisboa. Só  que neste intervalo passaram-se quase vinte e três meses. É muito tempo num lugar isolado. Quem como eu que cumpriu o serviço militar em Balacende sabe o quanto custa.
A  C. Caç 3341 permaneceu ali desde quatro de Maio de mil novecentos e setenta e um a dezasseis de Março de mil novecentos e setenta e três. Estávamos saturados de viver isolado e das contrariedades da guerrilha. 
Se não fosse a ida de vez em quando à vila do Caxito, hoje cidade e capital do distrito do Bengo, vivíamos esses meses isolados. Sem ver vivalma civil, a não ser umas, que capturamos ao inimigo e outras que se entregaram. 
De qualquer maneira a viagem para Luanda até ao Caxito foi feita com receio. Tínhamos de passar pelo lugar da emboscada do dia catorze. As viaturas que nos transportaram eram camionetas de carga conduzidas por civis – já na ida para Balacende foi o mesmo meio de transporte - o que nos causava alguma impressão. Estávamos mais afeiçoados aos unimogues. Em caso de ataque era mais fácil saltar abaixo dele, para mais, as camionetas estavam apetrechadas com os taipais o que nos dificultava a saída em caso de necessidade.
Chegados ao Caxito as preocupações desapareceram. Dali para a frente estávamos em zona operacional a 50%. Podíamos andar desarmados. Foi o que fizemos. Se até ali a nossa amiga inseparável – G3 - vinha em riste a partir dali foi posta debaixo do banco, mas com carinho, por que foram muitos meses a tê-la sempre ao pé de nós. A afeição a ela era enorme! Como a uma irmã.
A viagem decorria. Sim agora podíamos chamar de viagem, embora a comodidade fosse pouca. Deixávamos para trás  o Caxito, Tentativa, Cacuaco e chegávamos à entrada de Luanda. Aqui já podiamos observar os seus bairros típicos: Marçal, Operário, S. Paulo, Popular, Prenda e outros mais. 
Campo Militar do Grafanil

O meu pensamento estava virado para o Grafanil. Recordava os dias ali vividos aquando da nossa chegada. Não foram muitos por que tive a sorte de ir viver para casa do Abílio Rangel em Vila Alice. Esta noite tinha de dormir nas camaratas do Grafanil. Lembrava-me das tarimbas e dos percevejos.  
Casernas do Grafanil

Ao outro dia ia estar com o Abílio Rangel. Morava agora no bairro Popular. Assim fiz e fui recebido como um filho. A sua esposa que não me conhecia de lado nenhum foi como uma mãe para mim. Morreu há uns anos. Pessoas como ela só têm um lugar para habitar na vida eterna: o Céu.

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