Excelência:
Nunca tive o privilégio de vê-lo em estrutura física, na terra ou noutro sítio, excepto no mundo virtual (em sentido lato). E até um passado recente, padeci da desvantagem de ignorar que V. Exª até tinha existência própria. Deste lapso apresento as minhas desculpas; mas não vejo televisão, onde segundo me confidenciaram, V. Ex.ª tem o seu tempo de vã glória.
Excelência, apesar de saber que não vai ler esta missiva escrevinho-a na mesma, pois não ficaria de bem comigo próprio se o não fizesse. Quero dizer Ab initio (soa bem) que contrariamente a muitos portugueses, não tenho a mínima suspeita acerca do comportamento político de V. Ex.ª. Igualmente desejo afirmar que nunca votei em V. Ex.ª nem no seu antecessor.
Também declaro solenemente que não devo nenhum favor aos Partidos do Governo ou a outro qualquer. Não, não é impossível. Pode parecer, mas não é.
Assevero de igual modo que pago escrupulosamente os meus impostos e que não possuo nenhuma empresa; nunca recebi nenhum subsídio e até à presente data nunca fui suspeito, arguido ou seja lá o que for; pelo menos que eu saiba.
Não sei se alguma vez fui escutado, mas sei de certeza que nunca fui ouvido. Efectuadas estas declarações de interesse passemos a algumas minudências.
Alguns portugueses e alguma imprensa afirmam que V. Ex.ª não tem sensibilidade social e é neo-liberal; outros, mais benévolos afirmam que é um servidor obediente da Senhora Ângela Merkel. Excelência, a Europa tal como ela foi sonhada está esclerosada e defunta! Logo, ser partidário de cadáveres é simplesmente inútil, mas tem certa beleza. Não fora o legado deles e tudo se resumiria a pura farsa. Os factos são factos. O facto não se enfeita de roupagens: anda nu em plena rua.
Enganados uma vez, sempre enganados. Não conseguem enxergar o óbvio! Vª Ex.ª é assim; sem adjectivos. É apenas uma forma de estar, porque não sabe estar de outra forma. Mas nem eu sou psicanalista, nem V. Ex.ª está no divã.
A imprensa tem-se esforçado por ver “um seguidismo germanófilo” no comportamento cumpridor das ordens de Merkel e da Troika que V. Ex.ª demonstra. Mais um erro. Quando se possui um comportamento assim caracterizado, está tudo dito.
Para quê tentar “estudar comportamentos ”? - Razão tem o Senhor Ministro Relvas e todo o staff que o cerca e apoia. Os humildes cidadãos que deles discordam, quase que sou levado a afirmar que não possuem “empregos dependentes do Governo”, ou então são da Oposição e alguns deles gostavam de mudar; por isso querem dar nas vistas.
Relativamente às suas “mudanças” de posição no que aos impostos diz respeito, também as pessoas não têm razão. Gosto de ver o seu autoritarismo (entenda-se perseverança), em empobrecer os portugueses. Mas esquecem-se que é só para os que assim o desejam! Toda a populaça se esquece que V. Exª nos aconselha a emigrar! Maldizentes e mal agradecidos é aquilo que são os portugueses.
Até o Dr. Portas V. Ex.ª conseguiu ludibriar, com o seu comportamento. Logo a ele, que estava à espera de ser o primeiro a fazer uma razia em tudo que cheira a apoio social!
Igualmente errados no que tange ao “corte temporário” do décimo terceiro e quarto mês. Pretendiam que o Primeiro-Ministro dissesse antes das eleições que ia haver esse “corte”! (Conheço portugueses que lhe chamam roubo, mas esses são os eternos más línguas). Esta não passa pela cabeça de ninguém. Pois se V. Ex.ª estava convencido que ia ser Primeiro-Ministro, para quê dizer antes de o ser!? Mais uma vez os embarrilou bem.
Não é por mim que falo Excelência. Presumo que foi Santo Agostinho que declarou que a virtude exige um mínimo de conforto. Não sou virtuoso, porque apesar de muito ter trabalhado, nunca alcancei senão meio conforto, pelo que não me tocará mais do que meia virtude.
No que à saúde diz respeito, apenas uma breve nota: - V. Ex.ª mandou aumentar as taxas moderadoras. Qual é a dúvida? Está de acordo com o seu comportamento. Creio até, que se não fosse as Juntas de Freguesia irem diminuir de número, seria necessário o “famigerado atestado de pobreza” usado no tempo do Botas para ter assistências nos hospitais para os pobrezinhos (leia-se os cidadãos de menores rendimentos). Talvez aqui V. Ex.ª tenha pecado por não ir até este ponto. Mas todos cometemos erros, inclusivé V. Exª. Achando-se num cemitério proferiu Calino: - É para aqui que todos vimos se Deus nos der vida e saúde. Obviamente que é uma frase mal construída gramaticalmente, mas não deixa de ter razão. Como tal, eu acrescento; se Deus nos der vida, saúde e com as suas taxas moderadoras.
Excelência, perdoe-me alguma frase que possa padecer de uma certa ironia; mas a ironia é na linguagem uma espécie de respiração que inova e alenta o fôlego. Não cure V. Exª que é qualquer intenção de escarnecer das políticas delineadas pela Troika e por V. Exª executadas ao milímetro, e até as ultrapassando. Claro que eu sei que agora vou ficar pobre, mas que em 2014 vou ser rico e virtuoso acreditando em Santo Agostinho.
Afigura-se-me que esta humilde missiva já vai longa. A terminar, apenas uma rápida explicação no que concerne ao “futuro favorecimento” de alguma imprensa em detrimento de outra, com a privatização da RTP. Todos sabemos (mas nem todos o admitimos), que o regime sempre teve imprensa a “favor” e imprensa “contra”. Vá-se lá saber porquê!
Atentamente
Um português agora muito mais pobre e menos virtuoso, mas que nos anos precedentes vai ficar paupérrimo e cada vez menos virtuoso, segundo Santo Agostinho.
Álvaro Lins
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