Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Matai-vos uns aos outros…:

Sabíamos do poder destruidor das epidemias e da facilidade com que se convertem em pandemias, o que não conhecíamos era a facilidade e velocidade com que o belicismo se expandiu e legitimou em cada país e em todos os continentes.

Enquanto o flagelo ganhou adeptos e arrastou multidões, tornaram-se timoratos os que ainda pensavam em resistir, demonizados pela onda de propaganda que acompanhou as justificações.
É de pasmar, ver cidadão pacíficos empolgados com a necessidade de nos defendermos, sem saberem de quem, e o ar bovino com que ouvem as vuvuzelas da guerra a falar das maravilhas de artefactos militares capazes de dispararem os mísseis mais modernos e de atingirem com eficácia inimigos que facilmente podem passar a amigos ou vice-versa.
Nunca, na minha longa vida, tinha assistido a tanta insensibilidade com a morte dos que caem de um dos lados e ao regozijo pelos que são abatidos no lado contrário com heróis e vilões à escolha de cada um e em cada momento, numa orgia de sangue que percorre o Planeta e ameaça fazer de nós a sua última geração.
Num dia em que o acordo sobre o nuclear entre os EUA e Irão, entre o líder ensandecido do país militarmente mais poderoso do mundo e o príncipe-herdeiro de uma monarquia que pratica a sharia e onde se preserva a lei de um defunto profeta analfabeto e amoral, qualquer pessoa sensata vê que a corrida ao armamento nuclear, que nenhum país devia possuir, vai provocar uma corrida generalizada a favor da morte.
Será que todos estamos dispostos a trocar benefícios da civilização e da democracia por uma ideia de segurança e pela capacidade de nos matarmos melhor e mais depressa uns aos outros, abdicando da saúde, da segurança social e da paz?
Somos cada vez menos os que passámos por uma guerra, mil vezes menos letal, onde vimos a perversidade que os conflitos armados desenvolvem e a amoralidade de que são capazes primatas com armas na mão.
Quem nunca viu o cadáver de um camarada amigo dentro de uma farda e lhe pegou para ver os olhos a vidrar de uma vida que se extinguiu aos vinte e poucos anos ao serviço da pátria, em pátria alheia, ou os despojos de um amigo que uma bazuca reduziu a pedaços recolhidos com terra e um dedo solitário onde luzia uma aliança, talvez sinta no sofá a febre da guerra e a vontade de aventuras de racionalidade duvidosa e desfecho incerto.
Já não somos pessoas, somos autómatos insensíveis e amorais, guiados ao extermínio por algoritmos.
Mas, se é isso que querem, matem-se uns aos outros sem aprenderem que esta é a vida, única e irrepetível, cujo privilégio nos coube.
Matai-vos uns aos outros…

Sem comentários:

Enviar um comentário