Rádio Freamunde

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segunda-feira, 11 de março de 2013

Quero que o povo se lixe!

Era uma vez um banqueiro
a Dona Isabel ligado.
Vive do nosso dinheiro,
mas nunca está saciado.

Vai daí, foi a Belém
E pediu ao presidente
que à sua Isabel também
desse um job consistente.

E o bom do senhor Cavaco
admitiu a senhora,
arranjando-lhe um buraco
e o cargo de consultora.

O banqueiro é o Fernando,
conhecido por Ulrich,
e que diz, de vez em quando,
«Quero que o povo se lixe!».

E o povo aguenta a fome?
«Ai aguenta, aguenta!».
E o que o povo não come
enriquece-lhe a ementa.

E ela, Dona Isabel,
com Cavaco por amigo.
não sabe da vida o fel
nem o que é ser sem-abrigo.

Cunhas, tachos, amanhanços,
regabofe à descarada.
É fartar, que nós, os tansos,
somos malta bem mandada.

Mas cuidado, andam no ar
murmúrios de madrugada.
E quando o povo acordar
um banqueiro não é nada.

É só um monte de sebo,
bolorento gabiru.
Fora do banco é um gebo,
um rei que passeia nu.

Cavaco, Fernando Ulrich,
Bancos, Troikas, Capital.
Mas que aliança tão fixe
a destruir Portugal!

Autor: desconhecido

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Balada de neve:

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
. Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…
E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil

sábado, 3 de novembro de 2012

Gatunagem:


Dizia um certo ancião
Num café da minha aldeia
                             Tem cuidado com o ladrão                              
Não te metas nessa teia

Ao bolso me querem ir
Uns malandros bem vestidos
Botam leis estão-se a rir
Ao ver-nos todos despidos

Ai Jesus vem-me salvar
Os ladrões andam à solta
Os subsídios vão levar
Crescendo em mim a revolta

Vou buscar a minha arma
A eles vou atirar
Metralho mais meia hora
Para eles eu barrar

À Polícia fui narrar
Esta história comovente
Disseram-me então a chorar
És roubado como a gente

Ai Camões nós já perdemos
Tua força de conquista
Eles roubam – nós gememos
Já te perdemos de vista

Ai Camões falta-me o engenho
Da ditosa Pátria tua
Já não sou mais marinheiro
Tua gente vive nua.

Autor: Franco5612

domingo, 15 de abril de 2012

Nada está escrito:
"Balada dos Aflitos"

Irmãos humanos tão desamparados
a luz que nos guiava já não guia
somos pessoas - dizeis - e não mercados
este por certo não é tempo de poesia
gostaria de vos dar outros recados
com pão e vinho e menos mais valia.

Irmãos meus que passais um mau bocado
e não tendes sequer a fantasia
de sonhar outro tempo e outro lado
como António digo adeus a Alexandria
desconcerto do mundo tão mudado
tão diferente daquilo que se queria.

Talvez Deus esteja a ser crucificado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
rogai por nós Senhora da Agonia
irmãos meus a quem tudo é recusado
talvez o poema traga um novo dia.

Rogai por nós Senhora dos Aflitos
em cada dia em terra naufragados
mão invisível nos tem aqui proscritos
em nós mesmos perdidos e cercados
venham por nós os versos nunca escritos
irmãos humanos que não sois mercados.

Manuel Alegre

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Livro de Poemas do Rodela:

Introdução:
Aproveitei estes versos do livro que o Rodela anda a escrever e com autorização dele para os publicar aqui no meu blogue. São vários, por isso seleccionei alguns. Também aproveito para publicar o prefácio que serve como uma luva ao autor dos versos. O Rodela merece que seja publicado para memória futura dos Freamundenses. 



Prefácio

Foi com gosto e assaz prazer que aceitei o desafio para escrever o prefácio do livro a sina dum revoltado, do poeta Rodela. E considero um desafio porque, depois de vários livros editados e prefaciados por pessoas que privam de perto com o autor e que o conhecem de outras andanças, será difícil ser original e não cair na repetição. Assim sendo, escreverei através dos seus versos convicta de que, desta forma, traçarei um retracto perfeito deste homem por muitos conhecido e que para mim é o Toninho da Sra. Esmeraldina, pois foi assim que o conheci e é assim que continuará a ser.
Segundo os cânones literários o autor encaixa-se na categoria de poeta popular, e é como o próprio se define: “sou um poeta do povo, \ escrevo só o que gosto” (Escola da Vida, 1988, p.10). Será esta característica fulcral que faz dele um poeta peculiar e que confere à sua escrita originalidade e a individualidade do eu encanto escritor / poeta e que o coloca ao serviço da criação artística.
O Toninho que eu conheço é um homem singelo mas de ideias inabaláveis «quem me dera mostrar, em cada quadra, /O sangue derramado que contém / O ideal por quem quero combater!” (Labaredas, 1992, p.34, é um Homem que não esquece os seus sonhos que transforma em poesia “A poesia é o sol da minha vida / que me alimenta a alma dia a dia.” (A sina Dum Revoltado, 2010). É pelo sonho e em sonho que ele caminha “Dediquei sempre aos meus sonhos /os momentos mais risonhos, / que esta vida me ofertou, /e nunca me arrependi…” (O solar dos oprimidos.2007, p 63). O Toninho é um lutador, por isso é frequente os seus poemas versarem temas de caris social em que o autor nos mostra a sua visão do mundo e a sua posição face ás desigualdades e á injustiça “Um bocadinho de pão /Dado ao pobre em pequenino, /Poderá ser a razão /de ser pobre o seu destino.” Labaredas 1992, p.20), “Quanta camisa lavada /encobre a fome malvada / dum bocadinho de pão.”O solar dos oprimidos, 2007, p.64). “na hora de repartir,/Tanta gente a dividir /o suor do camponês.”Escola da Vida, 1988, p.40) É, também, através das suas palavras que o autor mostra a sua pertença a uma poesia popular de que muito se orgulha e de que se alimenta”A fome espiritual /é fruto duma paixão /que mesmo sendo infernal / não se mata só com pão,”Nacos de vida, 1977, p.28), assim, a sua poesia é a liberdade da palavra transformada em poema, é um desfiar de pequenas grandes coisas que despertam no leitor o desejo insaciável de prosseguir a leitura e de senti-lo presente”Hei-de estar sempre presente / Nos versos do meu conforto /Ao lado da minha gente \ quer esteja vivo ou morto.” (A sina dum revoltado, 2010)
A sina dum revoltado é, uma vez mais, o desabafo de um Homem que não se resigna e se mantém fiel aos seus princípios e valores e que não se sente intimidado pelos valores dos outros. Permito-me terminar este prefácio com a citação de uma estrofe do poeta Miguel Torga que, apesar de não ser um poeta popular, se tornou popular entre os portugueses e que me ajuda a definir o nosso poeta:

 E apesar de tudo, sou ainda o Homem,
Um bípede com fala e sentimentos!
Ao cabo de misérias e tormentos,
Continua
A ser a minha imagem que flutua
Na podridão dos charcos luarentos!
(in O cântico do Homem, inventário)

Um bem-haja ao Toninho e que continue, pois “Os poemas não morrem, são Nacos de alma.”
                                                                         Carminho

"A sina dum revoltado"

A sina dum revoltado
Não é mais que a minha sina,
Por sempre ter renegado
Aceitar uma doutrina.

Eu também tive uma mãe
E que bem que me educou.
Até fez de mãe e pai,
Mas o fruto não vingou.

Pelas suas próprias mãos
Ninguém se faz, meus irmãos,
E eu nasci p’ra ser assim:

Acompanhado ou sozinho,
Deixem-me ir p’lo meu caminho,
Não tenham pena de mim!


"As sombras do nada"

Gostava de cavar a sepultura
onde eu hei-de viver eternamente!
Desinfectá-la bem com aguardente,
que é o perfume da minha criatura

Mas não tenho dinheiro, nem vontade,
p’ra comprar e matar os meus desejos!
Ela só é de borla p’ros despejos
não contaminarem a caridade.

Só lá serei burguês, como os burgueses,
quer sejam Espanhóis ou Portugueses,
Nada me vai faltar, nada preciso.

Nem de missas tão pouco! Nada! Nada!...
Vai-se entreter comigo a bicharada,
De mim não vai sobrar nem o juízo.


"Minha vida de versos"

A poesia é o sol da minha vida,
que me alimenta a alma dia a dia.
Traz-me a paz e os momentos de alegria
nas horas mais difíceis desta lida.

Cada verso que eu faça é uma luz
que vem iluminar o meu caminho,
que não passa dum espaço dum cantinho
onde eu vou carregando a minha cruz!

Dou tudo quanto tenho de melhor
p’ra matar a paixão da minha dor,
nem que p’ra isso tenha que puxar

as  orelhas às musas desta fonte,
p’ra que, depois de mim alguém vos conte
os versos que eu ao mundo vim cantar!


"À roda desta fogueira"

Nunca ninguém vai julgar
meus versos à revelia,
enquanto o mundo pagar
os luxos à burguesia.

Hei-de estar sempre presente,
nos versos do meu conforto,
ao lado da minha gente,
quer esteja vivo ou morto.

E deixem os cães ganir
que vão deixar de se ouvir
no dia em que o povo queira.

Depois vai ser uma festa
vê-los andar ao que resta
à roda desta fogueira.


"Este dom que Deus me deu"

Fundiu-se no meu pedaço
este dom que Deus me deu,
mas cada verso que eu faço
tem sempre um pouco de meu.

É nos braços da loucura
que vivo a cada momento
e os versos são a doçura
que me atenua o tormento.

Quem nasce versejador
não passa dum  sofredor
como o Deus crucificado.

Versejador que se veja
só na cantiga da igreja,
não passa dum pau mandado.


"A força do vinho"

As minhas musas são as canequinhas,
sejam de branco ou tinto, pouco importa,
embora o branco fique sempre à porta,
desde que do tinto haja umas pinguinhas.

Se deixo de beber, ando doente!
E, às vezes, as saudades já são tantas,
que eu , só , bebo por mil e uma gargantas
e aí eu já não sou tão exigente.

Com vinho, saro as mágoas da amargura!
Com vinho, vejo o sol na noite escura!
E, com vinho, dou asas à caneta!

Sem vinho, sou um ser mais que apagado
sem vinho ,sou um pobre complexado!
Sem vinho, se sou não seria poeta!...


"Sermões do Aleixo"

Aleixo, poeta de Deus,
meu irmão e do demónio,
valem mais dois versos teus
que o mundo e o seu património.

Quem contigo canta, amigo,
já mais deixa de cantar!
Traz-te no peito consigo
enquanto a vida durar.

Inspirado nos teus versos
é que vou cavando os terços
para as minhas orações.

E quando tenho vagar,
passo os dias a pregar
os teus bonitos sermões.


"Caminhos da liberdade"

Sou de Maio, sou de Abril,
sou do povo e sou Manel,
bebo por este cantil
e só a ele sou fiel.

Corro atrás deste ideal
como o Adão p’ro paraíso.
Só que ele portou-se mal,
mas eu tenho mais juízo.

Deixem passar quem deseja
não os empurrem p’ra igreja
só porque querem passar.

Se não sujeitam-se, um dia,
a ter a igreja vazia
e Abril com medo de entrar.


"P’lo concelho de Freamunde"

Lutem por este concelho!...
Nem sequer por brincadeira
se vejam mais ao espelho
do de Paços de Ferreira.

E p’ra quem cá do torrão,
deseje lá pertencer,
acho bem!...Mate a Paião,
mas que vá p’ra lá viver.

São horas da gente dar
As mãos e virmos lutar
Por muito que vá doer!

Aos «Vasculhos» cá da terra:
é p’lo concelho esta guerra
e vamos ter que a vencer.


"Deixem o Rodela em paz"

Deixem o Rodela em paz
neste canto de ninguém,
porque ele não é capaz
de prejudicar alguém.

Tudo o que ele quer, na terra,
é que todos tenham pão
e se  ponha fim à guerra
entre o sério e o ladrão.

Por causa destas figuras,
é que o mundo, criaturas,
continua a ter patrões.

E todos sabemos bem
que ele não é de ninguém,
mas vai sendo dos ladrões.