Rádio Freamunde

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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Vamos ver se a censura do sec.XXI também vai cenrurar este...:

A CERIMÓNIA:

 

Há imagens que dizem mais do que muitos discursos. E, por vezes, aquilo que uma cerimónia não mostra é politicamente mais revelador do que aquilo que pretende mostrar.

Foi isso que me aconteceu ao observar as imagens das comemorações do "Dia da Independência" da Ucrânia, em Kyiv. Esperava ver uma capital mobilizada, uma cidade de mais de dois milhões de habitantes a sair à rua para celebrar a independência do seu país, a envolver o Presidente, as autoridades e os representantes estrangeiros numa manifestação popular de orgulho nacional.
Não foi isso que vi. Vi uma cerimónia oficial, protegida por militares e forças de segurança, com Zelensky, autoridades ucranianas e representantes de alguns dos seus principais aliados ocidentais. Vi a formalidade, os discursos, as bandeiras, os uniformes e o protocolo.
Mas vi muito pouco povo. E essa ausência, numa ocasião que deveria ser a expressão máxima da identidade nacional, é uma imagem que não pode ser simplesmente ignorada.
Kyiv não é uma cidade deserta. Os seus habitantes continuam a frequentar festas, concertos, manifestações e acontecimentos públicos. A população ucraniana demonstrou, mesmo durante a guerra, que não desapareceu das ruas quando quer expressar uma opinião ou participar num acontecimento que considera importante.
Por isso, a explicação automática de que “as pessoas ficaram em casa por medo dos ataques russos” é insuficiente. Se o medo fosse a razão determinante para a ausência de civis, seria necessário explicar por que razão os mesmos cidadãos aparecem noutras concentrações públicas, manifestações e acontecimentos culturais realizados sob a mesma ameaça.
A questão torna-se ainda mais desconcertante quando pensamos no significado da data. O "Dia da Independência" não é uma comemoração qualquer. É a celebração da própria existência do Estado ucraniano enquanto nação independente. Seria, portanto, o momento ideal para o poder político mostrar ao mundo uma sociedade unida em torno da sua liderança e da sua independência.
Mas aquilo que as imagens mostram é outra coisa. Mostram sobretudo Estado, militares e aliados estrangeiros.
O povo não aparece. E são para cima de dois milhões! E quando o povo não aparece numa cerimónia destinada precisamente a celebrar aquilo que lhe pertence - a independência da sua própria pátria - a imagem torna-se inevitavelmente estranha.
Não posso afirmar que todos os ucranianos rejeitem Zelensky. Seria uma conclusão que as imagens, por si só, não permitem retirar. Mas também não aceito que uma cerimónia destas possa ser apresentada como uma demonstração inequívoca de apoio popular a Zelensky.
Porque uma coisa é o apoio institucional e diplomático que chega de Washington, Bruxelas, Londres ou de outras capitais europeias. Outra coisa é o apoio que vem das ruas de Kyiv. E foi precisamente esse apoio das ruas que não apareceu.
É essa a diferença fundamental. A cerimónia pareceu, assim, menos uma manifestação popular de força nacional e mais uma demonstração de força institucional protegida militarmente e respaldada diplomaticamente.
Zelensky não estava sozinho. Mas estava rodeado sobretudo por aqueles que representam o Estado, as Forças Armadas e os aliados internacionais. Faltava aquilo que, numa celebração da independência, deveria ser a personagem principal: o cidadão comum.
E essa ausência pode ter várias explicações. Mas não pode resultar de uma decisão de segurança. Na minha apreciação resulta de uma organização deliberadamente restrita para evitar a contestação popular, face ás últimas manifestações que se registaram em Kiev. Resulta, claramente, de um crescente afastamento político da população do governo de Zelensky..
Não estamos lá, mas vemos o que as câmaras registam. E as câmaras mostraram uma coisa impossível de esconder: não houve qualquer manifestação popular em torno da cerimónia oficial.
A cidade não está politicamente morta. Naquele momento, naquele lugar e naquela cerimónia, o poder não conseguiu mostrar a rua. E uma pergunta fica suspensa: Se a independência é uma causa tão profundamente sentida por milhões de ucranianos, se o Governo representa efetivamente a vontade nacional e se Zelensky continua a gozar de um apoio popular tão expressivo como frequentemente nos é transmitido, por que razão a imagem da celebração oficial foi tão pobre em povo e tão rica em poder?
Talvez porque a "independência" se tivesse tornado uma "dependência", para uma parte significativa dos ucranianos, e tenha hoje um significado diferente daquele que o poder político pretende atribuir-lhe. Talvez porque, depois de tantos anos de guerra, morte, deslocações, dificuldades económicas e incerteza, a palavra “independência” já não produza a mesma emoção coletiva. Ou talvez porque entre a Ucrânia oficial e a Ucrânia real exista hoje uma distância que as cerimónias protocolares não conseguem preencher.
É essa distância que me interessa. Porque uma bandeira pode ser erguida por um Presidente. Uma salva militar pode ser disparada por soldados. Um dirigente estrangeiro pode chegar a Kyiv para manifestar solidariedade. Mas uma nação não se demonstra apenas através dos seus governantes, dos seus militares ou dos seus aliados externos.
Demonstra-se através do seu povo.
E a cerimónia de hoje deixou uma pergunta no ar que nenhum discurso oficial conseguiu responder: onde estava o povo de Kyiv?

Ventos Semeados: O Ascensor Avariado

Ventos Semeados: O Ascensor Avariado:   Há metáforas que envelhecem mal porque a realidade desmente o seu otimismo, e a do "ascensor social" é uma delas. As candidatu...

Sobre a confusão entre as contas da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações:

(Ricardo Paes Mamede, in Facebook, 23/08/2026)

Paes Mamede

O recente relatório sobre a Segurança Social explora uma confusão, muito pouco inocente, que é muito fácil de fazer neste debate: pensar que, como a Segurança Social e a Caixa Geral de Aposentações (CGA) pertencem ambas ao Estado, podemos juntar as duas contas e tirar daí conclusões sobre a sustentabilidade da Segurança Social. Mas isso mistura problemas muito diferentes.

A CGA – o regime público de pensões dos funcionários públicos que esteve aberto a novas adesões até 2006 – funciona de forma diferente da Segurança Social. Os seus beneficiários descontam para a CGA e as entidades empregadoras públicas também contribuem, mas uma parte muito importante do custo das pensões continua a ser coberta pelo Orçamento do Estado. Ou seja, quando essas receitas não chegam para pagar as pensões, o Estado cobre a diferença através das receitas gerais, nomeadamente dos impostos. A CGA é, por isso, em larga medida, uma responsabilidade financeira do Estado, enquanto a Segurança Social assenta num sistema contributivo com contas, receitas e responsabilidades próprias.

Há uma razão importante para a Segurança Social ter contas específicas e regras próprias de gestão, separadas das contas gerais do Estado. Não se trata apenas de tornar as contas mais transparentes. Trata-se também de proteger um sistema que assume compromissos durante décadas contra as eventuais opções financeiras do Governo que estiver em funções num determinado momento.

As contribuições dos trabalhadores e das empresas destinam-se a financiar a Segurança Social e não devem poder ser tratadas simplesmente como mais uma receita do Estado, disponível para pagar qualquer despesa. Por isso existem contas próprias, regras específicas para a gestão dos seus recursos e uma participação dos parceiros sociais – representantes dos trabalhadores e dos empregadores – no acompanhamento do sistema. A ideia é tornar mais difícil que um Governo resolva um problema orçamental de hoje utilizando recursos destinados a pagar as pensões de amanhã.

O caso que ocorreu com a CGA em 2004 ajuda muito a perceber por que razão esta separação é importante.

A Caixa Geral de Depósitos tinha um fundo com dinheiro reservado para pagar pensões dos seus trabalhadores. Em 2004, sob o governo de Durão Barroso, o Estado recebeu cerca de 2,4 mil milhões de euros desse fundo e, em troca, a CGA assumiu a responsabilidade de pagar essas pensões no futuro.

Esse dinheiro não foi colocado num fundo para pagar essas pensões, nem foi utilizado para reforçar a Segurança Social. Entrou nas contas públicas e foi usado para reduzir o défice do Orçamento do Estado, como uma receita extraordinária.

Ou seja, o Estado recebeu dinheiro naquele momento e utilizou-o para resolver um problema das suas contas, mas ficou com a obrigação de pagar aquelas pensões durante muitos anos. Quando chega a altura de pagar essas pensões, é suposto esse dinheiro vir do Orçamento do Estado e não da Segurança Social.

Alguém pode dizer: “Mas, no fim de contas, são sempre os contribuintes que pagam, logo que diferença faz?” Faz toda a diferença para percebermos qual é o problema e qual deve ser a solução.

Imagine-se que há vinte anos o Estado tinha pedido dinheiro emprestado para fazer uma auto-estrada e hoje tinha de pagar essa dívida. Naturalmente, os contribuintes teriam de suportar esse encargo. Mas ninguém diria: “Por causa desse investimento a Segurança Social está falida”. A dívida não é da Segurança Social, foi assumida pelo Estado e deve ser paga através do Orçamento do Estado – e não recorrendo aos recursos da Segurança Social.

Com a CGA passa-se algo semelhante. O Estado tomou decisões no passado, recebeu dinheiro em contrapartida e assumiu compromissos para o futuro. Se hoje esses compromissos pesam no Orçamento, isso é uma responsabilidade das finanças públicas. Não é uma prova de que as regras da Segurança Social sejam insustentáveis.

É por isso que juntar as duas contas pode ser tão enganador. Se eu pegar no défice da CGA, o somar às contas da Segurança Social e chamar ao resultado “défice do sistema de pensões”, quem está em casa conclui que a Segurança Social não tem dinheiro para pagar as pensões. Mas os números estão a dizer uma coisa bastante diferente: que o Estado tem hoje de pagar dívidas e compromissos que assumiu no passado e para os quais tem de afetar receita fiscal.

Claro que isso é um desafio. No final, alguém tem de pagar. Mas o diagnóstico é diferente – e, portanto, as soluções também são diferentes. Em vez de estarmos a querer alterar as regras da Segurança Social (penalizando um sistema que não está de todo em défice), estaríamos a discutir se faz sentido gastar tanto dinheiro em fragatas ou a perder tanta receita fiscal com cortes generalizados no IRC, por exemplo.

Do blogue Estátua de Sal 

domingo, 23 de agosto de 2026

“MILHARES DE CRIANÇAS CRESCEM EM CONTEXTOS DE VIOLÊNCIA FAMILIAR. A MINHA HISTÓRIA É UMA DESSAS": O TESTEMUNHO PESSOAL DE FABIAN FIGUEIREDO:

"Todos os anos, os números repetem-se com a monotonia das coisas que decidimos não ver. Milhares de crianças crescem em contextos de violência familiar. A minha história é uma dessas linhas da tabela.

Fabian Figueiredo (sociólogo e deputado à Assembleia da República), Expresso, 20/08/2026
Atribui-se a Hemingway a ideia de que escrever não tem nada de especial: basta sentarmo-nos diante da máquina e sangrar. Consta que a frase é apócrifa, o que lhe assenta bem, porque também muitas das histórias que mais custam a contar são as que nunca sabemos ao certo se são nossas ou se são de toda a gente. Este texto está quase para lá da metáfora. Escrevo sobre a violência com que cresci, e faço-o perto dos 40 anos, tarde, que é a idade a que muitos de nós chegamos quando finalmente deixamos de conseguir não olhar. Não sangro por figura de estilo.
Convém dizer já, para que não haja engano sobre a natureza deste texto: a minha história não tem nada de excecional. É tão banal quanto as estatísticas anuais que lemos de passagem e esquecemos antes do café seguinte. Todos os anos, os números repetem-se com a monotonia das coisas que decidimos não ver. Milhares de crianças em Portugal crescem em contextos de violência familiar. A minha história é uma dessas linhas da tabela. E é precisamente aí que está o facto central: não na exceção, mas na norma. Na violência da normalidade.
Cresci numa casa onde raramente as coisas estavam bem. Onde o erro não era permitido e a falha se pagava. Qualquer coisa — uma nota, uma resposta a destempo, algo involuntariamente mal feito — podia desencadear gritos e recriminações absolutamente desproporcionais, ou o seu contrário, o silêncio imposto como castigo, que doía de outra maneira e durava mais. Aprendi cedo a ler o ar de uma divisão antes de entrar nela. As crianças que crescem assim tornam-se sismógrafos: medem a pressão dos passos no corredor, o tom de uma chave na fechadura, a qualidade de um silêncio. Não é talento. É sobrevivência. Aprendi a prever o golpe para lhe fugir, e, quando não podia fugir, aprendi a estar noutro sítio por dentro enquanto o corpo fica. Nem sempre o corpo fica. Cheguei a fugir de casa, ainda criança, por causa da possibilidade de uma negativa numa disciplina. Dito assim, parece desproporcional, e é exatamente essa a medida do medo: naquela casa, uma pauta escolar podia pesar como uma sentença, e houve um dia em que fugir me pareceu mais seguro do que ficar à espera do resultado. Vivi esse pânico sozinho, sem conseguir dizê-lo a ninguém. E não fui o único. Daquela casa fugiu-se mais do que uma vez, de mais do que uma maneira, e houve quem voltasse, não porque o medo tivesse passado, mas por causa de quem lá ficava.
Escrevo para dizer que se pode sair, ou pelo menos tentar, que o caminho em que a violência nos mete não é uma sentença, ainda que seja um declive e que pedir ajuda, tarde como seja, não é fraqueza, é força
Demorei demasiado tempo a perceber que há famílias onde não é assim. Onde ninguém lê o ar antes de entrar numa sala, em que o jantar diário é um momento de amor e alegria, onde o erro se corrige em vez de se pagar. A descoberta, tardia, corta dos dois lados: dá nome ao que se viveu e mostra, de uma só vez, tudo o que não se teve.
Somos vários irmãos e não direi quantos nem quem, porque esta história é minha para contar e não é minha para os expor. Basta dizer que a violência não escolhia. Que houve quem, entre nós, fosse atirado e espancado da cama ao chão, e que a imagem disso me acompanha há décadas com uma nitidez que a memória reserva para o que mais nos marcou. E que a nossa mãe assistia, muitas vezes impotente, à violência, nas suas diversas manifestações, que não conseguia travar — ela própria multiplamente humilhada, controlada, sem os meios materiais para sair de onde estava. A violência raramente é só uma mão levantada. É também uma conta bancária que se controla, uma dependência que se fabrica, uma porta que se tranca por dentro.
E é também humilhação, que não deixa nódoas negras e dura mais do que elas. Também houve quem, entre nós, atravessasse um problema de consumos, uma dessas encruzilhadas em que uma pessoa pede socorro sem saber pedi-lo. A resposta do nosso pai não foi ajuda: obrigou-o a uma longa jornada de humilhação e levou-o à Polícia, para apresentar queixa contra o próprio filho. Se a lei portuguesa fosse outra, teria sido detido, e era isso que se procurava: a punição judicial de quem precisava de cuidado. Anos mais tarde, quando a doença o atingiu, foi também um desses mesmos filhos quem cuidou dele. Quem precisava de uma mão estendida recebeu a denúncia, quem ofereceu cuidado tinha recebido o castigo.
Houve entre nós alguém que era, para todos os efeitos, uma irmã mais velha, ainda que os papéis oficiais dissessem outra coisa. Veio viver connosco a fugir de um terror maior do que o nosso. Só muitos anos depois, pela sua própria voz, soube dar nome a esse terror: uma faca erguida contra ela, um fio de telefone apertado ao pescoço, uma arma de fogo empunhada dentro de casa com ameaça de morte. E tudo pelas mãos de quem tinha o dever de a proteger. Não são metáforas. São tentativas contra a vida de uma criança, guardadas durante décadas no silêncio em que estas coisas sobrevivem.
Durante anos fui o seu escudo: enquanto eu estava presente, não lhe tocavam, porque diante de certas testemunhas a violência recolhe as garras. Só muito mais tarde percebi o que isso significava, e faço hoje uma pergunta que na altura não tinha idade para formular: por que razão nos deixavam, a nós, crianças, passar temporadas dentro daquilo. A resposta, quando chega, não traz alívio. Um dia cheguei a casa e ela já lá não estava. Tinham-na levado, entregue a uma família de acolhimento. Aos que sufocavam, a solução que os adultos encontraram foi afastá-los, não afastar deles o que os sufocava.
Podia continuar. Há muitos mais episódios do que os que aqui cabem, e alguns ainda não os consigo sequer processar, não sei se algum dia escreverei sobre eles. O que aqui deixo é a parte que hoje consigo contar. A memória de quem cresceu assim abre-se por camadas, e há portas que só se empurram quando se está pronto.
Houve vezes em que se comeu graças aos vizinhos. Isto não é uma figura de estilo nem um pedido de compaixão: é um facto, e digo-o com a gratidão devida a quem estende a mão sem fazer disso um espetáculo. E devia ter havido um amparo: havia poupanças pensadas para o nosso futuro, havia a parte que cabia à nossa mãe na partilha de uma vida. Nada disso chegou até nós. Houve assinaturas pedidas a quem confiava, papéis que ninguém explicou, e o dinheiro seguiu para onde segue o dinheiro quando quem controla tudo controla também os papéis. Mais tarde, já sozinho, atravessei anos de estudante a contar trocos, a fazer contas de cabeça antes da caixa do supermercado para não ter de devolver coisas à frente de estranhos, a depender da solidariedade de amigos e camaradas que nunca souberam o tamanho do que me davam. A aceitar todo o tipo de trabalhos. A privação tem uma coreografia própria, feita de pequenas vergonhas ensaiadas para não se notarem.
Nos últimos anos, fui-me agarrando à literatura como quem se agarra a uma corda que outros já tinham atado antes de mim. Descobri que aquilo para que eu não tinha palavras já tinha sido escrito, e que havia consolo nisso, não o consolo de que a dor passa, mas o de que a dor tem gramática, e de que alguém, algures, a soube conjugar. A “Carta ao Pai”, de Kafka, esse ajuste de contas nunca entregue com uma autoridade que esmaga sem precisar de bater. Baldwin, em “Notas de um Filho da Terra”, a descobrir junto ao caixão do pai que o mais difícil de herdar é o ódio, e que perdoar não é esquecer, é recusar transmitir.
É essa a herança verdadeira da violência: as marcas que deixa, a vida que instala em nós. O pânico que chega sem aviso, as invasões de tristeza que sobem sem pedir licença, a dificuldade em falar, confiar, os bloqueios e transtornos
Édouard Louis, em “Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule” e em “História da Violência”, a mostrar como a violência íntima é sempre também uma violência social, escrita no corpo dos que nasceram do lado errado da desigualdade. Annie Ernaux, sobretudo, que em “A Vergonha” parte de uma cena de violência do pai e faz dela não um drama privado mas um objeto quase clínico, dissecado sem uma gota de autocomiseração, a escrita desarmada, o facto nu, a banalidade como a mais afiada das lâminas. E Natasha Trethewey, em “Memorial Drive”, a provar que a memória é, ela própria, uma forma de sobreviver ao que nos foi tirado e imposto.
Todos me ensinaram a mesma coisa: que escrever isto não é acusar. Este ensaio não é um libelo contra ninguém. E tudo isto tem, claro, nuances: as casas onde se sofre não são feitas só de sofrimento, há nuances, contradições, dias que baralham o retrato. Estas coisas são complexas, e é por serem complexas que levam décadas a compreender e uma vida a contar. O meu pai foi, ele próprio, vítima de uma violência que não escolheu, e reproduziu em nós aquilo que lhe fizeram, como quem só sabe entregar a moeda com que foi pago. Perdoei-o há muito porque percebi que do ressentimento não nasce nada que mereça viver. O mais difícil, descobri, não é perdoar quem nos feriu. É perdoarmo-nos a nós próprios: por termos sobrevivido da única maneira que sabíamos, por termos reprimido em vez de escutado, por termos fugido em vez de enfrentado, e por termos demorado tanto tempo a ver o que a infância tinha deixado instalado dentro de nós, como nos quebrou. Por não termos conseguido mais cedo partilhar os nossos pesadelos e enfrentar os nossos demónios.
Porque é essa a herança verdadeira da violência: as marcas que deixa, a vida que instala em nós. O pânico que chega sem aviso, as invasões de tristeza que sobem sem pedir licença, a dificuldade em falar, confiar, os bloqueios e transtornos.
Há muitos mais episódios do que os que aqui cabem, e alguns ainda não os consigo sequer processar, não sei se algum dia escreverei sobre eles. O que aqui deixo é a parte que hoje consigo contar. A memória de quem cresceu assim abre-se por camadas, e há portas que só se empurram quando se está pronto
Escrevo isto, no fundo, por uma única razão, e é uma razão de esperança, ainda que sóbria. Estas histórias contam-se aos milhares em números, todos os anos. Quase nenhuma se conta em palavras. Quem as viveu aprendeu cedo que o silêncio era condição de sobrevivência: aprende-se a calar dentro de casa, e continua-se a calar muito depois de a casa ter ficado para trás. Só que o silêncio, que começou por nos abrigar, acaba a abrigar o que nos fez mal. Escrevo contra essa herança. Escrevo para dizer que se pode sair, ou pelo menos tentar, que o caminho em que a violência nos mete não é uma sentença, ainda que seja um declive e que pedir ajuda, tarde como seja, não é fraqueza, é força. Houve alturas em que me agarrei à vida com as duas mãos. Hoje sei que ninguém tem de o fazer sozinho, e é também por isso que escrevo. Estou a tentar fazê-lo, agora, com a ajuda que durante demasiado tempo não consegui procurar.
Escrevi atrás que me agarrei à literatura como quem se agarra a uma corda que outros tinham atado antes de mim. Não tenho a pretensão de atar nenhuma. Mas se alguém, no meio do seu próprio silêncio, tropeçar nestas páginas e encontrar nelas um fio por onde se segurar, a certeza mínima de que não está sozinho, de que houve quem passasse por ali e continuasse, então este texto terá feito o seu trabalho. Não escrevo isto do outro lado da margem. Estou muito longe disso. Escrevo-o na travessia.
Não sei se é isto que a frase atribuída a Hemingway quer dizer. Sei que estas páginas são sangue do meu sangue: não a ferida, mas o que dela nasceu e já não lhe pertence."

UCRÂNIA - O DIA DA DEPENDÊNCIA:

Amanhã, 24 de Agosto, a Ucrânia celebra o seu Dia da Independência. É essa a designação oficial. Mas, olhando para a realidade dos últimos quatro anos e meio, talvez fosse mais apropriado chamar-lhe o Dia da Dependência.

A Ucrânia é um Estado soberano no sentido jurídico. Mas está dependente quanto a sobrevivência militar, financeira e económica, numa dimensão extraordinária. Dinheiro, armas, munições, sistemas de defesa aérea e garantias políticas estão dependentes de nações ocidentais. Sem isso a Ucrânia já não funcionava há muito tempo. nem como nação, nem como economia.
E amanhã essa dependência estará particularmente visível. Kyiv receberá dirigentes europeus e outros representantes dos países que sustentam o esforço de guerra ucraniano. António Costa estará entre os convidados, enquanto a chamada “Coalisão da Boa Vontade” reunirá para reafirmar (pela undécima vez) o apoio à Ucrânia e discutir precisamente mais defesa aérea, assistência militar e garantias de segurança.
Ou seja: no próprio dia em que a Ucrânia celebra a sua "independência", estarão em Kyiv os representantes daqueles de quem essa independência militarmente depende. É uma ironia histórica que talvez merecesse mais reflexão.
A "independência" que precisa de armas estrangeiras
Não é possível ignorar uma realidade elementar: sem o gigantesco apoio ocidental, a situação militar da Ucrânia seria totalmente diferente. Washington e os países europeus forneceram, ao longo destes anos, armamento, munições, defesa antiaérea, financiamento e apoio de inteligência. A própria necessidade ucraniana de sistemas Patriot continua a ser uma questão central, numa altura em que Kyiv reconhece dificuldades para proteger-se dos mísseis balísticos russos.
É legítimo que os ucranianos agradeçam esse apoio. Mas também é legítimo perguntar: quando é que um país deixa de estar apenas a ser apoiado e passa a depender estruturalmente daqueles que o apoiam? Porque uma coisa é receber ajuda para reconstruir um país destruído. Outra, muito diferente, é depender permanentemente de terceiros para conseguir continuar a ser nação. E é precisamente aqui que a palavra “independência” começa a adquirir um significado bastante mais complexo.
Moscovo não olha para amanhã como uma festa
Há, porém, outra questão que os discursos oficiais provavelmente não abordarão. A Rússia não considera que a guerra seja exclusivamente uma guerra com a Ucrânia. Moscovo considera há muito que está a enfrentar também aquilo que classifica como o envolvimento direto ou indireto do Ocidente.
Podemos concordar ou discordar dessa interpretação. Podemos considerar injustificáveis as decisões russas. Podemos considerar que a "operação especial" de 2022 foi uma ruptura da "ordem europeia" (questão cada vez mais contestada por outros projetos e conflitos). Mas não podemos fingir que a Rússia não vê a guerra dessa maneira. E isso é essencial para perceber o risco de amanhã.
Se os dirigentes europeus estão em Kyiv para reafirmar que a Europa continuará a financiar, armar e apoiar militarmente a Ucrânia, então a mensagem política é precisamente a de que o Ocidente continua envolvido no conflito.
Ora a pergunta seguinte é inevitável: que significado terá essa presença aos olhos de Moscovo? Não significa que Moscovo veja os dirigentes estrangeiros como "alvos legítimos". Mas também não significa que qualquer ataque a Kyiv possa ser injustificado.
Significa que ninguém deve cometer o erro perigosíssimo de imaginar que a presença de personalidades estrangeiras transforma uma cidade em território protegido por uma espécie de imunidade militar. Uma guerra não deixa de ser uma guerra porque nela entra um cortejo diplomático.
A Rússia pode escolher não atacar. Mas ninguém pode exigir que Kyiv passe a "zona de segurança"
Há uma diferença fundamental entre duas afirmações. A primeira seria: “A Rússia tem o direito de atacar os convidados estrangeiros.” Não. A segunda é: “A presença de convidados estrangeiros não cria, por si só, uma garantia de que não haverá ataques.”
Essa é uma realidade muito diferente. E, aliás, a própria Ucrânia parece perfeitamente consciente dela. As autoridades ucranianas já alertaram a população para a possibilidade de ataques russos durante as comemorações da "independência". Porquê? Porque a guerra não entra em férias. Porque os mísseis não respeitam calendários festivos. Porque Kyiv continua a ser uma capital em guerra. E porque Moscovo tem demonstrado recentemente que a capital ucraniana é um "alvo de guerra". Portanto, se amanhã a Rússia decidir não atacar Kyiv, será uma decisão política apenas sua.
Mas se atacar, não será a presença de António Costa, de Friedrich Merz, de Alexander Stubb ou de qualquer outro dirigente estrangeiro que transforme subitamente a guerra numa situação juridicamente diferente. O que mudará será, isso sim, o significado político de um eventual ataque. E esse significado poderá ser enorme.
A grande questão que ninguém quer colocar
Durante anos, ouvimos dizer que a Ucrânia tem o direito de escolher as suas alianças. É verdade. Mas todas as escolhas geopolíticas têm as suas consequências. Se Kyiv escolhe aproximar-se da NATO, se solicita armas ocidentais, se recebe sistemas de longo alcance, se permite que os seus parceiros forneçam assistência militar e se transforma as suas ações numa causa política central da Europa, então essa escolha produz uma consequência inevitável: a Rússia passa a interpretar a Ucrânia não apenas como um adversário militar, mas como a plataforma avançada de um confronto muito mais vasto com o Ocidente.
Nesta fase é muito difícil que a interpretação russa pode ser contestada ou possa ser considerada abusiva. São já muito claras as justificações políticas ocidentais para decisões que jamais deveriam ter sido tomadas. E nem sequer se chamam "sanções". Chamam-se "Dependência da Ucrânia em todos os setores".
E isso não pode ser simplesmente ignorado. Porque a História não se faz apenas com aquilo que nós pensamos. Faz-se também com aquilo que o adversário pensa que estamos a fazer.
E chegamos finalmente ao Donbass
Durante anos, a questão da identidade das populações do Donbass foi tratada frequentemente como uma simplificação grosseira entre “ucranianos bons” e “separatistas russos”. Mas a realidade é muito mais complexa. Havia populações profundamente ligadas à língua russa, à cultura russa e à sua própria memória histórica. Havia também uma profunda disputa política sobre o estatuto desses territórios e sobre o futuro das suas populações.
A Rússia de forma firme apresentou a proteção dessas populações, a defesa dos seus interesses e a resistência à integração euro-atlântica da Ucrânia como componentes fundamentais da sua justificação política para a guerra. Uma análise séria não pode apagar as razões que Moscovo invoca simplesmente porque não se gosta delas. E é precisamente esse tipo de simplificação que nos trouxe até aqui.
Amanhã, portanto, haverá comemorações de uma "independência" que está dependente. A Ucrânia quererá celebrar 35 anos desde a declaração de independência de 1991 - que só foi possível por decisão politica da URSS. Podia ter sido diferente e é esse argumento que parece ter ficado esquecido pelo regime de Kiev. E foi um ucraniano, Presidente do Comité Central do Partido Comunista da URSS que assim propôs. E propôs para que a Ucrânia, sendo independente, não esquecesse a sua História russa. Não que se tornasse uma inimiga da Rússia - como se tornou.
E fá-lo-á enquanto depende de dezenas de países para financiar o seu Estado, sustentar a sua economia e, sobretudo, manter a sua capacidade militar. E fá-lo-á enquanto os dirigentes desses mesmos países se deslocam a Kyiv para reafirmar que continuarão a apoiá-la.
A fotografia será bonita. As bandeiras serão bonitas. Os discursos serão previsivelmente solenes. Mas por baixo das bandeiras existe uma realidade muito menos bonita: a Ucrânia continua em guerra e continua a depender do Ocidente para sobreviver económica, militarmente e territorialmente. Depende do ocidente para se continuar a chamar "nação".
E amanhã haverá ainda outra fotografia possível. A fotografia de uma capital em guerra onde dirigentes estrangeiros decidiram estar presentes precisamente no momento em que Moscovo poderá querer demonstrar que nenhuma cerimónia, nenhuma bandeira e nenhum convidado estrangeiro lhe impõem uma trégua que não aceitou.
Espero que não aconteça. Espero, sobretudo, que ninguém sofra consequências. Mas não confundo esperança com garantia. A Rússia poderá decidir não atacar. Poderá entender que um ataque amanhã seria politicamente errado. Moscovo seguido uma inteligência politica que outras nações não seguem. E temos os exemplos dos Estados Unidos e de Israel, capazes de atacar e ameaçar, aliados, vizinhos, amigos e inimigos.
Moscovo pode, mais uma vez, deixar que se faça a leitura de que ainda quer negociar nos seus termos - por que os seus termos são os que resolvem o problema.
É por isso que a presença ocidental em Kyiv amanhã não é apenas uma fotografia diplomática. É também uma mensagem estratégica. E numa guerra, todas as mensagens estratégicas têm um preço e todos os riscos têm de ser assumidos por quem os cria.
A Ucrânia pode celebrar a sua independência. Mas os seus aliados também têm de perceber que, ao transformarem essa celebração numa demonstração pública de apoio político e militar, estão a entrar numa cidade que continua a ser um teatro de guerra.
Não existe imunidade diplomática para uma cidade inteira. Não existe feriado numa guerra. E não existe independência plenamente exercida quando a sobrevivência de um Estado depende, para continuar a combater, das armas, do dinheiro e da vontade política de outros.
Amanhã será o "Dia da Independência" da Ucrânia. Mas talvez seja também o dia em que alguém deveria ter a coragem de perguntar: independência de quem - e dependência de quê?

Sabes que a coisa cheira mal quando os avisos já vêm da direita: