Rádio Freamunde

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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

SEBASTIÃO BUGALHO QUER LIMITES. VAMOS ENTÃO FALAR DE LIMITES:

E antes de começar, deixem-se de obsessões partidárias e de impulsos para comentar sem antes pensar. Veio hoje Sebastião Bugalho, porta-voz do PSD, dizer que o líder parlamentar do PS extravasou os limites ao classificar o ministro da Educação como candidato a pior ministro desde o 25 de Abril. Ficou estarrecido, diz ele. Estarrecido. Bonita palavra
😁
. Tem de haver limites, diz ele.
Vamos lá então falar de limites, mas dos que interessam.
Estamos em setembro de 2026, o ano letivo a arrancar, e há centenas de alunos sem colocação no ensino público. No ensino obrigatório. Obrigatório significa que o Estado é obrigado a garanti-lo. Não é um favor nem uma opção. É uma obrigação constitucional.
Já há pais a avançar com um processo contra o Ministério da Educação porque os filhos não têm escola. E a resposta do ministro foi a do costume, de não assumir nada e mandar investigar as escolas, os diretores e os professores... e talvez as próprias crianças e jovens. Sempre os outros. Nunca ele. E isto a seguir à barafunda dos exames, que ninguém esqueceu.
Este é que é o limite que foi extravasado. E não foi por ninguém do PS.
E agora reparem no que o "aprendiz da vida" Bugalho disse, sem dar por isso. Que espera que o PS peça desculpa ao ministro quando todos os alunos tiverem escola. Ou seja, admitiu ele próprio que hoje não têm. No meio da indignação toda, deu razão a quem estava a criticar.
E deixou-se aqui uma coisa extraordinária no ar, é que deixou de ser escândalo que centenas de crianças não tenham escola. O escândalo passou a ser dizê-lo em voz alta. Extraordinário.
Quanto ao pedido de desculpa, sejamos claros. Colocar todos os alunos não é proeza nenhuma. É o mínimo. É o que sempre aconteceu neste país, ano após ano, com governos de todas as cores. Houve sempre um caso ou outro, como é natural num sistema com mais de um milhão de alunos. O que nunca aconteceu foi isto. Não há desculpa a pedir a ninguém. Há uma obrigação a cumprir. E obrigações não se aplaudem, cumprem-se.
A pergunta que interessa é quando. Porque cada semana que passa é uma semana de aulas que uma criança perde e nunca mais recupera.
E aqui está a diferença entre quem conhece a vida e quem a comenta. O "aprendiz da vida" Bugalho fala de números. Eu falo de pessoas, porque são elas que me aparecem à frente.
Conheço um rapaz, aqui da minha zona, que saiu de um colégio e ia agora entrar para o décimo ano. Está prestes a começar o ano letivo e não tem escola atribuída. Não tem. Não é um dado estatístico, não é um processo, não é uma linha num relatório. É um miúdo de quinze anos que não sabe para onde vai na segunda-feira.
E não é só ele. São mães e pais que me param na rua, que me batem à porta da Junta, que me telefonam. Gente real, com nome, com cara, com um filho em casa sem saber o que lhe vai acontecer.
É esta a diferença. Uns conhecem o país por relatórios e por estúdios de televisão. Outros conhecem-no porque estão lá, todos os dias, a ouvir aquelas famílias.
E é por isso que a última nota tem de ser sobre quem veio hoje dar-nos lições.
Estamos a falar de um aprendiz de política e da vida, claro. De um menino que ainda mal viu a vida acontecer, que nunca geriu nada, nunca respondeu perante ninguém, nunca teve à sua frente uma mãe a perguntar-lhe onde é que o filho vai estudar. E que ainda assim se sente autorizado a distribuir lições a quem anda nisto há décadas. E mesmo que não ande, que tem o mais importante, a vivência, a relação de comunidade e de proximidade às pessoas.
Um "aprendiz" que construiu nome a comentar política do conforto de um estúdio, a apontar o dedo a toda a gente e a jurar que era isento. Isento, dizia ele. E depois, sem lhe terem sequer dado tempo de acabar de tirar as fraldas da vida de comentador, já lá estava agarrado a uma candidatura e a assinar a ficha de militante do partido que hoje representa.
Da isenção à cor do cachecol foi um pulo. E não foi um pulo de atleta. Foi um pulo de quem já sabia onde ia cair. Mas atenção, ser de um partido não tem mal nenhum, muito pelo contrário. Ao contrário da ideia que se instalou na sociedade, pertencer a um partido é um ato de disponibilidade para com o próximo, e das missões mais nobres que existem. Mal tem é andar a comentar política a jurar isenção e, no minuto seguinte, aparecer com a ficha de militante assinada. E mesmo com a ficha de militante assinada, conseguimos ser isentos e pensar pela própria cabeça e não pela cabeça do partido.
Meu caro Bugalho, limites são o que se respeita quando ninguém está a ver. Não é o que se invoca à pressa quando é o nosso lado que está a levar.
Eu não fico estarrecido com palavras. Fico estarrecido com um rapaz de quinze anos que não sabe para que escola vai na segunda-feira. E este é apenas um exemplo entre muitos que lhe podia dar. Mas o meu caro Bugalho não conhece nenhum, e não conhece porque não anda na rua, não atende ninguém, e a vida real só lhe chega depois de passar por um estúdio.
Isso é que devia estarrecer toda a gente. E devia estarrecer, sobretudo, quem tem o poder de o resolver.
Pensem pela vossa própria cabeça. Sempre.

Ricardo Lima 

A Guerra Invisível: O Impacto Económico das Sanções e a Competitividade Europeia:

Desde o início da guerra na Ucrânia, o debate público tem-se concentrado sobretudo nas suas dimensões militares, diplomáticas e humanitárias. No entanto, há quem defenda que existe uma outra guerra em curso: uma guerra económica cuja principal vítima poderá ser a própria Europa.
Antes de 2022, a União Europeia dependia significativamente das importações russas para satisfazer as suas necessidades energéticas e industriais. Entre os produtos mais relevantes encontravam-se o carvão, o gás natural, o petróleo, os fertilizantes, o níquel, o paládio, a alumina e vários metais fundamentais para a produção industrial. Em alguns casos, a Rússia fornecia cerca de metade das necessidades europeias destes recursos.
Com a implementação das sanções económicas e a redução das relações comerciais diretas entre a Europa e a Rússia, o objetivo era diminuir a dependência europeia e pressionar economicamente Moscovo. Contudo, segundo os críticos desta estratégia, o resultado prático foi diferente do esperado.
O papel dos intermediários
Um dos argumentos frequentemente apresentados é que muitos dos recursos que anteriormente eram comprados diretamente à Rússia continuam a chegar ao mercado europeu através de países terceiros. China, Índia, Arábia Saudita e outros mercados assumiram o papel de intermediários, adquirindo matérias-primas russas para posteriormente as revenderem à Europa.
Neste cenário, a Europa continua a consumir grande parte dos mesmos produtos, mas a preços substancialmente mais elevados. O exemplo do Gás Natural Liquefeito (GNL) é frequentemente citado: antes das sanções, os preços situavam-se entre 15 e 20 euros por megawatt-hora, enquanto atualmente os custos podem ser várias vezes superiores.
Os defensores desta análise argumentam que esta nova cadeia de abastecimento beneficia simultaneamente a Rússia, que encontra novos compradores, e os intermediários, que obtêm margens significativas na revenda. O custo acrescido recai, em última análise, sobre consumidores e empresas europeias.
Consequências para a indústria europeia
O aumento dos custos energéticos e das matérias-primas tem tido repercussões na competitividade industrial da Europa. Sectores intensivos em energia, como a produção de alumínio, aço, fertilizantes e químicos, enfrentam desafios particularmente difíceis.
Quando a energia elétrica e as matérias-primas se tornam mais caras do que noutras regiões do mundo, a produção industrial europeia perde competitividade. Algumas empresas reduzem a produção, outras transferem operações para países com custos mais baixos, enquanto outras encerram definitivamente.
Esta realidade é frequentemente apontada como uma das razões para o enfraquecimento relativo da capacidade industrial europeia nos últimos anos.
A ascensão dos concorrentes globais
Paralelamente, economias como a China beneficiam de custos energéticos mais reduzidos e de acesso privilegiado a matérias-primas provenientes da Rússia. Esta combinação permite às empresas chinesas produzir a preços mais competitivos e conquistar mercados internacionais onde tradicionalmente a Europa tinha uma posição forte.
Segundo esta perspetiva, a questão deixa de ser apenas a guerra na Ucrânia. O verdadeiro desafio passa a ser a disputa pela competitividade económica global, pela capacidade de produção industrial e pelo controlo das cadeias de abastecimento estratégicas.
Quem suporta os custos?
Os críticos da atual política europeia argumentam que os cidadãos da União Europeia estão a suportar uma dupla fatura. Por um lado, financiam o apoio económico e militar à Ucrânia. Por outro, continuam a adquirir recursos cuja origem remonta, direta ou indiretamente, à Rússia, contribuindo para a manutenção das receitas da economia russa.
Independentemente da validade desta interpretação, o debate levanta questões relevantes sobre a eficácia das sanções económicas, a autonomia estratégica europeia e a necessidade de reforçar a produção interna de energia e matérias-primas.
Conclusão
A guerra na Ucrânia continua a ser um dos acontecimentos mais marcantes do século XXI. No entanto, para muitos observadores, existe uma dimensão menos visível mas igualmente decisiva: a batalha pela competitividade económica global.

Nesta leitura, a questão central não é apenas quem vence ou perde no campo de batalha, mas também quem controla as fontes de energia, as matérias-primas e a capacidade industrial necessária para sustentar o crescimento económico no longo prazo. A verdadeira guerra, defendem alguns analistas, poderá estar a ser travada nos mercados, nas fábricas e nas cadeias de abastecimento internacionais, com consequências que se farão sentir muito para além do conflito militar.

Major General Raul Luis Cunha  

Dirigentes europeus: Internem-nos no manicómio e com camisa de forças:

(Rui Loureiro, in mural de Maria Manuela, Facebook, 13/09/2026, Revisão da Estátua) 


(Este texto, como se diz no boxe. deixou-me encostado às cordas. Que pagava-mos a guerra à Ucrânia há muito que é sabido. Agora, que também a pagamos â Rússia, é o cúmulo da demência dos líderes europeus. Pagamos para a destruição da Ucrânia, da Rússia e de todos os outros países europeus que estão em afundamento acelerado e irreversível.

E riem-se as três bestas das malfeitorias, quais inimputáveis perigosos à solta. Urge interná.los sob pena de não sobrevivermos a tanta iniquidade.

Estátua de Sal. 13/09/2026)


Meus amigos, estamos em guerra mas a guerra é outra.

Aqui está uma lista das importações da Europa, provenientes da Rússia, assim como a percentagem que a Rússia fornecia do todo das necessidades europeias:

Carvão: 46%

Gás Natural (via gasoduto): 45%

Níquel bruto: 41%

Alumina (Óxido de Alumínio): 35%

Paládio e Platina: 30%

Diamantes: 25%

Cobre refinado: 23%

Gás Natural Liquefeito (GNL): 21%

Urânio Enriquecido / Combustível Nuclear: 20%

Gases Nobres (Néon, Cripton e Xénon): 20%

Petróleo (cru e refinados): 27%

Fertilizantes: 28%

Alumínio bruto: 16%

Óleos de Petróleo Pesados (VGO): 15%

Ferro e Aço: 14%

Trigo: 11%

Por exemplo, o Gás Natural Liquefeito (GNL), com o qual a Rússia cobria 21% das necessidades europeias, era vendido antes das sanções a um preço entre 15 €/MWh e 20 €/MWh.

Agora compramos o gás russo através de intermediários a 75 €/MWh, ou seja, entre 4 a 5 vezes mais caro.

A maioria destes produtos, os europeus continuam a compra-los através de intermediários, 3, 4 ou 5 vezes mais caros, intermediários que os compram aos russos para os revender à Europa.

Por exemplo, titânio bruto e ligas: 45% das necessidades europeias. A Europa não tem onde os ir buscar a não ser aos russos.

Por exemplo, alumina (óxido de alumínio): 35%. Já está tão cara que grande parte das fábricas de fundição de alumínio na Europa já fecharam. O aço ficou tão caro que a última fábrica de fundição de aço do Reino Unido já fechou.

Antes de 2022, a Europa importava da Rússia 158 mil milhões de euros em matérias-primas. Essas mesmas matérias-primas, que a Europa importava diretamente da Rússia por 158 mil milhões de euros, agora a Europa importa-as de terceiros, que as compram à Rússia por 300 mil milhões e as vendem à Europa por 380 a 410 mil milhões.

Vamos ver se explico melhor: A Rússia vendia essas exportações diretamente à Europa por 158 mil milhões de euros. Agora a Rússia vende as mesmas matérias-primas à China, à Índia, à Arábia Saudita e a outros por 300 mil milhões, e estes vendem-nas à Europa por 380 a 410 mil milhões.

Assim, a Rússia está a ter um acréscimo de 150 mil milhões de euros de lucro, em relação ao que tinha antes, e os intermediários também estão a ganhar com a burrice dos europeus.

E isto significa que a Ucrânia recebe da Europa, em média, 90 mil milhões de euros por ano para a guerra, e a Rússia recebe da Europa 300 mil milhões de euros, mais 150 mil milhões do que antes, para gastar na guerra contra a Ucrânia.

A Europa, ou seja, NÓS, está a pagar as despesas da guerra à Ucrânia e está a pagar as despesas da guerra à Rússia!! Toda a guerra na Ucrânia está a ser paga pela Europa.

E enquanto nós aqui estamos a passar dificuldades, a pagar o gasóleo a 2,2 euros o litro, os russos pagam o gasóleo a 0,83 euros o litro e andam aos milhões a fazer férias na China.

A China já abriu vários aeroportos regionais a linhas aéreas russas. Nos aeroportos, estações de comboio e locais turísticos, os avisos e placares já são todos em chinês e em russo.

E todos os dias a China ganha mercados com as suas exportações, que eram mercados onde a Europa vendia, mas já não vende porque a produção europeia é cara demais.

Agora, na China, não só a eletricidade é, em média, 4 vezes mais barata do que na Europa, como as matérias-primas passam pela China antes de chegarem até nós, muito mais caras do que eram antes.

Portanto, para além da guerra da Ucrânia, que nós pagamos aos ucranianos e aos russos, estamos diariamente a perder exportações para a China, porque com matérias-primas 3 vezes mais caras e energia elétrica 4 vezes mais cara, não temos preços para concorrer com os chineses.

A guerra, portanto, é outra e essa outra, nós estamos a perdê-la.

Do blogue Estátua de Sal

domingo, 13 de setembro de 2026

A Parada da Vitória na Red Square em Moscou:

Realizada em 24 de junho de 1945, foi uma parada histórica organizada para comemorar a vitória da União Soviética sobre a Alemanha na Grande Guerra Patriótica.
A parada das exército da Red Army foi presidida pelo Marechal Georgy Zhukov, enquanto os soldados eram comandados pelo Marechal Konstantin Rokossovsky.
Especialmente para a parada, o Banner da Vitória, que havia sido colocado no Reichstag, foi removido de Berlim. No entanto, finalmente não foi levado durante a parada.
Durante o evento, a cerimônia de colocação das bandeiras e banners alemães ocorreu. Após a parada, foram enviados para o Museu Central das Forças Armadas.

A Parada da Vitória de 1945 envolveu 35.325 pessoas: 24 marechais, 249 generais, 2.536 oficiais —de oficiais não comissionados a colonéis—, 31.116 sergentes e soldados, 1.400 músicos militares, bem como 1.850 unidades militares. 

Mesmo que de vez em quando tente fazer uma piada:

Não me convidem para pisar um palco de "stand up comedy" com os senhores Seinfeld ou Araújo Pereiera, não por um ser apoiante expresso de um estado genocida e o outro relativizar a importância de uma figura pública ser ou não a favor de um regime de apartheid, de limpezas étnicas e do extermínio em massa de um povo. É só mesmo porque não sei contar piadas. Começo sempre a sorrir ou a rir antes do tempo. Mas sobretudo não gosto de pessoas que fazem humor sobre patetices e apoiam, em vez de arrancarem a máscara a quem comete crimes hediondos.

Aqui 90 segundos da conversa com a Alberta Marques Fernandes e o José Gomes André ontem a propósito de Trump dizer que gostaria de ver as duas Irlandas reunidas (a análise mais completa a este e outros assuntos em baixo nos comentários).

Miguel Szymanski

sábado, 12 de setembro de 2026

Ali Bábá e os Sessenta Coirões:

(Luís Rocha, in Facebook, 11/09/2026, Revisão da Estátua)

Há uma coisa que tenho de reconhecer ao Coiso. É um partido extremamente trabalhador. Trabalha muito para produzir absolutamente nada. É assim uma espécie de máquina de lavar roupa avariada. Faz um barulho dos diabos, abana a casa inteira, aquece que se farta, mas a roupa sai exatamente como entrou.

A última demonstração desta admirável capacidade produtiva foi a moção de censura ao Governo. O Coiso foi ao Parlamento para derrubar Montenegro com aquele entusiasmo de quem vai finalmente conquistar a Europa, quando na realidade tinha mais ou menos a mesma capacidade militar de uma associação recreativa de Alguidares de Baixo.

O sacristão de Mem Martins apareceu com ar de pequeno Napoleão, provavelmente já a imaginar a estátua no Rossio, seguido pela brigada de coirões parlamentares, todos afinados para berrar “demissão!”. E berraram. Berraram com convicção. Berraram com pulmão. Berraram como se o volume da voz tivesse alguma relação com o número de votos.

Não tinha. Para derrubar um Governo são precisos votos. E o Coiso tinha 60. Exatamente cinco dúzias.

A moção teve 60 votos a favor, 104 contra e 62 abstenções. Os 60 votos favoráveis foram precisamente os 60 deputados do Coiso. Não conseguiram convencer mais ninguém. Nem um. Foi uma coisa bonita de se ver, porque revelou finalmente a verdadeira dimensão parlamentar da revolução dos ruminantes. Cabia toda dentro do próprio redil.

Imagino que tenha havido um momento, depois da votação, em que alguém perguntou: “Então e agora?” E outro respondeu: “Agora dizemos que ganhámos.”

É assim que funciona a política coirona quando tem um problema com a realidade. A realidade diz “perderam”. A propaganda responde “vitória histórica”. E pronto. Problema resolvido.

O Coiso apresentou uma moção para demonstrar que o Governo estava isolado e descobriu que quem estava sozinho era ele. É uma espécie de ironia que normalmente exigiria um argumentista de comédia, mas que a política portuguesa oferece gratuitamente.

E eu até consigo perceber a irritação.

Se eu fosse dirigente de um partido de extrema-direita que tivesse uma relação particularmente pouco calorosa com o diretor da Polícia Judiciária, sobretudo depois da PJ ter estado envolvida no desmantelamento de organizações extremistas e neonazis, também não seria propriamente fã do homem.

Se passasse os dias a falar de imigração e criminalidade como quem vende rifas à porta da igreja e depois aparecesse a Polícia Judiciária a apresentar números que não confirmavam parte da narrativa, também começaria a sentir que aquele diretor tinha qualquer coisa contra a minha carreira política.

E se, pelo meio, tivesse inventado a história de um alegado assalto ao meu gabinete que estivesse a levantar uma quantidade considerável de perguntas, também perceberia a necessidade de arranjar rapidamente outro assunto.

É aqui que entra a moção.

Porque quando não se tem uma política económica convincente, fala-se de imigrantes. Quando não se tem uma política para a saúde, fala-se de criminosos. Quando não se tem uma política para a habitação, fala-se de identidade nacional. E quando não se tem capacidade para fazer coisa nenhuma, faz-se uma moção de censura.

É uma atividade política semelhante à de um homem que passa a tarde inteira a afiar uma faca e depois descobre que não tem pão.

Mas o melhor veio depois.

A moção foi chumbada, Montenegro continuou primeiro-ministro, Luís Neves continuou ministro e o Governo continuou no mesmo sítio. E, enquanto o Coiso se preparava para celebrar mais uma batalha imaginária contra o sistema, Montenegro aproveitou o debate para anunciar cerca de 800 milhões de euros em medidas para pensionistas e contribuintes.

É preciso ter azar.

Os homens foram ao Parlamento tentar matar politicamente o Governo e acabaram por servir-lhe de palco para anunciar medidas popularuchas.

São uma espécie de motorista de Uber paquistanês da política. Levam os adversários exatamente onde eles querem chegar.

E depois há a parte mais divertida, que é a explicação da vitória.

Porque o Coiso nunca perde. Pode perder eleições, votações, moções, argumentos, aliados e até o contacto com a realidade, mas perder nunca. Aquilo é uma máquina de reciclagem de derrotas. Entra uma derrota e sai uma “vitória política”.

Se tiverem 60 votos e os outros 166 não votarem com eles, é porque “marcaram a agenda”. Se ninguém os acompanha, é porque “não precisam de outros partidos”. Se a moção é chumbada, é porque “o sistema está borradinho de medo”.

É uma forma extraordinariamente confortável de fazer política. Não é preciso ganhar. Basta explicar muito bem porque é que perder é, afinal, uma maneira sofisticada de ganhar.

E talvez seja esse o verdadeiro problema do Coiso. Aquilo não parece um partido político. Parece uma sessão coletiva de autossatisfação.

Muito movimento. Muito entusiasmo. Muito suor. Muito berro. Muito “demissão!”. E no fim, quando se olha para os resultados, Portugal continua exatamente onde estava.

É o equivalente político de alguém passar dois minutos a fazer flexões diante do espelho e depois pedir aos outros que admirem a transformação. Não há transformação nenhuma. Há apenas o espelho. Mas o problema é que Portugal não está no espelho. Está cá fora. Que maçada.

Uma pessoa prepara uma revolução, compra os foguetes, ensaia os discursos, afina os coirões, veste-se de Napoleão e depois chega ao fim do dia e descobre que continua tudo igual.

Há dias em que a democracia consegue ser mesmo cruel. Principalmente para quem ainda não percebeu que gritar “demissão” não é o mesmo que ter capacidade intelectual para fazer alguma coisa de benéfico pela nação.

Mas pronto. Na próxima semana haverá outra coisa qualquer para berrar. Que nunca lhes dê uma amigdalite, coitadinhos…

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas:

https://www.parlamento.pt/Fiscalizacao/Paginas/Mocoes.aspx

https://www.parlamento.pt

https://www.rtp.pt

https://www.dn.pt

https://www.jn.pt

https://portugal.gov.pt

https://portugal.gov.pt/…/governo-anuncia-suplemento…

https://elpais.com/…/el-parlamento-portugues-rechaza-la…

Do blogue Estátua de Sal

PUTIN MENÇONHO BRASIL:

Moz na Diáspora