Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

quinta-feira, 5 de março de 2026

Comparar uns e outros:

Foi descansar outra vez a cabeça no peito do avô...

O grande escritor português, António Lobo Antunes, partiu hoje, desse plano. Uma tristeza enorme para mim, como admiradora.

Ele revelou nesse texto, que suas raízes estão em Belém do Pará, minha terra também, e a emocionante influência do seu avô, de quem herdou o nome.

Republico em honra ao grande mestre da vida, que foi!

Sempre me emociono com ele e acredito que me emocionarei para sempre!

DEP ANTÓNIO LOBO ANTUNES. TUA VIDA NÃO FOI EM VÃO!

ANTÓNIO LOBO ANTUNES
"Hoje é o dia dos anos do meu avô de quem herdei o nome sem lhe ter herdado as qualidades. Ele era muito moreno, eu loiro. Ele era corajoso, eu um maricas pegado. Como era oficial de Cavalaria obrigava-me a andar a cavalo o que eu detestava. Como o meu pai dizia são perigosos nas duas pontas e desconfortáveis no meio. O meu avô era sociável, eu bicho do mato. Alegre e eu nem por isso. Nunca o vi ler um livro, não se interessava nos livros. Dizia-me, desgostoso
– De mim só tens o nome
mas adorava-me e eu adorava-o. Logo que chegavam as férias ia para casa dele. Vinha ao quarto onde eu dormia fazer-me festas e deixava-me bolachas e um copo de água na mesa de cabeceira. A família dele vinha do Brasil, do norte do Brasil, de Belém do Pará. A minha bisavó, mãe dele, chamava-se Leopoldina que era o nome da Imperatriz e deu o nome a imensas meninas daquela época. Ainda conheci algumas das minhas tias bisavós, tia Biluca, tia Marocas, e o meu avô cantava-me canções brasileiras às vezes ou dizia-me versos sobre a guerra do Paraguai. Há uma fotografia dele a andar de triciclo na fazenda do pai. O meu avô encheu a minha infância de amor e chamava-me
– O meu morgado
como se fazia no Brasil daquele tempo. Morava numa casa enorme em Benfica, com um jardim e uma quinta. Ao voltar da guerra em França fez a revolução monárquica de Paiva Couceiro, em 1918, era um jovem capitão, os monárquicos perderam, o meu avô esteve preso na Penitenciária e depois foi para Tânger com a mulher e os filhos pequenos, até voltar a Portugal. Não quis voltar para o Brasil. Quando me deram o Prémio Camões, em 2007, estava eu à brocha com um cancro no intestino, lembro-me do Presidente Lula, no seu discurso, bradar
“António não é português ele é nosso”
e eu, que nunca tinha pensado nisso, não pensei nisso. O meu avô não lia livros mas os que tinha em casa eram brasileiros, Machado, Aluísio Azevedo, Pompeia, Lobato, etc. Como queria ser escritor papei aquilo tudo, juntamente com os versos e as canções para crianças, do Brasil que ele me cantava. Morreu quando eu tinha dezoito anos e o meu desgosto foi
(continua a ser)
imenso. Eu adorava-o. Adorava a sua alegria e adorava a sua bondade. E admirava imenso a sua enorme coragem física, eu que era um chuchu de primeira apanha. Lá me portei mais ou menos bem na guerra em África, penso eu, até recebi louvores e tudo e que foi para mim uma experiência ao mesmo tempo horrível e vital. E amanhã é dia 13. Em pequeno levava-me à Igreja de Santo António, de quem era muito devoto, buscar os cravos habituais que depois distribuía pelos filhos. Hoje é a noite do dia 12, avozinho, e ainda não parei de pensar em si. De irmos a Pádua de carro para eu fazer a primeira comunhão, do seu sorriso, da sua voz. Demorou a acabar: a minha avó disse
– Ele é uma árvore muito forte que custa muito a abater
e aí está o seu enterro no armão, com os soldados, com o oficial, com os tiros. Mal sabia eu que depois teria várias cerimónias assim pelos meus camaradas, mal sabia eu que haveria de discursar junto ao túmulo do Soldado Desconhecido, no Mosteiro. Pode não acreditar em mim
(porque carga de água não havia de acreditar em mim?)
mas gostei de ser militar, sempre me trataram bem, não manchei a sua memória, acho que, onde está, pode ter algum orgulho em mim. É curioso, avô, como passados tantos anos a sua ausência continua a doer-me. Desculpe não ter herdado a sua paixão pelos cavalos. Sou o filho mais velho do seu filho mais velho, e chamava-me, com orgulho, “o meu morgado”, segundo o costume de Belém do Pará. Não sei se preferia que eu fosse brasileiro ou português. Acho que só queria que eu fosse seu neto. E sou. E amanhã é o dia do seu Santo, do nosso Santo, em cujo túmulo espalmou a minha mão ao lado da sua e me pediu
– Promete que se tiveres um filho o trazes a Pádua a fazer a primeira comunhão e lhe chamas António.
E eu prometi. Foi o momento mais solene da minha vida, eu pequeno, o meu avô enorme e os seus olhos escuros cheios de lágrimas.
Agora olhe estou aqui a escrever isto. Eu não me esqueço avô, eu nunca me esqueço. Tenho ali um Santo António e
(isto é segredo)
às vezes rezo-lhe por nós que eu nunca tive a sua bondade e também preciso de alguma proteção. Espero que continue a amar-me. Espero que continue a tomar conta de mim. Espero que amanhã se lembre de irmos juntos à Igreja do Santo e colocarmos a mão na pedra no sítio onde se conta que o Demónio o tentou. Espero
(espero não, tenho a certeza)

que daqui a uns anos estaremos de novo juntos. E vou descansar outra vez a cabeça no seu peito e deixar que me abrace com muita força. Ouviu bem, avô? Com muita, muita força, com toda a força do mundo. E ficamos assim imenso tempo. A gente os dois, senhor."

ÚLTIMA HORA:

Milhões de americanos estão alegadamente a exigir que o filho mais novo de Donald Trump, Barron Trump, seja convocado para o exército para mostrar o mesmo patriotismo que os jovens que lutam em guerras impulsionadas pelo seu pai - guerras que muitos argumentam não têm a aprovação do país.
Os críticos apontam que ninguém na geração de Trump alguma vez serviu nas forças armadas dos EUA, mas Donald Trump enviou repetidamente soldados para conflitos que dizem que oferecem pouco benefício à América.
As pessoas insistem que, se Trump realmente acredita na sua visão para o país, Barron deveria estar na linha de frente - especialmente porque o próprio Trump reconheceu que muitos soldados poderiam morrer nestes conflitos, chamando-o de "sacrifício" que ele está disposto a fazer.
Muitos americanos estão frustrados, dizendo que estão cansados da morte de cidadãos comuns em guerras que só servem políticos ricos.
Partilha e nos siga

NÃO É VEGETARIANO – MAS É UM DOS MAIORES OPORTUNISTAS DA POLÍTICA:

Há percursos políticos que se fazem em linha reta, com convicções sólidas que atravessam décadas. E há outros que serpenteiam. O de José Manuel Durão Barroso pertence claramente à segunda categoria.

O jovem que emergiu politicamente nas ruas agitadas que se seguiram à Revolução dos Cravos não parecia destinado a tornar-se um dos mais disciplinados representantes do establishment europeu. Militante ativo do radical MRPP - um movimento maoísta conhecido pela sua retórica incendiária e pelo ativismo de confronto - Barroso participava num ambiente político onde a revolução era palavra de ordem e a rua era palco permanente.
Foi um período em que cartazes, megafones e manifestações definiam o ritmo da política portuguesa. Entre protestos contra a ditadura espanhola de Francisco Franco e ações simbólicas que marcaram a época - como a contestação à Embaixada de Espanha em Lisboa - o jovem militante fazia parte de um ambiente de radicalismo político que, visto hoje, parece quase irreconhecível no currículo do futuro presidente da Comissão Europeia.
Mas a história política portuguesa tem muitas metamorfoses. E poucas foram tão completas como a de Durão Barroso.
Quando o fervor revolucionário começou a arrefecer e o sistema democrático estabilizou, Barroso mudou de rumo. O militante maoísta desapareceu gradualmente para dar lugar ao político institucional que ascendeu dentro do Partido Social Democrata. Não foi uma transição discreta: foi uma verdadeira travessia ideológica, da extrema-esquerda revolucionária para o centro-direita liberal e atlanticista.
Daí em diante a ascensão foi metódica. Ministro dos Negócios Estrangeiros, líder partidário e finalmente primeiro-ministro de Portugal. A imagem do antigo agitador revolucionário deu lugar à de diplomata pragmático, perfeitamente integrado nas estruturas da NATO e da União Europeia.
O momento mais emblemático desse percurso talvez tenha ocorrido em 2003, quando Barroso acolheu na base das Lajes a célebre Cimeira dos Açores de 2003. À mesa estavam George W. Bush, Tony Blair e José María Aznar. Poucos dias depois começaria a Invasão do Iraque em 2003, justificada pela alegada existência de armas de destruição maciça que mais tarde se revelariam inexistentes. Portugal não foi protagonista militar, mas foi anfitrião político. E esse gesto teve um peso simbólico enorme: o pequeno país atlântico surgia como aliado fiel da estratégia norte-americana.
O percurso de Barroso parecia confirmar uma regra antiga da política internacional: sobreviver exige adaptação. Depois da passagem pelo poder em Lisboa, a carreira continuou em Bruxelas. Durante dez anos, Barroso presidiu à Comissão Europeia, consolidando uma imagem de gestor político capaz de navegar entre governos, interesses e crises. Mas nem essa etapa seria o ponto final da viagem.
Quando deixou Bruxelas, Barroso aceitou um cargo no poderoso banco de investimento Goldman Sachs. A decisão gerou críticas intensas na Europa, sobretudo por ocorrer poucos anos após a crise financeira global. Para muitos observadores, simbolizava uma porta giratória entre política e finança que alimenta a desconfiança pública em relação às elites.
Hoje, já fora de cargos institucionais, Barroso continua a intervir no debate público. Ontem criticou a posição espanhola de limitar o uso das suas bases militares por forças dos Estados Unidos, afirmando que um país europeu não pode ser “a única vegetariana num mundo que come carne”. A metáfora é curiosa. Mas talvez revele algo mais profundo sobre a própria trajetória de quem a pronuncia.
Porque, olhando para trás, o percurso de Durão Barroso parece menos uma linha ideológica coerente e mais uma sucessão de adaptações ao clima político dominante de cada época. Do radicalismo maoísta à diplomacia atlântica, do poder governamental à alta finança global, poucas figuras portuguesas ilustram tão bem a capacidade de sobreviver - e prosperar - em ambientes políticos radicalmente diferentes.
Há quem chame a isso pragmatismo. Outros preferem uma palavra mais antiga da política: oportunismo. Mas uma coisa é certa: na grande mesa do poder internacional, Durão Barroso nunca quis ser vegetariano e, hoje, come toda a carne que lhe derem. Come enquanto não for comido, porque na realidade - como outros - se serve desta sociedade distraída para ter sempre o melhor prato na frente!

UM JEITO MANSO: Há quem os tenha no sítio -- A palavra ao meu mari...

UM JEITO MANSO: Há quem os tenha no sítio -- A palavra ao meu mari...:   De quando em vez um ou outro comentador de direita da nossa televisão diz mal do Pedro Sánchez. Não conheço o suficiente da politica espan...

António Lobo Antunes (1942–2026):

De longe em longe cabe-nos a sorte de topar com uma pessoa assim, que gosta de nós não apesar dos nossos defeitos mas com eles, num amor simultaneamente desapiedado e fraternal, pureza de cristal de rocha, aurora de Maio, vermelho de Velázquez.

— António Lobo AntunesMemória de Elefante

05/03/2026 by  

Do blogue Aventar 

O julgamento de Sócrates caminha para a eternidade, agora com a renúncia de advogados em defendê-lo:

Quem é o jornalista que mais vezes cita o caluniador profissional pago pelo Público? É o Manuel Carvalho. Que não apenas o cita, mais ainda o apresenta como referência moral e farol intelectual nas matérias que envolvam Sócrates ou alguém do PS. Já diziam os gregos, os iguais atraem-se.

No episódio da chachada que assina, acima exposto, o Carvalho quis juntar-se pela enésima vez ao linchamento de Sócrates e resolveu mostrar que o problema do caluniador profissional que chegou a presidente do 10 de Junho não está nele, está em quem o foi buscar ao esgoto a céu aberto para encher o pasquim da Sonae com a sua obsessiva e venal pulhice. Assim, chamou a jornalista Mariana Oliveira, da casa e apresentada como especialista na Operação Marquês, para dizer coisas. A senhora cumpriu o que dela se esperava, informando os ouvintes de ser já indiscutível que Sócrates é tudo aquilo que os caluniadores acharem que é, opinou sem hesitar. Os anos passados a estudar o Processo Marquês, e a falar com procuradores e juízes, cimentaram nela a convicção de que a imprensa tem a missão de ajudar o povo a querer muito que Sócrates seja arrastado para um calabouço sem se poder defender.

O Carvalho entusiasmou-se com a sintonia da colega e lançou esperançoso a pergunta sobre a possibilidade de se oficializar ser este um julgamento de excepção. Hitler, Estaline e Mussolini criaram tribunais de excepção, são exemplos inspiradores que certamente conhece e que lhe poderão ter vindo à lembrança.

Quando Passos e o Ventura tomarem conta disto, o Carvalho irá a correr candidatar-se a juiz no tribunal dos “Portugueses de Bem”, onde os corruptos do PS já sabem o que os espera: condenações excepcionais.

 por Valupi

Do blogue Aspirina B