Rádio Freamunde

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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Bem-vindos ao «Parlamento CHEGA»:

Onde o circo é permanente e os verdadeiros problemas dos portugueses ficam à porta.
A lei da nacionalidade não resolve nada. É teatro.
Antes de mais... não, não há nenhuma invasão de estrangeiros a pedir a nacionalidade.
Se calhar, há um grupo — os judeus sefarditas.
Mas esses? Silêncio total.
O «Parlamento CHEGA» engoliu a língua.
Tudo isto é uma cortina de fumo para esconder que estão a construir um país de castas — e tu és a plateia que paga o bilhete.
Os apoiantes do CHEGA ainda não perceberam que são as próximas vítimas. Que a armadilha está a ser construída debaixo dos pés deles.
Primeiro, criaram os «portugueses de bem».
Depois, inventaram os «portugueses de segunda» — os imigrantes que trabalham, descontam e pagam impostos como qualquer outro.
E como fizeram isso?
Pegaram em crimes hediondos.
Repetiram-nos em videozinhos até ao enjoo.
Colaram-nos a uma comunidade inteira.
Fabricaram o medo.
E, com medo,
aceitam leis «excepcionais».
Aceitam que uns portugueses valham mais do que outros.
Aceitam que a justiça deixe de ser cega.
E o gajo que ganha o ordenado mínimo ainda por cima aplaude,convencido de que está um degrau acima, a abanar a bandeira com orgulho de marioneta.
Não está um degrau acima.
Nunca esteve.
É apenas a marioneta útil e distraída — descartável assim que deixar de servir na tomada do poder.
Neste sistema, quem manda não é a nacionalidade.
É o dinheiro. Sempre foi, sempre será.
Hoje, são os imigrantes os «de segunda».
Amanhã, és tu.
Depois levas com um pacote laboral em cima — e já nem és de segunda.
És de terceira.
Precário, sem férias, sem baixa, cansado e sem futuro.
Mas, ao menos, não és imigrante, pois não???
No momento em que aceitas que há portugueses com menos direitos — sujeitos a leis diferentes, a uma justiça diferente — destruíste o princípio mais elementar da democracia.
Não há meio-termo. A partir daí, é sempre a descer.
Quem são os verdadeiros «portugueses de primeira»? Perguntas tu...
Não és tu, nem são os que votam no CHEGA.
São os que o financiam.
Os mesmos que te pagam uma miséria e se riem enquanto vêem dois terços do Parlamento dançar na palma da mão deles.
Ensinaram-te a odiar os de baixo para nunca — jamais — olhares para os de cima.
Ensinaram-te a dividir: os ciganos, os imigrantes, as mulheres, os de fora, os diferentes.
Sempre os de baixo contra os de baixo.
Nunca os de baixo contra os de cima.
E é assim — uma lei de cada vez, um decreto de cada vez, um medo de cada vez — que um país que era de todos vai sendo entregue às elites.
Quando o Tribunal Constitucional chumbar esta idiotice — e vai chumbar — já sei o que vem a seguir: o CHEGA em modo de vítima, com azia e lágrimas de crocodilo, a gritar que os juízes são o inimigo, a abrir a porta para meter lá dentro os seus próprios homens.
Para tornar esta hierarquia permanente.
Gravada na Constituição.
Intocável.
Este teatro tem dois objectivos. Nenhum deles é proteger-te.
O primeiro: habituar a sociedade a aceitar que há quem mande e quem obedeça — com leis suaves para uns, leis duras para outros.
O segundo: atacar as instituições quando estas travam o golpe, fingindo que são vítimas de um sistema corrupto.
Para depois terem a desculpa de o mudar.
O objectivo nunca foi esta lei, feita para ser chumbada.
O objectivo foi ensinar-te a aceitar que há gente que vale menos do que tu.
Tu, que votaste no CHEGA: espero genuinamente que estejas no topo desta hierarquia que ajudaste a construir.
Porque, se não estiveres — e provavelmente não estás — foste enganado de uma forma que vai doer muito mais do que qualquer imigrante alguma vez te poderia fazer.
Enquanto o povo discute quem é «mais português»...

os bilionários bebem champanhe e riem-se, perante a distracção perfeita que ainda por cima lhes dá votos para inclinar o país ainda mais para os seus bolsos.

Eduardo Maltez Silva  

A guerra vista por um ateu pacifista, ignorante da guerra e dos desígnios do Divino:

Andava a guerra a matar muito, com o deus dos judeus irado com o deus irascível dos islamitas, quando o inconstante deus dos cristãos encontrou na fúria épica do mais desmiolado dos seus crentes, o indefetível aliado do deus dos judeus na invasão do Irão.
Não se conhece a mais leve escoriação no deus de cada um deles, e são incontáveis os milhões de crentes que, a crer no vademécum de cada crença, chegam precocemente à presença do seu deus, por vontade do deus dos crentes da concorrência.
Andavam judeus a dizimar islamitas ansiosos por exterminar judeus, quando o cristão que se julgava ungido do Senhor e detentor das melhores armas para matar, se dispôs a percorrer os céus, a terra e os mares para matar os mais destacados funcionários do deus concorrente, no Irão, com uma parafernália bélica capaz de acelerar o Armagedão.
Os crentes da Tora matavam em Gaza e na Cisjordânia quando os cristãos foram em seu socorro e levaram a guerra para o Líbano. Os crentes do Irão passaram a disparar contra judeus, cristãos e islamitas heréticos graças a ateus confessos e cristãos, respetivamente da China e Rússia, com armas e inteligência, em inteligência, os militares são melhores que qualquer deus.
Trump, uma espécie de sionista cristão, mais crente em prazeres da carne do que na vida eterna, enredou o mundo numa confusão que ameaça o futuro da Humanidade. É o que dá votar na extrema-direita, dar o poder a quem devia vestir uma camisa de força, ter na a Sala Oval quem devia estar internado num hospício.
Na minha descrença, creio que Trump se prepara para dar de frosques e culpar cristãos que rejeitaram a aventura. Os mortos serão mártires ou terroristas, conforme a lado.
Nos medicamentos, para avaliar a eficácia, fazem-se ensaios duplo-cegos com placebo, nos deuses, talvez por serem placebo, não há ensaios nem avaliação ou qualquer prova.
No mundo insano, é na catolicíssima Espanha que a voz de um ateu impõe um módico de salubridade, “Não preciso de religião para saber o que é certo e o que é errado”, e se tornou a referência democrática e progressista da Europa que se ajoelhou a Trump na indigna subserviência que a deixou humilhada, empobrecida e envergonhada.
Envergonha a desfaçatez de Trump a bombardear os iranianos, enquanto negociava, a chantagem de que foi capaz, a chantagem de que nos deixa reféns, daqueles brutos que julgam ter o deus verdadeiro, odeiam crentes de outros deuses e os descrentes de todos os deuses e demónios que infestam o mundo.
Quem crê em orações, reza para que o Canal de Ormuz, antes aberto, seja reaberto por quem perdeu 100% da capacidade militar, segundo o agressor, talvez com uma insólita portagem dos Aiatolas para dominar o mundo islâmico e impor a conversão do resto.

Permitam-me, leitores, que substitua pelo vosso “Deus nos valha”, a exclamação que só recorrendo a Gil Vicente me permitiria desabafar!

 Carlos Esperança

ÚLTIMA HORA:

O presidente do Irã Pezeshkian divulga uma longa carta pública dirigida ao povo americano antes do discurso de Trump à nação, defendendo as suas ações, negando que representa uma ameaça e culpando os EUA por escalar o conflito - enquanto avisa que os ataques contínuos irão aprofundar a instabilidade e o ressentimento.
Ele adverte: "Atacar a infraestrutura vital do Irã - incluindo energia e instalações industriais - visa diretamente o povo iraniano. Além de constituírem um crime de guerra, tais ações carregam consequências que se estendem muito além das fronteiras do Irã"
CARTA COMPLETA ABAIXO:
"Para o povo dos Estados Unidos da América, e para todos aqueles que, em meio a uma enchente de distorções e narrativas fabricadas, continuam a buscar a verdade e aspiram a uma vida melhor:
O Irã — por este próprio nome, caráter e identidade — é uma das civilizações contínuas mais antigas da história da humanidade. Apesar de suas vantagens históricas e geográficas em vários momentos, o Irã nunca escolheu, na sua história moderna, o caminho da agressão, expansão, colonialismo ou dominação. Mesmo depois de suportar ocupação, invasão e pressão sustentada das potências globais - e apesar de possuir superioridade militar sobre muitos de seus vizinhos - o Irã nunca iniciou uma guerra. No entanto, repeliu resoluta e corajosamente aqueles que o atacaram.
O povo iraniano não abriga nenhuma inimizade para com outras nações, incluindo o povo da América, Europa ou países vizinhos. Mesmo diante de repetidas intervenções e pressões estrangeiras ao longo da sua orgulhosa história, os iranianos têm consistentemente traçado uma clara distinção entre governos e povos que governam. Este é um princípio profundamente enraizado na cultura iraniana e na consciência coletiva - não uma postura política temporária.
Por esta razão, retratar o Irã como uma ameaça não é consistente com a realidade histórica nem com fatos observáveis atuais. Tal percepção é o produto dos caprichos políticos e econômicos dos poderosos - a necessidade de fabricar um inimigo para justificar a pressão, manter o domínio militar, sustentar a indústria de armas e controlar os mercados estratégicos. Num ambiente assim, se uma ameaça não existe, ela é inventada.
Dentro desta mesma estrutura, os Estados Unidos concentraram o maior número de suas forças, bases e capacidades militares em torno do Irã - um país que, pelo menos desde a fundação dos Estados Unidos, nunca iniciou uma guerra. Agressões americanas recentes lançadas a partir destas bases demonstraram quão ameaçadora é uma presença militar. Naturalmente, nenhum país confrontado com tais condições renunciaria ao reforço das suas capacidades defensivas. O que o Irã fez - e continua a fazer - é uma resposta medida fundamentada em legítima autodefesa, e de forma alguma uma iniciação de guerra ou agressão.
As relações entre o Irã e os Estados Unidos não eram originalmente hostis, e as primeiras interações entre o povo iraniano e americano não foram marcadas com hostilidade ou tensão. O ponto de viragem, no entanto, foi o golpe de Estado de 1953 - uma intervenção americana ilegal destinada a impedir a nacionalização dos recursos próprios do Irão. Esse golpe interrompeu o processo democrático do Irã, restabeleceu a ditadura e semeou profunda desconfiança entre os iranianos em relação às políticas dos EUA.
Esta desconfiança aprofundou-se ainda mais com o apoio dos EUA ao regime do Xá, o apoio de Saddam Hussein durante a guerra imposta dos anos 80, a imposição das sanções mais longas e abrangentes da história moderna e, finalmente, a agressão militar não provocada - duas vezes, no meio das negociações - contra o Irão.
No entanto, todas estas pressões falharam em enfraquecer o Irão. Pelo contrário, o país tornou-se mais forte em muitas áreas: as taxas de alfabetização triplicaram - de cerca de 30% antes da Revolução Islâmica para mais de 90% hoje; o ensino superior expandiu-se drasticamente; avanços significativos na tecnologia moderna; os serviços de saúde melhoraram; e as infraestruturas desenvolveram-se a um ritmo e escala incomparável com o passado. Estas são realidades mensuráveis e observáveis que permanecem independentes das narrativas fabricadas.
Ao mesmo tempo, o impacto destrutivo e desumano das sanções, da guerra e da agressão nas vidas do povo iraniano resiliente não deve ser subestimado. A continuação da agressão militar e dos atentados recentes afetam profundamente a vida, atitudes e perspectivas das pessoas. Isto reflete uma verdade humana fundamental: quando a guerra inflige danos irreparáveis a vidas, casas, cidades e futuros, as pessoas não ficarão indiferentes aos responsáveis.
Isto levanta uma questão fundamental: quais dos interesses do povo americano estão verdadeiramente a ser servidos por esta guerra? Houve alguma ameaça objetiva do Irã para justificar tal comportamento? Será que o massacre de crianças inocentes, a destruição de instalações farmacêuticas para tratamento do cancro ou a gabar-se de bombardear um país "de volta à idade da pedra" serve para qualquer propósito que não seja prejudicar ainda mais a posição global dos Estados Unidos?
O Irã prosseguiu as negociações, chegou a um acordo e cumpriu todos os seus compromissos. A decisão de se retirar desse acordo, escalar para o confronto e lançar dois atos de agressão no meio das negociações foram escolhas destrutivas feitas pelo governo dos EUA - escolhas que serviram as delírios de um agressor estrangeiro.
Atacar a infraestrutura vital do Irão - incluindo energia e instalações industriais - visa diretamente o povo iraniano. Além de constituírem um crime de guerra, tais ações carregam consequências que se estendem muito além das fronteiras do Irão. Geram instabilidade, aumentam os custos humanos e econômicos, e perpetuam ciclos de tensão, plantando sementes de ressentimento que durarão por anos. Isto não é uma demonstração de força; é um sinal de perturbação estratégica e de incapacidade de alcançar uma solução sustentável.
Não é também o caso que a América entrou nesta agressão como procuração por Israel, influenciada e manipulada por esse regime? Não é verdade que Israel, ao fabricar uma ameaça iraniana, procura desviar a atenção global dos seus crimes para com os palestinos? Não é evidente que Israel agora pretende lutar com o Irã até ao último soldado americano e ao último dólar dos contribuintes americano - transferir o fardo das suas delírios para o Irã, para a região e para os próprios Estados Unidos em busca de interesses ilegítimos?
“América First” está verdadeiramente entre as prioridades do governo dos EUA hoje?
Convido-o a olhar além da máquina da desinformação - parte integrante desta agressão - e, em vez disso, falar com aqueles que visitaram o Irã. Observe os muitos imigrantes iranianos talentosos - educados no Irã - que agora ensinam e conduzem pesquisas nas universidades mais prestigiadas do mundo, ou contribuem para as empresas de tecnologia mais avançadas do Ocidente. Será que estas realidades alinham com as distorções que lhe estão a ser informadas sobre o Irão e o seu povo?
Hoje, o mundo está numa encruzilhada. Continuar no caminho do confronto é mais caro e fútil do que nunca. A escolha entre confronto e compromisso é real e consequente; o seu resultado moldará o futuro das gerações futuras. Ao longo dos seus milênios de história orgulhosa, o Irã durou mais que muitos agressores. Tudo o que resta deles são nomes manchados na história, enquanto o Irã perdura - resiliente, digno e orgulhoso. "
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terça-feira, 31 de março de 2026

UM JEITO MANSO: Os enormes equívocos das políticas do Montenegro o...

UM JEITO MANSO: Os enormes equívocos das políticas do Montenegro o...:   É certo e sabido que as políticas do governo não são suportadas em factos nem em  informações fidedignas. Vão a reboque do Andrézito ou sã...

O Irão e a Armadilha de Tucídides:

 (Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 31/03/2026)

O preconceito e a sobranceria ideológica impediram os responsáveis militares norte-americanos e israelitas de perceberem o grau de preparação de Teerão para a guerra. Só isso explica a ingénua convicção numa derrota fácil e rápida do Irão.

O comportamento do presidente Donald Trump no seu segundo mandato traz-nos à memória a Armadilha de Tucídides, um conceito geopolítico desenvolvido por Graham Allison, em 2015, que descrevia o risco estrutural de uma guerra ocorrer quando uma potência emergente ameaça superar a potência consolidada. O receio da potência dominante ser suplantada pela potência desafiadora da Ordem gera tensões que descambam muitas vezes em guerras, algo que Allison observou em 12 dos 16 casos por ele estudados.

Na altura, Allison questionava se a China e os Estados Unidos conseguiriam escapar à Armadilha de Tucídides. Segundo ele, “tendo em conta a trajetória atual, uma guerra entre os EUA e a China nas próximas décadas não é apenas possível, como é muito mais provável do que se possa neste momento imaginar.”

Em 2012, durante a Administração Obama, a então secretária de estado Hillary Clinton veio falar, pela primeira vez, no “pivô para a Ásia” passando a considerar a China como a principal ameaça securitária dos EUA, e, como tal, a prioridade da política externa das Administrações que se lhe seguiram, travestida de várias nuances discursivas.

Em 2017, a RAND Corporation publicou um relatório sobre uma guerra entre os EUA e a China, atribuindo a vitória aos primeiros, assumindo que esta não evoluiria para o patamar estratégico nuclear. Há 10 anos o resultado poderia, eventualmente, ser esse, hoje seguramente que não o será, mesmo contando Washington com a preciosa ajuda dos aliados no sudoeste asiático. Os EUA seriam incapazes de manter uma guerra de alta intensidade prolongada, no Pacífico ocidental, um Teatro de Operações a mais de 10 mil quilómetros da sua costa oeste.

Os estrategos norte-americanos sabem que foi perdida a oportunidade de os EUA infligirem uma derrota militar à China. A forma de a submeterem à sua vontade tinha de ser agora revista. A ameaça sistemática do uso da força para obrigar à genuflexão de Pequim tinha-se tornado anacrónica. A nova estratégia passava por quebrar a entretanto formada coligação anti hegemónica russo-chinesa degradando, em primeiro lugar, as capacidades do seu elo mais fraco, o que exigia uma mudança de regime em Moscovo, e colocar no poder segmentos da elite russa favoráveis a novas alianças e parceiros estratégicos.

Essa operação desenvolveu-se em três frentes, com a Ucrânia a desempenhar um papel crucial nesse projeto. É, segundo este prisma, que se devem interpretar os acontecimentos instigados por Washington na Ucrânia, no século XXI – a revolução laranja, em 2004, e o golpe de estado de Maidan, em 2014, que derrubou um presidente democraticamente eleito –, para colocar no poder atores hostis a Moscovo.

Esses desenvolvimentos criaram as condições objetivas e subjetivas para a invasão, primeiro da Crimeia, ainda em 2014, e da própria Ucrânia, em fevereiro de 2022, empurrando a Rússia para uma guerra de atrito indesejada. Passados quatro anos de guerra, Washington ainda não conseguiu exaurir a Rússia nem colocar uma “Delcy Rodriguez” no Kremlin. Em vez de criar brechas nessa coligação, as ações de Washington reforçaram-na, transformando-a numa parceria estratégica.

A execução desse projeto hegemónico não corria bem a Washington. No seu primeiro mandato, Trump adotou políticas comerciais agressivas contra a China, que o seu sucessor Joe Biden não revogou. No seu segundo mandato, Trump voltou à carga de um modo muito mais assertivo, tentando sem sucesso dobrar a China recorrendo a uma ofensiva tarifária sem precedentes.

Mas havia ainda uma modalidade de ação por explorar. Frustrada a hipótese de provocar uma divisão entre a China e a Rússia e bater os seus opositores por partes, restava ainda a Washington a possibilidade de jogar a cartada iraniana. Em colaboração com Israel, podia atuar sobre o terceiro pilar da aliança anti hegemónica, tremendamente fustigado por décadas de sanções.

Lembremo-nos do que escreveu Brzezinski: a maior ameaça à hegemonia norte-americana é a criação de uma aliança anti hegemónica China-Rússia-Irão, que, por sinal, se encontrava em fase de consolidação. Seria uma tremenda vitória estratégica para Washington colocar o Irão na sua área de influência, um país decisivo para as estratégias chinesa e russa. Uma mudança de regime em Teerão constituiria uma estocada demolidora nessa aliança anti hegemónica. Se conseguisse isso, não só infligiria uma derrota estratégica à China e à Rússia, como Washington se colocaria numa posição de extrema vantagem na competição pelo lugar cimeiro na Ordem Mundial. Abriria as portas ao regresso à unipolaridade com um centro a decidir tudo, como aconteceu após a implosão da União Soviética.

Os EUA tinham agora pela frente uma aliança desafiadora da sua posição dominante cujas partes, com diferentes capacidades estratégicas, representavam isoladamente desafios distintos. Se no caso da China as ferramentas empregues pelos EUA não tinham até agora passado pela confrontação militar direta – o uso da força contra a China tinha-se tornado algo razoavelmente impensável –, já o mesmo não se poderia dizer relativamente à Rússia, sujeita a confrontação militar indireta através do proxy ucraniano, que apoiavam e apoiam militarmente, e direta contra o Irão.

O futuro do conflito militar com o Irão é cada vez mais incerto, encontrando-se a vitória militar de Washington cada vez mais distante. Os ataques do Irão obrigaram as forças norte-americanas a abandonar as suas bases no Médio Oriente. O preconceito e a sobranceria ideológica impediram os responsáveis militares norte-americanos e israelitas de perceberem o grau de preparação de Teerão para a guerra. Só isso explica a ingénua convicção numa derrota fácil e rápida do Irão.

O Irão iniciou a preparação para o embate em curso há quatro décadas. Começou em 1984, ainda durante a guerra com o Iraque, quando enviou treze oficiais à Síria aprenderem sobre algo que ninguém lhes iria vender, dando início à criação, a partir do zero, de uma capacidade balística própria, recorrendo primeiro à reversão tecnológica para posteriormente se lançar em programas de investigação e desenvolvimento envolvendo as universidades.

Os desenvolvimentos no campo de batalha após quatro semanas de guerra, cada vez mais desfavoráveis à aliança israelo-americana, levantam duas interrogações incontornáveis. Qual será a reação de Trump quando, sem espaço para recuar, não lhe for mais possível escamotear a derrota estratégica e a sua ambição hegemónica ficar irremediavelmente comprometida pela aventura militar contra o Irão? Qual será a resposta de Netanyahu quando se convencer de que vai sair derrotado desta confrontação, tendo em conta que não é um ator político racional e que guia a sua ação por princípios escatológicos?

A conjugação de um decisor pueril e imaturo, em Washington, com outro motivado pela inspiração divina, em Telavive, cria um caldo explosivo propício a uma confrontação generalizada. Não será por acaso que já surgem no espaço público comentadores associados à embaixada de Israel a advogarem abertamente o bombardeamento nuclear do Irão.

Se analisada de um outro prisma, a Armadilha de Tucídides pode ajudar-nos a entender melhor o momento em que nos encontramos, não da confrontação direta entre a potência dominante e a potência desafiadora, mas da sua antecâmara. A dimensão dos danos reputacionais e geoestratégicos da previsível derrota norte-americana poderá ser inaceitável para Washington e, por acréscimo, para Telavive. Esta situação e a conhecida ausência de racionalidade destes dois atores coloca em cima da mesa a probabilidade de apostarem numa solução de soma negativa. Perante a ameaça que isso colocará à humanidade, não deixa de surpreender a passividade de certos atores internacionais face à eventualidade de um desfecho dramático para todos.

Do blogue Estátua de Sal

segunda-feira, 30 de março de 2026

O Luís vingou o Aníbal:

(Carlos Esperança, in Facebook, 30/03/2026, Revisão da Estátua)

Retirar Saramago, o Nobel da Literatura Portuguesa, do currículo académico, não é um ato gratuito, é o ajuste de contas com a democracia e a memória coletiva do 25 de Abril.

Vinte anos depois da saída de Cavaco Silva de Belém, salazarista que abominava a obra de Saramago, sem nunca ter lido uma única página, coube ao governo de Montenegro a tentativa de agradecer ao «génio da banalidade» o apoio indefetível prodigalizado.

A substituição de José Saramago por Mário de Carvalho, é uma manobra bem ao gosto do dissimulado Montenegro, propor um grande escritor da mesma área ideológica para ocultar o saneamento político que se pretende para, depois, sem ruído, afastar o último.

Saramago continuará a ser lido por quem ama a língua portuguesa e aprecia a literatura, mas a tentativa de vingança está em curso perpetrada por quem se apropriou da agenda ideológica do Chega e quer vingar Cavaco.

Eis algumas razões da tentativa de lesa-literatura:

L’Osservatore Romano, diário do Vaticano, escreveu quando Bento XVI era Papa: “Saramago é, ideologicamente, um comunista inveterado” e, depois da morte, ainda lhe chamou “populista extremista” e “ideólogo antirreligioso”, epítetos azedos de um reacionário.

O eurodeputado do PSD, Mário David, nascido em Angola, que viveu quase sempre fora de Portugal, declarou, após a atribuição do Nobel, que tinha vergonha de ser compatriota do escritor e que este devia renunciar à nacionalidade portuguesa.

O Sr. Manuel Clemente, ex patriarca de Lisboa, então bispo do Porto, afirmou que José Saramago “revela uma ingenuidade confrangedora quando faz incursões bíblicas” e, como “exigência intelectual, deveria informar-se antes de escrever”, como se alguém o coagisse a ele, bispo, a pensar antes de falar ou a calar-se quando o silêncio é crime, como aconteceu nos casos de pedofilia do clero da sua diocese.

Doze livros de José Saramago estão entre os classificados com os mais altos níveis de interdição do Opus Dei a nível internacional, num Índex de 79 obras de autores portugueses, incluindo Eça de Queirós, Fialho de Almeida, Vergílio Ferreira, Miguel Torga, Lídia Jorge e David Mourão-Ferreira.

Sousa Lara, subajudante de ministro de Cavaco, censurou “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e opôs-se a que fosse incluído no concurso a um prémio literário europeu. Foi o rosto do cavaquismo, intolerante, vesgo e analfabeto.

Montenegro comporta-se como Cavaco na cultura, Durão Barroso no apoio à invasão do Irão e Santana Lopes na governação. É a síntese do pior da direita da pior maneira.

«Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o reino dos céus». (Mateus 5:3)

Do blogue Estátua de Sal

domingo, 29 de março de 2026

O CRIME DO PADRE MAX:

Um conto para a Páscoa, que aconteceu há 50 anos.

Maximiliano era um jovem português, sacerdote católico e… comunista! O seu nome rapidamente passou a ser apenas Max, um quase Marx, tão inusitado como improvável para um religioso. Ou não.
Corria o período pós-revolucionário em Portugal, fortemente agitado pela abertura democrática e diferentes visões do que deveria ser o país novo, aquele que sucederia o Estado Novo.
O padre Max era um cristão militante de esquerda, com uma forte identificação aos ideais socialistas e marxistas.
Acreditava que o sacerdócio deveria servir o povo e não "servir-se" dele, alinhado com a Teologia da Libertação, uma corrente que combina a doutrina cristã com a análise social de esquerda.
Por isso, foi um dos fundadores do UDP (União Democrática Popular), um partido de inspiração marxista-leninista. O Padre Max era um forte candidato à deputado nas eleições legislativas de 1976, até o momento em que foi assassinado.
Na noite de 2 de abril, militantes radicais de direita do CDS, na sua ala mais extremista, mandaram pôr uma bomba no seu carro, matando-o e também tirando a vida de Maria de Lurdes, uma jovem que o acompanhava.
Do outro lado da trincheira política, estava o raivoso Cónego Melo (Eduardo Melo Peixoto), apontado como o mentor moral ou operacional na morte do Padre Max.
O padre Melo já tinha, à época, mais de 50 anos de idade. Ele tinha crescido à sombra de Salazar, admirava o ditador e era a face mais feroz e visível do ultra-conservadorismo católico. Como anticomunista ferrenho, amigo do fascismo, ele estava muito incomodado pelos ventos de mudança, durante o período pós-25 de Abril.
Militante radical, Melo associou-se ao MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal), uma organização violenta, política e militar, clandestina e de extrema-direita, que atuou em Portugal entre 1975 e 1976.
Dom Melo, junto com os adeptos de uma Igreja mais rígida e reacionária, abençoou as mãos que puseram bombas, mas houve excessos de violência dos dois lados ideológicos. Uma guerra triste, que trocou o vermelho dos cravos pelo do sangue.
Maximiliano morreu. O Padre Melo escapou da condenação, entre omissões, anistias e outras situações sinuosas. Ele ainda permaneceu na sua Igreja, mas também já o comeu a terra, em 2008, velho e envergonhado pela verdade histórica. A maior parte das personagens deste triste evento já partiram. Se houver Céu e Inferno, terão muitas explicações a dar…
Qual foi, afinal, o crime do padre Max, pelo qual pagou com a vida?
Vejamos:
- Desafiou as elites religiosas, amigas do poder ditatorial, que usavam a lei para oprimir o povo;
- Denunciou a corrupção, afirmando que a religião servia para oprimir em vez de libertar;
- Não prometeu a justiça e a recompensa no céu, antes lutou por ela nas ruas e nos campos de Vila Real;
- Foi executado por forças políticas e religiosas da época, por ser considerado um subversivo e um agitador.
Enfim, Max aprendeu as lições de Marx, mas também seguiu criteriosamente os ensinamentos e a vida de Jesus Cristo…
E morreu por nós.