Coisas que Podem Acontecer:
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
terça-feira, 3 de novembro de 2026
UM JEITO MANSO: Ganda porrada, hein...?, Montenegro & Associados.....
Tomás Larisch Frazer:
Doente, ainda arrepiado e só não choro porque já não há forças e já chorei demasiado. Obrigado a todas e todos que fizeram este momento da orquestra @acampada.lisboa acontecer, desde a quem fez arranjos, à organização incansável e estes músicos incríveis. Obrigado ao @maximo_francisco_ por este arranjo que nos doaste.
Não, como é óbvio, não filmei a casa de Leitão Amaro:
O Triunfo do Porco de Intervenção:
(Por A Crónica que Veio do Frio, in Facebook, 01/11/2026, Revisão da Estátua)

Em Agosto de 1974, o Governo Provisório assinou um decreto para cumprir o Programa do MFA. O Decreto-Lei 406/74 regulava o direito de reunião e de manifestação. Cinquenta e dois anos depois, a PSP usa-o para varrer manifestantes de praças à bastonada.
O decreto ordena acabar as reuniões em público à 00h30. Explicado por um constitucionalista que a ideia é proteger o descanso dos outros cidadãos. O que tem piada. A cidade que dorme sem se queixar com o barulho dos tuk-tuks, obras e concertos de Verão descobriu repentinamente uma sensibilidade acústica ao nível de um convento de clausura.
Existe também, do outro lado, o artigo 45.º da Constituição, que garante a manifestação pacífica e sem armas, sem necessidade de autorização. Entre um decreto do Governo Provisório e a Constituição, o Governo e a PSP escolheram o decret. Em Madrid, onde a acampada durou vários dias, o Tribunal Constitucional deu razão aos manifestantes e proibiu o desmantelamento. Cá, o procurador-geral desafiou o Parlamento a rever o diploma e recusou levá-lo ao Tribunal Constitucional. O presidente da Assembleia diz que cabe ao Tribunal Constitucional dizer se a lei é constitucional. O decreto anda de mão em mão, Como um miúdo a berrar numa viagem de metro em hora de ponta . Ninguém o quer, ninguém o larga.
Na rua, o debate foi muito menos jurídico.
No domingo, 25 de Outubro, a polícia dispersou os manifestantes à bastonada e com cães, deixando pelo menos 33 feridos. Voltaram aos mesmos procedimentos na noite passada.
Sábado à tarde, milhares de pessoas marcharam do Largo de Camões ao Rossio. A PSP avisou que as tendas tinham que ser desmontadas e retiradas até à meia-noite e meia; a Acampada de Lisboa retaliou respondendo que a ideia era acordar no Rossio e que estariam dispostos a resistir. Cada lado apresentou o seu horário, e o relógio, que não vota, deu razão aos que tinham mais armas. Por volta das 4h30, o Corpo de Intervenção avançou em simultâneo em Lisboa e no Porto. Na capital, os manifestantes formaram um cordão humano para atrasar a polícia, que o atravessou à bastonada. No Porto, a Praça D. João I foi esvaziada e carrinhas da Câmara trataram da limpeza.
A polícia fala em treze agentes feridos e treze manifestantes detidos, seis em Lisboa e sete no Porto, e o porta-voz, subintendente Sérgio Soares, garante que a actuação foi proporcional. Proporcional ao quê, não disse. A organização do Porto conta 38 feridos, e a Acampada de Lisboa fala em mais de 30 feridos, dez deles hospitalizados. Dois boletins, duas tabuadas.
No Porto, a PSP confirmou ainda a presença de quatro agentes à paisana, e que um deles sacou de uma arma de fogo, descrita como meio de dissuasão perante a agressão de manifestantes. Fica registrado: bastão para a praça, pistola para a conversa. Entre os detidos da Invicta, quatro mulheres e três homens, contam-se duas Mães pela Acampada. O Estado ficou, finalmente, protegido das mães, grupo que a história sempre mostrou ser o mais perigoso para os regimes.
O corpo de intervenção agiu sem identificação, e no Porto os capacetes azuis não tinham número. Um repórter de imagem da CMTV levou uma bastonada e diz que estava completamente identificado e que a polícia sabia que ele não era manifestante. A PSP não discrimina: bate na imprensa com a mesma isenção com que bate no povo. A Provedoria de Justiça mandou observadores para o Rossio, que é o que um Estado faz quando começa a desconfiar de si próprio. Segundo o movimento, é a terceira intervenção violenta contra a Acampada de Lisboa em menos de três semanas.
Um agente sem número, de bastão em punho, a dispersar quem traz um cartaz. É a ordem pública, na versão que só convence quem nunca esteve do lado errado dela.
Luís Neves garantiu que a PSP não excederia os poderes que a lei lhe dá e que o direito à manifestação é respeitado por todos. Depois vieram os cães, os bastões e os capacetes anónimos, o que prova que os poderes da PSP são generosos: cabe lá tudo, menos um número. Informou ainda o Parlamento de que esteve sempre em articulação com a PSP. Estatuto curioso: presente em todas as fases, responsável por nenhuma. Espectador de camarote de um espectáculo que não tinha encenador. Repete firmemente que a lei é para cumprir, e percebe-se: é uma lei de 1974, a Constituição é de depois, e o ministro, como bom funcionário, cumpre a mais antiga.
E o primeiro-ministro? Luís Montenegro tem a coragem de um cao debaixo do sofá em noite de fogo de artifício. Há quem precise urgentemente de aprender Constituição, e a escola é o sítio indicado. Depois disse que esteve a trabalhar, e acredito: gerir cinquenta e cinco imóveis dá trabalho a tempo inteiro, e ainda fundou uma empresa de consultoria e imobiliário. Falta explicar porque nenhum desses trabalhos incluía abrir a boca sobre as bastonadas em duas cidades.
Não escrevo «fascismo» de ânimo leve, escrevo como aviso. A democracia raramente morre de tanques; morre de um decreto desenterrado, de um polícia sem número, de um ministro que repete que a lei é para cumprir e de um primeiro-ministro que desaparece para visitar escolas. É assim que o ensaio começa. Ainda não é a estreia, mas já se ouvem as pancadas de Molière .
Quem aplaude é o Chega, e aplaude duas vezes, com a mesma mão. Ventura gabou a paciência, a proporcionalidade e a educação da PSP. Educação, de facto: ensinaram anatomia e primeiros socorros a dezenas de pessoas, em directo. Apelidou de «vândalos e provocadores» os manifestantes e culpou arruaceiros da extrema-esquerda. Garantiu que o Estado não se podia acobardar e, nos entretantos, desafiou o Presidente da República a aplaudir publicamente a polícia, pois nada completa uma bastonada como uma salva de palmas institucional.
Falemos então de casas.
Os 220 membros do Governo e deputados do PSD, Chega, IL e CDS-PP possuem, em conjunto, 1.039 imóveis. Montenegro é dono de 55 imóveis e Paulo Rangel de 18. A lei de 1974 acaba com as reuniões à meia-noite e meia, mas nenhuma lei impede quem tem imóveis de legislar sobre arrendamento. Uma economista avisa que os benefícios correm o risco de ficar nos senhorios, sem chegar aos inquilinos. Até a disputa entre partidos tem um toque de comédia de condomínio: o PSD mandou distribuir os registos de interesses de deputados do Chega com imobiliárias, senhorios a denunciarem-se uns aos outros como vizinhos que se queixam do barulho. A casa, parece, está sempre bem tratada. O inquilino é que anda lá fora, de tenda, a ser desmontada com bastonadas às 4h30.
O direito à habitação não é um favor, está no artigo 65.º da Constituição, no mesmo livro do artigo 45.º, o que dá aos dirigentes uma única dificuldade: terem de consultar o livro. Os direitos básicos têm um defeito em comum: ficam incómodos assim que alguém os reclama em voz alta, depois da meia-noite e meia.
Do Blogue Estátua de Sal
Depois de autorizadas:
Ou seja, não retiradas durante a noite de Domingo para Segunda-feira as tendas, há alguém que deve ser chamado à responsabilidade, ou até, demitido.
Espero pelo Conselho de Estado que resolução vai ter o Presidente da República, Primeiro Ministro e Ministro da Administração Interna.
Depois das investidas da polícia que não tiveram pejo em levar tudo à sua frente, mandando para o hospital com as cabeças partidas e várias escoriações, para depois brilhantes "cabeças", resolverem autorizarem tendas na acampada da Praça D. João 1.
Não há decoro. Assim pôs-se a policia contra manifestantes e agora só falta todos irem comer um belo jantar.
Espero por demissões. Se assim não for este Governo é um governo banana.
Manuel Pacheco
