Coisas que Podem Acontecer:
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
sexta-feira, 10 de julho de 2026
REFLEXÃO – OS "TRUQUES" DA COMISSÃO EUROPEIA:
Konstyantynivka – uma cidade, duas histórias:
(Por G. Gagliano, In Fórum da Escolha, in Facebook, 09/07/2026, Revisão da Estátua)

A batalha de Konstyantynivka marca um daqueles pontos de viragem em que a guerra deixa de ser apenas uma sucessão de quilómetros conquistados ou perdidos e se torna um teste de resiliência política, militar e psicológica. Moscovo anuncia a captura da cidade, Kiev nega, os centros de análise ocidentais minimizam o acontecimento e os mapas oscilam entre confirmações parciais e cautela. Mas o facto essencial permanece: a posição ucraniana naquele que é conhecido como o “cinturão de fortalezas” do Donbass parece agora seriamente comprometida.
Konstyantynivka não é uma cidade qualquer. Durante anos, foi um centro logístico, industrial e defensivo para a região de Donetsk, integrada neste sistema urbano fortificado que inclui Druzhkivka, Sloviansk e Kramatorsk. Desde 2014, a Ucrânia transformou estes centros numa barreira defensiva de betão, trincheiras, posições fortificadas, depósitos, caminho-de-ferro e entroncamentos rodoviários. Se Konstyantynivka caiu realmente, ou se a sua queda é agora apenas uma questão de horas, não estamos a assistir a um incidente menor, mas sim à erosão gradual do último grande cinturão defensivo da Ucrânia no Donbass.
A guerra das percepções
Tal como já ocorreu em Bakhmut, Avdiivka e Pokrovsk, a primeira batalha gira em torno da palavra “queda”. Para Moscovo, a cidade está libertada. Para Kiev, continua em disputa. Para muitos observadores ocidentais, a presença russa consiste em pequenos grupos infiltrados, e não no controlo total do território. Mas esta distinção, útil do ponto de vista técnico, corre o risco de se tornar operacionalmente frágil: se uma guarnição deixa de receber mantimentos, deixa de conseguir revezar as suas unidades, perde as suas rotas de fuga e permanece confinada a alguns núcleos urbanos, então a cidade já está perdida na prática, mesmo que ainda não conste da narrativa oficial.
A guerra moderna prospera com isto: imagens, mapas, declarações, negações. Moscovo quer mostrar que a sua ofensiva está a progredir precisamente no momento em que a Aliança Atlântica discute um novo apoio a Kiev. A Ucrânia precisa de evitar que uma derrota local se transforme numa crise de confiança entre os seus aliados. A Europa, dividida entre o cansaço económico e a obrigação política de apoiar Kiev, tende a interpretar cada revés militar como um problema de comunicação antes mesmo de o considerar um fator estratégico.
Avaliação militar: a lógica do atrito
A situação militar é clara. A Rússia continua a aplicar uma estratégia de pressão lenta, dispendiosa, mas consistente: drones, artilharia, bombas guiadas, ataques graduais e manobras de flanqueamento. Não se trata necessariamente de procurar uma vitória espetacular, mas sim a destruição metódica das brigadas ucranianas forçadas a defender os centros populacionais transformados em fortalezas.
Para Kiev, o dilema continua a ser o mesmo: recuar para poupar homens e recursos, ou resistir para abrandar o avanço russo e preservar o valor político. Até agora, a segunda opção tem prevalecido com frequência. Abrandou Moscovo, mas consumiu unidades treinadas, munições, oficiais, veículos e reservas. A defesa urbana, quando não é acompanhada de capacidade de contra-ataque, torna-se uma armadilha. O terreno é defendido, mas o exército é dizimado.
Se o cenário já observado noutros locais se repetiu em Konstyantynivka, então o problema não é simplesmente a perda da cidade. O problema é que cada cidade defendida até ao último momento reduz a capacidade da Ucrânia de construir uma nova linha estável mais a oeste. E quando a defesa se transforma numa série de resistências locais sem reservas móveis suficientes, a iniciativa passa definitivamente para o adversário.
Lyman e a ameaça a todo o sector
A possível queda de Lyman agravaria ainda mais a situação. Lyman é importante porque se encontra a leste de Sloviansk e representa mais um elemento de pressão russa sobre a conurbação Sloviansk-Kramatorsk. Enquanto Konstyantynivka abre o eixo em direção a Druzhkivka e Kramatorsk, Lyman exerce uma forte pressão sobre o eixo em direção a Sloviansk. Duas retiradas em rápida sucessão produziriam não só um efeito tático, mas também psicológico: a impressão de que a defesa ucraniana no Donbass está a perder a sua profundidade.
Numa perspetiva estritamente militar, a questão crucial não é se os russos entrarão hoje ou amanhã num distrito, mas se Kiev ainda possui reservas suficientes para fechar as brechas, reorganizar a frente, conter infiltrações e manter os elos logísticos. A guerra está a ser decidida cada vez menos nos centros das cidades destruídas e cada vez mais nas estradas que trazem munições, evacuam os feridos e impedem que as unidades fiquem isoladas.
Cenários económicos: o custo de uma guerra prolongada
A dimensão económica é igualmente importante. Cada recuo ucraniano aumenta a procura de mais ajuda ocidental, mas isto acontece numa altura em que a Europa já está sob pressão: finanças públicas sobrecarregadas, indústria em dificuldades, gastos militares crescentes e uma opinião pública menos disposta a financiar uma guerra sem fim à vista.
Para os Estados Unidos, a guerra continua também a ser um importante mercado estratégico: armamento, munições, reconstrução dos arsenais europeus e dependência tecnológica e militar dos aliados. Para a Europa, por outro lado, apoiar Kiev está a tornar-se cada vez mais dispendioso. Quanto mais a frente ucraniana recuar, maior será o custo político da continuidade da ajuda; mas também maior será o custo político de admitir que esta ajuda não alterou o equilíbrio de poder.
A Rússia, por seu lado, está a pagar um elevado preço humano e industrial, mas converteu uma parcela significativa da sua capacidade produtiva numa economia de guerra. A sua aposta é simples: resistir mais tempo do que a Ucrânia e mais tempo do que a paciência do Ocidente. É uma aposta brutal, mas até agora coerente com a natureza do conflito.
Análise geopolítica e geoeconómica
Do ponto de vista geopolítico, a queda de Konstyantynivka, a confirmar-se na sua totalidade, fortaleceria a posição negocial de Moscovo. Vladimir Putin pode apresentar o avanço no Donbass como prova de que o tempo está a favor da Rússia. Volodymyr Zelensky, por outro lado, precisa de demonstrar que cada perda territorial não compromete a capacidade de resistência da Ucrânia e que mais ajuda ocidental pode ainda alterar o equilíbrio de poder.
Do ponto de vista geoeconómico, a guerra confirma a transformação da Europa numa base de apoio financeiro, industrial e logístico para o conflito. A União Europeia está a aumentar as suas despesas militares, a adquirir sistemas de armas e a apoiar Kiev, mas ainda não conseguiu transformar esta mobilização numa autonomia estratégica. A dependência dos Estados Unidos continua forte, enquanto a Rússia consolida as suas rotas alternativas com a Ásia, o Médio Oriente e o Sul Global.
A verdadeira questão, portanto, não é simplesmente se Konstyantynivka caiu. A questão é se a queda desta cidade assinala o início da crise final da linha ucraniana no Donbass ou um novo capítulo na mesma guerra de desgaste. No primeiro caso, Moscovo teria alcançado um ponto de viragem operacional. No segundo, teria, no entanto, imposto a Kiev e ao Ocidente o problema mais difícil: continuar a pagar uma guerra que, na prática, parece recompensar quem tem mais homens, mais munições e mais tempo.
Do blogue Estátua de Sal
As desculpas não se pedem... evitam-se:
quinta-feira, 9 de julho de 2026
UM JEITO MANSO: Ainda o caos nos exames e o Fernando Alexandre, e,...
Ventos Semeados: Cinco Figurões num Dia
Qual é a coisa, qual é ela?
(In RiseUp Portugal, in Facebook, 08/07/2026, Revisão da Estátua)

Parece uma adivinha. Não é. É apenas uma pergunta a que o Ministério da Educação continua sem responder.
Existe uma plataforma suficientemente importante para digitalizar, gerir, classificar os exames nacionais, alterar o calendário escolar, condicionar as candidaturas ao ensino superior e obrigar milhares de famílias a reorganizar férias e trabalho. Mas, aparentemente, não é suficientemente importante para que o Ministério da Educação revele quem a desenvolveu. Deve ser a primeira plataforma informática protegida pelo segredo da confissão.
É uma forma particularmente criativa de entender a transparência. Os alunos vão poder, um dia destes, consultar gratuitamente as cópias das suas provas. Excelente. Já o país continua sem poder consultar uma informação bastante mais simples: quem está por trás da plataforma que lançou o sistema educativo neste caos. É provavelmente a única empresa do país capaz de provocar um problema nacional sem correr o risco de alguém lhe saber o nome.
Também não se pode dizer que tenha sido uma surpresa. Em 2025, durante o projeto-piloto realizado no exame de Filosofia, a plataforma já tinha dado problemas. Houve alertas. Houve críticas. Houveram alguns professores a defender que talvez fosse prudente testar melhor o sistema antes de o entregar à classificação dos exames nacionais. O Ministério ouviu tudo isso com a serenidade de quem ouve o alarme de incêndio e conclui que o edifício estava apenas demasiado quente. Avançou na mesma.
O resultado conhece-se. Mais de 350 mil exames por classificar, uma plataforma que colapsa logo no primeiro dia, classificadores convocados para disciplinas que nunca lecionaram, professores aposentados tratados como se continuassem no ativo, uma professora reformada e entretanto falecida convocada para corrigir exames e docentes a apresentarem Escusas de Responsabilidade porque deixaram de confiar na fiabilidade do próprio processo.
Quando finalmente surgiu uma explicação oficial, ela coube em duas palavras: “dificuldades técnicas”. É uma expressão extraordinária. Na Administração Pública portuguesa serve para tudo. Tanto explica uma impressora sem papel como um sistema nacional que deixa centenas de milhares de exames por classificar. É o equivalente burocrático do “foi o vento”. Acontece qualquer coisa. A culpa é de uma entidade invisível que aparece apenas para impedir perguntas incómodas.
Foi então que Fernando Alexandre resolveu explicar que os pais tinham sido imprudentes por marcarem férias. É uma contribuição notável para a teoria da Administração Pública. O Estado publica um calendário. As famílias organizam a vida em função dele. O calendário falha. A culpa passa a ser das famílias por terem acreditado no calendário. É uma ideia com enorme potencial. Se for aplicada a outros sectores, metade dos problemas da governação desaparecem por magia.
Daqui a pouco, um atraso de um comboio será culpa de quem apareceu à hora indicada na estação. Uma consulta adiada deixará de ser responsabilidade do hospital e passará a ser excesso de confiança do doente. Um passaporte que demora meses deixará de ser um atraso do Estado. Será imprudência de quem acreditou no prazo indicado.
A professora já falecida ocupou as manchetes porque era impossível competir com uma história daquelas. Mas quase desviou a atenção do essencial. O problema nunca foi apenas uma convocatória absurda. O problema é um sistema que já tinha dado sinais de fragilidade, foi generalizado na mesma, colapsou quando passou à escala nacional e continua envolto num mistério quase literário: ninguém sabe quem fez a plataforma.
No fundo, Fernando Alexandre tem razão numa coisa. Houve, de facto, imprudência. Mas talvez não tenha sido a dos pais. Porque confiar na informação publicada pelo Estado nunca deveria ser um ato de coragem. Ora, quando um governo conclui – que o erro dos cidadãos foi terem acreditado naquilo que ele próprio publicou -, talvez ele esteja a fazer uma confissão muito mais séria do que todas as “dificuldades técnicas” juntas.
Entretanto, a plataforma continua sem nome, a empresa continua sem rosto, a responsabilidade continua sem dono e a culpa já encontrou destinatário. Não foi o software. Não foi quem o desenvolveu. Não foi quem decidiu avançar apesar dos avisos. Foram as famílias que tiveram a ousadia de acreditar no Ministério da Educação. Convenhamos, há imprudências difíceis de perdoar.
Do blogue Estátua de Sal

