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quinta-feira, 9 de julho de 2026

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Qual é a coisa, qual é ela?

 (In RiseUp Portugal, in Facebook, 08/07/2026, Revisão da Estátua)

Parece uma adivinha. Não é. É apenas uma pergunta a que o Ministério da Educação continua sem responder.

Existe uma plataforma suficientemente importante para digitalizar, gerir, classificar os exames nacionais, alterar o calendário escolar, condicionar as candidaturas ao ensino superior e obrigar milhares de famílias a reorganizar férias e trabalho. Mas, aparentemente, não é suficientemente importante para que o Ministério da Educação revele quem a desenvolveu. Deve ser a primeira plataforma informática protegida pelo segredo da confissão.

É uma forma particularmente criativa de entender a transparência. Os alunos vão poder, um dia destes, consultar gratuitamente as cópias das suas provas. Excelente. Já o país continua sem poder consultar uma informação bastante mais simples: quem está por trás da plataforma que lançou o sistema educativo neste caos. É provavelmente a única empresa do país capaz de provocar um problema nacional sem correr o risco de alguém lhe saber o nome.

Também não se pode dizer que tenha sido uma surpresa. Em 2025, durante o projeto-piloto realizado no exame de Filosofia, a plataforma já tinha dado problemas. Houve alertas. Houve críticas. Houveram alguns professores a defender que talvez fosse prudente testar melhor o sistema antes de o entregar à classificação dos exames nacionais. O Ministério ouviu tudo isso com a serenidade de quem ouve o alarme de incêndio e conclui que o edifício estava apenas demasiado quente. Avançou na mesma.

O resultado conhece-se. Mais de 350 mil exames por classificar, uma plataforma que colapsa logo no primeiro dia, classificadores convocados para disciplinas que nunca lecionaram, professores aposentados tratados como se continuassem no ativo, uma professora reformada e entretanto falecida convocada para corrigir exames e docentes a apresentarem Escusas de Responsabilidade porque deixaram de confiar na fiabilidade do próprio processo.

Quando finalmente surgiu uma explicação oficial, ela coube em duas palavras: “dificuldades técnicas”. É uma expressão extraordinária. Na Administração Pública portuguesa serve para tudo. Tanto explica uma impressora sem papel como um sistema nacional que deixa centenas de milhares de exames por classificar. É o equivalente burocrático do “foi o vento”. Acontece qualquer coisa. A culpa é de uma entidade invisível que aparece apenas para impedir perguntas incómodas.

Foi então que Fernando Alexandre resolveu explicar que os pais tinham sido imprudentes por marcarem férias. É uma contribuição notável para a teoria da Administração Pública. O Estado publica um calendário. As famílias organizam a vida em função dele. O calendário falha. A culpa passa a ser das famílias por terem acreditado no calendário. É uma ideia com enorme potencial. Se for aplicada a outros sectores, metade dos problemas da governação desaparecem por magia.

Daqui a pouco, um atraso de um comboio será culpa de quem apareceu à hora indicada na estação. Uma consulta adiada deixará de ser responsabilidade do hospital e passará a ser excesso de confiança do doente. Um passaporte que demora meses deixará de ser um atraso do Estado. Será imprudência de quem acreditou no prazo indicado.

A professora já falecida ocupou as manchetes porque era impossível competir com uma história daquelas. Mas quase desviou a atenção do essencial. O problema nunca foi apenas uma convocatória absurda. O problema é um sistema que já tinha dado sinais de fragilidade, foi generalizado na mesma, colapsou quando passou à escala nacional e continua envolto num mistério quase literário: ninguém sabe quem fez a plataforma.

No fundo, Fernando Alexandre tem razão numa coisa. Houve, de facto, imprudência. Mas talvez não tenha sido a dos pais. Porque confiar na informação publicada pelo Estado nunca deveria ser um ato de coragem. Ora, quando um governo conclui – que o erro dos cidadãos foi terem acreditado naquilo que ele próprio publicou -, talvez ele esteja a fazer uma confissão muito mais séria do que todas as “dificuldades técnicas” juntas.

Entretanto, a plataforma continua sem nome, a empresa continua sem rosto, a responsabilidade continua sem dono e a culpa já encontrou destinatário. Não foi o software. Não foi quem o desenvolveu. Não foi quem decidiu avançar apesar dos avisos. Foram as famílias que tiveram a ousadia de acreditar no Ministério da Educação. Convenhamos, há imprudências difíceis de perdoar.

Do blogue Estátua de Sal 

COISAS "DO OUTRO LADO":

Novo interceptador de drones 'Redut-UR' foi criado na Rússia

João Gomes

Vexames Nacionais:

O cenário é surreal. Caixotes de papel amontoam-se na periferia da solarenga Lisboa, lá dentro 300 mil exames para serem digitalizados, por trabalhadores braçais, numa plataforma que não acerta a primeira página com a segunda, convoca matemáticos para corrigir exames de línguas, e apaga respostas, fazendo aparecer ao lado dezenas de novas, mal o professor-classificador desliga o ecrã. O Governo diz não tornar pública toda a cadeia de lucro, dos Bancos de investimento, das bigtecs, detentores da memória destes dados, às empresas executoras, mas afirma, à luz do dia, estar a “monitorizar a velocidade” dos classificadores.

Nem os Monty Python conseguiriam uma palhaçada idêntica. A credibilidade está ferida, é irreversível. Não se questiona – nem da parte da maioria dos sindicatos e partidos – o sentido de fazer-se um exame, a metrificação da avaliação, a – pasme-se – divisão da classificação do exame em itens (um professor não classifica todo o exame, mas cada professor classifica partes, para assim monitorizar a velocidade e dividir parcelas entre os mais rápidos); o facto – pasme-se – de o professor não corrigir, apenas classificar (como um aluno pode aceitar ter uma nota sem que lhe expliquem os erros?) e claro – pame-se – a monitorização, uma forma de controlo digital sobre o próprio corpo – literalmente o corpo docente. Quanto tempo, onde e como ficou cada docente em cada resposta, para assim a IA calcular quanto tempo a máquina em breve precisará para fazer o mesmo. O Governo e a UE fizeram dos nossos professores e filhos – com o dinheiro que destinamos a educação coletiva de qualidade – ratos de laboratório do lucro dos acionistas da IA.
Desvela-se a realidade crua das classes dirigentes – as mesmas classes que colocam os filhos em colégios suíços, onde toda a tecnologia é proibida, e a manhã começa com trinta minutos de silêncio, meditação, seguida da leitura de obras filosóficas clássicas e termina com uma subida à montanha para conhecer a natureza. Uma aparência de algo semelhante, mais mixuruca, há hoje em alguns colégios de elite em Portugal, já que a maioria do privado aderiu também à digitalização.
A IA, nem inteligente nem artificial, tem trabalho humano massivo atrás (na entrega de dados na forma de repostas a exames, na classificação dos mesmos, e na digitalização braçal destes). Tudo pago pelos trabalhadores portugueses, na forma de impostos que deveriam ser destinados a educar os filhos.
Educá-los no melhor conhecimento histórico e filosófico, matemática, física, línguas e literatura, artes.
Nada – apenas testes de cruzes, simplificados, para a IA compreender o comando e a resposta, que é uma resposta padrão para ser processada por algoritmos que operam entre 0 e 1. Alunos a ser treinados para a automação, uma nova era de “desantropormofização”, ou seja, desumanização em massa – a máquina engole o homem.
Portugal, é preciso dizer sem meias palavras, foi o rato de laboratório da IA Europeia ao abrigo do PRR, um empréstimo pago pelos portugueses, anunciado como uma dádiva para combater a crise da Covid, mas de facto empréstimo, com juros, para a transição verde – que o digam em Boticas ou Fundão -, transição digital dos serviço públicos, e investimento em segurança, guerra portanto.
Em resposta à concorrência e guerra de Trump e ao enfrentamento mundial com os outros poderes, China, Rússia, a UE delimitou, no mesmo discurso de Von der Leyan, a guerra e a educação digital. Como um campo único. De aposta do dinheiro público, ao lado do mega financiamento a projectos de painéis solares e eólicas, que destroem o campo agrícola e o acesso a uma alimentação de qualidade.
A pandemia de Covid não serviu para propor o regresso a uma saúde pública coletiva, com gestão democrática e quebra de patentes e investigação – em segurança – sujeita a critérios puramente científicos e clínicos transparentes. A crise foi usada não para parar e pensar, mas avançar com o manicómio digital.
O avanço delirante do “ensino” online, “saúde” online, dos contratos obscuros, até hoje, com farmacêuticas, e do Estado de exceção, da supressão de direitos. O super-homem Deus da máquina, precisa de um super Estado de exceção – até o Papa o percebeu, preocupado que a religião seja suprimida pela nova religião, a IA.
Da crise de Covid a burguesia europeia fez uma oportunidade – impor a IA, que todos odeiam e ninguém quer, segundo todas as sondagens realizadas mais de 60 a 70% da população questiona a IA, os serviços online, a perda de sentido do trabalho, repetitivo. Os estudos da neurobiologia e da psicologia (mesmo da que é dominante, a comportamental), e até os inquéritos da insuspeita OCDE confirmam – quem mais usa a IA menos usa o cérebro, é mais infeliz, tem mais problemas de saúde. Um desastre, um abismo.
Um abandono das crianças e jovens, pelos quais somos responsáveis como adultos, foi feito, com o cumprimento escrupuloso da digitalização – agora os alunos são obrigados a produzir lucro, trabalho infantil, no lugar que um dia sonhou tirá-los do trabalho infantil, a escola. Fazem produção de dados e são -involuntários – dadores de corpo e alma (todo o seu cérebro) à experimentação tecnológica do desemprego, da guerra e da vigilância.
A ligação entre guerra, vigilância, e educação é central, disse a líder da EU. É natural, a precisão da geolocalização, a eficácia dos pompts, tudo isto é fulcral para criar códigos de programação – para a qual são necessários milhões de dados, cujo fornecimento vem da educação e dos serviços que preenchemos online, de sumários a relatórios clínicos.
Há uma nuvem – assente em gigantes centros de dados – que une o like viciante do tiktok (que cria com esse like perfis, influi nos circuitos neurais), une, dizia eu, o like à resposta de pintar bolinhas a uma pergunta, à classificação digital num exame, à explosão de doenças ditas mentais, e à exatidão de um drone a implodir uma criança em Gaza.
Vivemos uma fase nova no capitalismo mundial. Não podemos pensar isto como inovação ou tecnologia, é terror, desagregação, não é inteligente, não é artificial, é material e concreto, somos milhões arrastados para a barbárie. Nunca a resistência política anti capitalista desde a II Guerra foi tão urgente.
Sabendo de antemão que a IA erra, que os erros são inevitáveis e que todos os estudos publicados demonstram que diminui a capacidade cerebral dos utilizadores, a UE parece ter escolhido um país, periférico, para o mega ensaio de digitalização de 300 mil exames. Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o Ministro a negar os erros clamorosos dos exames. Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin – o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.
“Fazer depressa é fazer pior”, “não vamos outra vez falar de burocracia e técnica, escondendo a questão de fundo – descritores simples, comandos de resposta padronizados”, que medem o hiperfoco e não o desenvolvimento do cérebro e do conhecimento, “PIDE digital”, “inacreditável”, “temos que fazer greve”, “não somos entregadores”, “as perguntas eram tão imbecis que continham a resposta”, “os exames não avaliam”, “estou exausta”.
O que é a escola? O lugar coletivo de ensino-aprendizagem do melhor conhecimento produzido pelo conjunto da humanidade, sintetizado num currículo. Há algo nosso, que junta mortos e vivos, e que Marx denominava “intelecto geral”. Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam IA cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder.
A educação não é um acto de entrega de um produto de ou a um jovem ou criança, é uma transformação interna, um desenvolvimento do cérebro (das funções psíquicas superiores). Por isso o lugar central da escola não é ocupar o tempo das crianças e jovens, enquanto os pais estão a trabalhar. É sim o espaço do ensino dos conceitos teóricos de cada curriculum (os fundamentos do conhecimento). A IA generativa é uma recombinação estatística de palavras com um código, que ao mesmo tempo é feita de expropriação do saber acumulado (milhões de dados, textos, respostas) e simultaneamente expropria o saber possível – ao substituir o lento, esforçado, reflexivo processo de conhecimento e de desenvolvimento do cérebro por comandos mecânicos e desprovidos de complexidade. É uma máquina que expropria continuamente o ensino-aprendizagem.
A IA não é “mais uma ferramenta” que nós “podemos usar como queremos”. Mesmo que fosse pública, com um código aberto – que deve ser -, nunca deveria ser usada em momento algum na educação, na escola, na Universidade, mas sim e apenas por exemplo a limpar WCs ou salvar alguém no mar. A escola e universidade são um atelier de ensino, não são uma fábrica de comandos.
Raquel Varela, Jornal Maio.
A magnífica ilustração que acompanha o artigo é da equipa de ilustração do Maio. Neste número podem ler também o artigo do economista Michael Roberts sobre como cresceu o complexo militar industrial português, à boleia dos apoios do Governo com orçamento público (aumentou 3800 milhões de euros para a guerra num ano) e os lucros que dá a quantas empresas; a relação entre guerra e tecnologia na Universidade portuguesa; e - uma boa notícia - o retrato da luta vitoriosa dos albaneses contra a privatização das praias do país, pela mão do jornalista albanês Manolis Sera. Em jornalmaio.org

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Guerra na Ucrânia 44 Prémios Nobel apelam a cessar‑fogo para retirar mortos e feridos:

Numa carta dirigida a Putin e Zelensky, os signatários dizem que o uso generalizado de drones no campo de batalha está a impedir que sejam cumpridas as convenções de Genebra relativas ao socorro dos feridos de guerra.

44 galardoados com o Prémio Nobel, entre os quais o da Paz como o atual Presidente timorense José Ramos Horta e o jornalista russo Dmitri Mouratov, lançaram um apelo aos presidentes russo e ucraniano para que deem um primeiro passo no sentido da paz através de um cessar-fogo que permita retirar mortos e feridos do campo de batalha. Este trabalho de socorro protegido pelas convenções de Genebra está a ser impedido devido ao uso generalizado de drones que têm como alvo as equipas de resgate. A carta foi publicada pelos jornais Novaïa Gazeta e Le Monde.

Leia aqui a carta dirigida a Putin e Zelensky:

Senhores Presidentes,

A utilização de veículos aéreos não tripulados (drones) na frente de batalha russo-ucraniana torna impossível a evacuação dos feridos do campo de batalha. As convenções de Genebra relativas ao seu socorro não estão, portanto, a ser respeitadas. As equipas de evacuação são alvo de disparos enquanto tentam socorrer os feridos e recuperar os mortos.

O caminho para a paz pode começar de várias formas. Propomos, como primeiro passo, um cessar-fogo para permitir a retirada dos corpos — aproxima-se uma onda de calor extremo — e o socorro aos feridos, muitos dos quais permanecem sem assistência durante vários dias, ou mesmo várias semanas.

Dirigimo-nos também às empresas tecnológicas para que tornem possível a monitorização do cessar-fogo através de sistemas de videovigilância.

Esperamos que este ato de humanidade seja apoiado pelos cidadãos de ambos os países e que constitua um passo importante para dar início a um processo de paz.

Martin Chalfie, química, 2008; Aaron Ciechanover, química, 2004; J. M. Coetzee, literatura, 2003; Mairead Corrigan Maguire, paz, 1976;  Mohamed El-Baradei, paz, 2005; Andrew Fire, medicina, 2006; Joachim Frank, química, 2017; Jerome I. Friedman, física, 1990; Alan Heeger, química, 2000; Andre Geim, física, 2010; Roald Hoffmann, química, 1981; Louis J. Ignarro, medicina, 1998; Elias James Corey, química, 1990; Elfriede Jelinek, literatura, 2004; Brian Josephson, física, 1973; Brian Kobilka, química, 2012; Ferenc Krausz, física, 2023; Sheldon Lee Glashow, física, 1979; Anne L’Huillier, física, 2023; David W. MacMillan, química, 2021; Barry Marshall, medicina, 2005; John Mather, física, 2006; Morten Meldal, química, 2022; Patrick Modiano, literatura, 2014; William E. Moerner, química, 2014; Dmitri Mouratov, paz, 2021; Konstantin Novoselov, física, 2010; Roger Penrose, física, 2020; William Phillips, física, 1997; John Polanyi, química, 1986;  Yan Rachinsky, paz, 2022; Venki Ramakrishnan, química, 2009; José Ramos-Horta, paz, 1996; Richard Roberts, medicina, 1993; Michael Rosbash,medicina, 2017; Alvin E. Roth, economia, 2012; Donna Strickland, física, 2018; Jack W. Szostak, medicina, 2009; Joseph H. Taylor, física, 1993; Kip S. Thorne, física, 2017; Klaus von Klitzing, física, 1985; Arieh Warshel, química, 2013; Drew Weissman, medicina, 2023; Jody Williams, paz, 1997

Termos relacionados: Internacional, Ucrânia, Rússia

Do blogue Esquerda 

A escada para a cave:

(José Pendão, in Facebook, 07/07/2026, Revisão da Estátua) 

Há uma grande vantagem no Chega: só engana quem faz muita questão de ser enganado.

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Do blogue Estátua de Sal