(Joaquim de Freitas, in Facebook, 09/04/2026, Revisão Estátua.)
Na verdade, isto não é exclusivo do século XXI. Acabei de ler uma biografia de Adolf Hitler. Muitas das mesmas táticas de sabotagem faziam parte do plano de Hitler. Claro, a violência já existia antes da guerra, mas conquistar o público, apresentar–se como o salvador, focar nas queixas, criar ódio contra o “outro” (para Hitler, comunistas, judeus, vencedores da Primeira Guerra Mundial que impuseram o Tratado de Versalhes; para Trump, liberais, elites, a mídia, aliados estrangeiros, imigrantes) e prometer um paraíso para aqueles que o seguissem era parte central do plano.
As comparações entre Trump e Hitler são notáveis: autoimagem messiânica, exigências de lealdade, disposição para atacar quem não se ajoelha, semear a divisão, pregar o ódio etc.
No entanto, cheguei à conclusão de que Trump não é Hitler. Trump é caótico demais. Hitler era muito mais ideológico, focado e não mentalmente preguiçoso como Trump. Em última análise, a falta de ideologia e de princípios fundamentais de Trump torna-o muito mais propenso a mudar de posição e até mesmo a aliar-se à oposição, já que o seu único objetivo é pessoal, ou seja, Trump vence. O verdadeiro perigo com Trump não é o homem em si, mas os ideólogos que o cercam. E eles esperam pela sua vez…
A derrocada dos Estados Unidos começou com o rumo a uma sociedade de consumo, onde a riqueza se torna um fim em si mesma. Tudo o mais na vida, da família à política, fica em segundo plano. Os indivíduos são idolatrados pela sua riqueza, não por quaisquer realizações reais ou benefícios para a Humanidade. O mercado é o novo Deus. Assim, acabam com pessoas votando voluntariamente num homem cujo único atributo conhecido é ser um vigarista consumado. E um amigo de Epstein.
E, quando leio algo na internet ou numa publicação de direita — ou ouço Trump declarar que os democratas vão arruinar o país porque tirariam o direito às armas, abririam as fronteiras a traficantes assassinos e aboliriam o seguro saúde — parece impossível que alguém possa realmente acreditar nisso tudo, mas obviamente, muitos acreditam.
E essas pessoas acham que é aceitável abusar e traumatizar crianças porque, caso contrário, uma “invasão” de imigrantes os destruirá, ou que todos devemos ter acesso a armas de assalto que podem matar dezenas de pessoas em segundos, ou que criar um sistema de saúde que cubra todos é uma conspiração socialista, apesar de muitas nações já terem implementado isso.
A razão e a lógica parecem nunca importar, nem os factos (que, segundo Trump, parecem ser todos gerados por “notícias falsas”). Acho inacreditável que tantos eleitores possam ser tão crédulos. E talvez esteja ai o grande problema da América.
Conheço bastante bem os Estados Unidos. Passei anos no interior de muitas das suas grandes empresas, no meu trabalho comercial. Nasci em Portugal e vivi vinte anos sob o jugo dum ditador. Como amador de História há muitos anos, frequentemente me perguntava como pessoas, noutras nações, pareciam sucumbir tão facilmente a regimes totalitários. E, uma vez firmemente sob o jugo de um ditador, porque levavam décadas para se libertar da tirania.
Também me perguntava se nos Estados Unidos, algum dia, estariam sob tal ameaça. Depois do que vimos em Minneapolis, americanos serem assassinados por uma milícia fascista, disse: é urgente, aqui estão. Não estão “perto” de um estado totalitário. Não se estão aproximando de uma ditadura. Estão já lá, agora.
Muitos dos direitos constitucionais estão já ameaçados, graças a este “presidente” e aos seus bajuladores. E talvez já tenha passado o tempo em que protestos em massa poderiam ao menos limitar os danos causados por Trump — ao menos fazê-lo refletir um pouco antes de enviar bebés hispânicos para campos de internamento na América.
Lembro-me muito bem do movimento pelos direitos civis, do movimento contra a Guerra do Vietname e do movimento feminista. E lembro-me do ativismo — da disposição, da geração jovem da época — de se manifestarem, de correrem riscos em defesa dos seus direitos e, com tantos jovens sofrendo, de impedirem uma guerra cruel e sem sentido. Como hoje no Irão…
Avançando para os dias de hoje, fico profundamente triste com o pacifismo que vejo. Mas, por mais que eu tente, não consigo entender porquê, dezenas de milhares de jovens americanos, não estão nas ruas de todas as cidades dos EUA semanalmente. Sim, isso pode acontecer, lá. Já aconteceu, lá!
Se os americanos não estão preocupados com o futuro da democracia americana, é porque não estão prestando atenção. Se os americanos estivessem preocupados, Trump não teria sido eleito presidente.
E o resto do mundo poderia respirar…
Do blogue Estátua de Sal