Rádio Freamunde

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sábado, 21 de fevereiro de 2026

TRUMP, UMA BESTA HUMANA, TRATA ASSIM AS MULHERES, TAMBÉM OS JUÍZES DO SUPREMO TRIBUMAL E TODOS OS QUE O CRITICAM...

Ela se chama Kaitlan Collins, tem 34 anos e tem dois "defeitos" imperdoáveis para Donald Trump.
Ela é uma grande jornalista, trabalha para a CNN, é uma das melhores correspondentes da Casa Branca: séria, rigorosa, inflexível, como qualquer cronista deveria ser.
E, segundo, ainda mais grave: é uma mulher.
Recentemente, na Casa Branca, ousou pressionar Trump sobre os Arquivos Epstein.
"O que diria aos sobreviventes de Jeffrey Epstein que sentem que não receberam justiça, Sr. Presidente? ", perguntou-lhe.
A resposta de Trump é uma assustadora centrífuga de violência verbal, sexismo, desprezo pela dissidência e alergia a qualquer forma de liberdade crítica e crônica:
Você é a pior jornalista de sempre. Não estou surpreso que a CNN não tenha audiência por causa de pessoas como você.
Você é uma mulher jovem, eu conheço você há 10 anos e acho que nunca vi um sorriso no seu rosto, e sabe porquê?
Porque sabes que não estás a dizer a verdade. Vocês são uma organização muito desonesta e deviam ter vergonha de vocês.
Este é o Presidente dos Estados Unidos, e assim se dirige a uma jornalista.
Nem mesmo nos regimes.
Solidariedade a esta excelente jornalista, mas também à mulher Kaitlan Collins. Porque isto não é apenas o insulto de um poderoso contra um jornalista, mas também o ataque misógino de um homem contra uma mulher que faz o seu trabalho com disciplina e honra e não baixa a cabeça.
E se Trump e o trumpismo estão desmoronando sobre suas próprias mentiras, é graças a jornalistas como você.

Preparado o teatro – quem atuará melhor?

(João Gomes, in Facebook, 20/02/2026)

O Médio Oriente volta a ser palco de um teatro de sombras e poder, e os Estados Unidos não se fazem esperar na construção do cenário. Enquanto a retórica política pinta o Irão como ameaça imediata, a realidade no terreno é mais complexa: porta-aviões, caças stealth, destroyers e sistemas de defesa formam um espetáculo de força que impressiona mais pelo apelo visual e psicológico do que pela certeza de um conflito declarado.

O que foi deslocado para a região é impressionante: o USS Abraham Lincoln e o USS Gerald R. Ford com seus grupos de ataque, dezenas de aeronaves F‑22 e F‑35, reabastecedores, AWACS, sistemas Patriot e THAAD, e milhares de soldados em prontidão. Em termos estratégicos, isso representa uma combinação de poder ofensivo real e capacidade de dissuasão elevada. Cada movimento é calculado, cada base ocupada transmite a mensagem: “Estamos prontos, mas não queremos disparar primeiro.”

Mas o teatro não se limita aos EUA. O Irão observa, calcula e responde com as suas próprias cartas: mísseis de longo alcance, drones, forças regionais e alianças estratégicas que podem infligir custos reais ao adversário. O equilíbrio é delicado, e cada ato de “preparação” cria repercussões imediatas nos mercados globais, no preço do petróleo e na economia mundial.

O espetáculo, porém, tem vítimas reais: civis que vivem sob a ameaça constante de escalada, populações regionais que veem o custo humano e material aumentar, e até mesmo aliados que sustentam a logística e os custos financeiros dessa “encenação de poder”. A plateia internacional assiste, fascinada, enquanto a política de dissuasão se mistura com interesses estratégicos e económicos, deixando no ar a pergunta inevitável: quem atuará melhor?

O teatro está montado. O palco é o Golfo Pérsico, as luzes iluminam porta-aviões e bases militares, e os protagonistas ensaiam movimentos que podem ser tanto gestos de intimidação quanto preparações para combate real. Neste espetáculo, o poder mede-se tanto em capacidade militar quanto na habilidade de controlar percepções, e os efeitos colaterais recaem sobre aqueles que nunca subiram ao palco: civis, economias e a própria estabilidade regional.

Enquanto os governos calibram cada ato, os espectadores mais atentos percebem que a guerra não começa necessariamente com disparos, mas com movimentos estratégicos, negociações e demonstrações de força cuidadosamente coreografadas. O teatro está pronto, e resta saber quem atuará melhor – se a dissuasão, se a ação, ou se, como muitas vezes acontece, a plateia paga o preço dos ensaios e das interpretações falhadas.

Do blogue Estátua de Sal 

No meio da tempestade, André Ventura levou um banho de realidade:

Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas e texto que diz "OBSERVADOR "Eu só queria aqui salientar, falar um pouco do tema, que é muito atual consigo, da mão de obra. Temos 80 colaboradores. Só temos um português, que é o técnico, o engenheiro. Se hoje os trabalhadores estrangeiros fossem embora, eu fechava a empresa imediatamente" PAULO MARIA, EMPRESÁRIO"

Na localidade de A-dos-Cunhados, em Torres Vedras, André Ventura levou um banho de realidade quando Paulo Maria, proprietário de uma exploração agrícola afectada pela tempestade Kristin, lhe explicou o óbvio:
Só queria salientar um pouco do tema que é muito atual, que é o tema da mão-de-obra. Nós dependemos de mão-de-obra estrangeira a 100%. Na minha empresa, temos 80 colaboradores e só temos um português que é o técnico, o engenheiro. Se hoje os trabalhadores estrangeiros fossem embora, eu fechava a empresa imediatamente.
No fundo, aquilo que Paulo Maria explicou a André Ventura foi o que qualquer empresário francês da construção civil poderia ter explicado a outro populista autoritário nos anos 60: se os portugueses não viessem para cá, não havia ninguém para trabalhar.

Ventura bem pode alegar que o problema são os ilegais, mas a propaganda do CH diz outra coisa. Desde a demonização dos imigrantes do Bangladesh ao papão da ameaça islâmica, que em Portugal pura e simplesmente não existe, a narrativa que o partido propaga e que os seus seguidores replicam nas redes sociais raramente distingue legais de ilegais. Aliás, o “volta para a tua terra” ou o “isto não é o Bangladesh” não fazem essa distinção. Metem tudo no mesmo saco com doses industriais de racismo é xenofobia à mistura.
Quando Rita Matias leu uma lista de nomes de crianças no Parlamento, não fez essa distinção. Limitou-se a instrumentalizar crianças para efeitos de propaganda política, como se essas crianças fossem um perigo para a nossa sociedade. Lembrem-se disso quando os ouvirem dizer “deixem as crianças em paz”. Ou a bater no peito para defender os valores cristãos, que são o exacto aposto da narrativa do ódio e da divisão que Ventura e outros do seu partido promovem diariamente.
O que André Ventura faz quando instrumentaliza os imigrantes vem de uma fórmula antiga e sobejamente conhecida. Trata-se de dividir a sociedade para tentar reinar. É dizer ao português pobre que o imigrante lhe vai levar a bolacha, enquanto alguns financiadores do CH levam pacotes inteiros para as Ilhas Caimão. Sem nunca pensar que, amanhã, poderá ser uma das muitas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo a sofrer com a mesma canalhice.
20/02/2026 by  
Do blogue Aventar

 (Bruno Amaral de Carvalho, in Manifesto74, 19/02/2026, Revisão da Estátua)

Não é assim que a história está a ser contada pelos órgãos de comunicação social mas há cinco dias um elemento fascista, Quentin Deranque, acabou morto, em Lyon, depois de uma tentativa de boicote contra uma conferência de esquerda. De seguida, a presidente do parlamento francês, Yael Braun-Pivet, proibiu a entrada no edifício de Jacques-Elie Favrot assessor parlamentar de Raphael Arnault, deputado da França Insubmissa, para quem o próprio governo pede também a perda de mandato, apenas porque no passado militaram na Jeune Garde, organização antifascista acusada agora de matar Deranque. 

Entretanto, grupos neonazis anunciam caçadas contra os “vermelhos”. No domingo, em Lyon, vários fascistas atacaram com barras de ferro membros do comité de solidariedade com a Palestina. Sucedem-se os ataques contra espaços de esquerda, com a sede da França Insubmissa, em Paris, a ser alvo de uma ameaça de bomba esta quarta-feira, num contexto em que a extrema-direita pede a proibição deste partido que, integrado na Nova Frente Popular, ficou à frente nas últimas eleições legislativas. A narrativa agora é a de que a “extrema-esquerda violenta” atacou “jovens católicos pacíficos”.

Para se perceber o grau de manipulação mediática e política é preciso recuar até sábado, 14 de Fevereiro, quando um grupo de mulheres de extrema-direita do Colectivo Nemésis se dirigiu de forma premeditada ao Instituto de Estudos Políticos, onde falava a franco-palestiniana Rima Hassan, eurodeputada pela França Insubmissa, com o objectivo de destabilizar a iniciativa. Quando alguns militantes de esquerda que estavam destacados para garantir a segurança da iniciativa tratou de afastar estas mulheres, apareceu um grupo de homens fascistas para se juntar à provocação e começaram as agressões.
É então que chegam mais antifascistas em socorro dos organizadores da conferência e conseguem fazer fugir os provocadores. É só a centenas de metros do local da iniciativa que, já sem a participação da França Insubmissa, se dão os confrontos mais duros, de que estão acusados alegados membros da Jeune Garde, e é nesse lugar que morre Quentin Deranque. Não num assassinato premeditado, mas como agressor num combate de rua com os agredidos. Não como um ordeiro jovem católico mas como alguém que começou os desacatos contra uma iniciativa política pacífica.

Há que recordar que Lyon tem uma longa história antifascista e que é conhecida como a capital da resistência pelo seu papel central na organização da luta contra a ocupação nazi.  Foi nesta cidade que Klaus Barbie instalou a sede da Gestapo e ficou conhecido como o carniceiro de Lyon. A filha de um dos líderes da resistência descreveu a história arrepiante do seu pai, a quem espancaram, arrancaram pedaços de pele ao seu corpo, mergulharam a cabeça em amoníaco e o queimaram vivo até acabar morto. Outras mulheres denunciaram que os alemães treinavam pastores alemães para morder e violar mulheres. Klaus Barbie foi directamente responsável por enviar 14 mil judeus e membros da resistência para campos de extermínio.

Durante meio século, o repúdio contra a barbárie fascista fez crescer o apoio às forças comunistas e de esquerda, assim como ao movimento sindical, e quando voltaram a aparecer grupos neonazis nas cidades franceses a juventude nunca deixou de os combater. Nos anos 80 e 90, apareceram organizações antifascistas em todo o país, muitas delas compostas também por imigrantes, incluindo portugueses, que enfrentavam o neonazismo nas ruas. Em 2018, surgiu em Lyon a Jeune Garde, nome de uma canção histórica do movimento juvenil comunista, e depressa se espalhou a outras cidades francesas. Três anos depois, um dos seus membros, Raphael Arnault, agora deputado, foi agredido por neonazis. Em Fevereiro de 2022, uma conferência antifascistas em Estrasburgo, com a participação da Jeune Garde, foi atacada por hooligans fascistas. Apesar da violência cada vez maior da extrema-direita, em 2025, os tribunais franceses decretaram a ilegalização da Jeune Garde.

Num tempo em que  organizações fascistas aparecem como cogumelos perante a indiferença dos Estados capitalistas, não pode haver neutralidade perante quem defende a discriminação racial, para quem defende a retirada de direitos às mulheres, para quem agride actores e pede a proibição de livros, para quem defende leis que perseguem sindicatos e aumentam a exploração laboral, para quem aplaude a repressão policial contra os bairros de trabalhadores.

Fonte aqui.

Do blogue Estátua de Sal 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Sócrates reitera que não recebe dinheiro de Santos Silva e que não conhece "casa nenhuma na Malveira":

 

Antigo primeiro-ministro reage à notícia que dá conta da abertura de um novo inquérito relacionado com a compra de uma habitação na Malveira

José Sócrates reitera que não recebe dinheiro de Carlos Santos Silva nem conhece "casa nenhuma na Malveira". O antigo primeiro-ministro diz-se ainda "absolutamente alheio a qualquer transação imobiliária".

Sócrates reage assim a uma notícia avançada pelo Observador que dá conta da abertura de um novo inquérito do Ministério Público ao antigo primeiro-ministro e ao empresário Carlos Santos Silva por suspeitas de branqueamento de capitais, num processo que corre no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) desde 2025.

De acordo com o Observador, a investigação foi desencadeada na sequência de factos tornados públicos na última semana pelo semanário Sol. Em causa está a compra, em 2023, de uma habitação na Malveira, no concelho de Mafra.

Ontem às 21:03

Leia o comunicado de José Sócrates na íntegra:

Resposta pública à notícia de uma pretensa “investigação”

1- Sei do que são capazes. Treze anos depois conheço os truques, as insinuações e as calúnias. Sempre o mesmo esquema, que se desenvolve em três andamentos – informação soprada à jornalista, que, por sua vez, a transforma em notícia e que, mais tarde, regressada a casa, é convertida em suspeita pelo próprio Ministério Público que inicialmente a havia traficado com a imprensa. Informação – noticia – suspeita. Os pistoleiros do costume já foram convocados e o processo, dizem, está em marcha.

 
2- Não recebo dinheiro de Carlos Santos Silva, não acompanho a sua vida empresarial e profissional, não conheço casa nenhuma na Malveira, e sou absolutamente alheio a qualquer transação imobiliária. Se o método não fosse tão repulsivo, as notícias seriam apenas cómicas. Mas não são. O padrão, o único padrão que vejo constantemente repetido, é o da velhaca maledicência. Fizeram o mesmo há uns anos com a empresa para quem trabalhei como consultor; fazem-no agora com a compra e venda de uma casa que não me diz respeito. O arbítrio não tem escrúpulo.
 
3- Não há na minha vida segredo nenhum e muito menos das pensões que recebo, sendo, aliás, uma delas, pública. Mas resisto à devassa da minha vida privada e não desejo partilhá-la com estranhos. Já me basta o processo, o julgamento e o truque judicial do "lapso de escrita".  Mas não deixa de ser extraordinário que a ameaça de inquérito resulte do facto de, no entender de alguns, me defender com excessiva energia.
 
4- Dizem que o fazem com todos – não, não fazem. O atual primeiro-ministro recebia comprovadamente dinheiro de antigos clientes enquanto exercia funções e a Procuradoria-Geral decidiu não abrir um inquérito, tendo igualmente decidido esconder de todos os cidadãos as razões pelas quais tomou tal decisão. Um “presente de Natal”, nas próprias palavras do Senhor Procurador-Geral que, dizem, é um excelente comunicador.
 
5- Recordo ainda – e mais uma vez - a suspeita comunicada em 2019 pelo Ministério Público Brasileiro, que diz assim:
 
“deste modo é possível que os pagamentos descritos na planilha “ Paulistinha” , ( pagos ao assessor de marketing politico contratado pelo PSD) com referência à obra da barragem do Baixo- Sabor, em Portugal, possam-se referir ao financiamento da campanha eleitoral do Partido Social- Democrata para eleição do cargo de primeiro ministro , disputada em 2015 pelo ex primeiro ministro de Portugal Pedro Passos Coelho”
 
6- Fazem-no com todos? Não, não fazem.
CNN Portugal

Relatividade, macaquinhos e o racismo:

(Luís Rocha, in Facebook, 19/02/2026, Revisão da Estátua)

Em 1925, Albert Einstein foi à América do Sul falar de ciência e saiu do Brasil com a sensação de ter participado numa opereta. Entre recepções oficiais, continências militares e discursos tão extensos que pareciam desafiar a própria noção de tempo, o físico registou nos seus apontamentos, hoje estudados e divulgados pelo projecto The Digital Einstein Papers, o desconforto de quem se sente transformado em peça exótica de exposição. Um “elefante branco”, valioso mas inútil, conduzido de sala em sala para abrilhantar fotografias.

Nalgumas notas, há ainda referências a um ambiente de “teatro”, a uma certa macaquice cerimonial, expressão da época que hoje faria arder as redes sociais antes mesmo de alguém consultar o contexto. Einstein queria equações, deram-lhe coreografias. Queria debate, ofereceram-lhe palmas.

Um século depois, mudaram os figurinos, mas o palco mantém-se.

A recente polémica entre Gianluca Prestiani e Vinícius Júnior, envolvendo alegadas ofensas racistas durante um jogo, foi elevada à categoria de crise civilizacional em menos tempo do que dura um contra-ataque. Não me meto nem nunca me vou meter a dar palpites sobre uma actividade desportiva corrupta, obscena e profundamente politizada. Muito menos sobre declarações que não escutei e que tanto podem ter sido proferidas como não. São dois jogadores profissionais, treinados desde a adolescência para simular faltas com convicção dramática. Fingem cargas, exageram contactos e ensaiam quedas com a precisão de actores do método. Também podem fingir que ouviram o que não foi dito, ou que não disseram o que foi dito.

O que me interessa não é o VAR moral aplicado ao relvado. É o circo montado à volta.

Em poucas horas, a discussão deixou de ser sobre factos e passou a ser sobre posicionamentos. Cada tribuna improvisada exigia condenações sumárias ou absolvições inflamadas. O estádio transformou-se em tribunal popular, o comentador em juiz, o tweet em sentença. O espectáculo é perfeito, indignação coreografada, comunicados oficiais, análises frame a frame como se a verdade estivesse escondida num pixel tremido.

Einstein reconheceria o ambiente de macacada. Não pela física, mas pela encenação.

Tal como ele foi exibido como troféu científico num desfile político, também aqui se exibem jogadores como símbolos morais. Um é elevado a vítima paradigmática, outro a vilão instantâneo e ambos se tornam peças de um teatro que precisa de protagonistas para vender bilhetes. O racismo, tema gravíssimo e estrutural, é embrulhado num dérbi e servido com publicidade à volta.

Entretanto, as verdadeiras vítimas continuam fora de campo.

Não são milionários com contratos publicitários. São as pessoas que apanham o autocarro às cinco da manhã para irem trabalhar e levam com grunhos bêbados vindos da noite a comentar-lhes a cor da pele. São os candidatos cujo currículo desce discretamente na pilha porque a fotografia é “difícil de integrar na cultura da empresa”. Não há conferência de imprensa para eles. Não há hashtags globais. Não há minutos de silêncio antes do pontapé de saída.

O risco deste folclore é muito simples. A banalização do essencial. Quando cada incidente num relvado é tratado como a batalha final contra o racismo, o quotidiano invisível passa a ruído de fundo. É mais fácil discutir dois atletas sob holofotes do que desmontar preconceitos silenciosos nas escolas, nos transportes, nos escritórios.

Talvez a relatividade explique isto. O tempo mediático dilata-se quando envolve celebridades, e contrai-se quando envolve trabalhadores anónimos. A gravidade moral aumenta na proporção directa do número de câmaras apontadas.

Einstein sentiu-se um elefante branco num teatro de macaquinhos. Prestiani e Vinícius tornaram-se actores num teatro de indignações coreografadas. E nós, espectadores dedicados, continuamos a confundir palco com realidade.

Não se trata de minimizar acusações de racismo. Trata-se de recusar a sua instrumentalização. Se houve ofensa, que seja apurada com seriedade e consequência. Se não houve, que se evite a fogueira sumária. O que não serve é transformar cada lance num festival moral enquanto ignoramos o racismo estrutural que não cabe em resumos desportivos.

No final do dia, sobra sempre o mesmo elefante branco no meio da sala. Enorme, evidente, impossível de ignorar. Mas preferimos olhar para o relvado, discutir a repetição em câmara lenta e aplaudir o próximo acto.

Porque o teatro, esse, é o que alimenta a bilheteira.

Beijinhos e até à próxima…

(Para que fique registado, acabou de se sentir um sismo enquanto escrevia este texto.)


Referências consultadas:

https://www.dw.com/…/correria-louca-os-100…/a-71986947

https://einsteinpapers.press.princeton.edu

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp3q1d7d9j0o

Do blogue Estátua de Sal 

Os EUA, a Base das Lajes e o silêncio do Governo e dos partidos:

Perante a iminência de uma invasão do Irão, dependente dos humores e da chantagem de Trump, surgem notícias da desusada movimentação de aeronaves militares na Base militar portuguesa das Lajes.

Há, de facto, um acordo que permite o uso da referida base pelos EUA, num contexto de operações da Nato. Não sendo o caso, certamente só poderá ser usada com autorização das autoridades portuguesas ou pela força.
Não parece que Nuno Melo, ministro da Defesa que Montenegro tem de suportar, tenha ambições para ir além de inoportunas declarações sobre Olivença, nem que o ainda PR declare guerra ao Irão, mas nas Lajes adivinha-se a irascibilidade do PR dos EUA.
Há aeronaves militares dos EUA, caças que levantam e voltam a aterrar, num prenúncio de guerra. A presença de 11 reabastecedores KC-46 Pegasus, 12 caças F-16 Viper e um cargueiro militar C-17 Globemaster III, não é coisa pouca.
O Governo pode contrair um empréstimo de 5,6 mil milhões de euros para a compra de fragatas, sem ouvir os portugueses e sem que estes pareçam preocupar-se ou ponderem a herança que deixam aos filhos, mas é perturbador que não dê explicações sobre a dança macabra de aviões de combate dos EUA nos céus da ilha Terceira.
Pior ainda, não há um só partido, dos que nos representam no Parlamento, a pedir que o PM, ou o ministro Paulo Rangel, já não falo nessa irrelevância do ministro da Defesa, deem explicações.
É provável que seja tudo normal, mas desconfio que era obrigação do Governo explicar aos portugueses o que se passa, ainda que o país ande entretido com a sordidez do caso Epstein e dos vícios dos seus mediáticos e promíscuos amigos que enxovalham famílias reais e ameaçam dissolver governos na Europa.