Rádio Freamunde

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O que fizemos ontem foi pôr um homem decente na PR e que, de certeza, não partirá dele ataques à democracia. De resto nada mudará no país:

Portugal é um fiel seguidor do desvario político da UE que faz das sanções à Rússia e do apoio a Zelensky o cerne da sua política. Política que obriga a desvios colossais de dinheiro do Estado Social para a Defesa. Veja-se que, em plena crise humanitária, consequência das catástrofes climáticas que nos têm assolado, o governo atribuiu à Ucrânia verba superior à que atribui às pessoas que foram vítimas das inundações e dos ventos ciclónicos, além do reforço brutal das verbas do OE para a compra de armamento e gastos em infraestruturas militares.

Enquanto isto o SNS definha, a Escola Pública perde qualidade, os aumentos salariais não acompanham sequer o valor da inflação e a grande maioria de quem não tem casa própria do tempo passado, não tem rendimentos suficientes para alugar ou comprar, boa parte das pensões são de miséria, etc. etc.

Ora as actuais preocupações dos políticos europeus não estão viradas para resolver este tipo de problemas sociais, é a guerra e as sanções à Rússia que os determina. É neste caldo político que a Extrema Direita se alimenta e continuará a alimentar.

Não é Seguro que irá resolver isto, até porque ele e muitos outros democratas, talvez a maioria, está de acordo com o desvario da UE para aumentar as despesas com a Defesa, por causa, dizem eles, do perigo russo. A coisa boa é que será pouco provável que, com Seguro a presidente, jovens portugueses sejam obrigados a ir morrer em nome da NATO.

A eleição de Seguro foi boa, muito boa, mas não evita, por si, a deriva para o afundamento social da Europa e, por consequência, de Portugal. O fascista Ventura e seus correligionários fascistas europeus sabem-no bem e estão confiantes.

Eles, a extrema-direita, contam com Trump para ajudar a prosseguir o caos, quanto pior melhor! a Europa, dita democrática, guerreia a Rússia e bajula Trump, e com isso destrói o Estado Social ajudando assim aos bons resultados eleitorais dos extremistas. São na verdade tempos difíceis.

Nota
Quem pensou que as mulheres na política eram diferentes dos homens, clique na foto e tire conclusões.

Francisco Fortunato


“Ballet Rose: O Escândalo de Menores Que Salazar Quis Esconder”:

Muito antes de Jeffrey Epstein se tornar sinónimo de abuso sexual de menores entre poderosos, Portugal tinha o seu próprio escândalo: o Caso Ballet Rose. Meninas de apenas nove anos eram exploradas por membros da elite e do regime de Salazar, enquanto o Estado encobria os crimes e protegia os culpados.

Tal como nos Epstein Files, o caso expõe a impunidade, o silêncio cúmplice e o abuso sistemático por parte daqueles que detêm poder, mostrando que estas redes de exploração não têm fronteiras nem épocas.
O CASO BALLET ROSE (*)
« Em dezembro de 1967, o inglês “Telegraph” noticiou que altas figuras do governo de Salazar e da alta sociedade portuguesa estavam envolvidos num escândalo de abuso sexual de menores. Mário Soares, acusado de ser a fonte da notícia, foi preso e deportado para São Tomé. Três meses antes da notícia vir a público, Antunes Varela, o ministro da Justiça que não quis abafar o processo, é exonerado por Salazar. Havia menores com nove anos envolvidas nas orgias.
O ano de 1967 aproximava-se do fim. Barry O’Brien, jornalista do britânico “Telegraph”, subiu até ao 2º andar do número 87 da rua do Ouro, Lisboa, onde ficava o escritório que Mário Soares partilhava com os amigos advogados Gustavo Soromenho e Pimentel Saraiva. Tinha ouvido falar de um escândalo de prostituição de menores, que envolvia altas figuras do regime de Salazar.
Soares também tinha ouvido falar do mesmo assunto, através de um escrivão do tribunal da Boa-Hora, segundo contou numa entrevista ao i em 2009. “Um belo dia estava na Boa-Hora e apareceu-me um escrivão que me disse: ‘Ó sr. doutor, tenho uma coisa para lhe dizer. Há aqui um processo que é uma escandaleira contra estes malandros do regime! É este, aquele, aqueloutro’. Fiquei a saber. Um dia ou dois depois, apareceu-me um jornalista inglês, que eu não conhecia, mas veio ter ao meu escritório porque colegas portugueses lhe disseram que eu era da Oposição (...) Disse-me que queria saber o que era isso do escândalo dos Ballet Rose (...) Disse-lhe que só tinha uns zunzuns, mas que podia apresentá-lo a um escrivão que poderia dar-lhe mais informação”. Soares também terá sabido do caso através de Joaquim Pires de Lima, advogado de uma das vítimas, com quem jantou em casa de Sophia de Mello Breyner e Francisco Sousa Tavares, que também acabará por ser preso na sequência do escândalo internacional.
Ainda que Soares tenha sempre negado ter sido a fonte da notícia que depois é publicada no “Sunday Telegraph” a 10 de dezembro – o próprio jornal escreverá outra notícia a negar que Soares tenha sido a fonte das informações sobre o escândalo – , é preso pela PIDE três dias depois acusado de “divulgação de notícias falsas, no estrangeiro, suscetíveis de prejudicar o bom nome de Portugal”. Passa o Natal e o fim do ano de 1967 numa cela de isolamento em Caxias “com um frio atroz. Não tinha livros nem, muito menos, jornais”.
Apesar de ter conseguido ser libertado cerca de dois meses e meio depois, através de um habeas corpus apresentado pelo advogado José Magalhães Godinho, Soares é enviado para o exílio quase imediatamente. O Conselho de Ministros decide a deportação para São Tomé. Na sede da PIDE, o subdiretor Sachetti explica a Soares a ordem de expulsão, falando de si próprio na terceira pessoa: “Julga que José Sachetti é burro? Mandá-lo a tribunal, com a montagem sempre possível de um grande espectáculo e observadores estrangeiros, para o senhor, ainda por cima, vir de lá absolvido? Não! José Sachetti não é burro: assim fica definitivamente neutralizado. O senhor Mário Soares como opositor acabou-se. Até nós querermos!”.
Segundo Mário Soares, o subdiretor Sachetti deu-lhe ainda outra explicação para a deportação, como contou Mário Soares a Joaquim Vieira, autor da biografia “Mário Soares, Uma Vida”: “Ele disse-me: ‘o doutor Salazar está farto que ande a brincar com ele (...) Injuriou-o na sua moral, isso é que ele não admite”.
Joaquim Pires de Lima, advogado, conta a sua intervenção no processo em entrevista a Anabela da Mota Ribeiro: “Tudo começou quando uma moça dos seus 16 anos me procurou, com a mãe e o namorado, porque estava a ser apertada na Polícia Judiciária para prestar declarações. Acerca das razões que a levavam a casa de uma senhora modista, que era tida como uma desencaminhadora de menores. E para identificar os indivíduos que estavam relacionados com essa senhora. Tinha receio que a levassem presa.”
Joaquim Pires de Lima telefona “ao director da Polícia Judiciária, com quem tinha boa relação, bem com ao Antunes Varela. Provoquei um grande escândalo dizendo que com a minha cliente, à PJ, ia eu! Não conhecia o instrutor do processo. Mais tarde detectei quem ele era; era um que estava ligado ao assassinato do [Humberto] Delgado, o agente Parente. Quando soube, denunciei-o. Obriguei a miúda a dizer os nomes de toda a gente. Ficou a saber-se que desde os nove anos andava a ser aproveitada por indivíduos como o Conde Monte Real, o Conde Caria, o Conde da Covilhã, uma data de gente da alta sociedade”.
Ainda Joaquim Pires de Lima: “Quando se soube a idade das meninas envolvidas, percebeu-se que isto não era um processo de Ballet Rose à maneira do caso Profumo [Inglaterra], cuja mais nova tinha 17 anos, mas um processo de corrupção de menores, com impúberes de nove anos. E miseráveis. Filhas de mulheres-a-dias. Eu queria que a PJ instaurasse um processo-crime contra os corruptores de menores”.
Não conseguiu. Salazar manda parar a investigação quando percebe que o abuso sexual de menores envolve grandes figuras do regime. Três meses antes do escândalo ser denunciado na imprensa estrangeira, o ministro da Justiça da época, Antunes Varela, que queria que a investigação fosse até ao fim, é exonerado por Salazar.
Os violadores de crianças nunca serão condenados. O processo acaba com a condenação de duas prostitutas e absolvição de dois dos abusadores levados a tribunal. Em 1975, o escritor Amadeu Lopes Sabino escreve, sob o pseudónimo ”Marta Castro Alves”, o livro “O processo das virgens – aventuras, venturas e desventuras sexuais em Lisboa nos últimos anos do fascismo”. Mesmo depois do 25 de abril, Portugal nunca lidou bem com o escândalo – ver entrevista de Francisco Moita Flores nas páginas seguintes. Perante a quantidade de pessoas envolvidas – e vivas – manteve-se algum “estado de negação”.
(*) Ana Sá Lopes, no Jornal I, 23. 12. 2017.

Mas, ó Ventura, seu aldrabão, a direita não votou em ti! E o que é isso do socialismo ter ganhado e precisar de ser derrotado?

Longe de mim estar a assumir a defesa da nossa direita democrática (muitas vezes tão inculta, mentirosa e agressiva), mas só o facto de ela, maioritariamente, ter rejeitado o Ventura merece o meu elogio. Não faz, por isso, qualquer sentido que o “taberneiro” papa-hóstias que é líder do Chega se autointitule o novo líder da direita. É que, por lá, pelos vistos ninguém o atura nem aturará. Mesmo alguns eleitores de direita que votaram agora nele fizeram-no (segundo disseram) para não dar demasiado “ufanismo” ao candidato de esquerda. Nem esses gramam o Ventura por aí além, muito menos votarão nele em próximas legislativas.

Também, ao contrário do que diz o vendedor de banha da cobra, não foi o “socialismo” que ganhou, sendo que “socialismo”, pela insistência e o tom com que profere a palavra, soa a uma espécie de comunismo, igualitarismo esquerdista e corrupto. Ora, não. Também não. A direita que votou no Seguro não lhe atribui de todo esse perfil (nem os socialistas). Além disso, o partido socialista é, desde sempre, social-democrata. Correu com os comunistas na altura devida. Contribuiu de forma decisiva para a consolidação da democracia em Portugal e não tem de certeza, proporcionalmente, mais gente corrupta do que o Chega (que ainda nem chegou ao poder e os compadrios autárquicos e conflitos com a Justiça já vão longos). Democracia, ó Ventura, que é o sistema através do qual o poder vai alternando. Há regras de direito, há controlo político através do Parlamento e da liberdade de associação, expressão e opinião e há entidades independentes para evitar abusos. É o contrário do que parece ser o sistema favorito do Ventura, que é a ditadura – uma pessoa a mandar, de preferência para sempre, e todos a obedecer, sob pena de irem presos ou serem mortos. Impensável para a maioria dos portugueses.

A propósito da apregoada “mudança do sistema” de que o vendedor de banha da cobra fala a toda a hora, os senhores jornalistas importam-se de lhe perguntar um dia destes para que sistema é que ele quer mudar? E não vale aceitar a resposta de que será “um sistema sem corrupção e que defenda a honra de Portugal e de quem cá nasceu”. Não vale, porque o salazarismo ao triplo que o Ventura defende era supostamente isso e não deixava de ser o sistema mais corrupto de todos, em que apenas alguma famílias lambe-botas tinham acesso à riqueza, o que implicava uma máquina repressiva gigantesca para as restantes classes sociais e a fuga em massa de quem não aguentava a pobreza. Por isso, é imperativo que a pergunta aprofunde o tema.

O Ventura deve, pois, baixar a bolinha e a direita clássica tem que ir para a sala de estudo gizar uma estratégia. Que as democracias não são perfeitas, já o sabemos. Basta ver a facilidade com que permitem o surgimento e a popularização de demagogos como o Ventura. Só que o que o ex-seminarista com alucinações e gestos nazis promete é mil vezes pior do que o que temos. O exemplo da América, com a eleição de um criminoso e o pavão mais corrupto que o mundo já alguma vez viu em tal cargo, deve bastar para lhe cortar as vazas. Serás um episódio, ó Ventura.

 por Penélope

Do blogue Aspirina B

(Luís Rocha, in Facebook, 09/02/2026, Revisão da Estátua):

(Luís Rocha, in Facebook, 09/02/2026, Revisão da Estátua)


(A Estátua não resiste a sublinhar a assertividade política e a qualidade literária deste texto. Diz tudo sobre os resulatdos das eleições presidenciais. Sim, ficou provado que, ao Ventura, a grande maioria dos portugueses não compraria um carro em segunda mão… 🙂 .Parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 09/02/2026)


Tenho uma urticária persistente a fascistas, não tanto pelas ideias, porque isso exigiria que elas existissem para lá do panfleto berrado, mas por aquele concentrado espesso de ressentimento, frustração mal digerida e complexo de inferioridade mascarado de valentia.

O que verdadeiramente me irrita é a facilidade com que meia dúzia de espertalhões, de peito inchado e frase feita, conseguem montar um ajuntamento de boquinhas abertas, olhar em êxtase e raciocínio em ponto morto, prontas a assinar qualquer coisa desde que venha acompanhada de indignação, punho cerrado e promessas de vingança.

Coiso sempre funcionou assim, como um vendedor de carros usados à beira da estrada, daqueles com bandeirolas a esvoaçar, sorriso falso e olhos na tua carteira. Abre o capô com teatralidade, bate no tejadilho como quem testa um melão e garante que aquele chaço é uma máquina de sonho, nacional patriótica, honesta e injustamente perseguida pelos grandes stands do costume. Se o motor faz um barulho estranho, a culpa é do antigo dono. Se o velocímetro não funciona, é sabotagem. Se ninguém compra, então é porque o sistema está contra ele.

A última encenação é esta imagem piedosa onde todos os outros candidatos aparecem unidos para o “derrotar”, como se tivessem combinado num armazém clandestino acabar com o negócio do homem. É a velha história do vendedor aldrabão. Quando o carro não pega, nunca é defeito de fabrico, é sempre inveja da concorrência, gasolina adulterada ou um complô das oficinas autorizadas pela marca.

Lamento informar os clientes mais fiéis do stand improvisado, mas quem derrotou o Coiso não foi nenhuma cabala, nem uma coligação de bastidores, nem uma conspiração de gente bem vestida a beber cafés com o mindinho no ar. Quem o derrotou foi um homem que não estava na política há mais de uma década, que não aparecia na televisão há mais de uma década e que, ainda assim, conseguiu a maior votação de sempre a seu favor. Um feito tão pouco revolucionário que levou pessoas a ir votar de barco, aquele meio de transporte radical usado quando a vontade de chutar o traseiro de fascistas supera a preguiça.

Convém dizer isto devagar, como se explica a alguém porque não deve beber lixivia. O Coiso perdeu por margem esmagadora em todas as freguesias com maior literacia do país. Perdeu onde se lêem contratos até ao fim, onde se percebe a diferença entre um carro usado e um carro martelado, onde se sabe que gritar “está como novo” não substitui uma revisão decente. Não perdeu porque é uma vítima, nem porque foi silenciado, nem porque alguém lhe trocou as rodas durante a noite.

Perdeu porque quem vota são as pessoas. E as pessoas, quando confrontadas com um biltre fascista, mentiroso e troca-tintas, decidiram votar contra ele. Simples. Sem dramatizações nem choraminguices.

O que dói verdadeiramente aos devotos não é a derrota, é a sua vulgaridade. Não houve perseguição épica, não houve heróis tombados em combate, não houve golpe de teatro. Houve filas, boletins, cruzes feitas com calma e uma escolha clara. Pelo caminho, e isto deve ser particularmente ofensivo para quem vive da buzina e do insulto, foi eleita uma pessoa civilizada. Alguém que não precisa de berrar para vender a ideia, que não promete quilometragem falsa nem pinta ferrugem com spray patriótico.

Coiso tentou tudo no fecho do stand. Tentou o discurso do injustiçado, o olhar húmido de quem foi enganado pelo destino, a pose de quem jura que aquele carro ia andar mais cem mil quilómetros se o tivessem deixado. Faltou-lhe apenas dizer que perdeu porque choveu ou porque Mercúrio estava retrógrado no dia da inspeção. Mas a verdade é cruel e simples. O público não alinhou. O motor batia, o conta-quilómetros cheirava a martelado e o ruído era sempre o mesmo, independentemente do modelo em exposição.

Alguns clientes continuam, claro, e até trouxe mais uns quantos curiosos atraídos pelo barulho. Há sempre quem confunda teimosia com convicção e buzina com potência. Continuam a rondar o stand, a jurar que aquele carro ainda vai valer uma fortuna, a prometer que da próxima vez é que pega. Mas muitos afastaram-se. Olharam, encolheram os ombros e foram procurar outra coisa, talvez menos excitante, mas Seguramente menos perigosa.

E assim chegamos ao fim do dia, com os votos contados e as luzes a apagar. O vendedor pode continuar a gritar que é o único honesto do ramo, pode garantir que o povo não percebe de mecânica política, pode jurar que sem ele o mercado colapsa. O que não pode é fingir que não ficou com o stand às moscas, os carros encalhados e o público que sabe guiar a seguir viagem.

Coiso perdeu porque as pessoas escolheram outra coisa. Escolheram menos fumarada e mais fiabilidade, menos histeria e mais decência, um futuro talvez aborrecido, mas que ao menos pega à primeira. Para quem vive de vender carros martelados como se fossem sonhos novos em folha, é uma humilhação insuportável.

Para o resto do país, foi apenas o momento em que se decidiu não comprar sucata.


Referências consultadas:

https://pt.euronews.com/…/seguro-eleito-com-numero…

https://www.rtp.pt/…/segunda-volta-das-presidenciais-a…

https://www.aljazeera.com/…/portugal-elects-socialists…

https://www.reuters.com/…/portugal-votes-presidential…

Beijinhos e até à próxima…

Do blogue Estátua de Sal 

Quando Lula brinca dizendo que:

Se Donald Trump conhecesse seu “parentesco com Lampião”, não provocaria o Brasil, ele não está fazendo folclore barato. Ele está fazendo política externa de alto nível, daquelas que parecem leves na forma, mas são duras no conteúdo.

A frase, dita em tom descontraído, carrega uma mensagem objetiva: o Brasil não busca confronto, mas também não aceita intimidação. Lula escolhe a ironia inteligente em vez do choque ideológico. E isso, no tabuleiro internacional, vale ouro. Enquanto muitos líderes falam para suas bases internas, Lula fala para o mundo. E o mundo entende.
Ao afirmar que não quer confronto com Trump e que a atuação brasileira deve se concentrar na defesa do multilateralismo, Lula reposiciona o Brasil exatamente onde ele sempre teve peso real: como ponte, não como trincheira. Ele lembra que o multilateralismo foi essencial para a estabilidade global após a Segunda Guerra Mundial, o que não é nostalgia acadêmica, é um recado político. Em um cenário de guerras comerciais, sanções unilaterais e diplomacia do grito, o Brasil se apresenta como ator racional.
O contraste é evidente quando se olha para o passado recente. Em outros momentos, o Brasil escolheu a bravata, o alinhamento automático e a retórica agressiva. O resultado foi isolamento, perda de espaço e desconfiança. Agora, com Lula, o país volta a ser ouvido porque volta a falar a língua da diplomacia profissional.
O detalhe mais importante dessa fala é o que vem depois. Lula confirma a intenção de viajar aos Estados Unidos para encontrar Trump. Ou seja, não há recuo, há estratégia. Ele critica sem romper, sinaliza firmeza sem fechar portas, e deixa claro que o Brasil quer cooperação internacional em pé de igualdade, não submissão.
Esse é o Lula que incomoda alguns e tranquiliza muitos outros. Um líder que entende que política externa não se faz para aplauso imediato, mas para resultado concreto. Que sabe que, no jogo global, quem grita demais geralmente tem pouco a oferecer, e quem negocia com inteligência amplia seu espaço.
No fim, a fala sobre Lampião vira símbolo. Não de provocação, mas de identidade. Lula lembra que o Brasil tem história, personalidade e autonomia. E que dialogar com grandes potências não significa ajoelhar, significa sentar à mesa com confiança.
É por isso que, hoje, o Brasil voltou a contar. Não porque ameaça. Mas porque sabe exatamente o que quer e como dizer.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Ventos Semeados: Os patos bravos nunca morreram

Ventos Semeados: Os patos bravos nunca morreram:   Estamos num país onde os patos bravos dos anos sessenta não desapareceram. Continuam por cá, prosperando, embolsando todos os subsídios di...

Dominguice:

Creio que a arte, a literatura no caso, não concebeu um uso do poder político como aquele que Trump está a exibir no seu segundo mandato. Porque não estamos perante um exemplo de um líder fascista, ou de um grupo que esteja interessado em montar um Estado totalitário e policial no sentido orwellinano (pese algumas parecenças). Aquilo a que assistimos é uma outra coisa, original, ainda sem nome nem sólida conceptualização. Trump usa os instrumentos da constituição americana para instaurar um regime de sectarismo absoluto. Neste modelo, a justiça não só pode como deve perseguir adversários políticos ou meros obstáculo às suas decisões políticas. As informações e ligações relacionais que a função presidencial disponibiliza podem ser usadas para obter lucros privados. E um presidente dos EUA, enquanto presidente, pode promover o racismo. Fora o resto, que a violência do ICE representa e consubstancia com desumanidade e assassínios.

O Supremo Tribunal alinha nisto. Os empresários fazem fila aos seus pés. Os militares comem e calam. O povo americano divide-se entre os cúmplices e os atarantados. A realidade, mais uma vez, dá lições a ficção.

 por Valupi

Do blogue Aspirina B