Rádio Freamunde

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terça-feira, 29 de setembro de 2026

O fim do petrodólar não é apenas uma manchete passageira nos cadernos de economia:

É o som ensurdecedor das fundações do império norte-americano a ruir em tempo real. Para compreenderes a magnitude sísmica do que está a acontecer hoje, tens de recuar aos anos setenta e olhar para a maior jogada de mestre, e também o maior sequestro global, da história da hegemonia ocidental: o pacto de 1974 entre Washington e Riade. Naquela época, os Estados Unidos tinham acabado de abandonar o padrão-ouro e a sua moeda corria o risco de virar pó. O que é que eles fizeram? Fecharam um acordo blindado com a família real saudita. Os americanos garantiam proteção militar absoluta ao reino e, em troca, a Arábia Saudita comprometia-se a vender o seu petróleo, o sangue que faz bater o coração de toda a economia mundial, exclusivamente em dólares. Foi uma jogada brutal. De um dia para o outro, se qualquer país do mundo quisesse acender uma luz, abastecer um camião ou operar uma fábrica, precisava de comprar dólares. Os Estados Unidos criaram uma procura artificial e infinita pela sua própria moeda de papel. Isso permitiu a Washington fazer algo que nenhuma outra nação pode fazer: imprimir triliões a partir do nada, financiar défices astronómicos, construir centenas de bases militares ao redor do globo e exportar a sua inflação para os países mais pobres. O mundo inteiro foi obrigado a financiar o conforto e a máquina de guerra do império, simplesmente porque precisava de comprar o ouro negro.

Mas a cartada que a Arábia Saudita está a dar agora é, sem qualquer margem para dúvidas, o xeque-mate que o establishment ocidental, na sua arrogância cega, nunca acreditou que aconteceria. Com a expiração dos prazos implícitos desse pacto de meio século, Riade olhou para o tabuleiro global e percebeu que o mundo unipolar está morto. A liderança saudita atual não tem qualquer interesse em afundar com o navio americano. Ao oficializar a sua entrada nos BRICS e ao abrir publicamente a porta para aceitar o Yuan chinês, a Rupia indiana e outras moedas locais no comércio de petróleo, a Arábia Saudita está a cortar o tubo de oxigénio financeiro que mantinha o império vivo. Não se trata apenas de uma diversificação de portefólio; trata-se de um realinhamento geopolítico brutal. Os sauditas estão a olhar diretamente nos olhos da Casa Branca e a dizer que a proteção militar de Washington já não é necessária, nem temida, e que o futuro do comércio asiático e eurasiático será feito com as regras de quem produz a riqueza real. Quando o maior exportador de petróleo do planeta aceita liquidar os seus barris fora do sistema financeiro ocidental, a mensagem enviada a todo o Sul Global é clara: a obrigatoriedade de se curvar perante a nota verde acabou de ser revogada.
E quais são as consequências materiais, práticas e devastadoras desta morte anunciada para o império? O colapso daquilo que os economistas chamam de "privilégio exorbitante". Durante décadas, os Estados Unidos nunca precisaram de se preocupar com as suas dívidas impagáveis, porque sabiam que o resto do mundo seria sempre forçado a comprar títulos do Tesouro americano para ter dólares suficientes para importar energia. No momento em que o petróleo passa a ser transacionado noutras moedas, essa procura artificial desmorona. Aqueles triliões de dólares impressos que circulavam pelo mundo vão começar a regressar a casa. O resultado interno para os americanos será uma inflação avassaladora e impossível de controlar, uma crise da dívida soberana e a perda dramática do poder de compra da sua população. O padrão de vida americano, que foi artificialmente sustentado pelo suor e pela submissão financeira do mundo em desenvolvimento, vai sofrer um abalo sísmico. A impressora de dinheiro do Banco Central americano (Fed) deixará de ser uma varinha mágica que financia o luxo imperial e passará a ser uma bomba-relógio inflacionária dentro das suas próprias fronteiras.
No teatro das operações geopolíticas e militares, o fim do monopólio do petrodólar significa a aniquilação absoluta da principal arma de destruição em massa de Washington: a chantagem das sanções. Até agora, o império usava o sistema SWIFT e o dólar como um garrote. Se um país se recusasse a obedecer às ordens da Casa Branca, era banido do sistema dólar e, consequentemente, não podia comprar petróleo, levando a sua economia à fome e ao colapso. Mas se agora uma nação pode comprar a energia saudita, russa ou iraniana usando as suas próprias moedas locais ou redes financeiras alternativas estruturadas pelos BRICS, as sanções americanas passam a valer tanto quanto papel higiénico. É o desarmamento financeiro dos Estados Unidos em praça pública. Sem o petrodólar, o império perde a capacidade de asfixiar os seus adversários, perde a capacidade de financiar a sua própria expansão militar infinita e é finalmente forçado a descer do pedestal para competir num mundo onde as regras do jogo já não são ditadas exclusivamente pelo idioma de Wall Street. A Nova Ordem Multipolar já não é uma teoria num papel; ela está a ser cimentada, barril a barril, perante o desespero paralisante do velho mundo.

AFINAL, QUEM É QUE ESTÁ EM GUERRA?

Há uma coisa extraordinária nas guerras modernas: uns combatem, outros discursam e outros pagam.
E, nesta guerra, o cidadão europeu parece ter recebido uma missão estratégica particularmente importante: chegar à bomba de combustível, meter o cartão, pegar na pistola e ser ele o assaltado, fechar os olhos e contribuir para a geopolítica.
É a guerra por procuração transformada em débito directo.
Desde 2022, venderam-nos uma narrativa extraordinariamente simples para uma realidade extraordinariamente complexa: era preciso sancionar, cortar, proibir, substituir, financiar e armar. Tudo teria um preço, naturalmente, mas seria o preço necessário para enfraquecer a Rússia.
Passaram quatro anos.
Talvez esteja na altura de fazer aquela coisa inconveniente que estraga tantas narrativas políticas: olhar para a factura.
A própria Comissão Europeia reconhece que a UE reduziu a participação do gás russo nas suas importações de cerca de 45% para 12% em 2025. O petróleo russo passou de 27% das importações europeias no início de 2022 para cerca de 2%. O carvão russo foi eliminado. (Energy⁠)
Missão cumprida?
Depende da definição de missão.
Porque a energia que deixou de vir da Rússia não desapareceu por intervenção divina. Teve de ser substituída.
E aqui começa uma das grandes ironias desta epopeia.
A Europa reduziu drasticamente o gás russo transportado por gasoduto e lançou-se sobre o mercado mundial de LNG. Segundo a Agência Internacional de Energia, em 2022 as importações europeias de LNG aumentaram mais de 60%, cerca de 64 mil milhões de metros cúbicos. O problema é que a oferta mundial adicional nesse mesmo período foi de apenas cerca de 25 mil milhões. Resultado: a Europa passou a disputar no mercado internacional carregamentos anteriormente destinados à Ásia e a outros compradores, muitos deles a nos revender mais caro o que compraram eles à Rússia. (IEA⁠)
Não eliminámos a necessidade energética.
Mudámos o fornecedor, a rota, a logística e o preço.
É aquilo a que a política moderna chama independência.
E quem apareceu providencialmente do outro lado do Atlântico?
Os Estados Unidos.
A própria Comissão Europeia informa que, em 2025, a UE importou um recorde de 76 mil milhões de metros cúbicos de LNG norte-americano, no contexto de uma parceria energética UE-EUA enormemente reforçada depois do conflito militar na Ucrânia. (Energy⁠)
Que coincidência comercial extraordinariamente conveniente.
A Europa corta uma das suas principais relações energéticas terrestres, reduz brutalmente as compras à Rússia e aumenta a dependência de LNG transportado por navio.
E depois congratula-se por ter conquistado a sua “independência energética”.
É como vender a casa para deixar de dever dinheiro ao banco e celebrar a independência enquanto se assina o contrato de arrendamento.
A SANÇÃO É PARA QUEM?
A lógica anunciada era simples: tornar a energia russa economicamente tóxica, reduzir as receitas de Moscovo e aumentar o custo da guerra para a Rússia. E comprar mais caro aos EUA e a outros países que compram à Rússia.
Mas existe outra pergunta, bastante menos popular:
qual foi o custo para nós?
A Agência Internacional de Energia concluiu que a perda maciça do gás russo por gasoduto tornou estruturalmente mais frágil o mercado europeu e aumentou a dependência da flexibilidade do LNG. (IEA⁠)
E a própria Comissão admite hoje uma realidade ainda mais incómoda: mais de metade da energia consumida na União continua a provir de combustíveis fósseis importados; mais de 80% do gás e mais de 95% do petróleo são importados. Em 2025, a factura europeia de importação de produtos energéticos foi de 336,7 mil milhões de euros. (Energy⁠)
Portanto, conseguimos uma proeza digna de estudo.
Continuamos dependentes.
Só que agora estamos dependentes de outros.
Excelente.
E CHEGAMOS AO GASÓLEO
O automobilista europeu não precisa de estudar geopolítica.
Tem um pequeno seminário sobre relações internacionais instalado no posto de combustível.
Quando vê dois euros ou mais por litro, está perante uma aula prática.
E em Setembro de 2026 a situação tornou-se ainda mais caricata: os mercados europeus enfrentam novamente preços elevados da energia e a Comissão Europeia alerta para a vulnerabilidade decorrente da dependência das importações. A UE importa aproximadamente 80% do gás que consome. (Reuters⁠)
Entretanto, o mercado europeu do gasóleo está suficientemente dependente do exterior para Bruxelas estar preocupada com a possibilidade de os próprios Estados Unidos restringirem as suas exportações de diesel. A Reuters relata que a UE iniciou contactos de alto nível com Washington precisamente devido a essa possibilidade. (Reuters⁠)
Isto merece contemplação.
Primeiro reduzimos a dependência energética da Rússia em nome da segurança.
Depois aumentamos a dependência de outros fornecedores.
Depois um desses fornecedores pondera restringir as exportações.
E Bruxelas fica preocupada.
Independência energética europeia, versão 2026.
MAIS SANÇÕES!
Quando uma política produz custos inesperados, existem normalmente duas possibilidades.
A primeira é reconsiderá-la.
A segunda é anunciar mais da mesma política com uma conferência de imprensa maior.
A Europa parece fascinada pela segunda.
Mais sanções.
Mais armamento.
Mais financiamento.
Mais declarações solenes.
Mais reuniões extraordinárias.
Mais fotografias.
Mais discursos sobre autonomia estratégica.
E, evidentemente, mais uma ida do cidadão ao posto de combustível para financiar involuntariamente a experiência.
Entretanto, a Comissão já transformou em lei a eliminação gradual das importações de gás russo: o LNG russo deverá desaparecer até ao final de 2026 e o gás russo por gasoduto até, no máximo, 30 de Novembro de 2027. (Energy⁠)
Pode defender-se politicamente esta escolha.
O que não se deve fazer é fingir que ela é economicamente gratuita.
E OS ESTADOS UNIDOS?
Existe ainda o elefante gigantesco sentado no meio da sala europeia.
Na leitura geopolítica que defendo, Washington não é um espectador inocente que apareceu casualmente em Fevereiro de 2022. E mais tarde manda explodir o Northstream II
Os EUA têm interesses estratégicos próprios na Europa, na NATO, na relação da Europa com a Rússia, na indústria de defesa e, evidentemente, na energia.
Isso só per si explica o financiamento de mais de 5 mil milhões de Dollars no golpe de estado na Ucrânia em 2014 denominado por Euromaidam e automaticamente todas as decisões de Washington numa guerra por procuração contra o seu adversário Rússia.
Obrigando os seus vassalos europeus através da Igreja Universal do Reino dos Mirdia a aceitar a versão infantil segundo a qual a história começou em fevereiro de 2022 e tudo aquilo que aconteceu anteriormente deve ser apagado.
Há décadas de expansão da NATO, disputas sobre a arquitectura de segurança europeia, 2014, Crimeia, Donbass, Minsk, interesses russos, americanos, europeus e ucranianos.
A origem e responsabilidade pelo conflito são objecto de interpretações profundamente divergentes. O facto incontroverso é que a Rússia tomou a decisão de lançar a Operação Especial Militar simplificada por muitos como uma simples invasão, tudo em grande escala em 2022. Outra questão, diferente, é discutir o processo geopolítico que conduziu até ela e o papel desempenhado pelas várias potências.
É precisamente essa discussão que uma sociedade intelectualmente adulta deveria conseguir fazer.
A EUROPA DESCOBRIU A SOBERANIA — COM A FACTURA EM DÓLARES
O mais extraordinário é ouvir falar incessantemente de “autonomia estratégica europeia”.
Autonomia?
Militarmente dependemos profundamente dos Estados Unidos através da NATO.
Energeticamente substituímos uma parcela enorme da dependência russa por outros fornecedores, incluindo uma presença americana muito maior no LNG. Mas muito mais cara.
Politicamente acompanhámos Washington em sucessivos pacotes de sanções.
Industrialmente, a energia cara tornou-se uma preocupação permanente para sectores europeus intensivos em energia.
Mas somos soberanos porque Bruxelas publicou um regulamento a dizer que somos soberanos.
Magnífico.
Falta apenas convencer a física, a economia e a conta bancária.
QUEM ESTÁ, AFINAL, EM GUERRA?
A pergunta é deliberadamente provocatória.
Porque talvez seja necessário olhar menos para os discursos e mais para as consequências.
O cidadão russo está num país efectivamente em guerra. Em Guerra com 47 países, com a NATO, vassalos do seu adversário EUA, mas com procuração passada ao regime de Kiev que custou mais de 5 mil milhões de dólares essa procuração, mas valeu apena esse investimento, não sou eu que digo, foi Victoria Nuland que disse.
O cidadão ucraniano está num país devastado pela guerra e paga incomparavelmente o preço humano mais terrível deste conflito, que é com o seu sangue.
Mas o cidadão europeu, que não declarou guerra à Rússia, descobriu que também lhe cabe uma função:
pagar.
Paga energia.
Paga combustível.
Paga apoio financeiro.
Paga armamento através dos impostos.
Paga os efeitos económicos das decisões dos seus governos.
E, quando pergunta se todas essas decisões produziram exactamente os resultados prometidos, aparece imediatamente alguém para explicar que a solução é…
mais sanções.
Mais armamento.
Mais dinheiro.
E talvez seja essa a grande ironia europeia desta década.
Tentámos demonstrar que conseguimos viver sem a energia russa.
Descobrimos que continuamos a precisar de energia.
Tentámos demonstrar autonomia estratégica.
Descobrimos novos fornecedores dos quais dependemos.
Tentámos utilizar a economia como arma geopolítica.
E descobrimos que uma arma económica também tem recuo.
No fim, sobra a pergunta que nenhum slogan resolve:
se quatro anos depois continuamos a pagar energia cara, continuamos dependentes do exterior, continuamos a financiar uma guerra sem solução política à vista e continuamos a responder a cada consequência com uma nova dose da mesma estratégia, estamos realmente a conduzir a política, ou limitamo-nos a pagar por ela?
Mais sanções.
Mais armamento.
Mais dinheiro.
Slava Ukraini.
E não se esqueça de guardar o recibo quando abastecer.
É o comprovativo da nossa autonomia estratégica.
Autor:

João Ferreira  

PODE O CHEGA EXISTIR? A PERGUNTA QUE NINGUÉM QUER RESPONDER A SÉRIO …:

Há uma frase escondida no preâmbulo da Constituição que a maioria dos portugueses nunca leu, mas que devia ser ensinada nas escolas com o mesmo cuidado com que se ensina a tabuada: a 25 de abril de 1974, as Forças Armadas derrubaram “o regime fascista”. Não “autoritário”. Não “ditatorial”. Fascista, sem aspas, sem hesitação, gravado a ferro e fogo no texto fundador da democracia portuguesa. E, mais à frente, no artigo 46º, a mesma Constituição proíbe expressamente organizações que professem essa ideologia. É uma frase incómoda, porque obriga a perguntar, sempre que um novo partido bate à porta da política com um discurso que ecoa aquele passado: então e agora, o que fazemos?
Convém dizer, antes de mais, que a própria palavra “fascismo” é um campo minado academicamente.
Há quem defenda, com argumentos sólidos, que o salazarismo foi antes um autoritarismo conservador — um regime que chegou a perseguir os seus próprios fascistas mais fervorosos (os "camisas azuis" liderados por Francisco Rolão Preto), os que sonhavam com um poder totalitário ao estilo italiano.
Outros insistem que foi, sim, fascismo: um fascismo à portuguesa, com sotaque católico e colonial, de partido único, com censura, repressão moral e social, com polícia política, uso da violência, prisões e campos de concentração para os seus opositores, talvez mais brando ou dissimulado, mas da mesma família ideológica dos regimes que incendiaram a Europa.
A distinção entre autoritarismo e totalitarismo, que a filosofia e a ciência política nos legaram, atravessa até a Itália de Mussolini, vista por alguns pensadores, pelo menos até 1938, como uma ditadura nacionalista comum e não como um totalitarismo pleno. Este debate, longe de ser uma curiosidade de seminário universitário, ressurgiu com força na Alemanha, onde a ascensão eleitoral da extrema-direita obrigou o país a perguntar, sem grande conforto, se a palavra “fascismo” continua a servir para descrever o presente ou se ficou irremediavelmente presa ao século passado.
Em Portugal, a lei de 1978 tentou fechar esta porta com uma definição objetiva: são fascistas as organizações que difundam os valores, os métodos e as instituições dos regimes que a História regista como tal, nomeadamente o colonialismo e o corporativismo. Bonito, no papel. Na prática, um juiz do Tribunal Constitucional não tem o luxo de andar a debater Hannah Arendt quando lhe chega à mesa um pedido de extinção de um partido — e foi precisamente isso que aconteceu há não muito tempo, quando um advogado voltou a pedir ao Ministério Público que acionasse os mecanismos para extinguir o Chega, alegando a sua natureza “racista e fascista”. Uma juíza conselheira do próprio Tribunal, questionada sobre o assunto, resumiu o impasse com uma honestidade rara: é muito difícil provar em tribunal que um partido é fascista. Bastará uma saudação de braço no ar? Um cartaz? Um discurso? Onde está a linha entre a retórica inflamada, típica de qualquer populismo, e a ideologia que a Constituição quis mesmo proibir?
E é aqui que a teoria tem de se sujar as mãos com factos. Porque não faltam, infelizmente, casos concretos para pôr em cima da mesa. Há os cartazes de campanha com frases sobre uma comunidade estrangeira que um tribunal obrigou a retirar. Há as queixas-crime apresentadas por associações antirracistas, acusando o partido de incitamento ao ódio contra comunidades ciganas e imigrantes. Há a deputada que, em plena Assembleia da República, relatou ter sido chamada de “vaca” e ouvido mugidos nos corredores, dirigidos a colegas por serem mulheres ou por serem homossexuais. Há a proposta de cortar apoios a associações ligadas à identidade de género, apresentada como se os direitos humanos fossem uma questão de gosto pessoal. Há discursos que atribuem a violações de mulheres portuguesas uma origem quase exclusivamente estrangeira, num exercício retórico que confunde perigosamente segurança pública com xenofobia. Nenhum destes episódios, isoladamente, chega para um tribunal decretar a extinção de um partido. Todos juntos, formam um padrão que seria ingénuo fingir não ver.
E se antes este tipo de discurso vivia escondido, (murmurado num café, tolerado como a excentricidade rabugenta de um tio mais velho), hoje tem palco garantido, instantâneo e sem filtro. As redes sociais funcionam como um barómetro cruelmente honesto daquilo que uma parte da sociedade sempre pensou, mas que o simples pudor, o medo do julgamento alheio, mantinha em silêncio. Bastou um partido dar cobertura política a esse sentimento para que ele saísse do armário com uma desenvoltura assustadora, e bastaram as redes para lhe multiplicar o alcance sem que ninguém tivesse de pagar qualquer preço social por isso. Já não é preciso enfrentar o olhar reprovador do vizinho: basta um telemóvel.

Fico, confesso, do lado de quem hesita em pedir a extinção de partidos por via judicial. Não por simpatia ideológica — nenhuma —, mas porque há algo de perigosamente paradoxal em usar os instrumentos da democracia para calar quem foi legitimamente votado por mais de um milhão de portugueses. É o velho paradoxo: uma democracia que se defende demasiado depressa corre o risco de deixar de ser democracia; uma que não se defende nunca corre o risco de deixar de existir. Entre estes dois abismos, a Constituição não nos dá uma resposta fácil — dá-nos, isso sim, uma obrigação: a de continuar a fazer a pergunta, em vez de a varrer para debaixo do tapete só porque incomoda. Talvez seja esse, afinal, o verdadeiro teste da nossa democracia: não o de saber se conseguimos proibir o Chega, mas o de sermos capazes de o escrutinar sem medo e sem cumplicidade, todos os dias, com a mesma persistência com que ele próprio ocupa os nossos ecrãs.

Paulo Marques  

domingo, 27 de setembro de 2026

No final desta semana, o Pedro Nuno Santos esteve num debate promovido pela associação de estudantes de uma universidade:

Fez um conjunto de considerações politicamente "desalinhadas" com o PS e a governação de António Costa e com o actual rumo de José Luís Carneiro, veio gritar em consideráveis parangonas o nada neutro jornal Observador.

Ora, que eu me recorde, o Pedro Nuno não tem feito outra coisa desde há uns 10 anos que não mostrar "desalinhamento", pensamento próprio, fazendo com frequência a proposta de novas ideias políticas. E, note-se bem, em 2024 ficou a 50.000 votos de ser Primeiro-Ministro.
O "desalinhamento" do Pedro é uma das suas irredutíveis qualidades, o que o torna numa verdadeira reserva política. Para o PS como para o país.
E eu, será que também considero, como parece que o Pedro fez, que na governação de Costa e agora na liderança de Carneiro não esteve tudo bem?
Claro que o acompanho numas matérias e talvez não noutras.
Mas é seu o mérito de agitar as consciências e vir alertar para que a alternativa política em Portugal tem muito especiais responsabilidades e deve ser afirmada com muito mais clareza, muito mais assertividade e com compromisso verdadeiramente transformador do estado de coisas.
Ainda bem que o Pedro Nuno veio relembrar estas evidências.

Ventos Semeados: Chamem-lhe aldrabão, é o que ele é!

Ventos Semeados: Chamem-lhe aldrabão, é o que ele é!:   Há-de chamar-se a alguém outra coisa que não aquilo que ele é? A pergunta ficou no ar depois de Hugo Soares ter chamado aldrabão a André V...

Donald Trump e a era do Mal:

(Chris Hedges, In The Chris Hedges Report, 26/09/2025, Trad. Estátua de Sal)

O Grande Ditador – por Mr. Fish

Sob qualquer perspectiva moral, Trump é depravado. Mas, investido do poder do Estado, desce a outro patamar — o patamar do Mal.

Donald Trump exibe as características clássicas dos psicopatas: charme superficial, grandiosidade e arrogância, necessidade de estímulo constante, propensão para mentir, enganar e manipular, e incapacidade de sentir remorso ou culpa.

Mas será ele mau?

Se, como escreve a filósofa Susan Nieman , o mal não é simplesmente o oposto do bem, mas antes algo que lhe é hostil, se o objetivo do mal é destruir todas as distinções morais, então Trump qualifica-se como o mal. Para Trump, a moralidade é para os perdedores. Toda a vida é transaccional. O interesse próprio e o enriquecimento pessoal suplantam todas as outras considerações. Ninguém mais importa.

No seu novo livro , “Call It Evil: Understanding the Trump Era” (Chamem-lhe Mal: ​​​​Entendendo a Era Trump), Neiman defende que o mal “não é crueldade, mas algo muito pior: as ideias que permitem que a crueldade se torne comum“.

E ela continua:

Há uma diferença entre chamar má a uma ação e chamar crime a outra. Os crimes são coisas para as quais temos procedimentos — pelo menos para punir, senão para prevenir. Isto significa que um crime pode ser encaixado de alguma forma no resto da nossa experiência. Chamar má a uma ação é sugerir que ela não pode ocorrer — e que, por isso, ameaça a nossa confian,ça no mundo, confiança que necessitamos para o navegar. Não existe uma linha divisória clara entre o mal e o terrível. “Má” é o que se diz quando o queixo nos começa a cair, ao percebermos que uma linha foi ultrapassada.

Trump ultrapassa todos os limites. Declara guerras por capricho. Enriquece-se a si e à sua família com esquemas de criptomoedas, dos quais já lucrou mais de mil milhões de dólares. Ordena assassinatos e o rapto de chefes de Estado. Utiliza milhares de milhões de dólares dos contribuintes para sustentar o genocídio na Palestina e, desde Janeiro de 2025, já vendeu mais de 20 mil milhões de dólares em novas armas a Israel. Desmantela departamentos governamentais criados para apoiar os mais vulneráveis ​​e inflaciona o orçamento de guerra. Cria forças paramilitares desonestas para aterrorizar os cidadãos e os imigrantes. Ataca e tenta censurar a imprensa.

Em suma, ele faz o que todos aqueles que cometem o mal fazem. Fomenta um mundo onde nada é sagrado e onde a democracia e as virtudes cívicas não existem.

Os conceitos de equidade, decoro, justiça e empatia são implodidos pela administração Trump. A sua ameaça de aniquilar o Irão – isto é, cometer genocídio – anunciada, por todo o lado, nas Nações Unidas, é recebida com indiferença por um público anestesiado pela sua vacuidade moral.

“Uma vez que a supremacia do interesse próprio é consagrada como realismo de senso comum em vez de uma ideia filosófica, capacidades morais como a empatia e a vergonha tornam-se não apenas ingénuas, mas suspeitas”, escreve Neiman. E continua: “Os sádicos existem e causam sofrimento interminável. Mas as formas mais comuns de maldade surgem da visão de que apenas os tolos acreditam em algo para além da sua própria vantagem.”

As instituições criadas para proteger a democracia, salvaguardar as virtudes cívicas e promover a igualdade — incluindo os tribunais, os escritórios de advogados, as universidades e os meios de comunicação social, todas capturadas pela classe dos bilionários — rapidamente se curvaram para bajular a Casa Branca de Trump. Os magnatas de Silicon Valley inundaram-no, a ele e à sua campanha, com milhões de dólares. As alegadas virtudes que estas instituições e indivíduos afirmavam defender foram descartadas. Essas virtudes, demonstrou-se, não passavam de marketing, de performance artística, de uma farsa.

Para um público enraivecido, a ganância e a crueldade transparentes de Trump são preferíveis à hipocrisia dissimulada dos políticos, republicanos e democratas, que o antecederam. Ele não se envolve na falsa empatia deles. Na verdade, parece incapaz de empatia.

Quando a moral se torna coisa de tolos, a virtude perde o seu sentido. Quando acreditamos que devemos agarrar o que podemos, mesmo à custa dos que nos rodeiam, sucumbimos ao Mal.

“Ao contrário de nós, exibe permanentemente a combinação de motivações que nos dizem ser as verdadeiras forças motrizes do comportamento humano”, escreve ainda Neiman sobre Trump:

Também não parece entender ninguém. Embora reconheça que as outras pessoas, também conhecidas como perdedoras, têm normas, não faz ideia de como essas normas funcionam, levando as pessoas a sobreporem-se aos seus próprios interesses para as honrar. Agindo no palco internacional à imagem dos genes implacáveis ​​de Richard Dawkins, atraiu milhões de seguidores que dizem admirar a sua autenticidade. Isto não significa que os seus seguidores sejam deploráveis. Podem não ser maus, mas num mundo onde o interesse próprio implacável geralmente se camufla sob cores suaves, consideram a sua franqueza refrescante. Já ouviram tantas vezes que as pessoas escondem o interesse próprio genuíno que realmente move as coisas, que se sentem aliviadas por ver um homem que nunca o esconde.

O pior mal, defende Neiman, “pode ser a negação do mal – tal como o desprezo por qualquer bondade que se lhe possa opor. Quando o interesse próprio se torna a base da razão, o mal já não tem de se justificar. Já foi confundido com racionalidade”.

Este mal conduz-nos pelo caminho já conhecido do fascismo. Foi Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto durante o primeiro mandato de Trump, que nos alertou, chamando a Trump “fascista até à medula“.

Os media — sem coragem suficiente para rotular Trump de fascista — preferem a palavra “autoritário“, que, como observa Neiman, pode ser mais tolerável, mas “não tornará o fascismo mais tolerável“.

Autoritarismo, observa ela:

[É] uma palavra que pode ser útil para descrever certos professores alemães e o tipo mais brando de regime militar latino-americano. Mas um país onde homens mascarados deportam pessoas para desertos que nunca viram? As tropas de combate ocupam as grandes cidades e disparam sobre os cidadãos que protestam pacificamente? Um governo que coage os media, as universidades e outros países a atenderem à sua vontade? Um exército que faz explodir pescadores em pedaços com as mais insignificantes justificações e depois inicia o tipo de guerras que o Tribunal Militar Internacional de Nuremberga condenou? Como foi escrit em 1946: “Iniciar uma guerra de agressão não é apenas um crime internacional, é o supremo crime internacional, diferindo dos outros crimes de guerra apenas por conter em si o mal acumulado de todos eles.” Seria fácil continuar, mas enumerar crimes é inútil. Antes destas palavras serem impressas, o governo já terá encontrado inúmeras novas formas de desrespeitar o Estado de Direito.

Estamos em apuros.

A decadência moral na nossa sociedade precedeu Trump. Ele é a sua conclusão lógica. Ele é a apoteose de uma cultura onde a ganância, a exploração e o interesse próprio, os princípios fundamentais do neoliberalismo, são apresentados como as forças definidoras da existência humana.

Devemos lutar enquanto podemos. Mas para isso precisamos de resgatar a linguagem do bem e do mal. Precisamos de fazer escolhas morais e aceitar o sacrifício pessoal. Precisamos de reconhecer a desolação que se apresenta diante de nós, sem desviar o olhar do monólito fascista que se consolida.

Negar estas verdades e recusar-se a desafiar o mal garantirá a nossa escravidão.

Pronunciar estas verdades e estar ao lado dos oprimidos e marginalizados, mesmo que isso implique sacrificar a nossa própria segurança financeira e física, libertar-nos-á.

Fonte aqui

Do blogue Estátua de Sal