Rádio Freamunde

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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Algumas consequências geoestratégicas do ataque norte-americano ao Irão:

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 13/05/2026)


A ação militar norte-americana contra o Irão serviu para clarificar os limites do seu poder e a capacidade de resposta de Pequim às ameaças de Washington, tornando evidente uma correlação de forças internacionais comprometedora da liderança global dos EUA.

A incapacidade de os EUA concretizarem os objetivos políticos a que alegadamente se propuseram, isto é, a mudança de regime no Irão, com o recurso à força militar, evidenciou as limitações do seu poderio bélico: as suas bases militares no Golfo Pérsico foram atacadas e destruídas pelos mísseis e drones iranianos, foram incapazes de honrar os compromissos securitários com os seus aliados da região, e os navios da quinta esquadra debandaram do Golfo para não serem afundados.

Entretanto, o estreito de Ormuz encontra-se sob o controlo de Teerão que determina quem o cruza. Os EUA não conseguiram restabelecer a liberdade de navegação na região. A marinha norte-americana não foi sequer capaz de colocar na região três grupos de porta-aviões, uma capacidade militar muito distante daquela empregue nas guerras em que se envolveu nessa parte do mundo (seis grupos em 1991 e oito em 2003, nas guerras contra o Iraque). Todos estes desenvolvimentos estão a ser seguidos por todo o mundo com muita atenção, em particular pela China.

A antes ‘senhora dos mares’, vê-se agora em dificuldades. Para além do estreito de Bab-el Mandeb e do mar do Sul da China, enfrenta também sérias dificuldades no controlo do estreito de Ormuz. O resultado pífio do embate nestas duas frentes poderá ser determinante nas ambições hegemónicas norte-americanas. Ao que se junta o facto de a indústria naval dos EUA enfrentar uma crise sistémica, a qual faz perigar as pretensões dos EUA de domínio incondicional dos oceanos.

A confrontação militar com Pequim

Os acontecimentos recentes no Irão permitem-nos antever o resultado desse possível confronto. O tema tem sido recorrentemente abordado nos círculos militares norte-americanos. Os argumentos em abono de uma confrontação militar com a China são mais do foro comunicacional do que do técnico, podendo isso levar os decisores a confundir narrativas com factos e, consequentemente, a tomarem decisões erradas.

A ocorrer, esse embate teria lugar na Ásia Oriental/Pacífico ocidental, onde se situam os potenciais focos de um conflito sino-americano, e seria provocado pelas restrições à liberdade de navegação no Mar do Sul da China ou por uma ação militar chinesa em Taiwan. Em qualquer dos casos, os EUA encontrar-se-iam sempre numa situação difícil e desvantajosa. A China combaterá na sua área geográfica e começa a dispor de vantagem tecnológica.

A China tem vindo ao longo das duas últimas décadas a preparar-se para esse eventual embate. O confronto seria travado principalmente no ar, mar, espaço (contra satélites) e ciberespaço (contra sistemas informáticos). É pouco provável que envolva operações terrestres de relevo. O combate no Pacífico Ocidental obrigaria os EUA a operar uma extensa e vulnerável linha de comunicações.

As bases militares norte-americanas na primeira e na segunda cadeia de ilhas não lhes conferem presentemente o potencial de combate necessário para derrotar as forças chinesas. O sistema de ilhas artificiais, criadas pela China no Mar do Sul da China, enquadra-se num poderoso sistema de A2AD (Anti acesso/Negação de Área) desenvolvido por Pequim para controlar o acesso à região e para dificultar ou impedir que o oponente opere nelas.

Uma força expedicionária norte-americana participante nesse combate colocaria os porta-aviões norte-americanos vulneráveis aos mísseis hipersónicos da China, para os quais não têm defesa. As bases norte-americanas localizadas na segunda cadeia de ilhas seriam igualmente alvos ao alcance dos mísseis chineses. Falamos, por exemplo, de Guam. Há dez anos, os EUA estariam numa situação de vantagem. Hoje essa vantagem desvaneceu-se, tanto em meios como em tecnologia.

Os ‘choke points’

É conhecida a dependência chinesa das vias marítimas para as exportações e importações de mercadorias e, consequentemente, a sua vulnerabilidade a um bloqueio da marinha norte-americana. Com base no que temos assistido nos últimos dois meses, é importante perceber se Washington seria, nesta altura, capaz de levar por diante o bloqueio das rotas marítimas no Pacífico e dos choke points que lhes estão associados, quando não foi capaz de o fazer no estreito de Bab el-Mandeb, perturbado pela ação dos Hutis, no Iémen. Incapaz de os derrotar, imagine-se o resultado de uma intervenção numa área consideravelmente mais vasta contra um opositor incomensuravelmente superior.

Para fazer frente a esse risco, que pode evoluir para ameaça, a China tem vindo a aumentar a sua marinha, que, nesta altura, é a maior do mundo. Já tem três porta-aviões operacionais e estão mais dois em construção, sendo um deles nuclear. A sua frota de submarinos tem tido um crescimento constante, construindo anualmente cerca de quatro unidades. A sua enorme guarda costeira é composta por navios de combate e é dotada de uma capacidade que deve ser levada muito a sério. Pelo contrário, a marinha norte-americana, apesar de ser uma força de combate formidável, perdeu o fulgor de há algumas décadas.

Taiwan, sempre Taiwan

Neste confronto pela manutenção da liderança global insere-se o controlo de Taiwan que, no caso de uma confrontação militar com a China, conferiria uma grande vantagem aos EUA, por integrar a “primeira cadeia de ilhas”, crucial para impedir e/ou dificultar a projeção de poder da China na região do Indo-Pacífico.

Cabe dizer que não nos encontramos nos preliminares de uma invasão, a menos que Taipé optasse por declarar a independência, o que é altamente improvável. Enquanto isso não acontecer, uma operação militar chinesa em Taiwan não acontecerá. Se assim não fosse, Taipé já teria tomado uma série de medidas preventivas, nomeadamente preparar uma defesa robusta do seu território. Um país que está prestes a ser invadido não mantém um serviço militar de apenas quatro meses.

A China não tomou no passado a iniciativa de desencadear uma guerra no Pacífico, não se vê porque o faria agora. Não se descortinam razões plausíveis para que isso aconteça, nem precedentes históricos. Nas últimos séculos em que a China foi a potência dominante da região, excluindo os últimos 150 anos, nunca tentou invadir o Japão. Pelo contrário, foi Tóquio que atacou a China em várias ocasiões (1592, 1894-5, 1931 e 1937).

No entanto, não se pode descartar a ocorrência de wild cards. A militarização do Japão (onde se inclui a aquisição de uma eventual capacidade nuclear) e/ou a colocação de uma força militar norte-americana na ilha, para lá de pequenos contingentes com a missão de formar as forças militares locais, poderia provocar uma reação militar por parte de Pequim. Independentemente da modalidade de ação escolhida pela China para intervir em Taiwan, interrogamo-nos como é que os EUA reagiriam a uma operação militar chinesa de grande envergadura na ilha, cientes da estratégia de ambiguidade estratégica seguida por Washington. Estariam os EUA dispostos a combater por Taiwan?

E os aliados asiáticos?

Depois do que aconteceu aos aliados dos EUA na Ásia Ocidental, os aliados asiáticos devem estar muito apreensivos. Ao contrário dos democratas (liberais intervencionistas), o presidente Donald Trump assume não necessitar de aliados para afirmar as suas ambições hegemónicas. A hubris está a sair-lhe cara. Já hostilizou os europeus – não se trata apenas de não cooperar com eles, mas também de os criticar e punir – e também já deu indícios de o vir a fazer com os asiáticos.

A posição dos EUA em relação ao QUAD – uma aliança informal entre os EUA, Japão, Austrália e Índia, criada para contrariar a influência da China na região – que outrora foi a pedra angular da estratégia norte-americana no Indo-Pacífico, deteriorou-se significativamente desde o regresso de Trump à Casa Branca, em 2025, deixando o grupo sem liderança e com o seu valor geoestratégico degradado. No seu primeiro mandato, Trump reavivou o QUAD, após uma década de dormência, e integrou-o firmemente na estratégia norte-americana, para agora o relegar para a insignificância geopolítica.

O comandante do Comando norte-americano do Pacífico manifestou publicamente a sua preocupação com o facto de não ter navios anfíbios, contratorpedeiros e submarinos de ataque suficientes. Alguns responsáveis da administração vieram dizer que os EUA gastaram tanta munição no Irão que não conseguiriam executar na íntegra os planos de contingência para defender Taiwan em caso de uma invasão chinesa. Os EUA poderão demorar até seis anos a repor as munições gastas.

O que à partida visava ser um passo na afirmação do poderio norte-americano, está a transformar-se num desaire que afeta seriamente a reputação militar norte-americana, deixando claro aos olhos de todos que uma aventura militar vencedora contra a China, no Pacífico ocidental, não tem qualquer viabilidade. A ambição hegemónica norte-americana poderá ter soçobrado no estreito de Ormuz.

Como se isso não bastasse, Pequim não reconhece nem vai cumprir as sanções dos EUA às compras de petróleo iraniano. O presidente Xi Jinping deu instruções às empresas e aos bancos chineses para desrespeitarem as sanções norte-americanas à refinação de petróleo na China. As enormes reservas estratégicas de petróleo, a diversificação das fontes de abastecimento e um mix energético único (o petróleo representa apenas cerca de 4% da produção de eletricidade da China) tornaram a China praticamente invulnerável aos acontecimentos em curso.

A ação militar norte-americana contra o Irão serviu para clarificar os limites do seu poder e a capacidade de resposta de Pequim às ameaças de Washington, tornando evidente uma correlação de forças internacionais comprometedora da liderança global dos EUA. É neste cenário que Trump e Xi se vão encontrar.

Do blogue Estátua de Sal

Direitos individuais, religiões e política:

Herdámos da ditadura a intolerância, os interditos e a vocação censória. Uns por falta de idade, outros de memória, outros ainda, por preconceitos, todos parecem dispor de uma lista de matérias que não podem ser objeto de contestação, censura, ironia ou caricatura.
Ai de nós se desistirmos de censurar, gozar, achincalhar ou combater aquilo de que não gostamos, ou até gostamos, ou defender o que entendermos. Quando desistirmos de usar um direito, alguém se encarregará de o revogar.
Ai de nós se não pudermos combater as religiões, os sistemas políticos, as tradições e a liturgia que lhes anda associada! Deus e o Diabo, os homens e os seus interditos, têm de ser discutidos para não sermos escravos de preconceitos, verdades únicas e do statu quo, isto é, para evitarmos ser dissimulados, invertebrados e subservientes.
Combater, ridicularizar e censurar são direitos individuais. Que seria da democracia se não pudéssemos combater o comunismo, o fascismo, o liberalismo, a social-democracia e a própria democracia? Só em ditadura, só com partidos únicos!
Quem resistiria a uma boa gargalhada se visse um general mijar-se na parada, um bispo escorregar no altar e estatelar-se, com a mitra a voar para um lado e o báculo para outro, um aiatola a virar a cara à nudez de uma estátua ou um muçulmano horrorizado com o cheiro ao leitão da Bairrada?
Só faltava não podermos dizer mal dos mortos e vivos, de Mao, Hitler, Estaline, Franco, Enver Hoxha e Salazar; de Trump, Putin, Erdoğan, Netanyahu e Xi Jinping; do Papa, do Rabi de Jerusalém, aiatolas, Imperador do Japão, rei de Inglaterra ou rei dos zulus!
Combater as religiões, o ateísmo, o ceticismo, o agnosticismo ou qualquer doutrina de natureza filosófica, mística ou estética são direitos irrenunciáveis. Convém lembrar aos crentes, de qualquer credo, que, para eles, só o seu deus é verdadeiro e todos os outros são falsos; e, para os ateus, só é falso mais um. E as designadas blasfémia e apostasia não são crimes, são direitos individuais e irrenunciáveis.
Combato o hinduísmo que mantém castas, execra viúvas recasadas e arrasa templos da concorrência; o budismo, que extermina os muçulmanos rohingyas, na Birmânia; o xintoísmo, cujo imperador é demiurgo, que alimentou a escravatura e o nacionalismo fascista do Japão; o evangelismo que, nos EUA, inspira a Ku Klux Klan e o Partido Republicano; o calvinismo, o da despótica teocracia de Basileia; o catolicismo das Cruzadas e Inquisição, o das Filipinas, Polónia, Hungria, Paraguai e Perú; o islamismo, que odeia as mulheres, a música, o toucinho e os direitos humanos, e aprova a pedofilia; e o judaísmo sionista que se julga com direito divino à Palestina.
Caros leitores, vertam aí nos comentários o seu ódio ao ateísmo, à social-democracia e à República, a que sou fiel. Não renuncio aos meus direitos e não os limito aos outros, ao contrário da religião católica que, ainda hoje, em Portugal, nega o direito à morte digna, como na ditadura negava o direito ao divórcio e perseguia o casamento civil.

Quanto a Deus, ele que faça milagres; eu continuo a escrever crónicas.

Carlos Esperança 

O Fantasma de Tucídides:

Tucídides viveu em Atenas do século V antes de Cristo e atravessou a história como um dos primeiros homens a trocar os mitos pela observação. Em vez de deuses interferindo no destino das cidades, preferiu testemunhos, estratégia, ambição e medo — matérias-primas eternas da política humana.

Na sua obra sobre a Guerra do Peloponeso, narrou o conflito devastador entre Atenas e Esparta, de 431 a 404 a.C., uma guerra longa que fraturou o mundo grego e alterou para sempre o equilíbrio de poder do seu tempo.
Mas Tucídides percebeu algo mais profundo do que batalhas ou tratados. Concluiu que a verdadeira origem da guerra não estava apenas em incidentes diplomáticos ou disputas comerciais. O motor oculto era o medo: Esparta temia o crescimento de Atenas. Séculos depois, essa percepção ganharia um nome moderno — “a armadilha de Tucídides”.
Então o velho ateniense reaparece.
Não em túnicas ou ágoras, mas numa sala iluminada de Pequim, cercado por intérpretes, estrategistas, bandeiras e câmeras. Diante do presidente dos Estados Unidos, Xi Jinping evoca Tucídides e fala da necessidade de evitar essa armadilha histórica: a tendência de a guerra surgir quando uma potência emergente ameaça a liderança de outra já estabelecida.
Enquanto os tradutores perseguem cada sílaba e os fotógrafos disputam o melhor enquadramento, o nome de Tucídides atravessa vinte e cinco séculos como um aviso silencioso.
O que está em jogo já não são apenas tarifas, semicondutores, ilhas artificiais ou rotas marítimas. É algo mais antigo e mais perigoso: o temor de perder o lugar no topo do mundo.
É como se Tucídides estivesse sentado invisivelmente entre as delegações, observando Washington e Pequim como um dia observou Atenas e Esparta.
Não para decretar a inevitabilidade da guerra, mas para perguntar se os homens modernos conseguirão escrever um desfecho diferente daquele que aprisionou os antigos.
Nesse prosema geopolítico, a paz deixa de ser paisagem e passa a ser exercício diário de contenção. Cada navio enviado ao Pacífico, cada sanção anunciada, cada palavra escolhida num comunicado oficial aproxima ou afasta o mundo do penhasco descrito pelo historiador ateniense.
E nós, espectadores de bolso, deslizando manchetes na tela do celular entre um café e outro, acompanhamos esse duelo como quem observa uma tempestade no horizonte sem perceber que o vento já começou a mudar.
Talvez Tucídides anotasse que a verdadeira encruzilhada não está nas manchetes, nem nos discursos cuidadosamente calculados, mas na capacidade das potências de transformar o medo em negociação — e não em ameaça.
Se conseguirem escapar, enfim, da armadilha que ele descreveu há mais de dois mil anos, o velho ateniense deixará de ser lembrado como profeta da guerra. E passará a ser testemunha de uma das raras vitórias da lucidez sobre o destino.

Hoje, Portugal assistiu a algo maior do que qualquer manifestação: a dignidade silenciosa dos nossos polícias:

O Chega e André Ventura esperavam uma multidão à porta da Assembleia da República.
Esperavam câmaras, esperavam barulho, esperavam palco.
Mas o que encontraram foi… ninguém.
E esse silêncio falou mais alto do que mil discursos.
Mostrou que os homens e mulheres que vestem a farda,aqueles que arriscam a vida por nós — não são instrumentos políticos, não são massa de manobra, não são “tropa de choque” de ninguém.
São profissionais íntegros, servidores do Estado, gente que honra Portugal.
Num momento tão delicado para a própria polícia, tentar arrastá‑la para um confronto político foi irresponsável.
Para quê?
Para criar pressão?
Para transformar a polícia num símbolo partidário?
Para insinuar que quem comete crimes dentro da instituição deve ser ilibado?
Se era esse o objetivo, então hoje os polícias deram a resposta mais bonita possível:
não alinharam.
Hoje, sem gritos, sem cartazes, sem marchas, mostraram ao país que a sua lealdade é à lei, não a agendas pessoais.
Mostraram que a farda não é bandeira partidária.
Mostraram que Portugal é maior do que qualquer tentativa de divisão.
A polícia portuguesa merece respeito, carreira digna, melhores condições mas merece também não ser usada.
E hoje provou que sabe distinguir quem a defende de quem apenas a instrumentaliza.
Portugal agradece.
Os portugueses viram.
E os polícias mostraram que a sua força não está no barulho…
está na honra.
🇵🇹
Portugal acima de agendas. A polícia acima de manipulações. A democracia acima de tudo.
Bem hajam
Paulo Pinheiro
🇵🇹

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Luís Montenegro (Luís), um tartufo na Cova da Iria:

(Carlos Esperança, in Facebook, 13/05/2026, Revisão da Estátua)

Montenegro esteve esta terça-feira à noite no Santuário de Fátima, tendo participado na habitual Procissão das Velas, que precede as celebrações de 13 de maio, considerada a data religiosa mais significativa para os católicos.

Nada tenho quanto à fé que leva os peregrinos a Fátima, cabe-me apenas respeitar quem acredita que o Sol bailou ali ao meio-dia e uma senhora de branco saltitou de azinheira em azinheira, para dar recados a três crianças analfabetas, uma que a via e ouvia, outra que via e não a ouvia e a terceira que não a ouvia nem via, e também acreditava.

O negócio da fé católica da mais lucrativa sucursal portuguesa prospera no local que o cónego Manuel N. Formigão, o Quarto Pastorinho, transformou de local de pastoreio em lucrativo segmento do sector terciário com a criativa atualização dos milagres de Lourdes.

Fátima, hoje, já não é o espaço de luta contra a República, primeiro, e o comunismo, depois, é agora um dos grandes destinos do turismo pio e o local onde rumam angústias e ansiedades dos que sofrem, para levar oferendas e orações.

Misturados com os crentes, anónimos e discretos, fazem-se fotografar tartufos e outros oportunistas. Não sei se o peregrino Luís foi ali rezar pelo sucesso da Spinumviva, pelo fim das investigações à nebulosa imobiliária com que fintou o fisco e recebeu avenças ou por qualquer outro milagre que Amadeu Guerra não consegue obrar.

O CEO da Spinumviva, a implorar a proteção do Céu no Mariódromo de Fátima, pode ter estado a pedir à Senhora que interceda junto do seu divino filho para ser servido de chamar o rival, Passos Coelho, à divina presença, mas não é crível que o Peregrino Luís se deixasse contagiar pela fé como se deixou deslumbrar pelo poder.

A desfaçatez de se fotografar em Fátima, de vela na mão, com a consorte e sócia, é um ultraje à laicidade por quem não tem escrúpulos. O Luís, por milagre ou perfídia de Marcelo e pela insensatez de Lucília Gago, é PM de um país laico, que lhe permite ter a fé que quiser, mas não lhe permite a exibição pública para as televisões.

O Luís pode saber rezar, pode ser devoto do anjo que poisou no anjódromo onde ontem esteve de vela na mão, mas o que o país espera dele não é que reze, é que resolva o que prometeu, que governe como se soubesse, que substitua as ave-marias e a propaganda por decisões acertadas de governo e pela decência.

Para sacristão bastou-nos o anterior Presidente da República.

Do blogue Estátua de Sal 

Ivo Rosa, CNN:

Na longa carta enviada ao Presidente da República, António José Seguro, e ao presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar Branco, o juiz desembargador conta tudo sobre o alegado cerco que o Ministério Público. Em discurso direto, seguem todos os pormenores do caso da denúncia de corrupção e dos outros sete inquéritos que o visaram Ivo Rosa. 

Ler e ver aqui.

OS DRONES PERDIDOS QUE PREJUDICAM AMIGOS:

Há situações de guerra que parecem escritas por um argumentista cansado de excesso de realismo. A Letónia, um dos aliados mais fiéis da Ucrânia dentro da NATO, acabou mergulhada numa crise política não por causa de um ataque russo direto, mas devido ao impacto de drones ucranianos “perdidos” que decidiram aterrar - ou explodir - em instalações energéticas letãs.

Resultado: não colapsou nenhuma frente militar, não mudou o rumo da guerra… mas caiu a primeira-ministra da Letónia.
A história tem um simbolismo cruel. Enquanto Kiev tenta demonstrar capacidade para atingir alvos profundos em território russo, dois drones "desviam-se", atravessam fronteiras, entram num país aliado e acabam por atingir precisamente infraestruturas energéticas amigas - o tipo de alvo que a Ucrânia normalmente procura destruir do outro lado da fronteira.
Claro que a explicação oficial apareceu rapidamente: foi a eletrónica de desvio dos russos, perdeu-se a navegação, houve desvio de percurso ou interferência de GPS. Tudo plausível ou... inventado. Afinal, a guerra moderna já não se trava apenas com tanques e artilharia, mas também com sinais, satélites, jamming, spoofing e sistemas que confundem máquinas até estas já não saberem onde estão.
O problema é que os humanos continuam a fazer perguntas simples: “Se os drones podiam perder-se, por que razão foram lançados tão perto de fronteiras sensíveis?” E outra ainda mais lógica: “Se perderam o controlo, então quem garantia que não cairiam precisamente onde caíram?”
Não se pode afirmar uma intenção hostil da Ucrânia contra a Letónia. Isso faria pouco sentido estratégico e político. O problema é outro: quando uma guerra começa a depender de enxames de drones de longo alcance, baratos, semiautónomos e vulneráveis a interferências, o risco de transformar aliados em danos colaterais aumenta brutalmente.
E aí surge a verdadeira questão da história: a Rússia não precisou de atacar Riga; bastou dois drones “amigos” perdidos para provocar uma crise governamental dentro da NATO.
A política funciona assim. Muitas vezes os países sobrevivem aos erros estratégicos, mas os governantes não. Os Estados absorvem o choque; os responsáveis pagam a fatura. E foi isso que aconteceu na Letónia: uma combinação de falhas de defesa aérea, fragilidade política interna e embaraço internacional acabou por derrubar quem estava no lugar de Primeira-Ministra.
No meio de toda esta modernidade tecnológica, sobra uma conclusão: talvez antes de fazer voar drones sobre milhares de quilómetros, seja prudente ter a certeza de que eles sabem para onde vão. Porque atacar o inimigo e acabar por incendiar instalações de um amigo não é exatamente a melhor campanha de relações públicas militares.
E numa guerra onde todos falam de “escalada”, talvez a primeira preocupação devesse ser impedir que as armas autónomas comecem também elas a perder o sentido de fronteira, de aliado… e de destino.
Boa tarde!