Rádio Freamunde

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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Ainda há quem se lembre das senhas de racionamento? Das filas à porta do merceeiro?

Vale do Mondego - Guarda
Por cá, ainda há quem guarde na memória esses tempos difíceis.
Na década de 40, Portugal viveu uma grave escassez de bens essenciais e um forte agravamento do custo de vida. Para garantir o abastecimento da população, o Governo instituiu o racionamento de produtos alimentares.
Cada família recebia um número limitado de senhas para levantar no merceeiro ou no retalhista os géneros essenciais.
E os preços subiam.
Entre 1943 e 1944, o quilo do arroz passou de 3$50 para 4$80 e o das batatas de 1$20 para 2$40. O peixe duplicou de preço, passando de 10$00 para 20$00. A manteiga mais do que duplicou: de 4$20 para 9$20. E um simples par de sapatos passou de 180$00 para 300$00.
Hoje, estes valores podem parecer-nos distantes. No entanto, para quem viveu aqueles anos, eram dificuldades concretas, eram contas feitas à mesa, eram filas, senhas e sacos de mercearia cuidadosamente pensados.
E é impossível não olhar para o presente.
Vivemos novamente numa Europa marcada por conflitos, tensões e incertezas. Fala-se hoje, mais do que há alguns anos, de preparação, de segurança e da necessidade de proteger bens e serviços essenciais. A própria União Europeia tem vindo a reforçar a preparação para possíveis crises e a resiliência das cadeias de abastecimento alimentar.
Não sabemos o que o futuro nos reserva. Mas sabemos uma coisa: a memória ensina-nos a não dar por garantido aquilo que hoje temos.
Talvez seja por isso que vale a pena recordar. Liliana Brás

Irene Pimentel, in jornal "O Público". 

O melhor texto de homenagem a Jorge Palma que li por aqui. Foi o Mário Gonçalves que o escreveu :

"Querido Jorge,
Há pessoas que morrem e deixam um silêncio.
Tu deixas canções.
E talvez seja essa a estranha consolação desta noite, saber que, por mais definitiva que seja a morte, não conseguiu levar-te por inteiro.
Ficaste.
Ficaste naquele piano que parecia conhecer-te melhor do que muita gente. Ficaste nessa voz imperfeita, rouca, vivida, tão humana que nunca precisou de ser bonita para ser absolutamente bela. Ficaste nas palavras que escreveste para ti e que, sem pedirem licença, acabaram por contar pedaços da vida de todos nós.
Durante tantos anos, cantaste aquilo que muitas vezes não sabíamos dizer.
Cantaste os amores que chegaram tarde. Os que partiram cedo. As noites demasiado compridas. Os encontros e os desencontros. A solidão no meio da multidão. A esperança dos que já tinham poucas razões para acreditar. E essa nossa maneira tão portuguesa de continuar, mesmo quando não sabemos exatamente para onde.
Nunca pareceste querer ser um herói.
Talvez por isso tenhas sido tão importante.
Eras humano à nossa frente. Com as tuas fragilidades, os teus excessos, as tuas sombras e essa liberdade que sempre pareceu maior do que qualquer convenção. Nunca nos deste uma vida perfeita. Deste-nos uma vida verdadeira.
E nós reconhecemo-nos nela.
Houve quem te ouvisse num quarto, sozinho. Quem te levasse no carro por estradas intermináveis. Quem se apaixonasse ao som das tuas músicas. Quem chorasse contigo sem que alguma vez soubesses. Quem encontrasse numa frase tua as palavras que naquele dia não conseguia encontrar em mais lado nenhum.
Essa é uma das coisas mais bonitas da música, passamos a vida acompanhados por pessoas que nunca conhecemos.
E tu estiveste ao lado de tanta gente.
Sem saberes.
Talvez nunca seja possível explicar inteiramente o que um músico deixa quando parte. Não são apenas discos, concertos ou fotografias antigas.
Deixa momentos.
Deixa uma canção que, daqui a vinte anos, começa a tocar e faz alguém regressar imediatamente a uma noite, a uma pessoa, a um beijo, a uma casa que já não existe.
Deixa juventudes inteiras guardadas em três ou quatro minutos de música.
Deixa saudade antes mesmo de acabar a última nota.
Hoje Portugal fica um pouco mais silencioso.
Mas amanhã alguém há de sentar-se ao piano.
Alguém há de voltar a pôr um disco teu.
E alguém, talvez muito novo, vai descobrir pela primeira vez aquilo que tantos de nós já sabíamos, que houve um homem chamado Jorge Palma que escrevia canções como quem deixava a porta aberta para podermos entrar.
E nesse instante estarás vivo outra vez.
Talvez seja esse o privilégio dos músicos.
Nós despedimo-nos do homem.
Mas não conseguimos despedir-nos da voz.
Por isso, não te digo adeus.
Obrigado, Jorge.
Obrigado pelas noites. Pelas palavras. Pelo piano. Pela imperfeição. Pela liberdade. Pela companhia.
Obrigado por teres transformado tanto daquilo que dói em qualquer coisa que podíamos cantar.
E obrigado, sobretudo, por teres deixado um pedaço de ti em tantos pedaços de nós.
Hoje despedimo-nos de Jorge Palma.
Mas há homens que, depois de passarem pela música e pela vida de tanta gente, já não conseguem partir completamente.
Até sempre, Jorge.
E talvez a despedida só pudesse ser feita com palavras tuas…
“Encosta-te a mim. Nós já vivemos cem mil anos.”

Mário Gonçalves 

GUTERRES: UM SABOR A LIMÃO E FEL:

António Guterres fez hoje a sua última Assembleia Geral da ONU. Dez anos, dois mandatos. Dez anos de guerras, pandemia, Gaza, Ucrânia, crises humanitárias, alterações climáticas e, sobretudo, de uma coisa que já ninguém consegue esconder: o mundo mudou e a ONU ficou para trás.
O próprio Guterres reconhece agora que as instituições internacionais continuam a reflectir uma realidade de poder criada há décadas. E há poucos dias, na cimeira dos BRICS, foi ainda mais claro: estamos a caminhar para um mundo multipolar e as instituições têm de reflectir essa realidade.
Pois é. Mas esse mundo multipolar não nasceu ontem. E aqui fica o sabor a limão e fel destes dez anos: Guterres termina o mandato com o diagnóstico praticamente feito, mas sem ter conseguido mudar a doença.
Não é justo atribuir-lhe sozinho essa responsabilidade. A ONU não é propriedade do secretário-geral e reformas como a do Conselho de Segurança dependem dos Estados-membros, sobretudo das grandes potências. Mas é impossível não reconhecer a contradição: durante dois mandatos, Guterres presidiu à organização que mais precisava de se adaptar ao novo equilíbrio mundial e sai quando essa reforma continua por fazer.
A ONU continua instalada em Nova Iorque, dentro de uma arquitectura política desenhada em 1945, quando o mapa do poder mundial era outro. Hoje existem China, Índia, Rússia, BRICS, África a exigir representação, América Latina, Ásia e um Sul Global que já não aceita facilmente que o mundo seja explicado apenas a partir do Ocidente. E a questão não é expulsar os Estados Unidos da ONU. É tirar a ONU da lógica de que o mundo continua a ter um centro e uma periferia.
A ONU precisa de ser "reciclada": mais representativa, mais equilibrada, mais democrática e capaz de ouvir tendências políticas e interesses que não cabem na velha divisão entre vencedores e vencidos de 1945. Guterres deixa-nos uma ONU cansada, financeiramente pressionada e politicamente bloqueada. Deixa também uma advertência certeira: as “fendas” do mundo estão a transformar-se em abismos.
Fica então a pergunta: Se até o secretário-geral termina dez anos a pedir a reforma da ONU, quem é que, afinal, conseguiu reformá-la?
Guterres sai.
A ONU fica.
E o mundo - esse - já está muito mais à frente.

João Gomes  

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Meditações sobre uma civilização outrora luminosa:

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/09/2026)


Dentro de uns anos alguém há-de perguntar o que faziam eles enquanto Netanyahu e o seu bando de snipers exterminavam todo um povo perante o seu silêncio e indiferença, ou o que faziam eles quando um novo Calígula disparava ordens, tarifas e ameaças em todas as direcções e eles obedeciam e ajoelhavam, num tributo jamais visto da liberdade à indecência.

Paulo Rangel é o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE), não sei se o pior da democracia portuguesa, mas seguramente um dos que não deixarão saudades. Tem uma característica que não vai muito bem com a função, que é a de se ocupar mais com a política interna do que com a política externa. Aparentemente, Rangel ainda não se deu conta de que a campanha eleitoral já lá vai, não há eleições no horizonte e o que os portugueses querem é saber do presente e do futuro, não do passado. Ninguém no Governo o ultrapassa na obsessão de se envolver na política partidária na sua forma mais primária, vivendo a atribuir todos os males presentes e futuros do país ao Governo antecedente, como ainda agora sucedeu ao acusar os socialistas do desastre educacional revelado pelo PISA — uma área onde não é suposto o MNE meter o bedelho. Aliás, esta é uma obsessão que não conhece fronteiras, como se viu na sua patética ida a um comício eleitoral do PP espanhol para se lançar numa gritaria histérica contra o voto nos socialistas do vizinho: “España, no te mates!” — um impensável disparate diplomático por parte de quem, sendo MNE, tinha de prever que, como veio a acontecer, poderia vir a ter de negociar com o Governo espanhol, não como cabo eleitoral da direita ibérica, mas como representante da diplomacia de Portugal.

Meditações sobre uma civilização outrora luminosa
Hugo Pinto

Mas a mera existência de um Governo socialista em Espanha percebe-se que é um tormento que não o deixa em paz. Assim, para Paulo Rangel a invasão de Ceuta, em 30 de Julho, foi consequência da regularização extraordinária de 500 mil imigrantes a viverem há vários anos em Espanha, levada a cabo pelo Governo de Pedro Sánchez — a tese logo defendida também por Trump, o PP e o Vox e a extrema-direita europeia, mas que, sendo um assunto da política interna de um país estrangeiro, não pode ser partilhada por quem é MNE de outro país. Aliás, como se sabe, nem é verdade: a invasão de Ceuta foi, sim, consequência de uma interpretação deturpada de uma sentença do Supremo Tribunal Espanhol, que estabeleceu que quem chegasse a nado não podia, simplesmente, ser logo rechaçado — porque uma coisa é obrigar um barco de imigrantes a dar a volta, outra coisa é obrigar imigrantes a nado a fazê-lo. E, aproveitada por uma campanha montada nas redes sociais provavelmente por Israel, por vingança do pioneirismo de Madrid no reconhecimento de um Estado Palestiniano, ou por Trump, como represália pela recusa da cedência das bases espanholas para o ataque ao Irão ou para fazer alinhar Espanha com o compromisso de gastar 5% do PIB em Defesa, como ele exigia — tudo decisões de política externa diametralmente opostas às do nosso Governo e que tanto devem irritar Paulo Rangel pelo contraste entre uma diplomacia de um país independente e a de um país subserviente. A hipocrisia e a imoralidade que isto mostra é chocante: Rangel sabe que, tal como Espanha, precisamos desesperadamente de imigrantes, que vários sectores da economia e do modelo social não funcionariam sem eles e que vários outros sectores reclamam, não menos, mas mais imigrantes, começando logo pelo Turismo e Hotelaria, que nos sustentam. Mas ele acha que estes deserdados do progresso são abusadores, que vêm para aqui por gosto e não por necessidade extrema, e que, portanto, não podem ser legalizados e gozar de direitos básicos iguais aos nossos: o discurso de Trump, de Ventura, do Vox, da AfD alemã e de toda a demais caravana “cristã” da extrema-direita. No tempo em que fomos a África buscar seis milhões de escravos e os levámos acorrentados para o Brasil também não lhes reconhecíamos direitos alguns, mas ao menos não contestávamos ou disfarçávamos a sua necessidade. E — coisa que nem os brasileiros se atrevem a reconhecer — sem eles não existiria Brasil.

Se gasto tanto latim com, para mim, tão despicienda criatura, em vez de me ocupar com a magna questão nacional do tanque-piscina do ministro Luís Neves, é porque Paulo Rangel é parte — pequenina, mas saltitante de euforia — desse movimento teutónico que está em marcha pelo mundo a que outrora chamávamos livre e que, mais do que uma revolução ideológica ou um programa político, mais do que uma regressão ou um recuo às trevas, é a negação planeada de todos os valores em que assentava a civilização ocidental — e até essa coisa de que tantas vezes se valeram e a que chamam civilização judaico-cristã. Não foi em vão nem estupidamente que Trump, no seu primeiro mandato, enviou Steve Bannon à Europa com a missão de aqui estabelecer as “madraças” da contra-revolução liberal. E não foi em vão que vários membros da actual Administração americana se envolveram directamente em campanhas eleitorais europeias, sempre em apoio das forças extremistas de direita. Porém, não só a herança judaica evoluiu aos olhos de qualquer pessoa de boa-fé para o que é hoje um Governo terrorista sem qualquer resquício de decência humana, como a herança dita cristã é actualmente encabeçada por um homem que é a autêntica encarnação do mal. O judaísmo foi pervertido pelo próprio “povo eleito” de Israel e o suposto cristianismo de que também se reclamam já foi sumariamente denunciado e condenado por este Papa e pelo seu antecessor. A estes dirigentes europeus, como Paulo Rangel, coniventes e cooperantes com os crimes de Israel e com uma Administração americana que subverteu todas as regras do direito internacional e da própria civilização que as codificou ao longo de séculos, não resta, pois, refúgio algum onde se abrigarem. Dentro de uns anos, se ainda houver mundo e se ainda restar consciência no mundo, alguém há-de perguntar o que faziam eles enquanto Netanya­hu e o seu bando de snippers exterminavam todo um povo perante o seu silêncio e indiferença, ou o que faziam eles quando um novo Calígula disparava ordens, tarifas e ameaças em todas as direcções e eles obedeciam e ajoelhavam, num tributo jamais visto da liberdade à indecência.

2Esta indiferença terminal estende-se por outras áreas, como a atitude perante uma Alemanha que se está a rearmar em força, como numa velada de armas. Uma Alemanha a armar-se como se fosse para a guerra e com os nazis num crescimento que alguns já julgam imparável aparentemente não os levam a escutar nenhumas campainhas de alarme nem a meditar na repetição de uma história trágica.

Assim derrubados todos os fundamentos jurídicos e morais em que assentava o frágil equilíbrio do mundo herdado do pós-guerra, assistimos hoje ao triunfo da lei do mais forte e do salve-se quem puder. E perante isto, uma opinião pública que foi sistemática e planeadamente cultivada na desinformação e na ignorância, vamos dando o passo que falta para consumar o crime: a extinção das democracias, suicidadas por si mesmas e por indiferença, cansaço, desistência. Não adianta, por exemplo, gastarmo-nos a tentar explicações para o triunfo e o avanço da AfD alemã nos estados federados da antiga e sinistra RDA. Não há explicações aceitáveis, nem no imenso esforço financeiro feito pelos alemães ocidentais para puxar pela economia do Leste, nem na diferença de oportunidades de fazer pela vida, que não há, nem no excesso de imigração que lá não existe. E não foram sobretudo os integrantes da faixa etária doente da Ostalgie que deram a vitória à AfD na Saxónia-Anhalt, foram os votantes da faixa etária dos 35 aos 59 anos, que quase só conheceram a vida em democracia e não gostaram. Ali, como em cada vez mais lugares, a extrema-direita avança porque um número cada vez maior de pessoas prefere uma autoridade forte que os mande e governe, enquanto eles se remetem ao “viver habitualmente” preconizado por Salazar, do que essa extraordinária aventura cívica e moral de viver em liberdade.

Chegámos aqui pela cobardia dos dirigentes políticos, pela ignorância satisfeita dos povos cujos cérebros foram cientificamente lavados ao serviço da ganância dos piratas das redes sociais e dos algoritmos e, em grande parte também, pela demissão de uma imprensa atordoada por uma concorrência desleal e uma falta de meios trágica: uma combinação perfeita e letal. Agora, salve-nos quem puder.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortogra

 Do blogue Estátua de Sal

A esquizofrenia dos líderes europeus. Porque não se tratam?

(Isidoro de morais pereira, Crónicas da controvérsia, Página do Facebook, 19/09/2026)

O Major-General Agostinho Costa, junto com o General Carlos Branco, representa das poucas mentes lúcidas que ainda restam na análise portuguesa da guerra na Ucrânia, uma voz que não se deixa levar pela propaganda ocidental nem pela histeria militarista que domina os média.

A observação de Agostinho Costa é tão simples quanto devastadora: os europeus têm uma “linguagem esquizofrénica”. Por um lado, afirmam que os russos estão a perder em toda a linha, que morrem “não sei quantas centenas de milhares por dia”, que avançam “a passo de caracol”, que nunca chegarão ao fim, que estão descontentes, alcoólicos, etc. Por outro lado, dizem que a Rússia vai atacar a Europa, que representa uma ameaça existencial, que precisamos de mais armas, mais sanções, mais gastos militares. Como bem pergunta o General: “Digam-nos lá se os russos nos vão atacar ou se estão a perder a guerra”, porque ambas as coisas não podem ser verdade simultaneamente.

Esta contradição fundamental escapa aos Germano de Almeidas, às Helena Ferro Gouveias e aos Ireneus Teixeiras da vida, esses comentadores que vivem num mundo paralelo onde a Rússia é simultaneamente um estado falido à beira do colapso e uma potência expansionista prestes a invadir a Polónia. Agostinho Costa tem a coragem de apontar o óbvio: se a Rússia está realmente a perder em toda a linha, então porque razão a Europa precisa de temer uma invasão? E se a Rússia representa uma ameaça tão grave, então porque razão a propaganda ocidental insiste em que está a ser derrotada?

O General vai mais longe, e aqui reside a sua verdadeira coragem intelectual: aponta que os russos estão a “desmontar a Ucrânia por peças”, a destruí-la sistematicamente em todos os níveis, enquanto os europeus estão em “êxtase” com retórica vazia de líderes como Macron e Donald Tusk. Quando ouvimos o ministro polaco dizer que em três semanas destruíram duas refinarias e que têm mais brigadas que a Alemanha, Reino Unido e França juntos, estamos a assistir a uma fantasia militar que não corresponde à realidade. A Polónia não vai “despechar os russos em três semanas”, isto é delírio, é bravata, é a mesma histeria que levou a Europa ao desastre.

Agostinho Costa tem também a lucidez de recordar o que os media ocidentais preferem esquecer: que a Europa “foi invadida pela Rússia”, sim, mas no contexto de uma guerra que teve antecedentes e culpados que os analistas oficiais preferem omitir. E quando a jornalista tenta desqualificar as eleições russas, sugerindo que não há oposição verdadeira, o General responde com uma comparação devastadora: “Quem se manifestava contra a Segunda Guerra Mundial no Reino Unido, onde é que acabava?”, lembrando que em tempos de guerra existencial, a oposição é naturalmente limitada, e que isto não invalida a legitimidade do processo.

Mas talvez o momento mais brilhante da intervenção seja quando Agostinho Costa recorda a memória histórica do povo russo. Os russos lembram-se dos anos da Troika, lembram-se de Ieltsin a suspender a Constituição, lembram-se das filas para plantar batatas nas dachas para sobreviver.

E sabem que, se esta guerra correr de feição para o Ocidente, “não é o fim de Putin, é o fim da Rússia”, porque o que o Ocidente pretende é “esfrangalhar o país” e voltar a pilhar os seus 70 triliões de recursos naturais.

O General conclui com uma advertência que deveria ecoar em todas as chancelarias europeias: “É uma guerra existencial, um conflito existencial. Existencial para os dois países, entenda-se. Mas um tem armas nucleares, o outro não.” Esta é a realidade que os belicistas preferem ignorar: a Rússia não vai desistir, não vai aceitar nunca uma derrota, e tem os meios para tornar qualquer vitória pírrica do Ocidente num desastre civilizacional.

Agostinho Costa é uma voz rara, alguém que não se deixa levar pela histeria coletiva, que analisa os factos com frieza, que tem a coragem de contradizer a narrativa dominante e de lembrar aos europeus as contradições da sua própria retórica.

Num panorama mediático dominado por avençados de Bruxelas, por ex-condenados das secretas reciclados em analistas, por oportunistas que vendem medo para justificar mais gastos militares, a lucidez de Agostinho Costa é um bálsamo. É pena que seja uma voz tão isolada.

Ver o vídeo onde são proferidas as declarações de Agostinho Costa referidas no texto aqui

Do blogue Estátua de Sal 

A inauguração da Escola Secundária de Cascais – Uma cerimónia deprimente:

A princípio duvidei, depois confirmei e, finalmente fiquei em estado de estupor. Tive de recompor-me para escrever umas linhas sobre o evento que a foto documenta. Trata-se da inauguração do novo edifício da Escola Secundária de Cascais, construído com forte cofinanciamento do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência).
O PR, que julgava desaparecido, afinal está vivo. O PM, o avalista da competência dos ministros, não podia abandonar o da Educação, sobrevivente do naufrágio nos exames ao ensino superior, ora a debater-se com alunos sem escolas e escolas sem professores.
Lá estavam os três, PR, PM e ME, na companhia do edil de Cascais, o que seria normal se a cerimónia não fosse abrilhantada pelo patriarca de Lisboa, a distribuir rezas e sinais cabalísticos num evento que a ética e a decência republicanas exigem laico.
Acresce que os fundos do PRR vêm dos impostos dos cidadãos da UE, crentes e ateus, que a Constituição da República Portuguesa é laica e a escola em causa é pública e não confessional, obrigatoriamente neutra sob o ponto de vista religioso.
A momento que a foto documenta é uma vergonha, com o PR a gesticular em nome do Pai, o PM cabisbaixo e o ministro no do Espírito Santo e o autarca, um pouco atrasado, ainda à procura da testa enquanto o clérigo, em êxtase perante a subserviência pia de tão luzidio séquito, exerce o múnus.
Na defesa da laicidade, sinto-me indignado e só posso sentir asco perante os dignitários a quem cabe dar o exemplo de neutralidade religiosa pelas funções que ocupam.
Seria incapaz de censurar os crentes que cumprem as obrigações religiosas, e não posso calar o nojo que me despertam aqueles que usam os lugares que ocupam e os dinheiros do Estado para proselitismo.

Raios partam tais ratos de sacrista!

Carlos Esperança 

O povo russo teme um novo “Gorbatchov” e o Rússia Unida sobe 16,1%:

Os números são claros: o partido Rússia Unida passou de 49,82% nas eleições legislativas de 2021 para cerca de 57,83% em 2026. A diferença nominal é de 8,01 pontos percentuais, correspondendo a um crescimento proporcional de aproximadamente 16,1%. Estes eram ainda resultados preliminares, apurados quando estavam contabilizados cerca de 93% dos protocolos eleitorais. Resultados comparativos de 2021 e 2026.

A interpretação dominante na comunicação social ocidental será previsível: controlo político, ausência de oposição, propaganda do Kremlin e manipulação da sociedade russa. Eu proponho uma leitura diferente, construída não a partir dos púlpitos mediáticos de Washington, Londres ou Bruxelas, mas a partir da memória histórica do próprio povo russo.
Este resultado eleitoral não é apenas um voto no Rússia Unida. É, em grande medida, um voto contra o medo de a Rússia voltar a cair nas mãos de um novo Gorbatchov.
Para compreender essa reacção é necessário perceber que os russos não viveram os anos 90 através de documentários ocidentais. Viveram-nos na própria pele. Viram o Estado desmoronar-se, a economia ser saqueada, as empresas estratégicas entregues a oligarcas, o rublo perder valor, os salários e pensões desaparecerem e milhões de pessoas serem empurradas para a pobreza, para o alcoolismo, para o crime e para uma humilhação nacional sem precedentes.
No Ocidente, Mikhail Gorbatchov foi transformado num herói romântico: o homem da abertura, da paz e do fim da Guerra Fria. Na memória de uma larga parte da sociedade russa, porém, representa outra coisa: o dirigente que acreditou nas promessas dos adversários, desmontou os instrumentos de poder do seu próprio país e abriu caminho à destruição da União Soviética e ao desastre que se seguiu sob Boris Iéltsin.
Eu sintetizo essa percepção numa expressão deliberadamente brutal: “Gorbatchov tornou-se a prostituta da História da Rússia”. Entregou tudo, acreditou em tudo e recebeu em troca a desagregação do Estado que dirigia, a expansão do adversário militar e uma década de miséria para o seu próprio povo.
A documentação norte-americana entretanto desclassificada demonstra que Gorbatchov recebeu sucessivas garantias políticas dos principais dirigentes ocidentais sobre a segurança soviética e sobre a não expansão da NATO para Leste. A célebre fórmula de James Baker
“nem uma polegada para Leste”
não ficou consagrada num tratado geral, mas integrou uma sequência de garantias diplomáticas dadas por Baker, Bush, Genscher, Kohl, Thatcher, Mitterrand e outros responsáveis ocidentais. Os documentos mostram que a liderança soviética foi, pelo menos, levada a acreditar que a NATO não avançaria em direcção às fronteiras russas. Documentos desclassificados sobre as garantias dadas a Gorbatchov.
A História mostrou o valor dessas garantias. A NATO não desapareceu quando desapareceu o Pacto de Varsóvia. Pelo contrário: expandiu-se sucessivamente para Leste, incorporou antigos membros do bloco soviético, aproximou infra-estruturas militares das fronteiras russas e transformou a fragilidade da Rússia dos anos 90 numa oportunidade estratégica.
É neste enquadramento que interpreto a guerra por procuração travada na Ucrânia. Na minha leitura, a Ucrânia não é o objectivo final: é o território utilizado para desgastar militarmente a Rússia, destruir a sua economia, provocar descontentamento interno e tentar produzir em Moscovo uma mudança de regime favorável aos interesses norte-americanos.
Victoria Nuland, que foi subsecretária de Estado norte-americana para os Assuntos Políticos que desempenhou durante anos um papel central na política dos Estados Unidos para a Ucrânia e para o espaço pós-soviético, admitiu publicamente no programa 60 minutos da CNN norte Americana que investiram mais de 5 mil milhões de Dollars no golpe de estado da Ucrânia e que valeu apena. Um plano oficial consequente para dividir a Rússia em sete países.
O objectivo de enfraquecer estruturalmente a Rússia foi assumido publicamente por Washington. Em Abril de 2022, o então secretário da Defesa norte-americano, Lloyd Austin, declarou que os Estados Unidos queriam ver a Rússia suficientemente enfraquecida para deixar de possuir capacidade de realizar operações semelhantes. Declaração de Lloyd Austin.
Poucos meses depois, uma comissão oficial do Congresso norte-americano promoveu uma sessão intitulada “Descolonizar a Rússia: um imperativo moral e estratégico”. O próprio título revela que o objectivo de fragmentar territorial e politicamente a Federação Russa portanto como se demonstrou não pertence apenas à imaginação de Moscovo. É uma ideia debatida abertamente em estruturas políticas norte-americanas. Audição oficial da Comissão de Helsínquia dos Estados Unidos.
Circulam ainda em meios políticos e estratégicos ocidentais diferentes mapas e projectos que imaginam a Federação Russa dividida em várias entidades, algumas propostas como já referi e demonstrei apresentam sete grandes espaços, outras um número superior. Pode não existir um documento oficial norte-americano que determine exactamente essa divisão. Mas o povo russo reconhece que a lógica estratégica é evidente: uma Rússia fragmentada seria mais fraca, mais facilmente condicionada, menos capaz de defender os seus recursos naturais e incapaz de contrariar a hegemonia dos Estados Unidos.
Sete países dependentes são mais fáceis de manietar do que uma federação continental, nuclear, soberana e dotada de recursos praticamente inesgotáveis.
O povo russo conhece esta lógica. Conhece-a porque já experimentou as consequências da fraqueza. Sabe que a promessa ocidental de amizade dos anos 90 coincidiu com o saque económico, a expansão da NATO e a perda de influência internacional. Sabe que, quando a Rússia estava de joelhos, o Ocidente não a ajudou a levantar-se: aproveitou-se da sua posição.
É por isso que o crescimento do Rússia Unida deve ser compreendido também como uma reacção defensiva. Não significa necessariamente que 57,83% dos eleitores aprovem cada decisão do partido, cada dirigente ou cada medida do Governo. Significa que, perante a pressão militar, económica e política externa, uma parte considerável da sociedade russa prefere a continuidade do poder a uma nova experiência de desagregação conduzida por um dirigente disposto a confiar novamente nas promessas ocidentais.
Quanto mais o Ocidente declara que pretende enfraquecer a Rússia, mais fortalece politicamente o Kremlin. Quanto mais ameaça dividir o território russo, mais une a população em torno do poder existente. Quanto mais sanções, armas, ataques e discursos sobre “descolonização”, maior se torna o receio de um novo Gorbatchov.
O resultado eleitoral de 2026 não representa apenas uma vitória do Rússia Unida. Representa a derrota de uma expectativa alimentada durante anos em Washington e nas capitais europeias: a esperança de que a guerra, as sanções e o desgaste económico fizessem o povo russo revoltar-se contra o Kremlin.
Produziram o efeito contrário.
Os russos não votaram apenas no partido de Putin. Votaram contra o regresso a 1991. Votaram contra uma nova década de humilhação. E votaram, sobretudo, contra o aparecimento de outro Gorbatchov.
Autor:
João Ferreira