Ministério Público arquivou caso Parque Escolar
Alguém, algum dia, fará a conta ao dinheiro gasto pelo Estado nas campanhas negras e na judicialização da política?
19 Outubro 2026 às 21:17 por Valupi
Do Blogue Aspirina B
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Ministério Público arquivou caso Parque Escolar
Alguém, algum dia, fará a conta ao dinheiro gasto pelo Estado nas campanhas negras e na judicialização da política?
19 Outubro 2026 às 21:17 por Valupi
Do Blogue Aspirina B
(Bruno Amaral de Carvalho, in Manifesto74, 19/10/2026, Revisão da Estátua)

(Magnifico. A Estátua não se coibe de deixar aqui uma menção pública à qualidade deste texto, quer no aspeto formal, quer quanto ao desenho das causas que conduziram o mundo atual ao caos larvar em que se encontra, e ceifaram rente o futuro e a esperança das gerações novas. Parabéns, Bruno.
Estátua de Sal, 19/10/2026)
Depois do fim da União Soviética, tentaram convenceram-nos de que a História havia acabado. Restava-nos o capitalismo para o resto da nossa existência enquanto Humanidade. Como uma doença silenciosa, fizeram-nos acreditar que os sindicatos eram nossos inimigos, que as colectividades eram algo fora de moda e que os partidos comunistas estavam ultrapassados. Fomos domesticados e as cidades foram higienizadas. Passámos a gostar de ruas cheias de anúncios publicitários, das praças vazias e do silêncio.
Achamos que progresso é ter um McDonalds ou um KFC. Os lugares onde vivemos, a pouco e pouco, perderam a identidade e passaram a ser todos iguais. Deixámos de ver manifestantes como gente de bem que luta por todos nós e deleitámo-nos com piquenicões do Continente ou com mega feijoadas na Ponte Vasco da Gama. A pouco e pouco, a arte e a cultura foram-se esvaziando de conteúdo. Os cinemas fecharam e passámos a gastar os nossos dias a ver Netflix.
Enquanto nos esvaziavam a alma, traímos a memória dos nossos pais e avós. Começámos a desdenhar de quem vive do seu trabalho e a celebrar os vendedores de banha da cobra. Primeiro foram os empreendedores e o mito de que sozinhos e com muito trabalho conseguíamos ser melhor que os outros. Dantes, o filho do operário, do sapateiro, da padeira, da costureira sabia que a união fazia a força e havia orgulho em ser-se parte dos que trabalham. Agora, está na moda a cultura criptobro, os que vivem fascinados com a bolsa, as criptomoedas e as apostas online. Deixámos de ser trabalhadores e passámos a ser colaboradores.
Já se sabe, tudo o que vem de fora é bom. Desde que venha dos Estados Unidos. E que não sejam imigrantes. Importa muito pouco que os nossos avós fossem migrantes descalços quase mortos de fome do Alentejo ou de Trás-os-Montes. Ou que vivessem em barracas. Agora, odiamos quem vem trabalhar e viver nessas condições e até nos ajoelhamos se for preciso quando se trata de um americano louro que vem dar-nos uma gorjeta. Fomos colonizados. Vendemo-nos. Eles ficam com as nossas casas e com as nossas praias. E não, não são os pretos e os indianos.
Deixámos que os bancos e os fundos imobiliários tivessem no governo os seus representantes. São eles que traçam o nosso destino. E chegámos ao ponto em que não nos podemos revoltar porque a violência é sempre má, menos quando é a polícia a violentar-nos. Aí encontramos todas as justificações. “Não querem trabalhar”, “são arruaceiros”, “a lei é para cumprir”. Neste tempo do team building, querem-nos calados, sem dignidade, sem coragem. Escravos. Só nos resta um futuro colectivo com a ruptura do actual estado de coisas.
Não, não és colaborador. És trabalhador e vives fodido para pagar a casa, o colégio do puto e as compras do mês. Na era das percepções, querem vender-te a ilusão de que sozinho podes tudo e de que calado vais longe na empresa. Talvez um dia, sentado na poltrona às portas da morte, te dês conta da cobardia do que fomos e de que juntos poderíamos ter sido tudo. É o medo. O medo é a mordaça que nos põem todos os dias para que sintamos que melhor assim do que num lugar desconhecido.
Preferimos não arriscar do que pensar que talvez haja mesmo uma forma de vivermos todos melhor e que não haja um filho da puta a comprar iates e uma nova casa na Comporta com o dinheiro do nosso suor. Agora imagina que um dia incendiamos o horizonte e descobrimos que o riso das nossas crianças será um dia a nossa vingança, como escreveu um dia Bobby Sands.
Imagina um país de gente digna, com a coluna vertebral intacta, que não prefere enfrentar o colega ou o vizinho a enfrentar os poderosos. Imagina o combustível colectivo que seríamos para queimar de uma vez por todas o sistema que permite que um ser humano possa ter centenas de casas e outro não tenha nenhuma, que permite que uma pessoa possa ganhar tanto num mês como milhares numa vida inteira, que permite que um primeiro-ministro, à frente de um governo, olhe para todos nós e diga, sem medo, que somos egoístas.
Fonte aqui
Do blogue Estátua de Sal
(In RiseUp Portugal, in Facebook, 16/10/2026, Revisão da Estátua)

O ilustre Carlos Abreu Amorim, ministro dos Assuntos Parlamentares do Governo de Luís Montenegro, veio anunciar, com a arrogância própria de quem confunde um cargo público com um título de propriedade, que o Governo “não vai ceder aos gritos que vêm da rua”.
Há, desde logo, algo de particularmente estranho nesta declaração: Vossa Excelência não foi eleito pelos portugueses para o cargo que ocupa. Foi escolhido por Luís Montenegro e nomeado para integrar o Governo. Não recebeu um mandato pessoal para dar lições aos cidadãos sobre a forma como devem manifestar o seu descontentamento. Muito menos para os tratar como crianças malcomportadas, num tom paternalista com um cheiro a Estado Novo que julgávamos definitivamente arrumado na História.
Aliás, sendo ministro dos Assuntos Parlamentares, talvez fosse conveniente recordar-lhe que a sua função é assegurar a articulação política entre o Governo e o Parlamento, não distribuir reprimendas à população. Mas, pelos vistos, há quem confunda uma nomeação ministerial com uma promoção a tutor dos portugueses.
Há episódios que revelam mais sobre a estatura intelectual de uma pessoa do que uma longa carreira de discursos cuidadosamente preparados. Em 2013, Vossa Excelência escreveu nas redes sociais: «Magrebinos: curvem-se perante a glória do Grande Dragão!», dirigindo-se aos adeptos do Benfica. Mais tarde pediu desculpa. O pedido de desculpas foi devido, mas não apaga a pobreza de espírito, intelectual e de critério demonstrada naquela intervenção. O mais desconcertante é que, tantos anos depois, um membro do Governo continue a recorrer a um discurso de superioridade para se dirigir aos cidadãos. Esperar-se-ia de quem ocupa tão altas funções maior rigor, discernimento e sentido de responsabilidade. Afinal, os cargos podem ser atribuídos por nomeação. A estatura intelectual, essa, não vem incluída no despacho.
Pois muito bem, senhor ministro. Se pretende desafiar o povo, convém estar preparado para ouvir a resposta. Comecemos pelo elementar. O poder político pertence ao povo, não aos ministros. São os cidadãos que elegem os seus representantes, é deles que emana a legitimidade democrática e é a eles que os governantes devem prestar contas. Não é uma opinião nossa, é a Constituição da República Portuguesa. Recomendamos a leitura.
Convém também esclarecer uma pequena questão de hierarquia que parece escapar a Vossa Excelência: os governantes são servidores públicos, não patrões dos portugueses. Recebem, e muito bem, para servir quem lhes paga o ordenado. Talvez fosse interessante perguntar aos contribuintes se consideram justificados tantos salários, privilégios e regalias. Ou até se não seria mais adequado reduzir para metade os vencimentos de quem exige sacrifícios aos outros com tamanha desenvoltura.
Quanto à habitação, estamos de acordo numa coisa: não se resolve com bandeiras da Palestina, mas isso também é totalmente irrelevante para as questões em apreço. Também não se resolve com discursos arrogantes, especulação imobiliária, salários miseráveis ou bastonadas sobre quem protesta. Resolve-se com políticas públicas. Precisamente aquilo para que vos pagamos.
Qualquer pessoa medianamente inteligente compreenderá que o verdadeiro poder está nas mãos do povo. E, quando a esmagadora maioria dos portugueses enfrenta dificuldades para viver dignamente, talvez fosse prudente não desafiar quem, em conjunto, tem muito mais poder do que qualquer Governo. Não é preciso um curso de Ciência Política para perceber isto. Basta saber contar.
Se o Governo não quer ouvir os gritos da rua, experimente fazer o seu trabalho. Talvez as pessoas deixem de precisar de gritar para serem ouvidas. Quanto à promessa de não ceder, tenha alguma prudência, senhor ministro. Até na Física se aprende que aquilo que não cede, perante pressão suficiente, acaba por quebrar.
As ruas são nossas. O país é nosso. O poder é nosso. Os senhores estão apenas de passagem. Não se esqueçam de uma última coisa: não somos nós que trabalhamos para vocês. São vocês que trabalham para nós.
Do Blogue Estátua de Sal
«Não precisamos de viver com toda a gente. Precisamos é de partilhar o mundo com gente de quem não gostamos.», disse, e muito bem, o Alexandre Franco de Sá. Meu antigo, e mui estimado, colega de curso. Foram alegres as nossas conversas de miúdos apaixonados pelo mistério. Mas se in illo tempore lhe tivesse dito que um dia viria a ser o ministro-sombra da Educação, Ciência e Inovação do partido Chega, e que Ventura representa o exacto oposto de tudo o que Sócrates, Platão e Aristóteles nos deixaram como pilares, e asas, da civilização, ele diria que eu estava a gozar. Ou bêbado.
Ele agora não parece estar a gozar. Nem bêbado. Tragicamente.
18 Outubro 2026 às 12:59 por Valupi
Do blogue Aspirina B
(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 15/10/2026)

Cara leitora, caro leitor,
O que se passou no Porto, onde a polícia feriu 37 manifestantes pacíficos que faziam uma vigília pelo direito à habitação, fica como uma página negra deste Governo, nomeadamente do ministro da Administração Interna. O “bonzinho” presidente da Câmara do Porto, como aqui escreve Amílcar Correia, manchou o seu mandato.
Depois do escândalo da demissão do secretário-geral da Administração Interna, a violência desproporcionada utilizada no Porto contra manifestantes pacíficos demonstra, de facto, que os dias do ministro da Administração Interna chegaram ao fim. 37 feridos!
Não há qualquer justificação para a violência policial. A Rádio Renascença cita a PSP, que confirma a intervenção “musculada”.
É aqui que o país de Luís Neves está unido com o país de Ventura. A partir dos acontecimentos da noite passada, são duas almas efectivamente coligadas. Sem surpresa, o Chega, através de Pedro Pinto, veio apoiar a violência policial. Ventura e Luís Neves, a mesma luta.
O cancro da falta de acesso à habitação em Portugal vai rebentar em cima do Governo, embora Luís Montenegro não seja o único responsável pelo desinvestimento na habitação acessível e no disparo dos custos da última década que tornam impossível para uma pessoa arrendar uma casa. O drama ultrapassou os grandes centros urbanos – é ir ver os preços por esse país fora.
Infelizmente, perante as manifestações, Luís Montenegro teve uma reacção igualzinha à que Passos Coelho teve quando os portugueses se queixavam dos tempos difíceis da austeridade. Atribuir aos manifestantes “razões egoístas” (!!!!) é o “Não sejam piegas” de Pedro Passos Coelho. Montenegro e Passos podem andar em zaragatas, mas é muito mais o que os une do que aquilo que os separa.
Quando os polícias, que têm responsabilidade pela ordem pública, invadiram as escadarias de São Bento, não lhes aconteceu nada. Quando Alexandre Poço, em 2020, decidiu acampar em frente ao Ministério da Educação em protesto pela falta de alojamento estudantil, acampou sossegadamente.
Luís Montenegro está apavorado. Teme que o que se está a passar em França e em outras cidades europeias se venha a repetir em Portugal. Para mal dele, a actuação da polícia na madrugada de quinta-feira foi a grande contribuição para que Portugal possa viver uma situação semelhante.
É verdade que os portugueses são um povo manso. Comemos e calamos com muita frequência. É a isso que Luís Montenegro, enquanto cai nas sondagens, se refere quando apela aos partidos para “não importarem para Portugal climas de instabilidade, de contestação, que não tenham de facto respaldo na sociedade portuguesa”.
A história portuguesa está cheia de exemplos de que há limites para o remanso e para o “viver habitualmente” que Salazar considerava ser o grande objectivo do cidadão português.
O que se passa na habitação em Portugal é muito mais grave do que se passa noutros países e é um assunto que não é de esquerda nem de direita. Os eleitores do Chega, com certeza, não são todos pessoas que considerem que rendas moderadas de 2300 euros sejam aceitáveis. Não são todos proprietários nem fazem parte do contingente que está no topo salarial, nem que fique muito tranquilo com a nova lei do arrendamento – não me espantaria que este acordo PSD/Chega sobre as novas regras venha a ter o destino do pacote laboral, mas logo vemos.
Os lenitivos e algumas propostas absurdas com que o Governo julga estar a resolver o problema da habitação não o vão levar a lado nenhum.
É certo que Montenegro também pode pedir, como fez Passos Coelho, para os jovens emigrarem para cidades estrangeiras onde as rendas sejam mais acessíveis. Aparentemente, não lhe resta mais nada, porque não tem qualquer política que consiga diminuir o impacto da catástrofe habitacional em Portugal. Aos que protestam, resta a política da violência policial, que é a única que o Governo pôs em prática.
Até para a semana.
Do blogue Estátua de Sal