Rádio Freamunde

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terça-feira, 23 de junho de 2026

O Reino do Chico-Espertismo: Crónica de um País Entregue aos Vendedores de Ilusões:

 Logo no início disse que a pior coisa que podia acontecer a Portugal, naquele momento, era Luís Montenegro ser eleito Primeiro-Ministro. Não por fatalismo, não por profecia, não por qualquer dom sobrenatural de antecipação política, mas porque a história ensina que os países raramente são arruinados por grandes génios do mal. São, quase sempre, corroídos por pequenas mediocridades elevadas à categoria de virtude nacional.

E Portugal, infelizmente, possui uma longa tradição de transformar o oportunismo em talento, a improvisação em estratégia e a ausência de visão em suposta prudência governativa.
Luís Montenegro surge precisamente como produto dessa escola. Não a escola dos grandes estadistas, dos reformadores ou dos construtores de futuro, mas a escola do comentário vazio transformado em programa político, da frase feita convertida em doutrina de governo e da habilidade táctica apresentada como se fosse inteligência estratégica.
A sua trajectória política parece confirmar uma das mais antigas patologias da vida pública portuguesa: a ascensão do político profissional sem obra, sem pensamento estruturado e sem visão histórica do país que governa.
Em vez de um projecto nacional, apresenta slogans.
Em vez de ideias, apresenta operações de comunicação.
Em vez de liderança, apresenta encenação.
E é precisamente aqui que reside o problema.
Portugal atravessa um período histórico marcado por transformações profundas: crise demográfica, envelhecimento populacional, precarização do trabalho, crise da habitação, degradação dos serviços públicos, dependência económica externa e crescente desigualdade social.
Perante desafios desta dimensão, esperar-se-ia um governo capaz de pensar o país para lá da próxima sondagem.
Mas o que se observa é frequentemente uma política reduzida ao curto prazo, à fotografia do dia e ao cálculo eleitoral permanente.
A velha arte da governação foi substituída pela gestão da percepção.
A substância cedeu lugar à aparência.
A realidade tornou-se refém da narrativa.
E assim o país vai sendo conduzido por uma espécie de administração do improviso, onde cada problema é tratado como uma questão de marketing político.
A ironia é cruel.
Os mesmos que durante anos acusaram os adversários de propaganda parecem hoje convencidos de que governar consiste precisamente nisso: produzir propaganda suficiente para esconder a ausência de resultados.
É uma política de espelhos.
Tudo brilha.
Nada ilumina.
Tudo parece sólido.
Nada assenta em fundações duradouras.
Tudo é anunciado.
Pouco é concretizado.
E enquanto os comunicados se multiplicam, os portugueses continuam confrontados com salários insuficientes, habitação inacessível, serviços públicos exaustos e uma economia incapaz de oferecer perspectivas de futuro às gerações mais jovens.
Mas talvez a característica mais inquietante desta forma de fazer política seja a sua dimensão antropológica.
O montenegrismo — se assim lhe podemos chamar — não representa apenas um governo.
Representa uma cultura.
A cultura do desenrascanço transformada em sistema.
A cultura da esperteza elevada a método.
A cultura segundo a qual a aparência vale mais do que a competência e a retórica mais do que a capacidade.
É a consagração nacional do chico-espertismo.
A velha figura portuguesa que Eça de Queirós conhecia tão bem: o homem que nunca resolve nada, mas convence toda a gente de que está a resolver tudo.
O homem que vive da pose.
Da influência.
Do favor.
Do arranjo.
Da habilidade.
Nunca da obra.
Nunca da visão.
Nunca do mérito demonstrado.
E quando essa mentalidade chega ao topo do Estado, o país transforma-se numa gigantesca repartição de promessas adiadas.
Entretanto, os problemas acumulam-se.
A dívida social cresce.
A confiança nas instituições diminui.
O desencanto alastra.
E a distância entre governantes e governados torna-se cada vez maior.
O drama português não reside apenas nos erros de um governo ou de um Primeiro-Ministro.
Reside numa cultura política que continua a premiar a superficialidade e a punir a reflexão.
Que valoriza o espectáculo e despreza a substância.
Que confunde popularidade com competência e marketing com governação.
Por isso, a questão fundamental já não é até onde Luís Montenegro poderá conduzir Portugal.
A questão é outra.
Até que profundidade estaremos dispostos a seguir aqueles que confundem a administração do Estado com um exercício permanente de relações públicas.
Porque os países não caem de um dia para o outro.
Degradam-se lentamente.
Primeiro na exigência.
Depois na competência.
Finalmente na ambição colectiva.
E quando uma nação deixa de exigir grandeza aos seus governantes, acaba inevitavelmente governada por homens pequenos, ocupados em parecer gigantes.
Talvez seja esse o maior perigo.
Não o fracasso de um homem.
Mas a normalização da mediocridade.
E quando a mediocridade se instala no poder, não governa apenas o presente.
Hipoteca o futuro."

"A palavra de André Ventura vale tanto como uma nota de Monopólio rasgada"… :


 

Nasceu no Congresso::

No congresso do PSD, Luís Montenegro trouxe uma novidade política que passou despercebida à maioria dos comentadores. Não se tratou de um evento político qualquer, foi a apresentação de um novo partido: o Partido Comunista Social-Democrata.
A revelação surgiu pela voz do próprio quando anunciou a criação de um Fundo Soberano destinado a permitir ao Estado adquirir participações em empresas consideradas estratégicas. A proposta, por si só, não tem nada de extraordinário. O que lhe confere um inegável valor humorístico é a identidade do autor e a história política do partido que a apresenta.
Convém recordar alguns factos históricos que a política portuguesa, sempre preocupada com o bem-estar da memória colectiva, tenta frequentemente poupar aos cidadãos. Luís Montenegro foi líder da bancada parlamentar do Governo de Pedro Passos Coelho durante o período em que Portugal assistiu a uma das maiores vagas de privatizações da sua história recente. Nesses anos venderam-se participações na EDP, na REN, nos CTT, na ANA, na EGF e noutras empresas consideradas relevantes para o funcionamento da economia nacional. Durante anos, o PSD explicou de forma religiosa aos portugueses que o Estado era um gestor desastrado, que a iniciativa privada era mais eficiente e que o caminho da modernidade passava por privatizar tudo o que não estivesse pregado ao chão. Quando se descobria que estava pregado ao chão, vendia-se o chão também.
A ideia foi repetida tantas vezes que acabou por adquirir o estatuto de verdade revelada. Quem ousasse discordar era imediatamente colocado numa espécie de reserva natural para espécies ideológicas em vias de extinção. Defender que o Estado deveria manter influência em determinados sectores era suficiente para ser tratado como alguém que ainda aguardava, com optimismo comovente, notícias da União Soviética.
Se uma proposta semelhante tivesse sido apresentada pelo PCP, o debate público já estaria mergulhado em previsões apocalípticas. Haveria editoriais sobre o colapso da economia de mercado, alertas sobre a fuga dos investidores e inevitavelmente alguém acabaria a explicar que este é exactamente o tipo de pensamento que conduz às filas para o pão, à falta dele e, provavelmente, ao fim da civilização ocidental tal como a conhecemos. Não necessariamente porque exista uma relação lógica entre as duas coisas, mas porque em Portugal as hipotéticas filas para o pão que não há, desempenham na discussão económica o mesmo papel que os dinossauros desempenham nos filmes do Jurassic Park: aparecem sempre naquele momento em que o argumento precisa de alguma emoção adicional.
É precisamente por isso que a proposta do Fundo Soberano tem um encanto especial. Não porque seja necessariamente boa ou má. Mas porque obriga o PSD a responder a uma pergunta relativamente simples: se faz sentido criar um instrumento para permitir ao Estado adquirir participações em empresas estratégicas, porque razão deixou de fazer sentido que o Estado as tivesse quando as possuía? A pergunta é desconfortável porque não é ideológica. É cronológica.
Entretanto, porém, surge um problema muito mais interessante. Os fundos soberanos normalmente aparecem depois da riqueza. A Noruega descobriu petróleo e criou um fundo soberano. O Qatar acumulou receitas gigantescas do gás natural e criou um fundo soberano. Os Emirados Árabes Unidos fizeram exactamente o mesmo. Existe uma certa lógica no processo: primeiro aparece o dinheiro, depois discute-se o que fazer com ele.
Luís Montenegro decidiu experimentar uma abordagem mais revolucionária. Portugal, pelo que se sabe, continua sem petróleo, sem gás natural e sem excedentes orçamentais capazes de alimentar cerca de 4,1% da população portuguesa que sofre de insegurança alimentar moderada ou grave. Mas em compensação, continua a produzir anúncios de ideias megalómanas com uma eficiência verdadeiramente admirável. Os outros países acumularam riqueza extraordinária e depois criaram fundos soberanos. Nós começámos pelo fundo. A riqueza ficará para uma fase posterior do projecto.
Naturalmente, podem existir explicações que ainda desconhecemos. Talvez tenha sido descoberta uma gigantesca reserva de petróleo ao largo da costa portuguesa e ninguém informou os portugueses. Talvez exista gás natural escondido algures entre uma reforma administrativa e uma promessa eleitoral. Em alternativa, talvez o financiamento venha daquela economia que, segundo Luís Montenegro, desperta sentimentos de inveja por esse mundo fora e que aparentemente produz riqueza em quantidades tão abundantes que só os portugueses ainda não repararam. Se assim for, estaremos perante um avanço científico extraordinário. Pela primeira vez na história económica, um governante terá conseguido transformar auto-elogios governamentais em capital.
A questão torna-se ainda mais interessante quando se olha para as empresas que foram privatizadas. Muitas delas distribuíram dividendos durante anos, valorizaram-se significativamente e proporcionaram retornos substanciais aos seus accionistas. Isto significa que o país poderá vir a discutir a possibilidade de utilizar recursos públicos para adquirir participações em sectores que anteriormente decidiu abandonar, pagando potencialmente muito mais por posições que um dia já foram suas.
Em termos de gestão patrimonial, a lógica parece ser relativamente simples. Primeiro vende-se barato porque não faz sentido possuir. Depois recompra-se caro porque afinal faz.
Talvez seja por isso que a designação Partido Comunista Social-Democrata seja tão adequada. Não porque o PSD tenha descoberto subitamente as virtudes do comunismo ou do planeamento económico. A realidade é bastante mais divertida. Depois de passar décadas a explicar porque o Estado devia sair, vê-se agora obrigado a explicar porque deve (voltar) a entrar. E fá-lo com tal naturalidade que quase ficamos com a sensação de que a parte estranha desta história não é a mudança de posição. É alguém ter reparado nela.
É difícil não admirar a elasticidade intelectual necessária para executar uma cambalhota desta dimensão sem sofrer uma única lesão ideológica.

RiseUP Portugal 

85 anos depois o nazismo volta a ser uma ameaça:

(João Gomes, in Facebook, 22/06/2026) 

Há exatamente 85 anos, a invasão da União Soviética pela Alemanha nazi, através da Operação Barbarossa, deu início a uma das páginas mais sangrentas da História humana. Milhões de vidas seriam destruídas por uma ideologia construída sobre o ódio racial, o nacionalismo extremo, a desumanização do outro e a crença na superioridade de uns sobre os demais.

Por isso, todos os anos, a Rússia assinala esta data como um dia de luto e memória. A cerimónia realizada em Moscovo, com a deposição de flores no Túmulo do Soldado Desconhecido, recorda os milhões de soldados e civis que perderam a vida naquilo que os russos designam como a Grande Guerra Patriótica.

Mas a memória só tem utilidade se servir de alerta.

O nazismo foi derrotado militarmente em 1945, mas as ideias que o alimentaram nunca desapareceram por completo. Permaneceram latentes, à espera de tempos de medo, de crises económicas, de insegurança social e de desilusão política para voltarem a emergir.

Hoje, a Europa assiste com inquietação ao crescimento de movimentos de extrema-direita, alguns dos quais recuperam discursos de intolerância, de supremacismo étnico, de demonização de minorias e de rejeição dos valores democráticos que nasceram precisamente das cinzas da Segunda Guerra Mundial.

Importa distinguir: nem toda a direita é extremista, nem todo o conservadorismo é antidemocrático. Porém, seria igualmente um erro ignorar que, em vários países europeus, grupos assumidamente neonazis e organizações de extrema-direita radical voltaram a ganhar visibilidade e capacidade de influência, sobretudo através das redes sociais e da exploração dos receios e frustrações de muitos cidadãos.

A História ensina-nos que as democracias raramente morrem de um dia para o outro. Morrem lentamente, quando a intolerância se normaliza, quando a mentira se torna aceitável, quando o ódio encontra justificação e quando se acredita que determinados direitos só pertencem a alguns.

O 22 de junho de 1941 não deve ser apenas uma data recordada pela Rússia. Deve ser uma advertência para toda a humanidade. O nazismo não é uma ameaça porque possa regressar exatamente com os mesmos símbolos e uniformes de há oito décadas. É uma ameaça porque as ideias que lhe deram origem continuam a poder reaparecer, adaptadas aos tempos modernos, alimentadas pelo medo e pela divisão.

Oito décadas depois, a melhor homenagem aos milhões de mortos da Segunda Guerra Mundial continua a ser a mesma: não esquecer, não relativizar e nunca permitir que o ódio volte a vestir-se de normalidade. E isso já acontece se olharmos para Israel.

Do blogue Estátua de Sal

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Ventos Semeados: A Inveja com Toga

Ventos Semeados: A Inveja com Toga:   A economia espanhola é, neste momento, a referência da zona euro. Cresceu 2,8% em 2025, mais do triplo da média da União Europeia, criou m...

Quando o cheque é grande não é fraude, é “inovação”:

(In RiseUp Portugal, in Facebook, 21/06/2026, Revisão da Estátua)

A Unbabel recebeu 13,3 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e acabou insolvente. Se a história terminasse aqui já seria suficientemente interessante. Mas Portugal raramente desperdiça uma boa oportunidade para tornar uma história absurda ainda mais absurda.

Não estamos a falar de uma empresa qualquer. A Unbabel foi apresentada como uma das grandes promessas da economia portuguesa. Carlos Moedas elogiou-a repetidamente e a empresa tornou-se uma das parceiras fundadoras da Unicorn Factory Lisboa, o projeto criado para transformar Lisboa num centro europeu de inovação, produzir as futuras estrelas do empreendedorismo nacional e atrair as chamadas empresas unicórnio, startups avaliadas em mais de mil milhões de dólares.

A ideia era simples: pegar em dinheiro público, misturá-lo com palavras como “inovação”, “disrupção”, “ecossistema”, “inteligência artificial” e “empreendedorismo” e esperar que aparecessem unicórnios. No caso da Unbabel apareceu uma insolvência.

Ao todo, estava previsto receber um financiamento de 14,8 milhões de euros, sendo que recebeu 89,6% deste, ou seja, 13,3 milhões da bazuca europeia. A confiança era tanta que chegou a liderar um consórcio de Inteligência Artificial financiado pelo PRR com 75 milhões de euros. O curioso é que nada disto aconteceu apesar do risco. Aconteceu sabendo-se perfeitamente que o risco existia. As estatísticas sobre startups são conhecidas há décadas. Os dados do Eurostat mostram que cerca de metade desaparece nos primeiros cinco anos de vida. Estudos da Harvard Business School apontam para taxas de insucesso ainda maiores quando se analisa o retorno esperado pelos investidores. Os investidores sabem disso. Os gestores sabem disso. Os governos também.

Diziam que tudo corria maravilhosamente bem até deixar de correr.

Em Agosto de 2025, a empresa foi vendida à norte-americana TransPerfect. Na altura falou-se de crescimento, expansão e aumento de escala. Vasco Pedro, cofundador e CEO da Unbabel, garantiu que a operação permitiria aumentar significativamente a dimensão da empresa. Um mês depois começaram a surgir notícias bastante menos optimistas. Segundo várias informações divulgadas na altura, a venda foi realizada por um valor suficientemente baixo para provocar perdas totais em alguns investidores. Aquilo que tinha sido apresentado como um passo natural na evolução da empresa começou rapidamente a parecer uma operação de recurso.

Em Dezembro de 2025, um dos investidores, o fundo espanhol Buenavista Equity Partners, avançou para tribunal com uma ação de 12,75 milhões de euros relacionada com a venda. Em Março deste ano, o IAPMEI começou a analisar os projectos financiados pelo PRR para verificar se os compromissos assumidos tinham sido cumpridos. Pouco depois chegou a sentença de declaração de insolvência.

Sem atividade relevante. Sem ativos. Sem dinheiro.

Treze milhões e trezentos mil euros depois.

O mais interessante é que esta história surge exatamente na mesma altura em que o país continua obcecado com prestações sociais de algumas centenas de euros. Discutem-se alegadas fraudes, exigem-se fiscalizações, inventam-se novos mecanismos de controlo e repete-se diariamente a necessidade de proteger o dinheiro dos contribuintes.

Mas quando uma empresa recebe 13,3 milhões de euros dos contribuintes, é promovida durante anos como um exemplo de sucesso, acaba vendida por um valor que deixa investidores a arder, gera processos judiciais, motiva investigações e termina insolvente, a indignação desaparece com uma rapidez impressionante. Quando corre bem, os ganhos ficam no sector privado. Quando corre mal, a factura fica espalhada por milhões de contribuintes que nunca tiveram direito a participar nos lucros, apenas no risco.

Pelos vistos, a subsidiodependência só é um problema quando o subsídio é pequeno. Quando o cheque tem oito algarismos chama-se visão estratégica. Quando corre mal chama-se empreendedorismo. E quando desaparece o dinheiro dos contribuintes chama-se inovação.

Do blogue Estátua de Sal 

O JULGADO NA PRAÇA PÚBLICA:

Episódio I
Esta história não começou há cinco anos, nem em nenhum tribunal. Começou em 2016, num campo de futebol, e só pegou fogo em 2017, depois de uma reunião no Hotel Altis a que eu chamo a Santa Aliança. Foi ali que o FC Porto e o Sporting se sentaram à mesma mesa com um único objetivo, destruir o Benfica. Que comovente, dois rivais de morte a darem as mãos. Faltou a vela e a foto de família. Eu fui só um dos que levaram por arrasto, a porta de serviço para chegar a um alvo muito maior do que eu. A partir daí deixei de ser pessoa e passei a personagem. Escreveram a minha história por mim, em manchetes, em estúdios de televisão, em bocas de gente que nunca me olhou nos olhos. Hoje começo a escrever a minha. E aviso já, isto vai dar um livro. Daqueles que ficam, porque conta o que muitos rezavam para que morresse comigo.
Começo pelo princípio, que é como as histórias honestas se contam.
Fui condenado por corrupção desportiva. Lê-se bem, soa a filme, vende jornais. O que não venderam com a mesma pressa foi o epílogo. Que o Tribunal da Relação do Porto pegou na tal condenação e suspendeu-a. Mandou repetir o julgamento. Porquê? Porque na primeira instância ouviram os jogadores e mais ninguém. Testemunhas sérias, ignoradas e recusadas. Prova relevante, indeferida. Condenaram-me com meia história e tiveram a lata de lhe chamar justiça.
Imaginem serem julgados num jogo em que só o adversário pode marcar, o árbitro é da claque contrária e o VAR está desligado. Foi mais ou menos isto, mas sem o conforto do relvado.
Agora joga-se com as duas balizas abertas. E mal abriram a minha, aconteceu a tragédia que tanto temiam, a verdade abriu a boca. A primeira testemunha que a Relação obrigou a ouvir foi o presidente do Rio Ave à data dos factos. O homem que, segundo o guião, sabia de tudo. Sabem o que disse, sob juramento? Que só soube pela comunicação social. Que perguntou aos jogadores um a um e que lhe disseram que era mentira, que eu nunca tinha falado com eles. E ainda rematou com uma frase para emoldurar, se aquilo fosse verdade e lho tivessem contado na altura, a primeira coisa que faria era ir à polícia. Não foi. Porque não havia aonde ir, nem o que dizer. Detalhezinho que os argumentistas esqueceram.
E já que falamos de produções, recordo-vos uma das grandes obras da época. Lembram-se daqueles jogadores que apareceram na televisão de cara tapada e voz de robô a jurar que eu os tinha tentado aliciar? Que elenco. Que dramaturgia. Encapuçados a acusar, voz distorcida a dar audiências, e a verdade marcada para nunca. Curioso, sempre achei que quem diz a verdade mostra a cara. Mas pronto, talvez fosse poupança de maquilhagem. Foi assim que se montou o monstro, com fumo, máscaras e um guião. Faltou só o genérico no fim a agradecer aos figurantes e ao patrocínio.
Entretanto, no presente, há quem continue a arranjar tempo para falar de mim em palcos de cimeira. O doutor Frederico Varandas levantou-se diante de todo o futebol português para perguntar quem era o César Boaventura e responder à própria pergunta, chamando-me condenado por corrupção. Comovente. Um médico a passar atestados de culpa antes de ver o doente. Doutor, a isto chama-se presunção de inocência, vem logo nas primeiras páginas, antes mesmo do índice. Eu sei que o seu forte é diagnosticar campeonatos à distância, mas talvez ajudasse abrir o livro antes de subir ao palanque. E confesso, comove-me a obsessão. Tanto tempo a falar de mim, com tão pouco para mostrar. Ou é distração para esconder o que se passa em casa, ou é saudade do protagonismo que o relvado já não lhe dá.
Quanto ao FC Porto, esses nem precisam de cimeira. Inventaram uma newsletter para chorar todos os dias, agora até veem santas alianças contra eles por todo o lado. Engraçado, de aliança a sério percebem eles um bocadinho, que a montaram num hotel em 2017. Cada um fala do que sabe.
E depois há a casa que mais me dói, a minha. Há quem se sente na cadeira de uma instituição grande, A seu tempo vou falar.
Cinco anos a carregar isto às costas. Cinco anos em que a minha família pagou uma conta que nunca foi dela. Vi os meus a ler sobre mim coisas que não se desejam a um inimigo. Vi-os a fingir que estavam bem só para eu não os ver mal. Essa dor não há acórdão que a devolva, e há muita gente que ainda vai ter de olhar para ela com vergonha. A honra da minha família defendo-a capítulo a capítulo, e essa, garanto, não se tapa nem se distorce com voz de robô.
Dia 23 o julgamento continua, com mais uma testemunha que a Relação mandou ouvir. Eu vou estar onde sempre estive, de pé, de cara levantada, sem máscara e sem distorção de voz. A defender o meu nome, a minha honra, a dignidade da minha família e o nome de um clube que arrastaram para a lama sem ele nunca ter tido arte nem parte nisto.
Chamaram-me o julgado na praça pública. Pois é na praça pública que vão agora ouvir os factos, um a um, até ao fim. Este foi só o primeiro episódio. Há muitos mais. E o último, esse, escrevo-o eu.

Sempre disse e digo, confio na JUSTIÇA

César Boaventura