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sábado, 29 de agosto de 2026

Ventos Semeados: O vizinho incómodo

Ventos Semeados: O vizinho incómodo:   Há avanços que se apresentam como destino inevitável, e a inteligência artificial gosta de se vestir assim: promessa de curas, de descober...

As hienas também riem:

(Miguel Szymanski in Facebook, 29/08/2026, Revisão da Estátua)

Miguel Szymanski

De dia para dia (ou melhor, literalmente, de hora para hora) aumenta e desinformação e a manipulação. Se vejo uma fotografia ou imagens retiradas das redes, não sei se posso considerá-las verdadeiras. Se quero perceber, em tempo útil, se são verdadeiras ou não, esbarro rapidamente num muro. Vejam-se estas duas imagens.

As imagens acima, de governantes a sorrir – suponho que para transmitirem confiança e um sentido de vitória – no meio de uma guerra que já terá causado a morte a mais de um milhão de jovens soldados, serão verdadeiras? Custa-me a acreditar.

Feita uma pesquisa, só as encontrei nas redes sociais, num portal de notícias do Vietname e num canal de notícias em inglês. Na fotografia de grupo está a chefe do governo da Dinamarca, mas no vídeo do mesmo dia, pela mesma hora, não.

Faço algo que é perigoso e que está na origem deste problema; recorro à IA, em consciência, faço, do bode, jardineiro: coloco ambas as fotografias na maior ferramenta de IA do mundo (com o nome ‘Gémios’, na tradução portuguesa) e pergunto se alguma das duas imagens foi gerada por Inteligência Artificial. A resposta é rápida: “Nenhuma. Ambas são verdadeiras, mas na primeira não se vê a mulher, dada a distância e o ângulo e porque está obscurecida pelos outros participantes”. Peço o link, algo mais concreto, uma fonte ‘mainstream’ que mostre a fotografia e a resposta não é conclusiva: os links apresentados levam a outros conteúdos.

Faço uma lista de incongruências entre as imagens (número de pés visíveis no chão, hora da captação etc.). Não porque ache que alguém falsificou as imagens, mas porque não quero acreditar num cinismo assumido, ao ponto de se tirar uma ‘selfie’ de sorrisos no meio de massacres. A resposta da IA passa a: “Tem razão”, “cometi um erro de cálculo”, “uma ou ambas poderão ser falsas”. Sei que as respostas da IA de nada valem, alucinam, querem agradar ou manipulam.

Não investigo mais, não é realmente importante se as imagens são verdadeiras ou não (colegas na Ucrânia garantem que sim, que passaram na televisão ucraniana). Mesmo que não tivessem, de facto, sorrido para as câmaras – ou talvez sim, tanto faz -, uma coisa é óbvia: estes governantes riem-se de nós.

Vi com os meus olhos, numa televisão credível, pública, feita por jornalistas, António Costa a abraçar, quase a beijar um dos dois protagonistas desta guerra como se este fosse o Capuchinho Vermelho e a missão da União Europeia fosse salvá-lo do Lobo Mau.

Como se fosse nossa obrigação sacrificar o nosso futuro e as nossas vidas, postados de um dos lados duma barricada maniqueísta, criada pelos lobistas, vendedores de banha da cobra e contadores de histórias de enganar. A metáfora referida acima – retirada dos irmãos Grimm -, sobre a guerra na Ucrânia, para dizer que tal guerra NÃO é o conto do Capuchinho Vermelho e do Lobo Mau, foi usada pelo Papa Francisco em Junho de 2022.

E o que fazem entretanto as nossas televisões? A CNN, por exemplo, em “horário nobre”, recorre a um leque de comentadores a falar sobre a política cujos perfis merecem atenção: desde um lobista ao dono de uma agenda de comunicação (agências de comunicação vendem as mensagens dos seus clientes).

Estes são tempos muito perigosos.

Agita-se o fantasma de uma guerra iminente, vários dos protagonistas nestas duas imagens, afinal, ao que parece, ‘verdadeiras’, querem um confronto mais direto, querem mais guerra, para justificar o declínio das nossas democracias e economias, e riem-se de nós, da nossa inércia e falta de inteligência.

Riem-se, porque não são responsáveis por nada: se hoje falharem na política, amanhã, pelo efeito das portas rotativas, estarão numa fundação, noutro posto em Bruxelas, numa universidade nos EUA, num banco ou na administração dum fundo de investimento norte-americano – de onde já veio, por exemplo, o chanceler alemão Merz e para onde foi Durão Barroso que esteve sempre do lado das guerras, desde o início a apoiar a invasão do Iraque, desde o início a apoiar o golpe na Ucrânia que levou à atual guerra.

Do blogue Estátua de Sal 

No tempo de Salazar era tudo tão bom que...:

1. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... entre 1965 e 1973, cerca de um milhão e meio de portugueses abandonaram o país, fugindo às más condições de vida, aos baixos salários, ao subemprego e à mobilização para a Guerra Colonial.

2. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... em 1960, só na região de Lisboa, havia 115.071 famílias sem habitação condigna, incluindo 16.812 que viviam em barracas e quase 29 mil em casas sobrelotadas.
3. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... em 1970, 25,7% dos portugueses eram analfabetos, cerca de 1,8 milhões de pessoas.
4. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... em 1970, 31% das mulheres não sabiam ler nem escrever, contra cerca de 20% dos homens.
5. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... em 1970, cerca de 23% das famílias viviam em casas sem água, eletricidade nem instalações sanitárias.
6. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... em 1970, menos de metade dos alojamentos tinha água canalizada e apenas 17% da população tinha acesso a esgotos, incluindo fossas sépticas.
7. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... em 1960 morriam 77,5 bebés antes de completarem um ano por cada mil nascimentos, uma das taxas de mortalidade infantil mais elevadas da Europa.
8. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... ainda em 1973, um em cada cinco partos não tinha qualquer assistência médica.
9. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... em 1970, 88% da população com mais de dez anos tinha, no máximo, o ensino primário e apenas 2,4% dos maiores de 15 anos possuíam ensino médio ou superior.
10. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... em 1970, apenas 11% dos portugueses com mais de 65 anos recebiam uma pensão de reforma.
11. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... o próprio Marcello Caetano escreveu a Salazar, em 1954, depois de viajar pelo Norte, que encontrara «muita pobreza, salários baixíssimos» e «exploração de menores».
12. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... o Estatuto do Trabalho Nacional de 1933 acabou com o sindicalismo livre e proibiu a greve, colocando a organização dos trabalhadores sob controlo corporativo do Estado.
13. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... jornais, revistas, livros, rádio, cinema e teatro estavam sujeitos à censura, que cortava ou proibia tudo o que o regime considerasse politicamente inconveniente.
14. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... a PIDE perseguia e prendia opositores políticos e recorria a espancamentos, privação do sono, tortura da estátua e isolamento durante os interrogatórios.
15. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... o regime criou no Tarrafal, em Cabo Verde, uma colónia penal para presos políticos marcada por tortura, trabalhos forçados, alimentação insuficiente, falta de assistência médica e dezenas de mortes.
16. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... Humberto Delgado, principal adversário presidencial do regime em 1958, acabou no exílio e foi assassinado pela PIDE em 1965, em Espanha.
17. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... até as eleições legislativas de 1969 ficaram marcadas por fraude, perseguição, intimidação, prisões, agressões e manipulação eleitoral.
18. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... o direito de voto estava longe de ser universal e as mulheres tiveram durante décadas condições de acesso ao sufrágio mais restritivas do que os homens.
19. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... Portugal permaneceu durante 13 anos em guerra em Angola, Guiné e Moçambique, mobilizando mais de um milhão de militares, com 8.831 mortos e cerca de 30 mil feridos segundo os números oficiais.
20. No tempo de Salazar era tudo tão bom que... em 1971, a mobilização e manutenção das forças envolvidas na Guerra Colonial absorviam quase 45% das receitas do Estado, num país onde faltavam escolas, hospitais, habitação, água, energia eléctrica, saneamento e proteção social.

A Segurança Social e o Luís:

Não se percebe o que levou o Governo a encomendar, e pagar, um relatório ao consultor das Seguradoras privadas e dos fundos de pensões, cujas conclusões eram previamente conhecidas?
Jorge Bravo é o economista que desde Durão Barroso o PSD contrata para fazer estudos sobre a Segurança Social, que invariavelmente profetizou a futura falência e prescreveu a inscrição dos trabalhadores em planos de poupança-reforma complementares.
É irrelevante que as profecias tenham falhado, que o prestígio do economista perante as Seguradoras e fundos de pensões jamais perdesse o brilho, e que Passos Coelho tenha igualmente recorrido aos seus conselhos.
O que surpreende é a desfaçatez do Luís a anunciar que as pensões são sagradas e que a Segurança Social se manterá sem alterações e que não era intenção sua alterar o que quer que fosse.
Foi talvez uma imprudência da sua ministra do Trabalho, a que avançou com dezenas de alterações ao Código de Trabalho, que o PM não queria aprovadas. Era só a desvairada IL que desejava essa tropelia que o Chega renegou depois de ter prometido votá-la.
O que não se percebe é o gasto com o relatório Bravo, cujo montante com a elaboração de 607 páginas não foi pro bono, se a intenção do PM, como asseverou, não era para o levar a sério e, muito menos, para pôr em prática as conclusões.
Talvez tivesse sido uma infeliz coincidência ter-se apressado a nomear para comissária europeia dos Serviços Financeiros e da União da Poupança e dos Investimentos a pouco brilhante ministra das Finanças de Passos Coelho, comissária que está em sintonia co
m o mago dos Seguros Jorge Bravo.
É por isso que cada vez mais portugueses temem deixar o Luís governar.
A ministra do Trabalho continua no Governo e Maria Luís Albuquerque é uma leoa cada vez mais feroz e com insaciável apetite pelas nossas reformas.
Não deixemos o Luís trabalhar…

A maior lucidez a nu (digo eu)!

(Este texto que reproduzo integramente por o considerar de brilhante lucidez e pensamento crítico é de Susana Areal, especialista em comportamento humano, aconselho a lê-lo com atenção apesar de algo ser extenso. Vale a sua extensão em ouro de lei. É aproveitar para fazer companhia ao pensamento da autora. Um privilégio!)

*****
"Que é fácil manipular pessoas é um facto. Pela minha profissão, assisto a isso diariamente.
Mas a forma como a extrema-direita conseguiu colocar uma parte da chamada “comunicação social séria” a trabalhar, conscientemente ou não, a favor dos seus interesses políticos levanta-me questões muito mais sérias. E algumas das respostas possíveis são suficientemente incómodas para preferirmos nem pensar nelas.
Antes de continuar a ler, proponho-lhe um exercício.
Neste momento, provavelmente já formou uma opinião sobre Luís Neves. O seu cérebro já selecionou informação, encontrou argumentos que confirmam aquilo em que acredita e começou, talvez, a preparar a contra-argumentação ao que imagina que vou escrever. É normal. É assim que funciona o cérebro humano.
Portanto, tem duas opções. Se já tem certezas absolutas e apenas procura informação que confirme aquilo em que acredita, não vale a pena continuar. Mas se estiver disposto a suspender durante alguns minutos o seu veredicto, olhar para os factos, considerar outra perspetiva e só depois formar a sua opinião, então continue a ler.
Hoje não escrevo como profissional. Escrevo como cidadã e como mãe.
A segurança sempre foi fundamental para mim. Cresci num país onde podia andar na rua praticamente a qualquer hora. Brinquei na rua em criança e vivi uma juventude em que sair à noite significava pensar em divertir-me, não em ter medo de ser assaltada, esfaqueada ou de uma simples discussão terminar numa tragédia.
Havia crime? Claro que havia. Mas a perceção de segurança com que cresci é profundamente diferente daquela que tenho hoje.
Hoje sou mãe de um adolescente e, sempre que o meu filho sai à noite com os amigos, fico acordada até ele chegar a casa.
Não pertenço a nenhum partido político e nunca tornei público em quem voto. Portanto, este texto não pretende defender um partido. Pretende defender uma coisa muito mais importante para mim: o direito de viver num país seguro.
Quando Luís Neves foi escolhido para Ministro da Administração Interna, respirei de alívio. Finalmente.
Finalmente teríamos à frente das nossas forças de segurança alguém que não conhece os problemas através de relatórios, assessores e reuniões. Conhece-os por dentro.
Luís Neves entrou para a Polícia Judiciária em 1995. Fez grande parte da sua carreira na investigação da criminalidade violenta e organizada, tendo mais tarde dirigido a Unidade Nacional Contra Terrorismo. Em 2018, chegou a Diretor Nacional da Polícia Judiciária.
Quando assumiu a PJ, encontrou uma instituição com problemas de envelhecimento dos quadros, falta de recursos humanos e necessidade de modernização dos meios.
Durante a sua liderança houve recrutamento de novos inspetores, peritos e especialistas; investimento tecnológico; reforço da capacidade de investigação; valorização das carreiras e alterações remuneratórias; modernização de meios; reforço do combate ao cibercrime, à corrupção e à criminalidade organizada; e uma forte aposta na cooperação policial internacional. Portugal reforçou também a sua participação em operações internacionais contra tráfico de droga, terrorismo, tráfico de seres humanos e outras formas de criminalidade organizada.
Podem gostar ou não de Luís Neves. Mas currículo e resultados não são opiniões.
E há outro facto particularmente interessante. Luís Neves não chegou ao Governo por ser um histórico do partido que estava no poder.
Chegou à liderança da PJ em 2018 e foi reconduzido em 2024 por um Governo de outra área política, que justificou formalmente essa recondução com a sua competência técnica, aptidão, experiência profissional e formação.
Quando posteriormente foi escolhido para Ministro da Administração Interna, pensei que finalmente teríamos naquele Ministério aquilo que tantas vezes falta à política portuguesa: alguém com experiência real do terreno.
Não apenas mais um académico, professor universitário ou político profissional a tentar resolver problemas que conhece essencialmente através de documentos.
Imaginei imediatamente aquilo que poderia acontecer. Imaginei PSP e GNR valorizadas, mais recrutamento, melhores condições de trabalho, agentes com equipamento adequado ao risco da profissão, melhores meios de proteção e capacidade operacional para enfrentar uma criminalidade que está a mudar.
Imaginei forças policiais mais respeitadas e, simultaneamente, mais responsabilizadas. Imaginei sobretudo alguém capaz de perceber uma coisa fundamental: quem mandamos enfrentar criminosos violentos não pode sentir que o Estado lhe pede coragem na rua e depois o abandona quando precisa dele.
E pensei: se existe alguém capaz de transformar profundamente as forças de segurança, como transformou a Polícia Judiciária, talvez seja este homem.
Mas não teve tempo.
Antes de conseguirmos perceber aquilo que Luís Neves faria no Ministério, começámos a assistir a outra coisa: carros, atrelados, motoristas, casas, procedimentos. Notícias atrás de notícias. “Casos” atrás de “casos”.
E aqui começa a parte que me interessa enquanto especialista em comportamento humano.
O cérebro não avalia necessariamente dez acusações pequenas como dez acontecimentos independentes. Acumula-as. Quando durante dias ou semanas somos sucessivamente expostos a informações negativas sobre a mesma pessoa, começa a formar-se uma representação global: “Há qualquer coisa de errado com este homem.”
Depois dessa representação estar instalada, acontece algo ainda mais interessante. Cada nova informação passa a ser interpretada à luz da conclusão anterior. Aquilo que seria uma irregularidade passa a parecer corrupção, aquilo que seria uma decisão administrativa discutível transforma-se em comportamento suspeito e aquilo que poderia ter uma explicação passa a ser recebido como mais uma prova.
E quando aparece o esclarecimento? Tem muito menos impacto, porque a reputação já foi construída.
É assim que se destrói a imagem pública de alguém sem ser necessário inventar uma única grande mentira. Basta escolher o que mostrar, como mostrar, quantas vezes repetir e em que contexto enquadrar.
É precisamente por isso que me espanta que tantos profissionais da comunicação social não percebam o fenómeno em que estão a participar.
Investigar Luís Neves é obrigação dos jornalistas. Se existirem ilegalidades, investiguem. Se existirem crimes, que responda por eles. Se existirem irregularidades administrativas, apurem responsabilidades.
Mas existe uma diferença gigantesca entre crime, irregularidade administrativa, incumprimento de um procedimento e decisão de gestão discutível. Misturar tudo numa narrativa contínua de “casos” produz no cérebro do público uma conclusão que pode ser completamente desproporcional à gravidade dos factos.
E é aqui que surge a pergunta que praticamente ninguém parece interessado em fazer:
Quem beneficiava com a queda de Luís Neves?
Quando analiso comportamento, poder ou estratégia, procuro sempre duas coisas: quem ganha e quem perde. E encontro, pelo menos, dois interesses óbvios.
O primeiro é político: André Ventura.
Uma parte importante do seu crescimento político foi construída em torno da insegurança, da criminalidade, da imigração, da autoridade do Estado e da defesa das forças policiais.
Agora façam um exercício simples. Imaginem Luís Neves com três anos para trabalhar. Imaginem uma PSP e uma GNR mais valorizadas, mais agentes, melhores meios, maior presença policial, maior capacidade de resposta, combate efetivo ao crime organizado e resultados concretos que começassem a ser sentidos pela população.
O que aconteceria a uma das principais bandeiras políticas de André Ventura? Perderia força. Porque é muito mais difícil mobilizar pessoas através da sensação de insegurança quando o Estado começa efetivamente a resolver o problema.
Estou a afirmar que André Ventura criou uma operação para destruir Luís Neves? Não. Não tenho provas para o afirmar. Estou a afirmar que tinha um interesse político objetivo no seu fracasso e considero extraordinariamente ingénuo analisar política sem analisar quem beneficia politicamente dos acontecimentos.
Mas existe um segundo grupo para quem Luís Neves à frente da segurança interna portuguesa também não seria propriamente uma excelente notícia. E aqui entramos numa hipótese muito mais incómoda: o crime organizado.
Luís Neves não passou a carreira sentado num gabinete. Fez carreira precisamente no combate à criminalidade violenta e organizada e dirigiu durante anos a Unidade Nacional Contra Terrorismo.
Conhece terrorismo, associações criminosas altamente organizadas, tráfico de pessoas e de armas, criminalidade transnacional e cooperação policial internacional. Passou décadas a trabalhar precisamente contra esse mundo.
Agora faço outra pergunta: a quem, dentro do crime organizado, interessava ter um homem destes à frente de toda a segurança interna portuguesa?
A resposta parece-me evidente: a ninguém.
E será verdadeiramente absurdo admitir como hipótese que organizações criminosas que movimentam milhões estejam dispostas a gastar dinheiro, influência ou contactos para retirar do caminho alguém capaz de lhes dificultar seriamente a atividade?
Eu não tenho provas de que isso tenha acontecido. Repito: não tenho provas de que tenha acontecido. Por isso não afirmo que aconteceu. Mas recuso-me também a aceitar que fazer a pergunta seja uma teoria da conspiração.
Crime organizado não sobrevive apenas através de armas e violência. Sobrevive através de dinheiro, influência, corrupção, infiltração e capacidade para proteger os seus interesses.
Portanto, se estamos realmente interessados em perceber esta história, talvez alguém devesse investigar não apenas aquilo que Luís Neves fez. Talvez também fosse interessante investigar quem tinha alguma coisa a ganhar com a sua destruição.
Seguir interesses, seguir relações e seguir dinheiro, se existir dinheiro para seguir. Depois tirar conclusões. É isso que espero do jornalismo de investigação.
Porque aquilo que mais me revolta nesta história é precisamente o comportamento da comunicação social. Não porque investigou um ministro — ainda bem que o fez. O poder tem de ser escrutinado.
O que me revolta é a aparente incapacidade de perceber que a seleção, repetição e enquadramento permanente de determinados acontecimentos também constroem realidade na cabeça das pessoas.
E é aqui que volto ao início deste texto. Manipular pessoas não exige obrigatoriamente mentir-lhes. Essa é uma ideia demasiado básica de manipulação.
As formas mais sofisticadas de manipulação utilizam frequentemente factos verdadeiros. Escolhem determinados factos, omitem outros, definem a ordem pela qual são apresentados, escolhem as palavras, repetem associações e criam emoções. Depois deixam o cérebro humano fazer o resto.
A pessoa chega à conclusão sozinha. Ou, pelo menos, fica convencida de que chegou.
É precisamente por isso que considero legítimo perguntar se uma parte da comunicação social portuguesa percebeu que podia estar a ser instrumentalizada para servir interesses que não eram os seus.
Espero sinceramente que não. Espero que tenha sido apenas falta de pensamento crítico, competição por audiências e a necessidade diária de alimentar o próximo “caso”, porque a alternativa é muito mais grave.
Estou profundamente revoltada com aquilo que fizeram à imagem de um homem cuja carreira não foi construída na política, mas no terreno. E estou revoltada sobretudo porque nunca chegámos a descobrir aquilo que ele poderia ter feito.
Talvez Luís Neves falhasse completamente enquanto ministro. Talvez não conseguisse transformar PSP e GNR. Talvez eu estivesse enganada. Mas não lhe deram sequer tempo para o sabermos.
E enquanto o país discutia carros, atrelados, motoristas e procedimentos administrativos, desapareceu da discussão a única pergunta que, para mim, verdadeiramente interessa:
Quem ganhou com a queda de Luís Neves?
André Ventura ganhou politicamente? O crime organizado ficou mais confortável? Alguém trabalhou ativamente para produzir este resultado? A comunicação social foi apenas veículo involuntário?
Não sei. Mas sei uma coisa: quando existem interesses poderosos, aquilo que um cidadão consciente nunca deve fazer é deixar de fazer perguntas apenas porque as respostas podem ser incómodas.
Eu quero que Luís Neves seja investigado. Quero que todas as decisões sejam escrutinadas e, se cometeu algum crime, quero que responda por ele como qualquer outro cidadão. Mas também quero saber quem beneficiou com a sua queda e se alguém ajudou a provocá-la.
Porque podemos ter acabado de perder um homem que tinha condições únicas para tornar Portugal mais seguro.
E, se isso aconteceu porque fomos coletivamente conduzidos a olhar para onde alguém queria que olhássemos, então o verdadeiro escândalo pode não ser aquele que passou semanas nas primeiras páginas.
Pode ser aquele que ninguém investigou."
Susana Areal

De dia para dia (ou melhor, literalmente, de hora para hora) aumenta e desinformação e manipulação:

Se vejo uma fotografia ou imagens retiradas das redes, não sei se posso considerá-las verdadeiras. Se quero perceber, em tempo útil, se são verdadeiras ou não, esbarro rapidamente num muro. Estas imagens de governantes a sorrir - suponho que para transmitir confiança e um sentido de vitória - no meio de uma guerra que já terá causado a morte a mais de um milhão de jovens soldados, será verdadeira? Custa-me a acreditar. Feita uma pesquisa, só as encontro nas redes sociais, num portal de notícias do Vietname e num canal de notícias em inglês. Na fotografia de grupo está a chefe do governo da Dinamarca, mas no vídeo do mesmo dia, pela mesma hora, não. Faço algo que é perigoso e que está na origem deste problema, recorro à IA, em consciência, faço do bode jardineiro: coloco ambas as fotografias na maior ferramenta de IA do mundo (com o nome ‘Gémios’, na tradução portuguesa) e pergunto se alguma das duas imagens foi gerada por Inteligência Artificial. A resposta é rápida: “nenhuma, ambas são verdadeiras, mas na primeira não se vê a mulher dada a distância e o ângulo e porque obscurecida pelos outro participantes”. Peço o link, algo mais concreto, uma fonte ‘mainstream’ que mostre a fotografia e resposta não é conclusiva: os links apresentados levam a outros conteúdos. Faço uma lista de incongruências entre as imagens (número de pés visíveis no chão, hora da captação etc.). Não porque ache que alguém falsificou as imagens, mas porque não quero acreditar num cinismo assumido ao ponto de se tirar uma ‘selfie’ de sorrisos no meio de massacres. A resposta da IA passa a: “Tem razão”, “cometi um erro de cálculo”, “uma ou ambas poderão ser falsas”. Sei que as respostas da IA de nada valem, alucinam, querem agradar ou manipulam.
Não investigo mais, não é realmente importante se as imagens são verdadeiras ou não (colegas na Ucrânia garantem que sim, que passaram na televisão ucraniana). Mesmo que não tivessem, de facto, sorrido para as câmaras, ou talvez sim, tanto faz, uma coisa é óbvia: estes governantes riem-se de nós. Vi com os meus olhos, numa televisão credível, pública, feita por jornalistas, António Costa a beijar um dos dois protagonistas desta guerra como se este fosse o Capuchinho Vermelho e a missão da União Europeia fosse salvá-lo do Lobo Mau, como se fosse nossa obrigação sacrificar o nosso futuro e as nossas vidas de um dos lados duma barricada maniqueísta, criada pelos lobistas, vendedores de banha da cobra e contadores de histórias de enganar (a imagem retirada dos irmãos Grimm sobre a guerra na Ucrânia, para dizer que esta guerra NÃO é o conto do Capuchinho Vermelho e do Lobo Mau, foi usada pelo Papa Francisco em Junho de 2022).
E o que fazem entretanto as nossas televisões? A CNN, por exemplo, em “horário nobre”, recorre a um leque de comentadores a falar sobre a política cujo perfil merece atenção e vai de um lobista ao dono de uma agenda de comunicação (agências de comunicação vendem as mensagens dos seus clientes).
Estes são tempos muito perigosos.

Agita-se o fantasma de uma guerra iminente, vários dos protagonistas nestas duas imagens, afinal, ao que parece, ‘verdadeiras’, querem um confronto mais directo, querem mais guerra, para justificar o declínio das nossas democracias e economias, e riem-se de nós, da nossa inércia e falta de inteligência. Riem-se, porque não são responsáveis por nada: se hoje falharem na política, amanhã, pelo efeito das portas rotativas, estarão numa fundação, noutro posto em Bruxelas, numa universidade nos EUA, num banco ou na administração dum fundo de investimento norte-americano (de onde já veio, por exemplo, o chanceler alemão Merz e para onde foi Durão Barroso que esteve sempre do lado das guerras, desde o início a apoiar a invasão do Iraque, desde o início a apoiar o golpe na Ucrânia que levou à actual guerra).

Miguel Szymanski 

Sustentabilidade da SEGURANÇA SOCIA:

Ricardo Paes Mamede — ATAQUE DOS QUATRO PEÕES