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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Ventos Semeados: Mortágua e os Figurões de Silicon Valley

Ventos Semeados: Mortágua e os Figurões de Silicon Valley:   Mariana Mortágua deixou a liderança do Bloco de Esquerda por decisão própria, invocando resultados eleitorais que não a favoreceram. Mas h...

SALAZAR NÃO MORREU POBRE: E ISSO NÃO É UM PORMENOR:


Há mitos que sobrevivem porque são confortáveis. O de D. Sebastião sobrevive porque alimenta a esperança. O de Robin dos Bosques porque consola os desfavorecidos. E o de António de Oliveira Salazar porque oferece aos seus admiradores uma espécie de superioridade moral retrospetiva: sim, foi ditador, dizem alguns, mas ao menos não roubou; sim, governou durante décadas sem eleições livres, mas morreu pobre; sim, concentrou um poder sem paralelo na história portuguesa contemporânea, mas nunca se aproveitou dele para enriquecer.
O problema dos mitos é a sua irritante tendência para se chocarem com os factos.
Um extenso trabalho de investigação do jornalista Marco Alves, publicado na revista "Sábado" (n.º 1160, de 22 a 28 de julho de 2026), veio reunir um conjunto impressionante de informações sobre a situação patrimonial do antigo presidente do Conselho. E aquilo que emerge não é a figura de um milionário extravagante nem a de um cleptocrata à escala de outros ditadores europeus. Mas também não é a imagem do professor pobre, vestido de modéstia franciscana, que alguns continuam a apresentar.
Importa recordar que essa imagem não foi construída apenas pelos admiradores que lhe sobreviveram. Foi também alimentada pelo próprio. Salazar ajudou a moldar cuidadosamente a perceção pública de uma vida austera e quase desapegada dos bens materiais. Ficou célebre a frase segundo a qual devia “à Providência a graça de ser pobre”. Décadas depois, essa frase permanece viva na memória coletiva e continua a funcionar como uma espécie de certificado moral póstumo.
A verdade, porém, como tantas vezes acontece, é mais incómoda.
Salazar cultivou durante toda a vida uma imagem de austeridade. Essa imagem tinha fundamento. Gostava pouco de ostentação, não se deixou seduzir pelo luxo exuberante e manteve hábitos relativamente sóbrios. Contudo, austeridade não é sinónimo de pobreza. Uma pessoa pode ser frugal sem ser pobre. E uma pessoa pode viver de forma simples sem deixar de acumular património.
Quando morreu, em 1970, Salazar possuía contas bancárias, propriedades rurais, terrenos, casas, objetos de prata, ouro, livros, manuscritos, coleções e diversos bens cujo valor, atualizado para os dias de hoje, atingiria montantes muito significativos. Só os depósitos bancários conhecidos correspondiam a cerca de 113 mil euros em valores atuais. A isso somavam-se casas, quintas, vinhas, olivais, pinhais e terrenos cujo valor acumulado, nos preços do mercado contemporâneo, atingiria facilmente valores de vários milhões de euros.
Nada disto faz dele um magnata. Mas também não permite continuar a repetir, sem qualificação, que “morreu pobre”.
Aliás, a reportagem desmonta um dos aspetos mais curiosos da narrativa salazarista. O homem que passava a vida a falar de contenção financeira era simultaneamente proprietário de um património rural bastante respeitável. Herdou parte dele, adquiriu outra parte e valorizou alguns desses bens ao longo do tempo. Isso não constitui qualquer crime. O problema surge quando essa realidade desaparece da história e é substituída por uma imagem quase monástica.
Há ainda outro equívoco recorrente.
Os admiradores de Salazar costumam estabelecer uma comparação implícita entre o chefe do Estado Novo e alguns governantes contemporâneos. A mensagem é simples: os políticos de hoje entram pobres e saem ricos; Salazar entrou pobre e saiu pobre.
A primeira parte da frase pode ser objeto de discussão. A segunda torna-se mais difícil de sustentar.
Segundo os elementos revelados pela investigação, o antigo governante acumulou poupanças ao longo da vida, possuía património imobiliário e conservava um espólio de valor considerável. Não estamos perante alguém dependente da caridade alheia ou reduzido à indigência. Estamos perante um homem que viveu confortavelmente durante décadas e que morreu com uma situação financeira sólida.
Há ainda um dado curioso que raramente aparece nestas discussões. Atualizado para valores de hoje, o salário de Salazar como presidente do Conselho rondaria os 8.450 euros brutos mensais, valor que não difere dramaticamente daquele que aufere um primeiro-ministro contemporâneo. À primeira vista, isto parece reforçar a narrativa da modéstia. Mas só à primeira vista. É que Salazar passou cerca de 31 anos instalado no Palacete de São Bento sem suportar uma despesa que pesa fortemente no orçamento de qualquer cidadão comum: a habitação. A comparação só é justa quando se compara o pacote completo.
A questão torna-se ainda mais interessante quando se observa a fronteira entre o dinheiro privado e os recursos públicos.
Não surgem provas de enriquecimento ilícito no sentido clássico do termo. Mas aparecem numerosos exemplos de uma realidade típica dos regimes longos: a progressiva confusão entre o Estado e o governante.
Funcionários públicos trataram de assuntos privados relacionados com propriedades suas. Membros do Governo ocuparam-se de questões pessoais. Houve intervenções administrativas relativas a casas, terrenos, obras, jardins, abastecimento de água e diversos problemas da sua esfera particular. Tudo isto era frequentemente encarado com naturalidade.
E porquê?
Porque as ditaduras tendem a produzir esse efeito. Ao fim de décadas, deixa de ser evidente onde acaba o poder do Estado e onde começa a vida privada de quem governa. O aparelho público passa gradualmente a funcionar como extensão do governante.
E convém lembrar que Salazar não governava sozinho nem pairava acima das fragilidades humanas que tantas vezes denunciava. Pelo contrário: rodeou-se durante décadas de uma constelação de homens cuja principal virtude era a obediência. Uns eram ambiciosos, outros bajuladores, alguns francamente comprometidos com interesses pouco recomendáveis. Salazar conhecia-os bem e sabia utilizá-los. Promovia-os, afastava-os, colocava-os em confronto ou fazia-os cair em desgraça conforme as necessidades do momento. Era um mestre da intriga, da insinuação e da pequena política de bastidores. Mantinha-se acima das fações precisamente porque estimulava a competição entre elas.
Ao mesmo tempo, apoiou-se nas grandes famílias económicas e financeiras do seu tempo, servindo-se delas e servindo-as quando isso convinha à estabilidade do regime. Curiosamente, muitas dessas famílias continuariam a ocupar posições relevantes na sociedade portuguesa muito depois do fim do Estado Novo. Por isso, a imagem do professor solitário, isolado das redes de influência e dos interesses instalados, é quase tão fantasiosa como a do asceta sem património.
Nem sequer é necessário existir corrupção para que esta promiscuidade aconteça.
O mesmo se verifica nos últimos anos da sua vida. Após a queda da cadeira que o afastou do poder, o Estado suportou despesas significativas relacionadas com os seus cuidados médicos e com a sua situação pessoal. Segundo os elementos reunidos pela investigação, os encargos associados ao tratamento prolongado de Salazar ascenderiam, a valores atuais, a cerca de 1,9 milhões de euros. Além disso, foi-lhe atribuído um vencimento vitalício após deixar o exercício efetivo das funções governativas.
Mais uma vez, as interpretações dividem-se. Uns consideram que esse apoio era uma obrigação para com um antigo chefe do Governo. Outros entendem que representava um privilégio incompatível com a imagem de rigor que o próprio cultivava.
Mas há uma ironia impossível de ignorar.
Durante décadas, Salazar construiu um regime baseado na exaltação da disciplina, da contenção e do sacrifício. O país foi educado para admirar a poupança e desconfiar da abundância. O chefe surgia como exemplo máximo dessa pedagogia moral.
Só que os documentos mostram que a realidade era mais complexa. O homem era poupado, sem dúvida. Era meticuloso, também. Não gostava de desperdício. Mas possuía bens, património, poupanças e uma rede de facilidades associadas ao cargo que ocupou durante quase quarenta anos.
Por outras palavras: não era o milionário corrupto imaginado pelos seus detratores mais ferozes. Mas também não era o santo laico que uma certa memória nostálgica insiste em apresentar.
E talvez seja precisamente isso que incomoda.
Porque é mais fácil lidar com caricaturas do que com seres humanos reais. A caricatura do ditador ladrão é simples. A caricatura do ditador asceta também. O problema é que os factos raramente têm a delicadeza de caber nas caricaturas.

Os documentos analisados pela investigação da "Sábado" sugerem que António de Oliveira Salazar foi aquilo que muitos mitos se recusam a admitir: um homem austero, sim; um homem frugal, frequentemente; mas também um homem que acumulou património, beneficiou das prerrogativas do poder que exerceu e morreu bastante mais confortável do que a lenda (alimentada pelos seus admiradores, mas também por ele próprio) nos habituou a acreditar. E talvez o erro mais persistente seja imaginar que esse poder foi exercido num vazio, acima dos interesses, das influências e das dependências humanas. Não foi. Como tantos governantes que permanecem tempo suficiente no topo, Salazar tornou-se o centro de uma teia de lealdades pessoais, favores, rivalidades e conveniências. É precisamente por isso que a história séria é sempre menos confortável do que a nostalgia: porque troca a lenda pelo homem real. E os homens reais, quase sem exceção, são sempre mais contraditórios do que os mitos que deixam para trás.

Paulo Marques 

Luís Represas:

Muito mais do que a música. (No fim, calo-me. E deixo-vos com ele, com a música Timor-Leste, eternizada pela sua voz.)
Eu tinha dezasseis anos. E estava à frente da embaixada dos Estados Unidos, em Lisboa, no meio de centenas de milhares de portugueses vestidos de branco, a gritar por um povo que ardia a doze mil quilómetros de distância.
Foi nessa noite que aprendi a palavra mais importante da minha vida. E foi o Luís Represas, que morreu hoje, um dos homens que ma ensinou.
Neste vídeo conto-vos essa memória de 1999. Conto-vos porque é que, para mim, ele foi sempre muito mais do que a música. E conto-vos ainda uma história que se passou aqui, ao pé do rio, e que vos vai fazer sorrir no meio da saudade.
Vejam e ouçam, até ao fim. Vale mesmo a pena.
Ricardo Lima

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Acordar assim com uma triste notícia, a do falecimento de Luís Represas, um dos nomes mais marcantes da música portuguesa:

Esta Feiticeira é uma música belíssima, interpretada de forma magistral, e com os Trovante deixou autênticos Hinos, como Timor ou 125 azul. Morreu aos 69 anos, vítima de doença prolongada. Que descanse em paz.

Ainda sou do tempo

POSTAL DO DIA:


Viver tudo numa noite
1.
Morreu Luís Represas. Conheci-o em criança, em casa do meu pai, ao piano. Ele e todos os Trovante. Eram miúdos, no final da adolescência ou no início da vida adulta, estavam a preparar o seu primeiro álbum “Chão Nosso”. O Luís, e o João Gil e Manuel Faria, ainda não eram ídolos, mas foram-no. Mais do que qualquer músico em Portugal na década de 1980 e em metade da década de 1990. Foram eles a fazer a transição dos grandes músicos de intervenção para um novo mundo – eles próprios fizeram-na entre o segundo e o terceiro álbum. Não interessa.
2.
Luís era a estrela. A sua voz, presença, magnetismo e inteligência mudaram a face da música popular. E não temos de o chorar. Ele viveu uma vida cheia. Cumpriu-se, ficou na história e vamos cantá-lo até ao fim dos tempos. E Deus – ou alguém por E’le ofereceu-lhe a possibilidade de se despedir do público com quatro concertos que foram absolutamente mágicos. Já estava muito doente, mas eu não sabia. Mas já estava. E na sua cabeça era mesmo a despedida, a sua ultima vez. Impressionante a maneira como o fez. Sem alardes, sem chorinhos, sem nada que não tivesse feito se lhe estivessem destinados cem anos de vida.
3.
Agora percebo o título dos últimos espetáculos – “Viver tudo numa Noite”.
Os mais novos talvez não imaginem do que estou a falar, certamente que lhes é difícil entender que existia mundo antes deles, que existia música antes da música que ouvem, que os seus pais ou avós tenham sido jovens como eles. É-lhes difícil, quase impossível, saberem o que Trovante representou na cultura portuguesa, na construção da democracia, na capacidade de a música ser a prova de que qualquer coisa estava a acontecer de novo em Portugal.
4.
Lá estive para os ouvir, para ouvir o Luís. Ameaçaram viver tudo numa noite e cumpriram. Ou em quatro. Mas eu, querido Luís, enquanto por aqui estiver, continuarei desperto com algumas daquelas canções que nunca deixaram de tocar em mim, que me ajudaram a ser o que sou, que me fizeram chorar, desejar, amar, dançar, pensar, ser futuro e respeitar o passado.
5.
Trovante é a banda da minha vida. É memória de manhãs, tardes, noites e madrugadas. Sei as músicas de cor, apaixonei-me por quem as cantou comigo, adormeci todos os meus filhos com aquelas canções, lamentei as mortes e as perdas a ouvir a guitarra do João, a voz do Luís e o piano do Manuel. O meu pai já o deve ter reencontrado. E eu canto Molinera.
LO

Sebastianas continuam a encantar gerações!

Ano após ano, num ritual sagrado aguardado sempre com grande entusiasmo, as Sebastianas continuam a desafiar o tempo e a deslumbrar gerações. Celebradas há mais de século e meio, as festividades — que se confundem com Freamunde — regressaram com o seu roteiro de sucesso, celebrando a memória antiga enquanto abrem os braços às novas correntes artísticas.

Por Ricardo Jorge Neto

Tudo começou com a habitual semana cultural, uma montra viva que deu palco ao talento das várias associações locais. O arranque emocional ficou a cargo do movimento OMESSA, que transformou a Loja Nova num baú de memórias com a exposição “Entre a Devoção e a Festa”. A mostra tocou na essência da história: ali estavam as míticas vacas de fogo, os tapetes da procissão, os "ferreirinhos" e a construção dos carros alegóricos. Uma exposição com a mestria de fazer dialogar o passado e o futuro, provocando a nostalgia dos mais velhos e o sorriso e o espanto dos mais novos. A partir daí, sucederam-se as quadras, o folclore, os Pedaços de Nós, a tuna e o fado. A fechar com chave de ouro, a mais antiga banda filarmónica do concelho aliou-se à voz inconfundível de Rita Guerra, num momento de beleza rara. Pelo meio, juntamente com a AJAF, o monte Acheira contou com a adrenalina da castiça corrida de carros de rolamentos.

A 9 de julho, as Sebastianas ganharam oficialmente vida. No palco principal, Bárbara Tinoco ofereceu mais do que um concerto: encantou tudo e todos com uma performance visual surpreendente. Na sexta-feira, como manda a tradição, o relógio de sol da Capela de São Francisco parou para homenagear gerações e gerações de festeiros. Cumprido o protocolo solene, a noite transfigurou-se: de bombo e caixa na mão, as comissões invadiram o asfalto numa arruada imensa, com as mulheres freamundenses a assumirem a linha da frente nesta procissão de batidas e orgulho. No plano musical, Nel Monteiro ganhou estatuto de rei absoluto do cancioneiro popular, enquanto noutro palco o ritmo do rapper Regula dava voz às inquietações das novas gerações. Na noite de sábado, os Quatro e Meia encantaram um mar de gente com a sua poesia e melodia, logo após as Sebastianas terem sido revisitadas em forma de um grandioso espetáculo de fogo de artifício. 

O domingo, o dia da mais profunda solenidade, trouxe o coração das Sebastianas de volta ao sítio certo. A majestosa procissão saiu à rua, erguendo-se como o símbolo vivo da gratidão e devoção eterna de Freamunde ao jovem soldado de Narbona, São Sebastião. A ditar o compasso solene estiveram a Banda de Freamunde e a Banda Junqueirense, de Vale de Cambra. Para elevar a temática das Sebastianas 2026, nada melhor do que a construção dos tapetes, que juntou nas ruas netos, filhos, avós e até bisavós num esforço comunitário, garantindo que os quilómetros de cortejo se façam pisando quadros artísticos de serrim — um elemento de enorme significado nesta terra de marceneiros. A noite de domingo acabou entregue aos Resistência, um projeto intemporal que, tal como esta festa, cruza os caminhos de músicos de várias eras. As madrugadas são o momento de disputa entre numerosos espaços de música com DJs, que competem entre si para captar o maior número de foliões. Nesta batalha musical, o rei é o volume do som: numa lógica de mais decibéis, mais clientes...

A festa das multidões seguiu a rápida contagem dos dias e desaguou na segunda-feira, o dia da apoteose criativa, onde os mestres construtores colocam nas ruas as suas obras-primas: os carros alegóricos. Sob a égide do tema “Gerações”, a marcha não deixou ninguém indiferente, porque se há algo que une os freamundenses são as Sebastianas de ontem, de hoje e de amanhã. As memórias vivas das festas moldam quem somos: as primeiras saídas à noite, os namoros, participar como anjinho na procissão, os primeiros excessos, as vacas de fogo, as girandolas, chegar a casa a horas impensáveis, apanhar as canas para os feijões e para os papagaios e estrelas, os amigos de sempre, fugir e participar no mel, dançar samba, grafitar uma parede, saltar e pular enquanto os guerreiros do bombo se esvaem em suor, ou ver o melhor carro da marcha que é claramente o que construímos…

Foram, são e serão séculos de emoções puras, alimentadas pelos freamundenses que deram continuidade a esta tradição de trazer para a rua a fé e a devoção a São Sebastião. A tradição continuará viva, e uma nova geração já prepara as Sebastianas 2027!

Seríamos piores ou melhores sem as Sebastianas? Talvez sim, talvez não... mas uma coisa é certa: sem elas não seríamos, nunca, freamundenses! 

OPINIÃO de Ricardo Jorge Neto

Gazeta de Paços de Ferreira

Matai-vos uns aos outros…:

Sabíamos do poder destruidor das epidemias e da facilidade com que se convertem em pandemias, o que não conhecíamos era a facilidade e velocidade com que o belicismo se expandiu e legitimou em cada país e em todos os continentes.

Enquanto o flagelo ganhou adeptos e arrastou multidões, tornaram-se timoratos os que ainda pensavam em resistir, demonizados pela onda de propaganda que acompanhou as justificações.
É de pasmar, ver cidadão pacíficos empolgados com a necessidade de nos defendermos, sem saberem de quem, e o ar bovino com que ouvem as vuvuzelas da guerra a falar das maravilhas de artefactos militares capazes de dispararem os mísseis mais modernos e de atingirem com eficácia inimigos que facilmente podem passar a amigos ou vice-versa.
Nunca, na minha longa vida, tinha assistido a tanta insensibilidade com a morte dos que caem de um dos lados e ao regozijo pelos que são abatidos no lado contrário com heróis e vilões à escolha de cada um e em cada momento, numa orgia de sangue que percorre o Planeta e ameaça fazer de nós a sua última geração.
Num dia em que o acordo sobre o nuclear entre os EUA e Irão, entre o líder ensandecido do país militarmente mais poderoso do mundo e o príncipe-herdeiro de uma monarquia que pratica a sharia e onde se preserva a lei de um defunto profeta analfabeto e amoral, qualquer pessoa sensata vê que a corrida ao armamento nuclear, que nenhum país devia possuir, vai provocar uma corrida generalizada a favor da morte.
Será que todos estamos dispostos a trocar benefícios da civilização e da democracia por uma ideia de segurança e pela capacidade de nos matarmos melhor e mais depressa uns aos outros, abdicando da saúde, da segurança social e da paz?
Somos cada vez menos os que passámos por uma guerra, mil vezes menos letal, onde vimos a perversidade que os conflitos armados desenvolvem e a amoralidade de que são capazes primatas com armas na mão.
Quem nunca viu o cadáver de um camarada amigo dentro de uma farda e lhe pegou para ver os olhos a vidrar de uma vida que se extinguiu aos vinte e poucos anos ao serviço da pátria, em pátria alheia, ou os despojos de um amigo que uma bazuca reduziu a pedaços recolhidos com terra e um dedo solitário onde luzia uma aliança, talvez sinta no sofá a febre da guerra e a vontade de aventuras de racionalidade duvidosa e desfecho incerto.
Já não somos pessoas, somos autómatos insensíveis e amorais, guiados ao extermínio por algoritmos.
Mas, se é isso que querem, matem-se uns aos outros sem aprenderem que esta é a vida, única e irrepetível, cujo privilégio nos coube.
Matai-vos uns aos outros…