Rádio Freamunde

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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Ireneu Teixeira – a Padeira da Geopolítica:

(Luís Rocha, in Facebook, 10/09/2026, Revisão da Estátua)

Gente Boa. Passarei a estar convosco apenas aos domingos, em hora a anunciar em breve. Avisarei sempre que houver alguma alteração na programação. Obrigado por existirem na minha vida.

Há uns tempos que tenho Ireneu Teixeira debaixo do radar, embora não veja televisão, o que me permite conservar alguma esperança na humanidade, mas o algoritmo do YouTube, essa criatura malévola que sabe exactamente onde encontrar o lixo que não procuramos, lá me vai oferecendo de vez em quando umas intervenções do homem no NOW, deixando-me sempre com aquela sensação de que acabei de assistir a uma experiência científica destinada a provar que o cérebro humano consegue encolher em tempo real.

Ireneu é apresentado como comentador de política internacional, o que é uma classificação extraordinariamente ambiciosa para alguém cuja relação com os factos parece ser a de um turista com um mapa de pernas para o ar.  Olha para ele, acha tudo muito interessante e depois vai parar a outro país.

 Em 2024, apresentou no NOW um vídeo da Fox News como sendo recente e relacionado com a Rússia, quando o vídeo era de 2014 e Jeanine Pirro falava do Estado Islâmico. Confrontado com o erro, explicou que recebera aquilo pelo WhatsApp e que não tivera tempo para confirmar a informação.

É uma metodologia extremamente interessante.

 Antigamente verificava-se a notícia antes de a transmitir, agora recebe-se uma coisa no telemóvel, mete-se na televisão e logo se descobre o que era.

A ERC acabou por considerar que o NOW violara o rigor informativo, mas aparentemente nem uma entidade reguladora consegue acompanhar a velocidade com que Ireneu transforma uma mensagem de WhatsApp em política internacional.

Depois veio o episódio do suposto dirigente do Hamas que afinal era um clérigo iraquiano crítico do próprio Hamas, ao qual foram atribuídas declarações que pertenciam a outra pessoa, porque aparentemente até as identidades passaram a ser facultativas no comentário internacional.

 E finalmente chegámos a Ceuta, ou melhor, a Toulouse, porque para Ireneu a geografia parece ser uma ciência dispensável. Mostrou imagens de violência como sendo das últimas horas em Ceuta, quando eram imagens de Toulouse, em França, relacionadas com os festejos da vitória do PSG na Liga dos Campeões.

Toulouse em Ceuta, França em Espanha, Maio em Setembro e adeptos de futebol transformados em migrantes.

 É difícil errar tanto sem começar a suspeitar que há alguém nos bastidores a baralhar deliberadamente o atlas.

 Depois veio a fabulosa história da Mercadona, segundo a qual migrantes estariam a comprar produtos para fabricar bombas, história que a própria empresa desmentiu e que o Polígrafo classificou como falsa.

 Mas nada disto se compara à monumental descoberta histórica de que a Padeira de Aljubarrota teria corrido com os espanhóis em 1640, confundindo a Batalha de Aljubarrota, em 1385, com a Restauração da Independência, em 1640.

São apenas 255 anos de diferença, uma pequena imprecisão para quem comenta a História como quem escolhe uma data num calendário de parede. É como dizer que Camões escreveu Os Lusíadas depois de inventarem a internet.

 O problema é que Ireneu não comenta apenas História, comenta política internacional, guerras, migrações, terrorismo e relações entre Estados, tudo isto com a confiança de quem parece acreditar que o mundo é uma espécie de radionovela onde os factos são apenas sugestões.

 E talvez seja essa a verdadeira inovação.

Já não precisamos de correspondentes internacionais, historiadores ou especialistas, basta um homem com acesso ao WhatsApp, uma cadeira num estúdio e uma relação suficientemente flexível com a verdade.

 Ireneu conseguiu transformar a política internacional numa espécie de quermesse cognitiva onde Toulouse pode ser Ceuta, 2014 pode ser ontem, um crítico do Hamas pode ser dirigente do Hamas e Brites de Almeida pode atravessar dois séculos e meio para participar na Restauração.

Há pessoas que explicam o mundo.

 Ireneu prefere inventá-lo.

 E fá-lo com aquele ar solene de quem acredita que, se disser uma barbaridade com suficiente convicção, talvez a realidade se sinta intimidada e vá embora.

Só que a realidade tem este defeito terrível.

Insiste em existir.

E parece que finalmente alguém percebeu que talvez não seja boa ideia deixar um homem destes diariamente à solta pela televisão, pelo que Ireneu foi finalmente colocado na prateleira, numa espécie de reforma dourada do comentador internacional, passando a mostrar a cara apenas ao domingo.

 É uma solução sensata e, sobretudo, uma solução humanitária. Se não conseguimos impedir Ireneu de comentar o mundo, pelo menos podemos reduzir a exposição do mundo a Ireneu.

 Ao domingo, portanto, lá teremos a sua aparição semanal, como aqueles relógios antigos que abrem uma portinhola e fazem sair um cuco durante alguns segundos para anunciar que ainda estão vivos. A diferença é que o relógio tem a vantagem de não possuir a capacidade de confundir Toulouse com Ceuta.

 E tudo isto acontece na Medialivre, empresa de que Cristiano Ronaldo é accionista, o que acrescenta uma camada de surrealismo à coisa. Não sei se Ronaldo acompanha as intervenções de Ireneu, mas imagino a reunião de accionistas. Alguém apresenta os resultados, outro fala das audiências, alguém pergunta pela estratégia editorial e Cristiano levanta a mão para saber se a Padeira de Aljubarrota já foi entrevistada.

 É que, sendo accionista, Ronaldo adquiriu uma pequena parte da empresa, mas ninguém me garante que tenha recebido também uma fracção da Padeira, de Ceuta, de Toulouse e dos restantes territórios imaginários do império geopolítico de Ireneu.

No fundo, é uma espécie de reforma dourada à portuguesa. Não se manda o especialista para casa, apenas se lhe reduz o horário para que possa continuar a explicar o planeta sem o planeta ter de levar com ele todos os dias.

E talvez seja mesmo essa a grande conquista.

 Durante a semana, a Terra gira normalmente, Toulouse continua em França, Ceuta continua em Espanha, Aljubarrota permanece em 1385 e 1640 continua a ser 1640.

Depois chega domingo, abre-se a televisão, aparece Ireneu e tudo volta a ser possível.

A História pode mudar de século, a geografia pode mudar de continente e o WhatsApp pode transformar-se novamente em Conselho de Segurança da ONU.

 Há pessoas que estudam o mundo para o compreender.

 Ireneu prefere recebê-lo por mensagem.

Felizmente, agora só ao domingo.

Valha-nos isso…

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas:

https://theblindspot.pt/desinformacao-no-canal-now…

https://theblindspot.pt/comentador-do-now-justifica…

https://theblindspot.pt/queixa-the-blind-spot-a-erc…

https://theblindspot.pt/depois-de-condenacao-da-erc-por…

https://www.rtve.es/…/falso-jovenes…/17178491.shtml

https://poligrafo.sapo.pt/…/mercadona-contactou-a…

https://www.jf-aljubarrota.pt/pt_pt/history/padeira

Do blogue Estátua de Sal

Quem é que ainda quer o quê com esta guerra?

A Rússia invadiu a Ucrânia com meia dúzia de objectivos, não necessariamente por esta ordem: travar a expansão da NATO, impor a neutralidade da Ucrânia, reconquistar territórios que considera históricos, proteger minorias russas, controlar o acesso ao Mar Negro, neutralizar oligarcas ucranianos.
Os EUA desencadearam, entraram e empenharam-se nesta guerra com meia dúzia de objectivos, não necessariamente por esta ordem: separar a Alemanha da Rússia, enfraquecer a Rússia, conquistar o mercado energético da União Europeia, proteger o dólar, vender armamento e expandir a NATO.
A Ucrânia mantêm-se nesta guerra porque, dois meses depois de invadida pela Rússia, foi iludida pelos EUA e Reino Unido com a promessa de um “apoio total” se abandonasse as negociações que previam a sua neutralidade.

A União Europeia mantém e alimenta esta guerra já sem objectivos viáveis, face à sua crescente debilidade económica, por três razões: incapacidade de defender os seus interesses económicos e políticos, miopia a raiar a estupidez e a tradicional expectativa dos seus governantes que contam com o tacho que se segue (num banco, fundo, universidade norte-americana ou noutra organização ao serviço dos “valores ocidentais”).

 Miguel Szymanski

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Ó se faz favor, a democracia!


***
A atual Assembleia da República tem um problema de qualidade. E não estou sequer a falar de esquerda, direita, liberais, socialistas, conservadores ou das várias espécies que o nosso jardim parlamentar foi acumulando. Falo de uma coisa mais elementar e, por isso mesmo, talvez mais inquietante: há demasiados deputados que parecem pouco preparados para exercer as funções para que foram eleitos, que entram numa audição sem conseguirem construir uma inquirição decente, que confundem agressividade com eficácia e que, quando finalmente lhes chega a palavra, tratam a língua portuguesa como aquelas malas que regressam de uma qualquer low-cost, reconhecemos vagamente a forma, mas percebe-se que houve violência no percurso.
Não é preciso desejar o regresso de grandes tribunos, até porque a nostalgia costuma ser uma fraude praticada pela memória. O Parlamento português de outros tempos também teve imbecis, oportunistas e gente que só descobria o assunto em discussão quando alguém lho explicava ao almoço. Mas existia, pelo menos, uma certa vergonha de parecer impreparado. Agora, por vezes, a impreparação é exibida com a confiança de quem acabou de regressar de Harvard.
Há perguntas parlamentares que começam razoavelmente bem e, a meio caminho, parecem perder a noção do destino. O deputado acrescenta uma ideia, depois outra, abre um parêntesis que nunca chega a fechar, tropeça numa subordinada e, quando finalmente aterra no ponto de interrogação, já ninguém sabe ao certo o que estava a perguntar, às vezes, suspeito, nem ele. Fica então aquele breve silêncio em que o ministro tenta reconstruir a pergunta a partir dos destroços, o deputado consulta as notas na esperança de encontrar uma pista e a língua portuguesa, discretamente, pede para não ser envolvida no processo.
No Chega isto adquiriu uma dimensão quase estética. Não porque a falta de preparação seja monopólio do partido, seria injusto retirar aos restantes a sua quota histórica de incompetência — mas porque ali se juntou à pobreza argumentativa uma ideia de comportamento parlamentar que parece inspirada simultaneamente numa claque, numa reunião de condomínio e numa caixa de comentários do Facebook.
Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega (e convém repetir: líder parlamentar, não o primo de alguém que entrou em São Bento à procura da casa de banho) desenvolveu entretanto uma forma muito própria de chamar a atenção da Mesa. Estala os dedos. As célebres “castanholas”, como o próprio já lhes chamou, acompanhadas não raras vezes daquele “ó se faz favor…” que transporta imediatamente o hemiciclo para um tasco de bairro às duas da tarde. A diferença é que, no tasco, depois de estalar os dedos daquela maneira, seria razoável acrescentar: “Ó chefe, são três cafés: um cheio, um curto e outro com cheirinho.” Em São Bento pede-se a palavra. A mecânica, porém, é inquietantemente semelhante.
E talvez o mais extraordinário já nem seja o gesto, mas termos deixado de o achar extraordinário. Repetiu-se, foi tolerado, repetiu-se outra vez e acabou por adquirir aquela respeitabilidade que só o hábito consegue oferecer ao absurdo. A este ritmo, não me surpreenderia que numa próxima revisão do Regimento aparecesse formalmente consagrado o procedimento: artigo 74.º, n.º 3 : “O líder parlamentar poderá solicitar a palavra através de dois estalidos secos, devendo a Mesa responder preferencialmente antes do terceiro.” Ao terceiro estalido, presume-se deferimento.
E aqui convém não absolver José Pedro Aguiar-Branco apenas porque, de vez em quando, perde a paciência e lembra ao Chega que aquilo é a Assembleia da República. O Presidente tem uma função ingrata, reconheço; moderar o atual Parlamento deve ser parecido com supervisionar uma excursão escolar depois de alguém distribuir Red Bull aos miúdos. Mas também teve, ao longo do tempo, uma tolerância excessiva com esta permanente experimentação dos limites. A intenção talvez fosse sensata, não transformar o Chega em vítima, não alimentar o espetáculo, permitir que o Parlamento funcionasse , mas há um momento em que a tolerância deixa de domesticar o comportamento e começa simplesmente a ensiná-lo até onde pode ir. E eles foram aprendendo.
O “ó se faz favor”, as interrupções, os gritos, os comentários permanentes, as castanholas. Um centímetro hoje, outro amanhã. Nada suficientemente grave para provocar uma crise constitucional, tudo suficientemente pequeno para ser tolerado. As instituições também se degradam assim: não com um golpe de Estado às sete da manhã, mas através de pequenas cedências à hora do almoço. A moção de censura da semana passada foi talvez a fotografia perfeita do ponto a que chegámos.
O Chega apresentou uma moção que, goste-se ou não das suas razões, é um dos instrumentos mais sérios que a Constituição coloca à disposição de um partido parlamentar: pede-se, em última análise, a queda do Governo (bem neste caso, pedia-se a demissão do Luis, não o Montenegro, o outro, mas nem vou por aí). Seria razoável esperar que a solenidade do instrumento produzisse algum efeito sobre a solenidade do comportamento. Não produziu.
Depois de a moção ser chumbada, os sessenta deputados do Chega levantaram-se, bateram nas bancadas e começaram a gritar “demissão”. Não uma ou duas vezes, naquele excesso momentâneo que a política às vezes desculpa, mas repetidamente, em coro, com a disciplina rítmica de uma bancada atrás da baliza.
Faltou pouco. Um tambor, talvez. Dois cachecóis erguidos. Aquele gajo sem camisola que existe misteriosamente em todos os estádios europeus, mesmo quando estão quatro graus. Mas a parte verdadeiramente deliciosa ainda estava para chegar, porque PSD e CDS decidiram levantar-se também e responder com uma ovação ao Governo.
Durante alguns segundos tivemos uma síntese extraordinariamente eficiente da política portuguesa contemporânea: de um lado uma claque gritava, do outro uma claque aplaudia, e ao centro estava a Assembleia da República a desempenhar a função cada vez mais ingrata de fornecer o cenário (uma sessão de farmar aura na Assembleia, sem adolescentes mas com os nossos deputados).
O PSD podia ter feito uma coisa muito mais violenta: nada.
Ficar sentado, em silêncio, a observar sessenta adultos aos gritos teria transformado o espetáculo do Chega naquilo que ele realmente era. O ridículo precisa muitas vezes de adversário para parecer conflito; deixado sozinho, corre o risco terrível de parecer apenas ridículo.
Mas ninguém hoje quer perder a oportunidade de produzir a sua própria imagem. O Chega precisava do vídeo da revolta; o PSD precisava do vídeo da união em torno do Governo. Uns saíram com “DEMISSÃO”, os outros com a ovação, as equipas de comunicação tiveram matéria para as redes e todos puderam regressar a casa convencidos de que tinham ganho alguma coisa.
Talvez tenham. Tenho dúvidas de que tenha sido o Parlamento.
Aguiar-Branco acabou por dizer que aquela cena “não dignifica o Parlamento”, o que é verdade, embora exista alguma melancolia no facto de o Presidente da Assembleia ter de explicar aos deputados que não devem transformar a Assembleia numa claque. É como encontrar num hotel um aviso a dizer que é proibido cozinhar peixe no secador de cabelo: a regra é obviamente sensata, mas passamos imediatamente a querer saber o que aconteceu ali antes da nossa chegada.
O problema é que tudo isto encaixa demasiado bem no tempo em que vivemos. O Parlamento já não fala apenas para o Parlamento. Fala para o excerto, para o reel, para os vinte segundos que circulam no telemóvel entre um anúncio de colchões e um cão vestido de astronauta. E nesse ambiente o argumento parte em desvantagem, porque necessita de contexto, de tempo e daquela velha excentricidade chamada atenção.
O grito é muito mais económico. Orwell escreveu que a degradação da linguagem e a degradação do pensamento acabam por alimentar-se uma à outra. Não sei o que escreveria depois de assistir a algumas audições parlamentares portuguesas, mas desconfio que pediria uma segunda edição.
É também por isso que me incomoda esta ideia crescente de que exigir preparação, educação ou clareza aos deputados é uma espécie de elitismo. Como se representar o povo significasse obrigatoriamente reproduzir os seus piores comportamentos. Eu faço parte do povo e não quero que o piloto do avião represente a minha competência aeronáutica. Quero, muito sinceramente, que esteja bastante acima dela.
Se o comandante aparecer antes da descolagem e disser que nunca foi muito de manuais, que aprende sobretudo fazendo e que não é desses especialistas, eu não sinto uma emocionante proximidade com as elites populares. Procuro a saída de emergência.
A chungaria de que falo não tem, portanto, nada a ver com classe, sotaque ou roupa. Há chungalhada com sapatos de mil euros e gente de fato-macaco com uma educação irrepreensível. Chungaria é a desistência voluntária da exigência; é perceber que estudar dá trabalho e descobrir que levantar a voz produz resultados semelhantes; é trocar preparação por performance e depois chamar autenticidade ao negócio. E é isso que talvez estejamos a normalizar.
Não creio que tenhamos batido no fundo. O fundo é uma ideia demasiado otimista, porque pressupõe que existe um último piso. A experiência portuguesa — e, convenhamos, a experiência humana em geral — recomenda prudência: sempre que pensamos ter chegado à cave, alguém aparece com uma chave e informa-nos de que ainda há estacionamento. O problema não será sequer continuarmos a descer. Será deixarmos de sentir que estamos a descer.
Quando as castanholas do líder parlamentar, os “ó se faz favor”, as perguntas que chegam ao fim sem saber de onde vieram, os deputados aos gritos, os deputados aos aplausos e a Assembleia transformada numa espécie de bancada com Regimento já não nos provocarem estranheza, talvez não tenhamos finalmente chegado ao fundo.
Teremos feito uma coisa muito mais portuguesa. Teremos arranjado maneira de pôr lá uma esplanada.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

A volta completa; O CASO IRENEU:

Eu lembro-me como começou a moda das fake news nas redes sociais. Com um tom de humor, de engraçadismo, tipo "imprensa falsa" ou, mal comparado, o "Inimigo Público". Se não aconteceu podia ter acontecido, ah ah ah. Ah. E a moda do ‘jornalista-cidadão’: olhe aqui este site tão bonito, escreva o que quiser, seja o verdadeiro ‘jornalista independente’! Rapidamente se percebeu o perigo que se agigantava. Não faltou muito até que essas notícias falsas, ou manipuladoras, com agenda, sempre imitando o melhor possível o layout das verdadeiras notícias feitas por jornalistas profissionais, se espalhassem, provocassem debate e comentários entendidas por muita gente como verdadeiras, chegassem a marcar agendas e perceções. Criaram-se sites especializados no assunto. Os Bannons/Trumps desta vida viram o grande potencial desses conteúdos nesta poderosa ferramenta das redes.
Esse ambiente tóxico e pútrido (bem resumido na palavra sempre usada pelos que passaram a confiar mais nesses conteúdos do que no jornalismo: Jornalixo!) fez o seu caminho, como sabemos, e... chegou aos media tradicionais, os tais que têm jornalistas profissionais, com regras, com um estatuto e um código deontológico a defender.
Ireneu Teixeira é um excelente exemplo desse fenómeno. De repente ali estava ele, diariamente, quase uma hora, sem contraditório. "Recebi este vídeo no wattsapp...", dizia. "Não tive tempo de confirmar se era verdadeiro...", desculpava-se, depois, quando era confrontado com as mentiras e falsidades que espalhava no seu "comentário".
-"Está aqui este vídeo do que se está a passar agora em Ceuta!", gritava, alarmista. O vídeo era de Toulouse, há uns anos.
-"Esta mulher, esta cantora, foi enforcada no Irão!". Afinal, a cantora estava viva.
-"Judeu que entre no Irão é um homem morto!" (esta ouvi eu). Esquece-se que há no Irão muito antigas comunidades judaicas, e nesta estúpida guerra até foi destruída uma sinagoga num ataque israelo-americano.
-"No Mercadona os imigrantes andam a comprar ingredientes para fazerem bombas!". Disparate logo desmentido.
-"Este vídeo é sobre a Rússia de Putin". Era de 2014, sobre o Estado Islâmico...
-"Os Filipes que estiveram cá até serem corridos pela Padeira...". Mas qual padeira? A de Aljubarrota, em 1640?! Sem comentários.
-"O jornalismo está dominado pela extrema esquerda!"
E mais, mais, mais...
É um subproduto, com praticamente nada de jornalístico, a chegar a um canal noticioso - há uns anos não aconteceria, pelo menos com esta extensão. Diariamente. Sem contraditório. O canal Now até devia ainda explicar porque é que isso aconteceu, porque é óbvio que aquele homem, que deve ter jeito para algumas coisas, não tem as mínimas competências para analista político internacional, e até se atrapalha a dizer "multiculturalismo" e outras palavras com mais de três sílabas.
Acredito que porque tudo isto já estava a ser uma vergonha gritante para o Now, o canal resolveu terminar com essa presença diária (mas manteve um comentário de Ireneu aos domingos...).
E o que aconteceu? Aquelas tais redes que se alimentam de fakes, conspirações, manipulações, semiverdades e preconceitos (muitas delas com nomes a querer fingir credibilidade, tipo "Diário Expresso" e coisas assim) vieram, em uníssono, numa campanha orquestrada, e com muitos bots nos comentários, clamar pela grave censura do afastamento de Ireneu, o único jornalista que "dizia as verdades!", o "melhor de todos", aquele que, claro, incomodava "o sistema" e teve que ser calado! O Now passou a ser um canal esquerdalho que todos deviam cancelar!

Assim estamos. A coisa deu a volta completa, passando pelo ponto de partida. Temo pelo dia, que até me parece possível (vejam-se as eleições que fizeram Trump voltar à Casa Branca...), em que a maioria das pessoas vai preferir (à esquerda e à direita), ou vai só receber, graças ao todo-poderoso algoritmo, as fontes de informação cheias de falsidades que lhes alimentam uma visão do mundo e os seus preconceitos e vai desconfiar do jornalismo profissional - que aí anda, ainda, em jornais, documentários, rádio, online, com grande qualidade e com regras - tipo... não mentir deliberadamente.

Pedro Dias de Almeida 

SEBASTIÃO BUGALHO QUER LIMITES. VAMOS ENTÃO FALAR DE LIMITES:

E antes de começar, deixem-se de obsessões partidárias e de impulsos para comentar sem antes pensar. Veio hoje Sebastião Bugalho, porta-voz do PSD, dizer que o líder parlamentar do PS extravasou os limites ao classificar o ministro da Educação como candidato a pior ministro desde o 25 de Abril. Ficou estarrecido, diz ele. Estarrecido. Bonita palavra
😁
. Tem de haver limites, diz ele.
Vamos lá então falar de limites, mas dos que interessam.
Estamos em setembro de 2026, o ano letivo a arrancar, e há centenas de alunos sem colocação no ensino público. No ensino obrigatório. Obrigatório significa que o Estado é obrigado a garanti-lo. Não é um favor nem uma opção. É uma obrigação constitucional.
Já há pais a avançar com um processo contra o Ministério da Educação porque os filhos não têm escola. E a resposta do ministro foi a do costume, de não assumir nada e mandar investigar as escolas, os diretores e os professores... e talvez as próprias crianças e jovens. Sempre os outros. Nunca ele. E isto a seguir à barafunda dos exames, que ninguém esqueceu.
Este é que é o limite que foi extravasado. E não foi por ninguém do PS.
E agora reparem no que o "aprendiz da vida" Bugalho disse, sem dar por isso. Que espera que o PS peça desculpa ao ministro quando todos os alunos tiverem escola. Ou seja, admitiu ele próprio que hoje não têm. No meio da indignação toda, deu razão a quem estava a criticar.
E deixou-se aqui uma coisa extraordinária no ar, é que deixou de ser escândalo que centenas de crianças não tenham escola. O escândalo passou a ser dizê-lo em voz alta. Extraordinário.
Quanto ao pedido de desculpa, sejamos claros. Colocar todos os alunos não é proeza nenhuma. É o mínimo. É o que sempre aconteceu neste país, ano após ano, com governos de todas as cores. Houve sempre um caso ou outro, como é natural num sistema com mais de um milhão de alunos. O que nunca aconteceu foi isto. Não há desculpa a pedir a ninguém. Há uma obrigação a cumprir. E obrigações não se aplaudem, cumprem-se.
A pergunta que interessa é quando. Porque cada semana que passa é uma semana de aulas que uma criança perde e nunca mais recupera.
E aqui está a diferença entre quem conhece a vida e quem a comenta. O "aprendiz da vida" Bugalho fala de números. Eu falo de pessoas, porque são elas que me aparecem à frente.
Conheço um rapaz, aqui da minha zona, que saiu de um colégio e ia agora entrar para o décimo ano. Está prestes a começar o ano letivo e não tem escola atribuída. Não tem. Não é um dado estatístico, não é um processo, não é uma linha num relatório. É um miúdo de quinze anos que não sabe para onde vai na segunda-feira.
E não é só ele. São mães e pais que me param na rua, que me batem à porta da Junta, que me telefonam. Gente real, com nome, com cara, com um filho em casa sem saber o que lhe vai acontecer.
É esta a diferença. Uns conhecem o país por relatórios e por estúdios de televisão. Outros conhecem-no porque estão lá, todos os dias, a ouvir aquelas famílias.
E é por isso que a última nota tem de ser sobre quem veio hoje dar-nos lições.
Estamos a falar de um aprendiz de política e da vida, claro. De um menino que ainda mal viu a vida acontecer, que nunca geriu nada, nunca respondeu perante ninguém, nunca teve à sua frente uma mãe a perguntar-lhe onde é que o filho vai estudar. E que ainda assim se sente autorizado a distribuir lições a quem anda nisto há décadas. E mesmo que não ande, que tem o mais importante, a vivência, a relação de comunidade e de proximidade às pessoas.
Um "aprendiz" que construiu nome a comentar política do conforto de um estúdio, a apontar o dedo a toda a gente e a jurar que era isento. Isento, dizia ele. E depois, sem lhe terem sequer dado tempo de acabar de tirar as fraldas da vida de comentador, já lá estava agarrado a uma candidatura e a assinar a ficha de militante do partido que hoje representa.
Da isenção à cor do cachecol foi um pulo. E não foi um pulo de atleta. Foi um pulo de quem já sabia onde ia cair. Mas atenção, ser de um partido não tem mal nenhum, muito pelo contrário. Ao contrário da ideia que se instalou na sociedade, pertencer a um partido é um ato de disponibilidade para com o próximo, e das missões mais nobres que existem. Mal tem é andar a comentar política a jurar isenção e, no minuto seguinte, aparecer com a ficha de militante assinada. E mesmo com a ficha de militante assinada, conseguimos ser isentos e pensar pela própria cabeça e não pela cabeça do partido.
Meu caro Bugalho, limites são o que se respeita quando ninguém está a ver. Não é o que se invoca à pressa quando é o nosso lado que está a levar.
Eu não fico estarrecido com palavras. Fico estarrecido com um rapaz de quinze anos que não sabe para que escola vai na segunda-feira. E este é apenas um exemplo entre muitos que lhe podia dar. Mas o meu caro Bugalho não conhece nenhum, e não conhece porque não anda na rua, não atende ninguém, e a vida real só lhe chega depois de passar por um estúdio.
Isso é que devia estarrecer toda a gente. E devia estarrecer, sobretudo, quem tem o poder de o resolver.
Pensem pela vossa própria cabeça. Sempre.

Ricardo Lima 

A Guerra Invisível: O Impacto Económico das Sanções e a Competitividade Europeia:

Desde o início da guerra na Ucrânia, o debate público tem-se concentrado sobretudo nas suas dimensões militares, diplomáticas e humanitárias. No entanto, há quem defenda que existe uma outra guerra em curso: uma guerra económica cuja principal vítima poderá ser a própria Europa.
Antes de 2022, a União Europeia dependia significativamente das importações russas para satisfazer as suas necessidades energéticas e industriais. Entre os produtos mais relevantes encontravam-se o carvão, o gás natural, o petróleo, os fertilizantes, o níquel, o paládio, a alumina e vários metais fundamentais para a produção industrial. Em alguns casos, a Rússia fornecia cerca de metade das necessidades europeias destes recursos.
Com a implementação das sanções económicas e a redução das relações comerciais diretas entre a Europa e a Rússia, o objetivo era diminuir a dependência europeia e pressionar economicamente Moscovo. Contudo, segundo os críticos desta estratégia, o resultado prático foi diferente do esperado.
O papel dos intermediários
Um dos argumentos frequentemente apresentados é que muitos dos recursos que anteriormente eram comprados diretamente à Rússia continuam a chegar ao mercado europeu através de países terceiros. China, Índia, Arábia Saudita e outros mercados assumiram o papel de intermediários, adquirindo matérias-primas russas para posteriormente as revenderem à Europa.
Neste cenário, a Europa continua a consumir grande parte dos mesmos produtos, mas a preços substancialmente mais elevados. O exemplo do Gás Natural Liquefeito (GNL) é frequentemente citado: antes das sanções, os preços situavam-se entre 15 e 20 euros por megawatt-hora, enquanto atualmente os custos podem ser várias vezes superiores.
Os defensores desta análise argumentam que esta nova cadeia de abastecimento beneficia simultaneamente a Rússia, que encontra novos compradores, e os intermediários, que obtêm margens significativas na revenda. O custo acrescido recai, em última análise, sobre consumidores e empresas europeias.
Consequências para a indústria europeia
O aumento dos custos energéticos e das matérias-primas tem tido repercussões na competitividade industrial da Europa. Sectores intensivos em energia, como a produção de alumínio, aço, fertilizantes e químicos, enfrentam desafios particularmente difíceis.
Quando a energia elétrica e as matérias-primas se tornam mais caras do que noutras regiões do mundo, a produção industrial europeia perde competitividade. Algumas empresas reduzem a produção, outras transferem operações para países com custos mais baixos, enquanto outras encerram definitivamente.
Esta realidade é frequentemente apontada como uma das razões para o enfraquecimento relativo da capacidade industrial europeia nos últimos anos.
A ascensão dos concorrentes globais
Paralelamente, economias como a China beneficiam de custos energéticos mais reduzidos e de acesso privilegiado a matérias-primas provenientes da Rússia. Esta combinação permite às empresas chinesas produzir a preços mais competitivos e conquistar mercados internacionais onde tradicionalmente a Europa tinha uma posição forte.
Segundo esta perspetiva, a questão deixa de ser apenas a guerra na Ucrânia. O verdadeiro desafio passa a ser a disputa pela competitividade económica global, pela capacidade de produção industrial e pelo controlo das cadeias de abastecimento estratégicas.
Quem suporta os custos?
Os críticos da atual política europeia argumentam que os cidadãos da União Europeia estão a suportar uma dupla fatura. Por um lado, financiam o apoio económico e militar à Ucrânia. Por outro, continuam a adquirir recursos cuja origem remonta, direta ou indiretamente, à Rússia, contribuindo para a manutenção das receitas da economia russa.
Independentemente da validade desta interpretação, o debate levanta questões relevantes sobre a eficácia das sanções económicas, a autonomia estratégica europeia e a necessidade de reforçar a produção interna de energia e matérias-primas.
Conclusão
A guerra na Ucrânia continua a ser um dos acontecimentos mais marcantes do século XXI. No entanto, para muitos observadores, existe uma dimensão menos visível mas igualmente decisiva: a batalha pela competitividade económica global.

Nesta leitura, a questão central não é apenas quem vence ou perde no campo de batalha, mas também quem controla as fontes de energia, as matérias-primas e a capacidade industrial necessária para sustentar o crescimento económico no longo prazo. A verdadeira guerra, defendem alguns analistas, poderá estar a ser travada nos mercados, nas fábricas e nas cadeias de abastecimento internacionais, com consequências que se farão sentir muito para além do conflito militar.

Major General Raul Luis Cunha  

Dirigentes europeus: Internem-nos no manicómio e com camisa de forças:

(Rui Loureiro, in mural de Maria Manuela, Facebook, 13/09/2026, Revisão da Estátua) 


(Este texto, como se diz no boxe. deixou-me encostado às cordas. Que pagava-mos a guerra à Ucrânia há muito que é sabido. Agora, que também a pagamos â Rússia, é o cúmulo da demência dos líderes europeus. Pagamos para a destruição da Ucrânia, da Rússia e de todos os outros países europeus que estão em afundamento acelerado e irreversível.

E riem-se as três bestas das malfeitorias, quais inimputáveis perigosos à solta. Urge interná.los sob pena de não sobrevivermos a tanta iniquidade.

Estátua de Sal. 13/09/2026)


Meus amigos, estamos em guerra mas a guerra é outra.

Aqui está uma lista das importações da Europa, provenientes da Rússia, assim como a percentagem que a Rússia fornecia do todo das necessidades europeias:

Carvão: 46%

Gás Natural (via gasoduto): 45%

Níquel bruto: 41%

Alumina (Óxido de Alumínio): 35%

Paládio e Platina: 30%

Diamantes: 25%

Cobre refinado: 23%

Gás Natural Liquefeito (GNL): 21%

Urânio Enriquecido / Combustível Nuclear: 20%

Gases Nobres (Néon, Cripton e Xénon): 20%

Petróleo (cru e refinados): 27%

Fertilizantes: 28%

Alumínio bruto: 16%

Óleos de Petróleo Pesados (VGO): 15%

Ferro e Aço: 14%

Trigo: 11%

Por exemplo, o Gás Natural Liquefeito (GNL), com o qual a Rússia cobria 21% das necessidades europeias, era vendido antes das sanções a um preço entre 15 €/MWh e 20 €/MWh.

Agora compramos o gás russo através de intermediários a 75 €/MWh, ou seja, entre 4 a 5 vezes mais caro.

A maioria destes produtos, os europeus continuam a compra-los através de intermediários, 3, 4 ou 5 vezes mais caros, intermediários que os compram aos russos para os revender à Europa.

Por exemplo, titânio bruto e ligas: 45% das necessidades europeias. A Europa não tem onde os ir buscar a não ser aos russos.

Por exemplo, alumina (óxido de alumínio): 35%. Já está tão cara que grande parte das fábricas de fundição de alumínio na Europa já fecharam. O aço ficou tão caro que a última fábrica de fundição de aço do Reino Unido já fechou.

Antes de 2022, a Europa importava da Rússia 158 mil milhões de euros em matérias-primas. Essas mesmas matérias-primas, que a Europa importava diretamente da Rússia por 158 mil milhões de euros, agora a Europa importa-as de terceiros, que as compram à Rússia por 300 mil milhões e as vendem à Europa por 380 a 410 mil milhões.

Vamos ver se explico melhor: A Rússia vendia essas exportações diretamente à Europa por 158 mil milhões de euros. Agora a Rússia vende as mesmas matérias-primas à China, à Índia, à Arábia Saudita e a outros por 300 mil milhões, e estes vendem-nas à Europa por 380 a 410 mil milhões.

Assim, a Rússia está a ter um acréscimo de 150 mil milhões de euros de lucro, em relação ao que tinha antes, e os intermediários também estão a ganhar com a burrice dos europeus.

E isto significa que a Ucrânia recebe da Europa, em média, 90 mil milhões de euros por ano para a guerra, e a Rússia recebe da Europa 300 mil milhões de euros, mais 150 mil milhões do que antes, para gastar na guerra contra a Ucrânia.

A Europa, ou seja, NÓS, está a pagar as despesas da guerra à Ucrânia e está a pagar as despesas da guerra à Rússia!! Toda a guerra na Ucrânia está a ser paga pela Europa.

E enquanto nós aqui estamos a passar dificuldades, a pagar o gasóleo a 2,2 euros o litro, os russos pagam o gasóleo a 0,83 euros o litro e andam aos milhões a fazer férias na China.

A China já abriu vários aeroportos regionais a linhas aéreas russas. Nos aeroportos, estações de comboio e locais turísticos, os avisos e placares já são todos em chinês e em russo.

E todos os dias a China ganha mercados com as suas exportações, que eram mercados onde a Europa vendia, mas já não vende porque a produção europeia é cara demais.

Agora, na China, não só a eletricidade é, em média, 4 vezes mais barata do que na Europa, como as matérias-primas passam pela China antes de chegarem até nós, muito mais caras do que eram antes.

Portanto, para além da guerra da Ucrânia, que nós pagamos aos ucranianos e aos russos, estamos diariamente a perder exportações para a China, porque com matérias-primas 3 vezes mais caras e energia elétrica 4 vezes mais cara, não temos preços para concorrer com os chineses.

A guerra, portanto, é outra e essa outra, nós estamos a perdê-la.

Do blogue Estátua de Sal