Coisas que Podem Acontecer:
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
segunda-feira, 22 de junho de 2026
Ventos Semeados: A Inveja com Toga
Quando o cheque é grande não é fraude, é “inovação”:
(In RiseUp Portugal, in Facebook, 21/06/2026, Revisão da Estátua)

A Unbabel recebeu 13,3 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e acabou insolvente. Se a história terminasse aqui já seria suficientemente interessante. Mas Portugal raramente desperdiça uma boa oportunidade para tornar uma história absurda ainda mais absurda.
Não estamos a falar de uma empresa qualquer. A Unbabel foi apresentada como uma das grandes promessas da economia portuguesa. Carlos Moedas elogiou-a repetidamente e a empresa tornou-se uma das parceiras fundadoras da Unicorn Factory Lisboa, o projeto criado para transformar Lisboa num centro europeu de inovação, produzir as futuras estrelas do empreendedorismo nacional e atrair as chamadas empresas unicórnio, startups avaliadas em mais de mil milhões de dólares.
A ideia era simples: pegar em dinheiro público, misturá-lo com palavras como “inovação”, “disrupção”, “ecossistema”, “inteligência artificial” e “empreendedorismo” e esperar que aparecessem unicórnios. No caso da Unbabel apareceu uma insolvência.
Ao todo, estava previsto receber um financiamento de 14,8 milhões de euros, sendo que recebeu 89,6% deste, ou seja, 13,3 milhões da bazuca europeia. A confiança era tanta que chegou a liderar um consórcio de Inteligência Artificial financiado pelo PRR com 75 milhões de euros. O curioso é que nada disto aconteceu apesar do risco. Aconteceu sabendo-se perfeitamente que o risco existia. As estatísticas sobre startups são conhecidas há décadas. Os dados do Eurostat mostram que cerca de metade desaparece nos primeiros cinco anos de vida. Estudos da Harvard Business School apontam para taxas de insucesso ainda maiores quando se analisa o retorno esperado pelos investidores. Os investidores sabem disso. Os gestores sabem disso. Os governos também.
Diziam que tudo corria maravilhosamente bem até deixar de correr.
Em Agosto de 2025, a empresa foi vendida à norte-americana TransPerfect. Na altura falou-se de crescimento, expansão e aumento de escala. Vasco Pedro, cofundador e CEO da Unbabel, garantiu que a operação permitiria aumentar significativamente a dimensão da empresa. Um mês depois começaram a surgir notícias bastante menos optimistas. Segundo várias informações divulgadas na altura, a venda foi realizada por um valor suficientemente baixo para provocar perdas totais em alguns investidores. Aquilo que tinha sido apresentado como um passo natural na evolução da empresa começou rapidamente a parecer uma operação de recurso.
Em Dezembro de 2025, um dos investidores, o fundo espanhol Buenavista Equity Partners, avançou para tribunal com uma ação de 12,75 milhões de euros relacionada com a venda. Em Março deste ano, o IAPMEI começou a analisar os projectos financiados pelo PRR para verificar se os compromissos assumidos tinham sido cumpridos. Pouco depois chegou a sentença de declaração de insolvência.
Sem atividade relevante. Sem ativos. Sem dinheiro.
Treze milhões e trezentos mil euros depois.
O mais interessante é que esta história surge exatamente na mesma altura em que o país continua obcecado com prestações sociais de algumas centenas de euros. Discutem-se alegadas fraudes, exigem-se fiscalizações, inventam-se novos mecanismos de controlo e repete-se diariamente a necessidade de proteger o dinheiro dos contribuintes.
Mas quando uma empresa recebe 13,3 milhões de euros dos contribuintes, é promovida durante anos como um exemplo de sucesso, acaba vendida por um valor que deixa investidores a arder, gera processos judiciais, motiva investigações e termina insolvente, a indignação desaparece com uma rapidez impressionante. Quando corre bem, os ganhos ficam no sector privado. Quando corre mal, a factura fica espalhada por milhões de contribuintes que nunca tiveram direito a participar nos lucros, apenas no risco.
Pelos vistos, a subsidiodependência só é um problema quando o subsídio é pequeno. Quando o cheque tem oito algarismos chama-se visão estratégica. Quando corre mal chama-se empreendedorismo. E quando desaparece o dinheiro dos contribuintes chama-se inovação.
Do blogue Estátua de Sal
O JULGADO NA PRAÇA PÚBLICA:
Sempre disse e digo, confio na JUSTIÇA
domingo, 21 de junho de 2026
A obliteração de Thomas Massie:
Thomas Massie já era uma estrela do partido republicano quando Trump ainda comprava e votava em candidatos democratas.
Fervoroso opositor do intervencionismo militar, adepto do controle da despesa e de um governo limitado nos seus poderes, Massie foi e é o enfant terrible do Partido Republicano, mas não era um problema para Donald Trump.
Sobretudo se Trump tivesse cumprido o que prometeu.
Mas Trump não só não cumpriu, como, em muitos casos, fez o exacto aposto daquilo que prometeu em campanha.
O caldo começou a entornar-se quando Massie decidiu exigir toda a verdade sobre os ficheiros Epstein. E agravou-se com a oposição à Guerra do Irão e com a denuncia de um alegado “takeover” da administração Trump e do Tesouro Americano por parte do Estado de Israel, representado nos EUA pela poderosa e opaca AIPAC. Thomas Massie cumpriu a sua promessa eleitoral. Donald Trump, que fez campanha a prometer revelar os ficheiros, acabar com as forever wars e meter todas as fichas no America First, não.
E como Massie parece ainda conservar a totalidade da espinha dorsal, ao contrário dos membros da seita trumpista, cá e lá, não cedeu às pressões para deixar cair estas bandeiras. E foi atropelado pelo fundamentalismo MAGA e pelos milhões dos oligarcas sionistas, nas primárias do Kentucky. Foi a primária mais cara de sempre na história dos EUA. Entre 25 e 30 milhões de dólares.
Mas a grande lição aqui é outra. Num regime protofascista, como aquele que Trump está a construir, as eleições são de quem as pode comprar. Massie foi eleito para o Congresso 7 vezes. Venceu todas as primárias no seu círculo por margens a rondar os dois terços. Era um republicano popular e estimado pelo antigo partido republicano. Um político que nem o dinheiro das PACs conseguia comprar. O seu adversário não se deu ao trabalho de aparecer a um debate ou de falar sobre as propostas que não tinha. A sua proposta de valor era ser um fantoche de Trump. E derrotou Massie por larga margem com o seu arsenal de milhões.
Porque é que Trump decidiu usar tantos recursos para travar o autor da Epstein Files Transparency Act?
Porque um autocrata quer-se rodeado de lambe-botas obedientes. Só assim se explica que um palerma como Pete Hegseth chegue a liderança do Pentágono. E quem se mete com Trump, não leva: é obliterado. Além disso, Trump já deixou bem claro que quer abafar o caso Epstein. Porque está inocente, claro. Ele e os seus amigos.
Também interessante de notar é o silêncio absoluto de tantos que, ainda há pouco tempo, elogiavam com vigor as qualidades de Thomas Massie. Lá e cá. Massie foi alvo de uma campanha suja e acabou derrotado por um sabujo contratado por Trump. Nem um pio. Nem um artigo, nem um podcast, nem um vídeo do Tonecas da IL no Tiktok. Nada.
Rigorosamente nada.
21/06/2026 by João Mendes
Do blogue Aventar
Dominguice:
Esta história Supremo espanhol obriga Estado a indemnizar em 2,5 milhões um inocente preso durante 15 anos revela o pior e o melhor da civilização onde queremos viver. É cruel, desumana, horrorosa, absurda, trágica. E nela há coragem, dignidade, esperança.
Mas não sabemos se há justiça. Como sempre e para sempre.
21 Junho 2026 às 9:06 por Valupi
Do blogue Aspirina B
O puxão de orelhas a Costa e os dois líderes sem tropas que querem controlar a guerra:
(BPartisans, In Fórum da Escolha, in Facebook, 21/06/2026, Revisão da Estátua)

Isso exigiu muita coragem. Quando a União Europeia começa a considerar se valeria a pena dialogar com Moscovo após mais de quatro anos de guerra, Emmanuel Macron e Friedrich Merz decidiram que a diplomacia ainda é demasiado perigosa para ser permitida.
Segundo o Politico, os dois líderes criticaram duramente o presidente do Conselho Europeu, António Costa, por ter restabelecido contactos informais com o Kremlin. Numa cimeira em Bruxelas, a discussão foi tão delicada que os telemóveis foram proibidos na sala. Claramente, na Europa, falar com Vladimir Putin tornou-se mais subversivo do que falar com um traficante de cocaína.
A parte mais irónica desta história é que os dois homens que afirmam personificar a determinação europeia estão também entre os líderes politicamente mais vulneráveis dos seus próprios países. Macron governa uma França fragmentada, onde a sua maioria praticamente já não existe. Merz, por sua vez, está a descobrir que ser chanceler é mais complicado do que fazer declarações belicosas diante das câmaras. No entanto, aqui estão eles, a dizer a todo o continente como conduzir uma guerra que não estão a travar e como negociar uma paz que se recusam sequer a considerar.
O problema é simples: um número crescente de líderes europeus acredita que, a dada altura, alguém terá de falar com os russos. Até o Conselho Europeu começou a reabrir canais de comunicação com Moscovo, deixando claro que ainda não se trata de negociações formais.
Mas para a dupla Macron-Merz, a lógica parece ser a seguinte: negociar agora seria um sinal de fraqueza; negociar depois seria uma vitória; e nunca negociar seria provavelmente um sucesso histórico.
O primeiro-ministro belga, Bart De Wever, colocou a questão com um pragmatismo desarmante: se Putin demonstrar vontade de negociar, teremos de decidir quem falará em nome da Europa. Esta é uma linha de pensamento quase revolucionária numa União onde alguns parecem acreditar que uma guerra termina com um comunicado de imprensa e algumas sanções adicionais.
Entretanto, os contribuintes europeus financiam o esforço de guerra, os arsenais estão a esgotar-se, os orçamentos militares disparam e a indústria luta para acompanhar o ritmo. Mas isso não interessa: o principal é manter a ilusão de que a diplomacia é o verdadeiro perigo.
A história poderá muito bem recordar esta estranha era em que os líderes menos populares da Europa se convenceram de que a sua missão era impedir que outros se manifestassem. Não porque tivessem um plano para ganhar a guerra, mas porque claramente não tinham um plano para a terminar.
Ao recusarem-se a qualquer diálogo, Macron e Merz assemelham-se àqueles generais de gabinete que estão sempre a mudar bandeiras de lugar num mapa enquanto os soldados já perceberam que uma guerra acaba sempre à mesa das negociações. O problema é que, enquanto estes estrategas improvisados fingem ser os Churchills do século XXI, são os europeus que estão a pagar a conta.
Do blogue Estátua de Sal
A erosão da democracia não é:
Infelizmente, uma invenção de extremistas de direita (ou de esquerda, esses sem megafones pagos e muito menos ouvidos porque não estão ao serviço dos novos plutocratas). Os extremistas de direita - que agora começam onde antes estava o centro - estão interessados no colapso das velhas democracias para imporem as suas agendas. Têm, para isso, o apoio dos financiadores dos novos totalitarismos tecnológicos com sede em Silicon Valley e sucursais várias. Washington, Moscovo e Beijing têm um objectivo comum: enfraquecer as democracias da UE e provocar o seu colapso político. Esse é um objectivo que une também as três maiores potências militares, económicas e políticas - e estão a sair-se bem.