Rádio Freamunde

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quarta-feira, 17 de junho de 2026

O ABUSO, A CORRUPÇÃO E O DIREITO A SER DEMITIDO:

A notícia publicada pelo jornal *Página Um* trouxe para o espaço público uma situação que merece uma reflexão séria sobre a ética no exercício de funções públicas. Segundo a investigação jornalística, o vice-presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social utilizou uma viatura e um motorista pagos pela própria ERC para se deslocar a atividades de docência exercidas em três universidades portuguesas.
Porque estamos perante um alto dirigente de uma entidade reguladora independente, o caso não pode ser tratado como uma mera curiosidade administrativa ou uma simples questão de gestão de agenda. Há palavras que se podem usar. Uma delas é "corrupção". Outra é "abuso". E uma terceira, talvez ainda mais perturbadora para certas elites instaladas, é "demissão".
Em Portugal, habituámo-nos a tratar muitos comportamentos potencialmente indevidos com uma estranha complacência linguística. O que noutros países seria imediatamente objeto de escrutínio rigoroso transforma-se frequentemente numa "situação a esclarecer", numa "falha procedimental" ou numa "questão administrativa". As palavras suavizam os atos, os atos perdem gravidade e a responsabilidade dissolve-se lentamente numa burocracia de justificações. Mas as palavras importam.
A docência universitária é uma atividade intelectualmente meritória e socialmente útil. Muitos titulares de cargos públicos exercem-na legitimamente e a própria lei admite, em diversas circunstâncias, a acumulação de funções académicas com funções públicas. O problema nunca foi ensinar. O problema é quem paga a deslocação para alguém ir ensinar. E o que se aprende com quem comete abusos? Aprende-se a abusar? E esta situação é única ou soma-se por dezenas de individualidades?
Uma viatura oficial não constitui um complemento remuneratório. Um motorista não é um privilégio inerente ao estatuto social de quem ocupa um cargo de direção. Ambos existem para servir exclusivamente o exercício de funções públicas relacionadas com a missão da instituição que os suporta financeiramente.
Se os recursos públicos forem utilizados para apoiar atividades externas de natureza privada, estamos perante algo que ultrapassa uma simples irregularidade burocrática. Estamos perante a possibilidade de utilização indevida de meios que pertencem à comunidade para benefício de uma atividade individual. E é precisamente aqui que começa o abuso.
O abuso nasce no momento em que alguém investido de autoridade pública deixa de distinguir claramente entre aquilo que é seu e aquilo que pertence ao Estado. E o Estado, importa recordá-lo, não é uma abstração distante nem uma entidade sem rosto. O Estado são os cidadãos que pagam impostos, financiam as instituições e confiam que os recursos públicos serão utilizados exclusivamente em benefício do interesse coletivo.
Cada litro de combustível, cada quilómetro percorrido e cada hora de trabalho de um motorista pago pelo erário público representam o esforço fiscal de milhões de portugueses. É por isso que casos desta natureza provocam indignação. Não pelo valor económico em si mesmo mas pelo princípio que está em causa.
As democracias não são corroídas apenas pelos grandes escândalos financeiros ou pelos casos clássicos de corrupção criminal. São igualmente enfraquecidas pela banalização dos pequenos privilégios, pelas exceções permanentes e pela ideia insidiosa de que certas pessoas, por ocuparem determinados cargos, podem viver num espaço de permissões informais vedado aos restantes cidadãos. É aqui que a palavra "corrupção" deve ser entendida na sua dimensão mais profunda. E são estes casos que fazem crescer o populismo, que "agarra" estas situações para falsamente "expor" a necessidade de "ordem".
Corrupção não é apenas o suborno, o favorecimento económico direto ou a entrega ilícita de dinheiro. Existe igualmente uma corrupção ética e institucional que se manifesta sempre que os recursos coletivos são progressivamente transformados em instrumentos de conveniência pessoal. É a corrupção da fronteira entre o serviço público e o interesse privado. E quando essa suspeita recai sobre um dos responsáveis de uma entidade reguladora independente, a gravidade institucional é ainda maior e faz ainda pensar: afinal, o que "regula" alguém que não sabe regular os seus direitos?
A ERC não é um organismo administrativo qualquer. A sua autoridade assenta precisamente na credibilidade, na independência, no rigor e na confiança que os cidadãos depositam na sua atuação. Um regulador existe para exigir cumprimento de regras, para fiscalizar comportamentos e para afirmar padrões de exigência institucional. Por essa razão, os seus dirigentes estão obrigados a um nível de escrutínio superior ao exigido ao cidadão comum.
Quando um regulador é suspeito de não respeitar princípios elementares de separação entre recursos públicos e atividades privadas, o problema deixa de ser apenas individual. Torna-se institucional. Cada suspeita não esclarecida, cada privilégio tolerado e cada responsabilidade diluída contribuem para a erosão da confiança dos cidadãos nas próprias instituições democráticas. E é precisamente por isso que existe o direito a ser demitido.
Em Portugal, parece ter-se instalado a ideia de que a demissão de um titular de cargo público constitui uma espécie de condenação antecipada ou uma injustiça pessoal. Não é. A demissão política ou institucional existe porque determinados cargos exigem padrões de comportamento superiores ao mínimo legal. A confiança pública é um património extremamente frágil e, quando é colocada em causa por indícios sérios e credíveis, a responsabilidade política e institucional não pode simplesmente ser ignorada.
Se as alegações que envolvem o vice-presidente da ERC se revelarem fundadas, a questão deixará de ser apenas jurídica. Tornar-se-á uma questão de confiança pública e de exemplaridade institucional. E numa democracia madura, a confiança perdida não se recompõe através de explicações formais nem de interpretações criativas dos regulamentos. Recompõe-se através da responsabilização.
Porque os cargos públicos conferem autoridade, mas também impõem deveres acrescidos. E entre esses deveres existe um dos mais difíceis de aceitar por quem exerce poder: o dever de sair quando a dignidade da função assim o exige. O abuso não pode ser normalizado, a corrupção ética não pode ser relativizada e ninguém, absolutamente ninguém, deve considerar-se acima do direito a ser demitido.

Ao longo da última semana:

Despencou o número de ataques à logística russa na Novorossiya, ou seja, em toda a frente S do conflito. Os drones enviados para minar a rectaguarda russa desviam-se, ficam cegos, mudam de rota ou simplesmente despenham-se. A causa desta ineficácia ucraniana deve-se à capacidade russa de empastelar o sistema Starlink e de o tornar inútil. O sistema, designado por Volna Kupol Garant, era há muito conhecido, mas estava em fase experimental e só agora parece estar a ser produzido em escala industrial. Os resultados são extraordinários e podem alterar o quadro geral da guerra e destronar a função que o drone de longo alcance exerceu sobre a rectaguarda russa ao longo do último anosobre , nomeadamente refinarias, depósitos de combustível, linhas de abastecimento através de camiões-cisterna e comboios. A comprovar-se o sucesso do Volna Kupol Garant, o drone passará a ser apenas efectivo no campo de batalha e para o combate imediato, pelo que Kiev só poderia contar doravante com misseis de cruzeiro e mísseis balísticos para operar a rectaguarda russa, onerando quaisquer operações e sujeitando os mísseis à efectiva e poderosa anti-aérea russa. A guerra não é apenas um choque de vontades, mas de inteligências, pelo que neste último aspecto os russos detêm o quase monopólio.

Miguel Castelo Branco

Exactissimamente:

PSD era Chega antes de o Chega chegar

por Valupi

Do blogue Aspirina B

terça-feira, 16 de junho de 2026

Relembrando Odair Moniz e tantos outros:

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 16/06/2026, Revisão da Estátua)

A canção Alto Cutelo, de Ildo Lobo (ouvir aqui), é um hino que fala das mulheres e homens que partiram de Cabo Verde à procura de uma vida melhor em Portugal. Aqui, encontraram miséria e exploração. Construíram hospitais privados onde não conseguem entrar, universidades onde não conseguem estudar e prédios onde não conseguem viver.

Eu cresci com os filhos desses operários na Amadora. Por isso, falar de Odair Moniz é falar da minha cidade. Já contei várias vezes que cresci num prédio em que havia um sapateiro, uma costureira, um mecânico, um padeiro, um pedreiro, um operário fabril e várias mulheres que trabalhavam em casa a cuidar da casa e das crianças. A minha cidade era um formigueiro de trabalhadores que tinham orgulho em ser trabalhadores. A maioria não era dali. Vieram do Alentejo, de Trás-os-Montes, da Beira Alta, de Cabo Verde, da ex-União Soviética ou de Angola.

Nesta manta de retalhos, os primeiros a viver em barracas ou a construir as primeiras casas clandestinamente foram os portugueses. Se ninguém se atreve a pedir a demolição da Brandoa, que chegou a ser o maior bairro clandestino da Europa, é tão simplesmente porque é habitada maioritariamente por brancos. A Cova da Moura tem as mesmas características e é alvo das campanhas mais miseráveis tão somente porque a maioria da sua população é negra.

Por isso, falar de Odair Moniz é falar da minha cidade. É lembrar-me de todos os jovens que foram assassinados pela polícia na Amadora, alguns deles ainda crianças à queima-roupa. Ou de como espancaram Cláudia Simões apenas porque se indignou porque a filha se tinha esquecido do passe em casa. Ou de como levaram vários amigos meus para a esquadra de Alfragide e os torturaram durante dias dizendo que eram macacos e que deviam estar em África.

Também me lembro de como a polícia carregou sobre os operários da Sorefame e da MB Pereira da Costa quando lutavam pelos seus postos de trabalho. Podia andar mais para trás e recordar como a PIDE perseguiu e torturou comunistas e antifascistas que se escondiam na Amadora.

 Ou seja, infelizmente, a polícia tem cumprido o seu papel histórico: defender os interesses dos mais fortes. Muitos chegam à minha cidade vindos de regiões remotas sem nunca terem tido contacto com uma realidade parecida. Geralmente, os piores classificados dos concursos da PSP vêm parar à Amadora.

É aqui que crescem os ‘rambos’ alimentados a esteroides e cocaína com vontade de replicar a violência policial que veem nas séries americanas contra a população local.

Não há dúvida de que todos queremos viver em paz, mas tenho uma má notícia. A criminalidade não acaba com mais polícia. Acaba com mais acesso a educação, cultura, melhores salários, saúde e políticas públicas que promovam a interação social e comunitária.

A polícia devia estar onde se cometem os crimes mais graves: nos gabinetes dos administradores dos grandes grupos económicos e financeiros, nas sedes dos partidos que se deixam comprar pelos interesses dos mais ricos e nos órgãos de comunicação social que promovem o racismo e a discriminação de classe.

Do blogue Estátua de Sal 

Os quatro farsantes:

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 15/06/2026, Revisão da Estátua)

Da esquerda para a direita: Chouriço, Urineu, Nojeira e Milhafre

Ultimamente, tem havido um grande e agitado debate comunicacional em torno da campanha da Ucrânia para, alegadamente, “isolar a Crimeia” através de ataques com drones de longo alcance.

No entanto, esta campanha é apenas a mais recente de um reciclado conjunto de iniciativas ucranianas de guerra de informação e operações psicológicas que aparecem anualmente, em simultâneo com as ofensivas russas de verão, com a finalidade de controlar a narrativa de forma favorável à Ucrânia e assim desviar a atenção do público das realidades no campo de batalha.

O propósito é sempre o de criar uma onda divergente que dê a ideia de uma “crise iminente” na operação das forças russas de forma a afastar a atenção das próprias imensas perdas da Ucrânia no campo de batalha, que estão agora concentradas sobretudo na frente de Konstantinovka, que está a colapsar e onde as forças russas pretendem confirmar a captura de mais uma grande “cidade-fortaleza” no Donbass.

Isto não significa que esta recente campanha da Ucrânia sobre a Crimeia não tenha tido qualquer efeito, mas sim que esses efeitos estão a ser grandemente exagerados pelas habituais agências de propaganda ocidentais e difundidos serviçalmente pelos media e comentadores avençados do sistema.

Esta campanha de informação já atingiu um nível tão desesperado que chegou a utilizar imagens de videojogos para tentar aumentar as impressões sobre os efeitos que os próprios ataques são incapazes de produzir.

Aqui na terrinha, os maiores farsantes podem ser vistos no NOW com o Chouriço e o Urineu e na SIC com o Nojeira e o Milhafre, o que aliás já não é novidade nesses canais.

Do blogue Estátua de Sal

O projeto do BRICS Pay:

O sistema de pagamentos criado pelos países do bloco para realizar transações internacionais sem depender do dólar, está cada vez mais próximo de sair do papel. Inspirado no sucesso do Pix brasileiro e apoiado por tecnologia blockchain, o sistema já entrou em fase avançada de desenvolvimento e deve ser um dos temas centrais da próxima cúpula do BRICS.
Na prática, a proposta é simples, mas revolucionária: permitir que empresas e governos façam pagamentos diretamente em moedas locais, sem precisar passar pelo dólar ou por estruturas financeiras controladas pelo Ocidente, como o sistema SWIFT. Isso significa menos custos, mais velocidade nas transações e maior autonomia para países que movimentam uma parcela gigantesca da economia mundial.
E os números ajudam a explicar por que o projeto está ganhando força. Os países do BRICS já representam cerca de 40% da economia global. Analistas afirmam que, se o sistema for implementado com sucesso, ele poderá responder por até 20% do comércio internacional até o final da década. Não é uma mudança pequena. É uma transformação capaz de alterar a forma como o dinheiro circula no planeta.
Claro, ainda existem desafios. Especialistas apontam diferenças tecnológicas, políticas e regulatórias entre os membros do bloco. Mas o fato importante é outro: a discussão já não é mais se o BRICS Pay vai existir. A discussão agora é quando ele será implementado em larga escala e qual será o impacto disso sobre a hegemonia do dólar.
Durante décadas, o dólar foi praticamente obrigatório em negociações internacionais. Agora, pela primeira vez, surge uma alternativa construída por economias emergentes que não querem depender das regras definidas por Washington. E isso ajuda a explicar por que o projeto vem despertando tanta atenção nos mercados e nos centros de poder do mundo.

O BRICS Pay ainda não derruba o dólar. Mas talvez represente o início da maior mudança financeira global das últimas décadas. E se esse sistema realmente funcionar, o mundo poderá estar assistindo ao nascimento de uma nova era econômica.

 Moz na Diáspora

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Ventos Semeados: A ADEGA e os Seus Ventos

Ventos Semeados: A ADEGA e os Seus Ventos:   Daniel Oliveira encontrou o acrónimo certeiro: AD de coligação entre PSD e CDS, EGA das três letras do Chega. ADEGA. Uma aliança que se be...