Rádio Freamunde

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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Que vergonha de justiça!

«O que começa mal acaba pior, a não ser que outro juiz respeite o Estado de Direito… E se estes desastrosos processos judiciais se arrastarem durante anos, a imagem da Justiça, com J grande, fica gravemente prejudicada (…)
A perspetiva pessoal (de José Sócrates, o ex-primeiro-ministro) pode ser resumida em quatro palavras: vítima torturada de injustiça processual.
Alguém que passou mais de um terço da sua vida adulta submetido a um interminável processo judicial, violando todos os direitos humanos imagináveis…»
JAVIER BORREGO, descreve longamente o que ele considera os “DISPARATES” do Processo Marquês:
"PRIMEIRO DISPARATE:
a Associação Sindical dos Juízes recusa-se a aceitar a redução do seu período de férias para a duração normal e razoável da função pública e, em 2011, apresenta uma queixa infundada contra o Primeiro-Ministro Sócrates e o seu governo.
Esta manifestação coletiva de irritação judicial não é apenas incomum, é um disparate…"
"SEGUNDO DISPARATE:
Em Junho de 2013, o todo-poderoso DCIAP (Departamento Central de Investigação e Acção Criminal) e os seus omnipresentes procuradores iniciam uma investigação de corrupção contra Sócrates.
Uma investigação intensa e extensa. E, claro, secreta.
Em setembro de 2014, o Tribunal Penal Central entregou o caso ao Super-juiz Carlos Alexandre (…) Mas esta escolha do juiz foi totalmente arbitrária e feita sem sorteio.
Como escreveu o Juiz Ivo Rosa: “Estamos perante uma nomeação directa e arbitrária do juiz encarregado de conduzir a investigação.
Isto conduz necessariamente a uma violação do princípio constitucional do juiz natural”.
DIREITO A UM JUIZ NATURAL? Para Sócrates, NÃO!
"TERCEIRO DISPARATE:
Carlos Alexandre, sem sequer interrogar Sócrates, sabendo pelo seu advogado que o ex-primeiro-ministro regressava a Lisboa vindo de Paris, para se colocar à disposição das autoridades, ordenou a sua detenção.
Prisão preventiva? Porquê? Por risco de fuga, diz Alexandre.
Mas como é que alguém que entra em Portugal pode estar em risco de fuga?
Não importa. Para o Super-juiz, a liberdade de um cidadão não tem a mínima importância (…)
Uma prisão televisionada, sem qualquer fundamento legal, para maior glória e espectáculo do juiz, o mesmo que prendeu Sócrates.
Um lamentável exercício do poder judicial…»
"QUARTO DISPARATE:
Quanto tempo o juiz mantém Sócrates na prisão? Onze meses.
Não há justificação para esta ação arbitrária (…)
Onze meses de prisão sem qualquer acusação formal ou informal.»
"QUINTO DISPARATE:
«Onze meses de prisão para o ex-primeiro-ministro.
Para qualquer outra pessoa, as acusações contra Sócrates deveriam ter sido extremamente graves e claras. Mas não.
Primeiro, uma empresa é investigada, mas o Super-juiz não encontra nada.
Depois, outra empresa. Nada. E outra, e outra… Isto continua até que oito empresas sejam investigadas.
E o inquérito é o exemplo do que nunca deve ser o inquérito:
uma investigação prospetiva. Por outras palavras, não é constatado qualquer crime, mas lançam a linha de pesca no rio repetidamente para ver se conseguem fisgar alguma coisa, qualquer coisa que seja (…)
Finalmente, no dia 9 de outubro de 2017, após quatro anos (!!), o Ministério Público conseguiu elaborar uma queixa, assinada por 7 (sete) procuradores e dezasseis (16) inspetores da Administração Tributária (…)
Quatro anos de inquérito a um cidadão sem que lhe explicassem porque foi detido, porque esteve preso durante onze meses…»
"SEXTO DISPARATE:
Todo o inquérito começou mal. E todos os restantes passos são erros atrás de erros (…)
Esta é a arrogância judicial de um magistrado português para quem os direitos humanos e a presunção de inocência são apenas conceitos vãos, soprados pelos ventos da sua omnipotência (…) Como anteriormente afirmou o Tribunal da Relação, o inquérito de Alexandre foi "uma auto estrada de sigilo sem regras, sem qualquer censura por parte do juiz, comprometendo seriamente os interesses e as garantias do arguido".
Contra Sócrates, a Justiça, uma parte da Justiça portuguesa, praticou a maior das aberrações judiciais: vale tudo contra uma pessoa.»
"FIM DO INQUÉRITO:
A investigação, a fase processual do Superjuiz Alexandre, que foi uma sucessão contínua de absurdos, cada vez mais frequentes, chegou ao fim…»
"A INSTRUÇÃO:
E inicia-se a fase de instrução com um novo juiz.
E como costuma acontecer em situações de infortúnio, há sempre uma fase não calamitosa, uma fase normal. E assim foi com a INSTRUÇÂO (…)
Em 9 de abril de 2021, o Juiz Ivo Rosa encerra o inquérito, proferindo uma decisão de NÃO DECISÃO e outra de DECISÃO:
«A. Decisão de NÃO PRONÚNCIA.
O Juiz Ivo Rosa decide NÃO levar o caso a julgamento porque os factos alegados na acusação de "corrupção por acto lícito" estão prescritos.
Além disso, estas acusações são "fantasiosas, inconsistentes e especulativas".
Mas como pode um juiz independente e imparcial ousar dizer que a acusação de “corrupção para ato lícito” elaborada após quatro anos de investigação pelo Juiz Alexandre, o Super-juiz, e pelos todo-poderosos procuradores da DCIAP, é uma acusação fantasiosa, inconsistente e especulativa?
O poder judicial, ou melhor, um certo ramo do poder judicial, não pode admitir isso.»
«SÉTIMO DISPARATE: A Procuradoria-Geral da República abre uma investigação secreta contra o Juiz Ivo Rosa e monitoriza as suas contas, chamadas telefónicas e vigia a sua vida pessoal durante três anos.
É assim que a Procuradoria-Geral da República defende a legalidade democrática, consagrada no artigo 219.º, n.º 1, da Constituição da República Portuguesa?
Após violar todos os direitos pessoais garantidos pelo artigo 26.º da Constituição na investigação secreta da DCIAP e nas audições televisivas do Juiz do Inquérito, como pode um juiz independente declarar que as acusações, decretada por parte do Poder Judicial contra Sócrates, são infundadas?
Esse juiz deve estar relacionado com Sócrates e deve ter algo a esconder, pensa a Procuradoria, em mais um novo DISPARATE, gravíssimo e repugnante. Alguém se demitiu?
Foi instaurado algum processo criminal por este absurdo? Nada.
E menos que nada. O juiz Ivo Rosa solicitou o acesso às investigações contra si realizadas, tendo-lhe sido negado esse acesso porque "não tinha qualquer interesse pessoal no assunto".»
«B. – Despacho de pronúncia.
O juiz Ivo Rosa emite um despacho de pronuncia referente a seis acusações baseadas todas elas num crime precedente de "corrupção sem ato", totalmente novo no processo.
Em março de 2024, o Tribunal da Relação anulou a Decisão de Pronúncia, considerando que esta constituía uma modificação substancial dos factos. Ou seja, em março de 2024, Sócrates não enfrentava qualquer acusação.
Onze anos após o início da investigação contra ele, todas as acusações tinham prescrito: as iniciais, de 2017, devido à prescrição e, além disso, por terem sido consideradas "fantasiosas, inconsistentes e especulativas", e as mais recentes, devido a uma modificação substancial da acusação.»
«OITAVO E GIGANTESCO DISPARATE:
Fim de um processo absurdo e demente? Não!
(…) Em janeiro de 2023, são nomeados três juízes para integrar o painel que vai decidir o recurso do Ministério Público.
Mas, em junho de 2023, são transferidas duas das três juízas: abandonam Lisboa e são afetos ao Tribunal da Relação de Guimarães e do Porto.
Nestes casos, de acordo com o artigo 127.º, n.º 1, do Código de Processo Civil, com a destituição do juiz titular, é necessária uma nova distribuição.
MAS o Conselho Superior da Magistratura suspende o artigo 49.º do Estatuto dos Magistrados viola a lei e concede "exclusividade" às três juízas, duas delas já em exercício no Porto e em Guimarães, para continuarem a julgar este recurso específico do Ministério Público.
O Conselho Superior da Magistratura criou, contrariamente ao que prescreve a lei portuguesa, um "tribunal ad hoc" para resolver o recurso do Ministério Público contra a Decisão de Não Pronúncia.
Qual o objetivo deste oitavo disparate?
Evidentemente para que o tribunal ad hoc possa derrubar a decisão do juiz IVO ROSA.»
«NONO E AINDA MAIS GIGANTESCO DISPARATE:
A secção constituída de forma ad hoc no Tribunal da Relação de Lisboa, sete anos após a acusação assinada por sete procuradores e supervisionada pelo Super- Juiz Alexandre!, FAZ MAGIA, PRESTIDIGITAÇÂO, alegando em 2024 que na acusação de 2017 havia um "LAPSO DE ESCRITA” e que, em vez de "corrupção por ato lícito", o que os sete procuradores altamente qualificados queriam dizer era "corrupção por ato ilícito".
Uma aberração ainda mais colossal que a anterior, que colide frontalmente, como dois comboios a colidir, com o artigo 380º do Código de Processo Penal: “1. O tribunal pode, oficiosamente ou a requerimento do tribunal (aqui foi oficiosamente), corrigir a sentença quando…
b) a sentença contenha erro, lapso, obscuridade ou ambiguidade,
CUJA ELIMINAÇÃO NÃO CONSTITUA MODIFICAÇÃO ESSENCIAL”…»
«DÉCIMO DISPARATE:
E quando o arguido, através do truque de magia do “lapso de escrita” é convocado para julgamento sem ter tido a oportunidade de se defender em instrução da nova acusação de corrupção para ato ilícito solicita que o “lapso de escrita” seja anulado ou que se lhe dê tempo para se defender desta nova acusação, a resposta é que a questão deve iniciar o julgamento e a questão resolvida na sentença final. Sem fase de instrução,
Sócrates é o único cidadão português inesperadamente acusado numa decisão ad hoc, por um tribunal ad hoc, e imediatamente levado a julgamento.
Não houve nenhum despacho de pronuncia.
A subversão do processo. Uma decisão de não pronuncia se converte, por um tribunal superior ad hoc, graças a magia ad hoc do “lapso de escrita” num Despacho de Pronúcia.
A subversão do processo. Uma decisão de não pronuncia se converte, por um tribunal superior ad hoc, graças a magia ad hoc do “lapso de escrita”
num Despacho de Pronúncia à margem de qualquer norma…»
NOTÁVEL!..."
CNN: parecer de JAVIER BORREGO, magistrado e juiz espanhol sobre o Processo Marquês
  

QUEM NÃO ENFRENTA A JUSTIÇA, DECLARA-SE CULPADO:

Há fugas que começam muito antes de alguém entrar num avião. Começam quando o discurso deixa de coincidir com os actos, quando a coragem proclamada perante as câmaras desaparece perante as consequências e quando a pátria, tantas vezes invocada para conquistar votos, deixa de ser o lugar onde se está disposto a responder pelas próprias decisões.

O caso de Flávio Bolsonaro tem todos os ingredientes de uma contradição política difícil de disfarçar.
Derrotado nas eleições presidenciais brasileiras, o senador deixou o país e seguiu para os Estados Unidos. A viagem ocorreu depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, ter determinado a entrega dos seus passaportes e proibido a sua saída do Brasil. A ordem não foi cumprida.
Há um pormenor que torna esta história ainda mais reveladora. Pouco antes, o próprio Flávio tinha afirmado publicamente que não pensava abandonar o país e que ficaria no Brasil para organizar a oposição. Menos de 48 horas depois da derrota eleitoral, estava a caminho dos Estados Unidos. A palavra dada durou menos do que o tempo necessário para preparar a partida.
E não estamos perante um cidadão anónimo que decide mudar de país. Estamos perante um senador da República, candidato à Presidência, representante de milhões de brasileiros e membro de uma família que construiu boa parte da sua identidade política em torno da pátria, da autoridade, da ordem e do combate aos seus adversários.
Pergunto: onde ficam esses princípios quando chega a hora de responder perante a Justiça?
A PÁTRIA PARA OS DISCURSOS, O ESTRANGEIRO PARA AS DIFICULDADES?
Durante anos, o universo político bolsonarista apresentou-se como defensor de um Brasil ameaçado, como guardião da lei e da ordem, como voz de uma população que exigia autoridade e responsabilidade aos seus governantes.
Agora, perante uma situação judicial concreta, o candidato derrotado encontra-se fora do país, enquanto os seus próprios aliados dizem ter sido surpreendidos pela decisão.
O coordenador da campanha, Rogério Marinho, afirmou desconhecer antecipadamente a deslocação. Outros apoiantes manifestaram surpresa. E Eduardo Bolsonaro, o irmão que já defendera publicamente a possibilidade de Flávio deixar o Brasil caso perdesse as eleições, parece ter antecipado precisamente o cenário que agora se concretizou.
A hipótese de abandonar o país não surgiu apenas depois da derrota. Já tinha sido colocada no espaço público pelo próprio círculo familiar. Também foram noticiadas declarações anteriores de Michelle Bolsonaro sobre tensões dentro da família. Esses episódios, ajudam a perceber que as dúvidas sobre a unidade familiar e o futuro político do clã não nasceram ontem.
Entretanto, surgiram informações sobre uma eventual articulação para facilitar a entrada de Flávio nos Estados Unidos, com referências ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Um aliado de Trump atribuiu-lhe mesmo um papel central na operação. Até se desconfia que a CIA esteve envolvida ou que existiu uma operação oficial norte-americana destinada a organizar a fuga.
Há uma pergunta que não depende de conhecer o itinerário do avião: porque razão alguém que afirma estar preparado para governar o Brasil não enfrenta no próprio país as questões que sobre si recaem?
O MEDO DA JUSTIÇA NÃO É UMA SENTENÇA, MAS É UMA PERGUNTA POLÍTICA
Flávio Bolsonaro é investigado em processos que envolvem suspeitas de irregularidades financeiras, incluindo branqueamento de capitais. As suspeitas são graves, mas continuam a ser suspeitas. Ele tem direito à defesa, à presunção de inocência e a um julgamento justo. Ninguém deve ser declarado culpado apenas por ser investigado. Esse princípio vale para Flávio, para os seus adversários e para qualquer cidadão.
Contudo, a presunção de inocência não transforma o cumprimento das decisões judiciais numa opção pessoal. Nem permite que um responsável político exija respeito pelas instituições quando lhe convém e se afaste das suas determinações quando elas lhe são desfavoráveis. É aqui que a questão ultrapassa os tribunais e entra no domínio da responsabilidade política.
Quem se considera inocente tem razões para querer demonstrá-lo. Quem denuncia perseguição política deve apresentar provas dessa perseguição e utilizar os meios legais disponíveis para contestar as decisões que considera injustas. Fugir, ou deixar o país em desrespeito por uma ordem judicial, não demonstra juridicamente culpa. Mas levanta uma questão de credibilidade à qual nenhum discurso patriótico consegue responder por si só.
Se a convicção de inocência é tão firme, porque não enfrentar as acusações? Se a Justiça é injusta, porque não a contestar pelos meios legais? Se a candidatura presidencial era um projeto de serviço ao povo brasileiro, como explicar que a derrota eleitoral tenha sido seguida por uma saída tão rápida, precisamente quando a situação judicial se tornou mais exigente?
São perguntas que não desaparecem com uma fotografia num aeroporto estrangeiro, com uma declaração de apoio de Trump ou com a promessa de continuar a oposição a partir dos Estados Unidos.
LULA FICOU NO BRASIL. A HISTÓRIA NÃO PODE SER APAGADA
A comparação com Lula é inevitável. Lula da Silva foi alvo de processos judiciais, condenado em processos relacionados com a Operação Lava Jato e privado da liberdade durante 580 dias. As condenações que o impediram de concorrer às eleições de 2018 acabaram por ser anuladas, depois de o Supremo Tribunal Federal reconhecer problemas de competência jurisdicional e, no processo do tríplex, a parcialidade do juiz Sérgio Moro.
Essas decisões significam que as condenações em causa não podiam subsistir nos termos em que tinham sido proferidas. Lula permaneceu no Brasil, enfrentou os processos e regressou à disputa política.
Existe uma diferença concreta entre os percursos que hoje podemos comparar: Lula permaneceu no país durante o período em que esteve sujeito àqueles processos; Flávio Bolsonaro saiu do Brasil depois de uma ordem judicial que o impedia de o fazer.
SE A DERROTA ERA DEMOCRÁTICA, PORQUE PARECE UMA DERROTA PESSOAL?
Uma eleição presidencial não é um salvo-conduto judicial. Perder uma eleição não torna ninguém culpado, tal como ganhá-la não torna ninguém inocente. Mas a sequência dos acontecimentos merece reflexão.
Flávio Bolsonaro apresentou-se aos brasileiros como candidato à Presidência. Pediu-lhes confiança. Procurou reunir apoios, defender um programa e convencer os eleitores de que estava preparado para assumir a responsabilidade de dirigir o país. Os eleitores decidiram. Lula venceu e Flávio perdeu.
Numa democracia, esse resultado deve ser aceite, sem que isso impeça a contestação legal de irregularidades devidamente fundamentadas. O que não pode acontecer é transformar a derrota eleitoral numa justificação automática para abandonar as obrigações judiciais.
Se a candidatura de Flávio era, como muitos agora suspeitam, uma forma de reforçar a sua protecção política perante problemas judiciais, a sua saída do país torna essa suspeita politicamente mais forte. O que se pode afirmar é que a candidatura não lhe conferiu imunidade perante a Justiça. E a derrota não eliminou as investigações que o envolvem.
A política não pode ser um esconderijo.
CINQUENTA E OITO MILHÕES DE VOTOS NÃO SÃO UMA PROCURAÇÃO PARA FUGIR ÀS RESPONSABILIDADES
Milhões de brasileiros confiaram em Flávio. Os votos conferem legitimidade política dentro das regras democráticas. Não conferem impunidade, não anulam investigações e não colocam ninguém acima da lei.
Quem votou em Flávio tem todo o direito de exigir explicações. Não precisa de renegar as suas convicções políticas para reconhecer que um candidato deve responder pelos seus actos. E não tem de aceitar, por fidelidade partidária, todas as decisões de quem escolheu para o representar.
Talvez alguns apoiantes estejam genuinamente surpreendidos. Outros poderão considerar a saída uma forma legítima de proteção perante aquilo que entendem ser uma perseguição judicial. Mas nenhuma delas dispensa a resposta às questões concretas: foi cumprida a ordem judicial? Não. O senador explicou satisfatoriamente a contradição entre a promessa de permanecer no Brasil e a saída subsequente? Não. E, enquanto essas respostas não surgirem, a pergunta mantêm-se
Que confiança pode merecer um responsável político que pede aos cidadãos que acreditem na sua palavra, mas cuja própria conduta põe essa palavra em causa?
A CORAGEM TAMBÉM SE MEDE QUANDO NÃO HÁ CÂMARAS PARA APLAUSOS
Não conheço ainda todos os pormenores desta história. Não sei com segurança, quem organizou cada etapa da viagem, quais foram os contactos estabelecidos nem qual será a estratégia judicial de Flávio nos Estados Unidos. Sei, porém, que deixou o Brasil depois de uma derrota eleitoral, que havia negado a intenção de partir e que não cumpriu a ordem judicial relativa aos seus documentos de viagem.
Estes factos bastam para colocar em causa a coerência entre a imagem pública que construiu e as decisões que tomou.
Há uma diferença entre fugir à condenação e fugir às perguntas. A primeira só pode ser determinada à luz da lei. A segunda é uma questão que os cidadãos podem e devem colocar perante os factos conhecidos. Quem quer governar um país tem de aceitar que a responsabilidade começa antes da tomada de posse. Começa na relação com a verdade, com a palavra dada e com as instituições que se pretende representar.
Quando se abandona o país para escapar ao cumprimento de uma ordem judicial, deixa-se uma dúvida política que nenhuma declaração de inocência consegue apagar. E essa dúvida não pertence apenas a Flávio Bolsonaro. Pertence também aos milhões de brasileiros que lhe confiaram o voto e que agora têm o direito de perguntar se a confiança que depositaram no seu candidato foi respeitada.
Porque a democracia não exige que os cidadãos sejam seguidores incondicionais de ninguém. Exige que os representantes respondam pelos seus actos.
Até os que se apresentam como salvadores da pátria.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

O Ministro Pinto Luz continua a reivindicar como fruto do seu trabalho a entrega de 31 mil casas. É uma obra notável, sobretudo para quem não a fez:

Mas, afinal, que fez Pinto Luz por estas casas? Todas foram feitas ao abrigo do Programa 1.º Direito, criado por nós em 2018, e financiadas a 100% pelo PRR, aprovado pela Comissão Europeia em 2021. Quando o Ministro chegou, o programa existia, o financiamento estava garantido e as obras já andavam. Herdou a casa feita mas quer ficar com o mérito da mudança.
Ontem foi a vez de Marvila: 65 casas entregues por Pinto Luz. As obras já estavam em curso quando foi nomeado Ministro. Então, que fez por elas? Esperou que terminassem, inaugurou-as e somou-as às outras 31 mil que reclama como suas. Um método eficaz: os outros constroem, ele faz publicações nas redes sociais.
Mas não são, nem nunca serão, da sua responsabilidade. São da responsabilidade de quem criou o programa, garantiu o financiamento e lançou as obras. Ao Ministro coube a fita, a tesoura e a fotografia.
E já que o tema é memória, convém refrescá-la. Pinto Luz repete insistentemente que o PRR não tinha verba suficiente. Esquece-se de dizer que a subida intensa dos preços da construção obrigou a reforçar a verba ao longo do tempo, como sempre foi expectável. Os nossos governos ainda fizeram dois reforços, o de Pinto Luz fez mais um. Normal e expectável num quadro de aumento contínuo dos preços da construção.
Inaugurar o trabalho dos outros não é governar. É ser mestre de cerimónias com pasta de Ministro. 
Pedro Nuno Santos

Ventos Semeados: Uma janela aberta, iluminada

Ventos Semeados: Uma janela aberta, iluminada:   Durante a longa noite que, por quarenta e oito anos, infernizou a vida da maioria dos portugueses, houve quem buscasse alento na esperança...

Viver para lutar mais um dia:

 Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas, multidão, o Portão de Brandemburgo e texto

Domingo terminou melhor do que começou. Depois dos acontecimentos vergonhosos e indignos – ou dignos de regimes nada recomendáveis – desta madrugada, no Porto e em Lisboa, sobre os quais todos falaremos nos próximos dais, o dia termina com duas vitórias inesperadas e igualmente históricas.

Na Sérvia, país que me passou a ser querido no dia em que a minha maravilhosa cunhada Sanja entrou na minha vida, os estudantes que foram para a rua e se organizaram para combater o autoritarismo, a corrupção, a instrumentalização da justiça e a repressão do regime Vučić transformaram-se em partido e esmagaram a extrema- direita.

As projecções apontam para 130 e 140 deputados num parlamento de 250.

Épico!

Putin, que apoiou directamente Vučić, é um dos derrotados da noite.

Trump é outro dos derrotados, pese embora tenha sido mais discreto no seu apoio.

Goste-se ou não deles, foram os valores europeus, os valores da democracia liberal, que triunfaram sobre a internacional neofascista. Podemos entrar aqui em detalhes, fazer um cherry pickingzito e dizer que a UE e os países europeus também têm telhados de vidro, e têm mesmo.

Mas Vladimir Putin joga noutro campeonato.

Num campeonato em que se invadem países, manipulam regimes com milícias e onde adversários políticos são envenenados com pontas de guarda-chuvas, caem ao rio Moscovo e tropeçam frequentemente em longas escadarias ou varandas de arranha-céus.

Entre outras coisas.

Pode ser uma imagem de chapéu e multidão

Como se a noite não fosse já memorável por isso, Lula da Silva virou o estado de Minas Gerais. E quem ganha em Minas Gerais, descobri, “vira” presidente.

Podemos dizer e achar o que quisermos sobre o Lula. Mas entre ele e um boy cujo CV consiste em ser filho de um projecto mal parido de Emílio Médici, um corrupto miliciano envolvido até às pontas dos cabelos no esquema do Banco Master do seu “irmão” Vorcaro, preparado para entregar o país como colónia a Trump, a escolha era fácil demais.

Mais uma derrota para o Trumpismo, e esta bem pesada. Trump esperava conseguir fazer o que fez no resto da América Latina e do Sul. Falhou. Mas não foi o único derrotado. Ele e a sua internacional neofascista. Perderam os techbros, em particular o dono desta mesma rede, que bloqueou os anúncios de Lula da Silva com argumentos pífios e deu carta branca para que Bolsonaro fizesse o que bem entendesse. Perderam os fundamentalistas evangélicos. Perdeu Benjamin Netanyahu. Perderam os fantoches europeus de Trump. Perdeu muito fraca gente e isso é uma excelente notícia, num tempo em que elas escasseiam.

Mas ainda falta uma boa notícia.

A boa notícia mais importante de todas.

Saberemos se a teremos dentro de pouco mais de uma semana.

Até lá, saboreemos esta grande vitória, que é mais que a vitória de Lula ou dos estudantes e democratas da Sérvia.

É a constatação de um facto fundamental, neste tempo em que a esperança parece desvanecer: a extrema-direita não é inevitável. Mesmo quando tem o poder, a tecnologia e o dinheiro do seu lado. Não é coisa pouca.

Agora é a vossa vez de jogar, povo dos Estados Unidos da América.

Yes you can.

26/10/2026 by  

Do Blogue Aventar

NA SÉRVIA, OS ESTUDANTES GANHARAM AS ELEIÇÕES. E TUDO COMEÇOU NAS RUAS!

Não foi um partido com décadas de existência.
Não foram os políticos de sempre.
Não foram os grandes interesses económicos.
Foi um movimento que nasceu entre estudantes, cresceu nas universidades, saiu para as ruas e acabou por mobilizar um país inteiro.
Começou em 2024, depois de uma tragédia que matou 16 pessoas. Os estudantes exigiram responsabilidades, justiça e transparência.
Mas não ficaram sozinhos.
Vieram os professores.
Os agricultores.
Os trabalhadores.
Os reformados.
As famílias.
A indignação transformou-se numa força nacional, nascida nas ruas.
Os estudantes acenderam a chama.
O povo transformou-a num incêndio.
Portugal tem uma longa história de movimentos que nasceram da coragem de cidadãos comuns.
Em 1962 e 1969, os estudantes enfrentaram a ditadura.
Em 2011, a Geração à Rasca levou centenas de milhares de portugueses às ruas.
Em 2012, o protesto contra a troika espalhou-se pelo país.
E agora?
Agora temos novamente jovens nas ruas, a exigir o direito a uma casa, a um salário digno e a um futuro.
E se desta vez não deixássemos esta energia apagar-se?
E se aquilo que começou com os jovens se transformasse numa enorme onda nacional?
Uma onda que começasse nas escolas e universidades, mas não parasse nos seus portões.
Que chegasse às fábricas,
aos estaleiros,
aos hospitais,
às oficinas,
aos sindicatos,
às associações,
às pequenas lojas,
aos campos e aos barcos de pesca.
Que chegasse aos engenheiros,
aos investigadores,
aos médicos,
aos professores,
aos trabalhadores da construção civil,
aos trabalhadores a recibos verdes e aos pequenos empresários que lutam diariamente para manter as portas abertas.
Que chegasse aos idosos que contam os cêntimos para comprar medicamentos.
Às mães solteiras que trabalham o dia inteiro e continuam sem conseguir pagar uma renda.
Uma onda que juntasse quem votou à esquerda, quem votou à direita por estar desiludido com a esquerda e quem deixou de acreditar que o seu voto pudesse mudar alguma coisa.
Porque há uma ideia suficientemente simples para nos unir:
NENHUMA SOCIEDADE PODE CONTINUAR A SACRIFICAR AS FAMÍLIAS E QUEM TRABALHA PARA ENGORDAR OS LUCROS DE QUEM JÁ TEM TUDO.
Não estamos contra quem cria empresas, investe, trabalha e produz riqueza.
Estamos contra a corrupção, a especulação, os privilégios e o uso do poder político para servir interesses particulares.
Contra uma economia em que o dinheiro tem sempre mais direitos do que as pessoas.
Onde em nome do lucro de alguns se destroi o SNS e se vende ao desbarato aquilo que a democracia criou.
Contra os chico-espertos que enchem o TikTok e as redes sociais a convencer quem ganha o salário mínimo de que o seu inimigo é outro trabalhador ainda mais pobre.
Enquanto os de baixo se esgotam a discutir entre si, os grandes interesses económicos continuam a mandar nos corredores do poder.
O nosso verdadeiro desafio não é inventar inimigos entre os pobres.
É construir um país onde ninguém seja obrigado a viver na pobreza para que outros enriqueça à sua custa.
Da habitação à saúde.
Da escola pública ao emprego.
Das pescas à agricultura.
Da investigação à indústria.
Não queremos um país contra os empresários.
Queremos um país onde os pequenos empresários também possam prosperar, onde trabalhar compense e onde a riqueza criada pertença a quem a produz e sirva o bem-estar coletivo.
Um país que proteja o investimento produtivo e acabe com a especulação como negócio privilegiado.
Um país onde a política sirva os cidadãos e onde nenhum governante esteja acima do escrutínio público.
E OS PARTIDOS?
Os partidos são essenciais à democracia.
Mas a democracia não lhes pertence.
Se os partidos existentes não conseguem criar movimentos capazes de unir a sociedade em torno destas causas, pelo menos que tenham a humildade de ajudar aqueles que começam a fazê-lo.
Que abram espaço.
Que escutem.
Que apoiem sem tentar controlar.
Que entreguem a tocha a uma nova geração, em vez de tentarem apagar a chama só porque não são eles a segurá-la.
Sem guerras de protagonismo, sem disputas de siglas, sem transformar cada manifestação num palco partidário.
Não precisamos de um "salvador" a berrar ódio nas redes sociais.
Precisamos de milhares de pessoas dispostas a construir, democraticamente, algo maior do que qualquer líder.
Não precisamos de violência.
Precisamos de organização, persistência, participação e propostas que mudem a vida das pessoas.
A nossa força é o número, e o número só vence quando está organizado.
A Sérvia mostrou que é possível transformar protestos em poder político e conquistar uma vitória eleitoral.
AOS JOVENS PORTUGUESES QUE COMEÇARAM A MOVIMENTAR-SE:
Não deixem que a vossa voz se perca.
Não deixem que vos convençam de que uma manifestação não serve para nada.
Nenhum direito foi alguma vez oferecido: todos foram conquistados.
E, sobretudo, não deixem que vos dividam antes de conseguirem juntar todos aqueles que partilham as mesmas dificuldades.
Olhem para as pessoas que estão à vossa volta.
Para os vossos pais, os vossos avós, os vossos vizinhos, os trabalhadores e os pequenos comerciantes.
Há muito mais gente com problemas comuns do que aquilo que as nossas divisões fazem parecer.
E há muito mais força numa sociedade unida do que num país resignado.
CHAMEM-NOS EXTREMA-ESQUERDA, SE QUISEREM.
NÓS SOMOS A EXTREMA NECESSIDADE DE SOBREVIVER.
Pessoas de diferentes ideias políticas, unidas por um princípio fundamental: a dignidade humana não pode ficar atrás da rentabilidade económica.
Portugal não pertence a meia dúzia de elites económicas com acesso privilegiado aos corredores do poder.
Portugal pertence a quem trabalha.
Aos que trabalham.
Aos que estudam.
Aos que construíram este país.
Aos que o mantêm a funcionar.
E aos que ainda lutam por encontrar nele um lugar.
Que a chama comece nos jovens.
Que passe de mão em mão, de rua em rua, de cidade em cidade.
Que deixe de ser apenas um protesto e se transforme num movimento de cidadania, de justiça social e de esperança.
Porque um país não muda só quando os poderosos decidem mudar.

Muda quando o povo deixa de aceitar que o futuro seja decidido sem ele.

Eduardo Maltez Silva