Rádio Freamunde

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quarta-feira, 8 de abril de 2026

OS DEZ MANDAMENTOS:

Há momentos em que a retórica se torna armadilha. Em que a palavra precede o acto com tal violência que, quando chega a hora de agir, o próprio discurso já cercou o seu autor. Foi precisamente isso que se assistiu ontem: à beira de uma anunciada devastação - “a mais terrível”, prometia-se, capaz de empurrar uma civilização milenar para uma imaginada idade da pedra - surgiu, inesperadamente, a aceitação.
Aceitação não de uma vitória, mas de um texto. Dez pontos. Secos, pragmáticos, estruturais. Apresentados pelo Paquistão em nome do Irão, esses pontos não soavam a capitulação - soavam a enquadramento. E é aqui que começa a ironia: quem ameaçava impor condições pela força acabou por aceitar discutir condições impostas pelo adversário.
Chamemos-lhes, então, com a devida carga simbólica, “Os Dez Mandamentos”. Não porque sejam sagrados, mas porque surgem gravados não em pedra, mas na realidade nua de um impasse estratégico.
A alternativa era simples apenas na aparência. Levar por diante a prometida destruição significaria abrir uma frente interna nos EUA de consequências imprevisíveis. Num sistema político onde a guerra total exige mais do que impulsos presidenciais, a decisão poderia transformar-se num catalisador de ruptura institucional. A vice-presidência deixaria de ser figura decorativa para se tornar hipótese. E, no exterior, o isolamento deixaria de ser retórico: seria operacional, diplomático, económico.
O mundo, aliás, já tinha começado a alinhar-se - não necessariamente por afinidade com Teerão, mas por rejeição do abismo. Ao mesmo tempo, do outro lado da equação, Israel via-se confrontado com uma realidade que há muito tenta contornar: a sua dependência estrutural. Sem o respaldo militar efetivo dos Estados Unidos, o alcance da sua estratégia encolhe drasticamente. A narrativa da autossuficiência dissolve-se perante a evidência de que o poder projetado é, em larga medida, poder delegado.
E mais: a insistência num paradigma de segurança baseado na expansão, no confronto permanente e na redefinição unilateral de ameaças começa a produzir o efeito inverso. Isolamento regional, desgaste contínuo, e a consolidação de alianças que antes eram mais difusas. O resultado é paradoxal. Ao tentar impor uma ordem pela força, reforça-se a necessidade de uma ordem negociada - mas agora em termos menos favoráveis.
Os tais dez pontos apresentados pelo Irão não são, portanto, um plano de paz no sentido idealista. São uma grelha de contenção. Um reconhecimento implícito de que nenhuma das partes pode alcançar os seus objetivos máximos sem custos intoleráveis. E, nesse reconhecimento, há uma redistribuição de poder. O mais desconfortável para quem prometia vitória rápida e decisiva, é perceber que o instrumento militar - elevado à categoria de solução - revelou os seus limites. Porque deixou de ser suficiente. E aqui reside a derrota: a perda da capacidade de definir os termos do jogo.
Os aliados dos EUA observaram. E aprenderam. Durante semanas, sofreram impactos diretos - económicos, sociais, infraestruturais - confiando numa arquitetura de segurança que, no momento crítico, revelou hesitação e incapacidade. A confiança, uma vez abalada, não regressa por decreto. Reconfigura-se. E, muitas vezes, desloca-se. É nesse espaço que emergem ideias outrora impensáveis: soluções regionais autónomas, equilíbrios sem tutela externa, acordos que excluem - ou marginalizam - os atores que antes eram centrais.
Ainda não há paz. Há, isso sim, uma pausa. Duas semanas de contenção que funcionam como antecâmara de negociações difíceis. Mas o ponto de partida já não é o mesmo. Não são as exigências maximalistas iniciais que estruturam o diálogo - são aqueles dez pontos. Os “dez mandamentos”.
E, como em todas as narrativas deste tipo, há uma questão final. Trump pode proclamar vitória, construir a narrativa, encenar o desfecho, dizer que "atingiu os objetivos". Mas, mais cedo ou mais tarde, a realidade impõe-se com a sua frieza habitual: quem aceitou negociar nos termos do outro já fez uma concessão fundamental.
A ária pode continuar. Mas a partitura mudou. As tábuas do acordo são iranianas. Não de Israel ou de Trump.

Bom dia! 

terça-feira, 7 de abril de 2026

A Opus Dei não é a Al-qaeda, mas assemelha-se:

Há na Igreja católica uma organização que, por enquanto, trocou o cinto de explosivos pelo cilício, a Bíblia pelos 999 pontos para a meditação, a liberdade pela censura e a fé pelo poder. Substituiu o Espírito Santo, a quem era delegada a obrigação de iluminar os cardeais nos conclaves, na eleição de João Paulo II e de Bento XVI, a quem subsidiou, sobretudo ao primeiro, as atividades políticas e o marketing pessoal.

A Opus Dei é, sem esquecer a Comunhão e Libertação e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a seita católica mais reacionária e mais poderosa. Tem a obsessão de criar santos, a começar em casa, sem prescindir de alegados mártires que apoiaram ditaduras. Em Espanha, faltam altares para tantos defuntos franquistas.
O «Caminho» é para os membros da seita o que o Mein Kampf é para o nazismo. Os 999 pontos para a meditação é o número cabalístico com que santo Escrivá remeteu para o 666 do Apocalipse. É a besta de patas para o ar, monsenhor Escrivá a fazer o pino.
Os membros da Opus Dei cultivam a discrição, malgrado os escândalos financeiros que atraem. A falência dos empórios Rumasa, Matesa, e Banco Ambrosiano, são manchas para que faltou benzina, e que não impediram a canonização meteórica do fundador.
Impulsionadores das beatificações e canonizações, dilataram a indústria dos milagres e industrializaram a santidade. Apenas lhes correu mal a escolha de um jesuíta para PDG do Vaticano, papa que correu o risco de ser chamado precocemente à divina presença do patrão, como aconteceu ao Papa João Paulo que após 33 dias de pontificado se esqueceu de respirar.
Enquanto não recupera o poder sobre o catolicismo, a Opus Dei promove milagres e santos, combate a cultura e a liberdade, e, em Espanha, prepara quadros para o VOX e PP nos eus colégios e na Universidade de Navarra.
Tendo o Vaticano abandonado a atualização do Index Librorum Prohibitorum, talvez por vergonha, deixou o trabalho sujo para a Opus Dei, o que, para os devotos, é um precioso serviço ao Divino. O Deus da Opus Dei abomina a cultura e a liberdade, e encarrega-se a Obra de proscrever os livros perniciosos para a salvação.
Carlos Esperança

O louco:

Só falta dar uma Lira para o maluco do Trump logo à noite fazer o mesmo que o Imperador Nero fez quando Roma ardia.

Manuel Pacheco

Nenhuma bomba única foi lançada nos EUA:

Esta cena que você vai testemunhar hoje no Irã... cadeias humanas; cidadãos, atletas, artistas, celebridades, médicos, empresários e pessoas comuns... Todos eles alinhados à volta de instalações de energia, sem armas, mas os seus próprios corpos, como se estivessem a escrever uma mensagem silenciosa, mas retumbante:

Não importa o quão divergimos entre nós, não aceitaremos que nossa pátria seja tocada por agressões externas.

Imagina bem essa cena... Estas são as mesmas pessoas que Trump disse que lhe imploravam para não parar o bombardeio até este regime desaparecer.
Imagine que estas pessoas, apesar de tudo o que estão a suportar pelos bombardeamentos e martírios e pressões e dores, estão ombro a ombro, coesas como uma única estrutura, nem recuando diante da agressão nem negociando sobre a sua terra.
Como sabem perfeitamente que o seu país não possui um sistema de defesa aérea capaz de repelir ataques abrangentes, percebem que qualquer ataque direto a estas instalações poderia ser equivalente ao fim; o fim de tudo o que eles construíram e de tudo o que possuem.
E, por isso, não ficaram atrás das muralhas, mas ficaram com os seus corpos; sabem que, se a greve vier, não distinguirá entre pedra e carne; e, mesmo assim, escolheram estar na linha da frente.
E aqui todos os cálculos frios desmoronam, e todas as análises superficiais desmoronam;
Pois o que está acontecendo não é a defesa de um regime, mas de uma identidade, de dignidade e do próprio significado da pátria.
Quem pensou que mudar de regime é uma decisão imposta por fora ainda não percebeu que alguns regimes não passam de um reflexo vivo da vontade do seu povo, e que quando as pessoas se transformam em escudo, torna-se impossível separa-los do que defendem.
Pode parecer pra você que o ato é loucura, mas o que está nas mãos deles?
Será que eles se escondem em suas casas e veem o fim de tudo diante dos seus olhos?
Ou eles estão diante do fogo como uma última tentativa desesperada de parar isto - não porque não o temam, mas porque o que está por trás deles é mais precioso do que o próprio medo... É a pátria.
E o mais importante, o Irão e este regime e este país têm dono, e ele é o Imam al-Mahdi (que Deus apresse a sua aparência).
Do Facebook

Trump e o Irão:

«Uma civilização inteira morrerá esta noite», disse um chantagista ensandecido perante o mundo quedo, referindo-se ao povo persa e ao Irão que o xiismo transformou em cárcere.

Se as palavras significam o que parecem, estamos à beira de um holocausto, do Armagedão, de uma loucura inimaginável. Não é a razão dos homens que pode explicar a ameaça a que a loucura pode chegar e as trágicas consequências para o dia seguinte.
Como no Iraque, a mentira foi o pretexto, o petróleo o objetivo, a geopolítica a razão, e, desta vez, com rezas dos dois lados, com a religião explicitamente invocada e pessoas ansiosas por matar, entusiasmadas, movidas pela fé, pelo ódio e pela xenofobia, na demência assassina que as consome.
Não é a ameaça de um mitómano que está em causa, é a tragédia em curso antes do que quer que aconteça. Os danos são já irreversíveis
A derrota dos EUA, pondo em causa o país, não o delinquente que o governa, é a vitória da teocracia, da discriminação da mulher, da alegada vontade de Deus sobre a liberdade, a civilização e os direitos individuais, e o fermento de um contágio frenético.
A derrota do Irão é a vitória do mundo sem regras, onde perece o direito internacional e a decência, onde a força se sobrepõe à moral e o despotismo à razão. É a explosão do ódio dos vencidos
O que surpreende é haver quem seja incapaz de dizer não, quem persista em defender os criminosos, quem seja capaz de se aliar ao agressor, quem o ajude, na convicção de que estar ao lado dos poderosos é uma honra e não uma vergonha.
O que considerávamos o mundo livre passará a ser a expressão do mundo ignominioso que um fenómeno de regressão trouxe de volta.
É irónico que, no dia em que o Mundo devia estar a celebrar a vitória da ciência com a auspiciosa odisseia de quatro astronautas a chegarem mais longe do que alguma vez os homens foram, estejamos tão perto de regressar à Idade da Pedra e aos valores de então.

UM JEITO MANSO: A presidência aberta do Seguro e a típica posição ...

UM JEITO MANSO: A presidência aberta do Seguro e a típica posição ...:   Já aqui referi bastas vezes que tenho a opinião de que o Montenegro tem a mania que está um pouco acima do resto da malta e que não tem qu...

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