Rádio Freamunde

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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Vai ser mesmo até ao último ucraniano?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 16/09/2026)


A complexidade da resposta aumenta quando se insere na equação aquilo que na resolução de conflitos se designa por “momento maduro”, ou seja, o momento em que o conflito está pronto para ser negociado e em que a probabilidade de sucesso de um processo diplomático aumenta significativamente.


Mais de quatro anos passados e a guerra na Ucrânia continua sem fim à vista. Se os EUA não conseguiram atingir os seus desígnios estratégicos – o poder no Kremlin não claudicou, a economia russa não soçobrou, as elites não se mobilizaram para derrubar Putin e, pelo contrário, este reforçou o seu poder, – também as forças russas não foram capazes de infligir uma derrota estratégica a Kiev.

A Rússia interveio na Ucrânia, em 2022, inicialmente para impedir que a população russa do Donbass fosse vítima de um desfecho dramático que se encontrava iminente, tendo desse modo ficado gorado o seu objetivo de manter o Donbass na Ucrânia e conseguir assim garantir um número de votantes que permitisse eleger um “novo Yanukovych”. Putin esteve quase a consegui-lo em Istambul (abril de 2022). A Ucrânia teria mantido a sua integridade territorial, amputada da Crimeia, e o Donbass teria adquirido um estatuto de autodeterminação, no seio da Ucrânia; a guerra não teria passado de uma “escaramuça”.

Isso não aconteceu porque vários responsáveis políticos ocidentais, nomeadamente o então primeiro-ministro inglês Boris Johnson, convenceram Zelensky a prosseguir com os combates. Passados dois meses de guerra, a Rússia não se encontrava ainda suficientemente exausta, sendo preciso prolongar a guerra para o conseguir, ou seja, Washington atingir os seus objetivos e impor uma derrota estratégica a Moscovo.

Afinal, para os cidadãos europeus e americanos mais desinformados, a Rússia não passava de uma estação de serviço com armas nucleares, como era frequente ler-se e ouvir-se. Não foi, portanto, de estranhar que a guerra de informação do ocidente se centrasse em propalar a incapacidade militar russa, a falta de meios, o definhamento da sua economia e a precariedade política de Putin, algo que até ao momento em que este texto foi escrito não aconteceu e está longe de acontecer.

Nem a Rússia nem o Ocidente, em especial os EUA, se tinham preparado convenientemente para uma guerra prolongada. Mas havia a convicção em alguns círculos de Washington, que a reconhecida falta de preparação russa iria ser determinante e acabaria por produzir os efeitos pretendidos; mais tarde ou mais cedo a Rússia claudicaria. Esse erro de cálculo estratégico está a ser fatal para Washington.

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A guerra vai continuar porque tanto a Rússia como a Ucrânia estão convictas de que, apesar de tudo, poderão atingir militarmente os seus objetivos estratégicos. Por isso, enquanto não for atingido um impasse doloroso em que nenhuma das partes acredite que possa sair vencedora, e em que a continuação do conflito acarrete custos elevados sem benefício, qualquer iniciativa diplomática está condenada ao fracasso.

Em 25 de junho, apenas 10 dias após Putin ter anunciado (16 de junho) a realização de eleições a 20 de setembro, os ucranianos, patrocinados pelos EUA e europeus, desencadearam uma intensa campanha de ataques com drones – a campanha dos 40 dias – na profundidade estratégica russa, tendo como alvo refinarias e infraestruturas civis, convictos de que isso iria levar Putin à mesa das negociações, mas isso não funcionou.

Vários fatores contribuem para que a guerra continue a sobrepor-se à diplomacia. Em primeiro lugar, o facto da sobrevivência política do presidente Volodymyr Zelensky e da elite política ucraniana que o apoia, depender da continuação da guerra. Qualquer tentativa de negociar a paz ou a rendição às exigências russas implicaria a sua eliminação política, provocada pelas potências ocidentais que o apoiam, muito em particular as europeias, e muito provavelmente a física executada pelos grupos ultranacionalistas, cada vez mais fortes no establishment militar ucraniano, ferozes opositores de quaisquer acordos políticos. Zelensky encontra-se, assim, entre a espada e a parede.

Em segundo lugar, a guerra proporciona: às forças armadas europeias uma oportunidade única de treinarem e adquirirem experiência de combate em situações não reproduzíveis em exercícios ou simulações, contra um adversário sofisticado que poderão ter de defrontar no futuro; e às empresas de armamento ocidentais um laboratório para testar os seus equipamentos, bem como obterem chorudos proveitos.

Em terceiro lugar, não há estímulos do lado russo para Moscovo se envolver numa solução política. Como na segunda guerra mundial, em que a impreparada União Soviética precisou de tempo para se equipar e responder de forma decisiva às forças nazis, derrotando-as, também agora a Rússia utilizou estes quatro anos que nos separam de fevereiro de 2022 para melhor se preparar. Os resultados dessa evolução começam a ser agora evidentes.

A Rússia tem vindo a atingir paulatinamente os seus objetivos, entre eles a «desmilitarização e a desnazificação» da Ucrânia, contando para isso com a ajuda involuntária da liderança ucraniana. O prolongamento da guerra numa situação de desvantagem está a levar ao progressivo desmantelamento do Estado ucraniano. A retaliação russa à campanha dos 40 dias, que não causa dor e sofrimento aos seus patrocinadores e que, por isso, não se sentem inclinados a fazerem concessões, está a agravar diariamente a situação no país.

O tecido económico e industrial da Ucrânia encontra-se em acelerada e sistemática destruição e a enorme redução demográfica em curso corre o risco de se tornar irreversível, ao que se associa a destruição sistemática de infraestruturas críticas. A fuga de largos milhões de cidadãos que não voltarão, ao que se adiciona cerca de dois milhões de mortos e mutilados de guerra, e o nascimento de uma criança por cada quatro mortos terão já, no curto prazo, consequências estruturais na sociedade, não escamoteáveis. Em 1991, começaram o ano escolar 650 mil alunos, em 2026 apenas 250 mil.

Estes e outros desenvolvimentos com um impacto estrutural na sociedade e de efeito acumulado ao longo do tempo, alinham-se com os objetivos russos de longo prazo, isto é, contribuem para neutralizar a Ucrânia enquanto ameaça viável e independente na sua fronteira. Não existem, portanto, no Kremlin, incentivos estratégicos para terminar a guerra enquanto se encontra em curso o desmantelamento sistemático do Estado ucraniano. Estima-se que seriam necessários nesta altura mais de $600 mil milhões para reparar os danos causados pela guerra.

Particularmente perturbador é a inexistência no espectro político ucraniano de grupos políticos, alternativos ao poder vigente, disponíveis para abraçar estratégias mais realistas e evitar o descalabro para que o país caminha. Esses grupos foram sendo progressivamente eliminados desde 2014. Em 20 de março de 2022, Zelensky suspendeu e posteriormente proibiu 11 partidos políticos conseguindo criar assim um vazio político e inviabilizar alternativas.

Presos numa «psicose de guerra» infantil e sem um pensamento estratégico ganhador consistente, os dirigentes europeus ainda não perceberam que não a vão conseguir ganhar. Este autismo masoquista joga a favor do Kremlin, contribui para que a Ucrânia se continue a esvair em sangue e inviabiliza, simultaneamente, o caminho da diplomacia. É importante salientar, que não nos encontramos no caminho de um impasse doloroso mútuo, mas sim unilateral.

A complexidade da resposta aumenta quando se insere na equação aquilo que na resolução de conflitos se designa por “momento maduro” (ripe moment), ou seja, o momento em que o conflito está pronto para ser negociado e em que a probabilidade de sucesso de um processo diplomático aumenta significativamente. Para isso acontecer é necessário que se reúnam simultaneamente duas condições: a presença de um impasse doloroso e a perceção de uma saída negociada, acreditar que existe uma alternativa pacífica e viável acessível.

Sem impasse doloroso não há maturação, mas este sozinho (sem uma saída imaginável) não constitui um momento plenamente maduro para a via diplomática. Como nenhuma destas condições se encontram reunidas, não se vislumbra, neste momento, nenhuma solução política para o conflito. A guerra vai continuar, na pior das hipóteses até ao último ucraniano.

Do blogue Estátua de Sal 

Do insulto:

"O insulto" é designado como uma palavra, gesto, atitude, ou comportamento desrespeitoso que tem como objetivo ofender, humilhar ou ferir a dignidade de alguém". Isto todos nós sabemos. Todos sabemos que insultar é coisa de arruaceiros, de marginais. De gente que não sabe estar nem ser. Em suma, uma má acção. Desmotivada pelos educadores. E bem!

Como em tudo há um "mas" e um "se". É disso que vou falar inspirada na minha anterior publicação, onde eliminei imensos comentários com insultos parvos, sem nexo, papagueados até à exaustão como se fossem revelações divinas feitos por Chegalhóides de convicção, e por imbecis de acção, estes últimos podem ser do Chega ou não! Pegam em imagens enormes, com insultos fáceis já inscritos e ficam todos contentinhos da silva a bolsar asneirada. "A mama. Os 50 anos. Os subsídio dependentes. A esquerdalhada. O Sócrates. Os xuxualistas. O pai deles. A mãe deles. A mulher deles. " .... ou pior, muito pior, ainda que isto. E sentem-se "alarvemente superiores" a fazê-lo. As redes sociais são mesmo a única forma que encontram de descarregar frustração acumulada, principalmente pela estupidez e mal formação humana ... quando, limpar o chão, limpar a casa de banho, correr, ou ir ao ginásio público do parque desde que ao ar livre , é tudo muito melhor e eficaz.
Bom, mas, acerca do "mas" do insulto... ele pode ser uma manifestação, ou reacção de legítima indignação. Aquela que decorre da defesa e preservação pessoal da própria dignidade e humanidade feridas. Como uma resposta de defesa espontânea, consciente e lógica a quem tem a iniciativa de insultar ou lesar egoísta e gratuitamente. A iniciativa do insulto geralmente vem do boçal, do mal educado, do indesejável numa relação de comunicação qualquer.
Agora o insulto subiu para o patamar de normalização através de 60 indivíduos porque lhe foram abertas portas na política, na AR, na comunicação social e nas redes sociais. É um universo onde podem entrar, sem problemas alguns ou consequências. Até ver ... se um dia a Seita é mesmo declarada inconstitucional e extinta da vida social e política! Acredito que sim! Não sei é qual é esse dia!
Enquanto tal não acontecer, cabe a cada um de nós "os outros" equacionar quais as acções adequadas para enfrentar um mal educado! Principalmente quando esse mal educado prejudica o nosso equilíbrio, dignidade e sensatez.
Para mim a indignação é a única ferramenta eficaz para quem tem dignidade. Se a indignação tiver que ter a forma de insulto fundamentado, assumo-a totalmente. Claro que aqui os fundamentos são mais importantes que o próprio insulto. Mas só neste caso.
Espero que tenha sido explícita, para todos os que correm todo o tipo de insulto à vassourada. De forma Wokista e censora.
Há insultos bons e adequados, que são redentores para o nosso equilíbrio e sanidade mental.
E sim, insultar com argumentos inteligentes ou humoristicamente, pode-se! E deve-se, quanto a mim. Insultar gente da Seita é um dever cívico e até "patriótico" para quem gostar do conceito de patriotismo! Aliás o maior insulto a Portugal e aos portugueses é a existência de gente tóxica que se revê num partido de delinquentes que se dá pelo nome de" Chega".
"Chega" é sem sombra de dúvida, o maior insulto à democracia e à inteligência humana!
CHEGA DE CHEGA!
🙂
cp
🌹

Hoje é dia da S. Dicotomia e de S. Maniqueu:

Quem não veste a camisola, quem não agita a bandeirinha, quem não está do nosso lado, do lado dos “bons”, está do lado dos outros, que são, por definição e fatalidade, os “maus”.
A posição de observador, o exercício de análise e a reflexão não são admissíveis, sob pena de exclusão imediata do clube dos “bons”. Porque se fossem admissíveis, teríamos de reconhecer que somos sectários, que nos deixamos enganar, que somos ignorantes e que nos impingiram um par de palas. E isso não pode acontecer. Afinal, não se muda de ‘clube’ e não se critica o ‘clube’ a que, explicam-nos isso todos os dias, pertencemos. Por isso vestimos a camisola, agitamos as bandeirinhas quando passa o comboio da propaganda e murmuramos a ladainha que nos ensinam na catequese diária, nas televisões, nas redes e, no caso dos intelectuais, naqueles fragmentos de textos de três linhas que lemos sobre o assunto.

O que nos faltava era virem agora com factos. Com dados, contexto, com livros ou com apelos à ponderação, ao bom senso, à racionalidade, ao humanismo, à decência. Era o que faltava. Quem não está connosco, a murmurar a mesma ladainhas, a levantar o mesmo braço, no mesmo ângulo, é contra nós. Ponto.

Miguel Szymanski 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Ireneu Teixeira – a Padeira da Geopolítica:

(Luís Rocha, in Facebook, 10/09/2026, Revisão da Estátua)

Gente Boa. Passarei a estar convosco apenas aos domingos, em hora a anunciar em breve. Avisarei sempre que houver alguma alteração na programação. Obrigado por existirem na minha vida.

Há uns tempos que tenho Ireneu Teixeira debaixo do radar, embora não veja televisão, o que me permite conservar alguma esperança na humanidade, mas o algoritmo do YouTube, essa criatura malévola que sabe exactamente onde encontrar o lixo que não procuramos, lá me vai oferecendo de vez em quando umas intervenções do homem no NOW, deixando-me sempre com aquela sensação de que acabei de assistir a uma experiência científica destinada a provar que o cérebro humano consegue encolher em tempo real.

Ireneu é apresentado como comentador de política internacional, o que é uma classificação extraordinariamente ambiciosa para alguém cuja relação com os factos parece ser a de um turista com um mapa de pernas para o ar.  Olha para ele, acha tudo muito interessante e depois vai parar a outro país.

 Em 2024, apresentou no NOW um vídeo da Fox News como sendo recente e relacionado com a Rússia, quando o vídeo era de 2014 e Jeanine Pirro falava do Estado Islâmico. Confrontado com o erro, explicou que recebera aquilo pelo WhatsApp e que não tivera tempo para confirmar a informação.

É uma metodologia extremamente interessante.

 Antigamente verificava-se a notícia antes de a transmitir, agora recebe-se uma coisa no telemóvel, mete-se na televisão e logo se descobre o que era.

A ERC acabou por considerar que o NOW violara o rigor informativo, mas aparentemente nem uma entidade reguladora consegue acompanhar a velocidade com que Ireneu transforma uma mensagem de WhatsApp em política internacional.

Depois veio o episódio do suposto dirigente do Hamas que afinal era um clérigo iraquiano crítico do próprio Hamas, ao qual foram atribuídas declarações que pertenciam a outra pessoa, porque aparentemente até as identidades passaram a ser facultativas no comentário internacional.

 E finalmente chegámos a Ceuta, ou melhor, a Toulouse, porque para Ireneu a geografia parece ser uma ciência dispensável. Mostrou imagens de violência como sendo das últimas horas em Ceuta, quando eram imagens de Toulouse, em França, relacionadas com os festejos da vitória do PSG na Liga dos Campeões.

Toulouse em Ceuta, França em Espanha, Maio em Setembro e adeptos de futebol transformados em migrantes.

 É difícil errar tanto sem começar a suspeitar que há alguém nos bastidores a baralhar deliberadamente o atlas.

 Depois veio a fabulosa história da Mercadona, segundo a qual migrantes estariam a comprar produtos para fabricar bombas, história que a própria empresa desmentiu e que o Polígrafo classificou como falsa.

 Mas nada disto se compara à monumental descoberta histórica de que a Padeira de Aljubarrota teria corrido com os espanhóis em 1640, confundindo a Batalha de Aljubarrota, em 1385, com a Restauração da Independência, em 1640.

São apenas 255 anos de diferença, uma pequena imprecisão para quem comenta a História como quem escolhe uma data num calendário de parede. É como dizer que Camões escreveu Os Lusíadas depois de inventarem a internet.

 O problema é que Ireneu não comenta apenas História, comenta política internacional, guerras, migrações, terrorismo e relações entre Estados, tudo isto com a confiança de quem parece acreditar que o mundo é uma espécie de radionovela onde os factos são apenas sugestões.

 E talvez seja essa a verdadeira inovação.

Já não precisamos de correspondentes internacionais, historiadores ou especialistas, basta um homem com acesso ao WhatsApp, uma cadeira num estúdio e uma relação suficientemente flexível com a verdade.

 Ireneu conseguiu transformar a política internacional numa espécie de quermesse cognitiva onde Toulouse pode ser Ceuta, 2014 pode ser ontem, um crítico do Hamas pode ser dirigente do Hamas e Brites de Almeida pode atravessar dois séculos e meio para participar na Restauração.

Há pessoas que explicam o mundo.

 Ireneu prefere inventá-lo.

 E fá-lo com aquele ar solene de quem acredita que, se disser uma barbaridade com suficiente convicção, talvez a realidade se sinta intimidada e vá embora.

Só que a realidade tem este defeito terrível.

Insiste em existir.

E parece que finalmente alguém percebeu que talvez não seja boa ideia deixar um homem destes diariamente à solta pela televisão, pelo que Ireneu foi finalmente colocado na prateleira, numa espécie de reforma dourada do comentador internacional, passando a mostrar a cara apenas ao domingo.

 É uma solução sensata e, sobretudo, uma solução humanitária. Se não conseguimos impedir Ireneu de comentar o mundo, pelo menos podemos reduzir a exposição do mundo a Ireneu.

 Ao domingo, portanto, lá teremos a sua aparição semanal, como aqueles relógios antigos que abrem uma portinhola e fazem sair um cuco durante alguns segundos para anunciar que ainda estão vivos. A diferença é que o relógio tem a vantagem de não possuir a capacidade de confundir Toulouse com Ceuta.

 E tudo isto acontece na Medialivre, empresa de que Cristiano Ronaldo é accionista, o que acrescenta uma camada de surrealismo à coisa. Não sei se Ronaldo acompanha as intervenções de Ireneu, mas imagino a reunião de accionistas. Alguém apresenta os resultados, outro fala das audiências, alguém pergunta pela estratégia editorial e Cristiano levanta a mão para saber se a Padeira de Aljubarrota já foi entrevistada.

 É que, sendo accionista, Ronaldo adquiriu uma pequena parte da empresa, mas ninguém me garante que tenha recebido também uma fracção da Padeira, de Ceuta, de Toulouse e dos restantes territórios imaginários do império geopolítico de Ireneu.

No fundo, é uma espécie de reforma dourada à portuguesa. Não se manda o especialista para casa, apenas se lhe reduz o horário para que possa continuar a explicar o planeta sem o planeta ter de levar com ele todos os dias.

E talvez seja mesmo essa a grande conquista.

 Durante a semana, a Terra gira normalmente, Toulouse continua em França, Ceuta continua em Espanha, Aljubarrota permanece em 1385 e 1640 continua a ser 1640.

Depois chega domingo, abre-se a televisão, aparece Ireneu e tudo volta a ser possível.

A História pode mudar de século, a geografia pode mudar de continente e o WhatsApp pode transformar-se novamente em Conselho de Segurança da ONU.

 Há pessoas que estudam o mundo para o compreender.

 Ireneu prefere recebê-lo por mensagem.

Felizmente, agora só ao domingo.

Valha-nos isso…

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas:

https://theblindspot.pt/desinformacao-no-canal-now…

https://theblindspot.pt/comentador-do-now-justifica…

https://theblindspot.pt/queixa-the-blind-spot-a-erc…

https://theblindspot.pt/depois-de-condenacao-da-erc-por…

https://www.rtve.es/…/falso-jovenes…/17178491.shtml

https://poligrafo.sapo.pt/…/mercadona-contactou-a…

https://www.jf-aljubarrota.pt/pt_pt/history/padeira

Do blogue Estátua de Sal

Quem é que ainda quer o quê com esta guerra?

A Rússia invadiu a Ucrânia com meia dúzia de objectivos, não necessariamente por esta ordem: travar a expansão da NATO, impor a neutralidade da Ucrânia, reconquistar territórios que considera históricos, proteger minorias russas, controlar o acesso ao Mar Negro, neutralizar oligarcas ucranianos.
Os EUA desencadearam, entraram e empenharam-se nesta guerra com meia dúzia de objectivos, não necessariamente por esta ordem: separar a Alemanha da Rússia, enfraquecer a Rússia, conquistar o mercado energético da União Europeia, proteger o dólar, vender armamento e expandir a NATO.
A Ucrânia mantêm-se nesta guerra porque, dois meses depois de invadida pela Rússia, foi iludida pelos EUA e Reino Unido com a promessa de um “apoio total” se abandonasse as negociações que previam a sua neutralidade.

A União Europeia mantém e alimenta esta guerra já sem objectivos viáveis, face à sua crescente debilidade económica, por três razões: incapacidade de defender os seus interesses económicos e políticos, miopia a raiar a estupidez e a tradicional expectativa dos seus governantes que contam com o tacho que se segue (num banco, fundo, universidade norte-americana ou noutra organização ao serviço dos “valores ocidentais”).

 Miguel Szymanski

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Ó se faz favor, a democracia!


***
A atual Assembleia da República tem um problema de qualidade. E não estou sequer a falar de esquerda, direita, liberais, socialistas, conservadores ou das várias espécies que o nosso jardim parlamentar foi acumulando. Falo de uma coisa mais elementar e, por isso mesmo, talvez mais inquietante: há demasiados deputados que parecem pouco preparados para exercer as funções para que foram eleitos, que entram numa audição sem conseguirem construir uma inquirição decente, que confundem agressividade com eficácia e que, quando finalmente lhes chega a palavra, tratam a língua portuguesa como aquelas malas que regressam de uma qualquer low-cost, reconhecemos vagamente a forma, mas percebe-se que houve violência no percurso.
Não é preciso desejar o regresso de grandes tribunos, até porque a nostalgia costuma ser uma fraude praticada pela memória. O Parlamento português de outros tempos também teve imbecis, oportunistas e gente que só descobria o assunto em discussão quando alguém lho explicava ao almoço. Mas existia, pelo menos, uma certa vergonha de parecer impreparado. Agora, por vezes, a impreparação é exibida com a confiança de quem acabou de regressar de Harvard.
Há perguntas parlamentares que começam razoavelmente bem e, a meio caminho, parecem perder a noção do destino. O deputado acrescenta uma ideia, depois outra, abre um parêntesis que nunca chega a fechar, tropeça numa subordinada e, quando finalmente aterra no ponto de interrogação, já ninguém sabe ao certo o que estava a perguntar, às vezes, suspeito, nem ele. Fica então aquele breve silêncio em que o ministro tenta reconstruir a pergunta a partir dos destroços, o deputado consulta as notas na esperança de encontrar uma pista e a língua portuguesa, discretamente, pede para não ser envolvida no processo.
No Chega isto adquiriu uma dimensão quase estética. Não porque a falta de preparação seja monopólio do partido, seria injusto retirar aos restantes a sua quota histórica de incompetência — mas porque ali se juntou à pobreza argumentativa uma ideia de comportamento parlamentar que parece inspirada simultaneamente numa claque, numa reunião de condomínio e numa caixa de comentários do Facebook.
Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega (e convém repetir: líder parlamentar, não o primo de alguém que entrou em São Bento à procura da casa de banho) desenvolveu entretanto uma forma muito própria de chamar a atenção da Mesa. Estala os dedos. As célebres “castanholas”, como o próprio já lhes chamou, acompanhadas não raras vezes daquele “ó se faz favor…” que transporta imediatamente o hemiciclo para um tasco de bairro às duas da tarde. A diferença é que, no tasco, depois de estalar os dedos daquela maneira, seria razoável acrescentar: “Ó chefe, são três cafés: um cheio, um curto e outro com cheirinho.” Em São Bento pede-se a palavra. A mecânica, porém, é inquietantemente semelhante.
E talvez o mais extraordinário já nem seja o gesto, mas termos deixado de o achar extraordinário. Repetiu-se, foi tolerado, repetiu-se outra vez e acabou por adquirir aquela respeitabilidade que só o hábito consegue oferecer ao absurdo. A este ritmo, não me surpreenderia que numa próxima revisão do Regimento aparecesse formalmente consagrado o procedimento: artigo 74.º, n.º 3 : “O líder parlamentar poderá solicitar a palavra através de dois estalidos secos, devendo a Mesa responder preferencialmente antes do terceiro.” Ao terceiro estalido, presume-se deferimento.
E aqui convém não absolver José Pedro Aguiar-Branco apenas porque, de vez em quando, perde a paciência e lembra ao Chega que aquilo é a Assembleia da República. O Presidente tem uma função ingrata, reconheço; moderar o atual Parlamento deve ser parecido com supervisionar uma excursão escolar depois de alguém distribuir Red Bull aos miúdos. Mas também teve, ao longo do tempo, uma tolerância excessiva com esta permanente experimentação dos limites. A intenção talvez fosse sensata, não transformar o Chega em vítima, não alimentar o espetáculo, permitir que o Parlamento funcionasse , mas há um momento em que a tolerância deixa de domesticar o comportamento e começa simplesmente a ensiná-lo até onde pode ir. E eles foram aprendendo.
O “ó se faz favor”, as interrupções, os gritos, os comentários permanentes, as castanholas. Um centímetro hoje, outro amanhã. Nada suficientemente grave para provocar uma crise constitucional, tudo suficientemente pequeno para ser tolerado. As instituições também se degradam assim: não com um golpe de Estado às sete da manhã, mas através de pequenas cedências à hora do almoço. A moção de censura da semana passada foi talvez a fotografia perfeita do ponto a que chegámos.
O Chega apresentou uma moção que, goste-se ou não das suas razões, é um dos instrumentos mais sérios que a Constituição coloca à disposição de um partido parlamentar: pede-se, em última análise, a queda do Governo (bem neste caso, pedia-se a demissão do Luis, não o Montenegro, o outro, mas nem vou por aí). Seria razoável esperar que a solenidade do instrumento produzisse algum efeito sobre a solenidade do comportamento. Não produziu.
Depois de a moção ser chumbada, os sessenta deputados do Chega levantaram-se, bateram nas bancadas e começaram a gritar “demissão”. Não uma ou duas vezes, naquele excesso momentâneo que a política às vezes desculpa, mas repetidamente, em coro, com a disciplina rítmica de uma bancada atrás da baliza.
Faltou pouco. Um tambor, talvez. Dois cachecóis erguidos. Aquele gajo sem camisola que existe misteriosamente em todos os estádios europeus, mesmo quando estão quatro graus. Mas a parte verdadeiramente deliciosa ainda estava para chegar, porque PSD e CDS decidiram levantar-se também e responder com uma ovação ao Governo.
Durante alguns segundos tivemos uma síntese extraordinariamente eficiente da política portuguesa contemporânea: de um lado uma claque gritava, do outro uma claque aplaudia, e ao centro estava a Assembleia da República a desempenhar a função cada vez mais ingrata de fornecer o cenário (uma sessão de farmar aura na Assembleia, sem adolescentes mas com os nossos deputados).
O PSD podia ter feito uma coisa muito mais violenta: nada.
Ficar sentado, em silêncio, a observar sessenta adultos aos gritos teria transformado o espetáculo do Chega naquilo que ele realmente era. O ridículo precisa muitas vezes de adversário para parecer conflito; deixado sozinho, corre o risco terrível de parecer apenas ridículo.
Mas ninguém hoje quer perder a oportunidade de produzir a sua própria imagem. O Chega precisava do vídeo da revolta; o PSD precisava do vídeo da união em torno do Governo. Uns saíram com “DEMISSÃO”, os outros com a ovação, as equipas de comunicação tiveram matéria para as redes e todos puderam regressar a casa convencidos de que tinham ganho alguma coisa.
Talvez tenham. Tenho dúvidas de que tenha sido o Parlamento.
Aguiar-Branco acabou por dizer que aquela cena “não dignifica o Parlamento”, o que é verdade, embora exista alguma melancolia no facto de o Presidente da Assembleia ter de explicar aos deputados que não devem transformar a Assembleia numa claque. É como encontrar num hotel um aviso a dizer que é proibido cozinhar peixe no secador de cabelo: a regra é obviamente sensata, mas passamos imediatamente a querer saber o que aconteceu ali antes da nossa chegada.
O problema é que tudo isto encaixa demasiado bem no tempo em que vivemos. O Parlamento já não fala apenas para o Parlamento. Fala para o excerto, para o reel, para os vinte segundos que circulam no telemóvel entre um anúncio de colchões e um cão vestido de astronauta. E nesse ambiente o argumento parte em desvantagem, porque necessita de contexto, de tempo e daquela velha excentricidade chamada atenção.
O grito é muito mais económico. Orwell escreveu que a degradação da linguagem e a degradação do pensamento acabam por alimentar-se uma à outra. Não sei o que escreveria depois de assistir a algumas audições parlamentares portuguesas, mas desconfio que pediria uma segunda edição.
É também por isso que me incomoda esta ideia crescente de que exigir preparação, educação ou clareza aos deputados é uma espécie de elitismo. Como se representar o povo significasse obrigatoriamente reproduzir os seus piores comportamentos. Eu faço parte do povo e não quero que o piloto do avião represente a minha competência aeronáutica. Quero, muito sinceramente, que esteja bastante acima dela.
Se o comandante aparecer antes da descolagem e disser que nunca foi muito de manuais, que aprende sobretudo fazendo e que não é desses especialistas, eu não sinto uma emocionante proximidade com as elites populares. Procuro a saída de emergência.
A chungaria de que falo não tem, portanto, nada a ver com classe, sotaque ou roupa. Há chungalhada com sapatos de mil euros e gente de fato-macaco com uma educação irrepreensível. Chungaria é a desistência voluntária da exigência; é perceber que estudar dá trabalho e descobrir que levantar a voz produz resultados semelhantes; é trocar preparação por performance e depois chamar autenticidade ao negócio. E é isso que talvez estejamos a normalizar.
Não creio que tenhamos batido no fundo. O fundo é uma ideia demasiado otimista, porque pressupõe que existe um último piso. A experiência portuguesa — e, convenhamos, a experiência humana em geral — recomenda prudência: sempre que pensamos ter chegado à cave, alguém aparece com uma chave e informa-nos de que ainda há estacionamento. O problema não será sequer continuarmos a descer. Será deixarmos de sentir que estamos a descer.
Quando as castanholas do líder parlamentar, os “ó se faz favor”, as perguntas que chegam ao fim sem saber de onde vieram, os deputados aos gritos, os deputados aos aplausos e a Assembleia transformada numa espécie de bancada com Regimento já não nos provocarem estranheza, talvez não tenhamos finalmente chegado ao fundo.
Teremos feito uma coisa muito mais portuguesa. Teremos arranjado maneira de pôr lá uma esplanada.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

A volta completa; O CASO IRENEU:

Eu lembro-me como começou a moda das fake news nas redes sociais. Com um tom de humor, de engraçadismo, tipo "imprensa falsa" ou, mal comparado, o "Inimigo Público". Se não aconteceu podia ter acontecido, ah ah ah. Ah. E a moda do ‘jornalista-cidadão’: olhe aqui este site tão bonito, escreva o que quiser, seja o verdadeiro ‘jornalista independente’! Rapidamente se percebeu o perigo que se agigantava. Não faltou muito até que essas notícias falsas, ou manipuladoras, com agenda, sempre imitando o melhor possível o layout das verdadeiras notícias feitas por jornalistas profissionais, se espalhassem, provocassem debate e comentários entendidas por muita gente como verdadeiras, chegassem a marcar agendas e perceções. Criaram-se sites especializados no assunto. Os Bannons/Trumps desta vida viram o grande potencial desses conteúdos nesta poderosa ferramenta das redes.
Esse ambiente tóxico e pútrido (bem resumido na palavra sempre usada pelos que passaram a confiar mais nesses conteúdos do que no jornalismo: Jornalixo!) fez o seu caminho, como sabemos, e... chegou aos media tradicionais, os tais que têm jornalistas profissionais, com regras, com um estatuto e um código deontológico a defender.
Ireneu Teixeira é um excelente exemplo desse fenómeno. De repente ali estava ele, diariamente, quase uma hora, sem contraditório. "Recebi este vídeo no wattsapp...", dizia. "Não tive tempo de confirmar se era verdadeiro...", desculpava-se, depois, quando era confrontado com as mentiras e falsidades que espalhava no seu "comentário".
-"Está aqui este vídeo do que se está a passar agora em Ceuta!", gritava, alarmista. O vídeo era de Toulouse, há uns anos.
-"Esta mulher, esta cantora, foi enforcada no Irão!". Afinal, a cantora estava viva.
-"Judeu que entre no Irão é um homem morto!" (esta ouvi eu). Esquece-se que há no Irão muito antigas comunidades judaicas, e nesta estúpida guerra até foi destruída uma sinagoga num ataque israelo-americano.
-"No Mercadona os imigrantes andam a comprar ingredientes para fazerem bombas!". Disparate logo desmentido.
-"Este vídeo é sobre a Rússia de Putin". Era de 2014, sobre o Estado Islâmico...
-"Os Filipes que estiveram cá até serem corridos pela Padeira...". Mas qual padeira? A de Aljubarrota, em 1640?! Sem comentários.
-"O jornalismo está dominado pela extrema esquerda!"
E mais, mais, mais...
É um subproduto, com praticamente nada de jornalístico, a chegar a um canal noticioso - há uns anos não aconteceria, pelo menos com esta extensão. Diariamente. Sem contraditório. O canal Now até devia ainda explicar porque é que isso aconteceu, porque é óbvio que aquele homem, que deve ter jeito para algumas coisas, não tem as mínimas competências para analista político internacional, e até se atrapalha a dizer "multiculturalismo" e outras palavras com mais de três sílabas.
Acredito que porque tudo isto já estava a ser uma vergonha gritante para o Now, o canal resolveu terminar com essa presença diária (mas manteve um comentário de Ireneu aos domingos...).
E o que aconteceu? Aquelas tais redes que se alimentam de fakes, conspirações, manipulações, semiverdades e preconceitos (muitas delas com nomes a querer fingir credibilidade, tipo "Diário Expresso" e coisas assim) vieram, em uníssono, numa campanha orquestrada, e com muitos bots nos comentários, clamar pela grave censura do afastamento de Ireneu, o único jornalista que "dizia as verdades!", o "melhor de todos", aquele que, claro, incomodava "o sistema" e teve que ser calado! O Now passou a ser um canal esquerdalho que todos deviam cancelar!

Assim estamos. A coisa deu a volta completa, passando pelo ponto de partida. Temo pelo dia, que até me parece possível (vejam-se as eleições que fizeram Trump voltar à Casa Branca...), em que a maioria das pessoas vai preferir (à esquerda e à direita), ou vai só receber, graças ao todo-poderoso algoritmo, as fontes de informação cheias de falsidades que lhes alimentam uma visão do mundo e os seus preconceitos e vai desconfiar do jornalismo profissional - que aí anda, ainda, em jornais, documentários, rádio, online, com grande qualidade e com regras - tipo... não mentir deliberadamente.

Pedro Dias de Almeida