Rádio Freamunde

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quarta-feira, 11 de março de 2026

O vestido que abalou a civilização ocidental:

(Luís Rocha, in Facebook, 10/03/2026, Revisão da Estátua)

Portugal acordou em sobressalto. Não foi um terramoto, nem uma crise financeira, nem sequer uma daquelas crises governativas que brotam como cogumelos no outono. Não. Desta vez a República foi confrontada com algo muito mais grave. O preço de um vestido.

Sim, um vestido. A peça de tecido que Margarida Maldonado Freitas, empresária, farmacêutica e mulher de um Presidente recém-empossado, teve a ousadia de vestir na cerimónia. Um acto escandaloso que obrigou a imprensa especializada em assuntos de elevada gravidade nacional, como decotes, pulseiras e destinos de férias de celebridades, a mobilizar os seus mais experientes analistas têxteis.

A investigação começou como todas as grandes investigações jornalísticas. Com um zoom numa fotografia e uma busca no Google. Pouco depois surgiu a manchete: “Descobrimos o vestido!”. Um trabalho hercúleo digno de Watergate, mas com muito mais seda e muito menos Nixon.

A partir daí abriu-se um debate profundo sobre a democracia portuguesa. Não sobre salários, habitação ou política externa. Não. Sobre se uma mulher adulta, empresária e economicamente independente pode comprar a roupa que lhe apetece com o dinheiro que é dela.

O choque moral foi imediato.

De repente, Portugal descobriu que a República está perigosamente dependente do preço das bainhas. Um vestido caro pode aparentemente comprometer a estabilidade institucional, abalar a Constituição e talvez até provocar uma ligeira ondulação no Atlântico.

Naturalmente, esta análise política sofisticadíssima nasceu no laboratório intelectual de uma revista cuja missão civilizacional é acompanhar a evolução histórica da humanidade através de três indicadores fundamentais. Roupa, casamentos e dietas milagrosas.

Refiro-me, claro, àquela publicação dedicada ao estudo científico das celebridades que pertence ao grupo que também controla o Correio da Manhã, a CMTV, o Record e outras catedrais do rigor informativo. Esse mesmo grupo, hoje chamado Medialivre, herdou um vasto império mediático que inclui jornais, revistas e canais televisivos capazes de transformar qualquer trivialidade numa catástrofe nacional em menos de dez minutos.

É um ecossistema mediático impressionante. Lançam uma história numa revista de celebridades, amplificam-na na televisão, discutem-na em painéis, repetem-na nas redes sociais e, quando damos por nós, o país inteiro debate a bainha presidencial como se fosse uma questão de soberania.

É assim uma espécie de economia circular da indignação pimba.

E não se pense que isto é casual. Não. Há método. Há disciplina. Há uma dedicação quase monástica à arte de transformar trivialidades em escândalos.

Durante anos este mesmo ecossistema mediático serviu de palco permanente a uma figura política que os portugueses conhecem carinhosamente como “o Coiso”, personagem omnipresente em estúdios televisivos, debates inclinados e manchetes que pareciam escritas com a banda sonora das Valquirias de Wagner. Muito 3º Reich.

Agora que começa um novo mandato presidencial vindo da esquerda, os mastins mediáticos parecem ter decidido iniciar a temporada com aquilo que na ciência política se chama um “ataque preventivo à bainha institucional”.

Primeiro, o vestido. Depois talvez os sapatos. Mais tarde, quem sabe, a cor das cortinas de Belém. A vigilância republicana não pode abrandar.

Entretanto, nos estúdios televisivos, continuam os debates conduzidos por comentadores de grande erudição, incluindo a inevitável astróloga residente, figura omnisciente que analisa política internacional, economia global, conspirações planetárias e o alinhamento de Vénus com a taxa Euribor.

É reconfortante saber que o destino da República está também dependente dos trânsitos de Mercúrio.

Mas voltemos ao escândalo têxtil.

O que torna esta polémica particularmente patusca é o seu objecto. Uma mulher adulta, com carreira própria, que provavelmente ganha o suficiente para comprar quantos vestidos quiser sem pedir autorização ao país.

No entanto, segundo a nova escola de pensamento mediático, a esposa de um Presidente deve vestir-se segundo um rigoroso código de austeridade patriótica. Talvez uma túnica de serapilheira, um xaile de lã e sandálias franciscanas.

Tudo o resto ameaça a democracia.

E assim caminhamos, num país parolinho, onde o preço de um vestido provoca mais indignação mediática do que meia dúzia de escândalos financeiros. Um país onde uma revista especializada em frivolidades e pimbalhices consegue lançar o grande debate político da semana e pôr um sem número de alminhas a debitar parvoíces sobre uma mulher emancipada, que apenas comprou um vestido com o seu dinheiro.

Isto tudo um dia depois do Dia da Mulher e dos milhares de clichês sobre a sua emancipação. No fundo, talvez devamos agradecer.

Num mundo cheio de guerras, crises e desigualdades, é reconfortante saber que ainda existem instituições mediáticas dedicadas a proteger a nação contra o perigo mais terrível de todos.

Uma senhora bem vestida. A República agradece.

Beijinhos e até à próxima.

Referências consultadas

https://eco.sapo.pt/…/medialivre-com-lucros-de-19…

https://revistabusinessportugal.pt/medialivre-a-nova…

https://ban.pt/…/medialivre-com-lucros-de-19-milhoes…

https://www.flash.pt/moda-e-beleza/detalhe/descobrimos-o-vestido-da-nova-primeira-dama-saiba-quanto-custa-e-como-ela-o-adaptou-a-portugalidade

Do blogue Estátua de Sal 

terça-feira, 10 de março de 2026

A declaração de Vladimir Putin:

De que a Rússia pode voltar a fornecer petróleo e gás para a Europa não é um gesto de boa vontade. É um recado claro. Durante anos, os europeus tentaram se afastar da energia russa, pressionados por Washington e pelas tensões políticas. Apostaram em sanções, em novos fornecedores, em rotas alternativas. Mas a realidade energética é mais dura do que qualquer discurso político. Quando a crise aperta e o petróleo dispara, a dependência volta a aparecer.

O problema é que a guerra no Oriente Médio, o risco no Estreito de Ormuz e a instabilidade global estão empurrando o preço do petróleo para níveis perigosos. E a Europa sabe muito bem o que isso significa. Indústrias param, contas de energia explodem e a economia inteira começa a sentir o impacto. Em outras palavras, o continente que tentou virar as costas para Moscou agora percebe que talvez não tenha tantas alternativas quanto imaginava.
É exatamente aí que Putin entra no jogo. Quando ele diz que a Rússia está pronta para fornecer energia novamente, desde que a Europa “se reoriente”, ele está basicamente dizendo o seguinte: a chave da estabilidade energética ainda passa por Moscou. Não é apenas comércio. É poder estratégico.
E isso coloca os europeus numa posição delicada. Sem energia barata e estável, a economia europeia perde competitividade, enfrenta inflação e sofre pressão interna. Ao mesmo tempo, voltar a depender da Rússia seria admitir que a estratégia de isolamento não funcionou como planejado.
No fim das contas, o que está acontecendo é uma inversão silenciosa de poder. Durante décadas, a Europa acreditou que ditava as regras do jogo global. Agora, com a crise energética batendo à porta, quem está com a carta mais forte na mesa é justamente quem controla uma das maiores reservas de energia do planeta.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Lula voltou a tocar num tema:

Que muitos líderes preferem evitar: defesa nacional. Ao falar ao lado do presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, o presidente brasileiro deixou claro que um país que não se prepara para se defender acaba ficando vulnerável. A frase foi direta e forte: se uma nação não prepara sua defesa, qualquer dia alguém pode invadi-la.
Essa declaração não é apenas retórica política. Lula está a levantar um debate que muitos países do chamado Sul Global começaram a enfrentar com mais seriedade. Durante décadas, várias nações dependeram de equipamentos militares produzidos por grandes potências, comprando armas, tecnologia e sistemas de defesa de países mais ricos. Agora, o discurso começa a mudar: produzir a própria defesa pode ser uma questão de soberania.
Ao falar em parceria com a África do Sul, Lula mostrou que essa visão vai além do Brasil. A ideia é que países emergentes comecem a cooperar mais entre si para desenvolver tecnologia militar e capacidade de proteção própria. Segundo ele, não faz sentido continuar dependendo sempre dos chamados “senhores das armas”. Se duas nações têm indústria, tecnologia e capacidade científica, elas podem trabalhar juntas e fortalecer suas próprias defesas.
Esse posicionamento também coloca o Brasil novamente como protagonista em discussões internacionais importantes. Em vez de falar apenas de diplomacia ou comércio, Lula levanta um ponto estratégico: autonomia e segurança nacional. Em um mundo cada vez mais instável, onde guerras e tensões voltaram a crescer, discutir defesa deixou de ser apenas assunto militar. Passou a ser assunto de soberania.
Ao mesmo tempo, Lula também alertou para outra consequência das guerras atuais. Segundo ele, conflitos como o que acontece no Oriente Médio acabam afetando diretamente o mundo inteiro. O preço do petróleo sobe, cadeias de produção ficam mais frágeis e alimentos podem ficar mais caros. Ou seja, guerras distantes acabam pesando no bolso das pessoas comuns.

No fim das contas, a mensagem de Lula é simples e direta: um país que quer ser respeitado precisa estar preparado. Preparado para dialogar, para negociar, mas também preparado para proteger sua própria soberania se for necessário. E para ele, essa preparação começa com algo fundamental: capacidade própria de defesa.

Moz na Diáspora 

Marcelo, pantomineiro:

 

Durante os primeiros dias da guerra:

Donald Trump parecia convicto de que havia conquistado uma vitória rápida contra o Irã. A morte do antigo líder supremo iraniano e os primeiros ataques militares foram apresentados como um golpe decisivo contra o regime de Teerã. A narrativa era simples: o Irã estaria enfraquecido, desorganizado e incapaz de reagir com força. Para Trump, aquilo parecia ser o início de um desfecho rápido para o conflito.
Só que a realidade começou a mostrar outra coisa.
Em vez de colapsar, o Irã reagiu. O país reorganizou rapidamente sua liderança, escolheu um novo líder supremo e começou a responder militarmente. Bases americanas foram atingidas, ataques se ampliaram pela região e o conflito passou a envolver cada vez mais atores no Oriente Médio. Aquilo que parecia uma vitória imediata começou a se transformar num cenário muito mais complexo e perigoso.
Esse é um erro clássico na geopolítica: confundir um golpe inicial com vitória estratégica.
A história está cheia de exemplos de potências que acreditaram ter vencido uma guerra nos primeiros dias, apenas para descobrir depois que haviam aberto um conflito muito mais longo. O Irã não é um país pequeno, nem um regime frágil. Trata-se de um Estado com décadas de experiência em guerra indireta, com redes militares espalhadas pela região e com uma capacidade enorme de resistir sob pressão.
Agora começa a aparecer outro problema que pode pesar para Washington: o custo político e econômico. O preço do petróleo subiu, o comércio internacional começou a sentir os impactos e aliados dos Estados Unidos também começaram a demonstrar preocupação com uma guerra prolongada na região.
É nesse ponto que a estratégia inicial de Trump começa a ser questionada. O que parecia uma demonstração de força pode acabar se tornando uma armadilha estratégica. Porque guerras no Oriente Médio raramente seguem o roteiro imaginado por quem decide iniciá-las.
No fim das contas, a grande pergunta que começa a surgir agora é simples: Trump venceu cedo demais na própria narrativa?

Porque declarar vitória nos primeiros dias pode ser politicamente útil. O problema é quando o conflito continua… e o adversário mostra que ainda está muito longe de ser derrotado.

Moz na Diáspora 

O papagaio e o corvo:

(João Gomes, in Facebook, 09/03/2026)

Quando Marcelo Rebelo de Sousa entrou em Belém, trouxe consigo uma qualidade rara na política portuguesa: a ubiquidade. Marcelo esteve em todo o lado. Nas cheias, nas praias, nos incêndios, nos hospitais, nas feiras, nas televisões e – talvez mais importante – nas câmaras dos telemóveis de qualquer cidadão que tivesse a oportunidade de o encontrar a menos de três metros de distância.

Foi uma presidência ruidosa, quase tropical. Marcelo falou muito, apareceu ainda mais e pareceu possuir uma curiosa incapacidade de permanecer ausente. Como um papagaio numa varanda virada para o Tejo, repetiu, comentou, explicou e por vezes antecipou-se a tudo. A política portuguesa, que sempre preferiu a discrição de gabinetes e a prudência das frases medidas, ganhou durante dez anos um presidente que não temeu o excesso de palavra.

Não faltaram críticas. Demasiado presente. Demasiado comentador. Demasiado pronto a surgir onde talvez bastasse o silêncio institucional. Mas também não faltou algo que raramente se vê no poder: proximidade real com o público. Marcelo compreendeu cedo que a política moderna se faz tanto de gestos como de decisões. E cultivou ambos, com uma habilidade que poucos lhe negam. Agora sai. E entra António José Seguro.

Se Marcelo é (foi) um “papagaio” – colorido, ruidoso e impossível de ignorar – Seguro parece outra “ave”. Mais escura. Mais silenciosa. Talvez um corvo.

A ideia pode parecer pouco simpática, e talvez seja injusta para o corvo. Na história de Lisboa, dois corvos acompanharam as relíquias de São Vicente e ficaram para sempre no brasão da cidade, empoleirados num barco. Não falavam, não gesticulavam, não comentavam. Observavam. É possível que essa seja precisamente a presidência que agora começa.

António José Seguro chega a Belém num país onde a política se tornou mais nervosa. A extrema-direita, personificada por Ventura, descobre finalmente que existe espaço eleitoral para o ruído permanente. O discurso político torna-se mais áspero, mais teatral, mais impaciente. Neste ambiente, o silêncio pode parecer fraqueza. Mas também pode ser vigilância.

A presidência portuguesa não governa. Não legisla. Não dirige maiorias parlamentares. O seu poder é outro: esperar. Observar. Escolher o momento exato em que uma palavra, um veto ou uma dissolução do parlamento se tornam inevitáveis. Marcelo preferiu  ocupar o palco. Seguro talvez prefira o mastro.

É um lugar menos visível, mas não necessariamente menos importante. De lá vê-se o horizonte – e também os navios que se aproximam. Alguns trazem mercadorias. Outros trazem corsários.

A esperança, modesta e um pouco irónica, é que o novo ocupante de Belém saiba fazer aquilo que os corvos fazem melhor do que qualquer papagaio: permanecer imóvel tempo suficiente para perceber o que realmente está a acontecer. Porque, na política portuguesa, falar é fácil. Difícil é saber quando ficar em silêncio.

De todo o modo, boa sorte para o que sai, melhor sorte para o que entra. É preciso desejar-lhe excelentes voos e que – sempre que for preciso – saiba sair do mastro.

Bom dia!

Do blogue Estátua de Sal 

Henrique Raposo volta a disparatar:

No seu espaço de comentário televisivo de 6 de MarçoHenrique Raposo falou sobre a guerra do Irão, começando por afirmar que temos de sentir uma certa alegria pela derrota de uma ditadura, que o povo iraniano comemora a derrota de um ditador. Ficamos, então, com a impressão ou mesmo com a certeza de que as acções israelo-americanas provocaram uma derrota.

A ser verdade essa derrota (ou a ser iminente ou considerada iminente), é justo que haja alegria, mesmo que possamos criticar os meios utilizados e mesmo que acreditemos nas boas intenções de Israel e dos Estados Unidos.

É perfeitamente compreensível que haja esperança entre os iranianos, massacrados por uma teocracia hedionda e Henrique Raposo mostra um vídeo de uma iraniana que deixa essa esperança clara.

Logo a seguir, acusa a esquerda de nunca estar do lado dos que querem a democracia. Não apresenta uma única fonte, uma citação, um vídeo que prove uma ocorrência dessa generalização.

Neste segmento sobre o Irão, acaba a afirmar que não é possível fazer uma transição para a democracia e que todas as operações militares americanas no Médio Oriente que tiveram ou fingiram ter essa intenção falharam.

Ainda acrescenta que Trump quer, com este ataque, encurralar a China, o que, sendo verdade, afasta os EUA de um generoso combate pela democracia.

Em suma, se não é possível fazer uma transição e se os EUA falharam demasiadas vezes (sempre?) na libertação dos povos, ficamos com a impressão de que, afinal, a ditadura iraniana não foi derrotada ou que, a haver derrota, isso não significa que nasça daí um regime democrático e que a compreensível alegria que muitos sentem seja, muito provavelmente, ilusória.

No mundo simplista do comentário televisivo, equivalente mediático das conversas de café ou das redes sociais, criticar os bombardeamentos sobre o Irão é o mesmo que defender o regime iraniano, tal como criticar o governo israelita é equivalente a ser anti-semita. É o mundo em que se antecipa uma festa da democratização de um país, como se fosse possível alterar à bomba o percurso histórico de um território com mais de 90 milhões de habitantes.

A solução será ficar parado diante da opressão a que são sujeitos os seres humanos de outros países? Com certeza que não, mas convém pensar nisso a sério, para que não nos admiremos, por exemplo, com a radicalização religiosa, militar e política provocada também pelos americanos, que andam, sob a capa das boas intenções, a cometer crimes vários desde os anos 40 do século passado, com a agravante de que os países cúmplices desses crimes serão também atingidos, sendo que as respostas a crimes são, frequentemente, outros crimes, numa perpetuação letal da luta para se saber se primeiro veio o ovo ou a galinha.

08/03/2026 by  

Do clogue Aventar