Com a última canção do concerto, transmitido ontem pela RTP1, homenageio o cantor intemporal.…
Coisas que Podem Acontecer:
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
sexta-feira, 24 de julho de 2026
A culpa é do computador:
(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 22/07/2026, Revisão da Estátua)

Portugal acordou e descobriu que os exames nacionais — que durante décadas sobreviveram só com papel, caneta e bom senso — tinham sido entregues a um computador.
E o computador, esse sacana, decidiu pegar num sistema que funcionava há décadas e transformá-lo numa raspadinha digital.
Páginas desapareceram. Respostas trocaram de dono. Notas foram suspensas. Exames foram corrigidos com parâmetros errados.
Houve alunos que receberam folhas de outros alunos. Alunos que não receberam nota nenhuma. Alunos que receberam uma nota sem saber se era deles, se era verdadeira, ou se estava só de passagem, a caminho de outro boletim.
O computador, ao que parece, teve uma semana difícil. O ministro, coitadinho, só carregou no botão. Carregou, sim, sem ter recebido a avaliação completa do projeto-piloto. Mas isso é um detalhe técnico.
Porque em Portugal, quando um ministro carrega num botão sem saber o que ele faz, a culpa é sempre do botão. Depois de carregado o botão, o computador pôs-se a processar — e alguns alunos ficaram com a classificação “suspensa”. Nem positiva, nem negativa. Uma espécie de nota quântica: o aluno passou e chumbou ao mesmo tempo.
O futuro desse aluno era, em simultâneo, uma carreira em engenharia aeroespacial e um turno ao balcão do McDonald’s. Às nove da manhã tinha média para Medicina. À hora de almoço, para Engenharia. Ao fim da tarde, já andava a pesar seriamente um curso de trolha.
Mas calma, não exageremos: o Governo garantiu — repetidas vezes — que nenhum aluno seria prejudicado.E sempre que um Governo garante repetidamente que ninguém vai ser prejudicado, é porque milhares já estão a sê-lo.
Queres saber se foste um deles? Então são 25 euros. Porque, claro, cabe à família pagar para confirmar se foi o Estado a fazer asneira. É quase um princípio pedagógico: os erros são grátis para quem os comete e pagos por quem os sofre. As famílias com dinheiro contrataram explicadores, professores, advogados. As famílias sem dinheiro receberam um PDF e votos de boa sorte.
É assim que se garante a igualdade em Portugal: toda a gente recebe exatamente o mesmo problema — só que uns têm dinheiro para o resolver e outros não. O jovem pobre é que devia ter tido o cuidado de nascer numa família com mais jeito para contencioso administrativo.
Agora já sabemos: não foi o Governo que criou o caos nos exames, nem as trapalhadas sucessivas no resto da governação.Foi o computador. Sacana do computador.
E esteve bem ativo também na saúde. Foi ele, decerto, que perdeu o pré-aviso da greve do INEM algures dentro do Ministério — o email entrou no sistema e nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Porque, como sabemos, antes do computador era fisicamente impossível perguntar “temos alguma greve marcada para esta semana?”
Foi também o computador que fechou urgências de obstetrícia a um ritmo recorde. As grávidas chegavam ao hospital e o sistema informava: sem serviço disponível. Disco cheio. E foi ele que fez disparar as listas de espera para cirurgias oncológicas e cardíacas.
Na habitação, o computador desinstalou o Mais Habitação, removeu os travões às rendas, e instalou o pacote “Senhorio Premium” — versão paga, sem anúncios, com despejo incluído. Decidiu ainda chamar “acessível” a uma casa de 648 mil euros e “moderada” a uma renda de 2.300. As rendas dispararam, e milhares de famílias ficaram a uma atualização de distância do despejo. Normal — o computador vive na cloud, e lá de cima 2.300 euros parecem trocos.
E foi o computador, já agora, que transferiu a Spinumviva para a família do primeiro-ministro, mantendo os clientes privados a pagar religiosamente todos os meses. O primeiro-ministro não sabia de nada. A família não sabia de nada. Os clientes só sabiam o IBAN. Processado tudo automaticamente, por um programa de faturação certificado, e impresso em quadruplicado — para dar ar de coisa séria.
Enfim: hoje quem governa Portugal é o computador. O Governo limita-se a representá-lo em cerimónias oficiais.
Para Luís Montenegro, governar tornou-se um part-time entre gravar vídeos, comprar fragatas e ir a festas no Algarve. De manhã, grava-se um vídeo. À tarde, inventa-se um problema que não existia. Ao fim do dia, culpa-se o computador.
É um Governo incapaz de consertar o que estava mal, e brilhante a estragar o que ainda funcionava.
A renda subiu? Culpa do Excel. Não tens médico de família? Culpa do antivírus. Adiaram-te a cirurgia? O programa estava pesado demais. O exame do teu filho desapareceu? Foi a pasta de spam. O teu processo de residência foi parar ao tribunal errado? O Outlook trocou os contactos.
A tua vida está cada vez pior? Faz overclock ao CPU e aguenta o pacote laboral que aí vem. Mas há sempre um ponto em que até o cidadão mais paciente se farta de tanto erro de sistema. E com tanto ecrã azul, se calhar já é hora de formatar este Governo — e instalar um novo.
Do blogue Estátua de Sal
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Ventos Semeados: Mortágua e os Figurões de Silicon Valley
SALAZAR NÃO MORREU POBRE: E ISSO NÃO É UM PORMENOR:
Os documentos analisados pela investigação da "Sábado" sugerem que António de Oliveira Salazar foi aquilo que muitos mitos se recusam a admitir: um homem austero, sim; um homem frugal, frequentemente; mas também um homem que acumulou património, beneficiou das prerrogativas do poder que exerceu e morreu bastante mais confortável do que a lenda (alimentada pelos seus admiradores, mas também por ele próprio) nos habituou a acreditar. E talvez o erro mais persistente seja imaginar que esse poder foi exercido num vazio, acima dos interesses, das influências e das dependências humanas. Não foi. Como tantos governantes que permanecem tempo suficiente no topo, Salazar tornou-se o centro de uma teia de lealdades pessoais, favores, rivalidades e conveniências. É precisamente por isso que a história séria é sempre menos confortável do que a nostalgia: porque troca a lenda pelo homem real. E os homens reais, quase sem exceção, são sempre mais contraditórios do que os mitos que deixam para trás.
Luís Represas:
quarta-feira, 22 de julho de 2026
Acordar assim com uma triste notícia, a do falecimento de Luís Represas, um dos nomes mais marcantes da música portuguesa:
Ainda sou do tempo


