Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

domingo, 15 de fevereiro de 2026

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 12/02/2026)


A experiência de junho de 2025 e janeiro de 2026 já devia ter levado a perceber a ausência de sentido de uma intervenção militar estrangeira para provocar uma mudança de regime no Irão. A mudança tem de vir de dentro.


O ataque israelo-americano, em junho de 2025, ao Irão e as recentes ameaças norte-americanas de decapitar o regime iraniano, não passam de mais um capítulo de uma longa série de peripécias iniciadas, em 1979, quando o Xá Reza Pahlavi foi deposto pela revolução islâmica, e instaurado o regime dos aiatolas.

As autoridades norte-americanas têm disfarçado os motivos dos seus intentos. Oficialmente, as suas ações são beneméritas e visam promover a democracia, a libertação dos iranianos de um poder opressor e maléfico e, assim, altruisticamente, trazerem-lhes a paz e o progresso. Têm contado nesta campanha messiânica com o apoio de múltiplas caixas de ressonância na Comunicação Social, que, de uma forma mais ou menos voluntária, se tem prestado a difundir e a amplificar o logro.

O regime iraniano sofre de vários problemas, sobejamente conhecidos, cuja resolução terá de ser encontrada pelos próprios iranianos, não por Washington, Telavive ou por qualquer outra entidade estrangeira. Afegãos, iraquianos, líbios e sírios, entre outros, sabem do que falo.

A cruzada, acicatada por Telavive, não visa libertar o povo iraniano do jugo opressor dos aiatolas. O objetivo é bem mais pragmático: colocar no poder alguém manipulável que facilite a Washington e a Telavive a concretização dos seus desígnios estratégicos e económicos.

O problema deixaria de estar no regime, se os recursos minerais do país fossem privatizados e entregues à exploração de companhias norte-americanas. Washington viverá muito bem com isso, como viveu no tempo do Xá, de cuja polícia política os mais velhos ainda se recordam e têm bem presente.

Os aiatolas cometeram o “erro” de nacionalizar as empresas petrolíferas estrangeiras que operam no Irão. Deviam ter aprendido com Mohammed Mossadeq, o primeiro-ministro iraniano eleito democraticamente e deposto, em 1953, por um golpe de estado patrocinado pelo MI6 e pela CIA, por ter cometido o “horrível crime” de privatizar as empresas petrolíferas estrangeiras.

Não terá sido a incomodidade com o regime político em Bagdade que levou Washington a financiar a guerra de oito anos, de Sadam Hussein contra o Irão, e a fornecer-lhe armas químicas. Como não terá sido, também, a incomodidade com o regime dos aiatolas que levou elementos próximos da Administração do presidente Ronald Reagan a vender-lhes – secretamente – equipamento militar para financiar os “Contra”, na Nicarágua.

Como também não terá sido o desconforto com o regime que levou os EUA a colaborar intensamente, e com grande proximidade, com Teerão para derrubar os Talibã, em 2001. Como também não houve embaraço e falta de pruridos por parte do presidente George Bush para classificar Teerão, em 29 de janeiro de 2002, como pertencendo ao “Eixo do Mal”, e passados alguns meses lhe pedir novamente ajuda no planeamento da operação militar que levou ao derrube de Saddam Hussein, em 2003, o mesmo que tinha ajudado na década de oitenta do século XX contra o Irão. Apesar de receosa – presença de contingentes norte-americanos significativos nas suas fronteiras Oeste e Leste – Teerão lá teve de ceder, temendo uma retaliação pela sua “ousada” desobediência.

Camuflar as suas verdadeiras intenções com o programa nuclear não passa de engodo para tolos. O Irão cumpria rigorosamente o acordado no Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), conhecido como “acordo nuclear iraniano”, em 2015, quando os EUA o abandonaram unilateralmente, em 2018, durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump, o que mostrou a Teerão que o cumprimento integral do Plano e a cooperação sem precedentes com a Agência Internacional de Energia Atómica, não eram suficientes para garantir a sua segurança.

Particularmente exasperante é o facto de existirem soluções para o “problema nuclear” iraniano e todos saberem quais são: a empresa nuclear estatal da Rússia, Rosatom, mostrou disponibilidade para assumir a gestão e a supervisão do enriquecimento limitado de urânio iraniano destinado a fins não militares, no Irão, assegurando que o enriquecimento permanece dentro dos limites (3,6%); ou, a criação de um consórcio de enriquecimento de urânio que envolva o Irão, a Turquia, o Egito, a Arábia Saudita, os Estados árabes do Golfo Pérsico e as principais potências globais. Este segundo modelo tem ainda a vantagem de permitir ultrapassar as preocupações existentes quanto à proliferação nuclear na região, salvaguardando ao mesmo tempo o acesso igualitário à tecnologia nuclear para fins pacíficos. Nenhuma destas soluções, ou quaisquer outras, interessa a Washington, uma vez que não pretende resolver o “problema”. A sua resolução esvaziar-lhe-ia o pretexto para a ação militar, que Telavive tanto anseia.

E agora?

Têm sido muitas as iniciativas diplomáticas, em particular as regionais, para convencer Trump a não se envolver numa guerra com o Irão. Excluem-se deste leque as de sinal contrário, promovidas por Israel e pelo bloco sionista em Washington, instalado na Administração e no establishment político norte-americano.

Para conversar com Teerão, Washington apresentou três exigências fundamentais. O Irão tinha de abandonar o seu programa nuclear, reduzir as suas forças de mísseis (em alcance e em número) e deixar de apoiar os seus proxies, um ultimato frontalmente rejeitado. Contrariando Washington, Teerão resistiu às ameaças norte-americanas e mostrou-se disponível para falar apenas sobre um ponto: o programa nuclear, o enriquecimento de urânio e o potencial levantamento de sanções. Os EUA cederam na agenda e delegações dos dois países encontraram-se em Omã, sob mediação do ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, no dia 6 de fevereiro, em Mascate. Acordaram em continuar a negociar, o que significa ausência de progressos. A inclusão do programa nuclear na agenda da reunião vem comprovar a farsa que foi o ataque às instalações nucleares iranianas em Fordow. Ao contrário do alardeado por Trump, o programa nuclear iraniano não foi “completa e totalmente destruído”. A ter sido, não faria sentido considerá-lo agora um tema a negociar.

À última hora, os EUA introduziram na agenda a interrupção do fornecimento de petróleo à China. Algumas horas após o fim da reunião, Trump assinou uma ordem executiva em que os Estados Unidos imporiam tarifas de 25% a qualquer país que fizesse negócios com o Irão. É difícil ver como é que vão impor essa decisão à China ou à Índia.

Trump encontra-se sob uma enorme pressão política. Paradoxalmente, o Irão encontra-se numa posição vantajosa à mesa das negociações. As hipóteses de uma vitória militar norte-americana sobre o Irão não são risonhas. Relembramos a “vitória” de Washington contra os Houtis, do Iémen, em março-maio de 2025. Acabariam por retirar após sete semanas de bombardeamentos, a perda de três caças F-18, de sete drones MQ-9 Reaper, e o porta-aviões Eisenhower danificado.

Assistimos, entretanto, a uma alteração significativa do discurso de Teerão relativamente a um novo ataque dos Estados Unidos. O Irão parece não se sentir ameaçado. Desta vez, a resposta não será simbólica; será imediata, total e sem precedentes, dando crédito às autoridades iranianas. A resposta concentrar-se-á em Israel, visando o coração de Telavive, de modo a quebrar a sua capacidade de dissuasão e a expor a ilusão de invulnerabilidade do território israelita, já afetada na guerra de junho de 2025, apesar das tentativas para o encobrir.

Um ataque norte-americano “limitado” tornou-se uma ilusão. Teerão sabe que os EUA aguentam um combate intenso, mas que terá de ser de curta duração. Correm riscos elevados numa guerra de atrição prolongada. Ao que se acrescenta o facto de os Estados Unidos não poderem usar os aliados regionais como plataforma de lançamento para atacar o Irão, por aqueles terem proibido as aeronaves norte-americanas de sobrevoarem o seu espaço aéreo.

Não se está a menosprezar o brutal poder de fogo e capacidade militar norte-americana, mas tão somente a interrogar se será suficiente para incapacitar uma grande potência militar como o Irão e evitar retaliações. Sem esquecer que a televisão iraniana mostrou um vídeo com o sobrevoo do porta-aviões Abraham Lincoln por um drone iraniano. Sem omitir a não desprezível capacidade iraniana em mísseis balísticos, de cruzeiro e hipersónicos, capazes de atingir bases americanas no Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e locais na Jordânia e Omã, assim como derrubar os navios e o porta-aviões norte-americano.

Nos últimos seis meses, o Irão tem-se preparado intensamente para esta guerra que está para acontecer, tendo conseguido restaurar a produção em larga escala de mísseis, as infraestruturas subterrâneas foram aumentadas e há rumores de terem sido testados novos mísseis e armas. A decisão de Trump em atacar deverá também levar em conta o recente pacto estratégico assinado entre o Irão, a China e a Rússia, e o facto de Pequim ter deslocado para o Irão radares com capacidade para identificar aeronaves furtivas, como os F-35 e os B-2. Os EUA terão de enfrentar a tecnologia chinesa, o que aumenta significativamente o risco da aventura militar e as consequências catastróficas de um desaire.

Perante todos estes desafios interrogamo-nos qual a margem de manobra para Trump voltar para trás. Segundo um parlamentar iraniano, antes das negociações em Abu Dhabi, Trump teria enviado, através de um país intermediário, uma mensagem ao Irão propondo uma fórmula semelhante à de junho de 2025: “Deixem-me atingir 2 locais no Irão – vocês respondem, e depois acaba tudo.” Parece que os iranianos desta vez não estarão pelos ajustes.

Contrariando tudo o que parece razoável e incorrendo num erro grave de análise, assistimos a uma notável corrente de comentários em apoio da escalada militar, considerando-a o meio capaz de acelerar o colapso do regime e de provocar a sua implosão. O Irão está longe de ser a Líbia ou a Venezuela. A experiência de junho de 2025 e janeiro de 2026 já devia ter levado a perceber a ausência de sentido de uma intervenção militar estrangeira para provocar uma mudança de regime no Irão.

A mudança no Irão tem de vir de dentro. É sabido que nem americanos nem israelitas têm alternativas no terreno para colocar no poder. Não apareceu até agora nenhum Gorbachev no Irão. O pretendente ao trono Reza Pahlavi, cuja filha se casou com um judeu, não passa de um fantoche. Nem Washington lhe reconhece utilidade. Ainda é tempo para Trump reconsiderar e evitar males maiores, para ele e para todos nós.

Do blogue Estátua de Sal 

Dominguice:

Sócrates cometeu algum crime de corrupção? Ninguém sabe, a começar pelos investigadores no Ministério Público do mais importante e mais complexo (mais caro?) processo judicial em Portugal. Porém, é tratado por magistrados, políticos, jornalistas, comentadeiros e pessoas simples e boazinhas como se tivesse sido condenado por isso, a sentença já tivesse transitado em julgado e, acima e antes de tudo, como se alguém desta gente de milhões conseguisse provar onde, e como e para quê ocorreu a tal corrupção. Entretanto, uma área do Estado onde há frequentes buscas das autoridades por suspeitas de corrupção dá pelo nome de Forças Armadas. Tancos pode ser convocado para esta conversa, dado o retrato de portas abertas com que ficámos a respeito das instalações militares em Portugal, e os submarinos do Portas também, pese o próprio ter garantido que fumo sem fogo é quanto basta para abrir o champanhe. Todavia, dá ideia que os militares, envolvendo altas patentes que chegam aos generais, têm maior apetência pelos contratos com fornecedores para irem conseguindo vencer a batalha da produção. No caso, da produção de subornos que esses militares amealham para fazerem frente às vicissitudes de uma vida na linha da frente a dar o coiro pela defesa da Pátria.

Os especialistas em corrupção que ganham bom dinheiro com o Sócrates não têm interesse em falar destes casos de caserna. Percebe-se porquê: correm o risco de pisar nalguma mina.

Do blogue Aspirina B

O gourmet da vichyssoise e o país que já não tem paciência para sopas frias:

(Luís Rocha, in Facebook, 12/02/2026, Revisão da Estátua)

Ana Abrunhosa, Presidente da Càmara de Coimbra

(A Estátua não resiste a sublinhar a assertividade política e a qualidade literária deste texto. Parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 12/02/2026)


Há políticos que governam. Há políticos que trabalham. E depois há os que degustam. Marcelo Rebelo de Sousa pertence a esta última categoria. O gourmet da vichyssoise institucional, o homem que passou dez anos a provar a temperatura da sopa da República, soprando dramaticamente para as câmaras, comentando a textura democrática do caldo e explicando, com aquele ar de professor que já corrigiu mil testes, que talvez faltasse um pouco mais de sal narcisista.

Durante anos, foi o chef mediático de Belém. Selfies como amuse-bouche, abraços como entrada, comentários omnipresentes como prato principal. De sobremesa um afecto servido morno, sempre fotogénico, sempre pronto a ser partilhado nas redes sociais como quem publica a fotografia de uma sopa artesanal com hashtag # Instituições.

E no entanto, eis que chegamos ao fim do serviço e o crítico gastronómico chamado “opinião pública” decidiu deixar a crítica no Tripadvisor democrático e a popularidade caiu para níveis que já não lembram estrela Michelin, mas antes cantina de repartição pública às quatro da tarde. As sondagens do segundo mandato mostraram uma descida clara, avaliações negativas a crescer, a aura consensual a evaporar como vapor na panela esquecida no fogão. O chef continuava a explicar a receita, mas o público já tinha perdido o apetite.

Recordemos aquele momento sublime em que, qual sommelier da execução orçamental, decidiu repreender publicamente Ana Abrunhosa, então Ministra da Coesão Territorial, com a delicadeza de quem prova um creme e anuncia em voz alta: “Se isto não estiver à altura, não lhe perdoo”. A frase ecoou com aquele tempero clássico de vaidade televisiva. Não bastava alertar, era preciso fazê-lo em direto, com pose, colher na mão e sobrancelha arqueada. Um toque de pimenta mediática para reforçar o sabor da autoridade.

Ora o destino tem sentido de humor. Anos depois, quem termina o mandato com o travo amargo não é a ministra, agora autarca, mas o próprio chef presidencial. A dona da cozinha municipal revelou-se sólida, pragmática, menos interessada em filtros e mais em obra concreta. Já o gourmet de Belém ficou preso à mise-en-scène.

Entretanto, o país ofereceu-nos outro momento de alta cozinha política durante as cheias do Mondego. O rio subia, a autarca evacuava populações, a lama avançava como molho demasiado espesso. E no meio do cenário quase bíblico, o Primeiro-ministro resolveu brindar a nação com uma intervenção que parecia saída de um turista americano do Alabama, deixando no ar a sensação de que a geografia nacional é uma disciplina opcional para governantes. Foi como assistir a um cozinheiro confundir coentros com hortelã em plena final de concurso televisivo. Tecnicamente um pequeno detalhe, simbolicamente devastador. É que o Mondego é um rio nacional e discutir o seu caudal com os espanhóis é o mesmo que consultar os australianos sobre a seca na planície alentejana.

O problema não é apenas o erro, é o padrão. Um governo que, por vezes, se apresenta como elenco de gala num espetáculo de variedades, muita luz, muito discurso, pouca substância. Portugal, república com quase nove séculos, merece mais do que um casting permanente para espetáculos de revista institucionais.

Com ministras desaparecidas em combate, ministros a fazerem filminhos da sua vaidade e um Primeiro-ministro rusticamente ignorante e pomposamente aldrabão.

E assim chegamos ao fim do banquete. Marcelo sai de cena não como estadista trágico nem como herói épico, mas como aquele gourmet que passou demasiado tempo a falar da sopa e pouco a perceber que a clientela estava cansada de explicações sobre a consistência. O afeto em doses industriais perdeu eficácia. As selfies à beira-mar deixaram de comover. O país, saturado de comentário permanente, começou a desejar silêncio produtivo.

É curioso que a vichyssoise se serve fria. Talvez tenha sido esse o equívoco central, presidir a um país em ebulição com receitas concebidas para serem degustadas a temperatura controlada, em ambiente de salão, longe da turbulência real das cozinhas onde se queima, se corta e se improvisa para alimentar gente concreta.

No fim, não há aplauso de pé. Há um suspiro coletivo, como quem empurra o prato para o lado e pede a conta. A República não precisa de críticos gastronómicos em horário nobre. Precisa de cozinheiros discretos que saibam que o essencial não é explicar a sopa, é garantir que ela alimenta.

E quando o gourmet sai pela porta dos fundos, não é vaiado nem ovacionado. É simplesmente esquecido na lista de sugestões para o dia seguinte. Porque o país, ao contrário da vichyssoise, não pode ser servido frio durante uma década inteira.

A autarca, essa, segue firme e altaneira na sua função.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas:

https://www.rtp.pt/…/sondagem-da-universidade-catolica…

https://www.diariocoimbra.pt/…/marcelo-apela-ao-voto…

https://www.reuters.com/…/rain-further-batters-storm…

https://www.dn.pt/…/popularidade-de-marcelo-esta-no…

https://www.reuters.com/..

Do blogue Estátua de Sal

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Trump suspende restrições tecnológicas à China:

Ás vésperas de um encontro com Xi Jinping e, na prática, confirma algo que muita gente evita admitir: o confronto anunciado nem sempre resiste ao peso da realidade econômica. Depois de meses de discurso duro sobre segurança nacional, bloqueios a empresas chinesas e alertas sobre riscos estratégicos, a Casa Branca recua em medidas que atingiam diretamente o setor tecnológico de Pequim. A decisão não acontece no vazio. Ela surge num contexto de dependência mútua entre as duas maiores economias do planeta, especialmente em áreas como data centers, equipamentos de telecomunicação e cadeias de suprimento digitais.
Xi Jinping observa esse movimento de um lugar muito diferente. Enquanto Washington alterna entre pressão e distensão, Pequim mantém uma linha contínua de fortalecimento industrial, investimento maciço em tecnologia própria e expansão de influência comercial. A China trabalha com planejamento de longo prazo, metas industriais claras e integração entre Estado e setor produtivo. Não reage apenas ao ciclo eleitoral. Constrói posição estratégica ao longo de anos. Quando Trump suaviza restrições antes de um encontro bilateral, a mensagem implícita é que a retórica tem limite quando encontra a estrutura econômica real.
O contraste é evidente. Trump aposta no impacto imediato, no discurso forte, na narrativa de defesa da soberania tecnológica. Xi aposta em estabilidade, previsibilidade e consolidação de poder econômico. No cenário global, isso pesa. Empresas, mercados e governos observam quem oferece constância e quem oscila conforme o momento político interno. A suspensão das restrições sinaliza que o embate não é tão simples quanto o discurso sugere e que a China já ocupa uma posição central demais para ser isolada com facilidade.

No fim das contas, o episódio reforça uma percepção crescente: liderança global não se mede apenas pelo volume das declarações, mas pela capacidade de sustentar estratégia. E nesse ponto, Xi demonstra consistência, enquanto Trump revela que, por trás do barulho, há limites impostos pela própria interdependência econômica entre Estados Unidos e China.

Moz na Diáspora 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

duas ou três coisas: Na " Visão"

duas ou três coisas: Na " Visão": A coluna semanal de José Carlos de Vasconcelos é dos textos que raramente falho na leitura da "Visão". O Zé Carlos escreve um ...

“Num dos melhores hospitais do país!”:

Na década de 80, Jô Soares, que tantas vezes fez Portugal rir em difíceis tempos, tinha no seu rol de personagens, um General internado num hospital e que acorda após seis anos de coma em plena eleição de José Sarney. Sempre que sabia das “novidades” do tempo corrente, numa República agora presidida por um civil, dizia em desespero “Me tira o tubo!”.

Mas, esta não era a única frase que ficou famosa aquando dos episódios do General. Havia uma outra que se reportava à resposta que o médico dava ao General, sempre que este lhe perguntava “Onde é que eu estou?” perante a frequente ocorrência de falhas no serviço por falta de electricidade, de água, comida, medicamentos, seringas, pessoal, máquinas, etc.: “Num dos melhores hospitais do país!”

Lembrei-me destes episódios de humor mordaz, quando ontem li a notícia no Expresso que não existiram efectivas melhoras no SNS no ano passado. E, mais ainda, perante o “Relatório anual 2025 – O estado da saúde em Portugal”, onde os privados também ficam muito mal na fotografia.

É uma evidência que toda a propaganda do actual Governo, não passa disso mesmo, e que o SNS continua a piorar, empurrando, quem pode, para a saúde privada que vai avolumando queixas.

A Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, tem vindo ao longo de tempo, em cada crise, em cada má decisão, em cada falha do sistema, em cada má escolha seja no INEM, na Direcção Executiva do SNS ou outro, dizer que irá analisar os factos e assumir as respectivas responsabilidades. Mas, na verdade nunca o fez. São escolhas erradas e promessas falhadas que se avolumem, e, pelos vistos, sem consequências.

Menos arrogância e mais competência, seria o mínimo a exigir, perante o constante falhanço em servir o bem público. A não ser que não seja esse o fito da governação.

12/02/2026 by   

A1 cortada em Coimbra – ressuscitem o Marquês de Pombal:

(João Gomes, in Facebook, 12/02/2026)

Há desastres naturais. E há desastres cuidadosamente preparados pela inércia humana. O que aconteceu junto ao Mondego, com o colapso do dique e a subsequente ferida aberta na Autoestrada 1, não surgiu de surpresa, como um capricho súbito das águas. Não foi um relâmpago em céu limpo. Foi, antes, um acontecimento anunciado – repetido, descrito, antecipado durante dias por técnicos, autarcas e pela própria evidência do rio a subir lentamente, como quem avisa antes de entrar.

Durante duas semanas soube-se que os diques estavam sob pressão. Soube-se que o caudal aumentava. Soube-se que o risco existia. E, sobretudo, soube-se que havia um ponto sensível: a zona onde o dique protegia o talude que sustenta uma das infraestruturas rodoviárias mais importantes do país. Nada disto pertence ao domínio do imprevisível. Pertence ao domínio da decisão. Mas a engenharia não chegou a acontecer. Em proteção hidráulica, há uma regra simples: quando o risco cresce todos os dias, intervém-se antes do pico, não depois do colapso.

As soluções não exigiam milagres tecnológicos nem ciência futurista. Pediam apenas aquilo que a engenharia conhece há séculos:

– reforço do dique com enrocamento pesado;

– estabilização do talude com cascalho, geotêxteis e drenagens;

– proteção dos pilares contra erosão regressiva;

– obras de emergência capazes, pelo menos, de ganhar tempo.

Ganhar tempo é, muitas vezes, salvar infraestruturas. E salvar infraestruturas é poupar milhões, meses de interrupção e o caos logístico que agora se anuncia. Nada disso aconteceu a tempo. E quando a água finalmente fez o que sempre faz – procurar o ponto mais fraco – já não havia engenharia possível, apenas gestão de danos.

A política do “vamos ver”

Portugal desenvolveu uma especialização curiosa: a arte de monitorizar.

– Monitoriza-se o risco.

– Monitoriza-se a subida do rio.

– Monitoriza-se a previsão meteorológica.

– Monitoriza-se tudo… exceto a decisão.

Entre o alarme técnico e a ação política existe frequentemente um vazio administrativo onde o tempo passa com notável eficiência.

E a natureza, menos paciente, aproveita. Depois chega o momento solene das declarações: “Era impossível prever.” “Foi um evento excecional.” “As estruturas estavam a ser acompanhadas.” Acompanhar, neste caso, revelou-se uma forma elegante de assistir.

O custo da inação

Agora, a A1 ficará cortada durante meses. Virão desvios, prejuízos económicos, transtornos diários e obras de emergência muito mais caras do que qualquer prevenção teria sido. É a velha matemática portuguesa: adiar é barato – até deixar de ser. Quando finalmente se intervém, já não se protege. Reconstrói-se. E reconstruir custa sempre mais do que prevenir. Em dinheiro, em tempo e em credibilidade.

Se o Marquês de Pombal estivesse vivo

Depois do terramoto de 1755, Lisboa não ficou à espera de relatórios intermináveis nem de consensos burocráticos. Reconstruiu-se com rapidez, método e autoridade técnica. Pode discutir-se tudo sobre o Marquês de Pombal – menos a capacidade de decidir quando o país ardia, ruía ou inundava.

Hoje, perante um dique a ceder lentamente durante duas semanas, talvez perguntasse apenas: “Já reforçaram?” E perante a resposta negativa, provavelmente não convocaria uma conferência de imprensa. Convocaria pedra, terra, homens e urgência.

O verdadeiro problema

O problema não é apenas hidráulico. É estrutural – mas no Estado. Não falta conhecimento técnico. Não faltam avisos. Não falta experiência histórica. Falta, demasiadas vezes, o momento exato em que alguém decide agir antes da catástrofe, e não apenas explicá-la depois. Porque há uma diferença fundamental entre fatalidade e falha: a fatalidade não avisa durante duas semanas.

A incompetência – essa – vão agora pagando os portugueses, cujo arrependimento de terem optado pela AD, nas últimas eleições legislativas, deve ser agora tremendo.

Bom dia!

Do blogue Estátua de Sal