Rádio Freamunde

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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A POLÍTICA DO FUTEBOL:

Longos são os dias que se preenchem na comunicação social, nas redes sociais e na imprensa com aquilo a que me apeteceria chamar, sem grande esforço de imaginação, o triângulo da mesquinhez: de um lado, o seleccionador; do outro, Cristiano Ronaldo; e, a completar a figura geométrica desta pequena tragédia nacional, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Um triângulo que, sendo matematicamente perfeito, parece ter encontrado na realidade portuguesa uma geometria muito particular: quanto mais se aproxima o vértice do interesse público, mais se afasta a base daquilo que verdadeiramente deveria interessar ao país.
A propósito do afastamento de Cristiano Ronaldo da Selecção, desencadeou-se uma dessas tempestades mediáticas que, em Portugal, possuem a extraordinária faculdade de transformar uma questão desportiva numa questão de Estado, uma declaração numa tese política, uma divergência numa guerra de trincheiras e um futebolista num assunto de interesse nacional superior ao preço da electricidade, ao estado das urgências hospitalares ou à qualidade da escola onde os nossos filhos aprendem a ser cidadãos.
É curioso este país.
Onde está a nobreza de carácter?
A empatia em situações que exigem grandeza?
Parece sossobrar, na minha modesta opinião, a visão limitada ou a falta dela, a mediocridade em acções e pensamento.
Temos hospitais onde se espera horas nas urgências, escolas onde faltam recursos, famílias que fazem contas ao que podem gastar no supermercado como quem resolve uma equação de terceiro grau, jovens que descobrem que o futuro é uma palavra muito bonita e elegante quando pronunciada por quem já o tem garantido e idosos que aprenderam a contar os euros antes de comprar os medicamentos. Mas basta uma polémica futebolística para que o país inteiro encontre tempo, voz, indignação, especialistas, comentadores, constitucionalistas de ocasião, psicólogos de bancada, moralistas de café e uma legião inteira de cidadãos dispostos a defender aquilo que, ainda na véspera, provavelmente nem sequer lhes dizia respeito.
E então aparecem os habituais pavões coloridos, cada qual cuidadosamente empenhado em abrir a cauda diante das câmaras, numa esgrima de galhardetes em que já ninguém parece interessado em esclarecer coisa alguma, mas todos parecem profundamente interessados em ser vistos a esclarecer alguma coisa.
Há qualquer coisa de cómico neste espectáculo.
Mais parece um aviário de galos depenados, cada um deles convencido de que ainda possui a majestade da plumagem, enquanto o país, lá fora, vai apanhando as penas que caem e perguntando discretamente quem há-de pagar a conta.
O problema não está em discutir futebol. O futebol faz parte da nossa cultura, da nossa memória colectiva, da nossa identidade e, para milhões de pessoas, constitui uma das poucas formas contemporâneas de emoção partilhada. O problema começa quando o futebol deixa de ser futebol e passa a ser uma espécie de religião civil, com sacerdotes televisivos, mártires ocasionais, pecadores públicos, heróis fabricados e uma liturgia diária de indignação.
E quando essa liturgia invade o poder político, então temos a confirmação de que alguma coisa se desarranjou na hierarquia das prioridades.
Chegou-se ao ponto de o primeiro-ministro se envolver na acareação da contenda, acrescentando ao episódio uma dimensão política que talvez diga mais sobre a importância social atribuída ao futebol do que sobre a verdadeira importância do assunto. Não porque os políticos não possam falar de futebol — podem, evidentemente — mas porque é sempre legítimo perguntar se o país não mereceria, de vez em quando, semelhante fervor institucional para discutir a qualidade da educação, a degradação de determinados serviços públicos, os salários que não acompanham o custo de vida, a habitação que se tornou um luxo e a pobreza que continua a ser tratada como uma inconveniência estatística.
Ah, mas isso não dá tanta audiência.
Uma fila de espera hospitalar não corre tão depressa nas redes sociais como uma polémica entre celebridades. Uma sala de aula sem condições não produz tantos comentários como uma frase de Ronaldo. Uma factura de electricidade não possui o mesmo glamour televisivo que uma conferência de imprensa. E uma família que não sabe como fazer chegar o ordenado ao fim do mês não dispõe de assessoria de comunicação.
O futebol, esse, tem tudo.
Tem milhões, tem câmaras, tem camisolas, tem heróis, tem vilões, tem lágrimas, tem dinheiro, tem publicidade e, sobretudo, tem uma coisa que a política contemporânea descobriu há muito: tem audiência.
E a audiência, nesta nossa época de espectacularização permanente, parece ter adquirido uma importância superior à verdade.
O futebol moderno tornou-se, assim, uma curiosa metáfora da sociedade moderna: meninos milionários correm atrás de uma bola enquanto milhões de adultos correm atrás do salário.
Uns discutem prémios, contratos, transferências, estatuto, protagonismo e lugares de destaque; outros discutem rendas, prestações, combustíveis, electricidade, gás e o preço do pão. Uns entram no estádio sob aplausos; outros entram no supermercado já com a calculadora mental ligada. Uns têm empresários; outros têm apenas o recibo do ordenado.
E ainda há quem diga que todos vivemos a mesma realidade.
Vivemos, pois.
Uns vivem no relvado.
Outros vivem na erva debaixo da ponte — porque já não conseguem pagar o tecto.
Mas há uma subtileza ainda mais interessante nesta história: o povo, que tantas vezes é acusado de não se interessar por política, interessa-se apaixonadamente pela política do futebol. Discute tácticas como se discutisse sistemas de governação, escolhe heróis com a mesma convicção com que outros escolhem candidatos, condena pessoas sem julgamento, absolve outras sem defesa e constrói, em cada programa televisivo, uma pequena República das Emoções.
Talvez porque o futebol ofereça uma coisa que a política deixou de oferecer com a mesma intensidade: a ilusão de pertença.
Quando a Selecção joga, o indivíduo sente-se parte de alguma coisa. Durante noventa minutos, desaparecem as diferenças, pelo menos aparentemente. O pobre veste a mesma camisola do rico. O trabalhador vibra ao lado do empresário. O desempregado grita o mesmo golo que o banqueiro. E durante aquele breve intervalo, Portugal parece finalmente caber dentro de um estádio.
É por isso que o futebol é tão poderoso.
Mas precisamente por ser poderoso, deveria exigir dos seus protagonistas uma responsabilidade proporcional à influência que exercem.
A ética profissional não pode ser uma camisola que se veste apenas quando dá jeito. A integridade não pode depender da conveniência do momento. E a dignidade institucional não pode ser sacrificada no altar da audiência.
Quando homens e instituições transformam divergências em espectáculos públicos, o problema já deixou de ser exclusivamente desportivo. Passa a ser um problema de cultura institucional, de responsabilidade e de exemplo.
Porque os milhões de espectadores não assistem apenas a um jogo.
Assistimos também à forma como os adultos resolvem os seus conflitos. E é essa a parte mais preocupante.
Enquanto os protagonistas disputam versões, os comentadores disputam microfones, os políticos disputam protagonismo e as redes sociais disputam indignações, há um país silencioso que continua a trabalhar, a esperar, a pagar e a envelhecer.
Um país que não tem tempo para discutir quem disse o quê porque precisa de saber quanto vai pagar amanhã.
Um país que talvez já não consiga pagar a conta da luz, mas continua a ter energia suficiente para discutir durante horas a vida dos milionários.
Um país que vê aumentar o gás, a electricidade, a habitação e o custo de viver, enquanto a televisão lhe oferece diariamente a anestesia perfeita: um novo episódio da novela futebolística nacional.
Talvez seja esta a verdadeira política do futebol. Não aquela que se joga dentro das quatro linhas, mas aquela que se joga fora delas, onde a atenção pública é o troféu mais cobiçado.
Quando um país passa mais tempo a discutir quem deve vestir a camisola da Selecção do que quem deve cuidar da escola pública; quando se conhece melhor o salário de um futebolista do que o vencimento de um professor; quando se debate durante semanas uma polémica desportiva enquanto milhares de famílias fazem contas para pagar a casa, então talvez o problema já não esteja apenas no futebol.
Talvez esteja em nós.
Talvez tenhamos permitido que o espectáculo ocupasse o lugar da realidade.
E é então que o velho Zé Povinho, sentado no seu pequeno trono de plástico, diante de uma televisão cada vez mais luminosa e de uma carteira cada vez mais vazia, olha para o ecrã, suspira, bebe o seu café e pergunta, com a resignação filosófica de quem já viu quase tudo:
— Então, afinal, quem ganhou?
Ninguém lhe responde.
Porque, nesta partida, talvez todos estejam demasiado ocupados a jogar para si próprios.
E o país, esse, continua no banco.
À espera de entrar em campo.
— António Manuel Palhinha

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António Manuel Palhinha 

Segundo turno no Brasil: que fatores levarão à vitória eleitoral?

(Lucas Leiroz, in S. C. F., 07/10/2026)


Lula falhou em atender às demandas do povo – e agora enfrenta as consequências.

O primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras terminou com o candidato Flávio Bolsonaro (PL) na frente de Lula da Silva (PT) por 47% a 45%. Nas eleições parlamentares, o PT e a esquerda sofreram derrotas esmagadoras em todo o país, indicando uma crescente rejeição da esquerda entre os brasileiros comuns. Agora, nas últimas semanas restantes antes da decisão final sobre quem governará o país a partir do próximo ano, a questão permanece aberta: que fatores serão considerados pelos eleitores na escolha do presidente?

O governo Lula tem tomado várias medidas consideradas “desesperadas” para reverter sua crise de impopularidade e retomar apoio na reta final das eleições. A ampliação de programas sociais é uma dessas medidas, mas sua eficiência política é cada vez mais contestável. Após décadas de redistribuição de renda nos governos PT, sem que isso representasse qualquer mudança real na situação dos trabalhadores, a avaliação dessas políticas tem se tornado cada vez mais negativa.

O problema central para Lula é que uma parcela significativa do eleitorado parece estar menos interessada em novas medidas paliativas e mais preocupada com problemas que permanecem presentes em sua vida cotidiana. Segurança pública, emprego, renda, inflação e qualidade dos serviços públicos têm impacto muito mais direto sobre a população do que os grandes debates promovidos pelo governo.

A segurança talvez seja o exemplo mais evidente. O avanço das organizações criminosas, a expansão territorial do crime organizado e a sensação de impunidade transformaram a violência em uma das principais preocupações nacionais. Para milhões de brasileiros, a questão deixou de ser uma discussão abstrata sobre políticas de segurança. Trata-se de uma realidade cotidiana que determina onde as pessoas podem morar, trabalhar, circular e até mesmo abrir um negócio – ainda mais especialmente nos grandes centros urbanos, como o Rio de Janeiro, onde o crime organizado já controla algo entre 60% e 70% do território total da cidade.

Nesse contexto, propostas associadas à agenda cultural progressista também podem produzir custos eleitorais importantes para a esquerda. O debate brasileiro sobre questões de gênero, identidade, educação e direitos de minorias passou a reproduzir cada vez mais conflitos políticos originados nos Estados Unidos e na Europa. Uma parte considerável da população, porém, não se identifica com essa agenda e considera que o Estado deveria concentrar seus esforços em problemas materiais mais urgentes.

Isso ajuda a explicar por que o segundo turno provavelmente será decidido muito mais por questões domésticas do que pela política externa – que é a parte mais elogiada do governo Lula na comunidade internacional de especialistas. Os BRICS, a Palestina ou a posição brasileira diante dos Estados Unidos podem mobilizar setores politizados da sociedade, mas definitivamente não constituem as principais preocupações do eleitor médio quando ele decide seu voto.

A política externa possui importância estratégica para o Estado brasileiro. O cidadão comum, entretanto, tende a avaliá-la através de seus efeitos concretos sobre a própria vida. Uma política externa considerada bem-sucedida não compensará, por si só, uma percepção de insegurança, desemprego ou deterioração dos serviços públicos. E à medida que o governo Lula evita combater o problema do crime organizado diretamente, cresce naturalmente a popularidade de uma direita que elogia os EUA por considerarem as facções criminosas brasileiras terroristas.

O mesmo vale para os já mencionados programas de transferência de renda. Esses mecanismos podem até possuir uma função social importante em um país marcado por desigualdades profundas, mas sua utilização como principal instrumento de política social apresenta limitações graves. Transferir renda pode aliviar uma situação de pobreza, mas não cria automaticamente empregos qualificados, não aumenta a produtividade e não reconstrói a indústria nacional. Pelo contrário, cria uma massa de precarizados dependentes de ajuda governamental. Quando a assistência se transforma em substituto permanente para políticas de desenvolvimento, o problema estrutural permanece.

É justamente nesse ponto que a disputa eleitoral entra em uma fase decisiva. O eleitor terá de escolher entre propostas diferentes para enfrentar problemas que não desapareceram durante os últimos anos. A capacidade de apresentar respostas convincentes para segurança, emprego, renda e ordem social poderá pesar mais do que discursos sobre grandes projetos geopolíticos.

O resultado do primeiro turno também demonstra que a direita brasileira conseguiu transformar o descontentamento doméstico em força eleitoral. A vantagem de Flávio Bolsonaro e a composição do novo Congresso indicam que existe uma demanda significativa por mudança. Isso não significa que todos esses eleitores compartilhem uma mesma visão sobre economia, política externa ou questões culturais. Significa, sobretudo, que existe uma insatisfação suficientemente ampla para alterar o equilíbrio político nacional.

Nas semanas restantes da campanha, portanto, a questão fundamental será saber se o governo conseguirá convencer o eleitorado de que suas políticas oferecem soluções duradouras ou se prevalecerá a percepção de que foram adotadas medidas paliativas para administrar problemas que continuam sem solução.

Falar sobre gênero, direitos humanos ou Palestina definitivamente não ajudará Lula a se reeleger.

Nota: Texto em português do Brasil de acordo com o original.

Fonte aqui

Do blogue Estátua de Sal 

Ventos Semeados: As margens e o rio

Ventos Semeados: As margens e o rio:   Brecht lembrava, em versos que a memória guarda sem esforço, que se chama violento ao rio que transborda e nunca às margens que o comprime...

Ironia socrática:

Montenegro destrona Sócrates

por Valupi

Do blogue Aspirina B

O espectro da juventude assola a Europa:

(Raquel Varela, in jornalmaio.org, 07/10/2026)


Primeiro foram os estudantes a manifestar-se como há muito se não via. A extrema-direita disse que eram os islâmicos a tomar a França. Depois vieram milhares de pais e avós para as ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais.

Liguei à minha amiga Anne, delicada e elegante, chegada ao topo da carreira de professora numa escola secundária de Paris. Respondeu-me: “Estou feliz, finalmente faz-se algo, os jovens estão a lutar contra a degradação do ensino, e a classe média está ao lado deles.” 

Tudo começou na semana passada, com bloqueios nos liceus contra os cortes na educação, por bons professores, não professores exaustos, e por mais tempo livre, não horários tão pesados. 

Nem programa digital, nem funis de acesso à universidade. 

Macron, o presidente que é banqueiro de profissão, mandou-lhes o corpo de intervenção e deteve seis mil. Enquanto prepara um orçamento com a maior despesa militar da história e cortes de 57 mil milhões de euros no ensino, nos salários, na saúde.

A extrema-direita propagou desinformação: que eram os islâmicos a tomar a França. 

A reação não foi, talvez, a esperada.

Milhares de pais e avós nas ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais. 

Desesperado, Macron decretou ensino online para dia 5, tentando parar o bloqueio de mil liceus. Mas eles resistiram. Mesmo com ensino online, mais de 600 liceus estiveram em luta. 

No dia seguinte, chegaram os sindicatos. 

Estou feliz, finalmente faz-se algo, os jovens estão a lutar contra a degradação do ensino, e a classe média está ao lado deles.

Um sindicalista ferroviário, maquinista, declara-se (CNN) ao lado dos estudantes: “Não é só contra o colapso do sistema educativo público, mas contra o colapso geral dos serviços públicos (…) a perda de poder de compra, a exploração e o aumento do dinheiro para o sector militar e a polícia (…) agora, em cada fábrica, cada empresa, cada trabalhador pergunta se não é tempo de uma greve, uma frente única para lutarmos juntos, todos juntos.”

Os avós que fizeram o Maio de 68 aplaudiram da varanda, os professores, com os ferroviários, fizeram cordões a proteger os estudantes da polícia. Os sindicatos juntaram-se a apoiar. No dia 6, uma jornada histórica juntou lado a lado estudantes, professores e outros trabalhadores. 

Macron, que mandara a polícia, libertou uma verba histórica para as escolas. Aceitou acabar com as barreiras de acesso à universidade e até uma hora e meia de almoço, em vez de uma hora. Uma primeira vitória dos estudantes. As escolas não são fábricas! 

Ontem diziam-nos jovens manipulados pela extrema-direita nas redes sociais  — não que muitos assim não se sentissem —, sem relações reais, deprimidos. Hoje estes jovens vivem o que para sempre ficará como uma das maiores experiências de transformação e de crescimento das suas vidas. 

Largadas as vestes de meninos mal-educados a pedir coisas aos papás, passam a sujeitos da história. Perceberam que ninguém vai a lado nenhum sozinho. Lutam juntos, discutem cara a cara em plenário, reúnem-se e responsabilizam-se pelas suas ações.

Percebem, na forma da força brutal da polícia, o que é o Estado. Chegam, assim, à vida política. Para trás fica o show de manipulação televisiva, uma “modernidade” em que uma classe parasitária que acumula as maiores riquezas da história distribui mais e mais sacrifícios a todos os outros. 

A juventude mais jovem respondeu que “não queremos brioches, não queremos guerra, não queremos degradação”.

A França de 15 e 16 anos dá o mote. Começaram nos bairros mais pobres, chegaram à classe trabalhadora “média”, que os apoia em massa, tal como os sindicatos e os professores. 

Os crápulas que acumulam milhões, destroem os serviços públicos e querem levar a juventude para a guerra veem-se agora a braços com a resistência, que — tudo o indica — apenas começa. 

A extrema-direita, que tentou pôr todos contra todos, vê-se agora não a preparar uma eleição desenhada para tudo ficar na mesma, mas contra jovens e trabalhadores, a lutar, organizados, com jornais, partidos, associações. 

Dos estudantes em luta à greve geral, não vai, em França, mais do que o percurso de um boulevard. 

É isso que eles, Macron, Lecornu, Le Pen, sabem. É isso que eles, todos, temem.

Fonte aqui

Do blogue Estátua de Sal 

O Rebanho das Ronaldetes e a Constelação dos Ignorados:

Há países que constroem a sua identidade colectiva à volta da ciência, da literatura, da música, da investigação ou de qualquer outra actividade que implique usar o cérebro para alguma coisa útil. Portugal, com o seu habitual desassombro estratégico, escolheu outro caminho.
Nós preferimos fundar a identidade nacional à volta de homens feitos que correm atrás de uma bola e que, de vez em quando, amuam e param de correr porque não gostaram da maneira como o treinador olhou para eles.
É uma opção civilizacional como outra qualquer.
Enquanto o resto do planeta perde tempo a discutir inteligência artificial, alterações climáticas, biotecnologia ou o destino da espécie, nós interrompemos tudo. Aqui na parvalheira abrem-se os telejornais em directo para acompanhar o drama existencial de Cristiano Ronaldo, o nosso messias de calções. O país real parou, em suspenso, para descobrir se o capitão tinha ficado suficientemente melindrado por não ter entrado contra a Noruega.
E ficou. Tão chateado que bateu com a porta do estágio em Copenhaga, fez as malas e pariu um comunicado de cinco páginas com a sua versão dos factos.
A coisa incluía uma lista cirúrgica com oito pontos que, segundo as exigências da sua real majestade, Jorge Jesus deveria ter lido palavra por palavra na sala de imprensa. O guião exigia uma loa pública ao narcisista 7, uma vénia colectiva à estrela do Instagram.
Isto já não é futebol. É a gestão da parvoeira emocional de um povo.
Jesus, que pelos vistos desenvolveu uma paciência zen com a idade, leu o testamento e respondeu com uma economia de meios brilhante, comunicando às centenas de microfones que o perseguiam, que não tinha mais nada a dizer e preferia focar-se na equipa. Um homem percebeu, finalmente, que há discussões infantis que não se resolvem com argumentos, mas sim com uma quantidade industrial de silêncio.
Mas vá-se lá pedir silêncio às Ronaldetes. A infantaria digital entrou em combustão espontânea nas redes sociais, insultando tudo o que se mexia. É uma seita fascinante esta que aparece sempre que alguém ousa lembrar que o rapaz, embora tenha passado a vida a marcar golos, não é simultaneamente jogador, treinador, seleccionador, presidente da Federação, ministro dos Negócios Estrangeiros e proprietário moral da República Portuguesa.
O amuo assumiu proporções de tal forma bíblicas que o próprio primeiro-ministro, Luís Montenegro, sentiu necessidade de intervir. Ligou individualmente ao Pedro Proença, ao Jorge Jesus e ao Ronaldo.
Há obviamente uma solenidade profundamente saloia nisto. Um país atolado em problemas, com os serviços públicos a rebentar pelas costuras, consegue mobilizar o chefe do Governo porque um homem de 41 anos fez um beicinho por ficar sentado no banco de suplentes.
Mas falemos dos outros. Aqueles que ninguém conhece.
Aqueles que são o verdadeiro assunto desta crónica.
Os portugueses que trabalham no mais absoluto anonimato mediático para perceber o Universo, estudar a origem da vida e colocar tecnologia no espaço. Esses não abandonam estágios de rompante. Não fazem manifestos de queixumes. Não precisam de ser fotografados à saída do hotel com seguranças a empurrar jornalistas. Trabalham, simplesmente.
Vítor Cardoso, por exemplo. É um dos nomes internacionais mais relevantes na investigação de buracos negros e ondas gravitacionais. Tem mais de 300 artigos publicados e dá cartas no Niels Bohr Institute. Estuda buracos negros. O que deixa de ser uma ironia cósmica quando percebemos que o comentador televisivo da Medialivre passa o dia a demonstrar que também possui um buraco negro, embora localizado num sítio anatomicamente diferente e de onde saem opiniões sobre o patrão.
Temos a Zita Martins a fazer de olheira no espaço, a investigar cometas e cosmoquímica para perceber a origem da vida, e a Marta Cortesão na microbiologia espacial, a estudar como microorganismos resistem a condições extremas na Lua ou em Marte.
Mas quem é que quer saber de Marte? Marte não vende pacotes de televisão Premium, Marte não tem cláusula de rescisão, Marte não dá patrocínios de cuecas.
O Pedro Mota Machado estuda atmosferas de outros mundos e a Clara Sousa Silva caça bioassinaturas em planetas distantes. Ou seja, há cientistas portugueses a tentar descobrir se existe vida inteligente no universo enquanto o resto da pátria gasta mais de uma semana da sua vida a tentar perceber se existe vida inteligente na opinião pública portuguesa.
O ridículo atinge o seu auge com David Sobral. Em 2015, este astrofísico liderou a descoberta de uma das galáxias mais brilhantes do Universo primordial. Num diagnóstico clínico perfeito sobre o saloísmo do seu próprio povo, baptizou a galáxia de CR7. Foi uma jogada de génio. Ele sabia perfeitamente que, se lhe chamasse Galáxia da Ciência, por exemplo, os directores de informação ignoravam-no e as Ronaldetes achavam que era uma marca de detergente. Foi preciso meter a sigla do boneco da bola do Instagram nas estrelas para que a astronomia nacional merecesse trinta segundos de antena entre o penálti do fim-de-semana e a micose do apanha-bolas.
Cá em baixo, homens como Ivo Vieira constroem o futuro que nós teimamos em adiar. O co-fundador da LusoSpace lidera o projecto da constelação Lusíada, uma rede de satélites portugueses baptizados com nomes de escritores como Camões, Pessoa, Saramago e Agustina Bessa-Luís, desenhados para monitorizar os nossos oceanos.
É quase hilariante. Uns portugueses põem Camões no espaço profundo. Outros põem o Cristiano Ronaldo em tudo o que é caneca, painel publicitário e conversa de café.
A questão aqui nem é o futebol. Pode-se gostar do jogo e admirar o atleta. O problema é a indigência mental de uma sociedade que transforma a birra de um quarentão mimado num assunto de interesse nacional e, em simultâneo, trata cientistas, investigadores e professores como se fossem figuras menores.
A ciência não tem comentadores aos gritos, não tem câmaras na pista do aeroporto, não vende camisolas oficiais a cem euros. E, acima de tudo, não tem o talento extraordinário de paralisar um país inteiro porque alguém ficou zangado por não jogar trinta minutos contra a Noruega.
Quando estes cérebros se cansam do nosso paroquialismo e decidem bater as asas, não apanham jactos privados para as arábias com uma comitiva de bajuladores. Levam uma mochila às costas, um computador portátil e uma carreira que foi construída apesar das condições que o país lhes deu, nunca por causa delas. Vão de Ryanair, a rezar para que a mala de cabine não ultrapasse as medidas da companhia aérea.
Nós ficamos cá. Orgulhosamente totós. A discutir o comunicado. O comunicado do comunicado. A resposta ao comunicado.
E a ver se o homem volta a saltar com as pernas abertas neste deserto de indigentes mentais...
SIIIIIUUUUUUUU e até à próxima...
Referências consultadas:

https://www.portugalglobal.pt/.../waze-of-the-oceans.../

Luís Rocha 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Vale a pena ler este historial da diva! Retirado do mural de Aldegundes da Silva:

“Dizem que Cristiano Ronaldo deve ser um exemplo para os nossos jovens; o nosso PM vai mais longe e afirma que todos nós deveríamos ter “mentalidade Ronaldo”.
Não me parece.
Ser capaz de dar bons chutos numa bola e, com isso, fazer uma fortuna incomensurável, não faz de ninguém modelo moral, ético ou de qualquer outra natureza. Neste caso, muito pelo contrário. Filho meu jamais seria educado a imitar tal pessoa, e (como cidadão) recuso liminarmente a invectiva do PM, que considero de um nível de parolagem que excede o aceitável.
Senão vejamos, um breve resumo dos “feitos” deste atleta que querem usar como “modelo”; se isto é para algum de vós uma conduta recomendável e um modelo a seguir, estamos em completo e insanável desacordo. E isso não tem nada – rigorosamente nada – que ver com o facto de ter jogado bem futebol (ou ao berlinde).
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2005, U.K.: suspeito de violação numa penthouse do Sanderson Hotel, detido pela Scotland Yard. Caso arquivado por desistência de uma das alegadas vítimas.
2009, USA: suspeito de violação; caso encerrado com acordo financeiro com a alegada vítima.
2010, Mundial: depois da eliminação frente à Espanha desrespeitou o treinador e cuspiu na direcção de um operador de câmara.
2014, Mundial: depois da eliminação na fase de grupos, disse que deveria haver "dois ou três Cristianos" na equipa.
2016, Euro: atirou o microfone de um jornalista para um lago. Depois comprou esse canal de TV, onde hoje é sistematicamente bajulado.
2018, Real Madrid: saiu para a Juventus, desrespeitando o treinador, porque não se sentia valorizado.
2019, Espanha: condenado por fraude fiscal (23 meses de pena suspensa e multa de cerca de 18,8 milhões de euros).
2019, Atlético de Madrid: multado pela UEFA por gesto obsceno para os adeptos.
2019, Juventus: abandonou o estádio antes do fim do jogo com o Milan, depois de ser substituído.
2021, eliminatórias Mundial, Sérvia: atirou a braçadeira de capitão ao chão após um golo anulado.
2021, Lisboa: construção ilegal / clandestina de uma “marquise”.
2021, Gerês: construção ilegal / clandestina de anexos.
2021, Juventus: saída abrupta para o Man Utd em conflito com treinador (e direcção).
2022, Everton: partiu deliberadamente o telemóvel de um adepto de 14 anos. Recebeu uma advertência da polícia e foi multado e suspenso pela FA.
2022, Man Utd: faltou à pré-época e recusou entrar como suplente contra o Tottenham. Desrespeitou o treinador e viu o contrato rescindido.
2022, Mundial: festejou como seu o golo de Bruno Fernandes ao Uruguai. Forçou a Federação a registar o golo que não foi dele.
2022, Mundial: Reagiu mal à substituição contra a Coreia; desrespeitou o treinador por interposta-pessoa (familiares)
2022, Mundial: O seleccionador que tirou a titularidade a Ronaldo foi sumariamente afastado.
2023, Al Hilal: gesto obsceno dirigido aos adeptos em resposta a cânticos de "Messi". A federação saudita não o castigou.
2024, Al Shabab: gesto obsceno dirigido aos adeptos perante cânticos de "Messi". Suspenso por um jogo.
2025, funeral de Diogo Jota: não compareceu e foi visto de férias em Maiorca. Mais tarde justificou-se: "onde eu vou é um circo".
2025, Irlanda: expulso por agressão com o cotovelo num jogo de qualificação para o Mundial.
2025, USA: Trump chamou-lhe "um dos homens que pode ajudar a mudar o mundo"
2025, USA: dá respaldo a Mohammed bin Salman, ditador que encomendou o bárbaro homicídio do jornalista Jamal Khashoggi.
2026, Al Nassr: fez greve e falhou jogos em protesto contra o fundo PIF.
2026, Liga das Nações: no final do jogo com a Noruega, que Portugal venceu, foi directo ao balneário, sem saudar os adeptos.
2026, Liga das Nações: abandonou o estágio da Selecção sem qualquer justificação.”