Rádio Freamunde

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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Gigante Egoísta e os seus 55 jardins:

Quem tem 55 propriedades, entre imóveis e terrenos rústicos, tem o dever moral de se afastar da bolha de privilégio em que vive e conhecer como, hoje, não é apenas impossível chegar ao fim do mês. Tornou-se, impossível, para muitos, planear o início do mês com autonomia

Quem se lembra do conto do Gigante Egoísta, de Oscar Wilde, sabe que havia um homem que tinha um jardim onde as crianças gostavam de brincar e que, por egoísmo, esse gigante fechou os muros, expulsando as crianças. A partir desse momento, nada floriu e só quando as crianças voltaram é que voltou a haver primavera e alegria. Lembrei-me deste conto a propósito das infelizes declarações de Luís Montenegro sobre as manifestações que têm acontecido pelo direito à habitação.

Não sobram hoje dúvidas de que a carga policial sobre os manifestantes foi gratuita e injustificada. Às versões contraditórias sobrepõem-se as imagens mostradas pela RTP, que mostram a polícia a avançar quando os manifestantes já se iam embora. Este escalar desnecessário de tensão por parte de quem deve garantir que o direito à manifestação se cumpre vai correr mal. Gera aproveitamentos por quem quer viver da desordem e do caos. Noutros lugares, de que França é o melhor exemplo, a infiltração nas manifestações daqueles que apenas querem destruir alimenta as narrativas da extrema-direita, que se apresentará como securitária, garante da ordem e acusando os promotores das manifestações daquilo que escapou ao seu controlo por via dos infiltrados (que, como aconteceu com os coletes amarelos, muitas vezes apenas estão a seguir as ordens da própria extrema-direita). Quem ache que não há aproveitamentos está a enganar-se a si próprio.

É há demasiado tempo evidente que a crise de habitação explodiria na Europa. O que se passa com o mercado de rendas e de venda de casas é o exemplo mais claro do que o ideário neoliberal desprotege os mais vulneráveis, esmaga a classe média e retira esperança aos mais jovens. Por toda a Europa, a mão invisível do mercado, entregue a si própria, sem qualquer regulação por nenhum governo, gerou as impossibilidades que hoje esmagam quem não consegue pagar uma casa. E quem não consegue pagar uma casa é praticamente a totalidade da população jovem, dos que trabalham e recebem o salário médio. Nenhum jovem em início de vida consegue encontrar uma casa como a que os seus pais, há 20 anos, tinham. O impacto disto na esperança e, sobretudo, na valorização do estado social e da educação é devastador. Estamos, pela primeira vez, na generalidade dos países, perante uma geração que estudou mais do que os seus pais e vai viver pior. E não nos iludamos: isto deve-se, em primeiro lugar, ao preço da habitação. Pensando apenas nas profissões do setor público que, tradicionalmente, tinham melhores remunerações, seria impensável, há dez anos, que um jovem médico ou um professor universitário não pudessem encontrar onde morar em Lisboa, Coimbra ou Porto no início das suas carreiras, ou que tivessem de se alojar num quarto como quando eram estudantes. A normalização disto é a rejeição da dignidade mínima.

Falar do egoísmo de quem se manifesta, como fez Luís Montenegro, é a expressão plena da falta de empatia a que nos tem habituado. Espera-se de um primeiro-ministro o máximo de compreensão sobre como vivem os cidadãos. Quem tem 55 propriedades, entre imóveis e terrenos rústicos, tem o dever moral de se afastar da bolha de privilégio em que vive e conhecer como, hoje, não é apenas impossível chegar ao fim do mês. Tornou-se, impossível, para muitos, planear o início do mês com autonomia. Não foi apenas em Espanha que uma idosa foi despejada sem alternativas. Também em Portugal temos relatos de pessoas que, na fase mais avançada da sua vida, veem os seus contratos de arrendamento chegar ao fim e apenas encontram no mercado apartamentos mais pequenos do que aqueles em que viviam, mas agora pelo dobro ou triplo do que pagavam. Quando os dados mostram que o preço de um aluguer corresponde a 116% do salário ultrapassámos tudo o que é aceitável.

Este é um problema de uma complexidade enorme, porque se arrastou, não foi regulado, porque se confiou num mercado que não merece confiança. Gerou-se a tempestade perfeita: não houve construção, houve guerra e inflação nos custos de construção, não se resolveu o problema das casas vazias, desregulou-se o alojamento local, não se alterou nada sobre os residentes não habituais para quem cidades no sul da Europa se tornaram a versão barata da sua aposentação ou um sítio para investir e especular, os salários cresceram muito menos do que os preços. As políticas para a habitação não tiveram medidas firmes contra a especulação imobiliária. As respostas simplistas para esta complexidade só vão favorecer os populistas e corroer as democracias.

Há, contudo, políticas que só agravam o problema. A legislação proposta pelo Governo, apoiada pelo Chega, faz tudo o que é possível para o aumentar, desprotegendo ainda mais os mais vulneráveis. A resposta de habitação pública continua a ser insuficiente e é preciso perceber, de uma vez por todas, que este é um problema não apenas dos mais pobres, mas a principal causa de uma destruição da classe média, fundamental para a sustentabilidade dos valores democráticos.

Revertamos o argumentário do egoísmo. Será egoísta quem, na rua, pede um maior compromisso da classe política com o problema da habitação ou quem está tão distante da vida das pessoas que acha que uma renda de 2300 euros é moderada? Será mais egoísta quem não sabe como se vai autonomizar no início da vida adulta ou quem vive dos rendimentos de mais de 50 imóveis? Será mais egoísta quem vive na angústia de não saber que valor lhe vai ser apresentado quando o seu contrato de arrendamento terminar ou quem faz legislação para facilitar despejos, aumentos ou exigir cauções e adiantamentos de renda incomportáveis para o cidadão comum? Será mais egoísta o cidadão que trabalha e não consegue pagar onde morar ou a agenda neoliberal do lucro pelo lucro?

Não é egoísmo. É desespero e falta de futuro. Ninguém em Portugal é detentor de 55 imóveis por mérito do seu esforço ou por via dos rendimentos do seu trabalho. Apenas por herança ou sorte, nunca por mérito. Egoísmo é olhar para a sua própria vida e não ter a humildade de entender isto, senhor Primeiro-Ministro, colocando-se no lugar do Gigante Egoísta, que não percebeu que as crianças que iam para o seu quintal eram quem, verdadeiramente, lhe dava vida. Não eram elas o problema.

Opinião

João Costa

Professor universitário, ex-ministro da Educação

 Expresso

Há alguma comparação entre o crime de roubar uma loja e o crime de roubar um continente inteiro?

(Raquel Varela, in Facebook, 20/10/2026, Revisão da Estátua)


O spinismo disfarçado de jornalismo já corre nas veias dos jornais e TVs – são ladrões de lojas, aceitem o recolher obrigatório, nós, que vos pilhámos o Estado Social, estamos aqui para vos proteger do povo irado.

Os palácios tremem na Europa. A pilhagem do Estado Social pelos governos e pela sua economia de guerra tem agora um adversário -, a juventude e os trabalhadores disseram basta. E a extrema-direita, o colete salva vidas dos liberais europeus, ficou a ver navios, quer dizer, barricadas. Nas ruas clama-se por igualdade e liberdade, a extrema-direita nada tem a oferecer. O Chega veio a correr pedir um pacote de emergência para a habitação quando, de emergência, aprovou há 15 dias um mega pacote de apoio aos fundos imobiliários, juntamente com o PSD, seu parceiro na Remax que é Portugal.

O medo tomou conta dos palácios, que já reagiram colocando milhares de funcionários das agências de comunicação a trabalhar no spin. O spin é “trata-se de violência urbana e não de protestos“, logo devem ser proibidos e reprimidos para salvaguardar as “pessoas“. Lá, o recolher obrigatório, aqui tendas no Rossio e Porto são retiradas pela PSP – e cito: “com escudos e cães” (os animais são uma arma?! qual a raça, eram caniches?). Manifestantes detidos, para deixar passar os investidores, que se escondem, de cara tapada, num hotel de luxo em Nova Iorque, e perguntam: – Hoje subiram mais as minhas ações das casas em Lisboa. ou foram as investidas em drones? Thank you.

Certificados jornalistas, que há muito não fazem jornalismo, estão nas ruas em direto de Paris e Milão. A entrevistar estes milhões? A dar-lhes voz e a trazer-nos para dentro de casa a realidade, complexa, a serem os nossos olhos? A perguntar-lhes quem são, o que fazem, o que gostam, que futuro desejam, como se organizam? Não, nem uma voz dos 800 mil do dia 17 de Outubro, só na França, e apenas a voz da senhora da loja, tristíssima – e cheia de razão -, com a destruição do seu negócio.

A realidade complexa é para cortar com uma forte emoção; quem não simpatiza com uma senhora jovem roubada? O que seria se fossem as imagens das lojas protegidas por manifestantes, da orquestra a tocar e a levar com bombas de gás lacrimogéneo, das barricadas desmontadas em segundos, para deixar passar os bombeiros? Não, isso não interessa. Repórteres agitados em direto descrevem o que lhes mandam – com um fundo de gás lacrimogéneo, barricadas urbanas, tiros de balas de borracha e cocktails molotov, mostram apenas um lado, e minoritário, da violência, animalizando o povo.

Que frete! De 6 greves gerais já realizadas ou previstas na Europa, a milhões de jovens pela primeira vez nas ruas com um programa de defesa do Estado Social contra a guerra, do humor e criatividade que nasce nestas ruas, da entrada das classes médias nos protestos, da inusitada brutalidade policial e da ainda mais surpreendente capacidade de autodefesa das pessoas contra a polícia, incluindo contra os provocadores da polícia, infiltrados, tudo aquilo que espanta nestes protestos não espanta o complexo mediático. A realidade não interessa.

Nos EUA os estudos sobre Hollywood chamam-lhe o “complexo militar-cinematográfico“. Podemos dizer que, na Europa, temos hoje um complexo militar-mediático. O “jornalismo” institucional e empresarial serve para justificar a guerra dos Governos contra as “pessoas“. Feito para nos convencer que estes jovens – esmagados pelo preço da habitação e pelos baixos salários -, aliados aos trabalhadores – exaustos e sem serviços públicos -, são meros ladrões de lojas que não compreendem a necessidade da UE – a direção financeira da Europa dos palácios – investir, ou sejam roubar-nos, 800 mil milhões de euros do Estado Social para a guerra e a lucrativa indústria militar de destruição em massa.

Não é a roubar lojas que se fazem mudanças, não serve para nada tal ação, é injusto e burro. São aliás necessários comités de autodefesa das manifestações contra os ladrões e os provocadores, parte deles polícias – há farta prova disso, publicada até por deputados, polícias a atacar bens…

É na organização política democrática, estruturada por conselhos, que se vence. Eles querem-nos desorganizados. Mas Brecht está hoje a ver TV, esse deserto mediático que tenta roubar-nos a palavra jornalismo, quando o que fazem é spinismo, pelo que deixo uma pergunta final:

Afinal, há alguma comparação entre o crime de roubar uma loja e o crime de roubar um continente inteiro?

Do Blogue Estátua de Sal 

Cabeças falantes:

Há três problemas particularmente sérios nas televisões e na imprensa em Portugal: a enorme quantidade comentadores/opinadores, os seus estranhos currículos e a razão para isso assim ser.

São, muitas vezes, pessoas que defendem com tal despudor e falta de empatia social, ou pelo menos de equilíbrio, os interesses do sector financeiro e do regime que, de vez em quando, não resisto e faço uma pequena pesquisa para perceber quem são. Porque um dos truques das televisões e da imprensa é não revelarem quem são, o que fazem e de onde vêm os seus comentadores e colunistas. Referem o nome próprio e apelido, raramente, no melhor dos casos, acrescentam ainda um genérico ‘jurista’, ‘economista’ ou ‘professor universitário’ (nem vale a pena aprofundar a deficiência do ensino superior na área decisiva da economia que formata ideologicamente de tal forma os estudantes que a maioria sai com exactamente a mesma cabeça).
Hoje, chocado com um artigo de opinião, em destaque num jornal ‘de referência’ da autoria de alguém só identificado com fotografia e nome, fui ver quem é e o que faz a personagem. Aproveitei e continuei a pesquisa, durante mais meia hora, para ver quem são e o que fazem alguns dos opinadores e comentadores nas principais televisões e jornais que habitualmente me irritam. O primeiro, apologista da repressão policial e da nova lei das rendas, que aparece, com ar de genro perfeito, de fato e gravata, é actualmente gestor do sector privado ligado a fundos de investimento, outro é dono de uma agência de comunicação, ou seja, faz campanhas para os clientes que lhe pagam, um terceiro trabalha para um grande escritório de advogados, um quarto está ligado a institutos privados que representam os interesses dos EUA, o quinto é lobista duma federação, o sexto administrador duma empresa ligada à indústria do armamento, o professor universitário é regularmente convidado para viagens aos EUA e a Israel, depois aparecem alguns lobistas, assessores e avençados disto e daquilo. Nada disto é dito ou explicado pelas televisões ou jornais no espaço que conferem a estes ‘analistas’ e ‘especialistas’.
Tirando algumas ‘vedetas’ do comentário, especializadas em generalidades e posicionadas em destaque para concorrerem mais tarde a cargos políticos, a maioria dos colunistas e opinadores não precisam de ser autoridades nas suas áreas, muito menos reconhecidas. A sua importância advém, aparentemente, de terem a sua fotografia no jornal ou busto na televisão.
Quando um serviço é ‘gratuito’, o ‘produto’ somos nós, neste caso como receptores da opinião e das narrativas que permitimos que os donos da imprensa e da televisão nos imponham. O ‘produto’ são os eleitores, que, nas próximas eleições, votarão de acordo com as opiniões que lhes foram apresentadas, dia após dia, em permanente repetição, até se tornarem factos, verdades e princípios.
Ao contrário de um jornalista que leve o código deontológico a sério (tarefa cada vez mais dificultada pela falta de autonomia editorial das redacções e a crise de emprego na Comunicação Social), os opinadores, comentadores, ‘analistas’ e ‘especialistas’ são convidados pelos donos das televisões e jornais para opinarem aquilo para que foram escolhidos. O que dizem e escrevem passa a ser relevante, porque aparece permanentemente nos jornais e nas televisões (o ‘pluralismo’ atinge-se com uma ou duas vozes, isoladas e em segundo plano, a servir de álibi).
Em vez do actual excesso de opiniões deveria obviamente haver mais jornalismo de investigação e jornalismo especializado (mas aí os resultados são incertos). Para aquilo que se pretende é mais eficaz ter pessoas a debitar opiniões e ‘análises’ em torno da sua visão do mundo que, em destaque online e em ‘prime-time’ nas televisões, fazem eco, só por coincidência, claro, das agendas e dos interesses dos donos e dos anunciantes das televisões e jornais.
Uma dúzia de cabeças a opinar sai muito mais barato e é mais fácil de manipular do que o trabalho de jornalistas, aliás, a maioria dos opinadores e comentadores opinam e comentam de borla. O filho duns amigos, muito mais novo do que eu, perguntou-me, há anos, se devia aceitar escrever uma crónica regular num jornal que não lhe pagava nada. Desaconselhei-o. Disse-lhe que, na minha opinião, o trabalho deveria ser remunerado. Ele ignorou o meu conselho e, após anos de colunas gratuitas a comentários de borla, acabou na vice-presidência dum partido.
Miguel Szymanski, jornalista freelance e escritor
Foto: Cabeças Falantes, domínio público

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Desocupação forçada de protesto pela habitação gera confrontos e detenções no Rossio:

O desmantelamento aconteceu em simultâneo com o do Porto, onde os manifestantes acabaram por ceder ao ultimato policial e desmontar as tendas voluntariamente para evitar detenções.

A Polícia de Segurança Pública (PSP), através do seu Corpo de Intervenção, desmantelou na madrugada desta terça-feira os acampamentos de protesto instalados na Praça D. Pedro IV (Rossio), em Lisboa, e no Porto. A operação resultou na detenção de vários manifestantes que ofereceram resistência às autoridades.

De acordo com relatos televisivos, a intervenção policial teve início pouco antes das seis horas da manhã, momento em que a PSP emitiu um aviso final para a desocupação imediata do espaço. As ações na capital e no Porto decorreram em simultâneo.
Numa tentativa de travar o avanço das forças de segurança, os ativistas concentrados no Rossio desde o passado sábado formaram um cordão humano. Contudo, a unidade de intervenção progrediu sobre o perímetro, desencadeando confrontos em que alguns manifestantes acusaram a polícia de uso excessivo da força.
A ação policial culminou com a identificação e detenção de diversos indivíduos, que aguardaram os procedimentos legais sentados no recinto da praça.
Após a retirada forçada, os ativistas recuaram em direção à Praça da Figueira, onde se concentraram temporariamente. O grupo acabou por decidir desmobilizar, mas deixou a garantia de que irá retomar as ações de protesto na próxima quarta-feira.
No Rossio, a PSP removeu a totalidade das tendas que ocupavam o recinto. Segundo confirmou a agência Lusa no local, as equipas municipais iniciaram de imediato os trabalhos de limpeza e reposição da normalidade na zona.
A iniciativa, organizada sob o mote "Não dá mais? Então monta a tua tenda!", visava contestar a perda de qualidade de vida e a atual crise na habitação. Horas antes da intervenção, durante a madrugada, os participantes tinham votado a favor da continuidade do acampamento, ignorando os apelos prévios das autoridades que tentavam evitar uma desocupação coerciva.
Dirigindo-se através de um megafone às centenas de pessoas que permaneciam na Praça D. Pedro IV (Rossio), a porta-voz da Acampada de Lisboa, Ana Luíza, partilhou os detalhes de uma comunicação estabelecida com a Polícia de Segurança Pública (PSP) por volta da meia-noite.
Segundo a representante, as autoridades dirigiram um apelo aos manifestantes para que abandonassem voluntariamente o local, alertando que uma desocupação forçada poderia ocorrer a qualquer instante, embora sem definir um horário concreto.
Manifestantes no Porto retiram tendas sob ameaça de detenção
No Porto, os manifestantes que ocupavam a Praça D. João I há cerca de uma semana, em protesto contra a crise na habitação, optaram por desmantelar o acampamento na madrugada desta terça-feira face à iminência de uma carga policial.
Imagens divulgadas pelos canais de televisão mostram que, pouco antes das seis da manhã, a Polícia de Segurança Pública (PSP) fez um aviso final aos presentes. As autoridades exigiram a remoção imediata das dezenas de tendas instaladas e advertiram que quem resistisse seria detido.
Perante a ordem, o grupo acatou a indicação e começou a recolher o material de campismo, embora alguns ativistas tenham decidido permanecer temporariamente no local.
Na noite de segunda-feira, uma assembleia popular que reuniu 35 manifestantes votou a favor da continuidade do acampamento no Porto, onde as ações de protesto pelo direito à habitação decorrem desde o dia 10 de outubro.
Esta decisão surgiu depois de o coletivo já ter sido alertado pelas autoridades na noite anterior. Tal como aconteceu na capital, a polícia informou os ativistas de que a ocupação do espaço público era ilegal, advertindo que a insistência na permanência configuraria um crime de desobediência.
DN - 20102026

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Começa a semana com isto:

Ministério Público arquivou caso Parque Escolar

Alguém, algum dia, fará a conta ao dinheiro gasto pelo Estado nas campanhas negras e na judicialização da política?

por Valupi

Do Blogue Aspirina B 

Acender o rastilho do futuro:

(Bruno Amaral de Carvalho, in Manifesto74, 19/10/2026, Revisão da Estátua)


(Magnifico. A Estátua não se coibe de deixar aqui uma menção pública à qualidade deste texto, quer no aspeto formal, quer quanto ao desenho das causas que conduziram o mundo atual ao caos larvar em que se encontra, e ceifaram rente o futuro e a esperança das gerações novas. Parabéns, Bruno.

Estátua de Sal, 19/10/2026)

Depois do fim da União Soviética, tentaram convenceram-nos de que a História havia acabado. Restava-nos o capitalismo para o resto da nossa existência enquanto Humanidade. Como uma doença silenciosa, fizeram-nos acreditar que os sindicatos eram nossos inimigos, que as colectividades eram algo fora de moda e que os partidos comunistas estavam ultrapassados. Fomos domesticados e as cidades foram higienizadas. Passámos a gostar de ruas cheias de anúncios publicitários, das praças vazias e do silêncio.

Achamos que progresso é ter um McDonalds ou um KFC. Os lugares onde vivemos, a pouco e pouco, perderam a identidade e passaram a ser todos iguais. Deixámos de ver manifestantes como gente de bem que luta por todos nós e deleitámo-nos com piquenicões do Continente ou com mega feijoadas na Ponte Vasco da Gama. A pouco e pouco, a arte e a cultura foram-se esvaziando de conteúdo. Os cinemas fecharam e passámos a gastar os nossos dias a ver Netflix.

Enquanto nos esvaziavam a alma, traímos a memória dos nossos pais e avós. Começámos a desdenhar de quem vive do seu trabalho e a celebrar os vendedores de banha da cobra. Primeiro foram os empreendedores e o mito de que sozinhos e com muito trabalho conseguíamos ser melhor que os outros. Dantes, o filho do operário, do sapateiro, da padeira, da costureira sabia que a união fazia a força e havia orgulho em ser-se parte dos que trabalham. Agora, está na moda a cultura criptobro, os que vivem fascinados com a bolsa, as criptomoedas e as apostas online. Deixámos de ser trabalhadores e passámos a ser colaboradores.

Já se sabe, tudo o que vem de fora é bom. Desde que venha dos Estados Unidos. E que não sejam imigrantes. Importa muito pouco que os nossos avós fossem migrantes descalços quase mortos de fome do Alentejo ou de Trás-os-Montes. Ou que vivessem em barracas. Agora, odiamos quem vem trabalhar e viver nessas condições e até nos ajoelhamos se for preciso quando se trata de um americano louro que vem dar-nos uma gorjeta. Fomos colonizados. Vendemo-nos. Eles ficam com as nossas casas e com as nossas praias. E não, não são os pretos e os indianos.

Deixámos que os bancos e os fundos imobiliários tivessem no governo os seus representantes. São eles que traçam o nosso destino. E chegámos ao ponto em que não nos podemos revoltar porque a violência é sempre má, menos quando é a polícia a violentar-nos. Aí encontramos todas as justificações. “Não querem trabalhar”, “são arruaceiros”, “a lei é para cumprir”. Neste tempo do team building, querem-nos calados, sem dignidade, sem coragem. Escravos. Só nos resta um futuro colectivo com a ruptura do actual estado de coisas.

Não, não és colaborador. És trabalhador e vives fodido para pagar a casa, o colégio do puto e as compras do mês. Na era das percepções, querem vender-te a ilusão de que sozinho podes tudo e de que calado vais longe na empresa. Talvez um dia, sentado na poltrona às portas da morte, te dês conta da cobardia do que fomos e de que juntos poderíamos ter sido tudo. É o medo. O medo é a mordaça que nos põem todos os dias para que sintamos que melhor assim do que num lugar desconhecido.

Preferimos não arriscar do que pensar que talvez haja mesmo uma forma de vivermos todos melhor e que não haja um filho da puta a comprar iates e uma nova casa na Comporta com o dinheiro do nosso suor. Agora imagina que um dia incendiamos o horizonte e descobrimos que o riso das nossas crianças será um dia a nossa vingança, como escreveu um dia Bobby Sands.

Imagina um país de gente digna, com a coluna vertebral intacta, que não prefere enfrentar o colega ou o vizinho a enfrentar os poderosos. Imagina o combustível colectivo que seríamos para queimar de uma vez por todas o sistema que permite que um ser humano possa ter centenas de casas e outro não tenha nenhuma, que permite que uma pessoa possa ganhar tanto num mês como milhares numa vida inteira, que permite que um primeiro-ministro, à frente de um governo, olhe para todos nós e diga, sem medo, que somos egoístas.

Fonte aqui

Do blogue Estátua de Sal 

domingo, 18 de outubro de 2026

A revolta do Povo e a conversa de rufia:

(In RiseUp Portugal, in Facebook, 16/10/2026, Revisão da Estátua)

O ilustre Carlos Abreu Amorim, ministro dos Assuntos Parlamentares do Governo de Luís Montenegro, veio anunciar, com a arrogância própria de quem confunde um cargo público com um título de propriedade, que o Governo “não vai ceder aos gritos que vêm da rua”.

Há, desde logo, algo de particularmente estranho nesta declaração: Vossa Excelência não foi eleito pelos portugueses para o cargo que ocupa. Foi escolhido por Luís Montenegro e nomeado para integrar o Governo. Não recebeu um mandato pessoal para dar lições aos cidadãos sobre a forma como devem manifestar o seu descontentamento. Muito menos para os tratar como crianças malcomportadas, num tom paternalista com um cheiro a Estado Novo que julgávamos definitivamente arrumado na História.

Aliás, sendo ministro dos Assuntos Parlamentares, talvez fosse conveniente recordar-lhe que a sua função é assegurar a articulação política entre o Governo e o Parlamento, não distribuir reprimendas à população. Mas, pelos vistos, há quem confunda uma nomeação ministerial com uma promoção a tutor dos portugueses.

Há episódios que revelam mais sobre a estatura intelectual de uma pessoa do que uma longa carreira de discursos cuidadosamente preparados. Em 2013, Vossa Excelência escreveu nas redes sociais: «Magrebinos: curvem-se perante a glória do Grande Dragão!», dirigindo-se aos adeptos do Benfica. Mais tarde pediu desculpa. O pedido de desculpas foi devido, mas não apaga a pobreza de espírito, intelectual e de critério demonstrada naquela intervenção. O mais desconcertante é que, tantos anos depois, um membro do Governo continue a recorrer a um discurso de superioridade para se dirigir aos cidadãos. Esperar-se-ia de quem ocupa tão altas funções maior rigor, discernimento e sentido de responsabilidade. Afinal, os cargos podem ser atribuídos por nomeação. A estatura intelectual, essa, não vem incluída no despacho.

Pois muito bem, senhor ministro. Se pretende desafiar o povo, convém estar preparado para ouvir a resposta. Comecemos pelo elementar. O poder político pertence ao povo, não aos ministros. São os cidadãos que elegem os seus representantes, é deles que emana a legitimidade democrática e é a eles que os governantes devem prestar contas. Não é uma opinião nossa, é a Constituição da República Portuguesa. Recomendamos a leitura.

Convém também esclarecer uma pequena questão de hierarquia que parece escapar a Vossa Excelência: os governantes são servidores públicos, não patrões dos portugueses. Recebem, e muito bem, para servir quem lhes paga o ordenado. Talvez fosse interessante perguntar aos contribuintes se consideram justificados tantos salários, privilégios e regalias. Ou até se não seria mais adequado reduzir para metade os vencimentos de quem exige sacrifícios aos outros com tamanha desenvoltura.

Quanto à habitação, estamos de acordo numa coisa: não se resolve com bandeiras da Palestina, mas isso também é totalmente irrelevante para as questões em apreço. Também não se resolve com discursos arrogantes, especulação imobiliária, salários miseráveis ou bastonadas sobre quem protesta. Resolve-se com políticas públicas. Precisamente aquilo para que vos pagamos.

Qualquer pessoa medianamente inteligente compreenderá que o verdadeiro poder está nas mãos do povo. E, quando a esmagadora maioria dos portugueses enfrenta dificuldades para viver dignamente, talvez fosse prudente não desafiar quem, em conjunto, tem muito mais poder do que qualquer Governo. Não é preciso um curso de Ciência Política para perceber isto. Basta saber contar.

Se o Governo não quer ouvir os gritos da rua, experimente fazer o seu trabalho. Talvez as pessoas deixem de precisar de gritar para serem ouvidas. Quanto à promessa de não ceder, tenha alguma prudência, senhor ministro. Até na Física se aprende que aquilo que não cede, perante pressão suficiente, acaba por quebrar.

As ruas são nossas. O país é nosso. O poder é nosso. Os senhores estão apenas de passagem. Não se esqueçam de uma última coisa: não somos nós que trabalhamos para vocês. São vocês que trabalham para nós.

Do Blogue Estátua de Sal