Rádio Freamunde

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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Sabem onde é que estive estes dias?

 

Sabem onde é que estive estes dias?

Na América.
Um rapaz disse-me para ir com ele ver os aviões. Ou estava a cantar a música dos Azeitonas e eu levei aquilo a sério. Pronto, não interessa. Fui.
Parou a viatura naquele sítio ao lado do Prior Velho onde se veem os aviões e lá ficámos.
Até me faz impressão existir uma terra chamada Prior Velho. Toda a gente sabe que um prior já nasce velho.
Lá estava eu a observar aquele fenómeno social que ainda nenhum livro de psicologia de massas conseguiu explicar quando vejo o Rangel a entrar num avião.
Aí não me contive. Abri uma abertura na rede e fui atrás.
Isto já foi naquela parte da música em que o Miguel Araújo canta que um dia há de levar alguém à América. E não foi difícil entrar no avião porque o Rangel paga bilhete inteiro mas só utiliza meio. Meio dele, meio meu, ninguém deu por nada.
Por sorte ando sempre com um caderno na mala e fui anotando.
Chegados à América, eu sempre colada ao Rangel, começámos a ver pessoas. Muitas pessoas. Vimos também políticos, mas isso já não vos posso garantir que fossem pessoas.
O Rangel nem parece um rapaz da cidade. Em cada esquina dava um grito:
— Aponta, Catarina! Aponta isto!
E eu apontava. Uma loja de filigrana.
— Aponta!
Uma livraria com livros do Tio Patinhas.
— Aponta! — disse que lhe fazia lembrar o outro tio, o Marcelo.
Um café com pastéis de nata.
— APONTA!
Uma garrafa de vinho do Esporão.
— CATARINA, ESTÁS A VER ISTO?
Estava. Ao fim de duas horas já tinha apontado três restaurantes portugueses, dois galos de Barcelos, uma camisola do Cristiano Ronaldo e um homem chamado Manuel que era de Newark mas tinha uma tia em Viseu. Tudo lhe dava orgulho em Portugal.
A mim dão-me orgulho coisas mais consistentes. Sei lá. Salários a subir. Rendas a descer. Pessoas a conseguirem marcar uma consulta antes de morrerem. Cada um com as suas taras.
Entre a Quinta Avenida e a Sétima, que, se não estou em erro, é a Sexta, demos de caras com o Castelo Branco. O Castelo Branco não é uma pastelaria. Não confundam. É um senhor. O Rangel conhecia-o, embora não tenha conseguido apurar de onde.
Foram lanchar os dois e eu fiquei ali a observar a cidade que nunca dorme.
Também não percebo a admiração. Há milhares de pessoas em Nova Iorque que não dormem porque nem sequer têm uma cama.
Vi um homem sair de um edifício onde um apartamento custa mais do que uma aldeia no Alentejo e passar por cima de outro homem que dormia num cartão.
Vi limusines paradas em semáforos ao lado de pessoas a pedir dinheiro para comer.
Vi lojas onde uma carteira custa o salário anual de quem limpa a montra.
Peguei imediatamente no caderno:
“Quando chegar a Portugal escrever à Mariana Leitão.”
A Mariana provavelmente não sabe disto. É o que dá conhecer os países pela Netflix. Uma pessoa vê aquelas coberturas em Manhattan, mulheres com copos de vinho junto às janelas e homens a correr no Central Park e deduz que os americanos estão todos muito bem.
Depois do almoço infiltrei-me na comitiva portuguesa e entrei nas Nações Unidas.
Ah pois é...
Vocês têm uma amiga que ouviu o António Guterres despedir-se do mundo. Salvo seja.
Ele agora vai voltar para o Fundão, que no Fundão é que ele faz falta, e o homem também já precisa de descansar. Dez anos a tentar que a humanidade se comporte deve cansar mais do que apanhar cereja.
O Luís também lá estava. O Luís, já sabem, esteja onde estiver tem sempre aquela cara de quem está a pensar nas vindimas.
Por isso não consegui perceber se estava preocupado com Gaza, com a Ucrânia, com o clima ou se lhe tinham dito que este ano a Touriga Nacional vinha com pouco grau.
Também não vi muita gente a conversar com ele.
O Rangel, por exemplo, tinha coisas para fazer. Foi lanchar com o Zé, encontrar portugueses e cumprimentar um senhor chinês que, segundo percebi, cumprimenta os colegas aos beijos.
A diplomacia internacional avançou imenso. Antigamente invadiam-se países. Agora dá-se dois beijinhos e marca-se uma reunião.
Entretanto começaram os discursos.
Um dizia que era preciso acabar com as guerras. Outro concordava.
Outro dizia que era preciso combater a fome. Toda a gente concordava.
Outro dizia que era preciso respeitar o direito internacional. Concordaram todos outra vez.
Olhei para o planeta. Não se notava nada.
Anotei no caderno:
“ONU: grupo de whatsapp da humanidade. Toda a gente lê. Ninguém responde.”
Depois falou o Lula.
Aí fechei o caderno. Não apontei nada. Ouvi.
Era o que todos deviam fazer de vez em quando. Ouvir o Lula.
Quando saímos já era noite.
Não fiquei para o dia seguinte. Era o dia em que o Netanyahu ia explicar que o Irão está a 15 dias de ter uma bomba nuclear. Diz isto desde 1992 e eu tinha coisas para fazer.
Despedi-me do Rangel porque ele ainda queria procurar uma mercearia em Queens onde lhe tinham garantido que havia tremoços portugueses e eu tinha um avião para apanhar.
Vim embora da cidade onde dizem que as ruas não têm nome.
É mentira.
A cidade onde as ruas não têm nome é Espinho.
Em Nova Iorque as ruas têm nomes. Eu é que lhes chamaria outras coisas.
Rua da Miséria.
Avenida da Desigualdade.
Travessa dos que Dormem no Chão.
Largo dos que Passam por Cima.
Avenida dos que Têm Demais.
Rua dos que Não Têm Nada.
E, lá ao fundo, enorme, iluminada e cheia de bandeiras de países que passaram o dia inteiro a dizer que queremos salvar o mundo:

O Guerreiro não está ao nível daquelas brilhantes cabeças:

No dia 4 de Setembro, António Guerreiro publicou O populismo à vontade do freguês, onde começa por reduzir Francisco Mendes da Silva à vacuidade que o define, e depois termina a reduzir João Miguel Tavares à nhanha que o sustenta.

É notável por estar não só a causticar dois (2!) colegas de comentariado, e logo no mesmo órgão (no mesmo!), como ainda por serem os seus alvos cagões de alto coturno. O primeiro, genuína e intimamente estimado por pessoas que admiro pelo que trazem para o espaço público e para a comunidade (como o Pedro Marques Lopes e o Pedro Adão e Silva), não pode ser confundido com o segundo no plano moral, deontológico e ético. Já no plano cívico, pertence à mesma família daqueles para quem o Estado de direito democrático é uma coisa que tem dias e favoritos. Mas ambos se pelam pelas “polémicas” mediáticas onde se fantasiam de educadores do povo e influencers das elites.

Pois bem, as semanas passaram e nada de responderem ao Guerreiro. Se calhar não o leram, talvez por nunca o lerem. Ou se calhar lêem o colega, mas não leram aquela crónica dado estarem ocupados com as suas magníficas pessoas e, azar dos Távoras, ainda nenhum dos seus conhecidos os avisou de terem sido agraciados com uma banhoca à mangueirada. É uma explicação.

A outra será esta: eles acham que o Guerreiro não tem nível intelectual equivalente para sequer merecer que lhe dêem atenção. Não vão estar a gastar um precioso artigo dos seus só para ajudarem o Guerreiro a conseguir pensar em cenas difíceis. Ele que pergunte ao ChatGPT o que é realmente o populismo ou o que queria realmente dizer o Carl Schmitt. Estúpido do caralho.

por Valupi

Do blogue Aspirina B

Proibir, punir e fazer dinheiro:

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 23/09/2026, Revisão da Estátua)


Arespeito da repressão da palavra, importa ter presente que as chamadas redes sociais ocupam o lugar que outrora coube aos cafés e, antes destes, à praça pública. Nas sociedades antigas ou, se preferirmos, pré-modernas (e pré-industriais), a palavra era, apenas ou quase apenas, a palavra falada; daí a importância que o género político discursivo ocupou na literatura clássica (i.e. na Grécia e em Roma) e a parenética (semões) na literatura sagrada medieval, proferida dos púlpitos ou nas pregações públicas. A opinião pública era não mais que o burburinho que ocorria na praça (ágora ou no forum e, depois, na feira), nos recintos sagrados e nas disputas que se produziam nas assembleias comunais e municipais, ou no adro e recintos fronteiros dos templos.

Como o Estado quase mal intervinha na educação, nem perseguia qualquer esforço pedagógico, a liberdade da palavra era um risco ou uma arriscada liberdade pessoal, como a seu tempo demonstrou com brilhantismo Moses Finley no seu Política no Mundo Antigo. Contudo, para o poder, era difícil controlar a espontaneidade da palavra, da conversa pintalgada de desabafos, intrigas e anedotas maliciosas. A repressão era individualizada e caía sob a forma de prisão e exílio sobre o indesejado propalador de ideias subversivas, chegando mesmo à morte em situações extremas, tal como a imputada «corrupção moral da juventude» que causou a perdição de Sócrates. No que à esfera religiosa respeita, recorria-se a penas espirituais que a Igreja aplicava, as quais, por vezes, acabavam em excomunhão e entrega e condenação ao braço secular da justiça.

Depois, a «opinião pública» passou em crescendo a dominar a leitura e a escrita, pelo que o centro de gravidade das relações entre o Estado e os cidadãos, ou entre os cidadãos entre si, transitou para os jornais-gazetas e os livros. Por mais que o poder quisesse exercer vigilância e aplicar punições, as censuras viam-se a braços com grandes dificuldades, pois o exame prévio ou o nihil obstat eram mil vezes violados pela edição clandestina que não parava de crescer e corria de mão em mão. A censura e as penas aplicadas eram, assim, quase ineficazes.

Hoje, com a transição das galáxias de Gutenberg e de Marconi para a presente galáxia do algoritmo, a opinião pública não é mais a «opinião que se publica» nos jornais, nas rádios e nas TV’s, mas um direito ao alcance de todos. Cada um é um jornal, uma rádio ou uma TV.

Os jornalistas, agentes do poder ou dos poderes em conflito pelo poder, têm sido os mais encarniçados inimigos das redes sociais. Perderam o monopólio da palavra, deixaram de exercer o domínio do discurso, pelo que se compreende a raiva repressora e censória que sistematicamente exibem.

Ora, como a comunicação dita social não é o tão gabado 4º poder, mas a emanação do principal poder que se entranhou e confundiu com o Estado, ou seja, o 4º poder (o poder da Finança), não é de estranhar que esta, detentora da Big Tech, arrepie caminho e queira estrangular a verdadeira opinião pública que lhe fugiu ao controlo.

Estou certo que na actual deriva autoritária, censória e estranguladora da palavra que tomou o liberalismo, as redes sociais serão eliminadas ou postas a render por pagamento de perfil, por forma a que a máquina de fazer dinheiro do capitalismo não só domine, mas ganhe com o negócio da palavra algemada. 

Do blogue Estátua de Sal   

O tempo está a voltar para trás:


O do ministro da Educação, pelos vistos, já não coube.
😂🤣😂

E o melhor é que nem no Estado Novo, quando o Plano dos Centenários espalhou milhares de escolas pelo país e até havia crucifixos obrigatórios nas salas de aula, era prática pôr na placa oficial o nome de quem benzia a escola. Nem Salazar se lembrou desta. Isto está mesmo a correr bem. 

RiseUP Portugal

As veias (re)abertas da América Latina:

 (Manuel Loff, in Público, 22/09/2026)


O que é revelador nesta história é como o mais completo cinismo do Estado de Israel — organizar um genocídio à nossa frente e encenar solidariedade humanitária — se promove como modelo a seguir.

Ainda sem sabermos se Lula consegue voltar a travar o assalto do neofascismo bolsonarista, reflitamos sobre a natureza da nova vaga ultradireitista que está a tomar conta da América Latina.

A reação às experiências progressistas que começaram na viragem do século não começou agora, com os Bolsonaro, Milei, Kast, o salvadorenho Bukele, o equatoriano Noboa, o colombiano Espriella. Se há 20/30 anos foi a vez dos neoliberais (Fernando Henrique Cardoso, Fox, Piñera, Macri), esta nova geração de ultrarreacionários encena essa mistura perversa de sinais exteriores de fortuna, religiosidade estridente e desfaçatez moral, narcisismo trumpista, militares nas ruas e prisões concentracionárias como as de Bukele. Não hesita, como se viu com Bolsonaro, em montar golpes de Estado para conter o “comunismo”, que é aquilo que eles acham já ter sido, com Lula, os Kirchner, Morales, Correa, López Obrador, mais recentemente Boric ou Petro, as políticas redistributivas tipicamente social-democratas, que reforçaram a intervenção social do Estado mas não tocaram na estrutura da propriedade. A desigualdade classista e étnica, que é intrínseca a toda a ordem social das Américas (de facto, de todo o mundo capitalista, colonial e pós-colonial), manteve-se.

Do protetorado imposto (e aceite) à Venezuela pós-chavista até ao desabrido apoio ao Bolsonaro pai e aos filhos Flávio (o agora candidato) e Eduardo (o conspirador exilado nos EUA), o neoimperalismo trumpista tem tudo a ver com isto. Mas há mais do que isso. E é bem visível no caso de Abelardo de la Espriella, o novo Presidente colombiano, advogado de clientes poderosos acusados de ligações a grupos paramilitares, narcotráfico e corrupção. O que prometeu quando tomou posse, a 7 de agosto, diz tudo desta nova vaga fascizante que percorre as Américas: cortar impostos sobre os mais ricos, retomar a guerra civil, reatar relações diplomáticas e comerciais com Israel (rompidas pelo Presidente Petro em protesto por Gaza) e deixar de apoiar a denúncia de genocídio no Tribunal Internacional de Justiça.

Três dias depois, um terramoto matou mais de 400 pessoas no seu país, mas Espriella bloqueou imediatamente a ajuda de centenas de socorristas oferecida pelo México, Brasil e China, para, com toda a pompa, receber 82 membros do Exército de Israel. Um deles, oficial do mesmo exército que matou e deixou soterradas 80 mil pessoas em Gaza, “utilizou como cenário as ruínas do Hospital Universitario del Valle, em Cali, onde havia dezenas de mortos sob os escombros, para gravar a peça de propaganda mais cínica e insultuosa” (Iván Olano, CTXT.ES, 4.9.2026).

O que é revelador nesta história é como o mais completo cinismo do Estado de Israel — organizar um genocídio à nossa frente e, ao mesmo tempo, encenar solidariedade humanitária — se promove como modelo a seguir.

Pergunta Iván Olano: “Por que razão as elites colombianas — e as de muitos outros países — demonstram tanto entusiasmo perante o genocídio perpetrado por Israel em Gaza? Não é apenas por vocação colonial ou por simples obediência aos EUA: é porque isso concretiza as suas fantasias.”

Israel transformou-se, para as direitas dos nossos dias, dos liberais aos neofascistas, naquilo que representou a Alemanha imperial de 1914-18 e a nazi de 1939-45, para as direitas da primeira metade do século XX: um modelo superior de tecnologia da guerra, um supremacismo étnico associado a um discurso religioso obsessivo, que não hesita em recorrer à violência genocida para concretizar um projeto político.

Um nacionalismo religioso sustentado numa “revolução tecnológica” que abre caminho ao que se tem chamado “tecnofascismo”. É isso o que constitui a “israelização” das nossas sociedades. E o que não falta são prosélitos deste modelo, como há dias Henrique Raposo, para quem “a Europa (…) está a aprender com os melhores: Israel”, e se mostra chocado com o “irracionalismo anti-israelita ou mesmo antijudeu que torna impossível as pessoas repararem que Israel é um aliado natural (…) das democracias e que todos nós vamos beneficiar da tecnologia militar israelita?” (Expresso, 18.9.2026)

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

Do blogue Estátua de Sal

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Advogar em processo penal exige coragem para preservar o Estado de direito:

(Ana Sofia Sá Pereira, in Facebook, 22/09/2026)

No primeiro julgamento em que intervenho ao abrigo da nova lei de processo penal, um requerimento apresentado para exercer o contraditório e me pronunciar sobre um despacho do Tribunal foi sancionado com 2 unidades de conta.

É este o meu primeiro contacto, na prática, com o artigo 521.º – A do Código de Processo Penal. E aquilo que está em causa é muito mais grave do que uma sanção aplicada a um requerimento de um advogado. Está em causa a liberdade da defesa. E, com ela, as garantias dos cidadãos.

O advogado não requer, não contradita, não suscita nulidades, não interpõe recursos ou reclamações para defender um interesse próprio. Fá-lo porque alguém lhe confiou a defesa dos seus direitos perante o poder do Estado.

Por isso, sempre que a lei cria um mecanismo suscetível de fazer o advogado ponderar não apenas se um requerimento é juridicamente necessário, mas também se o exercício desse direito processual lhe poderá valer uma sanção pecuniária, introduz-se no processo um fator profundamente perturbador: o medo de defender.

É aquilo que, noutros domínios jurídicos, se identifica como chilling effect: não é necessário proibir formalmente o exercício de um direito. Basta tornar suficientemente oneroso ou arriscado o seu exercício para produzir um efeito inibidor. E esse efeito, em processo penal, é particularmente inquietante. Porque o advogado que se cala por receio de ser sancionado não se cala sozinho. Cala-se a defesa.

E quem perde uma garantia não é o advogado. É o arguido. É o assistente. É o cidadão que entra num tribunal e tem o direito constitucional de ser representado por um advogado livre, independente e sem receio das consequências, designadamente pessoais, de exercer, com firmeza, os instrumentos processuais que a lei coloca ao seu dispor.

O contraditório não é um obstáculo à Justiça. Um requerimento não é, pela sua mera existência, um expediente dilatório. A defesa não é uma perturbação do funcionamento do tribunal.

E a celeridade processual, por mais legítimo que seja esse objetivo, não pode construir-se através de mecanismos que possam produzir autocensura processual. E é um Direito do arguido, não é dos políticos, da polícia nem dos tribunais.

Num Estado de Direito, o processo penal é precisamente o lugar onde o poder do Estado deve encontrar as garantias mais robustas. Porque é aí que o cidadão enfrenta a manifestação mais intensa desse poder.

Mas houve ainda outro momento que me perturbou profundamente. Naquela sala estavam mais dois advogados. Assistiram ao que acabava de acontecer. E permaneceram em silêncio. Confesso que esse silêncio me chocou ante a minha viva indignação bem patente com o Tribunal. Não porque lhes coubesse defender a minha posição processual, nem porque espere solidariedades corporativas automáticas. Mas porque, perante um mecanismo sancionatório aplicado a uma intervenção de um advogado no exercício da defesa, o silêncio de quem também veste uma toga adquire um significado que não pode ser ignorado.

Foi, para mim, um silêncio perturbador. Um silêncio que, naquele momento, não consegui deixar de sentir como cúmplice da normalização do “castigo”. Porque hoje é o requerimento de um colega. Amanhã será o nosso. E depois de amanhã poderá ser o requerimento que não chega sequer a ser apresentado, porque um advogado, lembrando-se do que viu acontecer a outro, decide não correr o risco.

É precisamente assim que o chilling effect se instala: não apenas pela sanção que é aplicada, mas pelo exemplo que ela deixa aos que assistem. Hoje foram duas unidades de conta por um requerimento destinado a exercer o contraditório sobre um despacho judicial.

A questão institucional que devemos colocar não é quanto custaram essas duas unidades de conta. É outra, muito mais séria:quantos requerimentos deixarão de ser apresentados, quantas questões deixarão de ser suscitadas e quantos direitos deixarão de ser defendidos se um advogado tiver de exercer o seu mandato sob a permanente possibilidade de uma sanção pecuniária pela própria intervenção processual?

A independência da advocacia não é um privilégio dos advogados. É uma garantia dos cidadãos.

E, como cereja no topo do bolo, abro o Citius e encontro um despacho proferido na sequência de outro despacho que me notificara expressamente para indicar se tinha disponibilidade para as datas propostas. Não tinha. Tive, por isso, a maçada de incomodar as minhas colegas da parte contrária, procurar compatibilizar agendas e apresentar datas alternativas.

E recebo agora um despacho a dizer que não é possível adiar, embora o Tribunal seja «sensível ao facto de o Advogado ter mais do que um cliente». Pois. Tem. E tem também julgamentos, diligências e deveres profissionais assumidos perante todos eles.

Se a disponibilidade do mandatário é irrelevante, talvez fosse mais simples não o notificar para a indicar. Há dias em que começamos verdadeiramente a perguntar-nos qual é, afinal, o espaço que o sistema judiciário reserva ao exercício livre, independente e responsável da advocacia.

Quanto a mim, continuarei a ser a advogada que sempre procurei ser: uma advogada que honra a toga que veste, que não se deixa silenciar pelo receio de uma sanção e que não abdica de nenhum instrumento legítimo necessário à defesa dos direitos daqueles que representa.

E lutarei, enquanto advogada e enquanto jurista, para que esta ignomínia seja expurgada do ordenamento jurídico português.

Porque uma democracia que começa a colocar um preço na liberdade de defender deve perguntar-se, muito seriamente, onde termina esse caminho. A toga não se veste para obedecer ao silêncio. Veste-se para defender direitos, liberdades e garantias.

Do blogue Estátua de Sal 

Hoje faz anos o Clube de Futebol “Os Belenenses”:

Fundado a 23 de setembro de 1919 depois de entusiásticas reuniões num banco de jardim na zona de Belém, o Clube de Futebol “Os Belenenses” pouco tempo depois da extinção daquele que viria a ser o seu gene aglutinador, o Sport União Belenense.

Rapidamente os azuis se tornaram num dos principais emblemas do futebol português. Na década de 1920 iniciaram um percurso que os levaria à conquista de seis Campeonatos de Lisboa (1925-26, 1928-29, 1929-30, 1931-32, 1943-44 e 1944-45) e três Campeonatos de Portugal (1926-27, 1928-29 e 1932-33).
Entretanto foi criada a I Divisão e o emblema da Cruz de Cristo continuou a perfilar-se como um candidato aos primeiros lugares. Em 1945-46 sagrou-se mesmo campeão nacional, tendo ainda concluído a prova em 2.º lugar em quatro ocasiões (1936-37, 1944-45, 1954-55 e 1972-73) e na 3.ª posição por 14 vezes (1939-40, 1940-41, 1941-42, 1942-43, 1946-47, 1947-48, 1948-49, 1952-53, 1955-56, 1956-57, 1958-59, 1959-60, 1975-76 e 1987-88) ao longo de 77 presenças – a última aqui considerada é a de 2017-18, antes de cisão definitiva entre clube e SAD.
Paralelamente, os azuis do Restelo conquistaram a Taça de Portugal por três vezes, em 1941-42, 1959-60 e 1988-89, e chegaram à final por mais cinco ocasiões (1939-40, 1940-41, 1947-48, 1985-86 e 2006-07).
Vale por isso a pena recordar os dez jogadores com mais jogos pelo Belenenses na I Divisão: https://davidjosepereira.blogspot.com/.../belenenses...