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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

duas ou três coisas: Na " Visão"

duas ou três coisas: Na " Visão": A coluna semanal de José Carlos de Vasconcelos é dos textos que raramente falho na leitura da "Visão". O Zé Carlos escreve um ...

“Num dos melhores hospitais do país!”:

Na década de 80, Jô Soares, que tantas vezes fez Portugal rir em difíceis tempos, tinha no seu rol de personagens, um General internado num hospital e que acorda após seis anos de coma em plena eleição de José Sarney. Sempre que sabia das “novidades” do tempo corrente, numa República agora presidida por um civil, dizia em desespero “Me tira o tubo!”.

Mas, esta não era a única frase que ficou famosa aquando dos episódios do General. Havia uma outra que se reportava à resposta que o médico dava ao General, sempre que este lhe perguntava “Onde é que eu estou?” perante a frequente ocorrência de falhas no serviço por falta de electricidade, de água, comida, medicamentos, seringas, pessoal, máquinas, etc.: “Num dos melhores hospitais do país!”

Lembrei-me destes episódios de humor mordaz, quando ontem li a notícia no Expresso que não existiram efectivas melhoras no SNS no ano passado. E, mais ainda, perante o “Relatório anual 2025 – O estado da saúde em Portugal”, onde os privados também ficam muito mal na fotografia.

É uma evidência que toda a propaganda do actual Governo, não passa disso mesmo, e que o SNS continua a piorar, empurrando, quem pode, para a saúde privada que vai avolumando queixas.

A Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, tem vindo ao longo de tempo, em cada crise, em cada má decisão, em cada falha do sistema, em cada má escolha seja no INEM, na Direcção Executiva do SNS ou outro, dizer que irá analisar os factos e assumir as respectivas responsabilidades. Mas, na verdade nunca o fez. São escolhas erradas e promessas falhadas que se avolumem, e, pelos vistos, sem consequências.

Menos arrogância e mais competência, seria o mínimo a exigir, perante o constante falhanço em servir o bem público. A não ser que não seja esse o fito da governação.

12/02/2026 by   

A1 cortada em Coimbra – ressuscitem o Marquês de Pombal:

(João Gomes, in Facebook, 12/02/2026)

Há desastres naturais. E há desastres cuidadosamente preparados pela inércia humana. O que aconteceu junto ao Mondego, com o colapso do dique e a subsequente ferida aberta na Autoestrada 1, não surgiu de surpresa, como um capricho súbito das águas. Não foi um relâmpago em céu limpo. Foi, antes, um acontecimento anunciado – repetido, descrito, antecipado durante dias por técnicos, autarcas e pela própria evidência do rio a subir lentamente, como quem avisa antes de entrar.

Durante duas semanas soube-se que os diques estavam sob pressão. Soube-se que o caudal aumentava. Soube-se que o risco existia. E, sobretudo, soube-se que havia um ponto sensível: a zona onde o dique protegia o talude que sustenta uma das infraestruturas rodoviárias mais importantes do país. Nada disto pertence ao domínio do imprevisível. Pertence ao domínio da decisão. Mas a engenharia não chegou a acontecer. Em proteção hidráulica, há uma regra simples: quando o risco cresce todos os dias, intervém-se antes do pico, não depois do colapso.

As soluções não exigiam milagres tecnológicos nem ciência futurista. Pediam apenas aquilo que a engenharia conhece há séculos:

– reforço do dique com enrocamento pesado;

– estabilização do talude com cascalho, geotêxteis e drenagens;

– proteção dos pilares contra erosão regressiva;

– obras de emergência capazes, pelo menos, de ganhar tempo.

Ganhar tempo é, muitas vezes, salvar infraestruturas. E salvar infraestruturas é poupar milhões, meses de interrupção e o caos logístico que agora se anuncia. Nada disso aconteceu a tempo. E quando a água finalmente fez o que sempre faz – procurar o ponto mais fraco – já não havia engenharia possível, apenas gestão de danos.

A política do “vamos ver”

Portugal desenvolveu uma especialização curiosa: a arte de monitorizar.

– Monitoriza-se o risco.

– Monitoriza-se a subida do rio.

– Monitoriza-se a previsão meteorológica.

– Monitoriza-se tudo… exceto a decisão.

Entre o alarme técnico e a ação política existe frequentemente um vazio administrativo onde o tempo passa com notável eficiência.

E a natureza, menos paciente, aproveita. Depois chega o momento solene das declarações: “Era impossível prever.” “Foi um evento excecional.” “As estruturas estavam a ser acompanhadas.” Acompanhar, neste caso, revelou-se uma forma elegante de assistir.

O custo da inação

Agora, a A1 ficará cortada durante meses. Virão desvios, prejuízos económicos, transtornos diários e obras de emergência muito mais caras do que qualquer prevenção teria sido. É a velha matemática portuguesa: adiar é barato – até deixar de ser. Quando finalmente se intervém, já não se protege. Reconstrói-se. E reconstruir custa sempre mais do que prevenir. Em dinheiro, em tempo e em credibilidade.

Se o Marquês de Pombal estivesse vivo

Depois do terramoto de 1755, Lisboa não ficou à espera de relatórios intermináveis nem de consensos burocráticos. Reconstruiu-se com rapidez, método e autoridade técnica. Pode discutir-se tudo sobre o Marquês de Pombal – menos a capacidade de decidir quando o país ardia, ruía ou inundava.

Hoje, perante um dique a ceder lentamente durante duas semanas, talvez perguntasse apenas: “Já reforçaram?” E perante a resposta negativa, provavelmente não convocaria uma conferência de imprensa. Convocaria pedra, terra, homens e urgência.

O verdadeiro problema

O problema não é apenas hidráulico. É estrutural – mas no Estado. Não falta conhecimento técnico. Não faltam avisos. Não falta experiência histórica. Falta, demasiadas vezes, o momento exato em que alguém decide agir antes da catástrofe, e não apenas explicá-la depois. Porque há uma diferença fundamental entre fatalidade e falha: a fatalidade não avisa durante duas semanas.

A incompetência – essa – vão agora pagando os portugueses, cujo arrependimento de terem optado pela AD, nas últimas eleições legislativas, deve ser agora tremendo.

Bom dia!

Do blogue Estátua de Sal

Humberto da Silva Delgado, nasceu em Boquilobo, Torres Novas, a 15 de maio de 1906:

Depois de frequentar o Colégio Militar, formou-se em Artilharia de Campanha, em 1925, na Escola do Exército, ingressando depois na Escola Prática de Artilharia. Enveredará pela Aeronáutica, concluindo o curso de piloto aviador em 1928 e, em 1936, o curso de Estado-Maior na Escola Central de Oficiais.
Participou no golpe de 28 de maio de 1926 e teve cargos de relevo no Estado Novo, nomeadamente na Legião Portuguesa e na Mocidade Portuguesa. Na qualidade de dirigente da Legião Portuguesa, visita Espanha a convite falangista durante a guerra civil. A partir da década de quarenta, Humberto Delgado aprofundará a sua dissidência relativamente ao Estado Novo, tornando-se uma voz cada vez mais incómoda, até emergir em 1958 como «o general sem medo», inimigo declarado e apostado no derrube de Salazar.
No entanto, em 1942, está presente nas negociações com a Inglaterra relativas à cedência da Base das Lajes, nos Açores. Depois de, em 1944, ter sido nomeado diretor-geral do Secretariado da Aeronáutica Civil, fundou os Transportes Aéreos Portugueses (TAP) em 1945. Em 1952, foi nomeado adido militar na Embaixada de Portugal em Washington e membro do Comité dos Representantes Militares da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Com 47 anos, foi promovido a general.
Em 1958, Humberto Delgado será o candidato da oposição às eleições presidenciais, após a desistência em seu favor de Arlindo Vicente. A campanha de Delgado terá maciça adesão popular e a frase «Obviamente, demito-o!» – quando interrogado sobre que decisão tomaria, em caso de ser eleito, relativamente à manutenção ou não de Salazar – incendeia o país e gera uma dinâmica que fragiliza fortemente o regime.
A ditadura recorrerá a uma comprovada burla eleitoral que a 8 de junho colocaria Américo Tomás na Presidência da República. Humberto Delgado será demitido das suas funções e, após asilo político na Embaixada do Brasil, parte para aquele país em abril de 1959.
No exílio estará sempre envolvido nas conspirações visando o derrube do Estado Novo pelas armas. Acompanha os preparativos do assalto ao Santa Maria, envolve-se com movimentos de oposição como o Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL) e, nos últimos dias de 1961, nas vésperas do Golpe de Beja, entra clandestinamente em Portugal.
Seguir-se-ão, em 1963, passagens pela Checoslováquia, para reuniões políticas e tratamentos médicos, e pela Argélia, onde desenvolve a sua ação na Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN). Porém, novas e velhas, mas graves, divergências – em torno da questão colonial, da luta armada, do dissídio sino-soviético, da disputa pela hegemonia no movimento e na oposição ou da própria personalidade do general
– levam a que Humberto Delgado rompa com a Frente Patriótica de Libertação Nacional e crie a Frente Portuguesa de Libertação Nacional.
Tornado no «inimigo n.º 1 da ditadura», a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) prepara um plano para neutralizar o general. Aquilo que viria a ser a «Operação Outono» começara a ser delineada após o Golpe de Beja e o embaraço que a entrada de Delgado em Portugal causara à ditadura. No essencial, o objetivo era atrair o general a uma cilada na fronteira entre Portugal e Espanha, a pretexto de um alegado encontro com oficiais do Exército na oposição.
A PIDE alicia Mário de Carvalho, exilado próximo de Delgado, que marca uma reunião em Paris em dezembro de 1964 com um alegado advogado oposicionista que, na realidade, era o subinspetor da PIDE Ernesto Lopes Ramos. Neste encontro é agendada nova reunião a ter lugar em Badajoz com outros supostos antifascistas.
Já em Espanha, Delgado, acompanhado da secretária, Arajaryr Campos, é transportado por Ernesto Lopes Ramos para o local da reunião com os supostos oficiais conspiradores do Exército português.

#Nestedia 13 de fevereiro de 1965, em Badajoz, esperava-o uma emboscada da PIDE. E a morte, aos 58 anos. António Rosa Casaco, Casimiro Monteiro, Agostinho Tienza e Ernesto Lopes Ramos formam a brigada de algozes da PIDE responsável pelo assassinato de Humberto Delgado e Arajaryr Campos, cujos corpos são encontrados apenas em abril, em Villa Nueva del Fresno, junto a um caminho conhecido por «Los Malos Pasos», perto da fronteira portuguesa.

Museu do Aljube Resistência e Liberdade 

Humberto Delgado (HD) – 61.º aniversário do seu assassinato (13-fevereiro-1965):

Há 61 anos, a Pide, que não lograra prendê-lo, enviou uma brigada a Espanha, onde o atraíram informadores da Pide, infiltrados no seu núcleo de apoiantes no exílio, para ser assassinado. Foi o impiedoso torcionário, Casimiro Monteiro, integrado na brigada que Rosa Casaco chefiou, que torturou e assassinou o general, e estrangulou a sua secretária, Arajaryr Campos.
Os corpos das vítimas foram ocultados perto de Villanueva del Fresno, a cerca de 30 km do local do crime, para onde os homicidas os levaram, até serem descobertos dois meses depois.
Humberto Delgado, cadete do 28 de maio e cúmplice da ditadura fascista, iniciou a sua conversão à democracia na estadia nos EUA, onde foi adido militar na Embaixada de Portugal (1952/57).
Chegou tarde à democracia, mas trazia a coragem e determinação que eletrizaram o país na candidatura à presidência da República, 1958, quando enfrentou o grotesco almirante Tomás em eleições que levou até ao fim.
As fraudes, ameaças e perseguições denunciaram o regime fascista, até então ignorado da imprensa internacional, salvo nos elogios a Salazar, pagos pelo SNI, para citações na televisão única e nos jornais visados pela censura. As últimas eleições diretas para PR desacreditaram o ditador perante o mundo. Portugal, com quase 40% de analfabetos, continuou miserável e reprimido, à espera do derradeiro crime, a guerra colonial, e da libertação, numa madrugada de Abril.
Depois de ter desafiado o ditador vitalício, Humberto Delgado não mais parou, parou-o a tiro a Pide. O regime tremeu e temeu-o. Salazar não era um déspota com coragem, era um cobarde que as polícias e as forças armadas defendiam.
Quando a notícia do monstruoso crime foi divulgada, Salazar foi à televisão a atribuir aos comunistas a autoria do assassinato. Eu vi e ouvi-o. O ministro do Interior, Alfredo Santos Júnior, ficou em silêncio, mas o crime não mais foi esquecido. A Pide só matava dentro das fronteiras, alargou a área para proteger a ditadura.
Foi há 61 anos. O exemplo do ‘general sem medo’, que uniu a oposição, devia, ainda hoje, ser modelo inspirador para os herdeiros dos que lutaram contra a ditadura. Dos que foram mortos. Dos torturados. Dos desterrados. Dos exilados. Dos proscritos. Dos presos. Dos ostracizados. De todos os que sofreram a violência da ditadura.
HD não foi a única vítima dos esbirros do fascismo, a exceção na história de repressão, mas foi um destacado opositor a quem o exílio e o assassinato, após a fraude eleitoral, conferiram a auréola do martírio.
A memória dos portugueses vai-se esvaindo e já andam aí cópias dos quem levaram o seminarista de Santa Comba, de Coimbra para S. Bento.

Hoje é dia de recordar o general Humberto Delgado que, a partir de 1958 consagrou a vida à luta pela liberdade. É património do País que amou e dos democratas que não toleram tiranias, seja qual for o pretexto, quaisquer que sejam.

 Carlos Esperança

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

UM JEITO MANSO: Montenegro - o estado a que a Saúde chegou, o arti...

UM JEITO MANSO: Montenegro - o estado a que a Saúde chegou, o arti...:   Saiu hoje um relatório da ACSS (Administração Central do Sistema de Saúde) sobre a atividade do SNS em 2025.  Era difícil um governo conse...

Então vai para Cuba, dizem eles:

(Luís Rocha, in Facebook, 10/02/2026, Revisão da Estátua)

Há uma frase que me atiram com frequência, com a alegria de quem descasca amendoins no estádio e acha que está a fazer alta filosofia política: “Então vai para Cuba.”

Dizem com ar triunfante, como quem acaba de inventar o fogo, convencidos de que me encostaram às cordas com um argumento devastador, definitivo, irrefutável, digno de moldura dourada e busto em bronze na sede da parvoíce nacional. “Vai para Cuba”, dizem eles, enquanto afiam o canivete suíço da ignorância multifunções, aquela ferramenta milagrosa que serve para cortar conversa, abrir latas de preconceito e sacar clichés, sem esforço intelectual algum.

Quando me mandam para Cuba eles não percebem que estão a falhar redondamente o alvo, porque não me estão a insultar; estão a oferecer-me uma viagem simbólica a um sítio onde um punhado de barbudos mal armados decidiu enfrentar um império com charutos, convicções e uma dose perigosa de romantismo revolucionário. Cuba não foi um parque temático ideológico nem um postal turístico para debates de café, foi o palco de uma revolução contra uma ditadura corrupta, submissa aos interesses norte-americanos, onde Batista governava com a delicadeza de um bulldozer em cima de uma plantação de açúcar.

A Revolução Cubana não caiu do céu num helicóptero soviético, nasceu da miséria, da desigualdade obscena e da sensação coletiva de que a ilha era um casino ao serviço de mafiosos, turistas e empresas estrangeiras enquanto o povo fazia de figurante miserável. Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos e companhia não eram personagens de t-shirt numa praia caribenha, eram homens de carne e osso e ideias perigosas para quem estava confortável no topo da cadeia alimentar. Deram cabo de um regime, nacionalizaram interesses, alfabetizaram um país e, pelo caminho, compraram uma guerra eterna com o elefante do Norte.

E esta é a parte que provoca urticária, comichão e borbulhas purulentas a quem só de ouvir “Castro” começa a espumar como se tivesse visto o diabo de foice e martelo. Cuba pagou e paga um preço brutal por ter ousado dizer “não” aos Estados Unidos, um embargo económico que dura há décadas, que estrangula a economia, limita o acesso a bens essenciais e transforma a sobrevivência quotidiana num exercício de ginástica moral e prática. Mas essa parte raramente entra no discurso do “então vai para Cuba”, porque dá trabalho pensar, e pensar sobre a ignorância cansa.

O argumento “vai para Cuba” é o equivalente político a atirar cocó e fugir a rir; um gesto primário que dispensa contexto histórico, análise geopolítica e, sobretudo, empatia. É mais fácil reduzir tudo a uma caricatura do comunismo maléfico do que admitir que a história é suja, complexa e cheia de zonas cinzentas. É mais confortável fingir que Cuba é um cartoon congelado em 1962 do que reconhecer que a ilha foi, e é há décadas, uma formiga teimosa a levar pontapés de um rinoceronte vingativo.

Por isso, quando me mandam para Cuba com aquele sorriso de vitória fácil, eu agradeço interiormente o elogio involuntário. Não porque me ache digno de Che Guevara, Camilo Cienfuegos ou de qualquer outro mito revolucionário, mas porque prefiro ser associado, mesmo por ignorância alheia, a quem tentou mudar o mundo do que a quem nunca tentou perceber nada para lá do próprio umbigo parolo.

Se pensar, questionar o neoliberalismo conservador e apontar os perigos da extrema-direita fascista dá direito a bilhete simbólico para Havana, então carimbem-me o passaporte.

Continuem a mandar-me para Cuba, que eu continuo a voltar com história, memória e a desagradável mania de rir dos slogans de recreio da escola primária.

Porque o conhecimento, meus caros, não se compra. Trabalha-se…

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas:

https://www.britannica.com/event/Cuban-Revolution

https://www.history.com/…/latin-america/cuban-revolution

https://www.britannica.com/…/United-States-embargo…

https://www.britannica.com/biography/Che-Guevara

https://www.britannica.com/biography/Camilo-Cienfuegos