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sábado, 18 de abril de 2026

JAVIER BORREGO, MAGISTRADO E JUIZ ESPANHOL, ARRASA O “PROCESSO MARQUÊS”:

A vergonha da justiça portuguesa vista por um juiz e magistrado espanhol.

É ler;

JAVIER BORREGO é um Magistrado e Juiz Espanhol, com uma longa carreira, de que se destaca ter sido: Agente do Reino de Espanha perante a Comissão e o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (1990); Juiz do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (2003-2008); Advogado do Estado perante o Tribunal Supremo de Espanha (2011-2012); Advogado do Estado perante o Tribunal de Contas (2012-2018); Magistrado do Supremo Tribunal Espanhol (2018-2020)…

Ora JAVIER BORREGO, em artigo de opinião à CNN-Portugal no passado dia 13 de abril, não teve dúvidas em afirmar (e cito apenas breves passagens):
«O que começa mal acaba pior, a não ser que outro juiz respeite o Estado de Direito… E se estes desastrosos processos judiciais se arrastarem durante anos, a imagem da Justiça, com J grande, fica gravemente prejudicada (…) A perspetiva pessoal (de José Sócrates, o ex-primeiro-ministro) pode ser resumida em quatro palavras: vítima torturada de injustiça processual. Alguém que passou mais de um terço da sua vida adulta submetido a um interminável processo judicial, violando todos os direitos humanos imagináveis…»
Seguidamente, JAVIER BORREGO, descreve longamente o que ele considera os “DISPATES” do Processo Marquês:
. «PRIMEIRO DISPARATE: a Associação Sindical dos Juízes recusa-se a aceitar a redução do seu período de férias para a duração normal e razoável da função pública e, em 2011, apresenta uma queixa infundada contra o Primeiro-Ministro Sócrates e o seu governo. Esta manifestação coletiva de irritação judicial não é apenas incomum, é um disparate…»
. «SEGUNDO DISPARATE: Em Junho de 2013, o todo-poderoso DCIAP (Departamento Central de Investigação e Acção Criminal) e os seus omnipresentes procuradores iniciam uma investigação de corrupção contra Sócrates. Uma investigação intensa e extensa. E, claro, secreta. Em setembro de 2014, o Tribunal Penal Central entregou o caso ao Super-juiz Carlos Alexandre (…) Mas esta escolha do juiz foi totalmente arbitrária e feita sem sorteio. Como escreveu o Juiz Ivo Rosa: “Estamos perante uma nomeação directa e arbitrária do juiz encarregado de conduzir a investigação. Isto conduz necessariamente a uma violação do princípio constitucional do juiz natural”. DIREITO A UM JUIZ NATURAL? Para Sócrates, NÃO…»
. «TERCEIRO DISPARATE: Carlos Alexandre, sem sequer interrogar Sócrates, sabendo pelo seu advogado que o ex-primeiro-ministro regressava a Lisboa vindo de Paris, para se colocar à disposição das autoridades, ordenou a sua detenção. Prisão preventiva? Porquê? Por risco de fuga, diz Alexandre. Mas como é que alguém que entra em Portugal pode estar em risco de fuga? Não importa. Para o Super-juiz, a liberdade de um cidadão não tem a mínima importância (…) Uma prisão televisionada, sem qualquer fundamento legal, para maior glória e espectáculo do juiz, o mesmo que prendeu Sócrates. Um lamentável exercício do poder judicial…»
«QUARTO DISPARATE: Quanto tempo o juiz mantém Sócrates na prisão? Onze meses. Não há justificação para esta ação arbitrária (…) Onze meses de prisão sem qualquer acusação formal ou informal.»
«QUINTO DISPARATE: «Onze meses de prisão para o ex-primeiro-ministro. Para qualquer outra pessoa, as acusações contra Sócrates deveriam ter sido extremamente graves e claras. Mas não. Primeiro, uma empresa é investigada, mas o Super-juiz não encontra nada. Depois, outra empresa. Nada. E outra, e outra… Isto continua até que oito empresas sejam investigadas. E o inquérito é o exemplo do que nunca deve ser o inquérito: uma investigação prospetiva. Por outras palavras, não é constatado qualquer crime, mas lançam a linha de pesca no rio repetidamente para ver se conseguem fisgar alguma coisa, qualquer coisa que seja (…) Finalmente, no dia 9 de outubro de 2017, após quatro anos (!!), o Ministério Público conseguiu elaborar uma queixa, assinada por 7 (sete) procuradores e dezasseis (16) inspetores da Administração Tributária (…) Quatro anos de inquérito a um cidadão sem que lhe explicassem porque foi detido, porque esteve preso durante onze meses…»
«SEXTO DISPARATE: Todo o inquérito começou mal. E todos os restantes passos são erros atrás de erros (…) Esta é a arrogância judicial de um magistrado português para quem os direitos humanos e a presunção de inocência são apenas conceitos vãos, soprados pelos ventos da sua omnipotência (…) Como anteriormente afirmou o Tribunal da Relação, o inquérito de Alexandre foi "uma auto estrada de sigilo sem regras, sem qualquer censura por parte do juiz, comprometendo seriamente os interesses e as garantias do arguido". Contra Sócrates, a Justiça, uma parte da Justiça portuguesa, praticou a maior das aberrações judiciais: vale tudo contra uma pessoa.»
«FIM DO INQUÉRITO: A investigação, a fase processual do Superjuiz Alexandre, que foi uma sucessão contínua de absurdos, cada vez mais frequentes, chegou ao fim…»
«A INSTRUÇÃO: E inicia-se a fase de instrução com um novo juiz. E como costuma acontecer em situações de infortúnio, há sempre uma fase não calamitosa, uma fase normal. E assim foi com a INSTRUÇÂO (…) Em 9 de abril de 2021, o Juiz Ivo Rosa encerra o inquérito, proferindo uma decisão de NÃO DECISÃO e outra de DECISÃO:
«A. Decisão de NÃO PRONÚNCIA.
O Juiz Ivo Rosa decide NÃO levar o caso a julgamento porque os factos alegados na acusação de "corrupção por acto lícito" estão prescritos. Além disso, estas acusações são "fantasiosas, inconsistentes e especulativas". Mas como pode um juiz independente e imparcial ousar dizer que a acusação de “corrupção para ato lícito” elaborada após quatro anos de investigação pelo Juiz Alexandre, o Super-juiz, e pelos todo-poderosos procuradores da DCIAP, é uma acusação fantasiosa, inconsistente e especulativa? O poder judicial, ou melhor, um certo ramo do poder judicial, não pode admitir isso.»
«SÉTIMO DISPARATE: A Procuradoria-Geral da República abre uma investigação secreta contra o Juiz Ivo Rosa e monitoriza as suas contas, chamadas telefónicas e vigia a sua vida pessoal durante três anos. É assim que a Procuradoria-Geral da República defende a legalidade democrática, consagrada no artigo 219.º, n.º 1, da Constituição da República Portuguesa? Após violar todos os direitos pessoais garantidos pelo artigo 26.º da Constituição na investigação secreta da DCIAP e nas audições televisivas do Juiz do Inquérito, como pode um juiz independente declarar que as acusações, decretada por parte do Poder Judicial contra Sócrates, são infundadas? Esse juiz deve estar relacionado com Sócrates e deve ter algo a esconder, pensa a Procuradoria, em mais um novo
DISPARATE, gravíssimo e repugnante. Alguém se demitiu? Foi instaurado algum processo criminal por este absurdo? Nada. E menos que nada. O juiz Ivo Rosa solicitou o acesso às investigações contra si realizadas, tendo-lhe sido negado esse acesso porque "não tinha qualquer interesse pessoal no assunto".»
«B. – Despacho de pronúncia. O juiz Ivo Rosa emite um despacho de pronuncia referente a seis acusações baseadas todas elas num crime precedente de "corrupção sem ato", totalmente novo no processo. Em março de 2024, o Tribunal da Relação anulou a Decisão de Pronúncia, considerando que esta constituía uma modificação substancial dos factos. Ou seja, em março de 2024, Sócrates não enfrentava qualquer acusação. Onze anos após o início da investigação contra ele, todas as acusações tinham prescrito: as iniciais, de 2017, devido à prescrição e, além disso, por terem sido consideradas "fantasiosas, inconsistentes e especulativas", e as mais recentes, devido a uma modificação substancial da acusação.»
«OITAVO E GIGANTESCO DISPARATE: Fim de um processo absurdo e demente? Não! (…) Em janeiro de 2023, são nomeados três juízes para integrar o painel que vai decidir o recurso do Ministério Público. Mas, em junho de 2023, são transferidas duas das três juízas: abandonam Lisboa e são afetos ao Tribunal da Relação de Guimarães e do Porto. Nestes casos, de acordo com o artigo 127.º, n.º 1, do Código de Processo Civil, com a destituição do juiz titular, é necessária uma nova distribuição. MAS o Conselho Superior da Magistratura suspende o artigo 49.º do Estatuto dos Magistrados viola a lei e concede "exclusividade" às três juízas, duas delas já em exercício no Porto e em Guimarães, para continuarem a julgar este recurso específico do Ministério Público. O Conselho Superior da Magistratura criou, contrariamente ao que prescreve a lei portuguesa, um "tribunal ad hoc" para resolver o recurso do Ministério Público contra a Decisão de Não Pronúncia. Qual o objetivo deste oitavo disparate? Evidentemente para que o tribunal ad hoc possa derrubar a decisão do juiz IVO ROSA.»
«NONO E AINDA MAIS GIGANTESCO DISPARATE: A secção constituída de forma ad hoc no Tribunal da Relação de Lisboa, sete anos após a acusação assinada por sete procuradores e supervisionada pelo Super- Juiz Alexandre!, FAZ MAGIA, PRESTIDIGITAÇÂO, alegando em 2024 que na acusação de 2017 havia um "LAPSO DE ESCRITA” e que, em vez de "corrupção por ato lícito", o que os sete procuradores altamente qualificados queriam dizer era "corrupção por ato ilícito". Uma aberração ainda mais colossal que a anterior, que colide frontalmente, como dois comboios a colidir, com o artigo 380º do Código de Processo Penal: “1. O tribunal pode, oficiosamente ou a requerimento do tribunal (aqui foi oficiosamente), corrigir a sentença quando… b) a sentença contenha erro, lapso, obscuridade ou ambiguidade, CUJA ELIMINAÇÃO NÃO CONSTITUA MODIFICAÇÃO ESSENCIAL”…»
«DÉCIMO DISPARATE: E quando o arguido, através do truque de magia do “lapso de escrita” é convocado para julgamento sem ter tido a oportunidade de se defender em instrução da nova acusação de corrupção para ato ilícito solicita que o “lapso de escrita” seja anulado ou que se lhe dê tempo para se defender desta nova acusação, a resposta é que a questão deve iniciar o julgamento e a questão resolvida na sentença final. Sem fase de instrução, Sócrates é o único cidadão português inesperadamente acusado numa decisão ad hoc, por um tribunal ad hoc, e imediatamente levado a julgamento. Não houve nenhum despacho de pronuncia. A subversão do processo. Uma decisão de não pronuncia se converte, por um tribunal superior ad hoc, graças a magia ad hoc do “lapso de escrita” num Despacho de Pronúncia à margem de qualquer norma…»
NOTÁVEL!...

sexta-feira, 17 de abril de 2026

EUA - A CIÊNCIA DO DESAPARECIMENTO:

Cerca de 10 cientistas americanos "desapareceram" nos últimos meses, entre os quais o português Nuno Loureiro assassinado á porta de casa por um "desconhecido". Tal facto levou a questões levantadas por jornalistas americanos na Casa Branca a que a porta-voz não soube responder, afirmando que - "iria ver o que se passava".
Todos estes cientistas estavam ligados a projetos em áreas sensíveis (energia, nuclear, aeroespacial, defesa).
Ficam aqui os nomes, situações e fotos possíveis:
Lista dos cientistas
1. Nuno Loureiro
👤
Físico português (MIT, fusão nuclear)
🧪
Área: física de plasmas / energia de fusão
🇺🇸
Nos EUA desde 2016
❗
Destino: assassinado a tiro (2025, Boston)
ℹ️
Caso tratado como homicídio (suspeito identificado), sem ligação oficial a outros casos
2. William “Neil” McCasland
👤
Major-general reformado da Força Aérea dos EUA
🧪
Área: programas espaciais e investigação avançada (incluindo projetos classificados)
❗
Destino: desaparecido (2026, Novo México)
ℹ️
Sem rasto; investigação em curso
3. Steven Garcia
👤
Contratante governamental (segurança nuclear)
🧪
Área: componentes não nucleares de armas nucleares
❗
Destino: desaparecido (2025, Novo México)
ℹ️
Saiu de casa a pé e nunca mais foi visto
4. Monica Reza
👤
Engenheira/“rocket scientist”
🧪
Área: materiais avançados para foguetões (financiamento militar)
❗
Destino: desaparecida
ℹ️
Tinha ligações profissionais com McCasland
5. Carl Grillmair
👤
Astrofísico (Caltech)
🧪
Área: exoplanetas / espaço profundo
❗
Destino: morto a tiro (2026, Califórnia)
6. Michael David Hicks
👤
Investigador ligado a programas científicos sensíveis
🧪
Área: (não totalmente detalhada publicamente, ligada a defesa/aeroespacial)
❗
Destino: morto (circunstâncias pouco claras)
7. Frank Maiwald
👤
Engenheiro (NASA / Jet Propulsion Laboratory)
🧪
Área: instrumentação espacial e missões científicas
❗
Destino: morto (2025)
8. Jason Thomas
👤
Cientista/engenheiro ligado a projetos sensíveis
🧪
Área: não totalmente clara (defesa/tecnologia avançada)
❗
Destino: desapareceu e depois foi encontrado morto
9. Anthony Chavez
👤
Investigador ligado a programas governamentais
🧪
Área: defesa / tecnologia avançada
❗
Destino: desaparecido
10. Melissa Casias
👤
Cientista ligada a investigação sensível
🧪
Área: (não totalmente detalhada)
❗
Destino: desaparecida
*****
O que se sabe:
- Há cerca de 8–11 casos (dependendo da fonte e atualização) entre 2023–2026
Muitos tinham em comum:
- trabalho em áreas sensíveis (nuclear, aeroespacial, defesa)
- ou ligações a programas governamentais
- alguns morreram por homicídio claro
- outros desapareceram
- outros terão causas naturais ou isoladas
Até agora, não há prova pública de que exista uma rede ou “padrão coordenado” - apenas suspeitas e investigação política em curso. Não há padrão conhecido de ativismo político entre estes cientistas
- Não há evidência de que contestassem políticas específicas
- Não há registos credíveis de perseguição por posições ideológicas
Numa nação com tantas histórias estranhas e tantos factos controversos que levam a fortes suspeitas de intervenção interessada de vários tipos - de grupos económicos, máfias, interesses industriais de alta tecnologia, espionagem, etc. - não é de admirar que haja por aqui um gato do tamanho de um tigre.

João Gomes 

Nas muralhas da cidade:

Cartazes discriminatórios: SOS Racismo pede que Ventura seja constituído arguido

 por Valupi

Do blogue Aspirina B

17 de abril de 1969 – Um marco na história de Coimbra e de Portugal:

 (Município de Coimbra, in Facebook, 17/04/2026, Revisão da Estátua.)

Há 57 anos, na Universidade de Coimbra, teve início a Crise Académica de 1969, um dos momentos mais marcantes da luta estudantil contra o regime do Estado Novo.

Foi durante a inauguração do Edifício das Matemáticas da Universidade de Coimbra que o então presidente da Associação Académica, Alberto Martins, pediu a palavra perante o Presidente da República, Américo Tomás, e outras autoridades. O pedido foi-lhe negado pelas autoridades do regime.

Esse gesto, e a recusa em dar voz aos estudantes, desencadearam semanas de protestos, manifestações e greves, dando início a uma ampla contestação ao Estado Novo que marcou uma geração e antecipou o caminho para a liberdade e a democracia conquistadas a 25 de Abril de 1974.

📌 Hoje recordamos este dia como símbolo de coragem e resistência, evocando a importância de defender, em cada momento, a liberdade de expressão, o direito ao diálogo e uma educação democrática e inclusiva.

Do blogue Estátua de Sal 

Afinal Agostinho Costa está vivo e recomenda-se…:

 (Por Estátua de Sal, 17/04/2026)

ACNN continua a vender-nos propaganda da mais rasca – a que chama informação -, e já nem faz questão de disfarçar para que a julguemos muito imparcial e prosélita da liberdade de opinião. Nos últimos tempos tem sido um chorrilho de Ferro Gouveia, Soller, Serronho e José Carmo, qual deles o pior.

Assim – tal como aconteceu em tempos ao Major-General Carlos Branco -, cheguei a julgar que o Major-General Agostinho Costa também tivesse sido “cancelado” na CNN, já que a sua última intervenção tinha sido em 4 de abril. Mas, afinal não. O Major-general Agostinho Costa, por razões pessoais esteve duas semanas fora do país, mormente em Angola, tendo dado uma excelente entrevista à TPA (Televisão Pública de Angola), sobre a situação geopolítica.

De forma que, foi com muito agrado e atenção que segui hoje na CNN a intervenção de Agostinho Costa no CNN Meio-dia, analisando a complexidade do atual momento geopolítico. O programa aqui fica e a intervenção do Major-general começa por volta do minuto 20. É seguir o link aqui.

Quanto à entrevista à TPA é ver o vídeo abaixo.

A minha partida para Angola, em 17/04/1971, faz hoje 55 anos:

Manhã de dezassete de Abril de mil novecentos e setenta e um, de sol quente, daquelas manhãs que apetecia ir à praia. Estou no barco Vera Cruz contemplando as pessoas ao longe a acenar-nos com os lenços em sinal de despedida.

Antes fizemos um desfile e uma parada militar onde não faltou o discurso de partida, de boa sorte, a entrega de aerogramas que as senhoras do Movimento Nacional Feminino nos ofereceram.

O canudo do Vera Cruz dá o sinal de partida com três toques impressionantes. Os lenços agitam-se com rapidez. Ouvem-se gritos e choros de familiares de soldados. Ainda bem que ali não tenho ninguém. Se já é custosa a partida, mais seria, se tivesse ali algum familiar.

Deviam de ir no Vera Cruz uns dois mil soldados. O nosso destino era Angola. Quando já não avistávamos mais ninguém fomos chamados para nos ser distribuído os nossos aposentos. A mim calhou-me no porão. Nunca percebi como fui lá parar. Era dos soldados com mais tempo de serviço e talvez dos mais velhos do batalhão.

Quando fui mobilizado estava a cumprir serviço militar no C.I.C.A. 1, à beira do Palácio de Cristal. Hoje faz parte do hospital S. António. A maioria dos soldados era do quarto turno de setenta. Eu do terceiro.

Fui para o campo de treino militar de Santa Margarida, para incorporar a companhia 3341, do batalhão 3838. As companhias CCS, 3340 e 3342, também faziam parte do mesmo batalhão.

Era um estranho. A maioria dos soldados foram do R.I.2 de Abrantes. Eram conhecidos dos sargentos e oficiais, só por isso compreendi a minha ida para o porão.

Na ida e volta para o porão, passava-se perto da cozinha e do depósito de géneros. Era um cheiro insuportável. Por esse motivo saía de manhã e só regressava quando ia dormir.

O barco Vera Cruz era imponente. Estava um pouco abandonado. Outrora um barco de transportar turistas. Agora servia para transportar carne para canhão.

À medida que nos íamos distanciando avistávamos coisas que nunca tinha visto – golfinhos, baleias e peixe voadores.

Todos os dias os meus colegas deitavam carga ao mar. Eu felizmente nunca enjoei. Alguns punham-se em tronco nu a apanhar sol, ganharam bolhas de água nas costas e não conseguiam dormir.

À noite não tínhamos nenhum passatempo a não ser jogar à batota. Uma noite vi soldados sentados no chão do corredor a jogar à lerpa, não conhecia nenhum. Pedi autorização para jogar. Autorizaram.

O jogo começou-me a correr bem. A certa altura havia muito dinheiro em jogo, vários soldados lerparam. Foram dadas cartas para nova jogada, três soldados disseram que iam ao jogo e puseram a respectiva quantia, era o quarto a receber cartas e quando as recebi tinha lerpa real. Mostrei as cartas e quando me preparava para arrecadar o dinheiro foi-me dito para não lhe mexer. Disseram que não tinha nada que mostrar as cartas. Devia deixar correr o jogo para outros lerparem. Argumentei que era assim que procedíamos na minha terra e quando olho para o lado estava o Matosinhos. Era bem constituído fisicamente. Soldado condutor auto-rodas, da minha companhia, que me deu um sinal para pegar no dinheiro. Eram três mil escudos, assim fiz. Ninguém repostou, sabiam que eu tinha razão. Passado pouco tempo acabou o jogo.

No total ganhei quase quatro mil escudos. Em mil novecentos e setenta e um, era muito dinheiro. Dei uns trocos ao Matosinhos. Passados uns dias uns colegas meus foram apanhados a jogar à batota e foram castigados com uma carecada. Tive receio de me acontecer o mesmo. Acabei por não mais jogar.

A viagem decorria bem, aproximávamos de Luanda.

Manuel Pacheco

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Estes americanos MAGA querem mesmo discutir teologia a propósito do conflito com o Irão?

A actual guerra desencadeada por Trump e Israel anda comicamente ou não a roçar o conceito de guerra religiosa. Cristãos contra muçulmanos, muçulmanos contra judeus, judeus e cristãos contra muçulmanos, e persas (zoroastristas e outros) à espreita da oportunidade para correrem com os muçulmanos, enquanto os “arreligiosos” e “iluminados” europeus assistem incrédulos e os herdeiros russos dos mongóis preparam o próximo saque. Há muitos séculos que não ouvíamos falar de guerras nestes termos. Para os europeus, é uma surpresa, um “déjà vu” que ninguém deseja, um anacronismo.  Mas os muçulmanos foram os primeiros a lembrar-nos que o tema não está morto, pois, com eficaz manipulação desde a infância, ainda há, entre eles, quem mate em nome de um deus e de uma religião e isso em terras europeias. Outros em nome de uma promessa de terra feita por um outro deus. Algo vai muito mal na cabeça de metade da humanidade, vítima de chalupas fanáticos e manipuladores.

Embora todos suspeitemos que Trump não tem religião nenhuma a não ser a do culto da (sua) personalidade e do dólar, resolveu dessacralizar o Papa e auto eleger-se o seu melhor substituto (se não do próprio Cristo), alegadamente dada a falta de músculo e de mísseis do Vaticano. Tudo porque o patriarca ortodoxo russo abençoa e apoia Putin e o Papa abstem-se de fazer tal coisa em relação a Trump. J. D. Vance, por seu lado, aconselha o Papa a ter cuidado quando se pronuncia sobre questões teológicas e diz que o catolicismo passou a ser tudo para ele (claro, também não gosta do Papa). Escreveu até um livro sobre a sua conversão. Portanto, uns metem-se em navios de guerra e vão até ao golfo pérsico atirar bíblias e Torahs aos ayatollahs e de lá recebem a mensagem de que serão mártires com muito orgulho, mal podendo esperar pelas 70 virgens do além, enquanto também vão matando uns tantos. Estão bem uns para os outros? Completamente. Por mim, podem-se eliminar mutuamente para finalmente respirarmos, encontrarmos meios de dispensar o petróleo e observarmos as galáxias.

Antes disso, porém, talvez esta discussão sobre quem percebe mais de teologia, e a discussão da teologia em si, traga à baila e defina de uma vez o lugar dos deuses. Se Vance acha que deus está do lado dele quando deporta estrangeiros, porque está a defender o seu povo contra os bandidos, e os papas Francisco e Leão entendem que deus quer que vivamos todos em harmonia e que acudamos aos mais necessitados, não seria melhor perguntar ao tal deus o que acha? E perguntar ao deus Allah o que acha do financiamento do Hezbollah pelo Irão e da morte de milhares de jovens manifestantes (embora tenhamos a certeza de que o Allah do ayatollahs concorda inteiramente), também não seria interessante? Que regressem os oráculos! Eh pá, a sério.

Mas então, se chegarmos à conclusão de que não há qualquer resposta de nenhum dos lados do firmamento, apenas interpretações humanas de teorias de humanos atribuídas a deuses há séculos e milénios, talvez as conversas se possam fazer noutros termos menos emocionais e estupidificantes e se deixem as instituições que aliviam as dores e as angústias existenciais de muita gente exactamente onde estão e em paz. As igrejas tratam do etéreo e abstracto, não do terreno. Nem sempre foi assim infelizmente e, com os seguidores de Maomé parece ainda não ser assim. Mas adiante. O catolicismo é deste lado.

É que, se o Vance quer aprofundar o tema teológico, ainda acaba agnóstico ou mesmo ateu e isso não é bom para as suas ambições políticas, que passam por conquistar a América profunda e burra, que sempre soubemos existir, mas que não víamos.

 por Penélope

Do Blogue Aspirina B