Afastado das suas funções de PM da Hungria, depois de ter sido derrotado nas últimas eleições, Orbán permanece uma voz critica da condução da Europa. Recentemente, num discurso de saudação a um partido da Austria da sua linha politica desenvolveu algumas ideias que - sendo para muitos de extrema direita - acabam por ter respaldo nalgumas interpretações globais sobre o papel da Comissão Europeia e do próprio Parlamento Europeu.
Há anos que Bruxelas segue uma estratégia que não trouxe nem vitória nem paz. Enviou armas, dinheiro e promessas cada vez mais perigosas, enquanto os europeus pagam um preço económico cada vez mais elevado. Nós, patriotas, dizemos que os europeus precisam de negociações. A Europa precisa de paz. O primeiro dever de qualquer líder europeu deve ser impedir que esta guerra se alastre e proteger a segurança dos nossos cidadãos. A Europa não precisa de mais burocratas. A Europa precisa de mais fábricas, mais empresários e mais liberdade.
Hoje, Bruxelas está a sufocar a economia europeia através das sanções, da burocracia, dos elevados preços da energia e das regulamentações ambientais. Nós, patriotas, queremos uma Europa que trabalhe, produza, inove e concorra nos mercados internacionais. Queremos energia a preços acessíveis, impostos mais baixos, menos regulamentação e respeito por aqueles que criam emprego e prosperidade.
Por toda a Europa, os partidos patrióticos estão a crescer. Da França à Itália, dos Países Baixos a Portugal, da República Checa à Espanha, milhões de europeus voltam-se para forças políticas que defendem as nações, as fronteiras, a família e a paz. Isto não é um protesto passageiro. Não é um acidente. É um despertar europeu.
A razão é simples: os patriotas enfrentam os problemas reais da Europa. O establishment de Bruxelas disse-nos que a imigração era inevitável, benéfica e irreversível. Abriu as fronteiras e ignorou as consequências. Esperava-se que os cidadãos europeus aceitassem o aumento da criminalidade, o aparecimento de sociedades paralelas e a perda gradual da sua identidade cultural. Na imigração, na economia e na guerra, o establishment político falhou.
Mas, em vez de mudar de rumo, ataca todos aqueles que apresentam uma alternativa. Excluíram-nos de comissões, construíram coligações contra os vencedores das eleições e afirmam defender a democracia, enquanto ignoram a vontade democrática dos povos.
Os europeus estão a despertar. Percebem que a esquerda tradicional e o centro-direita tradicional se transformaram em duas faces do mesmo sistema de Bruxelas. Nós, patriotas, somos a alternativa a esse sistema. Estamos a construir uma Europa de nações fortes e soberanas. Uma Europa que protege as suas fronteiras, a sua indústria, os seus filhos e o seu futuro. Uma Europa que respeita a sua herança cristã e devolve o poder político aos seus cidadãos.
Caro Herbert Kickl, caros amigos, caros patriotas austríacos,
É uma grande honra estar hoje convosco para celebrar o 70.º aniversário do Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ). Setenta anos representam muito tempo na política. Os partidos surgem e desaparecem. Os movimentos aparecem, fazem muito ruído e acabam por desaparecer. Mas as comunidades políticas construídas sobre convicções, lealdade e amor à pátria resistem ao tempo.
O FPÖ resistiu. Durante setenta anos defendeu a convicção de que a Áustria pertence ao povo austríaco. Lutou pela soberania nacional, pela liberdade e pelo direito dos cidadãos decidirem o seu próprio futuro. Houve anos difíceis. Recordo-me bem deles. Houve ataques, isolamento e tentativas de vos afastar da vida política legítima. Disseram-vos que as vossas ideias pertenciam ao passado.
Mas vocês não desistiram. E hoje o FPÖ não está apenas a celebrar a sua história. Está a fazê-la. Os austríacos fizeram do Partido da Liberdade a maior força política do país. Depositaram a sua confiança em vós porque falam com clareza, mantêm-se firmes e colocam a Áustria em primeiro lugar.
Caro Herbert, este sucesso histórico deve-se, acima de tudo, à sua liderança, à sua determinação e ao espírito da comunidade do Partido da Liberdade. Mas aquilo que acontece na Áustria faz parte de algo muito maior. Por toda a Europa, os partidos patrióticos estão a crescer. Da França à Itália, dos Países Baixos a Portugal, da República Checa à Espanha, milhões de europeus apoiam forças políticas que defendem as nações, as fronteiras, a família e a paz.
Este não é um fenómeno temporário. É um despertar europeu. Nós acreditamos que as fronteiras devem ser protegidas. Acreditamos que a imigração ilegal deve ser travada e que a decisão sobre quem pode entrar nos nossos países pertence aos Estados nacionais. Tenho orgulho em dizer que, atualmente, na Hungria, a imigração ilegal foi praticamente eliminada.
Outro grande desafio é o declínio económico da Europa. A Europa foi, em tempos, o motor da economia mundial. Hoje, Bruxelas está a prejudicar a competitividade europeia através das sanções, da burocracia, dos elevados preços da energia e das regulamentações ambientais. Nós queremos uma Europa que trabalhe, produza e concorra. Queremos energia acessível, impostos mais baixos, menos burocracia e respeito por quem cria riqueza.
Temos ainda a ameaça da guerra na Ucrânia. Durante anos, Bruxelas seguiu uma estratégia que não trouxe nem vitória nem paz. Enviou armas, dinheiro e promessas cada vez mais perigosas, enquanto os europeus suportam custos económicos crescentes. Nós, patriotas, dizemos que a Europa precisa de negociações. A Europa precisa de paz. O primeiro dever de qualquer dirigente europeu deve ser impedir que esta guerra se alastre e proteger a segurança dos seus cidadãos.
Na imigração, na economia e na guerra, o establishment político falhou. Mas, em vez de corrigir os seus erros, continua a atacar todos aqueles que apresentam uma alternativa. Os povos da Europa estão acordados. Percebem que a esquerda tradicional e o centro-direita tradicional representam duas versões do mesmo sistema de Bruxelas. Nós somos a alternativa. Estamos a construir uma Europa de nações soberanas. Uma Europa que protege as suas fronteiras, a sua indústria, os seus filhos e o seu futuro. Uma Europa que respeita a sua herança cristã e devolve aos cidadãos o poder de decidir.
As vossas vitórias dão força a todos os patriotas da Europa. A vossa coragem demonstra que a perseverança é recompensada. E o vosso sucesso prova que o futuro não pertence aos burocratas de Bruxelas, mas às nações livres da Europa. Feliz 70.º aniversário ao Partido da Liberdade da Áustria. Viva o FPÖ! Viva a amizade entre a Áustria e a Hungria!"
Nota: Uma leitura de esquerda do discurso de Viktor Orbán
O discurso de Viktor Orbán possui uma eficácia política evidente porque identifica problemas que muitos cidadãos reconhecem no seu quotidiano: perda de poder de compra, crise energética, desindustrialização, insegurança, imigração descontrolada e desgaste das instituições europeias. Negar a existência destes problemas seria um erro político. Contudo, reconhecê-los não significa aceitar o diagnóstico nem as soluções apresentadas.
A primeira crítica que a esquerda dirige ao discurso prende-se com a forma como Orbán concentra quase toda a responsabilidade em "Bruxelas". Embora seja verdade que muitas decisões europeias são tomadas pelas instituições da União Europeia, essas decisões resultam também da participação dos governos nacionais, incluindo aqueles que frequentemente criticam Bruxelas. A União não é apenas uma burocracia distante; é igualmente a soma das escolhas feitas pelos Estados-membros.
No plano económico, Orbán apresenta a ideia de que a crise europeia resulta essencialmente das sanções, da burocracia e das políticas ambientais. Uma análise de esquerda considera essa explicação incompleta. A perda de competitividade da Europa começou muito antes da guerra na Ucrânia e está ligada à deslocalização industrial, à financeirização da economia, à dependência energética externa, à concorrência asiática e às opções de liberalização dos mercados tomadas ao longo de décadas por governos de diferentes orientações políticas.
Também a transição energética não deve ser vista apenas como um custo. A esquerda argumenta que ela constitui igualmente uma oportunidade para criar novas indústrias, reduzir dependências estratégicas e gerar emprego qualificado, desde que seja acompanhada por investimento público e por políticas sociais que protejam trabalhadores e consumidores.
Relativamente à imigração, Orbán descreve-a quase exclusivamente como uma ameaça. A esquerda contrapõe que os movimentos migratórios têm causas complexas: guerras, pobreza, alterações climáticas, desigualdades económicas e envelhecimento demográfico europeu. Defende que controlar as fronteiras é compatível com políticas de integração, respeito pelos direitos humanos e combate às redes de tráfico de pessoas.
Quanto à guerra na Ucrânia, o discurso insiste na necessidade de negociações, uma ideia que, em abstrato, dificilmente será contestada. Também muitos setores da esquerda defendem uma solução diplomática. A divergência surge na questão essencial: negociar em que condições? Para alguns partidos de esquerda democrática, uma paz duradoura não pode significar a legitimação da ocupação militar de territórios conquistados pela força nem ignorar o direito internacional. Para outros existem razões para o conflito e que assentam na pressão dos interesses da NATO sobre a Rússia. No fundo a paz continua a ser um objetivo, mas não qualquer paz e existem leituras distintas sobre isso mesmo à esquerda.
Outra questão central prende-se com a ideia de soberania nacional.
Orbán apresenta-a como valor absoluto. A esquerda séria - a que não ocupa o espaço dos governos europeus - responde que existem desafios - alterações climáticas, evasão fiscal das multinacionais, pandemias, criminalidade organizada, mercados financeiros ou segurança coletiva - que dificilmente podem ser enfrentados por cada Estado isoladamente. A cooperação europeia continua, por isso, a ser considerada necessária, embora muitos defendam uma União Europeia profundamente reformada, mais democrática, mais transparente e menos subordinada aos interesses financeiros.
Finalmente, há um aspeto pouco referido no discurso: a dimensão social. Orbán fala de empresários, fábricas e competitividade, mas quase nada diz sobre salários, negociação coletiva, redistribuição da riqueza, serviços públicos, proteção social ou combate às desigualdades. É precisamente aqui que a esquerda procura marcar a diferença. A prosperidade económica não pode ser medida apenas pelo crescimento das empresas. Deve também traduzir-se em melhores salários, acesso universal à saúde e à educação, habitação digna e redução das desigualdades sociais.
Em síntese, o discurso de Viktor Orbán identifica problemas que existem e que preocupam muitos europeus. O debate político não reside tanto na identificação desses problemas, mas nas causas que lhes atribui e nas respostas que propõe.
É aí que se confrontam duas visões distintas da Europa: uma que privilegia a soberania nacional como resposta predominante aos desafios atuais, e outra que considera que muitos desses desafios exigem cooperação europeia, democracia reforçada e políticas públicas orientadas para a justiça social.
Nem toda a esquerda - mesmo a social democrata - rejeita a crítica à burocracia de Bruxelas, às regras orçamentais ou ao impacto social de certas políticas económicas da UE. Da mesma forma, nem toda a direita partilha integralmente a visão de Orbán. O debate mais interessante é precisamente aquele que separa as críticas fundamentadas às políticas europeias das propostas concretas para as reformar.
Finalmente, existe uma esquerda que considera esgotado o atual modelo de integração europeia. Não pretende destruir a União Europeia, mas refundá-la. Curiosamente, algumas das críticas que dirige a Bruxelas coincidem com críticas formuladas por Viktor Orbán. A diferença está no objetivo: enquanto Orbán pretende reforçar a primazia dos Estados nacionais, essa esquerda defende uma Europa mais democrática, social, autónoma e menos subordinada às lógicas geopolíticas e económicas que, no seu entendimento, passaram a dominar o projeto europeu
João Gomes