Rádio Freamunde

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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Boa noite:

Antes de passar ao assunto principal, tenho de fazer um pequeno "mea culpa". Quero pedir desculpa pelo texto sobre o 13 de maio; recebi alguns reparos — e com toda a razão — sobre erros que cometi em relação ao Milagre de Fátima. Se o arrependimento matasse... O que aconteceu foi o de sempre: a minha cabeça é muito mais rápida do que os meus dedos e o resultado foi um texto onde o meu pensamento já estava ajoelhado no Santuário, enquanto a minha escrita vestia o colete refletor para me fazer à estrada e peregrinar.
Pronto, basicamente foi isto. Nada teve a ver com falta de fé. Acreditem: eu não preciso de ver para crer. Por exemplo, quanto ao Milagre do Sol; há muito tempo que tive provas. Ainda ontem, eram 06:17 quando, aqui em Vila Nova de Gaia, assisti ao seu nascer.
Sigamos... Diz-nos o Correio da Manhã: "𝗔𝗻𝗱𝗿𝗲́ 𝗩𝗲𝗻𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗿𝗲𝗰𝗲𝗯𝗲 𝗮𝘃𝗶𝘀𝗼 𝗱𝗲 𝘃𝗶𝗱𝗲𝗻𝘁𝗲: "𝘼 𝙨𝙪𝙖 𝙫𝙞𝙙𝙖 𝙫𝙖𝙞 𝙨𝙚𝙧 𝙘𝙪𝙧𝙩𝙖".
Li, como sempre, atentamente. Parece que uma senhora vidente disse ao André Ventura que ele vai ter uma "vida curta" e ele, o valentão, desde então não lhe cabe uma azeitona no cu. É verdade: o homem que não teme o sistema nem ninguém confessa que está cheio de medo do "além".
Como é que há gente que não acredita em milagres depois desta boa-nova? Tudo bem, é verdade que ainda não se concretizou... mas olhem que não foi uma pessoa qualquer que o disse, mas sim uma especialista! Meus amigos, aqui que quem me lê é de confiança, digo-vos: isto, além de, literalmente, ser música para os meus ouvidos, é algo que me faz bem ao coração e uma verdadeira purificação da alma!
Depois disto, quero pedir-vos que se juntem a mim e lhe paguemos com a mesma moeda: vamos ser caridosos — hipócritas, vá — e enviar-lhe uma mensagem de lamento e de força. Ou, melhor, como não o conseguimos fazer em simultâneo, eu escrevo e vocês, depois de lerem, colocam um "gosto" e/ou fazem um comentário.
"André, não tenhas medo, homem! Todos vamos "bater a bota" um dia. O nosso conselho para ti é que aproveites bem o pouco tempo que te resta. Vive cada dia como se fosse o último, sempre com essa pica toda a lutar por esses teus ideais de merd@. A história está cheia de gente que, tal como tu, tinham uma pressa enorme de mandar nisto tudo e "foram com os porcos" antes de o conseguirem.
Adolf Hitler, que, como tu, estava sempre com pressa para fazer "limpezas" e falava para as massas como se estivesse possuído; Benito Mussolini, que, como tu, adorava fazer peito, posar para as fotos e mandar vir com o mundo inteiro; António de Oliveira Salazar, que, assim como tu, achava que Portugal era a quinta privada dele e que só ele sabia o que era bom para a "família"; Francisco Franco, que, como tu, não tinha tempo a perder com liberdades alheias e gostava de ter tudo sob controlo; e Augusto Pinochet, que tratava, como tu, a oposição com uma "energia" e uma autoridade que metia nojo.
Como vês, André, eles também tiveram o seu tempo, foram muito "dinâmicos" e acabaram por ir desta para melhor. Por isso, esquece lá o medo do que disse a bendita profeta."
Uma palavra aos que de alguma forma lhe são próximos: o André, não tem que se preocupar. Para onde vai (se Deus quiser), o que não lhe vai faltar é companhia da boa — destes ilustres que acabei de recordar.

Boa noite.

Luís Santos  

Restaurar o serviço militar obrigatório? Jovem de 18 anos responde a Pacheco Pereira.:

"Assistimos há dias à publicação de um artigo de opinião um quanto triste no Público, da autoria do historiador Pacheco Pereira, em que ele defende a importância de restaurar o serviço militar obrigatório em Portugal face à crescente agressão da Rússia na frente ucraniana.
Pacheco Pereira começa por argumentar que, nas circunstâncias presentes em território europeu, a invasão da Ucrânia coloca às democracias europeias uma discussão importante sobre militarização. Porém, o nosso historiador parece não ter conseguido expressar qual era a sua preocupação quanto à guerra: receia que a guerra se expanda para os países da União Europeia? Será medo de que a frente de batalha passe de Kiev para a Berlim? Para Lisboa? Será a Rússia uma ameaça às democracias europeias?
O serviço militar obrigatório em Portugal não parece responder a nenhum destes problemas. Será importante mencionar que a expansão da guerra para o resto da Europa é um cenário altamente improvável. Mesmo que fosse provável, números publicados indicam que os países da UE possuem meios armados suficientes, tanto em número de efetivos como em gastos militares, para fazer frente ao exército russo. Não há um cenário de vitória para a Rússia numa guerra contra os países europeus. E ninguém sabe porque quereria a Rússia invadir o resto da Europa. Pacheco Pereira também parece ter uma preocupação um quanto cínica no que toca à democracia na Europa. Para ele, o desinvestimento na saúde e na educação, a pior crise da habitação na UE, o ataque aos direitos laborais e a omissão dos financiadores dos partidos parece que são algo com que a “nossa democracia” consegue conviver: não parecem preencher requisitos de “maior ataque à democracia”.
É-nos, também, apresentado um argumento histórico um quanto falacioso para justificar mandar os nossos jovens para a tropa: de que vivemos num continente que «é e sempre foi um continente de guerra». Eu, de facto, assim como os meus colegas do liceu Camões e de todo o secundário, acho que dormiria muito mais descansadamente, sabendo que não pertenço à primeira geração de jovens que morrerão nas trincheiras da Europa antes de ter casa própria. Em vez de usar a história para normalizar a matança e a barbárie, podíamos usá-la para entendermos como elas são indesejadas.
Infelizmente a preocupação com a democracia não é o único cinismo em que Pacheco Pereira incorre: o seu texto de opinião foi publicado no dia 9 de Maio (dia da vitória contra o nazismo!), parecendo revestir-se de uma estética de sacrifício, como se os países europeus tivessem perante si uma escolha difícil: sacrificarem a sua querida juventude numa guerra por liberdade e independência ou serem subjugados perante a Federação Russa.
Ora, os países europeus parecem ter uma só vontade de momento: a de investir numa renovada indústria armamentista e depois fazer uso dela; afinal de contas as balas e os tanques produzidos começam por ser investimento lucrativo. O interesse pela guerra por parte da grande indústria traz consigo um senão: os jovens (menos os filhos de quem manda) vão para a guerra para nela morrerem pelo lucro e o interesse de um punhado de gente muito rica. Não é uma escolha difícil, porque quem tem o poder para a mandar fazer ganha muito com a guerra.
É importante reiterar que os jovens não querem ser mandados para uma guerra para morrer em nome daqueles que já lhes roubam o futuro em tempo de paz. Por toda a Europa, no passado dia 8 de maio, estudantes protestaram contra o aumento do militarismo com o mote «os governos querem guerra, nós queremos um futuro», reiterando a ideia de que existe uma razão pela qual «não é popular defender o serviço militar obrigatório»: é porque restaurar o SMO não é para servir o povo." José Duarte, estudante.

Ventos Semeados: A Rosa e os seus Espinhos

Ventos Semeados: A Rosa e os seus Espinhos:   Chamam-se Bandidos do Cante, o que constitui, em si mesmo, uma promessa que não cumpriram. Um bandido tem, ao menos, a virtude do risco. E...

João Cotrim Figueiredo, muito obrigado:

Tiago Antunes “não tem capacidade para ser provedor de Justiça”

No final, o jornalista disse-lhe “João Cotrim Figueiredo, muito obrigado. Até para a semana.” Antes, o gratulado tinha iluminado várias e complexas questões, uma delas esta:

"Tiago Antunes fez parte de um conjunto de pessoas que operava nos blogues no início deste século, blogues que, se soube mais tarde na Operação Marquês, que eram financiados por Carlos Santos Silva. Que se dedicavam sistematicamente, não só à protecção de Sócrates, como no caso Freeport ou no caso da licenciatura tirada ao domingo, que se encarregavam de denegrir os adversários, de intoxicar a opinião pública, de devassar a vida privada, de insultar. Portanto, a forma de fazer política de insulto, esta forma baixa de fazer política que hoje nós tanto criticamos noutros quadrantes, nasceu com estas pessoas. [...] Uma pessoa que não percebe o mal que fez, e o mal que fez à democracia, instituindo o hábito de insultar adversários, o hábito de mentir sobre adversários, devassar a vida pessoal de adversários, é alguém que não tem condições para ser Provedor de Justiça."

É muito difícil escolher por onde começar, neste dilúvio de mentiras e calúnias. Talvez começar pelo começo: o que foram os blogues? Hoje, são anacronismos folclóricos. Entre 2005 e 2015, o período de actividade do Câmara Corporativa, os blogues políticos começaram por ser tertúlias que reuniam pessoas com actividade partidária, jornalistas e interessados das mais diversas origens com um nível de educação superior. Ou seja (até 2008 ou 2009), nos blogues conviviam aqueles que na sociedade estavam mais capacitados para o pensamento crítico. Foi a idade de ouro, marcada por estonteante criatividade e socialização entre diferentes. Que audiências geravam? Irrisórias em volume, muito menos de 1% do que possa ser considerado como comunicação social. Com algum poder de influência mediática por via da frequência de jornalistas, mas mesmo por aí sem qualquer poder editorial nas redações profissionais, obviamente.

A partir do 2009, deu-se um duplo fenómeno: (i) o Facebook atinge massa crítica que torna acto contínuo a blogosfera obsoleta; (ii) a direita usa estrategicamente os blogues como instrumento de campanhas negras. Tendo toda a imprensa na mão, a direita passava a usar os seus blogues como espaços de ensaio propagandístico, e passava a usar os blogues que pudessem ser conotados com o PS como alimento de teorias da conspiração que envolviam, na sua origem, a liderança do PSD, a Casa Civil, o Ministério Público e alguns juízes. Pacheco Pereira, na sua soberba encardida, apontou em 2009 os canhões contra três blogues e jurou que eram produzidos pelo Gabinete de Sócrates. Mentiu (ou alucinou) a soldo do esgoto a céu aberto chamado Cofina, nunca pediu desculpa.

Como (infelizmente) não me pagam para estar aqui a teclar, salto para o Figueiredo. Este crápula, 17 anos depois, mente sobre Carlos Santos Silva, mente sobre o blogue Câmara Corporativa, mente sobre os blogues da direita (ou de qualquer outro poiso ideológico), e, acima e antes de tudo, mente sobre Tiago Antunes. O grau e a tipologia das suas mentiras exibem um desplante tal que chegam a despertar simpatia. Porque é preciso ser chanfrado dos cornos, e não ter vergonha dessa condição, para ir largar aquelas bacoradas na TV.

O jornalista ouviu tudo caladinho. E depois fez uma pergunta para mostrar que concordava. No final, agradeceu. E porquê? Porque é para isso que lhe pagam. Para agradecer, agradecido.

por Valupi

Do blogue Aspirina B

terça-feira, 12 de maio de 2026

Nas muralhas da cidade:

«Oficialmente, neste como noutros casos, os responsáveis policiais optam quase sempre, por cá e em muitas outras policias mundiais, por fazer avançar a metáfora da maçã podre num cesto de fruta saudável. O caso isolado. Acontece que nos últimos anos assistimos a vários casos isolados com um padrão que, não sendo tão grave, se assemelha na forma de agir. No caso de Alfragide foi provada violência ilegal sob detidos em custódia; no caso Claúdia Simões na Amadora passou-se rapidamente de um caso de uso da força legítima e legal, no momento da detenção, para a violência ilegal enquanto a detida estava em custódia; no caso de Olhão, um imigrante foi espancado sob custódia, ainda algemado, tendo vindo a falecer num hospital em cuidados intensivos; no Alentejo, uma comunidade inteira de imigrantes, na sua maioria timorenses, foi espancada e explorada vivendo em condições de autêntica escravatura durante demasiado tempo por vários polícias da GNR e um outro da PSP.

Vamos elencar só estes para afastar desde já a assunção do caso isolado. No caso do Rato, os deputados ouviram, mas mais nada se passou. Nenhuma iniciativa parlamentar foi tomada, preferindo-se as trocas de bitaites casuísticos e de lugares-comuns.»

Violência policial nas esquadras da PSP, e agora? 

 por Valupi

Do blogue Aspirina B

O manual de instruções – ou réquiem para uma arquitetura:

(José Pendão, in Facebook, 12/05/2026, Revisão da Estátua)


A Estátua não resiste em sublinhar a qualidade deste texto, no seu propósito de revisitar e nos facultar pistas de leitura interpretativa do mundo atual. Sim, citando Gramsci: “O mundo velho está a morrer e o novo ainda não pode nascer; neste interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”.

Os meus parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 12/05/2026)

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segunda-feira, 11 de maio de 2026

O meu pai tinha apenas a antiga quarta classe:

Não falava em macroeconomia, não discutia modelos de desenvolvimento nem citava economistas. Mas havia uma coisa que ele percebia melhor do que muitos “especialistas” de hoje: um país que deixa de investir primeiro no seu próprio povo está condenado a tornar-se pobre, mesmo que os números da televisão digam o contrário.

Lembro-me perfeitamente de o ouvir dizer que quando um país começa a viver obcecado com o dinheiro que vem de fora — turismo, investimento estrangeiro, exportações a qualquer preço — acaba inevitavelmente por esquecer quem cá vive. E quando isso acontece, dizia ele, começa a corrida para baixo: salários mais baixos, direitos mais fracos, empregos mais precários e uma sociedade inteira treinada para aceitar viver cada vez pior.
Na altura muitos talvez achassem aquilo conversa de homem simples. Mas hoje basta olhar à nossa volta para perceber que o homem estava certo.
Portugal transformou-se num país onde trabalhar deixou de ser garantia de estabilidade. Trabalha-se mais, recebe-se menos proporcionalmente e vive-se permanentemente esmagado entre impostos, crédito, rendas absurdas e salários que parecem congelados no século passado. O mais perverso é que isto já nem sequer é apresentado como problema. É apresentado como inevitabilidade.
Disseram-nos durante décadas que tínhamos de ser “competitivos”. E o que significava essa competitividade? Significava sermos mais baratos. Mais baratos que os franceses, mais baratos que os alemães, mais baratos do que qualquer país que tivesse melhores salários e mais direitos. O truque estava em convencer-nos de que a nossa pobreza era uma virtude económica.
Pouco a pouco fomos destruindo aquilo que sustentava um país minimamente equilibrado:
abandonou-se produção nacional;
venderam-se sectores estratégicos;
destruiu-se agricultura;
deixou-se morrer indústria;
transformaram-se cidades em parques turísticos;
trocaram-se empregos qualificados por serviços mal pagos;
e criou-se uma economia onde servir passou a valer mais do que produzir.
Hoje um jovem altamente qualificado muitas vezes ganha pouco mais do que alguém ganhava há vinte anos, mas vive numa sociedade infinitamente mais cara. Casas impossíveis de comprar, rendas incomportáveis, combustível, alimentação e energia sempre a subir. Entretanto dizem-lhe para trabalhar mais horas, ser resiliente, flexível e competitivo. Traduzindo: aceitar calado.
O mais grave é que muitos dos que defendem este modelo falam como se o país existisse apenas para agradar aos mercados, aos investidores e às estatísticas europeias. O povo real desapareceu da equação. Dez milhões de portugueses deixaram de ser vistos como uma força económica interna para passarem a ser apenas mão-de-obra barata num território periférico da Europa.
E depois admiram-se:
da emigração;
do envelhecimento;
da quebra da natalidade;
do cansaço social;
da revolta silenciosa;
da desconfiança crescente nas instituições.
Como pode um país construir futuro quando os seus próprios cidadãos são tratados como custo e não como prioridade?
O meu pai dizia uma coisa muito simples: “Se o povo tiver dinheiro no bolso, o país mexe.” E tinha razão. Porque dez milhões de pessoas a consumir, a produzir, a viver com dignidade, criam economia real. Criam estabilidade. Criam mercado interno. Criam esperança. Mas para isso era preciso ter feito exactamente o contrário do que foi feito nas últimas décadas.
Escolheu-se a dependência em vez da soberania económica. Escolheu-se o lucro rápido em vez da construção de longo prazo. Escolheu-se o turismo em vez da produção. Escolheu-se mão-de-obra barata em vez de valorização salarial. Escolheu-se adaptar o povo à pobreza em vez de combater as causas dela.
E talvez a maior tragédia seja esta: o país habituou-se. Habituou-se a achar normal viver sempre abaixo daquilo que produz. Habituou-se à mediocridade como destino inevitável. Habituou-se a ouvir que pedir mais é irresponsabilidade.
Mas não, não é normal um povo trabalhar tanto e viver permanentemente aflito. Não é normal um país formar jovens para emigrar. Não é normal uma economia sobreviver à custa de baixos salários eternos. Não é normal que ter casa, filhos e estabilidade tenha voltado a parecer um luxo.
O meu pai não tinha estudos superiores. Mas percebeu cedo aquilo que muitos doutorados nunca quiseram admitir: nenhum país se salva quando deixa de colocar o seu próprio povo no centro da economia.