Coisas que Podem Acontecer:
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Ventos Semeados: O punho e as cócoras
Conferência de abertura do Fronteiras do Pensamento 2020::
A razão que me
levou a participar deste movimento foi pensar que não poderia ser feliz com um
país que tinha esta prática racista tão clara, tão agressiva e tão cotidiana. E
eu acho que sem eu nunca perceber, eu passei a pertencer a uma minoria em um
país onde 99% dos moçambicanos são negros. Todos os meus dirigentes são negros.
Meus amigos, meus colegas de trabalho a maioria são negros.
Eu sou uma pequena
gota e não dou conta disso, eu não dou conta porque não tenho raça. Isso
acontece porque quem lidera o país representa isso. Eu vejo que quando visito a
Europa as pessoas me olham como se fosse que eu tivesse alguma coisa que eu
pudesse dizer em solidariedade uma perda qualquer que tive. Não, eu só ganhei.
Só tenho a celebrar a vida em que eu lutei e onde chegamos em Moçambique."
Mia Couto
Começa a semana com isto:
«Ora, não pode subestimar-se a gravidade institucional do abuso de poder do Ministério Público, quando instrumentaliza os seus poderes de investigação penal para efeitos de perseguição política ou pessoal, sobretudo quando se trata de um magistrado judicial vítima de uma denúncia anónima infundada. É chegada a altura de questionar o desvio constitucional da autogestão corporativa e a (falta de) autoridade hierárquica e de responsabilidades externa do MP.
Se o PR, por inércia, se mostrar complacente com um caso desta gravidade, que autoridade lhe resta para reagir a situações semelhantes no futuro?»
Contas públicas – entre o controlo e a corrupção quase sistémica:
(João Gomes, in Facebook, 17/05/2026)

Há algo de muito “português” neste confronto entre o Governo e o Tribunal de Contas. Um país onde quase todas as semanas surgem notícias de investigações relacionadas com corrupção, favorecimento, tráfico de influências, ajustes suspeitos, derrapagens financeiras ou ligações pouco transparentes entre política e negócios decidiu, subitamente, descobrir que o verdadeiro problema nacional talvez seja… fiscalização a mais.
O Governo argumenta que Portugal está amarrado a uma máquina burocrática incapaz de decidir, contratar e executar obras em tempo útil. E tem razão. O Estado português tornou-se lento, defensivo e excessivamente formalista. Entre pareceres, validações, autorizações e vistos, muitas decisões públicas parecem atravessar um labirinto administrativo concebido para impedir tanto o erro como a coragem. Mas lembro que essa é uma situação com mais de 40 anos de governos do bloco central. E é precisamente aqui que começa a ironia portuguesa.
Porque o mesmo Estado que agora proclama urgência e modernização continua incapaz de reformar profundamente a Justiça. Os grandes processos de corrupção arrastam-se durante anos – por vezes décadas – entre recursos, incidentes processuais, prescrições e adiamentos sucessivos. O país habituou-se a assistir a investigações mediáticas que terminam, demasiadas vezes, numa espécie de nevoeiro judicial onde quase tudo se dissolve lentamente no tempo.
É nesse contexto que surge a proposta de flexibilização do controlo prévio dos contratos públicos de Luís Montenegro e do seu governo. A pergunta impõe-se: será prudente reduzir mecanismos preventivos num país onde a responsabilização posterior continua dramaticamente lenta?
O Tribunal de Contas respondeu com dureza invulgar. E compreende-se porquê. A instituição sabe que Portugal não é propriamente um modelo europeu de robustez institucional no combate à corrupção administrativa. Sabe que muitos dos grandes escândalos financeiros nasceram precisamente na contratação pública: obras derrapadas, aditamentos sucessivos, concessões ruinosas, parcerias desequilibradas, urbanismo opaco e relações excessivamente próximas entre decisores públicos e interesses privados.
Mas o problema cresce, porque o próprio Tribunal de Contas também não pode fingir que nada lhe diz respeito. Durante anos consolidou-se uma cultura de fiscalização excessivamente formalista, lenta e, por vezes, mais preocupada em evitar riscos jurídicos do que em compreender a urgência económica do país. Muitos gestores públicos vivem hoje sob uma espécie de paralisia preventiva: o medo de decidir tornou-se quase tão forte como o medo da corrupção.
E assim Portugal entra no seu círculo vicioso favorito:
– Porque há corrupção, cria-se mais controlo.
– Porque há mais controlo, o Estado bloqueia.
– Porque o Estado bloqueia, multiplicam-se exceções, urgências e ajustes extraordinários. E essas exceções acabam frequentemente por criar novas oportunidades para favorecimentos e abusos.
No fundo, o país vive aprisionado entre dois medos permanentes: o medo de decidir e o medo de roubar.
O Governo quer acreditar que simplificar procedimentos bastará para acelerar investimento e obras públicas. Mas simplificação sem reforço simultâneo da transparência e da capacidade fiscalizadora pode rapidamente transformar-se apenas em desproteção institucional.
Por outro lado, o Tribunal de Contas também não pode limitar-se a defender mais vigilância sem admitir a necessidade de modernização profunda da sua própria capacidade operacional. Fiscalizar não pode continuar a significar apenas acumular papel, carimbos e tempos de espera incompatíveis com uma economia moderna.
A verdadeira reforma exigiria algo mais difícil – e muito menos mediático. Exigiria:
– Equipas técnicas altamente especializadas;
– Auditoria digital contínua;
– Cruzamento automatizado de dados;
– Transparência pública em tempo real dos contratos;
– Rastreamento de aditamentos e subcontratações;
– Tribunais administrativos rápidos;
– Proteção efetiva de denunciantes;
– e responsabilização célere de gestores públicos e privados REAL e EFETIVA.
Porque o problema português raramente foi falto de leis. O país produz legislação em abundância quase barroca. O problema está na execução, na capacidade institucional e, sobretudo, no tempo. Tempo excessivo para fiscalizar. Tempo excessivo para julgar. Tempo excessivo para punir. E quando um sistema demora demasiado tempo a reagir, cria inevitavelmente uma perigosa sensação de impunidade.
Talvez por isso a polémica atual seja mais séria do que aparenta. Ela revela uma fragilidade estrutural do Estado português: a incapacidade de equilibrar eficiência administrativa com controlo democrático credível. No fundo, Portugal continua à procura de uma solução mágica que permita simultaneamente: gastar mais depressa, fiscalizar melhor, julgar rapidamente, e manter confiança pública.
Mas enquanto a Justiça permanecer lenta e a fiscalização continuar tecnologicamente atrasada, flexibilizar o controlo preventivo dos contratos públicos pode parecer menos uma modernização do Estado e mais um arriscado ato de fé administrativa.
Ou, dito de forma mais simples: Portugal arrisca acelerar contratos que a Justiça investigará lentamente durante os próximos quinze anos.
Do blogue Estátua de Sal
domingo, 17 de maio de 2026
Murar o Medo:
Discurso proferido por Mia Couto, na Conferência de Estoril, em 2011.
Ventos Semeados: O punho e as cócoras
Dominguice:
O
procurador António Beirão, em tribunal, criou um momento histórico. Com isto: “Ninguém tem dúvida de que José Sócrates foi objecto de uma
campanha que constituiu um assassinato de carácter.” Estamos em 2026.
Quem antes, na turbamulta dos linchadores, tinha reconhecido tal? Ninguém de
ninguém. É uma declaração chocante porque humaniza a vítima. E isso fica como
uma chatice do caralho pois a violência política que deu origem e continuidade
à Operação Marquês pede que se desumanize constante e totalmente o alvo. Para
que seja violentado de forma maximalista. A declaração surpreende também pela
honestidade colectiva que assume, o “ninguém tem dúvida”. De facto, como ter
dúvida? Seria igual a duvidar da capacidade do Sol para iluminar e aquecer a
Terra.
Aqui neste pardieiro, pelo menos desde 2009 (se calhar antes),
deu-se e dá-se muito gasto ao conceito. Não há dúvida que subsome mais de vinte
anos da práxis da direita decadente.
17
Maio 2026 às 8:57 por Valupi
Do blogue Aspirina B

