Rádio Freamunde

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Alguém tem de o dizer:

 (José Sócrates, in Jornal Económico, 25/02/2026)


(Independentemente da culpabilidade de Sócrates – que não sabemos ainda se existe – pois ainda não foi julgado e, por isso, só devemos ater-nos a presunções -, há duas asserções indiscutíveis: 1) Sócrates mantém intactos todos os seus direitos políticos, de cidadania e de opinião, e por isso o publico. 2) A justiça em Portugal tem vindo a ser usada como arma capciosa no confronto político a favor dos partidos mais à direita pelo que, a “democracia”, tem vivido e avançado montada em golpes de “lawfare” cada vez mais óbvios e despudorados, como aconteceu com o último governo de Costa.

Estátua de Sal, 10/03/2025, repetido com maior propriedade ainda, em 27/02/2026)

O ato de renúncia de um advogado é da sua exclusiva responsabilidade e responde a um dilema interior, difícil e dilacerante, que só os imbecis podem considerar manipulado por outros.

1.Diz o senhor bastonário da ordem dos advogados que deve haver “um advogado oficioso específico para a operação marquês”. A rude simplicidade da declaração é desarmante – o que o bastonário quer dizer, fazendo-o sem qualquer preocupação de cuidado ou de elegância, é que o processo marquês deve ser transformado num processo de exceção. Um processo que faz a sua própria lei.

2. A notícia diz que o bastonário declarou que os “arguidos têm direito a escolher o advogado que quiserem”, mas considera que “esse direito não é irrestrito”. A surpreendente cultura penal do senhor Bastonário ainda concede ao cidadão a liberdade de escolher o advogado – mas com regras. Que regras são essas? Só podemos especular – talvez a de saber, previamente, se o advogado é do agrado do Ministério Público; talvez a de se assegurar que o seu advogado tem a aprovação do tribunal; talvez a de saber se o seu advogado tem o agrado da corporação.

3. Afirmou também que a depender dele,“a Ordem nomeará um novo defensor em 48 horas”. Não sei com que base, fora dos critérios legais, a Ordem vai nomear defensor oficioso – mas sei que a ordem do tribunal fala expressamente num prazo de preparação de dez dias. Desta forma, se o fizer, a Ordem dos advogados ficará para sempre ligada a uma direta violação do artigo sexto (direito a um processo equitativo) da Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Só para que fique claro, este artigo diz assim, no seu ponto três: O acusado tem, como mínimo, os seguintes direitos: (…) b) dispor do tempo (…) necessário para a preparação da sua defesa.

4. Bem sei que o senhor bastonário já afirmou que dez dias não é suficiente. Mas o bravo dirigente não se deixa condicionar pelos limites da conformidade lógica. Dois dias – deem-me dois dias e eu resolvo de vez o assunto.

5. Diz também o senhor bastonário que sentiu necessidade de defender a senhora advogada oficiosa. Quero recordar que a senhora advogada oficiosa não levantou o processo da secretaria e esteve em tribunal sem nada conhecer do processo. Mais ainda: a senhora advogada disse publicamente que me tinha tentado contactar, o que não é verdade. Não. Não, senhor. A senhora advogada oficiosa não esteve ali a defender-me nem o senhor bastonário foi ali defender a dignificação da advocacia – foi ali defender o Ministério Público contra os seus colegas que haviam renunciado.

6. O senhor bastonário não se sentiu obrigado a defender o respeito pelo advogado e o conhecimento dos autos para fazer uma defesa condigna. Antes optou pelo discurso subserviente que omite a defesa dos colegas destratados em audiência de julgamento e feridos na sua dignidade profissional – “acabou a brincadeira”, disse, desrespeitosamente e sem razão que o justificasse, a Senhora Juíza Presidente ao advogado Dr. Pedro Delille. O senhor bastonário também não se sentiu obrigado a defender o seu colega, o Dr. José Preto, que foi imediatamente substituído pelo tribunal quando esteve internado com uma pneumonia. Mas o senhor bastonário decidiu ir ao tribunal para, com a atenta cobertura noticiosa do jornal observador, defender a advogada oficiosa que havia sido nomeada quando o meu mandatário estava hospitalizado. Em conclusão: o senhor bastonário só defende advogados convenientes.

7. O propósito, sejamos claros, é óbvio – o de alimentar a conversa das “manobras dilatórias”. O senhor bastonário nunca disse uma palavra quando o Ministério Público prendeu para investigar e apresentou a acusação três anos depois – violando o prazo máximo de inquérito e os acórdãos judiciais que estabeleceram o prazo máximo para finalizar o inquérito em 19 de outubro de 2015 (a acusação só foi entregue a outubro de 2017). Aí não houve manobras dilatórias.

O senhor bastonário não disse uma palavra quando a instrução do processo, prevista na lei durar trinta dias, durou, afinal, quase quatro anos. Aí também não houve manobras dilatórias.

O senhor bastonário não disse uma palavra sobre o “lapso de escrita” que alterou a acusação, mudou o crime, agravou a moldura penal e manipulou os prazos de prescrição – essa, que foi a “mãe de todas as manobras dilatórias” de um processo que estava morto na instrução. Não, não senhor. A preocupação do senhor bastonário não é a defesa da celeridade da justiça, mas juntar-se à conversa básica do Ministério Público de que só aos atos dos advogados, ou seja, as ações de defesa da inocência, é que são expedientes dilatórios.

8. Mas vejo mais. Vejo que o senhor bastonário não se incomoda quando um juiz é investigado quando toma uma decisão livre e independente, mas que não agrada ao Ministério Público. Vejo que o senhor bastonário não se incomoda quando são abertas investigações com vista a controlar e condicionar a própria defesa.

9. Para acabar. O ato de renúncia de um advogado é da sua exclusiva responsabilidade e responde a um dilema interior, difícil e dilacerante, que só os imbecis podem considerar manipulado por outros. O que se passou fez-me lembrar que ainda há advogados corajosos em Portugal; as intervenções do senhor bastonário explicam a conivência e a subserviência que para aí vejo.

Do blogue Estátua Sal 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O BRICS Pay:

Já estreou nas lojas digitais, com pagamento via QR code, liquidação em moedas nacionais e integração com cartões já existentes. Começou pela Rússia, mas a expansão para outros mercados do bloco é questão de tempo. Isso não é mais promessa diplomática, é infraestrutura funcionando.

E aqui entra o ponto que muita gente no Ocidente prefere fingir que não está vendo: quando um bloco que representa quase metade da população do planeta cria seu próprio sistema de pagamentos, ele não está “testando”. Ele está construindo alternativa. O BRICS Pay nasce pequeno, como toda plataforma nasce, mas nasce com algo que o diferencia: escala potencial e alinhamento geopolítico.
Não se trata só de pagar café com QR code em outro país. Trata-se de reduzir dependência de sistemas controlados por potências tradicionais, de facilitar comércio em moedas locais e de criar uma rede paralela que conversa entre si. É estratégia econômica com impacto político.
O Sul Global entendeu que soberania também passa por tecnologia financeira. E quando um novo sistema começa a operar de fato, com aplicativo, usuário, transação real, já não é mais discurso de cúpula. É mudança estrutural. Pode demorar, pode enfrentar resistência, mas a onda começou. E quando infraestrutura vira hábito, não se desfaz com pressão externa.
Gostem ou não, o jogo financeiro internacional está deixando de ter um único centro. E isso, silenciosamente, muda tudo.

Mais valia estarem calados:

 (João Gomes, in Facebook, 25/02/2026)

Em 2025 escrevi sob o peso de uma guerra prolongada e de um ambiente estratégico saturado de medo, rearmamento acelerado e retórica maximalista. A Europa despertava tarde para vulnerabilidades acumuladas, investia em defesa, falava de autonomia estratégica – mas fazia-o num clima psicológico que começava a normalizar o impensável. É nesse espírito de guerra que devem ser enquadradas as declarações de ontem do almirante na reserva Henrique Gouveia e Melo.

As suas palavras exatas foram claras: a Rússia só teria vantagem num conflito prolongado com a União Europeia se recorresse à guerra nuclear – algo que considerou “impensável”, porque as ogivas nucleares de França e Reino Unido seriam suficientes para dissuadir. “Não é preciso ter mil ogivas nucleares, basta 200 ou 300 para destruir o território todo”, afirmou.

Importa ser intelectualmente rigoroso: o almirante não defendeu a proliferação nuclear europeia. Referia-se ao arsenal já existente de França e Reino Unido como suficiente para dissuasão. A crítica, portanto, não é sobre expansão nuclear. É mais profunda do que isso.

1. A banalização aritmética do apocalipse

Mesmo no contexto da dissuasão, afirmar que “basta 200 ou 300 para destruir o território todo” reduz a questão nuclear a uma equação quantitativa. Ora a dissuasão não é uma operação de contabilidade. É um equilíbrio psicológico, político e estratégico extremamente delicado. Transformar centenas de ogivas – instrumentos de devastação irreversível – num argumento quase técnico produz um efeito perigoso: normaliza a linguagem da aniquilação como parte aceitável do debate corrente.

Dizer que algo é “impensável” enquanto se descreve, com aparente serenidade, a capacidade de destruição total cria uma tensão retórica inquietante.

2. A ilusão da estabilidade automática

A ideia implícita nas declarações é esta: a Rússia não recorrerá ao nuclear porque sabe que a resposta franco-britânica seria devastadora. Essa lógica parte de três pressupostos discutíveis:

– racionalidade perfeita de todos os atores;

– ausência de erro de cálculo ou escalada acidental;

– inexistência de cenários intermédios (uso limitado, demonstração tática, erro técnico).

A história da dissuasão nuclear mostra que o equilíbrio não depende apenas do número de ogivas, mas da prudência política, da comunicação controlada e da redução da retórica inflamada. Quanto mais o discurso público passa a falar em números de destruição total, mais se enfraquece a própria cultura estratégica que sustenta a estabilidade.

3. O “espírito de guerra” como enquadramento mental

O almirante identifica os próximos três anos como período de maior risco, associa vulnerabilidade europeia a um ciclo político específico e defende a necessidade de “prender a Rússia na Ucrânia” até que o rearmamento europeu esteja completo. Isto não é apenas análise estratégica. É a consolidação de uma mentalidade de contenção prolongada, quase estrutural.

Quando o debate passa a assumir como dado adquirido um horizonte de confronto inevitável, a política deixa de procurar saídas e passa a gerir tensões permanentes. É esse o verdadeiro risco do espírito de guerra: ele infiltra-se na linguagem antes de se manifestar nos campos de batalha.

4. Força não substitui estratégia

A Europa tem desafios reais:

– dependências estratégicas passadas,

– necessidade de reforço industrial e militar,

– incertezas na arquitetura transatlântica.

Mas nenhuma dessas fragilidades se resolve através da evocação explícita da capacidade de destruir “o território todo” de um adversário. A credibilidade europeia constrói-se com coesão política, capacidade industrial, clareza diplomática e prudência estratégica – não com a quantificação do poder de aniquilação.

5. A responsabilidade da palavra

Um almirante na reserva e ex-candidato presidencial não fala como comentador casual. Fala como alguém que conhece o peso real da guerra. Num continente que vive sob a sombra histórica de duas guerras mundiais e sob o equilíbrio nuclear desde 1945, a responsabilidade da palavra é parte da própria estratégia. A dissuasão funciona melhor quando é silenciosa. Quando se torna argumento televisivo, perde parte da sua racionalidade e ganha dimensão emocional.

Tem de se recusar a normalização discursiva do fim. Falar de centenas de ogivas como variável suficiente para “destruir o território todo” pode parecer frieza estratégica. Mas pode também revelar uma preocupante habituação à ideia do irreversível. Num tempo em que o espírito de guerra se infiltra no vocabulário político europeu, talvez a verdadeira maturidade estratégica consista em conter não apenas arsenais – mas também palavras.

Por vezes, a prudência não é fraqueza. É civilização. E, sim, há momentos em que mais valia estarem calados.

Bom dia!

Do blogue Estátua de Sal

O “caso Mortágua” e o estado da Universidade e do Parlamento:

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 24/02/2026, Revisão da Estátua)

É conhecida a metáfora do sábio que aponta para o céu e o ignorante olha para o dedo. Perante o ataque a Mortágua, uma onda de solidariedade da área política de Geringonça veio defendê-la dizendo o óbvio – o seu mérito científico é comprovado. Estou totalmente de acordo.

O que não posso concordar é que, perante este ataque, dirigentes políticos respondam apontando os méritos de Mortágua, indiscutíveis. Mas ignorem o céu, neste caso o inferno, que é a degradação, quer do sistema Universitário, quer da esquerda na sua relação com o Parlamento. Por cada Mortágua que acede aos concursos 70% fica para trás, no mínimo, com o mesmo currículo. E sim, o Parlamento é uma porta giratória de acesso a lugares escassos, por ausência de um sistema público científico nacional, que acaba por ter como função exportar quadros, precários, e distribuir cá lugares de gestão entre a esquerda e a direita, abraçadas no projecto neoliberal.

Sou professora, como é público, na FCSH/UNL de educação e história e delegada sindical do ensino superior, historiadora marxista, docente concursada com um projecto teórico-metodológico marxista e cidadã socialista. Não há qualquer neutralidade na minha vida. A minha teoria, docência, tempo sindical ou militância são uma só na mesma pessoa; procuro fazer tudo com o mesmo com rigor, objectividade e verdade, não isenta de erros, porque pensar e trabalhar é errar. O que aqui escrevo não é sobre uma Universidade em particular, nem sobre um caso, o de Mariana M., e só a mim me responsabilizam estas palavras; trata-se de opinião, livre, não há outra na Universidade. Sem liberdade não há pensamento.

A Universidade está a passar pela sua maior crise, há quem diga que a Universidade de Humboldt morreu – o projecto neoliberal, hoje aplicado por gestores de esquerda e de direita, é isolar os catedráticos, que se vão reformando, e substitui-los pelo poder dos professores-gestores, uns tiranetes que fazem a Universidade medieval parecer um paraíso.

E que recrutam os FCT tenures, bolseiros, e convidados, que fazem o trabalho docente, sem liberdade de cátedra, obedecendo às agências de financiamento determinadas pelo Estado e pela UE, sem autonomia. Temos assim parcerias! com a NATO, a SONAE, as farmacêuticas, fundações privadas como a Francisco Manuel dos Santos, do Pingo Doce. Há anos estive num projecto sobre os trabalhadores onde um director de uma das Universidades mandou retirar o seu logo porque não tinha sido ouvida a direcção da empresa dos referidos trabalhadores! Sequer ele compreendeu quando um colega lhe respondeu que ter directores de empresa num projecto nos impedia de fazer ciência…Fizemos o projecto, gratuitamente, no Observatório para as Condições de Vida.

A docência com liberdade de cátedra/carreira (as duas são indissociáveis) devia ser o mais nobre da Universidade, feita com investigação e divulgação, e os cargos de gestão nunca deviam contar para a carreira (a gestão devia ser democrática e feita por todos). O que há agora é degradação do acto docente, da aula, que aliás pouco ou nada conta na avaliação face à métrica dos artigos, para a alimentar a IA.

E carreiras, por este andar, só vai haver para os que acumulam cargos de gestão. E para algumas dezenas dos milhares de lambe botas que assistem a tudo isto em silêncio à espera de uma “progressão interna” – progressões inventadas pela Nova Gestão Pública para garantir a paz social. É a cumplicidade e servidão de que falava La Boétie e Primo Levi. Por isso é possível hoje trabalhos em IA serem avaliados com ajuda de IA…Um teatro brechtiano.

E não se enganem. Não é só dinheiro, é poder. Algumas destas pessoas ganham já 2800 ou 3500 euros líquidos, estão sentados a ouvir directores e reitores, e ficam em silêncio…

E o Parlamento? Oh meu Deus! É uma porta giratória entre cargos não só nas empresas mas no aparelho de Estado. A burguesia sempre governou com um corpo executivo de burocratas – políticos profissionais, traficantes de influências. A esquerda, contra isto, defendia, no século XIX, que não devia haver políticos profissionais pagos pelo Parlamento, porque iam passar a obedecer ao Estado, em vez de organizar as classes trabalhadoras e o mundo da cultura. Política é o que todos devemos fazer, em part time, e não deve haver um euro publico para remunerar partidos. Que são partes, representam interesses na sociedade e devem lutar pelas suas ideias, mas não com dinheiros públicos.

O que vemos, desde a vitória do nacionalismo há 120 anos, é que os políticos de esquerda também se tornaram profissionais. E que o seu acesso ao aparelho de Estado garante um capital simbólico, redes de contactos, que lhes dão emprego pela vida fora. Se os corruptos, em geral de direita, ganham milhões em empresas, os genuinamente incorruptíveis, em geral de esquerda, ficam com um emprego bem pago e uma boa reforma garantida. Algo que mais de 70% da população não tem.

Mortágua tem um emprego de professora porque o merece, mas há milhares que o merecem e não têm. Porque não debatemos este inferno?

O inferno é este. Não há um ataque neoliberal a Mortágua, porque esse ataque, neoliberal, já foi feito há muito e ele é hoje o dia a dia da Universidade. Os professores convidados e leitores estão sobrecarregados de aulas e piores horários, ali, ao nosso lado, sem emprego seguro; os cargos de gestão são o trampolim para subir a catedrático, ao mesmo tempo que se acusam os catedráticos de ser a peste. AUniversidade corporativa, com carreiras, é um paraíso ao pé desta, onde se trabalha para plataformas de dados e certificações como lembrou o catedrático marxista que se dedicou a estudar a Universidade neoliberal, Carlos Fernandez Liria ou o ex reitor e educador, também marxista, Roberto Leher.

Há muito que defendo quatro medidas e acções:

Que os concursos em Portugal deviam ser como no Brasil. Quem concorre tem que dar uma aula pública, escrever um exame que é afixado no corredor ao público, defender o seu currículo em público, preparar e defender de portas abertas uma disciplina. Como na agregação em Portugal, mas no Brasil é regra para todos os concursos. Ou como na França, um concurso nacional.

Que quem ocupa lugares de gestão e de poder não eleitos pelos pares em sufrágio universal não deve ser sindicalizado (façam um sindicato de gestores). Quem serve as agências de financiamento, o Estado, a colecta de dados, é patrão, não é colega. Quem impõe regras demenciais, como avaliação anónima de alunos ou o preenchimento de plataformas, medidas pedagógicas que colidem com a liberdade de cátedra, está a “cumprir ordens” de cima, não está a defender os “colegas”.

Que ser político é uma obrigação, cidadã. Não um emprego. Que ser socialista é lutar por organizar as pessoas, para a sua auto emancipação, não é pedir-lhes o voto e ficar a discursar no Parlamento, aprovando leis irrelevantes ou, quando relevantes, não cumpridas sequer.

Que deviamos fazer greve, por tempo indeterminado, nós os fixos pelos precários, e exigir contratos públicos para todos e carreiras com financiamento público. Como nas lutas de Cordoba de 1919. E nessa greve íamos todos os dias à Universidade fazer plenários, onde todos podemos falar e ser ouvidos, debater que carreiras queremos, que avaliação queremos, o que é Universidade.

Espero, ter ficado claro que não estou preocupada com os ataques dos neoliberais de esquerda e de direita à Universidade mas com aqueles que – à esquerda ou à direita – defendem por palavras a autonomia e o esclarecimento iluminista e crítico, mas são cúmplices, de facto, deste modelo devastador. Vamos fazer greve?

Do blogue Estátua de Sal 

Nas muralhas da cidade:

“Parece-me muito discutível que alguém que não entende o que se passa à sua volta possa ser julgado”

 por Valupi

Do blogue Aspirina B

As gajas são pessoas muito nervosas:

(Luís Rocha, in Facebook, 25/02/2026, Revisão da Estátua)

O nosso ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, deve ter deixado a máquina de sulfatar no meio do campo para ir até Coimbra explicar àquela mulher de galochas como se faz governação moderna. Primeiro fala-se para as câmaras, depois, se ainda restar tempo entre um direto e duas selfies institucionais, ouvem-se os autarcas. A agricultura contemporânea cultiva a imagem. E a colheita faz-se ao fim da tarde no telejornal.

Mas, no meio do arrozal mediático, surgiu o imprevisto. A autarca Ana Abrunhosa, criatura estranha que anda por ali a dar ordens, a pôr diques na linha e a falar de obras como se aquilo fosse competência dela. Com a mania que é gajo. Teve o desplante de interromper o ritual e perguntar se o senhor ministro vinha ouvir os autarcas ou inaugurar uma conferência de imprensa ambulante.

Um ultraje. Um atentado à fotossíntese governativa.

E aí, então, o país aprendeu uma lição já milenar. As gajas são pessoas muito nervosas.

Depois de cheias, temporais e populações aflitas, explicou o ministro com paternal serenidade, é natural que os sentimentos falem mais alto. Tradução rural: coitada, está emocionalmente alterada. Não é que tenha razão quanto ao protocolo institucional. É o stress. A água mexe com os nervos femininos.

Nada de novo debaixo do sol.

Desde Aristóteles que há homens sérios a garantir que a mulher é uma versão húmida da racionalidade, sempre à beira da histeria, invenção médica que durante séculos serviu para explicar qualquer manifestação feminina que não fosse silêncio decorativo. Se ela levanta a voz, é descontrolo.

 Se ele levanta a voz, é liderança. Se ela exige prioridade institucional, é nervosismo. Se ele ignora os autarcas para falar aos microfones, é estratégia.

E repare-se na elegância da técnica. Não se rebate o argumento. Diagnostica-se o temperamento. É uma forma suave de deslegitimação, quase poética. A crítica deixa de ser política para passar a ser clínica. Não se discute o mérito, prescreve-se camomila.

Simone de Beauvoir explicou há décadas que a mulher foi construída como “o Outro”, um apêndice emocional da razão masculina. Mas aqui estamos, no Baixo Mondego, a confirmar que a tradição continua fértil. O dique pode rebentar, as culturas podem afogar-se, mas o verdadeiro perigo é uma mulher falar antes da conferência de imprensa.

Não esquecendo aquele detalhe quase pitoresco de que este ministro que recebe subsídio de alojamento, apesar de possuir residência em Lisboa – tudo legal, claro, tudo publicado no Diário da República -, vem ensinar contenção emocional a quem anda de galochas a gerir prejuízos reais. É um contraste delicioso. Uns tratam da lama, outros tratam da narrativa.

O mais notável é que a crítica da autarca era objetiva e simples. Numa visita institucional, os eleitos locais devem ser ouvidos antes da encenação televisiva. Não é um ataque de nervos. É protocolo básico. Mas admitir isso implicaria reconhecer que uma mulher corrigiu um ministro em público, e isso, na velha agricultura simbólica do poder, é uma infestação grave.

Historicamente, sempre que uma mulher ocupou o espaço da autoridade, surgiram diagnósticos estratosféricos. Margaret Thatcher era demasiado dura. Hillary Clinton era demasiado fria ou demasiado emocional, conforme o dia. O padrão é estável como um terreno argiloso: se ela é firme, é agressiva, se é empática, é fraca.

E assim continuamos a cultivar espantalhos retóricos enquanto fingimos que o campo é neutro. O país assiste, entre enxurradas e diretos televisivos, à eterna pedagogia do paternalismo: quando uma mulher exige respeito institucional, é porque os nervos falaram mais alto. Quando um ministro sugere isso, é apenas sensatez meteorológica.

Depois deste episódio resta-nos agradecer a lição agrária. As cheias passam. As obras fazem-se. Os subsídios publicam-se. Mas a velha ideia de que as gajas são pessoas muito nervosas continua perene, como erva daninha que resiste a qualquer modernização.

E talvez o verdadeiro incómodo não seja o nervosismo feminino. Talvez seja o facto de, no meio da lama, alguém ter tido a ousadia de lembrar que governar não é posar para as câmaras.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

Diário de Notícias – “Vem fazer conferência de imprensa ou ouvir os autarcas?”

https://www.dn.pt/…/vem-fazer-conferencia-de-imprensa…

Rádio Renascença -Tensão entre autarca e ministro em Coimbra

https://rr.pt/…/em-coimbra-nao-volta-a-fazer…/460699

Jornal de Notícias – Repreensão pública ao ministro

https://www.jn.pt/…/ana-abrunhosa-repreende…/18055556

Diário da República – Despacho relativo ao subsídio de alojamento

https://diariodarepublica.pt/…/des…/12113-2024-890820723

logue Estátua de Sal 

Já todos:

Nos teremos apercebido que ao longo destes quatro penosos anos de guerra entre a Rússia e a NATO se constituiu um verdadeiro mercado que dá emprego a centos de comentadores e outros activistas que vivem em exclusivo do negócio da propaganda. Que eu saiba, entre nós, o único comentador que participa no comentariado televisivo e recusa qualquer pagamento é o General Agostinho Costa, posto que defende o princípio, aliás muito louvável, segundo o qual qualquer forma de pagamento limitar-lhe-ia a liberdade. Ademais, fá-lo com admirável coragem.

Na Europa, nos EUA, no Canadá e na Austrália, a propaganda requer os serviços de milhares que, à míngua de qualidades assinaláveis, se limitam a postar-se de bandeira em riste numa esquina, numa praça ou em frente de uma embaixada russa, sendo por tal ocupação semanalmente pagos. Ultimamente, a clientela rareia, pelo que as agências estarão a reduzir o continente, espalhando entre estes desocupados crónicos o receio de que em breve perderão a fonte do seu sustento.