Coisas que Podem Acontecer:
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
domingo, 23 de agosto de 2026
“MILHARES DE CRIANÇAS CRESCEM EM CONTEXTOS DE VIOLÊNCIA FAMILIAR. A MINHA HISTÓRIA É UMA DESSAS": O TESTEMUNHO PESSOAL DE FABIAN FIGUEIREDO:
UCRÂNIA - O DIA DA DEPENDÊNCIA:
Ventos Semeados: O Iluminismo das Trevas - I - Do Neoliberalismo ao...
Suposto défice na Segurança Social “é uma mentira apoiada num truque”:
Em comunicado, a Comissão Política do Bloco de Esquerda diz que o
recente relatório apresentado por um “grupo de trabalho” escolhido pelo Governo
é uma “manobra destinada a substituir um sistema previdencial baseado na
solidariedade entre as gerações por um sistema baseado no individualismo e que
tornará as pensões de quem trabalhou toda uma vida reféns do casino financeiro
em que jogam os fundos de pensões”. O partido “assume a responsabilidade de
tomar todas as iniciativas e de juntar todas as forças para impedir a concretização
das estratégias do Governo - diretamente ou por interpostos figurantes - que
atentem contra o sistema solidário de pensões”.
Para o Bloco de Esquerda, esta
iniciativa que o Governo atribui a um grupo “escolhido a dedo para defender os
interesses dos fundos privados de pensões e do sistema financeiro” não passa de
um ensaio de um novo ataque aos direitos de quem trabalha, na sequência da
derrota sofrida no pacote laboral. E esse ataque é sustentado no relatório num
“suposto défice na Segurança Social” que na verdade se trata de “uma mentira
apoiada num truque”, refere o partido.
A mentira é desfeita anualmente
em todos os documentos e relatórios que dão conta dos excedentes gerados pelo
atual regime de Segurança Social, quer no Sistema Previdencial de Repartição,
com receitas sempre acima das despesas e a crescer continuamente, quer na
almofada financeira do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social,
que cresce 20% ao ano e assim “garante por muitas décadas a sustentabilidade e
o pagamento das pensões”.
O Bloco lembra que para este
fundo contribuem todos os anos o adicional ao IMI, imposto sobre o património
imobiliário de luxo que o Bloco fez aprovar em 2017 e recolhe cerca de 150
milhões de euros por ano, mas também a consignação de parte da receita do IRC,
também aprovada no Orçamento para 2018 negociado à esquerda e que acrescenta
cerca de 450 milhões de euros a este fundo.
“A Segurança Social não está
moribunda nem em falência. O sistema geral da Segurança Social é um sistema
universal e aberto, o que permite absorver a população ativa que entra no
mercado de trabalho – incluindo o fluxo de imigração – que tem gerado saldos e
excedentes financeiros consecutivos”, diz o comunicado do partido.
Quanto ao truque usado pelos
autores do relatório para afirmarem que há um défice, ele passa por misturar as
contas da Segurança Social, um sistema aberto, com as da Caixa Geral de
Aposentações, um sistema fechado. O Bloco sublinha que “não se pode somar as
contas de um regime em extinção, a CGA, que tem de ser pago pelo Estado
enquanto empregador, às de um sistema excedentário, a Segurança Social,
que é pago pelos trabalhadores e pelas entidades patronais”.
Assim, “declarar a falência de
ambos é um truque contabilístico que tem apenas o objetivo de iludir as pessoas
e criar desconfiança no sistema público, para abrir caminho à entrada dos
privados”, tal como há vários anos preconizam os principais autores do
relatório. O que leva o Bloco de Esquerda a concluir que “isto não é um
relatório técnico, é um ataque politicamente orientado e com propósitos claros”
que à semelhança do pacote laboral tem de ser derrotado pelos trabalhadores.
Termos relacionados: Política, Segurança Social
23 de agosto 2026 - 12:18
Bloco de Esquerda
Dominguice:
A democracia é a forma de uma sociedade se organizar politicamente que gera mais incerteza. Mas não necessariamente mais instabilidade. Já a ditadura gera muito menos incerteza, mas não necessariamente fica imune a imprevista e indomável instabilidade. Os broncos, por feitio ou funesto acaso, preferem viver com o maior número de certezas que conseguirem enfiar no bestunto. Os que escolhem viver com inevitáveis incertezas passam os dias a puxar pela cabecinha, e a dar corda ao coração, e a esculpirem o seu carácter à custa de muitas pancadas no mármore.
É assim, compadres.
23 Agosto 2026 às 9:22 por Valupi
Do blogue Aspirina B
As ucranetes emocionam-me:
(In RiseUp Portugal, in Facebook, 21/08/2026, Revisão da Estátua)

Chamemos-lhes, por comodidade, «ucranetes»: aquela curiosa espécie de adepto incondicional da Ucrânia e de Zelensky para quem qualquer crítica a Kiev é automaticamente uma defesa da Rússia, qualquer pergunta sobre corrupção é propaganda de Putin e qualquer tentativa de discutir factos exige primeiro uma declaração pública de fidelidade à causa. Antes de mencionar um caso de corrupção em Kiev convém esclarecer que Putin é mau, que a invasão é condenável e, se houver tempo, dizer qualquer coisa sobre a Crimeia. Só depois desta pequena cerimónia de purificação se pode, talvez, perguntar onde foi parar o dinheiro. E mesmo assim há riscos.
Publica-se uma investigação sobre corrupção envolvendo ministros, antigos ministros, responsáveis do gabinete presidencial, amigos e antigos parceiros de Zelensky e aparece inevitavelmente alguém com a objecção que julga definitiva: «E na Rússia?» Sim, na Rússia também há corrupção. Bastante. Há, aliás, corrupção em muitos países. O que continua por explicar é de que maneira a corrupção russa torna irrelevante a corrupção ucraniana. Se estivermos a falar de um assalto em Lisboa, ninguém especialmente lúcido interrompe a conversa para exigir uma posição sobre os carteiristas de Barcelona. Mas a geopolítica parece conceder certas liberdades ao raciocínio que a vida comum não permite.
Mais divertido é quando aparece o comunismo. Critica-se Zelensky e alguém descobre imediatamente uma inclinação comunista no autor da crítica. É uma associação que exige uma relação muito livre com a realidade. Putin é sustentado politicamente pela Rússia Unida, um partido nacionalista, conservador, autoritário, defensor dos chamados valores tradicionais e situado à direita. O Partido Comunista da Federação Russa existe, por acaso, e é outro partido.
Mas isto já obriga a distinguir a Rússia de hoje da União Soviética, coisa que para algumas pessoas parece constituir uma exigência historiográfica excessiva. Rússia é Rússia, portanto comunismo. Putin nasceu na URSS, logo provavelmente passa as noites a estudar Marx entre um jantar com oligarcas multimilionários e um discurso sobre Deus, família, pátria e valores tradicionais.
A ignorância, apesar de tudo, não é o problema mais grave. A ignorância pode corrigir-se. O problema começa quando a ignorância ganha convicção e passa a exigir respeito. É aí que a Ucrânia se torna particularmente interessante. Se a corrupção é russa, demonstra a natureza do regime. Se é ucraniana, deve ser imediatamente acompanhada por uma explicação sobre Putin. Se aparece um homem próximo de Zelensky numa investigação, é um caso isolado. Se aparecem ministros, antigos ministros, altos responsáveis da Presidência, um antigo chefe de gabinete, amigos e um velho parceiro empresarial, continuamos perante vários casos isolados que tiveram apenas o azar de se conhecerem todos. Uma pessoa menos emocionalmente investida talvez começasse a achar curiosa a frequência das coincidências. O adepto prefere aumentar o número de coincidências.
Depois há o dinheiro. Centenas de milhares de milhões em apoio militar, financeiro e humanitário foram mobilizados para a Ucrânia e seria razoável imaginar que perguntar como esse dinheiro é fiscalizado constituísse uma preocupação banal num continente que passa metade do tempo a falar de transparência, controlo da despesa pública e responsabilidade democrática. Mas não. Perguntar pelas contas pode transformar uma pessoa, num instante, em simpatizante de Putin. E quando aparece um caso de corrupção ucraniano, a primeira preocupação das ucranetes é invariavelmente lembrar que na Rússia também há corrupção.O que seria um argumento formidável se os contribuintes europeus estivessem a financiar o Estado russo. Não estão.
E é aqui que a coisa ganha uma beleza especial. Há europeus muito mais indignados com a corrupção praticada com dinheiro que não é deles do que com a possibilidade de corrupção num Estado para o qual seguem centenas de milhares de milhões em dinheiro, armas e recursos pagos, directa ou indirectamente, pelos seus próprios impostos. Ou seja, perante dois corruptos, interessa-lhes sobretudo fiscalizar aquele a quem não deram dinheiro. É uma forma tão extraordinária de zelo pelo erário público que quase merece estudo. Se um vizinho lhes roubar a carteira, talvez chamem a polícia para investigar as contas do homem que vive três ruas abaixo. É preciso ser-se muito especial.
Chegámos assim a uma situação curiosa: as próprias autoridades ucranianas podem investigar corrupção na Ucrânia, fazer buscas, prender suspeitos e acusar altos responsáveis ucranianos, mas um português que mencione essas mesmas investigações arrisca-se a ser acusado de propaganda russa. A NABU investiga em Kiev. A imprensa internacional noticia. Alguém em Portugal reproduz a informação. E há sempre um cérebro particularmente treinado que, depois de percorrer toda esta cadeia, consegue encontrar Putin escondido na publicação portuguesa.
A Rússia pode ser autoritária, corrupta, responsável por uma invasão ilegal e governada por um homem que ninguém é obrigado a admirar. Nada disso altera uma factura falsificada, uma comissão ilegal ou um suborno cometido na Ucrânia. Uma coisa não apaga a outra. Não é uma conclusão particularmente sofisticada. Exige apenas a capacidade de conservar duas ideias na cabeça ao mesmo tempo.
Talvez seja precisamente aí que esteja o problema.
O fanático não começa por perguntar se um facto é verdadeiro. Começa por perguntar a quem esse facto aproveita. Se prejudica o adversário, é informação. Se prejudica o seu lado, é propaganda. Depois procura um russo, um comunista ou qualquer outro culpado suficientemente distante para não ter de discutir aquilo que estava diante dele.
No fundo, o fanatismo político começa exactamente onde acaba a curiosidade: quando saber se é verdade passa a ser menos importante do que saber de que lado está. E há poucas formas de ignorância mais resistentes do que aquela que se julga esclarecida.
Do blogue Estátua de Sal


