O mundial também me entreteve, em parte. Teve jogos memoráveis, com o, mesmo a acabar, insano França-Inglaterra, algumas boas surpresas vindas de África, com Cabo Verde à cabeça, e jogadores com um númerod e golos marcados como há muito não se via. E também desilusões. Portugal inclui-se nelas, mas piores ficaram alguns dos maiores detentores da prova, como o Brasil, Alemanha, Uruguai (quando nem se deu por ele) e a Itália nem conseguiu lá chegar. Em conjunto, perfazem quize vitórias em Mundiais. O estatuto, felizmente, não chega para ganhar.
Não esperava a vitória de Espanha, é certo, iludido com a entrada em falso. Alguns avisaram sabiamente que também em 2010 tinham entrado a perder com a Suíça. A verdade é que só nos dois jogos finais é que mostraram toda a sua qualidade. Nalguns jogos tiveram bastante sorte, por conta de lesões de adversários importantes: aconteceu com Portugal, com a lesão de Nuno Mendes, o melhor jogador das Quinas, ou Courtois, da Bélgica. Mas contra a França dominaram completamente aquela que era a grande favorita à vitória final e o seu diabólico tridente ofensivo. E ontem, contra uma Argentina brigona e provocatória (estou a ser simpático), não se deixaram cair na esparrela e não deixaram Messi e Cia pôr pé em ramo verde. Só a Espanha jogou e procurou a vitória, excepto nos minutos finais do prolongamento. Mereceram o título por estes dois jogos, E atenção que daqui a 4 anos o Mundial é aqui. Aqui na Península e um pouco para lá das Colunas de Hércules, pelo que à partida temos favorito.
Um aspecto importante da vitória de Espanha é ter sido uma equipa europeia a ganhar. Este Mundial teve alguns jogos trepidantes, mas as “americanices”, trazendo conceitos mais próprios da superbowl e do basebol, foram mais que muitas, e viu-se na final com uma espécie de stewards ridículos ao microfone, um intervalo com música que por pouco não durava meia hora e claro, as famigeradas “pausas para hidratação”, um truque publicitário que parece que veio para ficar (também em jogos sem transmissão televisiva?).
E depois as condicionantes políticas, que impediram um árbitro somali de entrar em território americano e exercer a sua tarefa (e perante a indignação africana a UEFA, sagazmente, convidou-o para arbitrar a Supertaça), a selecção iraniana de pernoitar sequer nos EUA, obrigando-a a ir a correr para o México depois de cada jogo, os milhares de adeptos que não puderam entrar – Capdevilla, campeão em 2010, por pouco era impedido de ir à final apenas por ter estado no Irão há dez anos – e até aquela revoltante retirada do cartão vermelho a Balogun, felizmente sem consequências desportivas. Os jogos olímpicos da Antiguidade eram uma trégua sagrada entre as cidades que neles entravam, muitas vezes inimigas. Se um país tem problemas com outro e condiciona os seus nacionais, então que não organize eventos desta envergadura. Até porque estas condicionantes acabam por ter efeitos nas equipas, inquinando os resultados e a classificação. Claro que nada disto afecta o lambe-botas Infantino, que, curvando-se perante Trump, disse que este Mundial tinha sido “o maior evento humano, social e cultural que a Humanidade já testemunhou”. Pobre humanidade.
E uma curiosidade histórica: ao mesmo tempo que La Roja triunfava nos relvados do MetLife Stadium, passavam noventa anos do “Alzamiento” e do início da terrível Guerra Civil. O contraste não podia ser maior: em 19 de Julho de 1936, a guerra, a divisão, o Pais Basco e a Catalunha, entre outros, contra a outra metade. Em 2026, é o contrário: a selecção, com grande número de bascos e catalães, uniu o país.
PS: e já que Espanha está eufórica, podíamos aproveitar enquanto estão tão bem dispostos para lhes pedirmos Olivença de novo. Qualquer coisa como “vá lá, vocês ganharam o Mundial, são os maiores. Dêm-nos só de volta aquele pequeno município da Extremadura. E pode ser para a semana, para eles também festejarem enquanto ainda pertencem a Espanha”.
Não custa tentar. Paulo Rangel que prepare o choradinho
João Pedro Pimenta,
Do blogue Delito de Opinão



