Rádio Freamunde

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domingo, 4 de outubro de 2026

Confesso-me absolutamente saturado do assunto Ronaldo:

Que só subsiste porque há dinheiro envolvido. Embora muitos não percebam, muito dinheiro e muitos interesses.
Da minha parte, chega. Perante um fenómeno - a pessoa e o jogador - com esta dimensão é difícil resumir tudo em 2 ou 3 linhas. Mas encontrei na net, por aí e sem conhecer o autor, um texto que consegue ser uma boa súmula. Espero que seja esta a última vez em que sinta ter de escrever sobre o assunto.
Reza assim:
"Há muito que Ronaldo deixou de ser apenas um problema futebolístico para a Seleção Nacional.
O problema passou a ser tudo aquilo que se construiu à sua volta: o culto, a intocabilidade, a incapacidade de aceitar o declínio e uma legião de pessoas que idolatram a suposta superioridade, que confundiu gratidão com qualidade e passado com presente.
E agora, finalmente, muita coisa começa a ficar exposta.
Já é praticamente oficial que vários jogadores estavam fartos de Ronaldo e de tudo aquilo que a sua presença significava dentro da Seleção. E isso ajuda a perceber melhor a mais recente birra do menino: não jogou, ficou frustrado, chamou o seu jato privado e abandonou a concentração.
Rúben Dias confirmou que Ronaldo estava frustrado no final do jogo com a Noruega por não ter entrado.
E depois veio a mensagem.
No final, desejou boa sorte a todos.
“Sem exceção.”
Quem quiser acreditar que aquela frase foi inocente, que acredite. Para mim, foi ironia pura. Uma última bicada de quem estava claramente incomodado com a situação e com as decisões que estavam a ser tomadas.
A questão, porém, é muito maior do que esta birra.
Durante anos Portugal foi condicionado pela existência de Ronaldo.
Foi por causa dessa obsessão em manter Ronaldo no centro de tudo que deixámos, na minha opinião, escapar a possibilidade de ganhar mais com algumas das melhores gerações de jogadores portugueses de sempre.
Portugal teve e tem jogadores extraordinários. Meio-campos de enorme qualidade, extremos rápidos, jogadores tecnicamente evoluídos e futebolistas capazes de praticar um jogo coletivo moderno.
Mas durante demasiado tempo tudo teve de funcionar à volta de Ronaldo.
Os cruzamentos tinham de procurar Ronaldo.
Os livres eram de Ronaldo.
Os penáltis eram de Ronaldo.
A equipa tinha de adaptar movimentos a Ronaldo.
E, sobretudo, ninguém podia sequer discutir se Ronaldo ainda devia jogar.
Esse foi o maior erro.
Criou-se uma espécie de imunidade futebolística.
Quem dissesse que Ronaldo já não tinha intensidade para pressionar, que prejudicava determinados movimentos coletivos ou que Portugal podia jogar melhor sem ele era imediatamente acusado de ingratidão.
Como se futebol fosse um prémio de carreira.
Como se a Seleção tivesse obrigação de pagar eternamente uma dívida ao jogador.
Não tem.
A Seleção Nacional existe para colocar em campo os melhores jogadores naquele momento, dentro da melhor ideia coletiva possível.
Não existe para fazer homenagens.
Também é preciso acabar com outro mito: Portugal não ganhou o Euro 2016 por causa de Cristiano Ronaldo.
Ronaldo foi importante? Como
Tantos outros. Não foi decisivo.
Até porque os jogos foram Todos horríveis,
Fomos os
Reis dos
Empates.
Mas transformar aquela conquista numa vitória pessoal de Ronaldo é uma enorme falsificação da história.
Naquele Europeu houve jogadores absolutamente decisivos.
Pepe foi monstruoso.
Rui Patrício foi decisivo.
Nani fez um enorme torneio.
E Renato Sanches teve maior importância naquele percurso do que Ronaldo. Sendo o melhor.
Na própria final Ronaldo saiu lesionado muito cedo.
E Portugal ganhou.
Sem Ronaldo em campo.
Foi Éder que marcou.
Foi o coletivo que resistiu.
Foi Portugal que ganhou.
Isto incomoda muita gente porque durante anos se vendeu a ideia de que Portugal devia tudo a Ronaldo.
Não deve.
Portugal deu muito a Ronaldo e Ronaldo deu muito a Portugal.
Foi uma relação extraordinária durante muitos anos.
Mas houve um momento em que essa relação deixou de ser saudável do ponto de vista desportivo.
E muitos recusaram-se a perceber.
Grande parte dos bajuladores, que se calhar pouco ou nada percebem de futebol, continuaram a defender a titularidade de Ronaldo como se estivessem a defender uma questão religiosa.
Pouco interessava o rendimento.
Pouco interessava a idade.
Pouco interessava a dinâmica da equipa.
Pouco interessava se havia jogadores melhores para aquele momento.
Ronaldo tinha de jogar porque era Ronaldo.
Escrevi isso várias vezes.
E continuaria a escrevê-lo.
Gratidão não é qualidade.
História não é rendimento.
Respeito não é titularidade obrigatória.
Ronaldo foi um dos maiores jogadores da história do futebol.
Isso ninguém lhe tira.
O que fez no Manchester United, no Real Madrid e durante muitos anos na Seleção coloca-o num patamar reservado a pouquíssimos.
Mas ser um jogador extraordinário não transforma automaticamente ninguém num exemplo enquanto ser humano.
E, para mim, Ronaldo mostrou demasiadas vezes um lado profundamente desagradável.
Não apenas neste episódio.
Foram vários.
A permanente necessidade de protagonismo, algumas atitudes com colegas, reações quando é substituído ou não joga, a incapacidade evidente de lidar com a perda de importância e agora mais este episódio.
É triste.
Sobretudo porque não precisava de acabar assim.
Podia ter terminado a carreira internacional com enorme dignidade.
Podia ter percebido que chegou a hora de outros.
Podia ter sido o veterano que ajuda.
O capitão que aconselha.
O jogador histórico que aceita ficar no banco e entra quando a equipa precisa.
Podia ter passado o testemunho.
Preferiu continuar a lutar contra o tempo.
E ninguém ganha essa batalha.
Nem Cristiano Ronaldo.
O mais triste é que provavelmente ficará durante muitos anos uma divisão absurda entre quem consegue separar o jogador da pessoa e quem continuará a defender tudo aquilo que faça.
Eu consigo separar perfeitamente.
Como jogador, foi monstruoso.
Um dos maiores de sempre.
Como figura pública e como exemplo, para mim, está muito longe da imagem que tantos tentaram construir. Para não dizer outras palavras. Só tem olhos para o seu umbigo.
Na minha maneira de ver o que é estar em grupo, jamais seria capitão de equipa. Não tem o perfil.
E não tenho qualquer problema em dizê-lo.
Que fique agora a viver na Arábia Saudita, país onde escolheu continuar a carreira e onde milhões de pessoas continuam sem liberdades e direitos que nós, na Europa, consideramos elementares.
É também uma escolha sua.
Da minha parte, guardarei aquilo que fez dentro de campo nos melhores anos.
Os golos.
As noites europeias.
Os recordes.
As grandes exibições por Portugal.
Mas não confundirei nunca admiração pelo futebolista com veneração pelo homem.
Cristiano Ronaldo foi um gigante do futebol.
Mas a Seleção Nacional nunca foi dele.
Foi, é e será sempre de Portugal.
E talvez finalmente estejamos a perceber aquilo que devíamos ter percebido há vários anos:
nenhum jogador, por maior que tenha sido, pode estar acima da equipa."

(Publicação partilhada

João Paulo Sousa  

sábado, 3 de outubro de 2026

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Ronaldo, se és decente, mata o culto já:

Aquelas pessoas que foram ao aeroporto assobiar a selecção e o seu treinador após um magnífico jogo e uma bela vitória contra a Dinamarca, e que andaram a espalhar cartazes “solidários” e laudatórios em Oeiras, parecem-me ser do mesmo calibre que os apoiantes do Trump. Estúpidos, ridículos e prestes a integrarem um culto.

A postura de vítima que o Ronaldo decidiu assumir é também ridícula e deu azo a que tal pudesse acontecer. Há muito que já não é o melhor futebolista do mundo e que não acrescenta qualquer valor produtivo à selecção. Há demasiado tempo que quer que a selecção esteja ao serviço do seu ego, apesar das juras de amor a Portugal e à camisola.

Por que razão se dispôs a integrar a selecção sabendo que não iria jogar tanto quanto gostaria correndo o risco de birra e crise é um mistério. Provavelmente, entendeu que, uma vez lá dentro, condicionaria as escolhas (como aconteceu com Martínez). E Jorge Jesus esteve quase a ser condicionado chegando a prometer-lhe que entraria naquele jogo em que não era suposto jogar. Mas a táctica frustrou-se. Depois, quis rebaixar o treinador obrigando-o a um pedido público de desculpas por ter posto o desempenho da equipa à frente da entrada em campo dele próprio. Também não conseguiu. Nunca tal aconteceria. Foi-se embora furioso nem lhe ocorrendo que o melhor era nem sequer ter ido, pois não iria ter nem desempenho nem tempo de jogo dignos da vedeta que pensava ser.

Mas enfim, já toda a gente percebeu o psicodrama. Há agora uma boa maneira de o Ronaldo mostrar que tem carácter e de sair um pouco melhor deste caso: apelar aos seus admiradores mais fanatizados que respeitem e apoiem os colegas da selecção e o trabalho do treinador, porque isso é o mais importante. Se não, triste legado que deixa.

por Penélope

Do blogue Aspirina B

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ventos Semeados: Lição de ética, com casa própria por explicar

Ventos Semeados: Lição de ética, com casa própria por explicar:   Há discursos que só ganham sentido completo quando se sabe onde foram proferidos. Luís Montenegro foi a uma escola falar sobre ética, inte...

Eu não gosto de Ronaldo:

E não preciso de gostar para reconhecer que foi um jogador extraordinário.
Teve uma capacidade de trabalho brutal, uma ambição enorme e construiu uma carreira que ficará na história do futebol. Reconheço isso sem dificuldade.
Mas Ronaldo não é maior do que ninguém. Não é maior do que eu, nem do que tu. Muito menos maior do que Portugal.
Uma coisa é a grandeza de um jogador. Outra é a dimensão humana de uma pessoa.
Ronaldo tem uma obsessão enorme pelo sucesso, pelos números, pelos recordes, por ser o melhor, por continuar a ser o melhor. Essa ambição foi uma das forças que o levou tão longe. Mas também faz parte daquilo que eu critico nele: esta necessidade permanente de afirmação, de reconhecimento, de estar no centro.
Há ainda outra dimensão que não separo da figura pública que se tornou: a do milionário, do luxo, da excentricidade, das escolhas e das companhias que fazem parte desse mundo.
Mas o que mais me incomoda é a forma como nós próprios construímos os ídolos.
Olhamos para quem venceu, para quem chegou ao topo, para quem acumulou dinheiro, fama e reconhecimento, e começamos a colocá-lo acima dos outros.
E quando alguém rompe essa unanimidade, a crítica deixa de ser discutida e passa a ser desvalorizada, rebaixada, com meia dúzia de rótulos.
Passamos a invejosos, ressabiados, com dor de cotovelo.
É uma forma cómoda de proteger o ídolo, mas extremamente ofensiva para quem recebe esses rótulos.
Eu não tenho inveja de Ronaldo. Não quero o dinheiro dele, a fama dele, os carros dele, o avião privado dele, as casas dele ou a vida dele.
Podem pensar o que quiserem, podem desconfiar de mim, mas detesto essa ostentação, essa forma de estar na vida.
Não gostar de alguém não é inveja.
E reconhecer um grande jogador não me obriga a admirar o homem.
Ronaldo pode ter sido um dos maiores jogadores da história, mas não está imune à crítica. É uma pessoa como qualquer outra.
É isso que me parece tão difícil de aceitar quando se transforma alguém num ídolo: começamos a confundir admiração com fidelidade.
Olhamos para os vencedores como se fossem maiores.
Quem tem mais dinheiro parece valer mais. Quem tem mais títulos parece valer mais. Quem tem mais fama parece valer mais.
Mais. Muito. Cada vez mais.
Eu não aceito essa medida de valor.
Porque Ronaldo não fez tudo sozinho. Ninguém faz.
Houve colegas, treinadores, equipas, família, profissionais, adversários. Houve uma Seleção. Houve Portugal.
O talento era dele. O trabalho era dele. A carreira era dele.
Mas a história não foi feita por ele sozinho.
E isso não lhe tira grandeza nenhuma.
Para mim, a verdadeira grandeza está em reconhecer os outros. Em saber que precisamos dos outros. Em não confundir sucesso com superioridade.
Para mim, os verdadeiros heróis são, particularmente, estes:
Aquela mulher que acorda às sete da manhã, prepara os filhos, vai trabalhar, os leva ou vai buscar à creche, chega a casa cansada, faz o jantar, trata da roupa e no dia seguinte começa tudo outra vez.
Aquele homem que trabalha uma vida inteira sem nunca ter uma fotografia num jornal.
A enfermeira, o professor, o operário, o motorista, o agricultor, o médico, o bombeiro.
Gente que não tem milhões, troféus ou estádios a gritar o seu nome.
Mas que todos os dias segura uma parte da vida dos outros.
Essa gente não vale menos.
Ronaldo foi enorme no futebol.
Mas não é maior do que eu.
Não é maior do que tu.

E muito menos é maior do que Portugal.

Fernando Marques  

O mito de Narciso:

Conta a história de um jovem belo que, ao rejeitar aqueles que o amavam, se apaixonou pelo próprio reflexo em um lago, permanecendo obcecado até a morte, o que originou a flor narciso como símbolo de vaidade. A lição principal do mito é o alerta contra o amor-próprio desmedido, que pode isolar as pessoas e levá-las à ruína, ressaltando a importância das conexões humanas e da empatia.

Narciso foi amaldiçoado pela deusa Nêmesis, que o puniu por seu desprezo ao fazer com que se apaixonasse por algo inatingível, seu próprio reflexo, como castigo por sua arrogância. O conceito de narcisismo, derivado do mito, reflete essa autoimagem inflada e a falta de empatia, sendo estudado na psicologia como transtorno de personalidade narcisista.

AquilaRubra