Rádio Freamunde

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A multinacional do genocídio:

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 12/02/2026, revisão da Estátua)

Apesar de se comprometer com o acordo de cessar-fogo, Israel faz o que sempre fez: viola-o diariamente, agora sem que os holofotes mediáticos incidam sobre a barbárie.

Israel, como é próprio da sua inspiração, criação e existência, é um Estado abençoado. Como estava a sentir dificuldades operacionais, logísticas e financeiras para concretizar o principal objectivo do sionismo, o extermínio do povo palestiniano, veio em seu socorro uma espécie de coligação internacional, chefiada pelo inevitável Donald Trump, para receber um novo impulso nessa tarefa. Com a vantagem de as acções para continuação do genocídio não aparecerem como um crime, mas sim como uma brilhante solução, aos olhos da opinião pública internacional.

«Nova Gaza», chama-se o milagre, apresentado como uma espécie de início da aplicação do não menos extremoso «Plano Trump» em 20 pontos, por sua vez interpretado como o caminho para o cessar-fogo em Gaza, uma coisa que não aconteceu nem está em vias de acontecer.

No terreno há duas razões que impedem o cessar-fogo de que a comunicação social globalista fala como se existisse para evitar falar de Gaza e apagar das memórias efémeras do cidadão comum os horrores da matança que durante semanas revelaram a essência criminosa do sionismo. Em primeiro lugar, apesar de se comprometer com o acordo de cessar-fogo, Israel faz o que sempre fez: viola-o diariamente, agora sem que os holofotes mediáticos incidam sobre a barbárie. Em segundo lugar, a Resistência armada Palestiniana, erradamente designada como «o Hamas», não esteve de acordo com os termos do cessar-fogo, porque impunha a sua desmilitarização unilateral. O que implicava deixar o povo palestiniano, não só de Gaza mas também da Cisjordânia e de Jerusalém Leste, à mercê da sede de sangue dos militares e do governo de Israel.

Construir a casa pelo tecto

A existência de um cessar-fogo em Gaza é a condição indispensável para que possa avançar-se no caminho da pacificação e da reconstrução do território, mesmo segundo as fórmulas maravilhosas engendradas por Trump e a sua administração sionista, de mãos dadas com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

De modo que a divulgação recente do projecto «Nova Gaza», desdobrado em «Nova Gaza» e «Nova Rafah», as duas principais cidades do território, equivale a iniciar a construção de uma casa – «a paz», como lhe chamam os autores – pelo telhado. É uma idealização no abstracto, mas diz tudo o que tencionam fazer os Estados Unidos, Israel e todos os países e organizações que vão aderindo à megalomania genocida.

Não existem razões para hesitar em qualificar estas manobras como genocidas.

Os projectos apresentados por Trump têm como objectivo declarado «a reconstrução urbanística e económica da Faixa de Gaza, criação de emprego através do desenvolvimento turístico e a implantação de serviços tecnológicos.

No essencial, a «Nova Gaza» é uma versão retocada da anunciada transformação do território num imenso resort turístico, ideia que surge fundida, sem grande cuidado, no todo designado «reabilitação urbana».

Nem é preciso analisar em pormenor os planos de Trump para se perceber que a exploração turística da paradisíaca costa mediterrânica do território através de empreendimentos de grande luxo é o núcleo central transformações pretendidas para o território, funcionando todas as outras áreas de desenvolvimento como estruturas de apoio ao turismo.

O plano de Trump confirma essa interpretação porque prevê expressamente «um grande desenvolvimento costeiro com arranha-céus, no âmbito da criação de um resort do tipo Dubai».

Esqueceram-se dos palestinianos

Quem vai supervisionar este mirífico «processo de reconstrução» sobre um território com dois milhões de habitantes sob o qual jazem dezenas de milhares de seres humanos exterminados para concretizar o plano genocida do sionismo?

O plano prevê a criação de um «Conselho de Paz» com esse objectivo, uma entidade internacional «liderada pelos Estados Unidos». O papel executivo será desempenhado por uma equipa de «tecnocratas palestinianos», sob o controlo do «Conselho de Paz» e de «forças militares internacionais». Ninguém sabe quem são nem qual a origem dos «tecnocratas palestinianos», uma formulação que tem surgido de maneira recorrente ao longo de décadas e que traduz a busca incessante por Israel de traidores e colaboracionistas dizendo-se palestinianos e que nada têm a ver com as estruturas representativas do povo palestiniano. Essa procura tem sido um fracasso, mas ignora-se que cartas têm na manga Trump e os seus conselheiros indigitados para o «Conselho de Paz», designadamente o genro, o sionista Jared Kushner: o seu caixeiro viajante preferido nos «processos de negociações», de compras, invasões, detenção de dirigentes estrangeiros e anexações, Steve Witkoff .

Do blogue Estátua de Sal  

Respeitinho no tempo dos bits:

 

Imagem gerada com Google Nano Banana

Estive a divertir-me um pouco com a IA da Google à conta de um assunto sério.

“Se Trump mija, Ventura abre a boca à espera que chova.”

Esta caricatura que o Gemini fez, sendo bastante gráfica, até é uma boa metáfora para a forma de actuar dos populistas caseiros. Se dividir e mentir funciona bem lá, porque não repetir cá? Bem apanhado, Gemini.

O tema sério é referente à actuação do ICE, em particular sobre as ordens que esta polícia persecutória tem dado às Big Tech para identificarem os donos de contas nas redes sociais onde se desmascara a identidade dos seus agentes. E sobre como estas empresas passam por cima das famosas emendas constitucionais que garantiam a liberdade de expressão.

Registe-se a ironia quanto a uma polícia que, agindo na cobardia da cara tapada, persegue quem escreva sob anonimato.

Voltando à boca gerada pela AI do Google, esperemos que a próstata de Trump não lhe permita urinar em quantidade suficiente que inspire aspirantes a ditadores de trazer por casa.

15/02/2026 by 

Do blogue Aventar 

Liberais no lucro, socialistas no prejuízo:

(Tiago Franco, in Facebook, 14/02/2026, Revisão da Estátua)

Raramente me sento em frente à televisão mas a esta hora, a preguiça ainda bate, o café não desceu e a lenha pode esperar. De modo que estou há uma hora a fazer zapping e a ouvir pessoas desesperadas, privados, autarcas e empresários, que pedem ajuda estatal para cobrir prejuízos e restabelecer a normalidade.

Não tenho qualquer dúvida do papel do Estado numa crise até porque, lá está, eu faço parte do grupo minoritário que defende uma sociedade onde a coesão social e a solidariedade se fazem a partir da gestão de dinheiros públicos, mais conhecidos como impostos. Se, em Portugal, os impostos revertem na ordem de grandeza necessária para as populações, isso é que é todo um debate mais interessante e que, por razões de agenda, não vamos ter aqui hoje. Fica para o próximo texto.

O que me traz aqui é uma dúvida legítima e uma pergunta não retórica. “Para que servem os seguros?” Confesso que não sei mesmo a resposta.

Depois de ter que lidar com bots que me julgavam um profundo avençado do PS, espero agora não ter que aturar outros que me imaginem um acionista da Spinumviva (se bem que seria um PPR interessante, admito).

Voaram telhados de fábricas, partiram-se telhas de habitações, racharam-se estradas, caíram antenas de telecomunicações e destruíram-se redes de eletricidade.

Todos somos obrigados a ter seguro nas casas que compramos (com empréstimo, camaradas, calma agentes de seguros em fúria). Querendo ou não, há uma imposição legal que temos que cumprir e um custo que carregamos para a vida.

As fábricas, imagino, não operam sem seguros.

As autoestradas, são dadas para exploração de empresas privadas com os utilizadores a serem extorquidos diariamente nas portagens. E sim, extorquir é o verbo adequado, tal o preço das portagens portuguesas. E em alguns casos, o governo ainda paga uma multa se o número de carros nas portagens não atingir um mínimo, contratualmente estabelecido.

A rede elétrica é explorada por uma empresa privada e paga, pelos utilizadores, a um dos preços mais altos da Europa.

As comunicações também são exploradas por privados, a preços afastados da realidade nacional e com regras de fidelização absurdas que nos prendem, mesmo quando não queremos.

Contudo, quando algo falha e quando é preciso usar lucros para cobrir gastos não esperados, lá tem que aparecer o Estado a pagar a “ocorrência extrema”.

Os seguros baldam-se porque não podem ser ativados em eventos climáticos. As parcerias público-privadas (PPPs) puxam do contrato que, resumido, diz que o lucro é privado e o prejuízo é público e os privados que controlam os monopólios da energia e das comunicações, metem os CEOs, antigos ministros, a puxar pelos apoios.

Se um seguro não serve para momentos destes porque é que nos obrigam a pagar aquela merda todos os meses? Em 25 anos acho que só paguei seguros e nunca os usei.

Cumprimos regras e mais regras quando compramos casas ou iniciamos atividades empresariais. Pagamos impostos até rebentar. Assistimos à venda a retalho do país, de todos os seus sectores estratégicos, aos privados. Neste caso, convém dar o mérito aos governos do PSD que adoram privatizar tudo o que mexe.

Mas quando dá merda, quando alguma coisa rebenta, quando um telhado voa, quando uma antena cai…toca de pedir ajuda aos impostos.

Para que serve um seguro que é obrigatório?

Para que serve uma PPP se contribuímos para o lucro e pagamos os prejuízos?

Para que servem os absurdos impostos enfiados na fatura da EDP ou as fidelizações idiotas das operadoras?

Tenho genuína curiosidade para saber quem vai pagar o arranjo da A1.

Até a Mariana Leitão me aparece aqui, de quispo no meio do zapping, a pedir ajuda ao governo para arranjar telhados, estradas e geradores.

Meus amigos, sou todo a favor de um estado social, impostos altos, distribuição justa da riqueza gerada e segurança para as populações. Agora, isto de sermos liberais para o lucro e socialistas para o prejuízo, é coisa para aborrecer.

Devo ser por isto que não vejo muita televisão, a não ser que o Pavlidis me apareça bem vestido.

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P.S. – Há sempre um post scriptum nestes textos, não é? Malta das seguradoras…calma. Respirem. Relaxem. Vocês são apenas funcionários, os lucros das “então e não leu aquela alínea?” vão para os acionistas e não para o vosso subsídio de natal. É só um emprego, não precisam de rasgar as vestes.

Do blogue Estátua de Sal 

Dois navios. Oitocentas toneladas de alimentos, leite em pó, itens básicos:

Enquanto os Estados Unidos endurecem restrições e apertam o cerco econômico, outro país latino-americano atravessa o mar com solidariedade concreta. Não é discurso. Não é conferência. É carga descarregada no porto de Havana. É arroz, feijão, óleo, leite. É sobrevivência.

O gesto do México expõe algo que muitos fingem não ver. Quando as sanções apertam, quem sofre não é o governo que está nos palácios. É o povo que está nas filas. Cuba vive uma crise energética severa, dificuldades de abastecimento e um isolamento financeiro que se arrasta há décadas. E cada nova medida imposta por Washington não “corrige regime”, ela pressiona uma sociedade inteira que já opera no limite.
A ajuda mexicana também envia um recado geopolítico silencioso, mas poderoso. A América Latina começa a agir como bloco solidário, não como quintal de ninguém. Em vez de aderir automaticamente à lógica de punição, escolhe cooperação. Em vez de ampliar o isolamento, oferece ponte. E isso muda o tabuleiro. Porque quando um país decide não seguir a cartilha de sanções, ele enfraquece a narrativa de que o cerco é consenso internacional.
Os Estados Unidos acreditam que pressão contínua produz mudança política. Mas a história recente mostra outra coisa: produz resistência, realinhamentos e novas alianças regionais. Se Cuba encontra oxigênio no México hoje, amanhã pode encontrar em outros parceiros. E cada navio que chega a Havana não é apenas ajuda humanitária. É símbolo de que o mundo não gira em torno de uma única capital.
No meio da crise, a imagem é clara. Enquanto uns apertam, outros estendem a mão. E isso, gostem ou não, redefine quem está construindo influência real na região.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Não é a democracia, é o petróleo!

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 12/02/2026)


A experiência de junho de 2025 e janeiro de 2026 já devia ter levado a perceber a ausência de sentido de uma intervenção militar estrangeira para provocar uma mudança de regime no Irão. A mudança tem de vir de dentro.


O ataque israelo-americano, em junho de 2025, ao Irão e as recentes ameaças norte-americanas de decapitar o regime iraniano, não passam de mais um capítulo de uma longa série de peripécias iniciadas, em 1979, quando o Xá Reza Pahlavi foi deposto pela revolução islâmica, e instaurado o regime dos aiatolas.

As autoridades norte-americanas têm disfarçado os motivos dos seus intentos. Oficialmente, as suas ações são beneméritas e visam promover a democracia, a libertação dos iranianos de um poder opressor e maléfico e, assim, altruisticamente, trazerem-lhes a paz e o progresso. Têm contado nesta campanha messiânica com o apoio de múltiplas caixas de ressonância na Comunicação Social, que, de uma forma mais ou menos voluntária, se tem prestado a difundir e a amplificar o logro.

O regime iraniano sofre de vários problemas, sobejamente conhecidos, cuja resolução terá de ser encontrada pelos próprios iranianos, não por Washington, Telavive ou por qualquer outra entidade estrangeira. Afegãos, iraquianos, líbios e sírios, entre outros, sabem do que falo.

A cruzada, acicatada por Telavive, não visa libertar o povo iraniano do jugo opressor dos aiatolas. O objetivo é bem mais pragmático: colocar no poder alguém manipulável que facilite a Washington e a Telavive a concretização dos seus desígnios estratégicos e económicos.

O problema deixaria de estar no regime, se os recursos minerais do país fossem privatizados e entregues à exploração de companhias norte-americanas. Washington viverá muito bem com isso, como viveu no tempo do Xá, de cuja polícia política os mais velhos ainda se recordam e têm bem presente.

Os aiatolas cometeram o “erro” de nacionalizar as empresas petrolíferas estrangeiras que operam no Irão. Deviam ter aprendido com Mohammed Mossadeq, o primeiro-ministro iraniano eleito democraticamente e deposto, em 1953, por um golpe de estado patrocinado pelo MI6 e pela CIA, por ter cometido o “horrível crime” de privatizar as empresas petrolíferas estrangeiras.

Não terá sido a incomodidade com o regime político em Bagdade que levou Washington a financiar a guerra de oito anos, de Sadam Hussein contra o Irão, e a fornecer-lhe armas químicas. Como não terá sido, também, a incomodidade com o regime dos aiatolas que levou elementos próximos da Administração do presidente Ronald Reagan a vender-lhes – secretamente – equipamento militar para financiar os “Contra”, na Nicarágua.

Como também não terá sido o desconforto com o regime que levou os EUA a colaborar intensamente, e com grande proximidade, com Teerão para derrubar os Talibã, em 2001. Como também não houve embaraço e falta de pruridos por parte do presidente George Bush para classificar Teerão, em 29 de janeiro de 2002, como pertencendo ao “Eixo do Mal”, e passados alguns meses lhe pedir novamente ajuda no planeamento da operação militar que levou ao derrube de Saddam Hussein, em 2003, o mesmo que tinha ajudado na década de oitenta do século XX contra o Irão. Apesar de receosa – presença de contingentes norte-americanos significativos nas suas fronteiras Oeste e Leste – Teerão lá teve de ceder, temendo uma retaliação pela sua “ousada” desobediência.

Camuflar as suas verdadeiras intenções com o programa nuclear não passa de engodo para tolos. O Irão cumpria rigorosamente o acordado no Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), conhecido como “acordo nuclear iraniano”, em 2015, quando os EUA o abandonaram unilateralmente, em 2018, durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump, o que mostrou a Teerão que o cumprimento integral do Plano e a cooperação sem precedentes com a Agência Internacional de Energia Atómica, não eram suficientes para garantir a sua segurança.

Particularmente exasperante é o facto de existirem soluções para o “problema nuclear” iraniano e todos saberem quais são: a empresa nuclear estatal da Rússia, Rosatom, mostrou disponibilidade para assumir a gestão e a supervisão do enriquecimento limitado de urânio iraniano destinado a fins não militares, no Irão, assegurando que o enriquecimento permanece dentro dos limites (3,6%); ou, a criação de um consórcio de enriquecimento de urânio que envolva o Irão, a Turquia, o Egito, a Arábia Saudita, os Estados árabes do Golfo Pérsico e as principais potências globais. Este segundo modelo tem ainda a vantagem de permitir ultrapassar as preocupações existentes quanto à proliferação nuclear na região, salvaguardando ao mesmo tempo o acesso igualitário à tecnologia nuclear para fins pacíficos. Nenhuma destas soluções, ou quaisquer outras, interessa a Washington, uma vez que não pretende resolver o “problema”. A sua resolução esvaziar-lhe-ia o pretexto para a ação militar, que Telavive tanto anseia.

E agora?

Têm sido muitas as iniciativas diplomáticas, em particular as regionais, para convencer Trump a não se envolver numa guerra com o Irão. Excluem-se deste leque as de sinal contrário, promovidas por Israel e pelo bloco sionista em Washington, instalado na Administração e no establishment político norte-americano.

Para conversar com Teerão, Washington apresentou três exigências fundamentais. O Irão tinha de abandonar o seu programa nuclear, reduzir as suas forças de mísseis (em alcance e em número) e deixar de apoiar os seus proxies, um ultimato frontalmente rejeitado. Contrariando Washington, Teerão resistiu às ameaças norte-americanas e mostrou-se disponível para falar apenas sobre um ponto: o programa nuclear, o enriquecimento de urânio e o potencial levantamento de sanções. Os EUA cederam na agenda e delegações dos dois países encontraram-se em Omã, sob mediação do ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, no dia 6 de fevereiro, em Mascate. Acordaram em continuar a negociar, o que significa ausência de progressos. A inclusão do programa nuclear na agenda da reunião vem comprovar a farsa que foi o ataque às instalações nucleares iranianas em Fordow. Ao contrário do alardeado por Trump, o programa nuclear iraniano não foi “completa e totalmente destruído”. A ter sido, não faria sentido considerá-lo agora um tema a negociar.

À última hora, os EUA introduziram na agenda a interrupção do fornecimento de petróleo à China. Algumas horas após o fim da reunião, Trump assinou uma ordem executiva em que os Estados Unidos imporiam tarifas de 25% a qualquer país que fizesse negócios com o Irão. É difícil ver como é que vão impor essa decisão à China ou à Índia.

Trump encontra-se sob uma enorme pressão política. Paradoxalmente, o Irão encontra-se numa posição vantajosa à mesa das negociações. As hipóteses de uma vitória militar norte-americana sobre o Irão não são risonhas. Relembramos a “vitória” de Washington contra os Houtis, do Iémen, em março-maio de 2025. Acabariam por retirar após sete semanas de bombardeamentos, a perda de três caças F-18, de sete drones MQ-9 Reaper, e o porta-aviões Eisenhower danificado.

Assistimos, entretanto, a uma alteração significativa do discurso de Teerão relativamente a um novo ataque dos Estados Unidos. O Irão parece não se sentir ameaçado. Desta vez, a resposta não será simbólica; será imediata, total e sem precedentes, dando crédito às autoridades iranianas. A resposta concentrar-se-á em Israel, visando o coração de Telavive, de modo a quebrar a sua capacidade de dissuasão e a expor a ilusão de invulnerabilidade do território israelita, já afetada na guerra de junho de 2025, apesar das tentativas para o encobrir.

Um ataque norte-americano “limitado” tornou-se uma ilusão. Teerão sabe que os EUA aguentam um combate intenso, mas que terá de ser de curta duração. Correm riscos elevados numa guerra de atrição prolongada. Ao que se acrescenta o facto de os Estados Unidos não poderem usar os aliados regionais como plataforma de lançamento para atacar o Irão, por aqueles terem proibido as aeronaves norte-americanas de sobrevoarem o seu espaço aéreo.

Não se está a menosprezar o brutal poder de fogo e capacidade militar norte-americana, mas tão somente a interrogar se será suficiente para incapacitar uma grande potência militar como o Irão e evitar retaliações. Sem esquecer que a televisão iraniana mostrou um vídeo com o sobrevoo do porta-aviões Abraham Lincoln por um drone iraniano. Sem omitir a não desprezível capacidade iraniana em mísseis balísticos, de cruzeiro e hipersónicos, capazes de atingir bases americanas no Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e locais na Jordânia e Omã, assim como derrubar os navios e o porta-aviões norte-americano.

Nos últimos seis meses, o Irão tem-se preparado intensamente para esta guerra que está para acontecer, tendo conseguido restaurar a produção em larga escala de mísseis, as infraestruturas subterrâneas foram aumentadas e há rumores de terem sido testados novos mísseis e armas. A decisão de Trump em atacar deverá também levar em conta o recente pacto estratégico assinado entre o Irão, a China e a Rússia, e o facto de Pequim ter deslocado para o Irão radares com capacidade para identificar aeronaves furtivas, como os F-35 e os B-2. Os EUA terão de enfrentar a tecnologia chinesa, o que aumenta significativamente o risco da aventura militar e as consequências catastróficas de um desaire.

Perante todos estes desafios interrogamo-nos qual a margem de manobra para Trump voltar para trás. Segundo um parlamentar iraniano, antes das negociações em Abu Dhabi, Trump teria enviado, através de um país intermediário, uma mensagem ao Irão propondo uma fórmula semelhante à de junho de 2025: “Deixem-me atingir 2 locais no Irão – vocês respondem, e depois acaba tudo.” Parece que os iranianos desta vez não estarão pelos ajustes.

Contrariando tudo o que parece razoável e incorrendo num erro grave de análise, assistimos a uma notável corrente de comentários em apoio da escalada militar, considerando-a o meio capaz de acelerar o colapso do regime e de provocar a sua implosão. O Irão está longe de ser a Líbia ou a Venezuela. A experiência de junho de 2025 e janeiro de 2026 já devia ter levado a perceber a ausência de sentido de uma intervenção militar estrangeira para provocar uma mudança de regime no Irão.

A mudança no Irão tem de vir de dentro. É sabido que nem americanos nem israelitas têm alternativas no terreno para colocar no poder. Não apareceu até agora nenhum Gorbachev no Irão. O pretendente ao trono Reza Pahlavi, cuja filha se casou com um judeu, não passa de um fantoche. Nem Washington lhe reconhece utilidade. Ainda é tempo para Trump reconsiderar e evitar males maiores, para ele e para todos nós.

Do blogue Estátua de Sal 

Dominguice:

Sócrates cometeu algum crime de corrupção? Ninguém sabe, a começar pelos investigadores no Ministério Público do mais importante e mais complexo (mais caro?) processo judicial em Portugal. Porém, é tratado por magistrados, políticos, jornalistas, comentadeiros e pessoas simples e boazinhas como se tivesse sido condenado por isso, a sentença já tivesse transitado em julgado e, acima e antes de tudo, como se alguém desta gente de milhões conseguisse provar onde, e como e para quê ocorreu a tal corrupção. Entretanto, uma área do Estado onde há frequentes buscas das autoridades por suspeitas de corrupção dá pelo nome de Forças Armadas. Tancos pode ser convocado para esta conversa, dado o retrato de portas abertas com que ficámos a respeito das instalações militares em Portugal, e os submarinos do Portas também, pese o próprio ter garantido que fumo sem fogo é quanto basta para abrir o champanhe. Todavia, dá ideia que os militares, envolvendo altas patentes que chegam aos generais, têm maior apetência pelos contratos com fornecedores para irem conseguindo vencer a batalha da produção. No caso, da produção de subornos que esses militares amealham para fazerem frente às vicissitudes de uma vida na linha da frente a dar o coiro pela defesa da Pátria.

Os especialistas em corrupção que ganham bom dinheiro com o Sócrates não têm interesse em falar destes casos de caserna. Percebe-se porquê: correm o risco de pisar nalguma mina.

Do blogue Aspirina B

O gourmet da vichyssoise e o país que já não tem paciência para sopas frias:

(Luís Rocha, in Facebook, 12/02/2026, Revisão da Estátua)

Ana Abrunhosa, Presidente da Càmara de Coimbra

(A Estátua não resiste a sublinhar a assertividade política e a qualidade literária deste texto. Parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 12/02/2026)


Há políticos que governam. Há políticos que trabalham. E depois há os que degustam. Marcelo Rebelo de Sousa pertence a esta última categoria. O gourmet da vichyssoise institucional, o homem que passou dez anos a provar a temperatura da sopa da República, soprando dramaticamente para as câmaras, comentando a textura democrática do caldo e explicando, com aquele ar de professor que já corrigiu mil testes, que talvez faltasse um pouco mais de sal narcisista.

Durante anos, foi o chef mediático de Belém. Selfies como amuse-bouche, abraços como entrada, comentários omnipresentes como prato principal. De sobremesa um afecto servido morno, sempre fotogénico, sempre pronto a ser partilhado nas redes sociais como quem publica a fotografia de uma sopa artesanal com hashtag # Instituições.

E no entanto, eis que chegamos ao fim do serviço e o crítico gastronómico chamado “opinião pública” decidiu deixar a crítica no Tripadvisor democrático e a popularidade caiu para níveis que já não lembram estrela Michelin, mas antes cantina de repartição pública às quatro da tarde. As sondagens do segundo mandato mostraram uma descida clara, avaliações negativas a crescer, a aura consensual a evaporar como vapor na panela esquecida no fogão. O chef continuava a explicar a receita, mas o público já tinha perdido o apetite.

Recordemos aquele momento sublime em que, qual sommelier da execução orçamental, decidiu repreender publicamente Ana Abrunhosa, então Ministra da Coesão Territorial, com a delicadeza de quem prova um creme e anuncia em voz alta: “Se isto não estiver à altura, não lhe perdoo”. A frase ecoou com aquele tempero clássico de vaidade televisiva. Não bastava alertar, era preciso fazê-lo em direto, com pose, colher na mão e sobrancelha arqueada. Um toque de pimenta mediática para reforçar o sabor da autoridade.

Ora o destino tem sentido de humor. Anos depois, quem termina o mandato com o travo amargo não é a ministra, agora autarca, mas o próprio chef presidencial. A dona da cozinha municipal revelou-se sólida, pragmática, menos interessada em filtros e mais em obra concreta. Já o gourmet de Belém ficou preso à mise-en-scène.

Entretanto, o país ofereceu-nos outro momento de alta cozinha política durante as cheias do Mondego. O rio subia, a autarca evacuava populações, a lama avançava como molho demasiado espesso. E no meio do cenário quase bíblico, o Primeiro-ministro resolveu brindar a nação com uma intervenção que parecia saída de um turista americano do Alabama, deixando no ar a sensação de que a geografia nacional é uma disciplina opcional para governantes. Foi como assistir a um cozinheiro confundir coentros com hortelã em plena final de concurso televisivo. Tecnicamente um pequeno detalhe, simbolicamente devastador. É que o Mondego é um rio nacional e discutir o seu caudal com os espanhóis é o mesmo que consultar os australianos sobre a seca na planície alentejana.

O problema não é apenas o erro, é o padrão. Um governo que, por vezes, se apresenta como elenco de gala num espetáculo de variedades, muita luz, muito discurso, pouca substância. Portugal, república com quase nove séculos, merece mais do que um casting permanente para espetáculos de revista institucionais.

Com ministras desaparecidas em combate, ministros a fazerem filminhos da sua vaidade e um Primeiro-ministro rusticamente ignorante e pomposamente aldrabão.

E assim chegamos ao fim do banquete. Marcelo sai de cena não como estadista trágico nem como herói épico, mas como aquele gourmet que passou demasiado tempo a falar da sopa e pouco a perceber que a clientela estava cansada de explicações sobre a consistência. O afeto em doses industriais perdeu eficácia. As selfies à beira-mar deixaram de comover. O país, saturado de comentário permanente, começou a desejar silêncio produtivo.

É curioso que a vichyssoise se serve fria. Talvez tenha sido esse o equívoco central, presidir a um país em ebulição com receitas concebidas para serem degustadas a temperatura controlada, em ambiente de salão, longe da turbulência real das cozinhas onde se queima, se corta e se improvisa para alimentar gente concreta.

No fim, não há aplauso de pé. Há um suspiro coletivo, como quem empurra o prato para o lado e pede a conta. A República não precisa de críticos gastronómicos em horário nobre. Precisa de cozinheiros discretos que saibam que o essencial não é explicar a sopa, é garantir que ela alimenta.

E quando o gourmet sai pela porta dos fundos, não é vaiado nem ovacionado. É simplesmente esquecido na lista de sugestões para o dia seguinte. Porque o país, ao contrário da vichyssoise, não pode ser servido frio durante uma década inteira.

A autarca, essa, segue firme e altaneira na sua função.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas:

https://www.rtp.pt/…/sondagem-da-universidade-catolica…

https://www.diariocoimbra.pt/…/marcelo-apela-ao-voto…

https://www.reuters.com/…/rain-further-batters-storm…

https://www.dn.pt/…/popularidade-de-marcelo-esta-no…

https://www.reuters.com/..

Do blogue Estátua de Sal