Coisas que Podem Acontecer:
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
sábado, 31 de outubro de 2026
Anatomia de uma seita - parte II:
Anatomia de uma seita - parte I:
- Messianismo: O líder afirma ter recebido uma revelação especial, uma missão para salvar o mundo ou um conhecimento secreto que mais ninguém possui.
- Inquestionabilidade: As suas decisões, comportamentos e ordens não podem ser contestados. Qualquer erro da seita é atribuído aos seguidores, nunca ao líder.
- Culto de personalidade: O foco do grupo muda gradualmente das ideias ou crenças originais para a adoração e obediência cega à figura do líder.
- Bombardeio de Amor (Love Bombing): O novo membro é inundado de elogios, afeto, atenção e validação. Isto cria uma sensação imediata de conexão profunda e de ter encontrado a "família perfeita".
- Exploração de vulnerabilidades: Os recrutadores procuram pessoas em fases de transição ou crise (luto, divórcio, mudança de cidade, desemprego) que estejam mais recetivas a promessas de apoio e reinvenção.
- Falsa transparência: Inicialmente, a seita apresenta-se como um grupo de meditação, um curso de desenvolvimento pessoal, uma ONG humanitária ou um clube de negócios, ocultando a sua real agenda.
- Isolamento social: O grupo começa a desencorajar o contacto com amigos e familiares que não partilham das mesmas ideias, classificando-os como "tóxicos", "não evoluídos" ou "ameaças".
- Isolamento geográfico ou comunitário: Em casos mais avançados, incentiva-se a mudança para comunidades fechadas, quintas isoladas ou a partilha de casa exclusivamente com outros membros.
- Corte de fontes de informação: O acesso a notícias externas, internet ou livros que critiquem o grupo é severamente restringido, criando uma bolha eco onde apenas a voz da seita é ouvida.
sexta-feira, 30 de outubro de 2026
COMUNICADO DE VASCO LOURENÇO:
STAS LUTAS QUE SERIAM TUAS:
Um Governo desesperado em busca da “subversão”:
(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 29/10/2026)

Cara leitora, caro leitor
O leitor quer uma subversão? Não quer, pois não? A esmagadora maioria das pessoas, nomeadamente quem se tem manifestado nas praças pelo direito à habitação, também não quer as suas cidades a ferro e fogo.
Quem viu a manifestação em frente à Assembleia da República percebeu que ninguém queria subversão nenhuma e se a “extrema-esquerda” valesse aquilo estaria representada com certeza na Assembleia da República a ocupar muitos gabinetes e cadeiras na sala do plenário.
O que sabemos é que o Governo quer a subversão. Está empenhado nisso, com a ajuda de algumas pessoas que não estão no Governo, de comentadores variados e de alguns militantes do PS agora úteis para engordarem a narrativa da subversão e que passaram a viver mentalmente no PREC.
Mário Soares, neste momento, saberia onde deveria estar. Sempre soube. Esteve contra a Terceira Via de Tony Blair (prevendo com muita antecedência a miséria que iria acontecer aos partidos socialistas na Europa) e esteve contra as políticas da troika que tratou a crise financeira como uma forma de humilhação dos países mais frágeis.
Se fosse vivo, Mário Soares teria saído da sede da sua fundação, mesmo em frente à Assembleia da República, e aparecia a saudar os manifestantes. Conheci muito bem Mário Soares para saber que era exactamente isso que ele faria. Quem o conheceu de perto sabe isto perfeitamente.
No estado em que as sondagens colocam o PSD, uma subversãozinha vinha a calhar. Se houver subversão, o Governo cumpre o papel da “ordem” e o povo vai, agradecido, dizer aos estudiosos de opinião que vai votar PSD nas próximas eleições.
Esta é a única explicação com o mínimo de lógica política, embora seja imoral e irresponsável, para a escalada do discurso contra os manifestantes feita pelo Governo e pelo PSD e que visa semear o ódio.
A estratégia do ódio tem imediato sucesso junto do Chega (veja-se o deputado que disse sobre os manifestantes “encostem-nos à parede”, entre uma quantidade enorme de ignomínias que vieram daquele lado). Só que o Chega não precisa do PSD e do CDS para espalhar ódio e se o PSD julga que vai buscar um voto ao Chega com isso está a viajar na maionese.
É provável que o eleitorado social-democrata que não se revê em discursos de demonização do outro pense numa alternativa — talvez o PS, que é mais próximo e que tem tido, globalmente e através da sua direcção política, uma atitude em defesa da democracia.
Talvez parte do eleitorado do PSD vá votar na Iniciativa Liberal, cuja líder, Mariana Leitão, mostrou que não é só defensora do liberalismo económico, mas também defensora do liberalismo político.
Mariana Leitão não está de acordo com todas as reivindicações dos manifestantes — uma é o chumbo da lei do arrendamento que a Iniciativa Liberal aprovou. Mas teve uma declaração de decência política na sequência da inominável carga policial que poderá fazer o eleitor mais à direita que não gosta de ver a polícia a dar “porrada” em pessoas pacíficas (na grande expressão de João Maria Jonet) a identificar-se com o seu partido: “A repressão não é aceitável nem resolve nada. A única solução de um Estado que falha em quase tudo, perante quem protesta o falhanço nas políticas públicas de habitação, não pode ser usar a sua força repressiva sob a forma de cassetete.” Estes discursos à direita têm feito falta.
Estamos numa situação grotesca em que um Governo está acossado, a morrer nas sondagens, e a desejar ardentemente uma “subversão” que o traga de volta à vida. Se calhar é a única coisa que resta a um Governo muito fragilizado. Se o caos não vier, como não veio até agora, resta-lhe a morte lenta.
A outra tentativa de explicação já entra no domínio da psicanálise, a pulsão de morte freudiana — o conceito é complexo, mas a auto-sabotagem é uma das formas em que se pode manifestar.
Neste debate do Orçamento, a táctica gizada pelo Governo teve um momento alto com um discurso radicalizado do primeiro-ministro que evitou ao máximo tentar apaziguar o ambiente político (só a guerra lhe interessa agora).
Leitão Amaro, o ministro que usou a palavra “subversão”, reconheceu, vá lá, que não se aplicava à maioria dos manifestantes. “Não confundimos quem discorda ou se manifesta pacificamente com os poucos que usam a subversão e incitam à violência”. Ora, onde existiu esse incitamento à violência? No vídeo propagandístico que a PSP pôs a circular depois do Presidente Seguro ter dito que “não gostou do que viu”, percebe-se que só depois da polícia de choque se ter atirado sobre os manifestantes houve reacções de violência. Foi depois, não foi antes.
Nuno Melo, o ministro que não quer pessoas com sotaque brasileiro nas manifestações, sonha com a revolução francesa e o PREC – Processo Revolucionário em Curso. Podemos percebê-lo, a nostalgia é uma coisa tramada. Nas eleições legislativas de 1976, o CDS teve quase 16% dos votos e elegeu 42 deputados. A diferença é que agora não há PREC nenhum nem CDS quase nenhum.
Nuno Melo acha que a Praça de D. Pedro IV, em Lisboa, e a Praça D. João I, no Porto, são agora cenários para a “tomada da Bastilha” — “Há quem queira a praça D. João I no Porto ou o Rossio em Lisboa transformados na Bastilha em Paris e nós queremos Portugal poupado à loucura”. “Não faltou quem ali não queira outra coisa que não seja a democracia popular, com a turba a decidir em assembleias de rua à volta de jargões trotskistas”, disse ainda Nuno Melo. Que Nuno Melo diga estas coisas é compreensível. Agora, ver uma quantidade enorme de pessoas com vendas nos olhos, algumas delas inteligentes, a achar que as “assembleias populares” das manifestações significam que o “poder popular” do PREC está quase a tomar o poder em Portugal mostra que já há muitos cidadãos deste país a viver numa realidade paralela.
Se calhar, tal como Nuno Melo, também têm genuínas saudades do PREC, não pelo processo em si, mas pelo que significou na época, politicamente, nas suas vidas, ainda que fossem crianças. Mesmo entre os cidadãos à direita dos “revolucionários” de 1975, o PREC pode também ter sido um “sonho lindo que acabou”, como cantava José Mário Branco. A nostalgia, mesmo do que não se gosta, pode levar-nos a compulsões esquisitas.
E acabei de entrar na psicocracia…
Aqui há dias, no festival Fólio de Óbidos, gravei um episódio isolado do podcast do PÚBLICO O que fazer quando tudo arde com José Manuel dos Santos, director da revista Electra. O José Manuel dos Santos é um dos homens mais inteligentes e cultos que conheço, antigo assessor cultural dos Presidentes Mário Soares e Jorge Sampaio, e nunca quis ser ministro da Cultura, apesar de ter sido convidado, para nosso mal (e bem dele provavelmente).
Um dos últimos números da Electra é dedicado à “psicocracia” e a conversa andou sobre o crescente abandono de conceitos de classe, de bem e de mal, para concepções psicológicas. Dizer “Trump é louco” não tem o mesmo valor político de “Trump é malvado”. A conversa está disponível no site do PÚBLICO, em áudio e em vídeo, e pode ser ouvida nas plataformas habituais de podcasts.
Falo disto aqui porque nesta newsletter, parcialmente, alinhei na psicocracia para descrever o comportamento de alguns actores políticos. Talvez, de facto, nos devamos ficar pela distinção entre o bem e o mal.
Obrigada por me ler! Até para a semana.
Do Blogue Estátua de Sal
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
A nova Lei da Incompetência:
(Luís Rocha, in Facebook, 29/10/2026, Revisão da Estátua)

Diga-se o que se disser de Luís Montenegro, o homem tem sentido de prioridades. Um país normal estaria bloqueado com as listas de espera nos hospitais, a palhaçada das obras públicas que derrapam antes da primeira pedra ser benzida pelo pároco local ou os jovens a viverem em beliches porque um T1 em Loures custa o PIB de uma nação africana.
Mas o nosso Primeiro Ministro olha para este pântano e vê mais longe.
Viu o verdadeiro drama nacional, o cancro que rói o funcionalismo de Monção a Vila Real de Santo António.
O medo de decidir.
É preciso acabar com o sofrimento psicológico do secretário de Estado ou do director-geral que, antes de assinar uma adjudicação directa a um primo direito, passa noites em claro com medo do Tribunal de Contas.
Acabou-se a tortura.
A 21 de Outubro, o Parlamento tratou de aprovar a nova Lei de Organização e Processo do Tribunal de Contas. Uma verdadeira brisa perfumada e fresca na eficiência estatal.
A negligência simples desaparece do mapa da responsabilidade financeira.
Se um gestor público fizer uma asneira daquelas que custam três milhões ao erário público, o homem já não pode ser importunado por dar calduços no orçamento de Estado, a menos que se prove dolo ou culpa grave. Ou seja, se o homem assinar um contrato ruinoso porque se distraiu a ver o resumo do jogo do Benfica ou porque o documento estava em inglês e ele só arranha o francês de Massamá, está safo.
Cria-se o estatuto do incompetente por boa-fé.
É uma nova categoria profissional, com direito a secretária em mogno e progressão na carreira.
O importante, pelos vistos, é não penalizar o erro honesto. O gajo que é burro, mas é burro com muito brio, merece toda a nossa protecção jurídica.
Dantes, um autarca, sentia algum receio sempre que gastava milhões numa rotunda de mau gosto com uma estátua de fibra de vidro ao centro.
Agora, a fiscalização prévia passou para os 7,5 milhões de euros. Tudo o que for abaixo disso entra direto na categoria de “pequena caixa”.
O Governo jura que a fiscalização passa a ser concomitante e sucessiva, o que na língua das pessoas normais significa que primeiro se gasta o dinheiro e depois vai lá um técnico ver se o dinheiro foi bem gasto. Se o pavilhão multiusos ficar sem tecto ou se a piscina municipal meter água pelas fendas do betão, não há crise. O Estado português tem armazéns cheios de papel para relatórios, auditorias e comissões de inquérito.
É uma indústria pujante. Esta a do papel.
O argumento oficial para esta festa é que era preciso aproximar o regime dos gestores públicos ao dos gestores privados. É um raciocínio impecável, tirando o pormenor insignificante de que, se o administrador da Sonae queimar dez milhões de euros numa parvoíce conceptual, os accionistas põem-no na rua e ele vai directo para o desemprego ou para o ostracismo corporativo.
No Estado, os accionistas são os tipos que apanham o autocarro das seis da manhã e pagam o IVA da electricidade a vinte e três por cento. Esses não podem demitir o conselho de administração da empresa pública de águas. Limitam-se a pagar o buraco. E o gestor público que deixou a dívida não vai para o desemprego, vai para o parlamento, para uma empresa municipal de estacionamento ou para cabeça de lista de Santa Cona do Assobio nas eleições seguintes.
É a economia circular da política nacional. Nada se perde, nada se cria, tudo se reforma com subvenção. É o Lavoisier à la Espinho.
Mas o mais giro disto tudo é ver o contraste com a vida cá fora.
Experimente o cidadão comum falhar o preenchimento do anexo H do IRS porque estava com uma enxaqueca terrível ou porque confundiu as faturas da farmácia com as do veterinário. A Autoridade Tributária quer lá saber se a negligência foi simples, se foi dupla ou se foi um clamoroso esgotamento nervoso.
Entra a coima, entram os juros de mora e, se o desgraçado pestanejar, entra a penhora da conta bancária antes de ele conseguir explicar que agiu de boa-fé.
Para o Zé que aperta parafusos, a ignorância da lei dá direito a execução fiscal. Para o senhor doutor que tutela a secretaria-geral de um ministério, a incompetência tem de ser provada com perícia forense, de preferência com testemunhas que comprovem que ele não sabia mesmo o que estava a fazer.
Quase que apetece exigir um teste de QI à entrada do Ministério das Finanças, só para garantir que os níveis de ignorância cumprem os mínimos olímpicos exigidos pela nova lei.
No meio disto tudo, a realidade nacional ultrapassa qualquer ficção humorística e passa a ser o documento oficial do Conselho de Ministros.
É o resumo perfeito da governação saloia e incompetente.
O contrato celebra-se à pressa entre sorrisos e apertos de mão, o dinheiro dos impostos escorrega suavemente para as contas dos fornecedores habituais e a utilidade pública da obra evapora-se logo na semana seguinte. Quando o Tribunal de Contas finalmente lá chegar com as suas famosas auditorias sucessivas, anos mais tarde, já o empreiteiro abriu falência para abrir outra empresa com o nome ao contrário, o político responsável já foi promovido a administrador de uma fundação pública qualquer e o assunto passou a ser uma vaga recordação arqueológica.
Mas o relatório final há-de ser uma obra-prima da burocracia, impresso em papel de alta gramagem e devidamente arquivado numa pastinha com cantos metálicos.
O contribuinte, claro, pagará as contas todas e o prejuízo do inventário.
E o melhor é rezar para não deixar o carro dois minutos além do tempo no parquímetro enquanto vai ao quiosque comprar o jornal para ler as conclusões da auditoria.
É que o fiscal da EMEL tem uma máquina que não reconhece o conceito de negligência simples e a multa chega sempre antes do relatório da incompetência nacional, agora legalizada.
Está cada dia mais bonito o nosso portugalinho…
Beijinhos e até à próxima…
Referências consultadas
https://portugal.gov.pt/…/proposta-de-lei-de…
https://portugal.gov.pt/…/reforma-do-tribunal-de-contas…
https://eco.sapo.pt/…/nova-lei-do-tribunal-de-contas…
https://eco.sapo.pt/…/presidente-do-tribunal-de-contas…
https://www.parlamento.pt/…/DetalheIniciativa.aspx…
Do Blogue Estátua de Sal




