Coisas que Podem Acontecer:
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
sexta-feira, 17 de abril de 2026
EUA - A CIÊNCIA DO DESAPARECIMENTO:
17 de abril de 1969 – Um marco na história de Coimbra e de Portugal:
(Município de Coimbra, in Facebook, 17/04/2026, Revisão da Estátua.)

Há 57 anos, na Universidade de Coimbra, teve início a Crise Académica de 1969, um dos momentos mais marcantes da luta estudantil contra o regime do Estado Novo.
Foi durante a inauguração do Edifício das Matemáticas da Universidade de Coimbra que o então presidente da Associação Académica, Alberto Martins, pediu a palavra perante o Presidente da República, Américo Tomás, e outras autoridades. O pedido foi-lhe negado pelas autoridades do regime.
Esse gesto, e a recusa em dar voz aos estudantes, desencadearam semanas de protestos, manifestações e greves, dando início a uma ampla contestação ao Estado Novo que marcou uma geração e antecipou o caminho para a liberdade e a democracia conquistadas a 25 de Abril de 1974.
Hoje recordamos este dia como símbolo de coragem e resistência, evocando a importância de defender, em cada momento, a liberdade de expressão, o direito ao diálogo e uma educação democrática e inclusiva.
Do blogue Estátua de Sal
Afinal Agostinho Costa está vivo e recomenda-se…:
(Por Estátua de Sal, 17/04/2026)

ACNN continua a vender-nos propaganda da mais rasca – a que chama informação -, e já nem faz questão de disfarçar para que a julguemos muito imparcial e prosélita da liberdade de opinião. Nos últimos tempos tem sido um chorrilho de Ferro Gouveia, Soller, Serronho e José Carmo, qual deles o pior.
Assim – tal como aconteceu em tempos ao Major-General Carlos Branco -, cheguei a julgar que o Major-General Agostinho Costa também tivesse sido “cancelado” na CNN, já que a sua última intervenção tinha sido em 4 de abril. Mas, afinal não. O Major-general Agostinho Costa, por razões pessoais esteve duas semanas fora do país, mormente em Angola, tendo dado uma excelente entrevista à TPA (Televisão Pública de Angola), sobre a situação geopolítica.
De forma que, foi com muito agrado e atenção que segui hoje na CNN a intervenção de Agostinho Costa no CNN Meio-dia, analisando a complexidade do atual momento geopolítico. O programa aqui fica e a intervenção do Major-general começa por volta do minuto 20. É seguir o link aqui.
Quanto à entrevista à TPA é ver o vídeo abaixo.
A minha partida para Angola, em 17/04/1971, faz hoje 55 anos:
Manhã de dezassete
de Abril de mil novecentos e setenta e um, de sol quente, daquelas manhãs que
apetecia ir à praia. Estou no barco Vera Cruz contemplando as pessoas ao longe
a acenar-nos com os lenços em sinal de despedida.
Antes fizemos um desfile e uma parada militar
onde não faltou o discurso de partida, de boa sorte, a entrega de aerogramas
que as senhoras do Movimento Nacional Feminino nos ofereceram.
O canudo do Vera
Cruz dá o sinal de partida com três toques impressionantes. Os lenços agitam-se
com rapidez. Ouvem-se gritos e choros de familiares de soldados. Ainda bem que
ali não tenho ninguém. Se já é custosa a partida, mais seria, se tivesse ali algum
familiar.
Deviam de ir no
Vera Cruz uns dois mil soldados. O nosso destino era Angola. Quando já não
avistávamos mais ninguém fomos chamados para nos ser distribuído os nossos
aposentos. A mim calhou-me no porão. Nunca percebi como fui lá parar. Era dos
soldados com mais tempo de serviço e talvez dos mais velhos do batalhão.
Quando fui
mobilizado estava a cumprir serviço militar no C.I.C.A. 1, à beira do Palácio
de Cristal. Hoje faz parte do hospital S. António. A maioria dos soldados era
do quarto turno de setenta. Eu do terceiro.
Fui para o campo de
treino militar de Santa Margarida, para incorporar a companhia 3341, do
batalhão 3838. As companhias CCS, 3340 e 3342, também faziam parte do mesmo
batalhão.
Era um estranho. A
maioria dos soldados foram do R.I.2 de Abrantes. Eram conhecidos dos sargentos
e oficiais, só por isso compreendi a minha ida para o porão.
Na ida e volta para
o porão, passava-se perto da cozinha e do depósito de géneros. Era um cheiro
insuportável. Por esse motivo saía de manhã e só regressava quando ia dormir.
O barco Vera Cruz
era imponente. Estava um pouco abandonado. Outrora um barco de transportar
turistas. Agora servia para transportar carne para canhão.
À medida que nos
íamos distanciando avistávamos coisas que nunca tinha visto – golfinhos,
baleias e peixe voadores.
Todos os dias os
meus colegas deitavam carga ao mar. Eu felizmente nunca enjoei. Alguns
punham-se em tronco nu a apanhar sol, ganharam bolhas de água nas costas e não
conseguiam dormir.
À noite não
tínhamos nenhum passatempo a não ser jogar à batota. Uma noite vi soldados
sentados no chão do corredor a jogar à lerpa, não conhecia nenhum. Pedi
autorização para jogar. Autorizaram.
O jogo começou-me a
correr bem. A certa altura havia muito dinheiro em jogo, vários soldados
lerparam. Foram dadas cartas para nova jogada, três soldados disseram que iam
ao jogo e puseram a respectiva quantia, era o quarto a receber cartas e quando
as recebi tinha lerpa real. Mostrei as cartas e quando me preparava para
arrecadar o dinheiro foi-me dito para não lhe mexer. Disseram que não tinha
nada que mostrar as cartas. Devia deixar correr o jogo para outros lerparem.
Argumentei que era assim que procedíamos na minha terra e quando olho para o
lado estava o Matosinhos. Era bem constituído fisicamente. Soldado condutor
auto-rodas, da minha companhia, que me deu um sinal para pegar no dinheiro.
Eram três mil escudos, assim fiz. Ninguém repostou, sabiam que eu tinha razão.
Passado pouco tempo acabou o jogo.
No total ganhei
quase quatro mil escudos. Em mil novecentos e setenta e um, era muito dinheiro.
Dei uns trocos ao Matosinhos. Passados uns dias uns colegas meus foram
apanhados a jogar à batota e foram castigados com uma carecada. Tive receio de
me acontecer o mesmo. Acabei por não mais jogar.
A viagem decorria
bem, aproximávamos de Luanda.
Manuel Pacheco
quinta-feira, 16 de abril de 2026
Estes americanos MAGA querem mesmo discutir teologia a propósito do conflito com o Irão?
A actual guerra
desencadeada por Trump e Israel anda comicamente ou não a roçar o conceito de
guerra religiosa. Cristãos contra muçulmanos, muçulmanos contra judeus, judeus
e cristãos contra muçulmanos, e persas (zoroastristas e outros) à espreita da
oportunidade para correrem com os muçulmanos, enquanto os “arreligiosos” e
“iluminados” europeus assistem incrédulos e os herdeiros russos dos mongóis
preparam o próximo saque. Há muitos séculos que não ouvíamos falar de guerras
nestes termos. Para os europeus, é uma surpresa, um “déjà vu” que ninguém deseja, um anacronismo. Mas os muçulmanos foram os
primeiros a lembrar-nos que o tema não está morto, pois, com eficaz manipulação
desde a infância, ainda há, entre eles, quem mate em nome de um deus e de uma
religião e isso em terras europeias. Outros em nome de uma promessa de terra
feita por um outro deus. Algo vai muito mal na cabeça de metade da humanidade,
vítima de chalupas fanáticos e manipuladores.
Embora todos suspeitemos que Trump não tem religião nenhuma a não ser a do culto da (sua) personalidade e do dólar, resolveu dessacralizar o Papa e auto eleger-se o seu melhor substituto (se não do próprio Cristo), alegadamente dada a falta de músculo e de mísseis do Vaticano. Tudo porque o patriarca ortodoxo russo abençoa e apoia Putin e o Papa abstem-se de fazer tal coisa em relação a Trump. J. D. Vance, por seu lado, aconselha o Papa a ter cuidado quando se pronuncia sobre questões teológicas e diz que o catolicismo passou a ser tudo para ele (claro, também não gosta do Papa). Escreveu até um livro sobre a sua conversão. Portanto, uns metem-se em navios de guerra e vão até ao golfo pérsico atirar bíblias e Torahs aos ayatollahs e de lá recebem a mensagem de que serão mártires com muito orgulho, mal podendo esperar pelas 70 virgens do além, enquanto também vão matando uns tantos. Estão bem uns para os outros? Completamente. Por mim, podem-se eliminar mutuamente para finalmente respirarmos, encontrarmos meios de dispensar o petróleo e observarmos as galáxias.
Antes disso, porém, talvez esta discussão sobre quem percebe mais de teologia, e a discussão da teologia em si, traga à baila e defina de uma vez o lugar dos deuses. Se Vance acha que deus está do lado dele quando deporta estrangeiros, porque está a defender o seu povo contra os bandidos, e os papas Francisco e Leão entendem que deus quer que vivamos todos em harmonia e que acudamos aos mais necessitados, não seria melhor perguntar ao tal deus o que acha? E perguntar ao deus Allah o que acha do financiamento do Hezbollah pelo Irão e da morte de milhares de jovens manifestantes (embora tenhamos a certeza de que o Allah do ayatollahs concorda inteiramente), também não seria interessante? Que regressem os oráculos! Eh pá, a sério.
Mas então, se chegarmos à conclusão de que não há qualquer resposta de nenhum dos lados do firmamento, apenas interpretações humanas de teorias de humanos atribuídas a deuses há séculos e milénios, talvez as conversas se possam fazer noutros termos menos emocionais e estupidificantes e se deixem as instituições que aliviam as dores e as angústias existenciais de muita gente exactamente onde estão e em paz. As igrejas tratam do etéreo e abstracto, não do terreno. Nem sempre foi assim infelizmente e, com os seguidores de Maomé parece ainda não ser assim. Mas adiante. O catolicismo é deste lado.
É que, se o Vance quer aprofundar o tema teológico, ainda acaba agnóstico ou mesmo ateu e isso não é bom para as suas ambições políticas, que passam por conquistar a América profunda e burra, que sempre soubemos existir, mas que não víamos.
16 Abril 2026 às 11:48 por Penélope
Do Blogue Aspirina B
Já não se pode ser católico:
(João Gomes, in Facebook, 16/04/2026, Revisão da Estátua.)

Há um novo mandamento a circular pelo espaço público global: já não se pode ser católico – ou, pelo menos, já não se pode sê-lo em paz, sem levar com um comentário presidencial, uma farpa geopolítica ou um sermão improvisado vindo da Casa Branca.
O mais recente episódio desta curiosa catequese política envolve Trump e o Papa Leão XIV. De um lado, o presidente norte-americano, sempre pronto a distribuir avisos ao mundo como se estivesse a narrar um reality show de proporções bíblicas; do outro, um líder religioso que responde com a irritante serenidade de quem insiste que, apesar das diferenças, ainda é possível viver em paz. Convenhamos: não é exatamente o tipo de resposta que alimenta noticias inflamadas.
Trump, no entanto, parece ter uma dificuldade estrutural com a existência de figuras que ocupem um espaço de autoridade simbólica sem pedir autorização prévia – sobretudo quando essas figuras não seguem o seu guião do conflito permanente. Há algo competitivo nesta postura: como se o palco global fosse pequeno demais para dois protagonistas, e qualquer mensagem de concórdia fosse, por definição, uma afronta pessoal.
O resultado é este teatro algo absurdo em que um presidente se sente na obrigação de “informar” um Papa sobre os males do mundo, como se o Vaticano fosse uma espécie de call center desatualizado da realidade internacional. E, no entanto, a resposta papal – calma, ponderada, quase desarmante – expõe o contraste: de um lado, o ruído grosseiro; do outro, a tentativa de manter algum sentido de humanidade comum.
Para quem observa de fora – e, neste caso, até para um ateu agnóstico sem grande vocação para missas ou rosários – a situação tem algo de revelador. Não sobre a Igreja, nem sobre a fé, mas sobre a dificuldade de Trump coexistir com qualquer forma de autoridade que não seja a sua própria. É como se a existência de outros “papéis importantes no mundo” fosse, em si mesma, uma provocação.
E não se fica por aqui. A lógica parece expansiva: hoje é o Papa, amanhã poderão ser líderes de outras confissões, depois talvez qualquer voz que ouse falar em moderação, diálogo ou complexidade. Afinal, num mundo simplificado a slogans, a nuance é quase uma forma de dissidência.
Entretanto, cresce à volta de Trump uma espécie de ecossistema religioso-político que mistura fé, espetáculo e populismo numa proporção difícil de digerir. Não é tanto religião quanto performance – uma liturgia de aplausos, certezas absolutas e inimigos bem definidos. Nesse ambiente, a dúvida é fraqueza, a empatia é suspeita e a paz… bem, a paz não dá audiências.
Talvez seja isso que mais incomoda: a ideia de que alguém, em pleno século XXI, ainda insista que pessoas diferentes podem coexistir sem se destruírem mutuamente. É um conceito quase revolucionário, pelo menos à luz de certas práticas políticas contemporâneas.
Num mundo onde tudo parece cada vez mais polarizado, ser católico – ou simplesmente defender a convivência pacífica – tornou-se, de repente, um ato quase subversivo. Quem diria?
Do blogue Estátua de Sal
