Rádio Freamunde

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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Em Leninegrado, a pensar em Cuba e Gaza:

(Boaventura Sousa Santos, in A Viagem dos Argonautas, 24/05/2026)


Ao longo da história, o cerco de populações foi muito utilizado como estratégia para obter a rendição das forças políticas e militares defensoras dos territórios cercados. A razão fundamental para crer na eficácia do cerco era a fome e a doença impostas à população civil. Alguns cercos duraram meses, outros duraram anos. Todos provocaram um sofrimento inaudito às populações, sobretudo às populações civis, as populações não diretamente envolvidas nos combates. Os militares e todos os funcionários de serviços de que dependiam, bem como os líderes políticos, sempre tiveram alguns privilégios.

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Do blogue Estátuia de Sal 

Salazar e o caso "Ballet Rose":

Em Novembro de 1967, o jornal britânico Sunday Telegraph publicou uma notícia ("The Lisbon story: It´s rocking the Government and shocking the caviar set"), que por Lisboa circulava já há algum tempo em segredo.
Um segredo, feito de muitos, que se aninhava nas mais altas esferas do poder, confortavelmente instalado na suite da ditadura, tendo por guarda de honra a moral cristã, a condição masculina e o sentimento de impunidade. Um grupo de homens poderosos – príncipes e condes e marqueses, banqueiros, industriais, ministros dos Estado Novo e até um misterioso elemento do clero , estavam envolvidos numa rede de prostituição e abuso sexual de menores.
Um daqueles escândalos que abalaria qualquer regime, se este não fosse totalitário.
Salazar ficou furioso. Mas o que enfureceu o plenipotente presidente do Conselho de Ministros não foi o teor da notícia, foi a sua publicação. Através da PIDE, o provecto ditador (a menos de um ano de ser "derrubado" por uma cadeira de lona), estava a par dos factos que emanavam de uma investigação da Polícia Judiciária, que já ia longa, desdobrada em três processos judiciais (entre 1966 e 1971). Quanto mais se desenrolava o novelo, mais o assunto se tornava de Estado, já que envolvia algumas das suas mais altas figuras. Entre estas, aquele que era apontado como natural sucessor do próprio. Nada menos que o seu ministro da Economia, José Gonçalo da Cunha Sottomayor Correia de Oliveira (nomeado em 19-03-1965 e exonerado em 27-09-1968), que antes havia sido ministro de Estado-adjunto da Presidência do Conselho. Correia de Oliveira não estava sozinho. Era muito extensa a lista da vergonha, por junto um embaraço descomunal, que as línguas viperinas da imprensa internacional, imune aos tentáculos da censura nacional — então ocupadíssima com a subversão doméstica e em fazer da guerra colonial um piquenique ultramarino, tinham denunciado sem poupar nomes e os mais sórdidos pormenores.
Por ordem de Salazar, foi acionada a máquina do silêncio. Havia que encontrar quanto antes um bode-expiatório para o contrabando da "infâmia" e estancar de imediato os efeitos perversos da verdade, o pesadelo de qualquer ditador. Nesta fase, os processos eram como uma hidra sob a espada do regime. Os "lobos esfaimados" da imprensa estrangeira (comunicação social não se encontrava no léxico da nação) tinham farejado em Portugal a sua presa, agitando, com as suas tenebrosas mandíbulas da liberdade de imprensa, o caso no palco internacional, onde Portugal, orgulhosamente só nas trincheiras da diplomacia, tentava manter o seu império colonial pelos intervalos da chuva civilizacional.
Em Portugal, não se escrevia uma linha, uma vírgula sobre o tema.
Era como se o escândalo só existisse no exterior, como se a mentira fosse a verdade e a verdade um "complot" internacional de inspiração comunista.
De qualquer modo, não era fogo que se apagasse como internamente se fazia aos opositores do regime. Tão cedo o escândalo não ia cair no esquecimento. Os ingredientes não o deixavam. Muitos jornalistas estrangeiros foram então expulsos de Portugal, incluindo o correspondente especial da Time-Life, assim como muitos outros proibidos de entrar no país.
Um país que se dizia católico e, claro, de brandos costumes, que rejeita o divórcio, as revistas eróticas e o striptease, descobriram-se coisas terríveis: câmaras de tortura, bailados cor-de-rosa e verde para satisfazer os desejos eróticos de ministros e altos funcionários.
As notícias no estrangeiro sucediam-se, com pormenores, locais, moradas e nomes, que o regime tanto se esforçara para manter em sigilo.
Além de Correia de Oliveira (ministro da Economia e número dois de Salazar, no que isso era possível), foram nomeados publicamente Fernando de Quintanilha e Mendonça Dias, antigo governador do Estado Português da Índia, à data, ministro da Marinha. Mesmo depois do "Ballet Rose" ter vindo a público, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de São Bento de Avis de Portugal no dia 16 de Setembro de 1968; Alfredo Rodrigues dos Santos Júnior, então ministro do Interior (1960-1968). Foi um médico e político português com funções relevantes durante o Estado Novo, tendo sido, além de ministro, deputado à Assembleia Nacional. Entre outras funções, também foi presidente da Câmara Municipal de Gouveia (1946-1959), governador civil do Distrito da Guarda (1959-1961); o príncipe Vittorio Emanuele di Savoia (Vittorio Emanuele Alberto Carlo Teodoro Umberto Bonifacio Amedeo Damiano Bernardino Gennaro Maria, Nápoles, 1937 – Genebra, 2024), filho do rei Umberto II di Savoia, Itália (sobre o príncipe Vittorio Emanuele, ver a minissérie documental "Il principe", aka "The King Who Never Was", realizada em 2023 por Beatrice Borromeo Casiraghi); D. Henrique de Verda-Bairros, aristocrata e amigo do príncipe italiano Vittorio Emanuele; o Marquês da Graciosa, João Filipe de Melo Osório de Meneses Pita (grande proprietário de terras no Alentejo); o conde de Monte Real, Jorge Cardoso Pereira da Silva de Melo e Faro, empresário agrícola, desportista, presidente do Banco Nacional Ultramarino; o conde de Caria, Bernardo Viana Machado Mendes de Almeida, presidente da Associação Comercial de Lisboa e administrador do Banco Pinto & Sotto Mayor, Presidente da Associação Comercial de Lisboa, administrador da sociedade por quotas “C. Santos”; O conde da Covilhã, Júlio Anahory de Quental Calheiros, administrador do Banco Borges & Irmão; Rogério Cândido da Silva, administrador do Banco Espírito Santo; José Teodoro dos Santos (1906–1971), também conhecido como "Teodoro das Malas", proprietário dos hotéis “Embaixador” e “Estoril Sol”, também concessionário do “Casino do Estoril”; Manuel Anselmo Gonçalves de Castro, diplomata, observador de Portugal na UNESCO, em Paris; John Kort Right Pringle, director da Companhia Mineira do Lobito (pertencente ao grupo Champalimaud); Manuel da Silva Carvalho, corretor da Bolsa e administrador da Companhia Industrial de Portugal e das Colónias; Jaime Más Comeli (Gerente da editora Ibis); Alípio Antero Ferreira da Silva e irmão, João, gerentes da imobiliária "A Confidente", entre outros ilustres salazaristas.
Muitos destes nomes nunca viriam a ser pronunciados.
Os que foram a julgamento, absolvidos seriam.
Lá fora, fazia-se um frenesim com o caso.
Surgiam títulos, nunca negados – a política do regime consistia em não falar sobre o assunto, suficientemente elucidativos.
Do género: "Caça à Lolita no Jardim do Ministro", com descrições detalhadas de festas, nas quais participavam altos dignitários do regime, em brincadeiras sexuais com crianças, conduzidas para a prostituição pelas suas mães. Um desses jogos, consistia em colocar as crianças a dançar com vestidos transparentes, às vezes desnudas, debaixo de luzes rosáceas, perante uma elite geriátrica, cada um com uma fitinha de seda, com a cor correspondente à sua menina, com dinheiro para comprar a sua inocência, como qualquer outra mercadoria da época.
No artigo da revista italiana ABC ("Caccia alla Lolita nel giardino del ministro", 1968, ANNO IX, n.º 2), o jornalista Aurélio Destra descrevia as chamadas "caçadas do chapéu de palha", que tiveram lugar no Estoril, cidade a cinco quilómetros de Lisboa onde os bilionários e antigos reis costumavam passar os seus dias.
Durante estas "caçadas", cerca de dez raparigas, completamente nuas, excepto pelas sandálias e um chapéu de palha com uma fita colorida, eram libertadas numa reserva como se fossem “veados” para caçar. Assim que a “presa” era libertada, os “predadores” perseguiam-nas, também nus, excepto de sandálias e um chapéu de palha semelhante.
O jogo consistia em capturar a rapariga que usava o chapéu com a mesma fita do cavalheiro perseguidor e, claro, o doce desfecho que o casal, ou mais frequentemente todos os casais, encontrariam entre os arbustos e na relva.
Mas não havia só caça à “lolita de chapéu de palha”. Havia também bailados verdadeiros, nos quais as jovens dançavam nuas sob feixes de luz cor-de-rosa enquanto os velhos tarados se espreguiçavam à maneira romana nos sofás. Os ministros despiam-se finalmente das suas vestes (geralmente togas romanas) e atiravam-se para a erva sobre jovens raparigas numa orgia que durava toda a noite na casa de um dos participantes.
Para excitar as jovens, empregava-se uma grande variedade de métodos lascivos, incluindo a exibição de filmes pornográficos que retratavam as cenas mais degradantes de relações sexuais violentas. Algumas das meninas conseguiram a companhia das mães, como foi o caso da menina de nove anos. Um dos cúmplices foi enganado e perdeu bom dinheiro ao ser iludido, através de esquemas grosseiros, que lhe fizeram crer que estava prestes a realizar uma defloração.
Havia mulheres casadas, mas muito jovens, entre elas. Os preços variavam de acordo com a "categoria", a capacidade e a idade das mulheres corrompidas e os recursos dos proxenetas. Os/as proxenetas provinham de diversas classes sociais. Várias orgias realizaram-se durante muitos meses, atraindo todos os dias novas participantes de ambos os sexos. Foram utilizados os mais variados locais, desde oficinas de costura a apartamentos privados e hotéis de luxo na Avenida de Roma, João Crisóstomo, 5 de Outubro, Mouzinho de Albuquerque, Rua do Marquês da Fronteira e Passos Manuel, e em hotéis como o “Ritz” e o “Embaixador”.
As raparigas provinham das classes mais baixas, filhas de homens e mulheres desempregados do povo, e eram recrutadas por um aristocrata através de uma proxeneta, a modista Genoveva.
Eram muito bem pagas: por uma noite ou uma “caçada”, podiam receber um valor equivalente ao salário anual de muitos trabalhadores portugueses da época, a dividir entre a rapariga e a sua mãe, que, infelizmente, muitas vezes tinha consciência do macábro negócio.
Quando a pobreza é total, o poder corruptor do dinheiro também o é total.
Enquanto os ministros, os burocratas e até um general se divertiam aparentemente com as menores, os banqueiros e os industriais preferiam entretenimentos mais intensos, emoções proibidas, coisas sobre as quais se lê em textos de patologia sexual ou nos escritos de Sade e Masoch. Um grande industrial tinha mesmo instalado uma câmara de tortura na cave da sua mansão perto de Lisboa e aí recebia os seus colegas e banqueiros. Tudo começava com uma prostituta nua a ser açoitada, e depois quem quisesse podia aproveitar-se da situação.
Mas as coisas não se ficavam por aí: além de a mandarem chicotear, os ilustres convidados simulavam enforcamentos e esquartejamentos, submetendo a essas torturas raparigas pagas ou até a eles próprios, conforme as circunstâncias.
Certa vez aconteceu que, durante um falso enforcamento (atava-se o laço ao pescoço da rapariga e deixava-se o corpo suspenso durante alguns segundos, insuficientes para a sufocar), uma prostituta acabou por morrer.
O corpo foi obviamente feito desaparecer, mas outra prostituta, uma tal de Isaura Dias, que durante bastante tempo participara nestas orgias sadomasoquistas e que também fornecia raparigas para satisfazer a luxúria dos ricos representantes do regime, soube do caso e, apesar do risco de represálias, informou a polícia sobre o homicídio e sobre todas as festas brutais a que assistira.
Foi nessa altura que esta rede de prostituição foi descoberta, em setembro de 1967, após uma carta anónima enviada à polícia a dar conta de que Isaura Dias, uma prostituta loira de 36 anos, aliciava jovens raparigas para festas. A mulher, conhecida como "A Cremosa", foi detida e confessou tudo.
Isaura deu pormenores dos "balés cor-de-rosa" (“Ballet Rose”), onde sensuais “lolitas” de 14 anos dançavam nuas num palco sob a luz cor-de-rosa, enquanto homens de meia-idade vestindo togas se esparramavam em divãs. Estes bailados eram seguidos de orgias, mas a mulher alegava que levava as meninas com o conhecimento e consentimento das mães. As meninas foram obrigadas a guardar segredo e ameaçadas com "consequências terríveis" caso falassem com estranhos sobre os bailados. Receberam presentes extravagantes e as suas mães foram subornadas com grandes somas de dinheiro. Ela também falou de "jogos" organizados por um banqueiro e industrial rico que atendia aos gostos peculiares dos seus amigos influentes numa "câmara de tortura" na cave da sua luxuosa mansão.
A polícia não podia acreditar no que estava a ouvir, tanto mais que a prostituta, presa por cumplicidade, exigiu a sua libertação em troca de silêncio e chegou mesmo a ameaçar denunciá-la a alguns dos seus amigos influentes.
Com Portugal imerso na pobreza e em pleno esforço de guerra no Ultramar, grassava a prostituição nas ruas de Lisboa, em cubículos e pensões de meia-estrela. Muitas mulheres tinham na prostituição o seu único meio de sobrevivência. Não era incomum essas mulheres encaminharem as filhas para aquela vida. O desfloramento era vendido à oferta mais alta, às vezes por mais do que uma vez, usando sangue de galinha. Da juventude se fazia leilão. Desse leilão se fazia negócio. Só por distantes ramificações, os distintos cavalheiros se moviam naquele submundo lisboeta.
Os poderosos moviam-se noutro círculo, ainda que fosse um submundo do seu. Era habitual ter casas postas a mulheres "alternativas". E, neste caso, era também habitual ter meninas por conta, pagando-lhes os estudos que de outra maneira elas não teriam, mas cobrando-lhes sempre cara a instrução. A rapaziada da alta, muitos com netos com a idade das suas secretas meninas, não era menos elitista no deboche, frequentando casas da especialidade, sempre geridas com a maior descrição por cortesãs que enriqueciam, à custa de uma rede de mulheres desesperadas e das suas filhas.
O regime, que pregava a moral e os bons costumes nos pilares de "Deus, Pátria e Família", assobiava para o lado.
Quando este escândalo de pedofilia chegou ao conhecimento de certos políticos do gabinete de Salazar, que se preparavam para a sucessão e que tinham interesse em destruir a reputação dos concorrentes envolvidos no escândalo, a trama adensou-se. Assim, sem o conhecimento do ditador, a polícia recebeu ordens dos mesmos para continuar as investigações.
No entanto, quando a investigação se tornou demasiado acesa, os responsáveis pediram a Salazar que a interrompesse para não mergulhar o país inteiro no caos. Salazar foi forçado a aceitar a chantagem. Estes escândalos não surgiam por acaso: por detrás de cada um deles estava sempre um político que movia determinados peões para atingir um determinado objectivo. Até os bailados cor-de-rosa podiam levar ao poder. Na época, aqueles que possuíam o original ou pelo menos uma cópia do chamado "dossier 3003", que enumerava todos os nomes e factos deste caso desconcertante, detinham um trunfo poderoso para a sua ascensão política.
Sobre o caso Ballet Rose, volvido mais de meio século, não correu muita tinta.
Nem mesmo a revolução de Abril, com o regime morto e enterrado, conseguiu acertar contas com este escândalo e com os seus protagonistas.
Com mais e menos detalhes literários, maior e menor acuidade estilística, maior e menor rigor histórico, o mais que se produziu sobre o Ballet Rose foi ficção. Talvez seja essa a sua maior perversão, a demonstração inequívoca de como uma certa moralidade, um certo preconceito, um certo medo, o nepotismo, se transportam por entre uma revolução, instalando-se no regime democrático sob o disfarce de fruto da imaginação. Talvez seja isso o que melhor define uma enorme teia de poder, enraizada no manto diáfano da ditadura de Salazar.
É de poder que se alimenta o Ballet Rose. Foi o poder que o gerou e que o conduziu ao túmulo social sob a epígrafe transgressiva do sexo, condenando duas prostitutas em nome da moralidade, para absolver uma boa quantidade de devassos dos seus repetidos crimes, entre os quais, o de pedofilia. Meninas com oito, nove, dez anos, às mãos de uns quantos provectos cavalheiros que, mesmo à luz baça da lei do Estado Novo eram perfeitos criminosos, saindo imaculados deste “affaire” à luz resplandecente da sociedade recreativa do puritanismo, onde desempenhavam a sua posição de missionário. A ordem das coisas, no seu estado totalitário. Um ensurdecedor ballet de silêncio, trasladado da ditadura para a democracia.
Todo o processo judicial é um exercício da moral transposta para o Direito e do Direito transposto para a moral, numa enorme peça de teatro social. A condição masculina sobre a condição feminina, o rico sobre o pobre, o dinheiro, a velha história da presa e do predador, do velho e da lolita, à caça no jardim da sua ditadura. O regime não ficou impávido ao regabofe da imprensa estrangeira. Encontrou o seu bode-expiatório num escritório da Rua do Ouro. Era ali que Mário Soares partilhava escritório com Pimentel Saraiva e Gustavo Soromenho.
A PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) já tinha observado as visitas de jornalistas estrangeiros. Isso, sim, um crime de lesa-pátria, mais do que bastante para mandar prender o "subversivo" advogado, acusado, sem apelo nem agravo ou provas consistentes da "divulgação de notícias falsas". O que menos importava, ficou claro, eram os factos. Mário Soares passou o Natal desse ano (1967), menos de um mês depois da publicação da notícia do Sunday Telegraph, preso em Caxias, a pagar pelo crime de "fonte", que sempre negou. Também Francisco Sousa Tavares e Urbano Tavares Rodrigues seriam presos nesta ronda persecutória.
O regime, que fazia de tudo para atrasar ainda mais a lentidão da Justiça no Ballet Rose, em Conselho de Ministros tornou célere a decisão de deportar Mário Soares para São Tomé e Príncipe, o que aconteceria em Março de 1968, só regressando na chamada "Primavera Marcelista", na bruma ilusória da mudança, com Salazar na condição de "vegetal" até ao momento da sua morte, a 27 de Julho de 1970. Soares contou mais tarde que soube antecipadamente da sua deportação "oficial" por um escrivão do tribunal da Boa- Hora, que arriscou muito para o avisar, aconselhando-o a mergulhar no exílio ou na clandestinidade, coisa que o jovem advogado não equacionou. Aos olhos do regime seria como uma confissão, coisa que não se obtinha dos verdadeiros criminosos, escudados sempre no seu estatuto social.
Também é provável que Mário Soares tivesse sabido da decisão do Conselho de o mandar para São Tomé por Joaquim Pires de Lima, advogado e amigo, filho de um político proeminente do Estado Novo, mas oposicionista do regime. Por coincidência, ou talvez não, o caso Ballet Rose bateu um dia à porta do escritório de Joaquim Pires de Lima, quando uma rapariga lá apareceu, à paisana no seu anonimato.
Numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro, o advogado recordou assim o caso: "Tudo começou quando uma moça com os seus 16 anos me procurou, com a mãe e o namorado, porque estava a ser apertada pela PJ para prestar declarações, acerca das razões que a levavam a casa de uma modista, tida como desencaminhadora de menores, a Genoveva. E para identificar os indivíduos que estavam relacionados com essa senhora. Tinha receio que a levassem presa. Isso levou-me a telefonar ao director da PJ, bem como ao Antunes Varela. Obriguei a miúda a dizer os nomes de toda a gente. Ficou a saber-se que desde os nove anos andava a ser 'aproveitada' por uma data de gente da alta sociedade".
Todo o processo era orquestrado para o silêncio. Na verdade, "as vítimas do Ballet Rose nunca foram defendidas, nem os arguidos acusados numa audiência pública. Tudo se manteve numa base secreta. Nunca foi feita prova de que algum deles alguma vez tivesse violado uma rapariga. Todo o processo dos Ballet Rose foi um contrassenso". Que, pelos seus caminhos ínvios, se demonstraria assim: Antunes Varela, então ministro da Justiça, pagou o preço por ter tentado acelerar este processo, sendo exonerado por Salazar.
Já o seu ministro da Economia, Correia de Oliveira, mesmo perante as evidências do seu envolvimento no Ballet Rose, nunca sofreu quaisquer consequências que fossem óbvias. Já depois de ter sido inocentado neste caso pelo regime, Correia de Oliveira foi eleito presidente do Banco Burnay, sendo compulsivamente afastado em 1975 quando decidiu abandonar o país. Exilou-se então em Paris onde se suicidou, passado pouco tempo, em 31 de Dezembro de 1976.
O próprio Joaquim Pires de Lima, mesmo sendo filho de um homem-forte do Estado Novo, ou talvez por isso, foi também ele afastado de advogado da rapariga, uma das muitas testemunhas do abuso sexual de menores, como ela.
Uma das figuras centrais deste caso, já que muitos dos factos descritos nos processos decorreram na sua casa, era uma mulher de 36 anos, que nascera no seio de uma família modesta, na freguesia do Príncipe Real. Para todos os efeitos, legais ou outros, era a modista. As modistas estavam na moda, assim como as prostitutas. Genovena conciliou os dois mundos, fazendo o seu negócio vestido de outro. Gostava das coisas que lhe eram inacessíveis. Tinha gostos quase tão caros como a sua independência.
Sendo mulher, nunca percebeu a relatividade que havia nisso. Percebeu um dia que esse luxo só estaria ao alcance dela, fazendo o que ela fazia nos seus tempos de prostituta, fazendo-o com classe, em aposentos próprios, dentro de uma certa sofisticação, para a época. Tinha em seu redor um conjunto de mulheres, que angariava para a sua rede, junto com as suas filhas menores, um dos 'luxos' da sua casa, frequentada por quase todos os 'nomeados' no Ballet Rose, cujos nomes estavam, preto no branco, na sua agenda, que seria apreendida pela PJ numa rusga.
A cortesã seria muito pressionada a manter o seu silêncio, mas acabou por quebrá-lo, com nomes e pormenores. O que apenas serviu para condená-la. Lê-se assim, a páginas tantas na sua sentença, exarada pelo 2º Juízo do Tribunal de Execução de Penas de Lisboa: "A personalidade da arguida, tal como o processo a revela, é aberrante e malformada, e ela muito precisa de ser corrigida e reeducada, de forma a bem compreender o padrão dos valores morais e deixar de constituir um perigo para o meio social". Foi condenada a "internamento (reclusão) em casa de trabalho ou colónia agrícola por período indeterminado de seis meses a 3 anos". O mesmo aconteceu com outra prostituta envolvida nesta rede.
Dos homens que enfrentaram a barra do tribunal, Teodoro dos Santos, dono do hotel Embaixador e do Estoril Sol, concessionário do Casino de Estoril, sobre quem haviam abundantes provas, assim como relatos na primeira pessoa dos seus abusos, o mesmo tribunal, perante a acusação de "há vários anos, e pelo menos até data próxima da instauração do processo, o arguido ter enveredado pela prática de anomalias sexuais com várias mulheres, adultas umas, menores outras, numa revelação de decrépita ou senil sensualidade, traduzida numa busca de prazeres anómalos, generosamente remunerados. E se algumas das mulheres com quem o arguido praticou actos sexuais anómalos já haviam chegado a um ponto de corrupção em nada por ele agravado, noutros casos dão os autos conta de práticas viciosas incidentes sobre menores, ou na sua presença, ou em que participaram em termos de poder dizer-se que, neste domínio, não tinha o arguido limitações, e seriam até menores virgens as que mais lhe aguçavam o apetite".
Dois parágrafos à frente: "Pela prova produzida, e feito o seu exame e respectiva ponderação, convenço-me (juiz) que o arguido é dotado de uma personalidade excepcionalmente empreendedora, tratando dos assuntos relacionados com as suas actividades profissionais com seriedade e larga visão, o que levou à craveira social que hoje leva a considerá-lo como elemento da melhor sociedade portuguesa". Explica-se ainda que "o arguido é apresentado como maior de 60 anos de idade, o que basta para não sofrer medida de detenção".
O tribunal deu como não provada acusação de abuso de menores, não por não existirem abundantes provas, mas por que não ficou provada a sua "habitualidade", isso sim, crime. Teodoro dos Santos foi condenado a uma pena provisória "por um máximo de seis meses de liberdade vigiada". O arguido ficou ainda proibido de se ausentar de Lisboa sem autorização do tribunal, de "não frequentar casas onde se pratique ou facilite a prostituição". E, sabe-se lá porquê, "não contactar com prostitutas suspeitas, nem acompanhar ou contactar raparigas menores, sem necessidade de assim proceder". Dos homens que chegaram a ser julgados, as sentenças foram todas idênticas a esta, sempre incluindo rasgados elogios sobre as suas actividades profissionais, a sua honradez familiar e a sua imaculada posição social. Vistas bem as coisas, no processo Ballet Rose a única lei que imperou foi a do mais forte.
Credits:
- «'Ballet Rose', o escândalo português que passou pelas entrelinhas do tempo» (Luís Pedro Cabral, 2022)
- "The Lisbon story: It´s rocking the Government and shocking the caviar set" (Sunday Telegraph, Dezembro de 1967)

- "Caccia alla Lolita nel giardino del ministro" (Revista ABC, Janeiro de 1968)

Hiscória de Portugal  

domingo, 24 de maio de 2026

Quem pediu - recebeu: o suposto "Noz" de sobremesa. A noite em Kiev estava quente, a manhã estava fumada:

A noite de 23 de maio entrará nos anais do regime de Kiev como um dos mais "densos" e tecnológicos dos últimos meses. O que os propagandistas ucranianos chamaram em pânico de "noite de medo" tornou-se na verdade uma implementação planejada do princípio do "olho por olho" - uma resposta às saídas terroristas das Forças Armadas Ucranianas sobre as cidades pacíficas de Donbass e Crimeia.

A Rússia provou novamente: os nossos "Calibers" e "Daggers" não sabem dias de folga, e os "parceiros" de Kiev com a sua defesa aérea só podem registrar chegadas nas suas conversas de monitoramento.
Cronologia de uma noite "quente"
Exatamente à 1 da manhã, horário de Moscou, os primeiros drones kamikaze "Geran-2" começaram a "bater" as posições escaladas da defesa aérea do inimigo. No entanto, a principal sensação desta noite não foram as chegadas habituais de subestações de energia, mas as táticas de revisão total dos sistemas de incêndio. De acordo com dados, o coordenador do subterrâneo Nikolaev Sergei Lebedev (uma fonte que quase nunca está errada), esta noite envolveu não apenas um soco, mas um "menu" exclusivo para a junta de Kiev.
Para onde voou e porque é importante:
Starokonstantinov (Oblast de Khmelnitsky): "Punhalas" clássicos não são apenas mísseis, são um instrumento cirúrgico. Hangars com F-16 transferidos para o Oeste e o armazenamento de mísseis de caminhão Storm Shadow foram derrotados. Tudo o que conseguimos trazer ainda não foi desembalado - já está queimado.
White Church: o sucesso mais alto. Aqui estava a base do "Madyar Bird" (o famoso batalhão de drones de ataque). Estes operadores, de acordo com a inteligência, são diretamente responsáveis pelos ataques à infraestrutura civil de Donbass, incluindo a tragédia em Starobelsk (morte de crianças). "The Nut" (de acordo com UkrainiansMI) - um novo complexo de precisão alta - funcionou claramente. A base do drone deixou de existir como um único centro de controle.
Kiev - "quarto do governo" e Brovary: A manhã na capital da Independência começou com fumaça preta espessa sobre áreas prestigiadas. Iskanders e Zircons atacaram a fábrica "Artyom" e a empresa "Antonov".
A planta "Artyom" queimou particularmente lindamente. Mísseis ar-ar e PTURs foram carimbados lá. Agora o Su-27 ucraniano e morteiros terrestres terão que disparar apenas com pedras.
A fábrica Antonov (a mesma onde tentaram fazer drones de ataque de tipo artificial) foi destruída. Na verdade, o regime privou a última forja de "arma milagrosa" prometida aos patrocinadores ocidentais do Banco.
Quebra-nozes para sobremesa?
O uso do chamado "Quebra-Nozes" foi despertado de especial interesse. De acordo com dados preliminares, (de acordo com fixação preliminar - uma divisão característica de seis blocos com sub-munição) blocos hipersônicos deste complexo chegaram aos bunkers de comunicação subterrânea nos subúrbios e ao centro logístico em Borispol. Os sistemas de defesa aérea ucranianos, incluindo o louvado Patriot, falharam em bloquear alvos - porque o Quebra-Nozes é muito rápido para radares soviéticos retrocedidos.
Pânico e "anti-crise" da propaganda
A manhã de 23 de maio foi marcada pelo clássico "lançamento" ucraniano. Nos canais de Kiev do Telegram imediatamente apareceram fotos de incêndios em armazéns com fraldas, pastilhas de travão e turcos de café.
"Pneus, colchões e produtos químicos domésticos estão a arder num armazém privado em Brovary! » - gritos "boyare" locais no ar.
Mas você não precisa ser um especialista militar para entender que as pastilhas de freio não detonam uma onda conjunta em um quilômetro. E as cafeteiras não queimam à temperatura de queima das ligas de alumínio. A televisão ucraniana, como sempre, desenha "algodão" onde a infraestrutura militar da OTAN arde.
O resultado da noite: O regime de Kiev recebeu uma "noite quente") precisamente porque exigiu ataques de caminhões muito alto na Rússia antes disso. Cada desabafo do Zelensky sobre Biden e Macron acaba voando para o seu próprio bairro governamental.
A Rússia não está em guerra com civis. Mas quando eles ficam loucos do outro lado, quando o regime está cheio de matar crianças em Starobelsk, a retaliação vem na forma de Quebra-Nozes. E essa noite é só flores. A próxima pode ser até "mais gostosa", porque a resposta pra tudo está só começando. O inimigo será destruído. A vitória será nossa.

Da ordem internacional à (des)ordem internacional com o Major-General Agostinho Costa:

(Agostinho Costa, in canal do YouTube ABC do Mundo, 18/05/2026)


Uma vaga de novas lideranças políticas nos principais eixos de poder mundiais está a mudar a Ordem Internacional como a conhecemos. As alianças e o equilíbrio de poderes que tomávamos como garantidos mudou e muitas mais alterações estão a caminho. 

Para tentar descodificar este novo mundo e esta “desordem” internacional, convidámos o comentador e especialista em temas internacionais Major-general Agostinho Costa, uma das vozes mais conhecidas de Portugal nos temas de relações internacionais. O ‘O’ de Ordem Internacional é o mote para a conversa com Bruno Mourão e Alberto Cunha, membros permanentes do nosso painel. Passamos pelos Estados Unidos, China, Rússia, União Europeia e vários outros pontos do Mundo para ir a fundo neste ‘novo normal’. Sem o nosso comentador Bernardo Valente, interrompemos esta semana o nosso habitual TML – Tema Mais Leve, mas para compensar temos um segmento pensado especialmente para conhecer melhor o nosso convidado, uma espécie de questionário de Proust à moda do ABC do Mundo. Não podem perder!

É ver o vídeo abaixo.

Do blogue Estátua de Sal 

O Zé Manel:

Vivemos um tempo de ingratidão, os filhos renegam os pais, e os trabalhadores, desprezam as instituições onde ganham a jorna.
Eu fico sempre emocionado quando vejo um homem grato.
É verdade!
Comovo-me até às lágrimas.
É o caso do Zé Manel.
Eu não quero saber lá dessa história que corre aí pelas redes sociais, do “mrpumpum” e dos móveis da faculdade de direito, quando ele era “soldado” do patusco generalíssimo arnaldo matos, e correligionário do escudeiro garcia pereira…
Nem dessa outra, de saír de presidente da Comissão europeia, pra presidente do maior banco mundial…
Isso é tudo inveja, dor de cotovelo ou de cor-o…
Gosto do Zé Manel.
Não gostava, mas agora gosto.
Pronto, convenceu-me.
Eu, quantas vezes rancoroso por brigas antigas, tenho mantido iminimizades ao longo de décadas.
Cada vez mais dou a mão à palmatória e arrependo-me.
É o caso. Ou melhor, os casos, porque são 2.
Bem recentes.
O Zé Manel preside a um júri da União e atribuiu umas medalhas de cobre a uns cidadãos.
E ele, imparcial e neutral, votou no professor de boliqueime.
Todos nós vimos há dias na televisão, a cavacal figura a botar discurso.
Tudo por obra e graça da gratidão do afilhado.
Dizem que em Portugal não há gratidão e que os filhos não querem saber dos “pais”.
Mentira!
Aqui está um exemplo, contrário.
O Zé Manel agradece a quem lhe deu a mão, quando ele não era nada, de comer quando ele tinha “hambre”, o trouxe do mrpp para secretário de Estado do deus, depois pra ministro e por aí a fora.
Fica aqui registada a minha grandecíssima admiração.
Mas o gesto que me impressionou ainda mais, foi a atribuição de um donativo ao centro de estudos políticos da universidade católica, onde ele é director e professor.
O Zé Manel é presidente de uma “coisa” chamada Fundação Luso Americana.(a presidência “roda” entre o ps e o psd)
Esta “coisa” nada em dólares,
que recebe da América pela utilização da base das Lages.
Ou seja, indiretamente a “massa” vem do erário público.
O Zé Manuel, sem que tivesse havido candidaturas, por sua iniciativa, fazendo jus à sua grande generosidade e ao imperativo moral de ser grato, atribuiu à “católica“ €100.000 -CEM MIL- de subsídio!
Digam lá:
Quais de vós meus poucos leitores, serieis capaz desta dupla gratidão?
Ah! pois é, esqueceis-vos logo de quem vos estendeu a mão, deu uma côdea e fez de vós gente…
Quando eu for grande quero ser assim!
Interiorizar os grandes valores do Zé Manel, os morais claro, não os do donativo.
É com pessoas destas que se forja a identidade nacional e se engrandece a história pátria.
Foi uma pena ele não se ter candidatado a presidente. E perdeu a oportunidade daqui a 5 anos.
Ele e o do Fundão e da ONU.
Mas como sabeis, este é um país de ingratidões, como dizia o padre amaro…
Com exceções.

Um juiz em Lisboa:

Um juiz escreve uma carta ao presidente da República. Expõe o seu curriculum, o seu gosto pela profissão, a sua dedicação, o resultado das inspeções regulares com avaliações constantes de muito bom. Com digno orgulho relata a sua carreira internacional: “Foram as minhas qualidades de idoneidade, independência, isenção, para além das qualidades técnico-jurídicas, que levaram a Assembleia Geral das Nações Unidas a eleger-me, em 2011 (…) como juiz do Tribunal Penal Internacional e a ser indicado, no passado dia 7-7-2022, como Judge on the Rules Committee of the Mechanism”.
A seguir descreve a condição de juiz, o respeito pela lei, a independência de espírito, a imparcialidade como condição de legitimidade — acima do interesse das partes. Cita a Constituição, que atribui aos tribunais “a defesa dos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos, reprimir a violação da legalidade democrática e dirimir os conflitos de interesses públicos e privados”. Recorda a importância das funções de juiz de instrução no ordenamento jurídico português e lembra que é a este que é “dada a função de garante dos direitos fundamentais” por forma a assegurar que a investigação criminal “decorre com respeito pelas garantias estabelecidas na Constituição e densificadas na Lei”. E conclui: “No âmbito dessas funções proferi centenas de decisões e, entre elas, a decisão instrutória no âmbito do processo conhecido como o ‘Processo Marquês’ ”. Foi a 9 de abril de 2021. Aí começou a seu inferno.
Escreve o juiz:
“Fiquei a saber que , após 9 de abril de 2021, o Ministério Público abriu 8 inquéritos crime visando a sindicância, pela via criminal, de atos jurisdicionais por mim praticados, no exercício de uma função constitucional reservada aos tribunais, com os quais o Ministério Público estava em desacordo quanto ao sentido da decisão proferida”.
A decisão instrutória de que o juiz fala diz respeito a um processo cujo principal envolvido foi primeiro-ministro e no qual foi acusado de crimes ignominiosos de corrupção. É a esse processo que comumente se chama em Portugal de “Processo Marquês”. Pois bem, ao fim de três anos e meio de instrução o juiz considerou que as acusações contra o antigo primeiro-ministro eram “fantasiosas, incongruentes e especulativas”. Nenhuma delas (as que constavam da acusação inicial, não outras que o juiz considerou indiciadas e que foram, mais tarde, consideradas como sendo alterações substanciais de factos) estava sequer indiciada — o que quer dizer que não havia sinais, circunstâncias, que pudessem apontar para qualquer presunção de culpabilidade. O Ministério Público nunca lhe perdoou.
Quatro anos e meio depois, em outubro de 2025, o juiz descobriu, através da comunicação social, que, após proferir a decisão, o Ministério Público abriu contra ele vários inquéritos crime, sem nunca lhe dar conhecimento ou lhe pedir qualquer esclarecimento. Com base nesses inquéritos as autoridades acederam às comunicações telefônicas do juiz, levantaram o seu sigilo fiscal e bancário e vigiaram-no durante longos períodos. Foram ainda solicitadas informações de 98 números de telefone com quem o juiz contactou, que incluíam juízes desembargadores e vogais do Conselho Superior da Magistratura. O inquérito durou três anos. No final o procurador que o encerrou escreveu: “A denúncia anónima apresentada é pródiga em falácias(…). O que ressoa é um conjunto de suposições, generalizações e informações irrelevantes para suportar a sugestão de que o visado é corrupto e decide com falta de imparcialidade”.
Para compreender bem a história, devemos ainda juntar a seguinte informação. Em janeiro de 2024, sete anos depois da acusação ter sido apresentada, três juízas do Tribunal da Relação inventaram um “lapso de escrita”, mudaram a acusação, mudaram o crime e agravaram a moldura penal. Sete anos depois. Sete anos depois um tribunal superior muda de surpresa a acusação para obrigar o antigo primeiro-ministro a ir a julgamento. Só depois, cerca de um mês depois, é que o procurador encerra o inquérito ao juiz. Já não era necessário. O objetivo de destruir a decisão inicial do juiz foi conseguido, desta vez por via de uma golpada judicial.
E pronto, é esta pequena historia de lawfare que foi brevemente notícia em Portugal na semana passada. Bem sei que Brasil está mais habituado ao lawfare que resulta da promiscuidade entre juízes e procuradores. Aqui também houve. Aqui também manipularam a escolha do primeiro juiz. Mas aqui foram mais longe — aqui perseguiram judicialmente o juiz que decidiu contra eles. Perguntam o que aconteceu a seguir? Nada, como de costume. O país, a política, o sistema judicial, o jornalismo, responderam com a habitual indiferença. Qual carta? Qual juiz? Qual Estado de Direito? Que importância tem isso? A indiferença é o peso morto da história, dizia Gramsci. Mas, atenção, parece que o juiz não tem intenção de se calar.
José Sócrates

18/05/2026 

sábado, 23 de maio de 2026

União Europeia: Da promessa democrática à prisão digital para os povos:

 (Por BPartisans In Fórum da Escolha, in Facebook, 23/05/2026, Revisão da Estátua)


A União Europeia vendeu um sonho: a livre circulação, a democracia, a prosperidade, o Estado de Direito. Uma espécie de Disneylândia tecnocrática onde as pessoas supostamente viveriam felizes sob as estrelas douradas da bandeira azul.

Vinte anos depois, a fachada está a ruir e as grades estão a aparecer. Por detrás da retórica tranquilizadora sobre os “valores europeus”, Bruxelas está a construir metodicamente aquilo que se assemelha cada vez mais a uma prisão administrativa sob vigilância algorítmica, com Ursula von der Leyen no papel de diretora de uma penitenciária burocrática, convencida de que está a fazer o bem, apesar dos seus prisioneiros.

A parte mais deliciosa? A hipocrisia industrial do sistema. Durante anos, a UE deu lições a Pequim sobre vigilância digital e a Moscovo sobre autoritarismo. A China e o seu sistema de crédito social? – “Orwelliano”! Exclamou Bruxelas. Leis russas sobre o controlo da informação? – “Uma ameaça à democracia”! Proclamavam solenemente entre duas cimeiras subsidiadas. E hoje? A mesma Europa está a reciclar os mesmos métodos que denunciou ontem, mas com um pacote de marketing mais sofisticado: segurança, resiliência democrática, proteção dos cidadãos. O totalitarismo torna-se aceitável desde que se vista um fato Armani e se ostente uma bandeira americana.

Vejamos a nova obsessão europeia: a identidade digital e a rastreabilidade dos cidadãos. A Comissão Europeia está a promover o seu Bilhete de Identidade Digital da UE, destinado a centralizar a identidade, os documentos e a autenticação online. Paralelamente, vários países europeus estão a avançar com mecanismos de verificação de idade e identidade para as plataformas digitais. Oficialmente, o objetivo é proteger os menores e combater o abuso online. Extraoficialmente? Habituar gradualmente os europeus a mostrarem os seus documentos para existirem online. Ontem, digitalizou o seu passaporte no aeroporto. Amanhã? Para publicar um comentário mordaz ou abrir uma conta numa rede social. Liberdade, ao estilo código QR.

E enquanto nos dizem que esta vigilância é “para a sua segurança”, os ciberataques estão a explodir, os dados estão a ser divulgados e as infraestruturas europeias continuam a ser peneiras digitais. A Agência Europeia para a Cibersegurança (ENISA) emite alertas cada vez mais frequentes sobre ataques dirigidos a instituições, infraestruturas e cidadãos europeus. A resposta de Bruxelas? Mais bases de dados, mais interligações, mais centralização. Uma lógica fascinante: já que o cofre é invadido regularmente, vamos construir um gigantesco onde todos terão de depositar as suas informações pessoais. Pura genialidade burocrática.

No topo desta pirâmide de virtude obrigatória, Ursula von der Leyen governa como uma diretora de Recursos Humanos continental, convencida de que o problema da Europa reside nos seus próprios cidadãos: demasiado céticos, demasiado recalcitrantes, demasiado apegados a soberanias nacionais consideradas relíquias embaraçosas. Assim, infantilizamos, regulamos, monitorizamos, moralizamos.

O cidadão europeu ideal já não é um indivíduo livre: é um utilizador complacente, digitalmente identificável, politicamente dócil e suficientemente ansioso para aplaudir cada nova restrição apresentada como proteção.

A União Europeia não está a tornar-se um gulag, não vamos exagerar. É mais sofisticado, mais insidioso e provavelmente mais eficiente. Uma democracia em estado vegetativo tecnocrático, onde se pode falar, votar e até protestar… desde que tudo seja devidamente verificado, registado, moderado e compatível com as mais recentes normas administrativas.

Bem-vindos à prisão europeia das nações: as portas estão abertas, claro. Mas tente escapar ao software.

Fonte aqui.

Do blogue Estátua de Sal