Coisas que Podem Acontecer:
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
sábado, 21 de fevereiro de 2026
TRUMP, UMA BESTA HUMANA, TRATA ASSIM AS MULHERES, TAMBÉM OS JUÍZES DO SUPREMO TRIBUMAL E TODOS OS QUE O CRITICAM...
Preparado o teatro – quem atuará melhor?

O Médio Oriente volta a ser palco de um teatro de sombras e poder, e os Estados Unidos não se fazem esperar na construção do cenário. Enquanto a retórica política pinta o Irão como ameaça imediata, a realidade no terreno é mais complexa: porta-aviões, caças stealth, destroyers e sistemas de defesa formam um espetáculo de força que impressiona mais pelo apelo visual e psicológico do que pela certeza de um conflito declarado.
O que foi deslocado para a região é impressionante: o USS Abraham Lincoln e o USS Gerald R. Ford com seus grupos de ataque, dezenas de aeronaves F‑22 e F‑35, reabastecedores, AWACS, sistemas Patriot e THAAD, e milhares de soldados em prontidão. Em termos estratégicos, isso representa uma combinação de poder ofensivo real e capacidade de dissuasão elevada. Cada movimento é calculado, cada base ocupada transmite a mensagem: “Estamos prontos, mas não queremos disparar primeiro.”
Mas o teatro não se limita aos EUA. O Irão observa, calcula e responde com as suas próprias cartas: mísseis de longo alcance, drones, forças regionais e alianças estratégicas que podem infligir custos reais ao adversário. O equilíbrio é delicado, e cada ato de “preparação” cria repercussões imediatas nos mercados globais, no preço do petróleo e na economia mundial.
O espetáculo, porém, tem vítimas reais: civis que vivem sob a ameaça constante de escalada, populações regionais que veem o custo humano e material aumentar, e até mesmo aliados que sustentam a logística e os custos financeiros dessa “encenação de poder”. A plateia internacional assiste, fascinada, enquanto a política de dissuasão se mistura com interesses estratégicos e económicos, deixando no ar a pergunta inevitável: quem atuará melhor?
O teatro está montado. O palco é o Golfo Pérsico, as luzes iluminam porta-aviões e bases militares, e os protagonistas ensaiam movimentos que podem ser tanto gestos de intimidação quanto preparações para combate real. Neste espetáculo, o poder mede-se tanto em capacidade militar quanto na habilidade de controlar percepções, e os efeitos colaterais recaem sobre aqueles que nunca subiram ao palco: civis, economias e a própria estabilidade regional.
Enquanto os governos calibram cada ato, os espectadores mais atentos percebem que a guerra não começa necessariamente com disparos, mas com movimentos estratégicos, negociações e demonstrações de força cuidadosamente coreografadas. O teatro está pronto, e resta saber quem atuará melhor – se a dissuasão, se a ação, ou se, como muitas vezes acontece, a plateia paga o preço dos ensaios e das interpretações falhadas.
Do blogue Estátua de Sal
No meio da tempestade, André Ventura levou um banho de realidade:

Só queria salientar um pouco do tema que é muito atual, que é o tema da mão-de-obra. Nós dependemos de mão-de-obra estrangeira a 100%. Na minha empresa, temos 80 colaboradores e só temos um português que é o técnico, o engenheiro. Se hoje os trabalhadores estrangeiros fossem embora, eu fechava a empresa imediatamente.
(Bruno Amaral de Carvalho, in Manifesto74, 19/02/2026, Revisão da Estátua)

Não é assim que a história está a ser contada pelos órgãos de comunicação social mas há cinco dias um elemento fascista, Quentin Deranque, acabou morto, em Lyon, depois de uma tentativa de boicote contra uma conferência de esquerda. De seguida, a presidente do parlamento francês, Yael Braun-Pivet, proibiu a entrada no edifício de Jacques-Elie Favrot assessor parlamentar de Raphael Arnault, deputado da França Insubmissa, para quem o próprio governo pede também a perda de mandato, apenas porque no passado militaram na Jeune Garde, organização antifascista acusada agora de matar Deranque.
Entretanto, grupos neonazis anunciam caçadas contra os “vermelhos”. No domingo, em Lyon, vários fascistas atacaram com barras de ferro membros do comité de solidariedade com a Palestina. Sucedem-se os ataques contra espaços de esquerda, com a sede da França Insubmissa, em Paris, a ser alvo de uma ameaça de bomba esta quarta-feira, num contexto em que a extrema-direita pede a proibição deste partido que, integrado na Nova Frente Popular, ficou à frente nas últimas eleições legislativas. A narrativa agora é a de que a “extrema-esquerda violenta” atacou “jovens católicos pacíficos”.


Há que recordar que Lyon tem uma longa história antifascista e que é conhecida como a capital da resistência pelo seu papel central na organização da luta contra a ocupação nazi. Foi nesta cidade que Klaus Barbie instalou a sede da Gestapo e ficou conhecido como o carniceiro de Lyon. A filha de um dos líderes da resistência descreveu a história arrepiante do seu pai, a quem espancaram, arrancaram pedaços de pele ao seu corpo, mergulharam a cabeça em amoníaco e o queimaram vivo até acabar morto. Outras mulheres denunciaram que os alemães treinavam pastores alemães para morder e violar mulheres. Klaus Barbie foi directamente responsável por enviar 14 mil judeus e membros da resistência para campos de extermínio.

Durante meio século, o repúdio contra a barbárie fascista fez crescer o apoio às forças comunistas e de esquerda, assim como ao movimento sindical, e quando voltaram a aparecer grupos neonazis nas cidades franceses a juventude nunca deixou de os combater. Nos anos 80 e 90, apareceram organizações antifascistas em todo o país, muitas delas compostas também por imigrantes, incluindo portugueses, que enfrentavam o neonazismo nas ruas. Em 2018, surgiu em Lyon a Jeune Garde, nome de uma canção histórica do movimento juvenil comunista, e depressa se espalhou a outras cidades francesas. Três anos depois, um dos seus membros, Raphael Arnault, agora deputado, foi agredido por neonazis. Em Fevereiro de 2022, uma conferência antifascistas em Estrasburgo, com a participação da Jeune Garde, foi atacada por hooligans fascistas. Apesar da violência cada vez maior da extrema-direita, em 2025, os tribunais franceses decretaram a ilegalização da Jeune Garde.
Num tempo em que organizações fascistas aparecem como cogumelos perante a indiferença dos Estados capitalistas, não pode haver neutralidade perante quem defende a discriminação racial, para quem defende a retirada de direitos às mulheres, para quem agride actores e pede a proibição de livros, para quem defende leis que perseguem sindicatos e aumentam a exploração laboral, para quem aplaude a repressão policial contra os bairros de trabalhadores.
Fonte aqui.
Do blogue Estátua de Sal
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Sócrates reitera que não recebe dinheiro de Santos Silva e que não conhece "casa nenhuma na Malveira":
Antigo primeiro-ministro reage à notícia que dá conta da abertura de um novo inquérito relacionado com a compra de uma habitação na Malveira
José Sócrates reitera que não recebe dinheiro de Carlos Santos Silva nem conhece "casa nenhuma na Malveira". O antigo primeiro-ministro diz-se ainda "absolutamente alheio a qualquer transação imobiliária".
Sócrates reage assim a uma notícia avançada pelo Observador que dá conta da abertura de um novo inquérito do Ministério Público ao antigo primeiro-ministro e ao empresário Carlos Santos Silva por suspeitas de branqueamento de capitais, num processo que corre no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) desde 2025.
De acordo com o Observador, a investigação foi desencadeada na sequência de factos tornados públicos na última semana pelo semanário Sol. Em causa está a compra, em 2023, de uma habitação na Malveira, no concelho de Mafra.
Ontem às 21:03
Leia o comunicado de José Sócrates na íntegra:
1- Sei do que são capazes. Treze anos depois conheço os truques, as insinuações e as calúnias. Sempre o mesmo esquema, que se desenvolve em três andamentos – informação soprada à jornalista, que, por sua vez, a transforma em notícia e que, mais tarde, regressada a casa, é convertida em suspeita pelo próprio Ministério Público que inicialmente a havia traficado com a imprensa. Informação – noticia – suspeita. Os pistoleiros do costume já foram convocados e o processo, dizem, está em marcha.
Relatividade, macaquinhos e o racismo:
(Luís Rocha, in Facebook, 19/02/2026, Revisão da Estátua)

Em 1925, Albert Einstein foi à América do Sul falar de ciência e saiu do Brasil com a sensação de ter participado numa opereta. Entre recepções oficiais, continências militares e discursos tão extensos que pareciam desafiar a própria noção de tempo, o físico registou nos seus apontamentos, hoje estudados e divulgados pelo projecto The Digital Einstein Papers, o desconforto de quem se sente transformado em peça exótica de exposição. Um “elefante branco”, valioso mas inútil, conduzido de sala em sala para abrilhantar fotografias.
Nalgumas notas, há ainda referências a um ambiente de “teatro”, a uma certa macaquice cerimonial, expressão da época que hoje faria arder as redes sociais antes mesmo de alguém consultar o contexto. Einstein queria equações, deram-lhe coreografias. Queria debate, ofereceram-lhe palmas.
Um século depois, mudaram os figurinos, mas o palco mantém-se.
A recente polémica entre Gianluca Prestiani e Vinícius Júnior, envolvendo alegadas ofensas racistas durante um jogo, foi elevada à categoria de crise civilizacional em menos tempo do que dura um contra-ataque. Não me meto nem nunca me vou meter a dar palpites sobre uma actividade desportiva corrupta, obscena e profundamente politizada. Muito menos sobre declarações que não escutei e que tanto podem ter sido proferidas como não. São dois jogadores profissionais, treinados desde a adolescência para simular faltas com convicção dramática. Fingem cargas, exageram contactos e ensaiam quedas com a precisão de actores do método. Também podem fingir que ouviram o que não foi dito, ou que não disseram o que foi dito.
O que me interessa não é o VAR moral aplicado ao relvado. É o circo montado à volta.
Em poucas horas, a discussão deixou de ser sobre factos e passou a ser sobre posicionamentos. Cada tribuna improvisada exigia condenações sumárias ou absolvições inflamadas. O estádio transformou-se em tribunal popular, o comentador em juiz, o tweet em sentença. O espectáculo é perfeito, indignação coreografada, comunicados oficiais, análises frame a frame como se a verdade estivesse escondida num pixel tremido.
Einstein reconheceria o ambiente de macacada. Não pela física, mas pela encenação.
Tal como ele foi exibido como troféu científico num desfile político, também aqui se exibem jogadores como símbolos morais. Um é elevado a vítima paradigmática, outro a vilão instantâneo e ambos se tornam peças de um teatro que precisa de protagonistas para vender bilhetes. O racismo, tema gravíssimo e estrutural, é embrulhado num dérbi e servido com publicidade à volta.
Entretanto, as verdadeiras vítimas continuam fora de campo.
Não são milionários com contratos publicitários. São as pessoas que apanham o autocarro às cinco da manhã para irem trabalhar e levam com grunhos bêbados vindos da noite a comentar-lhes a cor da pele. São os candidatos cujo currículo desce discretamente na pilha porque a fotografia é “difícil de integrar na cultura da empresa”. Não há conferência de imprensa para eles. Não há hashtags globais. Não há minutos de silêncio antes do pontapé de saída.
O risco deste folclore é muito simples. A banalização do essencial. Quando cada incidente num relvado é tratado como a batalha final contra o racismo, o quotidiano invisível passa a ruído de fundo. É mais fácil discutir dois atletas sob holofotes do que desmontar preconceitos silenciosos nas escolas, nos transportes, nos escritórios.
Talvez a relatividade explique isto. O tempo mediático dilata-se quando envolve celebridades, e contrai-se quando envolve trabalhadores anónimos. A gravidade moral aumenta na proporção directa do número de câmaras apontadas.
Einstein sentiu-se um elefante branco num teatro de macaquinhos. Prestiani e Vinícius tornaram-se actores num teatro de indignações coreografadas. E nós, espectadores dedicados, continuamos a confundir palco com realidade.
Não se trata de minimizar acusações de racismo. Trata-se de recusar a sua instrumentalização. Se houve ofensa, que seja apurada com seriedade e consequência. Se não houve, que se evite a fogueira sumária. O que não serve é transformar cada lance num festival moral enquanto ignoramos o racismo estrutural que não cabe em resumos desportivos.
No final do dia, sobra sempre o mesmo elefante branco no meio da sala. Enorme, evidente, impossível de ignorar. Mas preferimos olhar para o relvado, discutir a repetição em câmara lenta e aplaudir o próximo acto.
Porque o teatro, esse, é o que alimenta a bilheteira.
Beijinhos e até à próxima…
(Para que fique registado, acabou de se sentir um sismo enquanto escrevia este texto.)
Referências consultadas:
https://www.dw.com/…/correria-louca-os-100…/a-71986947
https://einsteinpapers.press.princeton.edu
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp3q1d7d9j0o
Do blogue Estátua de Sal


