Rádio Freamunde

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domingo, 8 de dezembro de 2013

Oito de Dezembro:

Neste dia já foi celebrado o dia da Mãe. Por isso sempre gostei dele que para além de nos recordar essa efeméride ainda se festeja o dia de Nossa Senhora de Conceição. Gosto de o referir e talvez quem me leia ache-me chato ou pai coruja. Mas não se trata disso. Unicamente, gosto de o lembrar, porque assim recordo a minha meninice e esse dia. Naquele tempo, criança que era, dava outro valor que hoje homem não dou embora continue a gostar dele como referi.
Recordo a tasca do senhor Ramiro que neste dia recebia os fregueses para comer uma isca de bacalhau, uns bolinhos do mesmo peixe e beber uma copada de vinho tinto ou branco. Devido às condições reduzidas de espaço uma grande parte dos fregueses vinha para as imediações pôr a conversa em dia, quer fosse sobre a Banda da Música ou do Sport Clube de Freamunde, quer sobre a vida difícil que a política dessa altura nos reservava.
O vinho por vezes levava para estoicismos, que de outra maneira não eram aconselháveis o que fazia por vezes dizer-se coisas indevidas. Mas sabe-se como era o povo antigamente. Festa que o fosse tinha de haver pancadaria. E, então era raro naqueles tempos não haver uma qualquer escaramuça. Assisti a algumas. Também o ramo de loureiro exibido à porta da tasca do senhor Ramiro anunciava a venda de vinho o que hoje deixou de ser tradição.
Ali à beira havia a garagem de bicicletas do Neca “Baião” que alugava bicicletas entre as quais de criança. Era um regalo ver as crianças a andar de bicicleta num jardim com canteiros ali no largo de S. Francisco. Quem se recorda dele? Muitas delas foi ali que aprenderam a conduzir bicicletas. Não foi o meu caso. Não possuía dinheiro para pagar o aluguer. Assim só aprendi mais tarde a conduzi-las. Falo nisto a talho de foice e porque gosto de lembrar o tempo da minha meninice.

A meio da tarde saía com todo esplendor a procissão em que o senhor César “Armador” punha todo o seu profissionalismo ao dispor da Nossa Senhora da Conceição. Quando chegava a noite era hora de queimar os “Ferreirinhos”. Gostava de ver mas tinha receio de ser queimado pelo efeito das “bichas de rabiar”.
Assim, muito antes ia para o átrio da casa Nunes, por cima da referida garagem do Neca “Baião” e dali desfrutava de uma boa vista e de certa maneira protegido das referidas “bichas de rabiar”. Este evento (Ferreirinhos) naquele tempo era uma revolução no aspecto da pirotecnia. Como gostava de os ver a gladiar e no fim a mijar um para o outro. Nós, crianças, riamos a bom rir com esta demonstração.
Sabia-se que a partir daquele momento a festa da Nossa Senhora da Conceição estava no seu término. Aliás, término para a maioria dos foliões, porque alguns ainda continuavam na tasca do senhor Ramiro, ia dizer, a saborear o vinho mas devido à quantidade ingerida o paladar já tinha desaparecido. O que tinha ficado eram umas casmurrices entre alguns que a boa disposição do senhor Ramiro punha cobro.
Assim os festeiros, depois de contabilizadas as contas, preparavam-se para a eleição de novos festeiros para darem continuidade à do próximo ano. E é assim que ano após ano Freamunde celebra este dia e Santa com a abnegação que é conhecida de quem nos visita neste dia. E… também é assim que num texto pequeno e simples se relata e recorda uma Santa, uma Procissão, a Meninice e os “Ferreirinhos”.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Elevação de Freamunde a Vila - Jornal de Notícias, 21 de Junho de 1933:

Ao rebuscar pela Internet notícias sobre Freamunde, deparei com esta, para  gáudio meu e, julgo da comunidade Freamundense. Sei que a maioria desta comunidade não se lembra - eu incluído - destas celebrações porque não fazia parte deste mundo. Imagino a alegria sentida. Nesse tempo havia bairrismo e julgo mais que hoje.
Homens como Arnaldo da Costa Brito, Armando Oliveira - ai… se este hoje fosse vivo o que não diria ao neto - e Abílio Barros, hoje não abundam, não falando do senhor Tenente, mais tarde Brigadeiro, Carlos Alves de Sousa. 
Como disse Freamunde está a perder o bairrismo e está a tornar-se numa terra como várias do concelho de Paços de Ferreira. Por isso a perda de identidade e revindicação. Há que dar uma sapatada nesta apatia a ver se voltamos a ser o que outrora fomos.
"Ontem, á tarde, correu rapida a noticia de que o «Diario do Governo», inseria nas suas colunas a efectivação duma justa aspiração dos habitantes de Freamunde.
E quando, ao anoitecer, os repiques dos sinos das nossas três igrejas se juntavam anunciando uma festa religiosa que hoje solenemente se realisou, parecia que a alegria do seu som e a vibração das suas ondulações traduziam sinceramente, e apregoavam ao longe, o prazer imenso do nosso povo por mais um passo dado no progresso da nossa querida terra.
Queimaram-se foguetes, rebentaram bombas, trocaram-se felicitações, e a Junta da Freguesia constituida pelos srs. Arnaldo da Costa Brito, Armando de Oliveira e Abilio Barros, tomou a iniciativa da organisação dos festejos que hoje á noite deverão realisar-se, os quais contarão de numeros populares abrilhantados pela nossa excelente «Banda Freamundense» e duma «marcha aux flambeaux» na qual se encorporarão todas as colectividades e povo de Freamunde, que, em massa, vão testemunhar ao sr. tenente Carlos Alves de Sousa, nosso querido conterraneo, e actual administrador de Paços de Ferreira, a sua gratidão pela sua valiosa interferencia junto do Governo da Republica para a realisação desta concessão. A sua ex.ª, cuja fotografia temos a honra de fazer gravar nas paginas do «Jornal de Noticias» - apresentamos os nossos cumprimentos e felicitações. - (C.) 
Freamunde, 17. - Conforme haviamos anunciado, realisaram-se no passado dia 15, entusiasticas festas e vibrantes manifestações de regosijo pela elevação da povoação de Freamunde á categoria de vila.
Os nosso conterraneos Arnaldo Brito, Armando de Oliveira e Abilio Barros, que constituem a Junta de Paroquia, organizaram um belo programa, no qual cooperaram todos os freamundenses, as suas colectividades recreativas, Associação de Socorros Mutuos, Bombeiros Voluntarios, e a Banda de Freamunde.
Ao entardecer a importante Fabrica de Material e Mobiliario Escolar de Albino de Matos, Pereira & Barros, Lda, mandou acender as caldeiras das suas maquinas, pondo-as em pressão para inundar de luz e de sons, o ambiente apregoador do trabalho, e do progresso.
No lado oposta da vila, ao Norte, igual azáfama na grande Fabrica de Moveis do Calvário, do nosso querido amigo António Pereira da Costa, que preparava as suas sirénes e dispunha a iluminação das suas casas de trabalho, de modo a merecer a admiração e os elogios de todos os que a contemplavam.
A Banda de Freamunde excelente agrupamento musical que a batuta do nosso amigo sr. Leitão, conseguiu igualar, em mérito artistico, a qualquer banda dos grandes centros, entrou inexperadamente na povoação ás 16 horas, vinda da Trofa, donde apressou os seus trabalhos, para não faltar ás festas dos seus conterraneos.
E quando soavam as 21 horas, já no Largo da Feira, sob as frondosas tilias - a multidão se comprimia, deliciada pela audição de alguns trechos de musica que a nossa Banda ia executando.
Ao longe destacava-se, dominando a arteria principal da vila, um grande «placard» luminoso, como que uma barreira de fogo que constantemente bradasse - em grandes letras - «Viva a Vila de Freamunde».
A's 21 e meia da torre da Igreja Matriz subiu um foguete que anunciou o começo do desfilar da imponente marcha au flambeaux.
Milhares de venezianas e archotes festivamente conduzidos, ao som dum passe doble enervante e animador, e do repicar dos sinos das nossas igrejas e do silvar estridente das nossas fabricas, começaram a deslocar-se lentamente ao longo da estrada em direcção á casa do sr. tenente Carlos Alves Sousa, administrador do concelho, a quem se ia, em romagem de agradecimento, levar também a homenagem do muito apreço em que Freamunde tinha os seus dedicados esforços pela vitória alcançada.
No cortejo iam incorporados os briosos os Bombeiros Voluntários, comandados pelo 1º patrão Henrique Felgueiras.
A assembleia Freamundense ia representada pela quasi totalidade dos seus associados, e o Club Recreativo Freamundense ia representado pela sua direcção com o seu estandarte conduzido pelo sr. João Rodrigues, seu presidente. O sr. Guilherme Gomes levava o glorioso estandarte da nossa querida e florescente Associação de Socorros Mutuos Freamundense, a que todos os presentes pertenciam.
Todos os prédios estavam iluminados, destacando-se a bela iluminação da Fabrica de Moveis do Calvario, da Assembleia Freamundense, do dr. Antonio Vasconcelos, da casa Antonio José de Brito & Filhos, da Fabrica de Material e Mobiliario Escolar Albino de Matos, Pereira & Barros, L.da, etc., ao que se juntava a iluminação publica que a nossa Empresa Electrica Freamundense mandou reforçar com fortes lampadas, destacando-se a colocada no alto da torre da nossa igreja.
Com grande entusiasmo e alegria, chegou o cortejo á porta da residencia do sr. tenente Carlos de Sousa, esperando-o s. ex.ª á varanda da mesma ao lado de sua ex. ma esposa e demais familia. Junto dêle o sr. D. José de Lencastre, a unica pessoa estranha á terra, que aqui compareceu. Os vivas repetiam-se e o conflito dos sons que animavam a atmosfera davam á manifestação um aspecto verdadeiramente extraordinario.
O sr. tenente Carlos de Sousa foi recebendo os cumprimentos e felicitações das pessoas gradas da vila, e da sua varanda falou á multidão renunciando os agradecimentos que lhe eram dirigidos, e endereçando-os ao govêrno da Republica, que tão interessada e tão patrioticamente tem cuidado do bem-estar da Patria Portuguesa. Enumerou os beneficios realisados pelo Estado Novo e terminou saudando Freamunde, o govêrno e o sr. Presidente da Republica.
Seguiu-se-lhe o sr. presidente da Camara, D. José de Lencastre, que acorreu a Freamunde logo que teve conhecimento da realisação das festas. Veio trazer as suas saudações aos habitantes de Freamunde cujas tradições, habitos e costumes ha muito conhece, aprecia e admira. Confirma as palavras do sr. tenente, a quem felicita, e dirige as suas saudações aos srs. Presidentes da Republica e Ministerio.
A seguir, o rev. Francisco Peixoto, um dos padres ilustrados do por mostrar a sua alegria e entusiasmo por mais êste passo dado no progresso de Freamunde.
O sr. dr. Alberto Cruz, afirmou que gostosamente havia tomado parte naquela romagem de gratidão, porque todo o habitante de Freamunde é sensivel e grato aos favores que lhe fazem.
Conhecendo ha muito a psicologia do povo da sua terra, e tendo apreciado muitas vezes a sua solidariedade, reconhece que é do coração que lhe sai esta homenagem, costumes, et., e terminou a historia de Freamunde, sua origem de agradecimento ao sr. tenente, pelo interesse que lhe mereceu a satisfação desta justa aspiração do povo freamundense. Povo essencialmente trabalhador, trabalha sempre para que a sua pequena parcela dentro da Republica Portuguesa, avance e progrida, tanto quanto permite e determina o acendrado amor ao seu torrão.
Rematou com um Viva á Republica Portuguesa que foi delirantemente correspondido.
Para terminar o rev. Alberto Brito, digno abade de Rande - Felgueiras, e acidentalmente entre nós, apresentou em nome do velho e honesto parroco de Freamunde, a quem a idade e a doença haviam aconselhado ficar em casa, os seus cumprimentos e felicitações ao sr. tenente Carlos de Sousa.
A Banda de Freamunde foi executando alguns trechos do seu reportorio selecto, e o sr. tenente convidou então para um «Porto de Honra» - na sua sala de jantar, lindamente adornada.
O sr. tenente agradeceu de novo a todos os presentes e o dr. Alberto Cruz, brindando pela sua saude e pela da sua ex. ma familia, aproveitou a oportunidade para lembrar as necessidades de se estabelecer a ligação telefonica de Freamunde com o resto do país.
Dirigiu-se, tambem, ao sr. presidente da Camara aqui presente, afirmando que a rêde telefonica em Freamunde constituirá um passo agigantado dado no desenvolvimento do seu comercio e industria, e um grande auxilio para a vida profissional particular.
O sr. presidente bebeu pela saude do sr. tenente e sua familia e informou que brevemente teriamos a rêde telefonica.
Terminado o «Porto de Honra» o cortejo poz-se novamente em marcha, visitando a Assembleia Freamundense, a Associação de Socorros Mutuos Freamundense, o Club Recreativo Freamundense, e o quartel da Associação dos Bombeiros Voluntarios de Freamunde.
Durante o trajecto queimaram-se muitos foguetes, e os sinos da vila, e as sirenes das fabricas fizeram-se ouvir.
A' meia noite, a Banda de Freamunde subiu para o corêto do Largo da Feira, onde permaneceu até ás 3 horas da madrugada, deliciando gratuitamente, e com o maior entusiasmo, os seus queridos conterraneos e amigos."

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Conversas de lavadouro:


Vais à feira de Santa Luzia? Não sei - respondeu Águeda. A vida está muito má e para fazer monte prefiro estar em casa. Não é bem assim - disse a Rosa que desde que se lembra nunca falhou a uma. Mesmo com o provável dia de chuva conto lá estar e apreciar todo o ambiente porque a “noveirar” não se gasta dinheiro. Como sabes que vem chuva - admirou-se a Águeda! Ó mulher. Não sabes que se estiver sol no dia de Nossa Senhora da Conceição o de Santa Luzia é de chuva - desabafou a Rosa. E não esteve de sol nesse dia? Não conheces o ditado? Conceição de sol Luzia de chuva!
Esta conversa foi mantida durante a lavagem de roupa no lavadouro de Além. Era ali que muita gente das proximidades fazia a barrela à roupa dos seus familiares às segundas-feiras. Havia uma ou outra lavadeira que o fazia perante o pagamento de uma jorna. Tempos difíceis requerem o aproveitamento de qualquer trabalho. A conta na mercearia do “Venturinha” estava prestes a ter de ser saldada e para trazer novo fiado tinha-se que pagar o anterior. De quinze em quinze dias tinha-se este compromisso. Mas… os quinze dias para se receber a féria eram longos. Ao contrário, os quinze que se tinha de pagar a dívida eram rápidos. Estes eram os pensamentos da Rosa. A conversa tinha acabado. Mas era o que todas as mulheres que com ela se encontrava naquele ofício diziam constantemente.
Olhava para uma e outra e pensava o que foram e o que agora são. A Matilde, que estava a lavar de frente a ela era o retrato desse seu pensamento. Em solteira, alegre e desinibida. Casou. Sempre triste. Não sabia se era pela "ranchada" de filhos que tinha. Era um fora outro dentro. Dizia que não era a favor dos contraceptivos. A moral com que foi criada a levava a isso. Em solteira não faltava a uma missa. Até foi catequista. Só o deixou de ser quando casou. A esta não perguntava se ia à feira de Santa Luzia porque recebia como resposta: quem fica com os meus filhos mais pequenos? O meu homem! Nem penses. Porque era o mesmo que ficarem sozinhos.
Olhava para a Lurdes e via o preto do seu traje. Era muito jovem quando ficou viúva. Maldita guerra ultramarina. Tão bom rapaz e tinha de ser logo ele. Ao menos deixou-lhe um rebento. Foi esse o motivo por que casaram antes de ele ir para Angola. Era agora o orgulho dela. E como são parecidos. Quantos daqui foram que se lhes acontecesse isso não eram tão lembrados. Não penso assim pelo Tónio ser filho da minha tia Alzira. Não! Era mesmo uma jóia de rapaz.
A Laura, a única solteira do grupo de lavadeiras, todas as segundas-feiras contava as peripécias que teve com o namorado no dia anterior. Às vezes chegava para corar a maioria de nós. E… nos nossos tempos não éramos nenhumas santas. Neste dia não se referia a isso. Seria que se chatearam? Também dizem que têm outras. Admira-me não ser sabedora! Mas por um lado é bem feito para a mãe. Foi a favor do filho ter deixado a namorada e já se falava em casamento. A coitada da Ana nunca mais arranjou namorado. Também constava-se que o namoro ia adiantado de mais e agora os rapazes rejeitavam-na. Era bonita e bem torneada. Mas… os preconceitos nos meios pequenos a isso os obrigavam. Alguns iam fora da terra arranjar namorada, casavam e, não sabiam o que lhes tocava. Santos, neste caso santas, da casa não fazem milagres. 
Os minutos e horas iam-se passando. Algumas lavadeiras já tinham lavado a sua roupa e agora ajudavam uma ou outra para não irem sozinhas para casa. Era o que acontecia à Rosa e à Águeda. Sempre inseparáveis. Por isso voltou a perguntar-lhe. - Vais ou não vais à feira de Santa Luzia? - Oh mulher! Contigo vou até ao fim do mundo - respondeu a Águeda. Mas não vou para gastar dinheiro. - Não me digas que já fizeste todas as compras para o Natal? - Retorquiu a Rosa. – Não! Mas conto fazê-las na loja do Venturinha, sabes como eu sou - disse a Águeda. Não estou para comprar lá a fiado e ir para a feira pagar a dinheiro. Não concordo contigo quando dizes que não ligas a isso. Se serve para uns géneros alimentícios também serve para outros. E, olha para o que digo. Ali não falta nada. Pelo menos é o que dizem os versos do nosso poeta, Rodela.
A loja do Venturinha / tem de tudo quanto há / desde a piada fresquinha / ao pacotinho de chã. Nem o livro dos fiados / naquela loja acabou, / os tempos foram mudados / mas lá sempre se fiou. Quem lá comprar ou vender / se não leva, vai trazer / sempre mais sabedoria. Os clientes que lá vão, / vão por alguma razão / não é só porque se fia."
Por isso vou para te fazer companhia - assim, Águeda - deu por terminada a conversa uma vez que estavam próximas de casa.

sábado, 24 de novembro de 2012

Assim fosse Cavaco Silva:


Sempre tive um fraco por anedotas e por quem as sabe contar. Ainda me lembro na fábrica Albino de Matos Pereira & Barros (Fábrica Grande) o senhor António Rego, colchoeiro e costureiro, na secção de colchoaria e de estofos, nos contar certas anedotas. Nessa altura entre vários empregados naquela secção, trabalhava como aprendizes (moços), eu, Joaquim Marques (Quim Lucas) e Teotónio (Mirra). Vezes sem conta tínhamos de ir para a secção de colchoaria ripar folhelho ou sumaúma para a elaboração de colchões para camas de dormir. 
Este trabalho era aborrecido porque o folhelho de já ser velho deitava um cheiro nauseabundo, a sumaúma um pó e partículas que se entranhavam nos nossos olhos o que nos obrigava a estar constantemente a esfregá-los o que nos provocava noites sem dormir. Mesmo com estes contratempos gostávamos de para ali ir. O senhor António Rego era um exímio contador de histórias e anedotas. Recordo algumas:
Um dia três amigos encontraram um lobo morto há vários dias mas ainda em bom estado de conservação, resolveram fazer uma quadra cada um, a melhor obrigava os outros dois a pagar a confecção do repasto do lobo. Para isso precisavam de um júri. Eis que se junta a eles o Bocage. Depois de ditas as formalidades ao Bocage cada um foi dizendo a sua frase.
O primeiro concorrente disse:  
Este lobo / enquanto vivo / tudo crú comeu / e nada cozido. Diz o Bocage: muito bem!
O segundo concorrente:
Este lobo / à sua sesta / nunca dormiu / tanta como esta. Voltou a dizer o Bocage: muito bem!
O terceiro:
Este lobo / enquanto pelo mundo andou / tudo comeu / e nada pagou. O Bocage reafirmou: muito bem! Mas que estava num dilema. Todas as quadras estavam bem construídas e verdadeiras pelo que lhe era difícil escolher um vencedor. O melhor seria entre os três pagarem o repasto e ele ser convidado.
Estas histórias levavam a nós três a ter ainda mais consideração pelo senhor António Rego. Pedíamos para contar outras e ele acedia ao nosso pedido. De estar saturado de tantas histórias que nos contava lá vinha a última: 
Um pastor tinha um rebanho. Logo que começava com esta nós os três dizíamos: - oh não! Mas ele continuava... - e para o alimentar tinha de passar por uma ponte em que só passava uma ovelha de cada vez para o prado. Como o rebanho era constituído por quinhentas ovelhas e a ponte tinha um comprimento de mil metros. Chegado aqui parava de contar a história. Nós se lhe disséssemos para continuar já sabíamos a resposta: - deixai passar todas as ovelhas para eu acabar a anedota. O que demorava uma eternidade. Era uma forma subtil de dizer por hoje já basta e o que é de mais é como o que não chega. 

Assim tivesse Cavaco Silva o dom de contar histórias ou anedotas. Mas não nasceu para isso e quase que podemos dizer para nada, ou seja, só para favorecer os seus amigos. 
Conheci algarvios bons contadores de anedotas. Havia um que várias vezes vinha à minha terra, trabalhava no Instituto Nacional de Estatística (INE), era um regalo ouvi-lo. Tinha um grande reportório anedótico. 
Passávamos horas e horas da noite, à porta do Café Malheiro, era ali que estava hospedado, com muita atenção às várias anedotas que contava. Em quase tudo se parecia com o senhor António Rego. Nas pausas, nas exclamações e nos enredos. 
Só que ao findar não vinha com um rebanho de ovelhas a passar aquela ponte de mil metros: era um até amanhã.
Assim fosse Cavaco Silva.  

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A Praça:


Ao blogue Freamundense roubei estas duas fotos da senhora Raquel a varrer a folha das árvores que caiam na praça do mercado. São fotos que nos trazem uma certa nostalgia e tristeza por estas duas realidades. Praça e Centro Cívico. Se criticávamos o abandono a que estava voltada a Praça, só nas vésperas de feiras quinzenais é que a limpavam condignamente, os “polícias” eram retirados, o espaço dos ourives e talhantes eram lavados, hoje quase se passa o mesmo, com o senão de por ali não acoitar “polícias”.
Entre uma e outra realidade não sei qual a melhor. Na altura vi com bons olhos o arranjo do centro de Freamunde. Hoje constato que era melhor a existência da praça do mercado. Se estava mal tratada mal tratado está o centro cívico: é o muro que o circunda sem a lousa na parte superior, o anfiteatro todo besuntado com sarrabiscos, a tijoleira quase toda partida o que vem salientar o desleixo a que está voltado. 
Freamundenses que se lembram de uma coisa ou outra são unânimes em dizer que regredimos. Depois houve a ideia “luminária” de deitar abaixo as lojinhas tendo-se comprometido ao novo arranjo ser o mais breve possível. Só que essa brevidade já vai em quatro anos.
Quem me lê deve dizer! Lá vem ele a bater na mesma tecla. Só que os Freamundenses não têm outro meio de fazer valer as suas ideiasou contestações. Os órgãos que compõem a Junta de Freguesia não se reúnem, não há assembleias e assim torna fácil quem a dirige: o não ser contestado. É com tristeza que vejo tudo isto.   
No meu blogue dou relevo ao que melhor produz Freamunde. Às vezes sou acusado por ser um "filho" coruja. Por isso não posso calar o que de mal, quanto a mim, estão a fazer a esta nobre terra.

sábado, 17 de novembro de 2012

A diferença é os óculos...


Contam os nossos avós que um certo agricultor, passando a fronteira de Espanha, se terá queixado ao seu amigo espanhol de que as colheitas iam de mal a pior e que já nem davam para alimentar os animais de carga.
Este de imediato lhe propôs um negócio: vender-lhe uma raça de burro que, com o tempo, habituar-se-ia a não comer, contribuindo para a diminuição das despesas. Regressado a Portugal, depressa começou com o plano de emagrecimento, que começava por alimentar o animal, dia sim, dia não, até que chegasse ao ponto de o animal não comer.
Algumas semanas depois, mostrava todo orgulhoso o burro aos seus vizinhos dizendo: - Vejam só, a última vez que comeu foi há quatro dias. Mais umas semanas e posso garantir-vos que se habitua e deixa de precisar de comer. Os dias passaram e a dieta intensificava-se e o agricultor passeava. De repente, a aldeia deixou de ver o agricultor e o burro.
Estranhando a ausência prolongada, um vizinho bateu à porta do agricultor e perguntou. - Está tudo bem consigo, vizinho? E o burro está tudo bem com ele? O agricultor, em lágrimas, responde-lhe. - Ai vizinho, que desgraça, não quer você acreditar que o raio do burro morreu? Logo agora que já se tinha habituado a não comer".
Esta história, passada de geração em geração continua, actual. Portugal é o burro. Passos Coelho o dono. Quando Passos Coelho verificar que o burro morreu pela fome a que foi sujeito, compreende, que a sua situação é igual à do lavrador. Vai verter lágrimas. Só que estas podem ser compensadas com a saída pela janela que é o que os portugueses fazem aos traidores. E Passos Coelho é o Miguel de Vasconcelos do século vinte e um.

Eu sou Polícia, Orgulhosamente!:


Não sei quem foi o autor, nem importa... Mas está tudo aqui. Percam 5 minutos a ler que pode valer a bem apenas para alguns...
... No passado dia 11 de Fevereiro, decorreu um pouco por todo o país, uma marcha/concentração de cidadãos devidamente enquadrados por uma frente sindical, que em plenos pulmões gritavam contra o fantasma do endividamento, a famosa crise e suas maleitas.
A mim, foi-me confiada a missão de zelar por estas mesmas pessoas e ao mesmo tempo fazer por que tudo corresse dentro daquilo que tantas vezes se ouve falar, a liberdade democrática.
E assim foi, como sempre, mas não para sempre, dentro do espírito sereno da malta Tuga, lá fomos indo desaguar na Praça do Povo, outrora conhecida por Praça do Comércio, cantando, berrando e mandando umas asneiradas, enquanto pelo canto do olho, alguns davam uma mirada Tuga a uma ou outra menina, enquanto emborcavam uma imperial à pressa porque não podiam largar o cartaz muito tempo.
Dentro daquilo considerado normal.
Discursos, apupos, vaias e aplausos, termina a parte oficial.
Eis senão quando, foi-me dada a ordem de recolher o pessoal, visto que o evento estaria na sua fase de rescaldo. Assim, juntei a malta e devidamente enquadrados, deslocamo-nos para a nossa viatura para que pudéssemos trincar uma bucha.
Nesse mesmo deslocamento, há um garoto, que encoberto pela multidão, grita “…vão trabalhar seus chulos… parasitas… filhos da puta…fascistas…” .
–Cabrão! Pensei eu; -Devias-me dizer isso lá no café, na folga, ou no tempo dos cowboys lá no faroeste, paneleiro, covarde!
Ignorei e dei ordem para ignorar, fomos à bucha. A minha sandes devia estar estragada, caiu-me mal…
Eu sei que agora é tarde, mas mesmo assim a esse covarde e outros que para aí andam, tenho duas ou três coisas para vos dizer, cá vai;“.Vão trabalhar…”???
Os chulos, ganham 780€ por mês, trabalham 45 horas por semana que se às quais somarmos os gratificados passam para 60, isso, 60 horas semanais.
Os parasitas, trabalham os feriados todos, sim, todos sem direito a compensação, as noite e os fins de semana sem direito a qualquer pagamento de hora nocturna, na chuva no sol, no frio no calor e por aí fora.
Os Filhos da Puta, depois de saírem de serviço, vão para tribunal com o bêbado que podia muito bem atropelar a tua família toda quando saíste para ir jantar e celebrar uma merda qualquer que te tenha acontecido. Ficam no trabalho a acabar o expediente que vai de manhã para tribunal, com o bando que assaltou à mão armada, ou com o que roubou, matou, assaltou a farmácia, a ourivesaria, o carro, o puto que vinha da escola, a velha no autocarro, o camone no eléctrico e por aí fora, que por mim, podias ser tu, a tua mãe, o teu filho o teu irmão, que o trabalho seria feito de igual forma.
Os fascistas, chamam o reboque quando não consegues sair com o carro, quando um como tu, abusa da sua liberdade e deixa o carro mesmo na saída da garagem. Entendes este conceito de liberdade? Penso que sim.
Os chulos abrigam e protegem a mulher, as crianças que levam porrada de um esterco qualquer, só porque lhe apetece e leva-o a tribunal, na hora de folga.
Os parasitas, entram em casas em chamas, enfrentam armas de fogo, embrulham-se á facada, perseguem a grandes velocidades, lidam com todo o tipo de doenças, correm na direcção oposta quando todos os outros fogem dali para fora.
Os chulos saíram do seu seio familiar e social e deslocaram-se, alguns para mais de 400km de casa, deixando tudo para trás, para fazer vida de forma honrada sem pedir nada a ninguém. Sem pedir nada a ninguém, sabes o que isso é?
Os parasitas, vivem num estatuto aprovado há mais de dois anos e regem-se pelo estatuto antigo, não conseguem passar um fim de semana inteiro com a família esperam 12 anos por uma promoção (única na carreira de 36 anos) e se quiserem algo mais, concorrem 1300 para 50 vagas.
Aqueles que insultaste, têm família, trabalham duro, são esforçados e honrados e são montes de merda como tu que colocam isso em causa? Não! Definitivamente não! Estes mesmos Homens e Mulheres apoiam os idosos que alguém como tu abandonou ao consumo do esquecimento, levam-lhe as compras, mudam-lhe a garrafa do gás e dão-lhe a medicação apenas em troca de um olhar grato, e isso sim, justifica tudo. Tu apareces quando tudo acaba, para vir buscar o ouro e ficar com as chaves de casa. E nós é que somos os chulos!
Aqueles que olhas com desprezo sabem um pouco de tudo, são Padres, Juízes, Médicos, Socorristas, Bombeiros, Rambos, Psicólogos, Professores, Mecânicos, e se somares isto tudo e mais qualquer coisa tens um Polícia.
Quando é que vais perceber que só falas em liberdade porque nós existimos?
Quando é que vais entender que tipos como tu são a razão da minha existência enquanto profissional.
Se nós não existíssemos, ias à praia? Ao futebol? Jantar fora? Deixavas o teu filho ir à escola? Quer-me parecer que não.
Será que não entendes que ao insultares-me, estás a insultar aquilo que és, um homem livre?
Tudo isto funciona com combustível que concerteza encontrarás em abundância num qualquer Homem ou Mulher de farda; Abnegação, Generosidade, Espírito de Sacrifício e Altruísmo. Googla estas palavras e saberás a definição, bom era que aprendesses o conceito.
Já hasteei a minha Bandeira à chuva, já a arreei ao som do clarim, já representei a minha Mui Nobre Nação, já chorei a cantar “A Portuguesa” caso não saibas, é o título do nosso hino, conheço muitos Homens e Mulheres que cozeram a nossa Bandeira no braço que fazem de ti uma cabeça de alfinete num mundo de cabeçudos. A minha farda é rica em sangue suor e lágrimas, minhas e de tipos como tu, que quando precisam, ao ver-me encontram refugio e protecção.
Olha, o meu Pai nunca me deu um carro, nem me pagou a universidade, mas deu-me coisas sem preço, entre elas o valor de um Não, Educação, Humildade e Espírito de Luta.
EU SOU POLÍCIA, ORGULHOSAMENTE!
E TU, O QUE É QUE TU JÁ FIZESTE PELO TEU PAÍS?"
Pedro Dias

sábado, 10 de novembro de 2012

As mulheres têm fios desligados - António Lobo Antunes‏:


"Há uns tempos a Joana
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me."
António Lobo Antunes

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

António Lobo Antunes e os "pobrezinhos" de Isabel Jonet:


"Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto.
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro) de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico - Agora veja lá, não gaste tudo em vinho o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros.
- O que é que o menino quer, esta gente é assim e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse - Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis"

domingo, 4 de novembro de 2012

Tempos idos:

Gosto de dar uma vista de olhos na Internet e ver com que o Facebook ou o YouTube me brinda. Quase sempre sou surpreendido com caricaturas no Facebook, bastante pertinentes, com a situação do País e a crítica ao Governo. Alguns vídeos do YouTube enchem-me de prazer quer pelas suas imagens ou histórias. Foi o que aconteceu hoje no YouTube. Sou adepto ferrenho por vídeos que me traga à lembrança tempos idos. Recordar é viver e esses vídeos fazem-me viver tempos antigos, dos quais, ainda não me encontrava no reino dos vivos.


Este texto tem por finalidade apresentar alguns a partir de mil novecentos e quarenta e sete. O autor tinha familiares em Meixomil, na quinta da Bela Vista, de certeza familiar dos Tavares, da pensão com o mesmo nome, que se situava na Rotunda em Paços de Ferreira.

Nesse tempo a Rádio Televisão Portuguesa ainda não existia e para divertir os conterrâneos apareciam habilidosos com máquinas de filmar a captar cenas que depois eram exibidas para contento de familiares e amigos.

Os mais experientes - fotógrafos - que já previam a evolução da tecnologia, aventuram-se a filmar cenas ou acontecimentos da sua terra ou nacionais. Recordo-me e já aqui no meu blogue referi quando o senhor Hernâni Cabral exibia alguns filmes de sua autoria junto à antiga barbearia do Aprígio da “Riqueta” e do Rosário, na parede que fazia parte da casa dos Torres.

Para lembrar, porque já aqui foi reproduzido, o vídeo das festas Sebastianas, na altura denominadas por festas da Vila, que nos mostra Freamunde no ano de mil novecentos e cinquenta e seis, exibo-o novamente.  
Delirávamos com estas cenas. Pena que o seu filho Carlos, até para memória de seu pai,  não enverede no mesmo sentido que o filho do senhor António Tavares e traga à memória essas imagens e histórias de Freamunde.

De certeza que Freamunde ficava mais rico com o desvendar da sua tradição.
E como disse recordar é viver. Sabe bem recordar esses tempos. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Lembrar o 2 de Novembro de 1981:


Era um dia como tantos outros. De manhã, como vem sendo habitual, os católicos deslocaram-se à Igreja Matriz de Freamunde, para assistir à missa que é celebrada em honra dos Fiéis Defuntos, hoje foi celebrada na Capela do Cemitério Nº. 2, e assim se dar início a mais um dia dois de Novembro.
Ao contrário do de hoje, aquele estava um dia de estio, próprio para as ceifas e desfolhadas que se realizavam ao ar livre nos campos ou eiras dos lavradores de Freamunde. Não faltavam familiares e amigos nessa ajuda. Contavam-se histórias da vida vivida e cantavam-se as modas da altura do folclore português: “Freamunde é Lindo e Encantador”, “Ceifeiras de Freamunde” e outras que o Rancho Folclórico de Freamunde vai usando no seu vasto reportório.
Para mim também era mais um dia no calendário da vida. Desempenhava funções de Guarda Prisional no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira e como sempre de manhã por volta das sete horas e quinze minutos deslocava-me para ali. A minha esposa já tinha começado o seu dia de trabalho. Saía de casa às cinco horas e trinta minutos para começar o seu dia de labuta às seis horas na fábrica (Luteme) de Luís Teles de Meneses.
Com a minha saída de casa, saía depois da minha esposa, a nossa filha Sónia ficava sozinha até por volta das oito horas e trinta minutos, hora a que a minha cunhada Ana a vinha buscar para casa dos meus sogros. Não frequentava os infantários pelo motivo de ser caro para mim em conformidade com filhos de outros colegas meus. Como era funcionário público e não podia fugir aos descontos, ao contrário dos meus amigos, por isso não concordava, porque não estava para pagar para outros, sabendo que eles tinham melhores posses. Por esse motivo a minha filha Sónia não pôde disfrutar dessa regalia.
O meu dia de trabalho decorreu normalmente, digo normalmente, porque nas cadeias o que é normal, nas empresas privadas é um dia turbulento mas, tínhamos de viver com essa realidade e esse era o pão nosso de cada dia. Por volta das dezanove horas dava-se o encerramento e quando tudo estava certo era o findar do dia de trabalho para quem andava fora de escala que era o meu caso: trabalhava de segunda a sexta-feira.
Cheguei a casa e vi a minha esposa deitada no sofá da sala a queixar-se com dores. Andava de parto e sabia que andava por dias mas nunca pensava que era nesse devido ao facto de ter ido trabalhar e ter aguentado o dia todo de trabalho. Desloquei-me a casa de meus pais, moravam no lugar da Bouça, Freamunde, a ver o que a minha mãe me aconselhava. Veio comigo, mais a minha irmã Fátima, para se inteirarem se as dores eram de parto. Disse-me que o parto estava por horas e o melhor era levar a minha esposa para a maternidade.
Quando nasceu a minha filha Sónia a Maternidade de Paços de Ferreira prestava serviço aos habitantes do concelho. Assim, ali nasceu, mas registada como se tivesse nascido no lugar do Calvário em Freamunde. Quando a fui registar e disse que tinha nascido na minha residência fui ameaçado que se isso não correspondesse à verdade mais tarde podia ser ressarcido dos abonos atribuídos. Com estas advertências não me importei porque sabia que um dia mais tarde a minha filha me responsabilizava por essa tomada de posição e gosto que a milha filha tenha estampada no seu Bilhete de Identidade a sua terra, ao contrário de muitos.
Nessa altura a Maternidade de Paços de Ferreira tinha encerrado e tive de levar a minha esposa para o Hospital de Lousada. Assim, eu, a minha esposa e a minha irmã nos deslocamos para o Hospital de Lousada na minha viatura pelo centro de Freamunde, refiro isto, porque gosto de lembrar que na passagem, passamos pelo meu pai e a minha irmã mais nova, Fernanda, a minha irmã Fátima que me acompanhava dizer-me: - olha a "Nandinha" vai agarrada ao pai de certeza ele já vai com a “pinga”. Vezes sem conta esta frase vem-me à memória e quem me lê não sabe o gosto que tinha em ver novamente o meu pai com a “pinga”. Relembro, esta peripécia, porque o dia de hoje é em memória dele e de muitos que como ele se encontram nos prados de repouso.
Chegados ao Hospital de Lousada e depois das formalidades para a entrada da minha esposa não demorou muito a que a minha irmã me trouxesse a notícia que tinha nascido um rapaz. Fiquei contente. Passados uns dias fui registar o Victor Hugo ao Serviço de Registo e Notariado de Paços de Ferreira. Fui atendido pela mesma funcionária que registou a minha filha Sónia e aqui não fui confrontado com o sítio em que meu filho nasceu. Sei o motivo disso. Como a Maternidade de Paços de Ferreira tinha encerrado de certeza que receberam ordens para o não fazer porque senão o concelho de Paços de Ferreira um dia mais tarde não tinha habitantes aqui nascidos.
E assim, se colhe letras e frases para recordar o dia dois de Novembro de mil novecentos e oitenta e um. Recordar é viver. 
Que o Victor Hugo tenha um dois de Novembro em cheio na companhia da sua companheira e filho, meu neto, Diogo e que em La Ricamarrie, S. Etinne, França, o dia seja de estio como o de mil novecentos e oitenta e um, mesmo sem o folclore de Freamunde.   

sábado, 27 de outubro de 2012

A Mariana:


Era irrequieta nas brincadeiras no recreio do liceu. Ao contrário, estava atenta às aulas que as professoras administravam nas várias disciplinas do décimo segundo ano. Quando lhe perguntavam o motivo da mudança de comportamento respondia: - cada coisa no seu lugar.
Todos gostavam da Mariana. Ela sabia disso e fazia valer os seus dotes femininos. Algumas amigas invejavam-na pela cativação que Mariana exercia sobre o sexo masculino.

Nas várias idas ao café, próximo do liceu, se a Mariana ia não faltavam convivas o que enchia de orgulho e negócio o senhor Anselmo dono do café. Quando Mariana ia pagar a sua despesa, o senhor Anselmo, dizia que já estava paga. Fazia-o porque quando Mariana não se deslocava ali os seus colegas também não compareciam e o negócio sentia-o.
Mariana concluiu o décimo segundo ano e foi para a Faculdade de Medicina de Coimbra estudar. Por motivos de estudos e financeiros foi para ali viver e dificilmente vinha à sua terra a não ser para uma visita a seus pais ou às festas Sebastianas. Mais tarde, muito mais tarde, enamorou-se mas não foi feliz.
Os seus antigos colegas de Liceu e turma também sofrem com a desdita de Mariana. Teve muitos admiradores e pretendentes e foi apaixonar-se por alguém que não a merecia. A vida e o coração têm destas coisas. O vídeo que acompanha este texto é no intuito de alegrar o coração de Mariana. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Amor de Perdição no Prós e Contras:


Assisti ao programa porque gostei do tema e sou um fervoroso adepto do escritor Camilo Castelo Branco e grosso modo do programa Prós e Contras. Não pela apresentadora que de há uns tempos a esta parte tem sentido dores de barriga por alguma crítica ao programa ou a algum convidado. A missão do moderador/a é deixar a conversa fluir e não estar sempre a interromper ou intervir com isso denotando a tal dor de barriga.
Foi enaltecido o papel de Camilo Castelo Branco na literatura portuguesa e os vários livros por ele escrito sendo que Amor de Perdição foi o mais conhecido e tornou-se numa peça de teatro que várias companhias de teatro profissional ou amador levaram à cena. Falo dele com conhecimento de causa porque fui várias vezes assistir à sua exibição na Associação de Socorros Mútuos Freamundense, local exíguo, mas onde são exibidas belas peças de teatro quer pelo Grupo de Teatro da Associação Cultural Recreativa Pedaços de Nós, que pôs em cena durante vários fins-de-semana do ano passado, Amor de Perdição, e o Grupo Teatral Freamundense com outras peças. 
Amor de Perdição traz-nos os amores e desamores de Simão Botelho com Teresa e Mariana. Onde levou à sua própria condenação, com o degredo, por ter matado o seu rival Baltasar Coutinho e ter causado a morte do seu amigo João da Cruz, pai de Mariana, sua estimável companheira das horas de infortúnio.
Nesse tempo o amor era vivido mais intensamente e para ter a permissão dos seus progenitores era preciso cair-se em graça. Quando era o contrário e a filha teimava em levar a sua avante, dava regra geral em tragédia, basta lembrar Amor de Perdição e Romeu e Julieta que puseram em desavença suas famílias.
Hoje as coisas são mais simples. Namoram e no primeiro encontro já trocam várias carícias, coisa que há uns anos era impensável: um aperto de mão nos primeiros encontros, uma primeira saída num dia de festa mas na companhia de uma pessoa de família e não passava disso. Nos tempos que correm casam-se sem se conhecerem bem. Não há tragédias que levam à morte mas levam à tragédia que é o divórcio em que são os filhos quando os há a padecerem.