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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

(Luís Rocha, in Facebook, 09/02/2026, Revisão da Estátua):

(Luís Rocha, in Facebook, 09/02/2026, Revisão da Estátua)


(A Estátua não resiste a sublinhar a assertividade política e a qualidade literária deste texto. Diz tudo sobre os resulatdos das eleições presidenciais. Sim, ficou provado que, ao Ventura, a grande maioria dos portugueses não compraria um carro em segunda mão… 🙂 .Parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 09/02/2026)


Tenho uma urticária persistente a fascistas, não tanto pelas ideias, porque isso exigiria que elas existissem para lá do panfleto berrado, mas por aquele concentrado espesso de ressentimento, frustração mal digerida e complexo de inferioridade mascarado de valentia.

O que verdadeiramente me irrita é a facilidade com que meia dúzia de espertalhões, de peito inchado e frase feita, conseguem montar um ajuntamento de boquinhas abertas, olhar em êxtase e raciocínio em ponto morto, prontas a assinar qualquer coisa desde que venha acompanhada de indignação, punho cerrado e promessas de vingança.

Coiso sempre funcionou assim, como um vendedor de carros usados à beira da estrada, daqueles com bandeirolas a esvoaçar, sorriso falso e olhos na tua carteira. Abre o capô com teatralidade, bate no tejadilho como quem testa um melão e garante que aquele chaço é uma máquina de sonho, nacional patriótica, honesta e injustamente perseguida pelos grandes stands do costume. Se o motor faz um barulho estranho, a culpa é do antigo dono. Se o velocímetro não funciona, é sabotagem. Se ninguém compra, então é porque o sistema está contra ele.

A última encenação é esta imagem piedosa onde todos os outros candidatos aparecem unidos para o “derrotar”, como se tivessem combinado num armazém clandestino acabar com o negócio do homem. É a velha história do vendedor aldrabão. Quando o carro não pega, nunca é defeito de fabrico, é sempre inveja da concorrência, gasolina adulterada ou um complô das oficinas autorizadas pela marca.

Lamento informar os clientes mais fiéis do stand improvisado, mas quem derrotou o Coiso não foi nenhuma cabala, nem uma coligação de bastidores, nem uma conspiração de gente bem vestida a beber cafés com o mindinho no ar. Quem o derrotou foi um homem que não estava na política há mais de uma década, que não aparecia na televisão há mais de uma década e que, ainda assim, conseguiu a maior votação de sempre a seu favor. Um feito tão pouco revolucionário que levou pessoas a ir votar de barco, aquele meio de transporte radical usado quando a vontade de chutar o traseiro de fascistas supera a preguiça.

Convém dizer isto devagar, como se explica a alguém porque não deve beber lixivia. O Coiso perdeu por margem esmagadora em todas as freguesias com maior literacia do país. Perdeu onde se lêem contratos até ao fim, onde se percebe a diferença entre um carro usado e um carro martelado, onde se sabe que gritar “está como novo” não substitui uma revisão decente. Não perdeu porque é uma vítima, nem porque foi silenciado, nem porque alguém lhe trocou as rodas durante a noite.

Perdeu porque quem vota são as pessoas. E as pessoas, quando confrontadas com um biltre fascista, mentiroso e troca-tintas, decidiram votar contra ele. Simples. Sem dramatizações nem choraminguices.

O que dói verdadeiramente aos devotos não é a derrota, é a sua vulgaridade. Não houve perseguição épica, não houve heróis tombados em combate, não houve golpe de teatro. Houve filas, boletins, cruzes feitas com calma e uma escolha clara. Pelo caminho, e isto deve ser particularmente ofensivo para quem vive da buzina e do insulto, foi eleita uma pessoa civilizada. Alguém que não precisa de berrar para vender a ideia, que não promete quilometragem falsa nem pinta ferrugem com spray patriótico.

Coiso tentou tudo no fecho do stand. Tentou o discurso do injustiçado, o olhar húmido de quem foi enganado pelo destino, a pose de quem jura que aquele carro ia andar mais cem mil quilómetros se o tivessem deixado. Faltou-lhe apenas dizer que perdeu porque choveu ou porque Mercúrio estava retrógrado no dia da inspeção. Mas a verdade é cruel e simples. O público não alinhou. O motor batia, o conta-quilómetros cheirava a martelado e o ruído era sempre o mesmo, independentemente do modelo em exposição.

Alguns clientes continuam, claro, e até trouxe mais uns quantos curiosos atraídos pelo barulho. Há sempre quem confunda teimosia com convicção e buzina com potência. Continuam a rondar o stand, a jurar que aquele carro ainda vai valer uma fortuna, a prometer que da próxima vez é que pega. Mas muitos afastaram-se. Olharam, encolheram os ombros e foram procurar outra coisa, talvez menos excitante, mas Seguramente menos perigosa.

E assim chegamos ao fim do dia, com os votos contados e as luzes a apagar. O vendedor pode continuar a gritar que é o único honesto do ramo, pode garantir que o povo não percebe de mecânica política, pode jurar que sem ele o mercado colapsa. O que não pode é fingir que não ficou com o stand às moscas, os carros encalhados e o público que sabe guiar a seguir viagem.

Coiso perdeu porque as pessoas escolheram outra coisa. Escolheram menos fumarada e mais fiabilidade, menos histeria e mais decência, um futuro talvez aborrecido, mas que ao menos pega à primeira. Para quem vive de vender carros martelados como se fossem sonhos novos em folha, é uma humilhação insuportável.

Para o resto do país, foi apenas o momento em que se decidiu não comprar sucata.


Referências consultadas:

https://pt.euronews.com/…/seguro-eleito-com-numero…

https://www.rtp.pt/…/segunda-volta-das-presidenciais-a…

https://www.aljazeera.com/…/portugal-elects-socialists…

https://www.reuters.com/…/portugal-votes-presidential…

Beijinhos e até à próxima…

Do blogue Estátua de Sal 

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