No verão de 2004, numa tasca em Split, um croata que tinha combatido na guerra da Bósnia dizia-me que não suportava a malta de Zagreb. Quando lhe perguntei se era coisa ancestral disse-me que não, que era um ódio de estimação recente. Antes disso, até 1991 para ser mais preciso, não suportava era gente de Belgrado.
Lembrei-me desta história a propósito de um popular que gritava, ao microfones das televisões em Leiria, "se tivesse morrido gente em Lisboa estavam lá todos!!!". Sempre me fascinaram estes bairrismos num país do tamanho de um quintal.
Há vários exemplos interessantes e elucidativos. Por exemplo, o presidente da câmara do Porto, no caso de ser um idiota encartado, repetir ad nauseum que a TAP só serve Lisboa (como se qualquer outra companhia fizesse um hub em cada cidade).
O amigo Menezes, nos idos de 90 e antes de endividar Gaia até ao osso, que gritava pelo eixo sulista, elitista e liberal. O João Miguel Tavares que fala, repetidamente, no interior profundo, para falar da sua Portalegre natal que está aí a umas 2 horas do mar. A Clara Ferreira Alves que fala da provincía e da "região centro", que para ela é Alcobaclça, como se ainda existisse uma corte ou metrópole.
Enfim, há todo um conjunto de declarações e pensamento geográfico que me deixam sempre sorridente e pensante. O "Portugal profundo" é a aldeia que está a 200km do mar. O "Norte", é aquele sitio com 3 autoestradas alternativas para percorrer 300 kms. O "Oeste" é aquela zona ventosa a 1,5h de Lisboa. O "Sul" mais distante são aquelas praias para onde todos vão em 3h nas insuportáveis enchentes de Agosto.
Portugal, visto de cima, é um pequeno pedaço de terra onde se torna difícil marcar distâncias. As conversas bairristas são ligeiramente irritantes e até ridículas. Mostram alguma falta de mundo, se me permitem.
Porque é que alguém vai mencionar o elevador da Glória e o cabo partido para comparar estragos provocados pelo vento? Morreu mais gente no elevador...qual é o ponto de se pegar nisso?
Aquilo que aconteceu em Leiria, com a passagem do vento, acontece todos os anos em vários pontos do mundo. Nas ilhas do caribe, por exemplo, já nos habituámos a ver tudo a ir pelos ares com a passagem dos furacões. São aqueles 2 minutos do telejornal entre o fim da última entrevista ao Ventura e a notícia do novo reforço do Benfica. É chato, horrível para quem fica sem casa ou com o emprego em risco, mas não é novo ou inesperado.
Nota para quem não percebe o conteúdo do texto. Não estou a menosprezar mortes, prejuizos ou transtorno das populações. É inegável a destruição do vento. O que estou é a criticar, diretamente, quem repete que o mesmo problema, em Lisboa, teria uma atenção diferente. Isso, meus amigos, é sermos ainda mais pequenos do que o país.
É irrelevante a zona de Portugal onde acontece a calamidade. Cheias em Lisboa, fogos no Gerês, tremor de terra nos Açores, derrocadas na Madeira, destruição provocada pelo mar na Nazaré. A forma como respondemos a tudo o que é desgraça é, em si mesmo, outra desgraça. E é, também por isso, profundamente redutor apelar ao bairrismo no meio da confusão quando, ainda por cima, a ajuda chega de todo o lado.
Há de facto uma concentração de serviços (e trabalho) em Lisboa que não beneficia o país (é pensar no trânsito e na crise da habitação) mas imaginar que os acidentes são mais mediáticos e com maior quantidade de ajudas, quando acontecem em Lisboa, é só estúpido. Lamento o vocabulário.
Portugal é, essencialmente, dirigido por incompetentes. A capital do país tem o Moedas, o mais inútil e cobarde presidente que Lisboa já viu. O Porto teve o Rui Moreira durante anos. Outro que, enquanto discutia borlas fiscais em prédios da família, transformava a cidade num alojamento local e ia mandando bicadas ao centralismo, à TAP, a tudo o que mexia para baixo do Mondego (onde terá ele aprendido tão tacanha estratégia?).
No governo então, nem sei por onde pegar. É um ministro da educação que fala no privilégio do ensino superior, um ministro da economia que espera que as pessoas tenham um salário de janeiro para pagar telhados (num país onde se poupa, quem consegue, aí uns 10% do salário). É ver o ministro da defesa a confundir a NATO com uma receita da bimby e ter sonhos molhados com Olivença. É ouvir o ministro dos negócios estrangeiros, aquele caniche insuportável, a elogiar a chegada da democracia à Venezuela ou a ministra da saúde, a culpar tudo o que mexe, enquanto vai desmantelando o SNS semana após semana. É ver e ouvir, sem pestanejar, o CEO da Spinumviva, esse matarruano de cepa, dizer que as pessoas tiveram a infelicidade de não evitar falecer.
Em resumo, não é um problema da capital e da província, nem do sul ou do norte, muito menos do litoral ou do interior. Quando consegues sair de casa à hora de almoço e jantar na parte do país que te apetecer, ilhas incluídas, não há distância que justifique a mesquinhez e o bairrismo. Há é gente, em barda, com pouquíssima capacidade de liderar, sem qualquer experiência relevante de trabalho, sem conhecimento da vida real que tu, por alguma razão masoquista, insistes em colocar no poder.
É só isso.
Ps - no fim de ter escrito este texto lembrei-me que, na ilha onde vivo, o pessoal ainda se diferencia por quem vive antes ou depois da serra. Num pedaço de terra onde a maior estrada tem 22 km e há quem passe anos sem a fazer. É como se fôssemos uma Suíça dos cantões. Da Temu, claro.

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