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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A CERIMÓNIA:

 

Há imagens que dizem mais do que muitos discursos. E, por vezes, aquilo que uma cerimónia não mostra é politicamente mais revelador do que aquilo que pretende mostrar.

Foi isso que me aconteceu ao observar as imagens das comemorações do "Dia da Independência" da Ucrânia, em Kyiv. Esperava ver uma capital mobilizada, uma cidade de mais de dois milhões de habitantes a sair à rua para celebrar a independência do seu país, a envolver o Presidente, as autoridades e os representantes estrangeiros numa manifestação popular de orgulho nacional.
Não foi isso que vi. Vi uma cerimónia oficial, protegida por militares e forças de segurança, com Zelensky, autoridades ucranianas e representantes de alguns dos seus principais aliados ocidentais. Vi a formalidade, os discursos, as bandeiras, os uniformes e o protocolo.
Mas vi muito pouco povo. E essa ausência, numa ocasião que deveria ser a expressão máxima da identidade nacional, é uma imagem que não pode ser simplesmente ignorada.
Kyiv não é uma cidade deserta. Os seus habitantes continuam a frequentar festas, concertos, manifestações e acontecimentos públicos. A população ucraniana demonstrou, mesmo durante a guerra, que não desapareceu das ruas quando quer expressar uma opinião ou participar num acontecimento que considera importante.
Por isso, a explicação automática de que “as pessoas ficaram em casa por medo dos ataques russos” é insuficiente. Se o medo fosse a razão determinante para a ausência de civis, seria necessário explicar por que razão os mesmos cidadãos aparecem noutras concentrações públicas, manifestações e acontecimentos culturais realizados sob a mesma ameaça.
A questão torna-se ainda mais desconcertante quando pensamos no significado da data. O "Dia da Independência" não é uma comemoração qualquer. É a celebração da própria existência do Estado ucraniano enquanto nação independente. Seria, portanto, o momento ideal para o poder político mostrar ao mundo uma sociedade unida em torno da sua liderança e da sua independência.
Mas aquilo que as imagens mostram é outra coisa. Mostram sobretudo Estado, militares e aliados estrangeiros.
O povo não aparece. E são para cima de dois milhões! E quando o povo não aparece numa cerimónia destinada precisamente a celebrar aquilo que lhe pertence - a independência da sua própria pátria - a imagem torna-se inevitavelmente estranha.
Não posso afirmar que todos os ucranianos rejeitem Zelensky. Seria uma conclusão que as imagens, por si só, não permitem retirar. Mas também não aceito que uma cerimónia destas possa ser apresentada como uma demonstração inequívoca de apoio popular a Zelensky.
Porque uma coisa é o apoio institucional e diplomático que chega de Washington, Bruxelas, Londres ou de outras capitais europeias. Outra coisa é o apoio que vem das ruas de Kyiv. E foi precisamente esse apoio das ruas que não apareceu.
É essa a diferença fundamental. A cerimónia pareceu, assim, menos uma manifestação popular de força nacional e mais uma demonstração de força institucional protegida militarmente e respaldada diplomaticamente.
Zelensky não estava sozinho. Mas estava rodeado sobretudo por aqueles que representam o Estado, as Forças Armadas e os aliados internacionais. Faltava aquilo que, numa celebração da independência, deveria ser a personagem principal: o cidadão comum.
E essa ausência pode ter várias explicações. Mas não pode resultar de uma decisão de segurança. Na minha apreciação resulta de uma organização deliberadamente restrita para evitar a contestação popular, face ás últimas manifestações que se registaram em Kiev. Resulta, claramente, de um crescente afastamento político da população do governo de Zelensky..
Não estamos lá, mas vemos o que as câmaras registam. E as câmaras mostraram uma coisa impossível de esconder: não houve qualquer manifestação popular em torno da cerimónia oficial.
A cidade não está politicamente morta. Naquele momento, naquele lugar e naquela cerimónia, o poder não conseguiu mostrar a rua. E uma pergunta fica suspensa: Se a independência é uma causa tão profundamente sentida por milhões de ucranianos, se o Governo representa efetivamente a vontade nacional e se Zelensky continua a gozar de um apoio popular tão expressivo como frequentemente nos é transmitido, por que razão a imagem da celebração oficial foi tão pobre em povo e tão rica em poder?
Talvez porque a "independência" se tivesse tornado uma "dependência", para uma parte significativa dos ucranianos, e tenha hoje um significado diferente daquele que o poder político pretende atribuir-lhe. Talvez porque, depois de tantos anos de guerra, morte, deslocações, dificuldades económicas e incerteza, a palavra “independência” já não produza a mesma emoção coletiva. Ou talvez porque entre a Ucrânia oficial e a Ucrânia real exista hoje uma distância que as cerimónias protocolares não conseguem preencher.
É essa distância que me interessa. Porque uma bandeira pode ser erguida por um Presidente. Uma salva militar pode ser disparada por soldados. Um dirigente estrangeiro pode chegar a Kyiv para manifestar solidariedade. Mas uma nação não se demonstra apenas através dos seus governantes, dos seus militares ou dos seus aliados externos.
Demonstra-se através do seu povo.
E a cerimónia de hoje deixou uma pergunta no ar que nenhum discurso oficial conseguiu responder: onde estava o povo de Kyiv?

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