Pergunta um amigo por que razão Portugal e a Rússia exploraram de forma desigual a vantagem de serem as mais antigas nações europeias com relações com a China. Para além, naturalmente, das dimensões de uma e de outra, ambas fizeram fronteira desde o século XVI com o Império do Meio, ambas foram recebidas em Pequim como potências e não como tributários e ambas tiveram influência relevante na relação dos chineses com o mundo exterior. O problema, contudo, é o da distância que separava os portugueses de Macau da sede do poder na Cidade Proibida. As autoridades portuguesas em Macau lidavam com o Vice-rei de Cantão, enquanto dos russos tinham acesso sem intermediários a Pequim. Acresce que os russos fixaram fronteiras reconhecidas com os chineses em 1689, enquanto Macau nunca foi reconhecida como teritório português pelos chineses, reconhecimento que só teria lugar na última década da administração portuguesa. Os chineses [de Cantão] sempre entenderam Macau como uma cedência graciosa, facto que na segunda metada do século XIX foi matéria de aturadas discussões, tanto no chamado tratado de 1862, não ratificado, como no Tratado de 1887, pelo qual se formalizaram relações diplomáticas reguladas pelo Direito Internacional contemporâneo. Os chineses em Pequim conheciam os russos, enquanto dos portugueses havia dúvidas sobre a sua proveniência, pois que os chineses, habituados aos Padres do Padroado, não percebiam como entre eles havia italianos e alemães; daí que no século XIX, quando Pequim pediu informações sobre os Portugueses, receberam do Zongli Yamen, departamento imperial responsável pelas relações com os "bárbaros", recebeu a equívoca resposta de que os Portugueses vinham de "Idália", ou seja, de Itália. O que é claro é que só russos e portugueses gozavam de um estatuto diferenciado dos restantes ocidentais. Portugueses e russos eram considerados amigos, enquanto os outros "bárbaros" eram receados.
De Philip Snow, ontem aqui citado na sua recente obra China & Russia: four centuries of conflict and concord (2025), retiro a seguinte passagem que se aplica inteiramente aos portugueses:
«No entanto, os russos nunca foram vistos sob a mesma perspectiva que os seus concorrentes ocidentais. A importância que os Qing atribuíam à antiguidade das relações era muito real. Desde os primeiros anos da dinastia, os russos foram integrados confortavelmente entre os vários povos do norte que comerciavam com a China de forma convencional, sob os auspícios do Lifan Yuan (dep. responsável pelos negócios asiáticos); os britânicos e os franceses eram "extraterrestres" [estranhos/forasteiros]. Na primavera de 1858, [o imperador] Xianfeng ordenou aos seus oficiais em Tianjin que Putyatin (almirante russo) deveria ser recebido "adequadamente". «A China», sublinhou ele, «tem estado em boas relações com os bárbaros russos há mais de cem anos e não há má vontade entre nós, ao contrário do que acontece entre nós e os britânicos e franceses. Consequentemente, deve haver uma certa diferença na forma como os tratamos.»
Um académico ocidental observou que, nos documentos chineses durante estes anos, o caractere para "Rússia" nunca era escrito com o radical de "boca", prefixo insultuoso habitualmente associado aos caracteres para Grã-Bretanha e França».

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