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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Boa noite:

Dizem que o humor é a melhor forma de lidar com a tragédia, mas confesso que, perante o estado a que isto chegou, não será fácil esta minha abordagem ao tema, mesmo que de forma superficial: "𝗠𝗮𝗶𝘀 𝗾𝘂𝗶𝗻𝘇𝗲 𝗽𝗼𝗹𝗶̄𝗰𝗶𝗮𝘀 𝗲 𝘂𝗺 𝘀𝗲𝗴𝘂𝗿𝗮𝗻𝗰̧𝗮 𝗱𝗲𝘁𝗶𝗱𝗼𝘀 𝗲𝘀𝘁𝗮 𝘁𝗲𝗿𝗰̧𝗮-𝗳𝗲𝗶𝗿𝗮 𝗻𝗼 𝗰𝗮𝘀𝗼 𝗱𝗲 𝗮𝗹𝗲𝗴𝗮𝗱𝗮 𝘁𝗼𝗿𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗲𝗺 𝗲𝘀𝗾𝘂𝗮𝗱𝗿𝗮𝘀 𝗱𝗲 𝗟𝗶𝘀𝗯𝗼𝗮".

Começo por salvaguardar a presunção de inocência destes polícias e do segurança; este é um princípio do qual não posso abdicar. Faço-o pela experiência de quem caminha a passos largos para os 35 anos de serviço efetivo na PSP — e não, não é como muitos gostam de dizer "à boca cheia": "uma vida dedicada à causa e à farda". É realmente muito tempo, mas, para mim, 35 anos é uma vida apenas para quem morre com essa idade. Dizer também que, nestas mais de três décadas — nos últimos dois três anos — por motivos vários, tem sido menor a assiduidade no desempenho das minhas funções — distanciamento que me tem permitido observar e avaliar melhor este hospício.

Sei que muitos me criticarão (outros amuarão) pelo que aqui vou escrever, mas esses não me interessam nem profissionalmente, nem socialmente — até porque o meu tempo de antena para opiniões camufladas e tendenciosas há muito entrou em greve de zelo. Tornaram-se completamente irrelevantes. Nesta fase da vida, a minha paciência para o ruído é tão escassa quanto a verba do Orçamento do Estado para o aumento do vencimento dos polícias. A minha lealdade é à Lei e à dignidade, e não a um espírito de corpo que serve para encobrir ou justificar comportamentos de merd@ — alguns deles criminosos. Convenhamos que perfumar estrume nunca foi a minha especialidade.
Meus amigos, não podemos — ou melhor, não podem — continuar a tapar o sol com a peneira. A gravidade da situação é evidente e já não há como esconder a vergonha (nos quais me incluo). Algo vai mal — muito mal — nesta instituição. A falta de atratividade e o desespero para colocar polícias nas ruas fizeram com que se alargasse tanto a rede do crivo que, agora, o recrutamento parece uma Arca de Noé em versão humorística.
Entra qualquer um: desde anões que mal se veem numa operação STOP, a putos presos numa adolescência tão prolongada que ainda trazem o lanche preparado pela mamã na mochila. Ainda aqueles com uma idade avançada — alguns já com filhos maiores de idade — cuja forma física faz com que correr 100 metros ou saltar 50 cm pareçam desportos radicais de alto risco. E é isto... Por aqui podem ver que a qualidade não baixou; caiu foi a pique. Bateu com estrondo no fundo. Isto não sou eu a "inventar". O resultado está à vista do comum dos mortais.
Depois temos a simpatia de muitos destes (e de outros) — mais do que aqueles que querem admitir — por ideologias de extrema-direita. Lamentavelmente, muitos andam a cair no "canto da sereia", seduzidos por promessas de "punho de ferro" de quem os usa como bonecos para espalhar ódio e denegrir uma farda com mais de século e meio de existência.
Peço desculpa àqueles a quem este assunto já causa um género de nó no estômago. Lamento, mas a verdade é amarga: criou-se a ilusão de que o crachá ou distintivo, como lhe queiram chamar, funciona como um passe VIP para o sadismo. E que o "menu do dia" são os mais frágeis, como os imigrantes e sem-abrigo, torturados sob a arrogância que as paredes das esquadras abafam.
E por aqui me fico, penso que perceberão o porquê... Peço que não se esqueçam que foi a própria PSP que denunciou o caso, provando que a instituição não quer ser um infantário de criminosos — daqueles que partilham tortura no WhatsApp como se de um vídeo do "Encantador de Burros" se tratasse.
Agora sim, para finalizar: se forem considerados culpados, que a prisão seja o seu destino, permitindo que os polícias que honram a Polícia de Segurança Pública — a grande maioria — vejam atenuado o peso da vergonha alheia.
Boa noite.

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