Começo por salvaguardar a presunção de inocência destes polícias e do segurança; este é um princípio do qual não posso abdicar. Faço-o pela experiência de quem caminha a passos largos para os 35 anos de serviço efetivo na PSP — e não, não é como muitos gostam de dizer "à boca cheia": "uma vida dedicada à causa e à farda". É realmente muito tempo, mas, para mim, 35 anos é uma vida apenas para quem morre com essa idade. Dizer também que, nestas mais de três décadas — nos últimos dois três anos — por motivos vários, tem sido menor a assiduidade no desempenho das minhas funções — distanciamento que me tem permitido observar e avaliar melhor este hospício.
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
https://radiofreamunde.pt/
quarta-feira, 6 de maio de 2026
Boa noite:
Dizem que o humor é a melhor forma de lidar com a tragédia, mas confesso que, perante o estado a que isto chegou, não será fácil esta minha abordagem ao tema, mesmo que de forma superficial: "𝗠𝗮𝗶𝘀 𝗾𝘂𝗶𝗻𝘇𝗲 𝗽𝗼𝗹𝗶̄𝗰𝗶𝗮𝘀 𝗲 𝘂𝗺 𝘀𝗲𝗴𝘂𝗿𝗮𝗻𝗰̧𝗮 𝗱𝗲𝘁𝗶𝗱𝗼𝘀 𝗲𝘀𝘁𝗮 𝘁𝗲𝗿𝗰̧𝗮-𝗳𝗲𝗶𝗿𝗮 𝗻𝗼 𝗰𝗮𝘀𝗼 𝗱𝗲 𝗮𝗹𝗲𝗴𝗮𝗱𝗮 𝘁𝗼𝗿𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗲𝗺 𝗲𝘀𝗾𝘂𝗮𝗱𝗿𝗮𝘀 𝗱𝗲 𝗟𝗶𝘀𝗯𝗼𝗮".
Sei que muitos me criticarão (outros amuarão) pelo que aqui vou escrever, mas esses não me interessam nem profissionalmente, nem socialmente — até porque o meu tempo de antena para opiniões camufladas e tendenciosas há muito entrou em greve de zelo. Tornaram-se completamente irrelevantes. Nesta fase da vida, a minha paciência para o ruído é tão escassa quanto a verba do Orçamento do Estado para o aumento do vencimento dos polícias. A minha lealdade é à Lei e à dignidade, e não a um espírito de corpo que serve para encobrir ou justificar comportamentos de merd@ — alguns deles criminosos. Convenhamos que perfumar estrume nunca foi a minha especialidade.
Meus amigos, não podemos — ou melhor, não podem — continuar a tapar o sol com a peneira. A gravidade da situação é evidente e já não há como esconder a vergonha (nos quais me incluo). Algo vai mal — muito mal — nesta instituição. A falta de atratividade e o desespero para colocar polícias nas ruas fizeram com que se alargasse tanto a rede do crivo que, agora, o recrutamento parece uma Arca de Noé em versão humorística.
Entra qualquer um: desde anões que mal se veem numa operação STOP, a putos presos numa adolescência tão prolongada que ainda trazem o lanche preparado pela mamã na mochila. Ainda aqueles com uma idade avançada — alguns já com filhos maiores de idade — cuja forma física faz com que correr 100 metros ou saltar 50 cm pareçam desportos radicais de alto risco. E é isto... Por aqui podem ver que a qualidade não baixou; caiu foi a pique. Bateu com estrondo no fundo. Isto não sou eu a "inventar". O resultado está à vista do comum dos mortais.
Depois temos a simpatia de muitos destes (e de outros) — mais do que aqueles que querem admitir — por ideologias de extrema-direita. Lamentavelmente, muitos andam a cair no "canto da sereia", seduzidos por promessas de "punho de ferro" de quem os usa como bonecos para espalhar ódio e denegrir uma farda com mais de século e meio de existência.
Peço desculpa àqueles a quem este assunto já causa um género de nó no estômago. Lamento, mas a verdade é amarga: criou-se a ilusão de que o crachá ou distintivo, como lhe queiram chamar, funciona como um passe VIP para o sadismo. E que o "menu do dia" são os mais frágeis, como os imigrantes e sem-abrigo, torturados sob a arrogância que as paredes das esquadras abafam.
E por aqui me fico, penso que perceberão o porquê... Peço que não se esqueçam que foi a própria PSP que denunciou o caso, provando que a instituição não quer ser um infantário de criminosos — daqueles que partilham tortura no WhatsApp como se de um vídeo do "Encantador de Burros" se tratasse.
Agora sim, para finalizar: se forem considerados culpados, que a prisão seja o seu destino, permitindo que os polícias que honram a Polícia de Segurança Pública — a grande maioria — vejam atenuado o peso da vergonha alheia.
Boa noite.
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