(Luis Rocha, in Facebook, 23/01/2026)

Há muito que Luís Montenegro vive politicamente encostado à marquesa, com aquele ar de doente que não morre nem melhora. A cova está aberta, mas ninguém o empurra. Não por respeito, mas por puro instinto de sobrevivência coletiva. Os portugueses, esse povo aparentemente manso, mas com um talento ancestral para pressentir desastres, concluíram que derrubar Montenegro agora podia ser ainda pior do que deixá-lo ali, ligado à máquina, a apitar baixinho.
E assim ficou. Em cuidados paliativos democráticos. As Spinunvivas foram deixadas em banho-maria, como quem diz “não mexas nisso que ainda salpica”. As amizades com os patos bravos das gasolineiras passaram a ser tratadas como tradição folclórica. A mistura de laços familiares com negócios mal explicados foi arquivada na pasta do “isso resolve-se depois”. E as explicações sobre o seu lado mais sombrio foram aceites com aquele fatalismo típico de quem já desistiu de se indignar antes do primeiro café.
Tudo isto passou. Tudo isto passa sempre. O que não passa, nem com Brufen político, é a cobardia.
Não falo da cobardia pessoal, essa resolve-se em terapia, mas da cobardia política, que é bem mais perigosa. A cobardia de quem mede cada palavra como um merceeiro da democracia, calcula cada silêncio, ensaia cada omissão, tentando passar entre os pingos da chuva enquanto o fascismo monta a tenda ao lado. A cobardia de quem se recusa a dizer claramente onde acaba o aceitável e começa o intolerável. Montenegro não escolheu uma posição, escolheu a ausência dela.
Escolheu fingir que não vê. Escolheu acreditar que o Coiso se autodestruirá por combustão espontânea. Uma espécie de esperança mística aplicada à política.
E depois deu-se o momento mágico. O instante em que o verniz estalou, o estadista de ocasião desapareceu e surgiu o saloio nervoso em toda a sua glória. Montenegro perdeu a cabeça, coisa rara em quem já a usa pouco, e decidiu criminalizar uma sátira. Uma sátira. Não um ataque estrangeiro, não uma rede organizada de fake news, não uma fábrica de mentira industrial. Um meme. Um boneco. Um exercício de humor político, essa perigosa arma de destruição maciça.
Tudo isto, num país onde o Coiso e o seu líder debitam diariamente mentiras sobre imigração, inventam vitórias eleitorais que só existem nos seus sonhos húmidos, distorcem números, manipulam medos e espalham boatos com a eficácia de uma praga bíblica. Há estudos, relatórios e monitorizações que o provam. Mas perante essa enxurrada de desinformação real, Montenegro opta pelo silêncio. Prudente. Estratégico. Medroso.
Mas quando a sátira lhe toca no nervo, quando o ridículo lhe bate à porta sem pedir licença, aí sim, o Estado acorda musculado. A justiça entra em cena, não para defender a democracia, mas para servir de pomada ao ego ferido de um primeiro-ministro que não sabe rir, nem de si, nem dos outros.
O problema nunca foi a mentira. Essa é tolerada, desde que venha embrulhada em extrema-direita. O problema foi o escárnio. O espelho. A gargalhada.
E foi aí que percebemos que entre os Anjos e o primeiro-ministro há uma semelhança inquietante. Ambos desafinam mentalmente quando confrontados com a crítica. Ambos confundem sátira com blasfémia, humor com afronta, inteligência com ameaça. Ambos acreditam que o respeito se impõe à força, ou, pelo menos, em tribunal.
Mas a democracia não funciona assim. Uma democracia adulta aguenta o incómodo, digere o sarcasmo e responde com política, não com processos.
Podemos aguentar quase tudo. Aguentamos corrupção mal disfarçada, incompetência bem falada e cinismo institucionalizado. O que não podemos mesmo é ter um primeiro-ministro saloio e nervoso, incapaz de distinguir sátira de desinformação e humor de perigo.
Porque quando o poder deixa de saber rir de si próprio, começa inevitavelmente a ter medo. E quando começa a ter medo, começa também a atacar a liberdade.
Isto não é opinião. É História e costuma acabar mal.
Beijinhos e até à próxima…
Referências consultadas:
https://www.rtp.pt/…/montenegro-apresenta-queixa-contra…
https://rr.pt/…/volksvargas-responde-ao-pm-e-uma…/456332
https://combatefakenews.lusa.pt/desinformacao-nas…
https://www.euronews.com/…/misinformation-buffets…
https://www.aosfatos.org/…/e-falso-que-partido-de…
Do blogueEstátua de Sal
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