Corina Machado não é uma figura neutra nem uma simples opositora democrática.
É a mesma Corina Machado que apelou explicitamente à intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela.
É a mesma Corina Machado que defendeu a privatização da economia venezuelana, incluindo setores estratégicos.
E é precisamente neste contexto que Trump anuncia agora que o petróleo venezuelano passará a ser gerido pelos EUA, deixando implícito que qualquer resistência popular será respondida com mais bombardeamentos, mais violência e mais mortes.
A realidade é simples: quando um país resiste à pilhagem dos seus recursos, passa imediatamente a ser tratado como “ditadura”.
O problema nunca foi a democracia.
O problema sempre foi a soberania.
E é aqui que importa dizer algo que muitos se recusam a aceitar:
a Venezuela não é um país comunista. Maduro não é comunista.
A Venezuela tem um governo progressista, assente num sistema democrático, com eleições — imperfeitas, como tantas outras, mas eleições reais — nas quais o povo escolheu.
Num sistema democrático, é o povo que ordena.
Se na Argentina de Milei as eleições são respeitadas, então o mesmo princípio tem de ser aplicado à Venezuela.
A incoerência de muitos críticos está à vista:
aceitam eleições quando o resultado serve os interesses do mercado e rejeitam-nas quando o povo escolhe resistir à espoliação.
É precisamente neste ponto que o PCP tem razão.
O PCP identifica-se com a luta venezuelana não por afinidade cega com governos, mas pela defesa de um princípio essencial:
a soberania dos povos e o direito de cada país decidir o seu próprio caminho, sem imposições externas.
A mesma lógica foi aplicada à Ucrânia.
Apesar de todas as tentativas de colar Putin e a Rússia ao PCP, o partido manteve uma linha coerente:
a Rússia não é comunista, Putin não é comunista, a Rússia é uma potência capitalista, governada por oligarcas, conservadores e nacionalistas — exatamente o oposto do que o PCP defende.
Por isso, o PCP não apoiou Zelensky, mas também não apoiou Putin.
Defendeu — desde o início — a paz, o diálogo e a via diplomática.
Foi uma posição impopular.
Custou votos.
Gerou ataques, insultos e campanhas de ódio.
O PCP alertou para a corrupção de Zelensky (Pandora Papers) e para a presença de elementos nazis no movimento Azov, integrado no aparelho do Estado ucraniano.
Disse-o quando quase ninguém queria ouvir.
Hoje, a realidade confirma essas críticas.
Zelensky anunciou a abertura de escritórios em Berlim e Copenhaga para vender armamento excedentário.
Armas compradas com dinheiro público, muitas vezes financiadas direta ou indiretamente pelos contribuintes europeus.
Isto expõe aquilo que o PCP sempre denunciou:
a guerra transformada em negócio, feita à custa de reformas miseráveis, salários baixos, serviços públicos degradados e sistemas de saúde fragilizados.
Nem sempre apoiar “um lado” significa defender a justiça ou a liberdade.
Às vezes significa apenas alinhar com o lucro e com a morte.
Enquanto muitos atacaram o PCP por não alinhar com a histeria belicista, o partido manteve a sua coluna vertical.
Foi chamado de “putinista”.
Foi ridicularizado como “velho”.
Foi demonizado por se recusar a seguir a narrativa da NATO.
E o mais grave é que esses ataques não vieram apenas da direita ou da extrema-direita.
Vieram também de militantes e eleitores do PS, do BE e até do LIVRE — aqueles que se dizem progressistas, democratas e tolerantes, mas que rapidamente recorreram ao anticomunismo mais básico quando confrontados com uma posição incómoda.
Chamaram-lhe “PZP”, “PZZZZP”, “o partido do Z”.
Mandaram-nos “para a Rússia”, “para a Venezuela”, “para a Coreia do Norte”.
Mas o tempo está a dar razão ao PCP.
A posição do PCP não é populista.
É uma posição de princípios.
Defender a paz quando a guerra dá lucro é coragem.
Defender a soberania quando o império exige submissão é coerência.
Recusar alinhar com narrativas dominantes, mesmo quando isso custa votos, é ter coluna vertebral.
A história recente mostra que o PCP esteve certo — na Venezuela, na Ucrânia e na recusa em aceitar que os EUA decidam quem governa o mundo.
E isso é algo que nem o ruído mediático, nem o oportunismo político conseguem apagar.
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