Um provérbio africano ensina que a cabra come onde
está amarrada. A transposição desta sabedoria para a grande política tomou o
nome de realpolitik. Que é uma outra forma de designar o pragmatismo.
Mário Soares é o exemplar mais sofisticado do político
português pragmático, juntamente com Melo Antunes e o processo político
português a partir de 25 de Abril de 1974 desenrolou-se subordinado ao
pragmatismo, ao anti-idealismo desses dois homens que perceberam onde a “cabra”
estava amarrada, onde tinha que comer e viver e da cerca de onde não podia
sair. Ou, na afirmação de Gil Vicente na Farsa de Inês Pereira, representada
pela primeira vez no Convento de Cristo em Tomar: Antes quero asno que me leve
do que cavalo que me derrube.
Ao ver chegar o 25 de Abril de 1974, Mário Soares, que
recebera a herança política da República e vivera as tensões da política do
Estado Novo na Guerra Civil de Espanha, da tensão entre as fações pró-Aliados e
pró-Eixo na Segunda Guerra, os jogos que levaram os Aliados a preferirem manter
Salazar e a ditadura no governo em vez do risco de um regime mais ou menos
democrático trazer comunistas para a zona do poder, que assistira à troca dos
Açores pela entrada na NATO; o apoio dos Estados Unidos pós Kennedy à guerra
colonial, não tinha dúvidas que o novo regime e os novos políticos iriam ser
sujeitos a um exame de admissão a um clube reservado a sócios credenciados.
Mário Soares formara-se como político no ambiente a
Guerra Fria, durante o qual os Estados Unidos se estabeleceram como os únicos
validadores da democracia, os senhores do selo de qualidade democrática que
garantia o acesso ao clube democrático. Para atestarem a qualidade de democrata
fundiram o inimigo real com o inimigo imaginário segundo as conveniências do
momento.
Suspeita-se dos neutros, não há lugar para terceiros, a quem cumpre
hostilizar. Na Europa, depois da Grécia e da Turquia, a intervenção dos Estados
Unidos foi sempre muito intensa na Itália, contra o comunismo gramsciano e
ocidental de Berlinguer, também em França, contra Georges Marchais, de modo a
impedir, no caso da Itália, o compromisso histórico com a Democracia Cristã, o
que levou ao assassinato de Aldo Moro, e em França a promoção de Mitterrand a
chefe do Partido Socialista francês como partido de governo foi feita à custa
do afastamento de todos os adeptos da Frente Popular com o Partido Comunista.
A definição da linha principal de atuação dos Estados
Unidos, de que Kissinger será o expoente maior, orientou-se desde o final da
Segunda Guerra para a imposição de alinhamentos e punições de heresias. Os
líderes políticos europeus que pretenderam ter um papel a desempenhar na
“reconstrução europeia” perceberam com toda a clareza — eram pragmáticos — que
tinham de abjurar o seu passado antifascista e antinazi. Willy Brandt, que
seria chanceler da República Federal Alemã, começou por ser militante do Partido
Trabalhador Socialista (SAP), uma formação socialista-esquerdista, combateu na
Guerra Civil de Espanha ao lado dos republicanos, anarquistas e comunistas, foi
expulso da Alemanha pelo partido nazi, mas como chanceler, ou para ser
chanceler, promoveu uma legislação que não permitia a elementos radicais serem
funcionários públicos, o que teoricamente que afetaria tanto direitistas como
esquerdistas, mas na prática foi aplicado a pessoas consideradas extremistas da
esquerda, porque os extremistas de direita são sempre classificados como
“moderados”. Teve sempre os Liberais como um partido travão de medidas
soberanas nos seus governos.
Todos estes antigos socialistas acabaram por adotar o
atlantismo americano e desenvolverem política de liberalismo económico, em
aliança estratégica com Margareth Thatcher. No plano das relações externas,
todos eles cultivaram um bom relacionamento com os Estados Unidos, seguindo a
estratégia destes de utilizarem a Alemanha do conservador Helmut Khol como a
sua potência delegada na Europa continental. Em Portugal, Mário Soares seguiu
um percurso idêntico desde militante do Partido Comunista a primeiro-ministro
pós-revolucionário merecedor da confiança dos Estados Unidos.
A reconstrução política da Europa do pós Segunda
Guerra assentou na estratégia do pragmatismo que permitiu concluir que para ser
pastor não é necessário ser corajoso contra os lobos, mas merecer a confiança
do dono do rebanho.
Mário Soares conseguiu com grande brilhantismo navegar
entre o discurso da utopia revolucionária e a prática que garantia que a
situação portuguesa não iria ofender a ordem estabelecida na Europa Ocidental e
no mundo americano. Ele exerceu a grande arte da Oratória, a dos grandes
cardeais que no púlpito das catedrais prometem o Paraíso aos pobres e nas
sacristias e consistórios garantem o poder e os lucros aos seus financiadores.
Mário Soares, foi um florentino, um Médicis, entre cabos da guarda municipal.
Mário Soares não pode, ou não deve, ser apreciado
segundo os valores da moral, do Bem e do Mal, nem da Ética, do que deve ou não
deve ser feito, mas sim do principio do senso e com o “pormaior” de o ter
conseguido liderando um processo sobre um fino e traiçoeiro cabo, obtendo as
boas graças se não de todos pelo menos da maioria.
A grande arte de Mário Soares foi a de saber de
ciência certa que não podia ocorrer uma revolução em Portugal e de ter
conseguido que as alterações sociais representadas pelos três D —
Democratização, Descolonização e Desenvolvimento (mínimo) — que na Europa
tinham sido implantadas há trinta anos, após o final da II Guerra Mundial
fossem aceites como uma revolução! O slogan “A Europa Conosco” é uma brilhante
afirmação como o último grito da moda de um produto com 30 anos de uso.
Por fim, comparando Mário Soares com os outros líderes
europeus da época, verificamos que ele é o único líder carismático entre
figuras respeitáveis, mas baças, de Willy Brandt a Miterrand, de Aldo Moro a
Gonzalez, James Callaghan ou mesmo Olaf Palme o que vemos hoje nos programas de
memórias são tristes funcionários que podiam andar a vender enciclopédias.
Mário Soares é uma figura extraordinária em Portugal e na Europa.
Como o triste desfile de mangas de alpaca e palradores
de balcão candidatos a candidatos a presidentes da República tem revelado, são
tão raras as figuras extraordinárias em Portugal, ou mesmo “passables” que
temos de apreciar as raras que surgiram. Haverá sempre saudosos do impossível,
mas essa é uma outra abordagem. Eu, que sou e fui dos hereges, dos que, como
Zaratustra, entende que devemos tentar chegar ao cume das montanhas, nem que
que seja para verificar que dali se observa uma outra montanha, presto o meu
tributo a Mário Soares.
Uma Nota contra a cobardia: Recordo que Mário Soares
impôs uma visita à Palestina e a Gaza quando efetuou um visita oficial a Israel
e uma outra como chefe de uma delegação da Internacional Socialista. Hoje
assistimos a cobardes vassalagens.
Carlos Matos Gomes




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