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sábado, 10 de abril de 2021

Sócrates: o animal feroz está de volta [embora com uma vulnerabilidade que pode minar a sua ferocidade]:



Tenho para mim que quando uma fera se atira à jugular da vítima não deve uma única vulnerabilidade, nem calos nas patas nem uma unha encravada ou um grão de areia a incomodar o olho. Quando se atira a doer é para acertar. Não pode haver o risco de, na hora, haver algo que possa fazer vacilar.

Tem razão José Sócrates em saltar para a arena para sacudir de cima de si a larga maioria dos crimes com que o Ministério Público, ao longo de sete anos, infamemente tentou sujá-lo. Tem razão em revoltar-se contra a ignomínia de que foi vítima. Se fosse comigo, tudo faria para cair em cima dos infames. Nem que tivesse que lutar até ao limite das minhas forças e até ao fim dos meus dias para que fossem condenados, fá-lo-ia.

Mas fá-lo-ia se não tivesse manchas na consciência, se não tivesse nada a esconder. Nessas circunstâncias, sem quaisquer hesitações, daria o peito às balas e denunciaria -- em todos os tribunais do mundo, se necessário fosse -- aqueles que tivessem tentado destruir a minha honra.

Desde o início que acho que toda a fantochada em volta de Sócrates era uma pouca vergonha. As coisas quando são a sério não têm carnaval à volta. Se havia suspeita séria contra ele, agia-se dentro da lei, da ordem e da decência. Não era nos Sábados e Correios da Manhã desta vida, não era com as câmaras em directo, não era com fugas de informação, não era com nacos avulsos que provocam discursos inflamados como os que acabei de ouvir na TVI a uma histérica Joana Amaral Dias ou a outras criaturas que, nada conhecendo de leis e pretendendo o auto protagonismo, insufladas de demagogia e populismo, pretendem que se julgue sem provas, na rua.

A minha matriz formativa é a da matemática e, na matemática, entre outras vertentes, prezo a lógica. Mesmo perante o apelo das aparências, não me afasto do que me parece ser o rigor. Pode a intuição pretender condimentar a análise mas, quando é para me pronunciar a sério, não me desvio um milímetro nem dos factos devidamente provados nem da lisura dos raciocínios. 

E, tal como na matemática há os axiomas que não carecem de demonstração, também aqui há o que assimilei como incontornável: toda a gente é inocente até prova em contrário.

Pode a Joana Amaral Dias, a Felícia Cabrita, cinquenta bloggers, uma mão cheia de jornalistas, vinte peixeiras, quarenta justiceiros, cinquenta freiras, sessenta cabeças rapadas, cem galinhas cacarejantes decretarem penas e ditar sentenças que eu não me movo um milímetro: toda a gente é inocente até prova em contrário.

Para sair daqui, têm os tribunais que dar como provados os factos que o contradigam.

Portanto, de tudo -- tudo -- o que ouvi e li do Caso Marquês, de todas as suposições que me pareceram delirantes, de todas as fantasias que me pareceram lunáticas, de todos os enredos que me pareceram ilógicos, apenas um facto me pareceu, desde o início, estranho e a carecer de explicação.

Desde o início o disse -- e aqui o disse --: se nada fez de ilícito, Sócrates deveria ter eliminado a suspeição que, junto da opinião pública, se instalou  e explicado a que bizarro fenómeno se deveu aquele imoderado uso de empréstimos por parte do amigo.

O fazer agrados a amigos por parte de gente rica não é inédito nem é, por si só, crime.

Conheço um homem muito rico, muito mesmo, que tem proporcionado toda a espécie de mordomias a um amigo. Porque o faz? Faz porque pode. Faz porque aprecia a companhia do amigo e porque sabe que a única maneira de usufruir da companhia dele é pagando-lhe as viagens e as estadias. Tornou-se sócio do amigo numa empresa porque a empresa estava em dificuldades e porque quis ajudar o amigo -- e porque o dinheiro que lá pôs (uma e outra e outra vez) a ele não fazia diferença e para o amigo era determinante. Conheço ambos. Como é que o amigo aceita tantas mordomias e tantas ajudas? Não sei. São amigos. As mulheres são amigas, os filhos são amigos. O que recebe as prendas e prebendas sabe como o homem rico genuinamente aprecia a sua amizade e companhia. Alguma corrupção nisto, alguma coisa de ilícito? Não. Conheço ambos. Nada de mal. O menos endinheirado é um homem culto, letrado. O muito rico aprecia ouvir o menos rico, aprecia a convivência com alguém que tem milhares de livros, que sabe falar de história, de filosofia, de física, de gestão. Quem os conhece bem diz: é como se fosse uma relação de irmãos. Já não se questiona: é assim e é lá com eles. Se me perguntarem se eu alguma vez seria capaz de viver em grande parte às custas de um amigo a resposta é não. E, no entanto, conhecendo a amizade e a dinâmica da convivência entre aqueles dois, já me habituei a aceitar isso como 'natural'. Há nisto qualquer coisa como havia com os homens ricos de antanho que patrocinavam artistas, músicos, escritores.

Terá sido isso que se passou com Carlos Santos Silva e Sócrates? Pode ser que sim. Mas, se foi, tal deveria ser assumido, explicado sem peias. É um assunto pessoal e ninguém tem nada a ver com isso? Pois. É verdade. E prezo muito a privacidade e a liberdade individual de cada um. Entre pessoas sem vida pública em funções de responsabilidade política, sem dúvida. Se a minha mãe me der dinheiro ou se o meu conhecido muito rico financiar uma vida abastada ao amigo ninguém tem nada a ver com isso. Mas se algo de intrigante a esse nível se passa com um ex-primeiro-ministro, então ou há uma explicação inequívoca ou é correcto que se julgue sobre a transparência e licitude dos factos.

Ou, não foi bem isso e, dos tempos do início da carreira, dos tempos de fura-vidas, dos projectos de vivendas e coisas assim, subsistiram dívidas de gratidão de Carlos Santos Silva para com Sócrates que se traduziram nestas liberalidades? Estamos a falar de proventos que, tendo sido recebidos em espécie, não foram declarados como rendimento? Bem... se é isso, não estaremos perante um caso de fuga ao fisco? Dúvida legítima.

Nada tendo Sócrates explicado, é normal que advenham dúvidas e, havendo-as, é normal e saudável que sejam explicadas.

Sobre todas as outras ficções, Ivo Rosa mandou o Ministério Público ter juízo. Ou melhor: mandou que tivessem vergonha na cara. Rosário Teixeira, Carlos Alexandre e sobretudo a Santa Mana aka Joana Marques Vidal, a mais incompetente de todas as incompetentes que a Justiça pariu, foram mandados para o estrado, com orelhas de burro. Expostos ao público por toda a sua ineficiência, falta de inteligência, incompetência. Sem meias palavras. 

Mas, sobre o mistério dos empréstimos, Ivo Rosa mandou que seguisse a procissão para que se apurem e julguem os factos. Fez bem. Se Sócrates está inocente, a inocência há-de ser provada. Se não está, deve ser condenado.

E não falo de julgamentos políticos ou morais -- esses não são do domínio da Justiça. Falo de crimes enquadráveis pelas molduras penais devidamente instituídas. À Justiça o que é da Justiça.

Tirando isso, nada a não ser que desejo veementemente que a sociedade se mobilize para erradicar a prutefacção que grassa na Justiça portuguesa. E, já agora, que se afiram as capacidades intelectuais e emocionais, a estabilidade psicológica e a sanidade mental dos magistrados em geral e dos juízes em particular.


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As fotografias provêm do The Guardian: The week in wildlife – in pictures
David Gilmour adoça o ambiente com Thanks For The Dance

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Um bom sábado

Do blogue Um jeito manso 

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