Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Joana Marques Vidal, a corruptora:

Quem é a individualidade, ou a entidade, que sabe mais (isto é, que tem a mais extensa, precisa e actualizada informação) acerca da corrupção em Portugal? Será quem exerça, à vez, o cargo de procurador-geral da República? Será quem exerça, enquanto durar, o cargo de ministro da Justiça? Será algum académico, ou punhado de académicos, que se dedique à matéria? Será a Cofina como grupo ou alguém a solo no Observador? Será o Ventura? Será o João Miguel Tavares?

Tentar responder à questão levanta acto contínuo outras questões conexas e paralelas, pois ao Ministério Público falta o tratamento epistémico (multi e interdisciplinar) dos casos tratados, às universidades falta o detalhe concreto e sigiloso recolhido na experiência directa com corruptores e corrompidos num presente sempre em mutação, e aos jornalistas falta o acesso a conjuntos largos de dados e ainda o aparato teórico e metodológico para os tratar de forma a que se transformem em conhecimento. Assim, se perguntarmos seja a quem for, à maior celebridade política ou da Justiça, ao mais apagado anónimo, é certo que ninguém será capaz de ultrapassar o nível de uma banalidade isenta de inteligência e honestidade intelectual se resolver nomear um sabichão-mor do estado da corrupção em Portugal.

Porém, contudo, todavia, mergulharemos num oceano de unanimidade caso perguntemos se Joana Marques Vidal é uma das pessoas que mais e melhor sabe a respeito do fenómeno da corrupção na Grei. Sim, claro que sim, foda-se oh se sim, é a imediata resposta em coro. Esta figura não só conhece como investigadora judicial centenas ou milhares de casos de corrupção, não só tem formação jurídica de especialista para conceptualizar, identificar e avaliar o que seja isso da corrupção, como ainda acumula com uma intervenção pública onde espalha um certo ponto de vista político acerca da corrupção. Para adensar esta última dimensão política, ela não repudia, bem pelo contrário, ver-se usada como heroína de uma cruzada contra um tipo de corrupção sui generis – um tipo específico e especialíssimo: aquele que terá sido cometido, e que estará neste momento a ser cometido, e que será cometido sem parar a toda a extensão do futuro, por pessoas pertencentes ao Partido Socialista e seus cúmplices. Estas pessoas corruptas porque pertencentes ao Partido Socialista, assim corre a tese, têm o mau hábito de ganharem mais eleições do que a gente séria e a gente de bem. Resulta deste desvario cósmico que as tais pessoas do Partido Socialista passam mais tempo no Governo e ocupam a presidência de mais e maiores autarquias. E é por isso, e só por isso, que a corrupção é um flagelo, uma calamidade, a desgraça da Pátria, a qual tem de ser combatida pelos raríssimos exemplares da raça lusitana que conseguem resistir à sedução diabólica das pessoas do Partido Socialista; como é o milagroso caso de Joana Marques Vidal.

Esta senhora teve um ex-presidente da República, um ex-primeiro-ministro, inúmeros barões e tenentes da direita e todos os impérios de comunicação social a fazerem campanha por si aquando do fim do seu mandato. O Chega, o mais recente partido português a entrar no Parlamento e que aparece como terceira força política nas sondagens, fez-lhe um altar. Que se passa, então? Donde vem a sua importância para a arena política? Como é que ela se tornou tão valiosa para uma direita ressabiada, rancorosa e que trata como inimigos, que sonha em ver na prisão ou com o nome na lama, os tais fulanos do Partido Socialista? Assistir a este programa – Quem Trava a Corrupção? – dá-nos uma diáfana visão do que está em causa.

Podemos saltar logo para o minuto 28 em ordem a encontrarmos uma matriz que condiciona o espaço público, e, em simultâneo, oculta as agendas estritamente políticas (mas também financeiras, em variado grau) de múltiplos agentes sociais. É a altura em que Tiago Fernandes interrompe Joana Marques Vidal. A ex-PGR estava a dizer que o povinho, quando fala de corrupção, mistura um sem-número de outras ilegalidades no conceito, as quais não são técnica e penalmente corrupção, daí vindo a alta “percepção da corrupção” que aparece em sondagens e estudos. O professor de Ciência Política sentiu uma pulsão indomável para lhe dizer o seguinte: “Não é só a população. Muitas vezes, responsáveis políticos institucionais, não só do mundo político mas também do mundo cívico, que têm responsabilidades, misturam tudo isso num mesmo fenómeno. Não é só a população. Queria só dizer isso.

De um lado, um cientista social que vinha de fazer uma intervenção onde argumentou ser muito importante distinguir a corrupção de outros crimes com ela associados, seja realmente na estatística ou na percepção comum que os cola por ignorância. Do outro, uma figura que transcende a sua função profissional como magistrada do Ministério Público com um carreira brilhante, incensada como parte do sagrado trio de almas (com Rosário Teixeira e Carlos Alexandre) sem medo dos “poderosos”, desde 2012 captada e/ou cooptada para a luta política, que sentiu o remoque do cientista social e lhe responde expondo a lógica que ela promove, que ali em estúdio de imediato promoveu, isso de lhe interessar que haja essa misturada conceptual, um vero nevoeiro de guerra, quando se fala da corrupção ao mais alto nível judicial e político. E chegados aqui, o nosso papel passa a ser o de nos armarmos em curiosos. Quem é que ganha, e o que ganha, quando se alimenta intencionalmente a falsa imagem de estarmos infestados de corruptos, cercados por corruptos, ameaçados diária e horariamente por corruptos que metem no bolso milhões e milhões sem ninguém os conseguir parar?

Se eu criar uma associação anticorrupção, e quiser manter-me com financiamento e na ribalta, dá-me jeito haver corruptos em barda para denunciar. Se eu quiser viver de despachar textos para jornais e ir à televisão dizer coisas, o maná não se irá esgotar se me posicionar como caçador dos “corruptos” que os meus patrões não gramem (mas só desses). Se eu perceber que os otários que lêem o Correio da Manhã estão no ponto de rebuçado para festejarem a chegada ao Parlamento de um racista-xenófobo que persegue os pedófilos, os corruptos, os pedófilos-corruptos e os corruptos-pedófilos, é óbvio que serei o primeiro a agradecer estar num país tão propício ao nascimento desses cretinos. Quem espalha o alarme agitando a corrupção, o qual nos intoxica cognitivamente dado despertar automatismos de protecção, está a repetir o ancestral mecanismo da diabolização, da caça às bruxas, da estigmatização motivada – o qual foi, invariavelmente ao longo da História, a execução de projectos políticos com vista a poder exercer as mais eficazes violências contra certos adversários (ou para adquirir bens) à margem da moral, da decência, do Estado de direito.

Joana Marques Vidal sabe o mesmo que Tiago Fernandes, quando este apresenta o que é possível dizer-se a respeito da corrupção caso o plano seja respeitar os factos e, a partir deles, tirar ilações (minuto 56 em diante). Só que prefere deslocar o foco para a intangibilidade de uma “cultura de integridade”, reservando-se o direito de ser ela a definir o que devemos aceitar sob essa designação. Se a integridade de que fala for a mesma que exibe risonha ao falar da “estratégia” holística que foi usada na Operação Marquês para construir um megaprocesso, compreende-se na perfeição como esses monumentos à integridade que dão pelos nomes Cavaco Silva e Passos Coelho a escolheram e queriam que ela continuasse o excelente trabalho vitaliciamente. Quem consegue corromper a própria corrupção tem um valor precioso para quem faz da política a luta do poder pelo poder.

Do blogue Aspirina B

POR VALUPI

Sem comentários:

Enviar um comentário