A propósito de “informe” do Chega sobre uma ordem de
expulsão, porque há a mão que atira a pedra e o braço que esconde a mão.
Cherchez la femme. Cherchez la femme é uma frase foi publicada num livro livro
de Alexandre Dumas, pai e que quer significar que devemos procurar a raiz dos
crimes naqueles a quem ele aproveita.
O que está por detrás deste provocador “informe” é o Chega.
Porquê? Porque este número do “informe” só aproveita ao Chega.
O “informe” podia ser sobre a quadratura do globo, ou sobre
o gene lusitano, por exemplo, sobre o qual nem os criadores de cavalos ainda
conseguiram chegar a acordo. Mas os Chega estão na fase asinina.
O efeito pretendido com o “infome” será sempre o de provocar
reações. Marquetingue puro, primário e eficaz para vazios de espirito. Aquilino
Ribeiro escreveu um romance com o título “Quando os Lobos Uivam”. Parece uma
frase ligada à realidade: os lobos uivam. Isso é entre os animais. Entre certas
espécies, a realidade é as hienas mugirem. É o caso dos dirigentes “chegas” escondidos
atrás do comunicado de um dito grupo de racistas. Eles mugem como cordeiros que
querem mamar.
O comunicado com o “informe” de um bando anónimo que se
assume com todas as caganças da ordem como racista, xenófobo, nacionalista,
anti-social, anti-democrático, anti-convivencial é um clássico jogo de polícia
mau e polícia bom. Os estrategas de marquetingue do Chega conhecem os ditados
populares: “Atrás de mim virá quem bom de mim fará”. A jagunçada do “informe”
tem por missão fazer do Chega uma zurrapa tragável.
Os ideólogos e mestres de obras do Chega seguem a velha
cartilha da anedota do hipopótamo que, ao ouvir dizer que iam ser castrados
todos os animais de boca grande, exclamou: Coitadinho do crocodilo!
Em claro, para que o Chega e os seus lusitos não façam de
todos nós estúpidos: Os tipos na sombra do Chega sabem que o produto que têm de
vender está associado a uma imagem de organização extremista, radical, racista,
anti-social — defendem no seu bem escondido programa o fim do serviço nacional
de saúde, da escola pública, dos apoios sociais à pobreza e ao desemprego, a
defesa do sistema financeiro liberal. Há que limpar esta imagem que ainda causa
repulsa.
Os investidores da marca Chega sabem que um programa destes
vale 7 a 10% do eleitorado. As declarações de Rui Rio e de alguns dirigentes do
CDS de não rejeição clara à convivência, desde que os do Chega lavassem os
dentes e eliminassem o nau hálito destas propostas, que se apresentassem como
gente frequentável, abriu uma janela de oportunidade aos técnicos de
marquitingue e ação psicológica do Chega.
Como manter o essencial das propostas aberrantes do Chega e
fazer o Chega não parecer aberrante?
A técnica é mais velha que o fazer as necessidades de
cócoras: arranjando um factótum, um espantalho a quem se possa apontar: radical
é aquele! Comparado com aquele abutre, eu sou uma pombinha!
O SIS, ou qualquer pessoa ou organização que tenha um
conhecimento mínimo de manipulação de opinião, de técnicas de ação psicológica
deteta à distância a vigarice. Que é a mesma das polícias: Ao polícia mau, que
tortura, bate, cospe, morde, espezinha para obter uma confissão, segue-se o
polícia bom, o que vem dizer: Está a ver, aquele meu colega é uma besta, mas
eu, se me disser o que ele queria ouvir, sou um tipo com quem pode falar.
O polícia bom e o polícia mau são as duas faces da mesma
moeda, como os jagunços do “informe” e o institucionalizado Chega. O “informe”
do grupo de sicários faz parte da rábula do Chega.
O Chega virá dentro em pouco e por um meio qualquer que entenda
conveniente à sua estratégia “distanciar-se” do “informe” dos colegas das
primeiras linhas de assalto. Não tem nada a ver com aquio, dirá. É um partido
com registo constitucional. Representação parlamentar. O seu chefe até se foi
ajoelhar aos pés do cardeal católico e de todos os bispos iurdos e de todos
recebeu uma bênção. Pretendem um céu, mas sem algumas criaturas, a começar
pelas que constam do “informe”, depois, como diria o Brecht, se seguirão
outras, até chegar a nós. Os que ficámos a assistir porque não é nada connosco.
Eu não tenho afinidade pessoal ou política com qualquer dos
nomeados no “informe”, e sou crítico das posições de alguns deles, se não da
totalidade, mas defendo o seu direito a compartilharem os mesmos espaços que eu
e bato-me por uma sociedade onde ninguém se arrogue o direito a considerar-se o
“povo eleito”, o descendente do garanhão padreador da raça. A minha ideia de
nação não é a de uma coudelaria, nem de uma ganadaria, como parece ser a noção
do Chega e dos distribuidores do informe.
Por fim: sendo a manobra destas hienas tão vulgar e
conhecida o que EU estranho (para não tomar como cumplicidade) é a pretensa
ingenuidade dos comunicadores sociais e das autoridades. Acredito que os
meninos e meninos das redações de jornais e televisões não façam ideia do que
dizem, nem daquilo sobre o qual leem notícias. Mas quanto aos órgãos do Estado,
a Procuradoria Geral da República, a Polícia Judiciária, os Sistemas de
Informações, o Governo e o Presidente da República não podem surgir aos
cidadãos com esta candura que têm aparentado perante um golpe clássico de
credibilizar o que é, civilizacionalmente, inaceitável.
Se há manifestações contra as invasões dos javalis às
propriedades que merecem atenção pública, os que vivem na propriedade comum da
democracia devem exigir medidas contra estas devastações ao direito das gentes.
Não é por terem voz meiga, como os Chegas irão ter neste
caso, que deixam de ser o que são. A voz dos assassino e meiga, mas os
assassinos sejam ou não de voz meiga, têm de ser desmascarados porque não há
meios termos na apreciação deste golpistas. Porque é de uma golpada que se
trata.
Ou se está com esta matilha, mesmo que as hienas se façam de
cordeiros, ou se está contra. É uma questão elementar de sobrevivência e de
higiene.
Carlos Matos Gomes

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