Temos sempre a sorte que merecemos. É consensual que os serviços públicos ou equiparados são de má qualidade em Portugal. E começam por ser maus nas relações entre os cidadãos e os funcionários.
Somos geralmente mal atendidos nas repartições de finanças, nos centros de saúde, nas lojas do cidadão, nos serviços municipais, somos mal atendidos para pagar, para receber, para obter uma licença, um certificado.
Somos mal atendidos e somos culpados porque aceitamos a cultura de que o responsável é sempre o outro, se possível o ministro do governo de que não somos eleitores.
Cai uma ponte por incúria ou mau funcionamento dos serviços de hidráulica e demite-se o ministro. Não os chefes dos serviços e os responsáveis diretos.
Morre um doente por maus cuidados num hospital, onde pára o ministro. Não há diretores de serviços, nem executantes responsáveis!
Ocorre um incendio de proporções extraordinárias, para a qual ninguém estava ou podia estar preparado, há falhas nas emergências, solução: demite-se ministra.
Descarrila um comboio, onde está o ministro.
Há um furto de armas numa unidade militar: demite-se o ministro que devia estar de sentinela e não acompanhou a escala das rondas.
Agora, há um lar no extremo do Alentejo, propriedade de uma instituição - a Santa Casa da Misericórdia - onde surge um surto de Covid e, sequência dele um cenário de incúria continuada, de desrespeito por regras estabelecidas e a pergunta do jornal, deste e dos outros é, onde estava a ministra? E a resposta é, demita-se ministra! O dramático da questão é que se propoe a demissão da ministra que é em primeiro lugar a do trabalho. E foi, ao que parece, e em primeiro lugar por falhas graves no trabalho de cada responsável, cada executante pelo lar que é pedida a demissão da ministra!
Boa solução. Com excelentes resultados anteriores. Demite-se a ministra, mas que se mantenha a direção da instituição - que apenas estava à espera da ministra para realizar o seu trabalho - e mantenham-se os funcionários, que nada viram, nada souberam e nada fizeram. E louvem-se os familiares dos internados, que também nada viram, que não são, obviamente, cúmplices.
Demitam-se os ministros que o resto funciona bem. É o que se depreende da pergunta e das respostas.
O próximo ministro do trabalho, vestirá a bata de cuidador e de provedor da misericórdia e irá de lar em lar dar de beber aos desidratados, colocar máscaras, desinfetar casas de banho, mudar lençóis.
A direção da instituição estará entretanto a banhos, os funcionários em casa, de quarentena depois de tanto trabalho, para evitarem contágios, os familiares a pedir subsídios de funeral e indemnizações ao Estado. Será nomeada uma robusta equipa de auxiliares administrativos, com inspetores e computadores que iniciarão o competente, interminável e inconclusivo relatório, mas nem por isso o processo será menos minucioso.
O Kafka descreveu este tipo de sociedade em o Processo...
Nós merecemos ser tratados como assaltantes sempre que vamos a um serviço público e a culpa é do ministro, que não distribuiu a senha adequada para o atendimento presencial... nem passou a receita do medicamento porque o médico naquela semana está de baixa, nem substituiu no guiché a senhora da conservatória que devia fornecer um registo... A culpa é deles, há sempre um eles...
No jargão estas passagens de responsabilidades são designadas de "responsabilidades políticas".... é mais ou menos o que se pensava da queda das maçãs das árvores até o Newton descobrir que havia um responsável e que não fora Deus que lhe atirara com uma à cabeça.
Carlos Matos Gomes


Sem comentários:
Enviar um comentário