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quinta-feira, 2 de julho de 2020

O super juiz que cercou a República:

Existe um juiz em Portugal que em 2016 deu uma entrevista. Nessa entrevista atacou um inocente à sua guarda constitucional enquanto arguido, tratando-o como criminoso e violando o dever de imparcialidade. Ao violar o dever de imparcialidade, também mentiu em público a respeito da sua vida privada. Após mentir sobre a sua vida privada, ameaçou políticos, empresários, cidadãos avulsos e, com especial ênfase, outros juízes, declarando que a sua memória a respeito dos bastidores da Justiça e dos processos judiciais que lhe tinham passado entre as mãos era tão boa que até as alcunhas dos visados estavam decoradas. O Conselho Superior da Magistratura, depois de analisar profundamente o caso, sancionou a violência.
Existe um juiz em Portugal que em 2018 deu uma entrevista. Nessa entrevista sugeriu que o sorteio da fase de instrução da Operação Marquês estava viciado, assim violando o dever de reserva. Ao violar o dever de reserva, questionou publicamente a competência e/ou honradez de Ivo Rosa e acusou o Tribunal Central de Instrução Criminal de ser cúmplice de criminosos. Após declarar que a Justiça o tinha afastado recorrendo a um falso sorteio para proteger Sócrates da santa espada de Mação, acrescentou outros sinais que indiciam poder ter perturbações psíquicas graves do foro da megalomania e da paranóia. O Conselho Superior da Magistratura, depois de analisar profundamente o caso, sancionou a violência.
Este mesmo juiz acaba de atingir um nível superior de violência. No despacho de pronúncia do processo de Tancos deixa lavrado um documento institucional onde insulta em registo de provocação pessoal Azeredo Lopes (“Bizarro é fazer-se de coitadinho e de irresponsável“) e onde expõe a natureza estritamente política do processo (“Todo este lodaçal tem de ser investigado”). A intenção do juiz é persecutória e revanchista, procurando ainda atingir um primeiro-ministro e seu Governo. Isto significa que o regime, neste momento, aceita pôr um tribunal ao serviço de ódios políticos e demais interesses que os manipulam ou deles recolhem vantagens. Não só isso: actualmente, como o prova exuberantemente e a gargalhar Carlos Alexandre, o regime permite que a Justiça seja usada como arma de facção e de humilhação.
O juiz que age com esta impunidade tem uma vastíssima claque que solta urros e lança as cartolas ao ar por assistir aos seus números cada vez mais ousados, mais excitantes, lúbricos no despudor com que exerce a violência sobre os alvos. À volta, não vemos ninguém capaz de lhe fazer frente, capaz de denunciar que o tirano vai de beca. Os jornalistas e comentaristas decadentes deliram com o espectáculo e repetem e amplificam a porrada nas vítimas – enquanto os políticos se dividem entre aqueles que têm a caçadeira pronta a disparar caso algum mosquito incomode a sua estrela e aqueles que tremem de pavor e andam pela cidade de olhos no chão, já esquecidos do que é ser livre ou, tão-só, do tempo em que tinham respeito próprio.
A República está cercada pelo super juiz. E as muralhas são papéis pintados com tinta.
POR VALUPI
Do blogue Aspirina B

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