Carlos Matos Gomes
Grande texto, a desmontar as
hipocrisias das homenagens muito sentidas. O Paulo também sentiu a facada nas
costas... Quando virem as telenovelas saibam o que por detrás daqueles homens e
mulheres atores e técnicos está um senhor de escravos a ameaçá-los com o
despedimento à primeira oportunidade se não renderem.... Está um sistema de
proxenetas... Pelo que se percebe, o
Pedro Lima já não rendia e a empresa (a produtora de conteúdos e programas) já
tinha carne fresca... As casas de alterne são assim. O texto do Paulo Dentinho
é um ato de coragem e a grande homenagem ao seu amigo. A amizade é um produto
raro.
Paulo Dentinho
Ontem não dava, estava demasiado
ocupado a apanhar os cacos da devastação da tua tão súbita ausência. E escrevo
porque tenho contas a acertar. Contigo. Um dia o Mia Couto disse-me que quando
escrevemos estamos sempre a acertar contas, nem que seja connosco. Pois bem,
hoje é contigo.
Sabes, puto - eras o puto,
lembras-te? Eras o puto canina desde que chegaste a casa dos avós. Ainda me
recordo de estar ao pé de ti a fazer-te companhia para adormeceres em sossego. Tinhas
tão poucos meses... Se calhar a nossa tão grande amizade - não, não era
amizade, era mesmo amor - começou durante esses dias.
Naquela casa austera a tua
presença endiabrada enchia tudo. Um dia viraste-te para o avô, juiz, imperial,
sentado na cadeira do poder familiar, e respondeste à sua ordem seca de “menino
esteja quieto!” subindo para cima da mesa. Com o dedo espetado, minúsculo
ameaçador naqueles teus três anos, atiras com um “olha que te pinto!” Vá, ri,
hoje podemos rir, digo eu enquanto escrevo e choro, e para me enganar a mim
próprio choro de riso.
Falámos de filosofia num dia
qualquer na alameda Afonso Henriques, quando já estavas no Técnico e já eras o
que és hoje, muito exigente contigo mesmo e de uma generosidade enorme para com
todos os outros. Eras um excelente aluno e um campeão de natação. Competias
contigo. Demasiado. Falámos de Deus, da dimensão humana, do erro, do ter
direito a falhar. Mas tu dizias que não tinhas direito a falhar. Eu disse-te
que “até Deus falha, canina.” E falha muitas vezes.
“Paulinho, preciso de ler outras
coisas. Preciso de me distrair com outras leituras.” E lá fui buscar os “Cem
anos de solidão” para te ouvir depois dias seguidos a falar de Melquiades,
personagem mística e sábia que te encantou. Ou perturbou?
Como uma profecia que ambos
desconhecíamos, arranjei-te um biscate para fazeres um spot de publicidade, uma
coisa manhosa sobre umas pulseiras manhosas, pequeno filme feito por uns amigos
meus que precisavam de um jovem de porte atlético. Dias depois estavas numa
agência de modelos. Deixaste a universidade a meio e foste à procura de outros
sonhos até chegares ao teatro e cair arrebatado de amor.
O Jorge Silva Melo, por quem
tinhas uma enormíssima admiração e que
era teu amigo, disse que a tua cabeça de ator era a de um desportista:
melhorar, subir a parada, treinar, melhorar. Ou a do cientista? Experimentar,
experimentar. Disse também que eras dos homens mais limpos que encontrou na
vida. Tão verdade, Pedro. Ele topou-te bem. Deve ser por isso que é também um
grande encenador.
“Paulinho, ajuda-me. Sugere-me um
poema de amor. Tenho de ler um poema de amor na TVi e sei que tu és a melhor
pessoa para me aconselhar.” Disse-te que há tantos, tantos poemas de amor, mas
que nenhum amor cabe num poema. Tu não cabes. És demasiado grande para caberes
num único poema. Mas gostastes deste, do José Gomes Ferreira.
“Dá-me a tua mão.
Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na
lua.
Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura
Derradeira.”
Deste-me tantas vezes a mão,
companheiro. A mim e a muitos outros e outras.
Na nossa família eras o pilar, és
o pilar onde nos erguemos. Em cada Natal queres todos lá em casa, “ fazes o
peru, Paulinho?” Sim, faço. E trocamos prendas, e dizemos poemas. Ao teu lado
vamo-nos construindo em família.
A tua força era também a tua
fragilidade. E estavas frágil e muitos de nós não vimos. O Lourenço Lucena, que
é um desses tantos teus amigos que ficaram destroçados, diz aquilo que muitos
sabemos, que a tua empresa estava desejosa de te descartar. Devias tê-los
mandado a todos para o sítio mais ordinário que existe no planeta. É nesta
altura que entras em cena - conheço-te tão bem! - e é para os defenderes, para
dizeres que não é bem assim, que até os compreendes, e para me alertares para
os meus estados de alma, porque “já te lixaram por causa disso, e tu sabes
bem!” Mas não, hoje não é sobre mim, é sobre ti, Pedro! E pergunto-te então
quantas vezes lhes telefonaste nestes últimos dias sem que ninguém atendesse?
Sabes, depois escrevem coisas maravilhosas sobre seres um dos actores mais
versáteis da tua geração. E falam em pesar e mais uma série de palavras de plástico.
Como num reclame. É o país, e país mudou pouco desde o Eça, Pedro, continua
pacóvio, provinciano e cheio de gente infame. Sim, sim, já sei, queres que me
cale. Queres que não diga que usam as pessoas como copos de plástico não
reciclado. Mas descansa, não é só na tua empresa. Está bem, eu calo-me. Porque
também tenho contas a acertar comigo, porque também eu não consegui agarrar-te.
E tu, tu também não deixaste que te agarrassem! Não ouviste os teus amigos e a
tua família a dizer que tudo se resolve? Mas estavas demasiado fechado em
exigir de ti, em te responsabilizares e a sentires em crescendo que estavas a
falhar. Deixaste-te envolver em pensamentos sombrios e fomos todos derrotados.
Sem ti isto agora perde tanto,
porque sem palavras vãs eras mesmo das melhores pessoas que conheci em toda a
vida.
Hoje, agora, neste instante, só
queria mesmo dar-te um abraço muito forte por uma última vez, dizer-te o quanto
te amamos, dizê-lo em ternura e carinho, que é assim que és.
Adeus, Pedro.
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