Já tive várias opiniões sobre
quem deveria ser o próximo governador do Banco de Portugal, mas agora tenho uma
que me parece será a última. Para chegar a ela, bastou-me ouvir melhor o que
Costa e Centeno têm andado a dizer e tentar perceber o que lhes vai na cabeça,
o que não é muito difícil pois são pessoas excepcionalmente coerentes,
concordo-se ou não com as respectivas opiniões (e eu quase sempre concorde,
embora pense que isso não me tolhe a capacidade de análise). As minhas ideias
sobre o futuro Governador começam num facto nunca cabalmente explicado, a
saber, por que razão Elisa Ferreira esteve lá tão pouco tempo como
administradora. A resposta de que foi "chamada" pela Europa não colhe
porque, simplesmente, não é coerente (lá está). Poderia ter sido porque não
conseguiu fazer o trabalho que se propunha. Assim, a minha primeira ideia o seu nome, mas não o escrevi porque não é meu costume dar recados de nomes. Depois,
pensei que Centeno não devia ir, precisamente porque vamos atravessar momentos
em que precisamos dele nas Finanças. E, não esquecer, na actual Europa do euro,
o Ministro das Finanças tem muito mais poder do que o Governador do Banco
Central. Todos sabemos isso, mas muitos esquecem-no
Ora, entretanto, percebi que o
próprio Centeno não achava má ideia e tentei compreender porque pensava assim.
Seguindo a lógica de sempre, a minha resposta foi simples, dividida em duas.A
primeira é que encontrou alguém que o pode substituir nas Finanças, o que até
pode ser bom, pois de pessoas providenciais está o mundo cheio. Recordemos que
Centeno é uma excepção neste rectângulo, incluindo no meio dos emigrados
académicos que nunca verdadeiramente tomaram partido dos mundos iluminados onde
andaram. Todavia, sabemos bem que, pelo mundo fora, há muitos Centenos. Talvez
este que se perfila para o substituir seja um desses emigrados que não ficou
agarrado à terrinha e ao pensamento quadrado do cavaquismo e saiba de facto ir
mais longe na escolha de políticas. A segunda parte da resposta relaciona-se com
a possibilidade de Centeno achar que consegue fazer alguma coisa daquele
Conselho de Administração, há décadas dividido e que não toma decisões. Uma
primeira acção seria convidar mulheres (e Elisa Ferreira deveria voltar) e
economistas que já leram para além do Dornbusch e têm em cima da mesa e não
escondido na gaveta algum Krugman & Obstfeld (comentário privado, não
liguem).
Ora, uma outra questão importante
é se pode um ministro das Finanças ir para o Banco de Portugal? Neste caso,no
meu entender, pode. Em outros casos, claramente não. Para aqueles que se riram
de Centeno, há uns anos atrás, recordemos duas ou três coisas que escrevi num
estudo de que falarei um dia, que isto já vai longo. Cavaco foi pescado à linha
(não era um desconhecido) do Gabinete de Estudos do Banco de Portugal para
ministro das Finanças. Aquando da infeliz morte de Sá Carneiro e demais
passageiros do fatídico voo, Cavaco voltou para o Gabinete e fez uma coisa
histórica, que saiu nos jornais da época.O
Gabinete de Estudos era quem publicava as análises de política económica
e financeira e fazia sempre grande furor na imprensa. Pois, a análise então
saída fazia uma avaliação muito negativa do mandato de Cavaco (sobretudo porque
valorizou o escudo, para o preço da gasolina não subir, dizia-se, e com isso contribui para a
recessão que se seguiu, uma vez que a balança comercial piorou).Pois, de volta
ao Gabinete adiou a publicação do relatório que foi reescrito em
confrmidade.Isto está documentado. Mais tarde, numa das vezes que foi
primeiro-ministro, nomeou um seu secretário de Estado para Governador do
Banco. Tudo isto é história, que um dia
será seguramente contada de forma consistente. Em conclusão, com Cavaco não
podia haver essas pontes, pois não havia muito critério. Com Costa, Centeno e o
olho (desatento,embora) do BCE, podemos estar mais tranquilos.
Um remate curioso desta parte
histórica passas por recordar que Salazar deixou o Banco de Portugal sem
Governador, entre 1936 e 1957, porque queria ter todo o poder sobre uma instituição
em que não confiava plenamente, enquanto ditador que era. E, embora os tempos
fossem outros, controlou-o, precisamente, sem Governador
Em conclusão, sim, Centeno como
Governador, um conselho de Administração renovado e funcional, com mulheres, alguns
políticos, algum equilíbrio partidário, e um ministro das Finanças da escola
avançada e não da dos idos anos 1960 a 1990, é perfeitamente aceitável. Mais do
que isso, pode dar lugar a uma mudança que urge. Dito tudo isto, há uma coisa
em que todos têm razão, a saber, Costa e Centeno deviam ser mais claros e
menos, muito menos secretos. O Banco de Portugal é uma instituição pública que
custa muito dinheiro ao país.
Pedro Lains


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