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segunda-feira, 15 de junho de 2020

Ninguém percebe bem o que o Banco de Portugal faz e por isso há tanta confusão:


Já tive várias opiniões sobre quem deveria ser o próximo governador do Banco de Portugal, mas agora tenho uma que me parece será a última. Para chegar a ela, bastou-me ouvir melhor o que Costa e Centeno têm andado a dizer e tentar perceber o que lhes vai na cabeça, o que não é muito difícil pois são pessoas excepcionalmente coerentes, concordo-se ou não com as respectivas opiniões (e eu quase sempre concorde, embora pense que isso não me tolhe a capacidade de análise). As minhas ideias sobre o futuro Governador começam num facto nunca cabalmente explicado, a saber, por que razão Elisa Ferreira esteve lá tão pouco tempo como administradora. A resposta de que foi "chamada" pela Europa não colhe porque, simplesmente, não é coerente (lá está). Poderia ter sido porque não conseguiu fazer o trabalho que se propunha. Assim, a minha primeira ideia o seu nome, mas não o escrevi porque não é meu costume dar recados de nomes. Depois, pensei que Centeno não devia ir, precisamente porque vamos atravessar momentos em que precisamos dele nas Finanças. E, não esquecer, na actual Europa do euro, o Ministro das Finanças tem muito mais poder do que o Governador do Banco Central. Todos sabemos isso, mas muitos esquecem-no

Ora, entretanto, percebi que o próprio Centeno não achava má ideia e tentei compreender porque pensava assim. Seguindo a lógica de sempre, a minha resposta foi simples, dividida em duas.A primeira é que encontrou alguém que o pode substituir nas Finanças, o que até pode ser bom, pois de pessoas providenciais está o mundo cheio. Recordemos que Centeno é uma excepção neste rectângulo, incluindo no meio dos emigrados académicos que nunca verdadeiramente tomaram partido dos mundos iluminados onde andaram. Todavia, sabemos bem que, pelo mundo fora, há muitos Centenos. Talvez este que se perfila para o substituir seja um desses emigrados que não ficou agarrado à terrinha e ao pensamento quadrado do cavaquismo e saiba de facto ir mais longe na escolha de políticas. A segunda parte da resposta relaciona-se com a possibilidade de Centeno achar que consegue fazer alguma coisa daquele Conselho de Administração, há décadas dividido e que não toma decisões. Uma primeira acção seria convidar mulheres (e Elisa Ferreira deveria voltar) e economistas que já leram para além do Dornbusch e têm em cima da mesa e não escondido na gaveta algum Krugman & Obstfeld (comentário privado, não liguem).

Ora, uma outra questão importante é se pode um ministro das Finanças ir para o Banco de Portugal? Neste caso,no meu entender, pode. Em outros casos, claramente não. Para aqueles que se riram de Centeno, há uns anos atrás, recordemos duas ou três coisas que escrevi num estudo de que falarei um dia, que isto já vai longo. Cavaco foi pescado à linha (não era um desconhecido) do Gabinete de Estudos do Banco de Portugal para ministro das Finanças. Aquando da infeliz morte de Sá Carneiro e demais passageiros do fatídico voo, Cavaco voltou para o Gabinete e fez uma coisa histórica, que saiu nos jornais da época.O  Gabinete de Estudos era quem publicava as análises de política económica e financeira e fazia sempre grande furor na imprensa. Pois, a análise então saída fazia uma avaliação muito negativa do mandato de Cavaco (sobretudo porque valorizou o escudo, para o preço da gasolina não subir,  dizia-se, e com isso contribui para a recessão que se seguiu, uma vez que a balança comercial piorou).Pois, de volta ao Gabinete adiou a publicação do relatório que foi reescrito em confrmidade.Isto está documentado. Mais tarde, numa das vezes que foi primeiro-ministro, nomeou um seu secretário de Estado para Governador do Banco.  Tudo isto é história, que um dia será seguramente contada de forma consistente. Em conclusão, com Cavaco não podia haver essas pontes, pois não havia muito critério. Com Costa, Centeno e o olho (desatento,embora) do BCE, podemos estar mais tranquilos.

Um remate curioso desta parte histórica passas por recordar que Salazar deixou o Banco de Portugal sem Governador, entre 1936 e 1957, porque queria ter todo o poder sobre uma instituição em que não confiava plenamente, enquanto ditador que era. E, embora os tempos fossem outros, controlou-o, precisamente, sem Governador

Em conclusão, sim, Centeno como Governador, um conselho de Administração renovado e funcional, com mulheres, alguns políticos, algum equilíbrio partidário, e um ministro das Finanças da escola avançada e não da dos idos anos 1960 a 1990, é perfeitamente aceitável. Mais do que isso, pode dar lugar a uma mudança que urge. Dito tudo isto, há uma coisa em que todos têm razão, a saber, Costa e Centeno deviam ser mais claros e menos, muito menos secretos. O Banco de Portugal é uma instituição pública que custa muito dinheiro ao país.

Pedro Lains

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