A precariedade na cultura em
geral e nas artes em particular, é um assunto sério e de uma gravidade
inimaginável! A arte sempre foi e continua a ser, infelizmente, um parente
pobre. A arte continua a ser vista como acessório! É mais ou menos como a
vivência divina e espiritual… só nos lembramos dela quando nos toca a perda ou
necessitamos de preenchimento, mas… se puder ser de “borla”! De uma forma
geral… é assim! O artista?! Esse irá “dar-se” ou “doar-se” sempre por umas
palmas gratas pela beleza fruída com o bolso vazio, mas, com a alma cheia por
ter preenchido o seu campo de maior carência, o reconhecimento do seu valor
criativo (talento), fruto de um enorme investimento e trabalho associados. O
artista preenche-se com muito pouco pela sua carência intrínseca de ser
artista. O difícil é a subsistência, a dificuldade em constituir família, ter
um sistema social que o proteja, etc… só há uma forma: fazer algo que o
complemente, apesar de não o preencher em pleno, como garante da sua
sustentabilidade. Muitos até lhe chamam o Artista-trabalhador, como se a arte
que apresenta fosse resultado do imediato e de uma benção superior! É uma
realidade e temo que continue a ser… infelizmente!!!
Os apoios aos artistas neste tempo de pandemia são urgentes e imprescindíveis. As iniciativas de apoio à cultura e sua valorização por quem de direito são de salutar. No entanto, a sustentabilidade dessa valorização deve passar estrategicamente pela sensibilização, educação e consciencialização da sociedade civil para que se perceba que a cultura dá trabalho e muito! Este esforço educacional e cultural levará décadas e gerações tal como uma plantação de tâmaras! Mas só planta este fruto quem pensa nas gerações futuras e para isso é necessário uma atitude de altruísmo e generosidade ao mais alto nível. O Estado pode e deve ajudar, mas a estratégia deveria ser a prioridade. Vivemos num viveiro de artistas do melhor que há no mundo! O país vive a arte como nunca viveu, porque a oferta é muita! Ela vai ter com às pessoas nos mais variados contextos: no trabalho, na escola, nas prisões, nos hospitais, nos lares de idosos/centros de dia, nas ruas… e o esforço dos artistas é notório pela sua criatividade, pois a oferta é superior à procura. Porquê? É um fenómeno social por um lado e a carência em subsistir pelo outro. O país proporcionou por um lado a criação de artistas (ensino), mas não se preparou para tanta oferta artística de qualidade. Quero continuar a ter esperança! Temos de ter consciência de uma coisa, os artistas são servidores e missionários com uma missão luminosa de beleza para a humanidade contemplar, mas precisam de pão na mesa como toda a gente. Quem bate palmas fá-lo pelo preenchimento do momento e com a gratidão que o mesmo merece, espera-se que essa gratidão tenha cada vez mais, um maior comprometimento.”


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