Vejo pouca televisão. A televisão
interessa-me mais enquanto meio de manipulação de opinião (a sua verdadeira
função) do que como meio de informação ou de entretenimento. Já vi menos. Agora
mais, por efeito colateral do cofinamento. Vou percorrendo as estações. Há
menos anúncios, logo, menos dinheiro, mais luta interna, mais espaço para cada
estação mostrar os seus interiores, a sua alma, a natureza do seu produto e dos
seus vendedores. A verdadeira face. Os anúncios são do melhor que as televisões
apresentam, juntamente com alguns documentários. Sem anúncios, com poucos
documentários, sem a peixeirada à volta do futebol, resta a televisão
propriamente dita, sem maquilhagem, entregue ao seu elenco residente e aos seus
guiões descarnados como os chifres de um touro que está na arena, às lutas de
bastidores que são sempre o recheio mais interessante das peças, sejam farsas
sejam comédias, sejam tragédias.
Tenho andado à procura nos
clássicos — há tempo para os clássicos em tempos de confinamento, e eles
disseram o que havia a dizer de essencial sobre a natureza humana — de
referências para o que vai passando pelo palco liso dos ecrãs e imaginando o
reboliço nos camarins, nos corredores. As mensagens explícitas e as sublimares.
Descobri que todas as estações de televisão exibem perante nós, mais ou menos
condenados à assistência, versões da Oresteia, a Triologia de Orestes, peças do
dramaturgo grego Ésquilo, que o CCB apresentou em 2018.
Os repórteres e os apresentadores
(m/f) colocam nos ecrãs vinganças, mortes e sangue que ocorrem nas famílias do
país e nós imaginamos através da agressividade dos “televisivos”, os mesmos
Agamémnones das tragédias, assasinados pelas esposas, conluiadas com os
amantes, que matam os/as filhos/as. Imaginamos as lutas pelo poder de aparecer
de pivô a julgar, a condenar, a perororar, a manchar uma reputação, seja a de
um vizinho de bairro, seja a de um vizinho de carteira na redação do estúdio.
Nas ‘Coéforas’, Orestes, filho de
Agamémnon e Clitemnestra, vinga a morte do pai, assassinando a sua mãe e também
Egisto. Orestes tem o apoio da irmã Electra e do deus Apolo, mas é
imediatamente atacado pelas Erínias e enlouquece. O principio das televisões, é
o de Ésquilo, “A Justiça (a nossa) lutará contra a Justiça, (a dos outros) e
sou eu (o televisivo) que julgo.»
Para os deuses da televisão, como
para os do Olimpo, o destino dos homens está nas suas mãos. Os que aparecem no
ecrã perguntam-se: Seremos deuses? Se não são tudo farão pare serem. Este é o
espetáculo das TVs: homens e mulheres em luta para serem os deuses que aparecem
aos comuns mortais a imporem a sua lei, a sua visão do mundo, a julgar, a
condenar!
Confrontar-nos com um mundo
destes — o dos deuses que conseguem um lugar no ecrã — é sermos convocados a
fazer parte dele, a assumir a esquizofrenia dos estúdios e das reportagens no
exterior. Mas há aqueles que não podem escapar a prestarem-se ao papel de
aparecerem, de darem a cara, sob pena de serem acusados de cobardia ou de
falsos inocentes com um crime no bolso. Os “televisivos” têm de atirar carne ao
fosso dos leões!
As televisões e os seus deuses da
justiça são o tribunal, os juízes e os carrascos que, como nas Euménides, julgam
os mortais. Na obra de Ésquilo, todos os que caíam nas mãos das Erínias eram,
por princípio, culpados e tinham de expiar culpas. Os deuses e as deusas da
informação e da investigação são as Erínias modernas e cada um os/as
identificará como melhor entender. As Erínias, as mais alucinadas, aparecem
entre as oito da noite e as onze da noite. Quando alguém vai à televisão, vai
para fazer o contraponto à atuação de uma Erínia, é um punching ball, um saco
para socos do boxe. Está condenado à partida, porque o “apresentador”, tal como
as Erínias, tem de o matar para sobreviver, garantir o seu lugar diante da
câmara. O deus diretor, após uma entrevista, avalia o seu executor elogiando-o:
“deste cabo do gajo!” Tens direito a mais tempo de antena. Ou, pelo contrário,
critica-o: “Não tens espírito assassino!”, passas aos programas infantis”.
As Erínias, na mitologia grega,
personificavam a vingança. Na mitologia romana, eram chamadas Fúrias. Na
mitologia audiovisual nacional podem atribuir aos furiosos e às furiosas os
nomes que considerarem apropriados, em masculino e feminino. Pavorosas,
possuíam asas de morcego e cabelo em forma de serpente. Hoje estão nos estúdios
e parecem seres normais, pelo menos quando em trabalhos encantatórios de
aliciamento de vítimas.
Os furiosos e as furiosas das TVs
são numerosos, mas na peça de Ésquilo foram reduzidas a três, que representam
as variedades representativas da espécie: Alecto, a implacável, eternamente
encolerizada. Encarrega-se de castigar delitos morais. Seguia a vítima sem
parar, ameaçando-o com fachos acesos, não o deixando dormir em paz. Lembro-me
às vezes da Alecto. E também da Megera, a rancorosa, que personifica o ódio, a
inveja, a cobiça e o ciúme. Persegue com a maior sanha, fazendo o seu alvo
fugir eternamente. Por fim, Tisífone, a vingadora, a terceira das fúrias de
Ésquilo, grita ininterruptamente aos ouvidos do seu prisioneiro até o
enlouquecer.
As Erínias de hoje aparecem
desorbitados/as a anunciar investigações sobre fantásticos escândalos, a
debitar infalíveis e perspicazes comentários catastróficos, a fazer entrevistas
à cabeçada, mas estão apenas a lutar pela sua sobrevivência. Se apreciarmos os
“televisivos “ como representações das Erínias, podemos retirar do tempo diante
da televisão o proveito de uma tragédia clássica, adaptada aos nossos tempos,
sob a forma de farsa, ou de comédia de enganos. Não se perde tudo.
Recordo um velho camarada que
numa altercação com uma mulher de linguarejar vicentino, e já quase vencido, a
calou chamando-lhe lamelibrânquia. Silenciada a popular, virou-se para a
assistência e comentou, impante: Estão a ver as vantagens da cultura?
Carlos Matos Gomes

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