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sábado, 11 de abril de 2020

Divagando:

São altas horas da madrugada e eu sem sono. Também não admira! Quem está sujeito ao confinamento e tenta cumpri-lo tem vinte e quatro para dormir. Para passar as horas do dia, deito-me a dormir a sesta, depois durante a noite é um problema para vir o sono. Dou voltas e voltas na cama, mas ele não aparece. Julgo que também está a cumprir o confinamento.

Enquanto dou essas voltas na cama tenho ideias e pensamentos. E antes que me esqueça delas ponho-me a pé e venho para o computador – que sorte tenho em saber lidar um pouco com ele – e tento pôr essas ideias e pensamentos em prática enquanto estou inspirado. E a inspiração é um bem que vem e que vai numa fracção de segundos.

Por falar em inspirado. Há anos o meu pai por motivos familiares precisou de socorrer aos bruxos por causa de uma doença de um filho. Depois da medicina não resultar foi aconselhado por amigos para tentar os serviços de bruxaria.

Pedia-me a mim que na altura era o único que tinha carro se o acompanhava, com a companhia de uma pessoa amiga. Assim me dispus, com a condição, de não entrar. Assim foi. Correu vários. Na última ida depois de ele insistir, nesse dia a outra pessoa não podia ir, e para ele não entrar sozinho pediu-me encarecidamente para o acompanhar. A custo lá fui.

Entramos para uma sala e no meio desta estava uma bacia de plástico com muitas moedas de dinheiro e notas. O meu pai disse ao que ia o que levou o dito bruxo a dizer uma lengalenga de ervas e mais não sei o quê, mas com rapidez que era difícil tomar nota. Toda esta lengalenga foi dita de olhos fechados. Quando os abriu disse: é isso que tem de fazer. O meu pai pediu-lhe para voltar a repetir porque não conseguiu assimilar tudo. Respondeu o bruxo: - já não me encontro inspirado. O meu pai perguntou quanto tinha a pagar. Resposta: - não cobro importância nenhuma, mas as pessoas como recompensa dão sempre para cima de quinhentos escudos. Com esta resposta apeteceu-me dar um pontapé na bacia do dinheiro. Não o fiz por respeito ao meu pai.

Neste momento ao contrário do bruxo, estou inspirado.

E a inspiração vem-me recordar os momentos que não posso ter com o meu neto (1 ano) em minha casa como era habitual. Neste momento a minha filha está em casa e toma conta dele e como prevenção porque tanto eu como minha esposa já não somos “crianças” estamos mais sujeitos a apanhar o vírus e transmiti-lo a ele. Da falta de presença da minha filha. Dos almoços semanais aqui em minha casa! Da não presença deles no almoço de Páscoa! Da falta de diálogo com o meu neto Duarte! De longe a longe dá uma saltada fugidia a minha casa, mas nem um beijo à avó e a mim. Sinto a falta da sua pouca barba a roçar na minha face, uma vez que me barbeio diariamente.

Sinto a falta do Café das Sebastianas! Dos confrontos verbais com os meus colegas: de futebol, da sueca – sou um ferrenho observador – depois do jogo concluído digo onde um ou outro jogou mal. Crio celeuma, mas é esse o efeito. De fazer as palavras cruzadas – concluo – já o Sudoku a maioria das vezes não.

Uma ida com a minha esposa ao Centro Comercial Ferrara Plaza tomar o pequeno almoço! Dar uma espreitadela nas lojas! Isto tudo há pouco tempo, mas parece uma eternidade. Os meus passeios diários a pé! Tudo isto não sei até quando.

E quantas noites vou passar a contar as horas passar. Julgo que umas quantas e sempre que me achar inspirado aqui venho relatar essas inspirações.

Volto para a cama para dar voltas e mais voltas. Maldito vírus.

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