São altas horas da madrugada e eu sem sono. Também não admira! Quem está sujeito ao confinamento e tenta cumpri-lo tem vinte e quatro para dormir. Para passar as horas do dia, deito-me a dormir a sesta, depois durante a noite é um problema para vir o sono. Dou voltas e voltas na cama, mas ele não aparece. Julgo que também está a cumprir o confinamento.
Enquanto dou essas voltas na cama
tenho ideias e pensamentos. E antes que me esqueça delas ponho-me a pé e venho
para o computador – que sorte tenho em saber lidar um pouco com ele – e tento
pôr essas ideias e pensamentos em prática enquanto estou inspirado. E a
inspiração é um bem que vem e que vai numa fracção de segundos.
Por falar em inspirado. Há anos o
meu pai por motivos familiares precisou de socorrer aos bruxos por causa de uma
doença de um filho. Depois da medicina não resultar foi aconselhado por
amigos para tentar os serviços de bruxaria.
Pedia-me a mim que na altura era
o único que tinha carro se o acompanhava, com a companhia de uma pessoa amiga.
Assim me dispus, com a condição, de não entrar. Assim foi. Correu
vários. Na última ida depois de ele insistir, nesse dia a outra pessoa não podia ir, e para ele não entrar sozinho pediu-me encarecidamente para o acompanhar. A
custo lá fui.
Entramos para uma sala e no meio
desta estava uma bacia de plástico com muitas moedas de dinheiro e notas. O meu
pai disse ao que ia o que levou o dito bruxo a dizer uma lengalenga de ervas e
mais não sei o quê, mas com rapidez que era difícil tomar nota. Toda esta
lengalenga foi dita de olhos fechados. Quando os abriu disse: é isso que tem de
fazer. O meu pai pediu-lhe para voltar a repetir porque não conseguiu assimilar
tudo. Respondeu o bruxo: - já não me encontro inspirado. O meu pai perguntou
quanto tinha a pagar. Resposta: - não cobro importância nenhuma, mas as pessoas
como recompensa dão sempre para cima de quinhentos escudos. Com esta resposta
apeteceu-me dar um pontapé na bacia do dinheiro. Não o fiz por respeito ao meu
pai.
Neste momento ao contrário do
bruxo, estou inspirado.
E a inspiração vem-me recordar os
momentos que não posso ter com o meu neto (1 ano) em minha casa como era
habitual. Neste momento a minha filha está em casa e toma conta dele e como
prevenção porque tanto eu como minha esposa já não somos “crianças” estamos
mais sujeitos a apanhar o vírus e transmiti-lo a ele. Da falta de presença da
minha filha. Dos almoços semanais aqui em minha casa! Da não presença deles no
almoço de Páscoa! Da falta de diálogo com o meu neto Duarte! De longe a longe
dá uma saltada fugidia a minha casa, mas nem um beijo à avó e a mim. Sinto a
falta da sua pouca barba a roçar na minha face, uma vez que me barbeio
diariamente.
Sinto a falta do Café das
Sebastianas! Dos confrontos verbais com os meus colegas: de futebol, da sueca –
sou um ferrenho observador – depois do jogo concluído digo onde um ou outro
jogou mal. Crio celeuma, mas é esse o efeito. De fazer as palavras cruzadas –
concluo – já o Sudoku a maioria das vezes não.
Uma ida com a minha esposa ao Centro
Comercial Ferrara Plaza tomar o pequeno almoço! Dar uma espreitadela nas lojas! Isto tudo há pouco tempo, mas parece uma eternidade. Os meus passeios diários a
pé! Tudo isto não sei até quando.
E quantas noites vou passar a
contar as horas passar. Julgo que umas quantas e sempre que me achar inspirado
aqui venho relatar essas inspirações.
Volto para a cama para dar voltas e mais
voltas. Maldito vírus.

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