Pandemia, uma série na Netflix,
produzida antes de se conhecer o covid 19, proclamava uma evidência: não se
sabia que vírus ganharia uma expansão planetária, mas era uma questão de tempo
até ele surgir. A conjugação de vários fatores - a globalização, a interação
entre a espécie humana e as selvagens, cujo habitat se invadia, e o crescimento
demográfico - anunciavam-no aos especialistas, que confessavam-se impotentes
para instarem os governos a prepararem-se para o que se seguiria.
Tal significa que, mesmo garantida
a vitória sobre este vírus, mediante a vacina para cuja descoberta tantos
cientistas atualmente se afadigam, nada impede que se siga um qualquer outro,
porventura até mais letal, e para o qual toda esta estratégia de confinamento e
distanciamento social se repita. É por isso que havendo tanta gente a
conjeturar como será o mundo depois deste transe, quase ninguém se revele
particularmente convincente quanto a uma resposta taxativa. Há os que olham
para o ditador húngaro e apostem em distopias, feitas de imparável avanço dos
populismos pós-fascistas. Há os que olham para notáveis exemplos de entreajuda,
mesmo nos que mais mereceriam censura - os traficantes das favelas brasileiras
ou dos bairros napolitanos - capazes de se substituírem ao Estado nas funções
por ele incumpridas. Daí que os mais utópicos acreditem no que diz o Papa a
propósito da necessidade de se porem de parte os egoísmos e apontem a
possibilidade de saírem vencedores os valores humanistas.
Para quem toma os Estados Unidos como bitola e depara com a razia a que se sujeitam os mais pobres - sobretudo os negros e os hispânicos! - enquanto os mais abonados acedem mais facilmente à cura e ao isolamento que os acautele da ameaça, constata-se que este vírus viola as mais básicas regras democráticas: não afeta todos por igual, porque há quem não possua meios de proteção, que aos demais não faltam.
Há, ainda assim, algo que
perdurará nesse d.C. : como propõe Bruno Latour (citado por Slavojo Zizek num
interessantíssimo texto lido hoje no «Público») esta crise demonstrou a todos
quantos vivem nas nossas sociedades desenvolvidas quão fútil era a ideia de não
existirem alternativas ao tipo de organização política, social e laboral
pré-crise. Os que propunham o socialismo levavam como troco, que nenhuma
sociedade parecia (pelo menos aos que nela mais beneficiavam!) mais
desenvolvida que as organizadas em torno da axiomática «liberdade dos
mercados». Os que sugeriam uma outra forma de exploração dos recursos naturais,
que obviasse aos previsíveis danos causados pelo desastre ambiental, recebiam
em troca a impossibilidade da exclusiva aposta nas energias renováveis, porque
os «hidrocarbonetos continuam a ser indispensáveis».
Estes dias têm confirmado que as
coisas não têm de continuar a ser como eram. Embora haja muito a corrigir -
sobretudo para quem perdeu rendimentos ou os empregos -, tem sido possível
constatar a significativa mudança nos paradigmas em que vivêramos até
fevereiro. E que ninguém pode-nos dissuadir que as tais receitas alternativas capazes
de criarem uma sociedade humana mais justa, igualitária e ambientalmente
sustentável só dependem do sentido de urgência em impor aquilo que há muito
deveria estar em curso. Mormente conferindo ao Estado a importância, que os
defensores da sua ínfima expressão procurarão sempre obstaculizar…
Publicada por jorge rocha
Do blogue Ventos Semeados

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