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domingo, 5 de abril de 2020

Confinamento:

Cá estou a cumpri-lo. Ao som da música que a Rádio Sociedade Justa nos vai transmitindo, bom gosto, só música portuguesa, vou mitigando este meu isolamento.
O espaço do meu apartamento não é grande, mas também não é pequeno. Faço algum exercício corporal, mas nada comparado aos meus passeios de outrora. Sim! De outrora. Por que este isolamento já dura uma quinzena. Só uma ida às compras assim como à farmácia. Sim! Sou um bom cliente da Farmácia Barros.
Mas como digo os exercícios corporais não são bastantes, ou por outra, os adequados, para o abatimento da minha barriga. E, quando vou ao espalho é que vejo como ela está a crescer. Assim como o cabelo. Estou a ficar um guedelhudo, tipo anos setenta. Anos hippie.
Como tenho todo o tempo do mundo, nada para fazer, simplesmente pensar e recordar anos antes de setenta, do século passado. E vou aos anos cinquenta do mesmo século.
E vejo-me com o cabelo grande porque nesse tempo uma ida ao barbeiro – nesse tempo era barbeiro e não cabeleireiro como hoje – era mais uma despesa nas parcas, ia dizer economia familiar, mas onde havia economia familiar? Era só dívidas, portanto nas finanças familiares.
Assim, e como as casas não eram dotadas como são hoje. Água encanada era uma miragem. Para a ter tinha de se pedir por favor a quem a possuía. Por isso os banhos eram semanais. Quando eram!
Uma bacia, água aquecida, era esta triste realidade. As casas também eram de dimensões reduzidas assim como os aposentos, um ou dois quartos, sala e uma cozinha. Alguns de soalho, cimento ou terra. Bastante filharada o que levava a dormir mais que um na mesma cama. Cama essa com colchão de palha (colmo) o que contribuía para haver menos higiene.
Por falar em colchão de palha.
Um dia, um casal ao fazer sexo usando preservativo, mas este já usado, como eram caros e raros, lavavam-se, para servir para outro coito, derivado ao uso ou não, o que é certo, é que saiu do pénis e ficou dentro da vagina. Para resolver a situação e como o colchão era de palha resolveram com uma palheira tentar tirar o preservativo tendo esta também ficou lá dentro. Ficaram aflitos. Mas passados nove meses o bebé vinha equipado com gabardine e chapéu de palha.
Vou-me deixar destas ironias e voltar à realidade dos anos cinquenta.
Derivado ao que expus acima sobre a falta de higiene o que é certo é que os mais humildes eram alcunhados de piolhosos e até havia mães com mais possibilidades económicas que não queriam os filhos a brincar com os tais humildes: os piolhosos.
Era dessa classe.
Ainda me lembro da minha mãe de vez em quando, principalmente à noite, espalhar o remédio na minha cabeça. Às minhas irmãs depois de espalhar o remédio atava-lhes um pano na cabeça.
Era assim esse tempo.
Hoje ao ver a situação do País e do Mundo derivado ao Covid19 penso nesse tempo seriamente. Antevejo o Mundo mais pobre.
Portugal como é dos países mais pobres da Europa vai sentir mais. E penso o que vai ser desta juventude e dos meus netos! Não foram criados para estas circunstâncias. Ao contrário de nós que nascemos com elas.
Por isso neste confinamento ao qual estou sujeito tudo isso me vem à memória.

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