«Foi naquela manhã no ginásio, à
saída da aula vazia, nas despedidas do “até breve”, “não vai demorar”,
bruscamente a veemência do silêncio brutal do balneário vazio, a água quente de
mais, enquanto vou percebendo como uma parte da vida normal tinha acabado,
nunca mais voltaria assim. Resisto, vou ao tribunal da parte da tarde, subo a
escadaria íngreme que liga as ruas da Baixa ao Castelo de São Jorge, não há
gente, outra vez aquele silêncio. A escadaria é bonita, tem 107 degraus
contados que sempre me alegraram no encanto de chegar ao alto e contemplar a
cidade.
A paisagem das ausências
agudiza-se no regresso a casa, que já nem é casa, parece outra coisa. A
síndrome da paragem a alta velocidade, as batidas aceleradas do coração, um
processo físico complexo.
Primeira parte, a necessidade de
criar uma imitação do mundo que tínhamos, de fingir fazer, de imaginar o que já
não somos, num despenhar da realidade para um passado longínquo e inacessível,
como quem se afasta de terra num barco imparável e sem bússola. Teimamos na
imitação de vida, o amor aos netos emoldurado ou desfocado no retângulo do
telemóvel, os trabalhos no computador, a âncora da luz amarelada que entra
pelas janelas, o acenar à mãe cá de baixo da rua, ao fim da tarde.
Preciso de combater esta expansão
convulsiva do recuo, do isolamento irracional, evitar o efeito de espelho
eletrocutado, citando Herberto Helder na “Carta ao Silêncio”. Manter os mesmos
objetivos diários, os mesmos horários, não funciona, parece que me fui embora
de mim própria. Não é altura para explicações que não tenho.
Segunda parte, o bicho malicioso
suga-nos, emparedados entre os traços da estatística negra dos mortos e
infetados, galvanizados pelo heroísmo médico e pessoal hospitalar indomável,
diluímo-nos em esquemas ingénuos. O mundo girava obcecado por dinheiro, por
ícones vazios, sem valores espirituais, alimentado de consumismos irracionais e
hedonistas, viagens compulsivas, cadeias globais de abastecimentos, euforias
mirabolantes, tudo desfeito por este silêncio que é o que não conhecemos. Mal
habituados que estávamos a não saber.
Lutar contra o vírus malicioso
não é um objetivo de combate egoísta e cobarde, tem que incluir a luta contra a
miséria, a desigualdade, a aniquilação do ser humano. Provavelmente vamos aprender
tudo de novo, num mundo virado do avesso. Só que precisamos de ação, nunca de
asfixia.
Parte três. Adapto então os
objetivos à ação, agora sem baboseiras, o processo tem dor, deixo-me flutuar.
Descubro a escadaria do meu prédio para o exercício diário, conto os degraus e
são 107, 107 outra vez, lá no cimo há o clarão da claraboia. Desço e subo
infinitamente, o coração a bater cada vez mais, a suar, no fim ponho um álbum
de jazz com a música tumultuosa e caleidoscópica de Shostakovich. Ninguém sabe o
desfecho desta história, permanecem no ar os cambiantes das partituras
decadentes e poderosas da música, o corpo começa sempre onde acaba, e há um
clarão lá em cima da claraboia. 107 degraus, 107, todos os dias, muitas vezes.»
Maria José Morgado
Do blogue Entre as brumas da memória

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