Estou do lado dos e das que
entendem que, com menos nervosismo, a nova extrema-direita pode continuar a ser
residual, mas à esquerda é bom que se perceba o que é velho e o que é novo e o
que é “combate” e “guerra” nesta agenda ideológica.
Eles afirmam-se da “nova
direita”, disputam o mesmo espaço e assemelham-se a tantos outros líderes de
extrema-direita populista. São frutos dos dias, da trumpização da política, do
populismo e do poder das redes sociais, mas a “nova direita” de Ventura e Chicão
está cheia de ideias tiradas do baú da “nouvelle droite” à portuguesa de finais
dos anos 70 e dos anos 80.
A “nova direita” daqueles tempos,
influenciada por Alain de Benoist e com forte audiência na extrema-direita,
foi, por cá, protagonizada, entre outros, por Diogo Pacheco de Amorim e Jaime
Nogueira Pinto, defensores da “guerra cultural antimarxista”. Percebe-se que o
segundo exulte, hoje, por ter encontrado as duas “caras” para a “guerra
cultural” contra a “esquerda dominante” há meio século: Francisco Rodrigues dos
Santos e André Ventura (Jaime Nogueira Pinto, Observador, “Sinais do Tempo”, 31
de janeiro).
A “guerra cultural”, reciclada 40
anos depois, permanece um instrumento para o Chega e o CDS de Chicão ajustarem
contas com o 25 de Abril e sustentarem a revisão da História. Para isso, quer o
programa de um quer a moção ao congresso de outro recuperam o complô do
passado: o “domínio da esquerda” na cultura, na academia, na comunicação
social… Comparando o que é diferente em contexto e natureza, na moção “Voltar a
Acreditar” (que indicarei como MVA) e no “Programa Político Chega, 2019” (PPCh)
assinalam-se algumas das velhas orientações desta “nova direita”.
Combater a esquerda para
responder à “emergência patriótica” perante a “quadrilha de esquerda que
assaltou o sistema parlamentar” e combater o “domínio da esquerda na Cultura”
(MVA). Para o Chega, a guerra cultural em curso é o combate à “ditadura do
pensamento único igualitário em prejuízo da liberdade”, uma vez que “a loucura
marxista não desarma” (PPCh) e o “marxismo-gramsciano” está em todo o lado, nas
Artes, nas Letras, na Academia, nos meios de comunicação de massas.
Combater a igualdade, uma das
mais fortes obsessões da Nova Direita dos anos 80, com a “batalha científica”
pela prova da diferença, da hierarquia, do território, da unidade orgânica
contra o igualitarismo, está intacta no programa do Chega. Com a rejeição da
igualdade e a promoção da “diferença”, à luz de uma visão neopositivista das
ciências sociais, tanto se justifica a condenação do Estado “igualizador” como
a defesa da igualdade em dignidade “como a “única igualdade desejável para a
nova direita”, sendo este eixo necessário para a avaliação do combate à
“ideologia de género” e aos direitos LGBT.
Rever a História, contra a
esquerda que impôs o “arrependimento coletivo” e para a qual a História e a
Cultura são “intrinsecamente más”, fazendo “justiça à missão evangelizadora que
Portugal preconizou no passado”, pois a “portugalidade não é um anacronismo”
(MVA). Sendo certo que o Chega vai mais longe no ajuste de contas com a
Revolução e a Constituição, propondo a IV República, registe-se que ambos
investem na criação do Museu das Descobertas, na defesa da identidade nacional
e do ensino de uma História de Portugal purgada do “revisionismo” da esquerda.
Recolocar a centralidade da
família e reduzir o Estado, pois a família é “instância primária de poder” e
exige a criação do Ministério da Família (PPCh), ou é “célula básica” da
sociedade, para o “partido da família” (MVA). Ambos propõem libertar o cidadão
do Estado, nomeadamente através da redução dos impostos, se bem que o Estado
essencialmente “regulador” da moção de Chicão não é exatamente o mesmo que o
“Estado arbitral” e a destruição do Estado Social do Chega. Este convoca os
economistas do neoliberalismo, Hayek e Von Mises, e tanto propõe o fim do
Ministério da Educação como sustenta que o Estado “não é prestador de bens e
serviços no Mercado da Saúde”.
Quanto à economia e ao mundo, não
há nada que o neoliberalismo não enquadre, que o mercado não resolva, e que a
NATO e os EUA não alumiem, nada que os afaste do que a velha-nova direita
defendeu há 40 anos. É certo que o programa do Chega refresca, nomeadamente com
o fim do Pacto das Migrações da ONU e com o ataque a migrantes e refugiados,
espólio da nova extrema-direita populista que deu palco a uma gigantesca
campanha de desinformação nas redes sociais.
Depois do 25 de Abril, esta
tralha ideológica deixou-os nos fundos da arrecadação da direita institucional,
obrigados a engolir o sapo da integração nos partidos do sistema (PSD e CDS),
ou a sobreviverem como opinantes e ideólogos de experiências fracassadas. Estou
do lado dos e das que entendem que, com menos nervosismo, a nova
extrema-direita pode continuar a ser residual, mas à esquerda é bom que se
perceba o que é velho e o que é novo e o que é “combate” e “guerra” nesta
agenda ideológica.
A autora escreve segundo o novo
acordo ortográfico
Cecília Honório
Professora; investigadora;
dirigente do BE

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