• Miguel Sousa Tavares,
'Recapitulando', [hoje no Expresso]:
‘Espero bem que o país não se
esqueça de ajustar contas com essa gente um dia. Esses economistas, esses
catedráticos da mentira e da manipulação, servindo muitas vezes interesses que
estão para lá de nós, continuam por aí, a vomitar asneiras e a propor crimes,
como se a impunidade fizesse parte do estatuto académico que exibem como manto
de sabedoria.
Essa gente, e a banca, foram os
que convenceram Passos Coelho a recusar o PEC 4 e a abrir caminho ao resgate,
propondo-lhe que apresentasse como seu programa nada mais do que o programa da
troika — o que ele fez, aliviado por não ter de pensar mais no assunto. Vale a
pena, aliás, lembrar, que o amaldiçoado José Sócrates, foi o único que se opôs
sempre ao resgate, dizendo e repetindo que ele nos imporia condições de uma
dureza extrema e um preço incomportável a pagar. Esta maioria, há que
reconhecê-lo, conseguiu o seu maior ou único sucesso em convencer o país que o
culpado de tudo o que de mal nos estava a acontecer foi Sócrates — o culpado de
vinte anos sucessivos de défice das contas públicas, o culpado da ordem vinda
de Bruxelas em 2009 para gastar e gastar contra a recessão (que, curiosamente,
só não foi cumprida pela Alemanha, que era quem dava a ordem), e também o
culpado pela vinda da troika. Mas, tanto o PSD como o CDS, sabiam muito bem
que, chumbado o PEC 4, o país ficava sem tesouraria e não restava outro caminho
que não o de pedir o resgate. Sabiam-no, mas o apelo do poder foi mais forte do
que tudo, mesmo que, benevolamente, queiramos acreditar que não mediram as
consequências.
E também o sabia o PCP e a CGTP,
que, como manda a história, não resistiram à tentação do quanto pior, melhor. E
sabiam-no Francisco Louçã e o Bloco de Esquerda, que, por razões que um
psicanalista talvez explique melhor do que eu, se juntaram também à mais amoral
das coligações direita/extrema-esquerda, com o fim imediato e mais do que
previsível de obrigar o país ao resgate e colocar a direita e os liberais de
aviário no poder, para fazer de nós o terreno de experimentação económica e
desforra social a que temos assistido.’
Fátima Campos
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Sobre este caminho para a
servidão, vale a pena rever a intervenção de Pedro da Silva Pereira, no
encerramento do debate do PEC IV, na AR. A História registará este momento de
um golpe de estado parlamentar com o objectivo de derrubar um governo
democraticamente eleito :
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