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sábado, 7 de março de 2020

A Operação Marquês vista pelo senso comum de uma pessoa da rua:


Algures em 2013 ou na primeira metade de 2014, algures na Procuradoria-Geral da República, Joana Marques Vidal reuniu com Rosário Teixeira. Estava na hora de tomar uma decisão inaudita na história da Justiça em Portugal: iam prender um ex-primeiro-ministro? Sabiam que dependia deles. Sabiam que o único juíz então em funções no Tribunal Central de Investigação Criminal alinharia com toda e qualquer pretensão do Ministério Público. Sabiam que o regime estava na mão de um poder político que não só aprovaria como desejava apaixonadamente a prisão do seu inimigo nº 1. Sabiam que dispunham de órgãos de comunicação social, de jornalistas directores e editores, de comentadores influentes, de uma turbamulta a salivar por linchamentos e autos-de-fé, com um inesgotável arsenal de violência assassina pronto a ser esvaziado em cima do alvo. Pelo que ali, naquela sala, a sós, se iria decidir parte fundamental do futuro do País.

De um lado tinham um conjunto de indícios suficiente para avançarem com a constituição de arguidos, do outro tinham o factual desconhecimento sobre a existência de ilegalidades com relevância suficiente para o impacto político e social que seria inevitável ao se tornar pública a investigação. Essa dupla faceta, a qual no campo judicial não só aconselharia como obrigaria a especiais cautelas, permitia fazer uma total gestão política do processo. Quando e como avançar, se avançar fosse a decisão, dependia unicamente das duas pessoas ali reunidas face a face no mais secreto segredo de Justiça. Podiam continuar a recolher informações até chegarem à eventual primeira prova de corrupção ou desistirem caso não a encontrassem depois de vasculharem o suficiente? Podiam. Podiam chamar Sócrates a prestar declarações deixando-o sair com a leveza de um termo de identidade e residência, quiçá a proibição de contactar fulano e beltrano, e o peso esmagador de se anunciar estar a ser formalmente investigado por crimes gravíssimos? Podiam. Podiam deter um Sócrates a aterrar na Portela e fazer desse acontecimento um espectáculo mediático como não há equivalente na memória viva mas depois não pedirem a sua prisão preventiva por evidente falta de matéria probatória? Não podiam.

A decisão que a santa Joana e o implacável Rosário tomaram implicou seguir uma lógica unicamente política. Sócrates iria ser preso, era agora ou nunca, mas no tempo certo para o que à agenda da direita interessava. Preso como castigo da oligarquia, como prémio supremo a ser oferecido numa bandeja pela procuradora-geral da República ao poder que a nomeou para isso mesmo: perseguir inimigos políticos. E preso também para ser investigado, embora acabasse por ser indiferente se a corrupção viria ou não a ser provada. Alguma coisa se iria encontrar, muita “sujidade” privada prontinha a despachar para o sensacionalismo e para a indústria da calúnia. Uma indústria que seria de uma importância estratégica para condicionar todo o aparelho judicial que viesse a intervir nas diferentes fases processuais e miríade de casos conexos, tanto os levantados pela acusação como pela defesa. A verdadeira condenação de Sócrates começava antes do começo, quando se usou a Operação Marquês, então ainda oculta, para tentar influenciar as eleições no PS entre um Seguro alinhado com a direita e um Costa que se queria pintar como socrático. E continuava todos os dias, todas as horas, em que passava a ser tratado por criminoso pelas autoridades, pelo sistema partidário e pela sociedade – sem ninguém se preocupar, pelo contrário, com a provada impossibilidade, após 53 mil páginas e 13,5 milhões de ficheiros informáticos a fundamentarem a acusação, de se provar tão-só um singelo crime de corrupção para a amostra que tivesse sido cometido pelo cidadão José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.

As declarações de Rosário Teixeira, no debate instrutório do processo Operação Marquês, ficam como a síntese das sínteses do que esteve na origem deste colossal exercício de violência política:


«"Como se aceita que um ex primeiro-ministro receba empréstimos de alguém que é administrador de uma empresa que trabalha e tem negócios para o Estado", questionou ainda o procurador.

Para o magistrado do MP, o que se viu ao longo deste processo "foram várias situações que merecem reparo para o senso comum das pessoas da rua" questionando: "como pode ser compreendido que haja um acionista e uma empresa que pague ao administrador da própria sociedade por fora".

Segundo Rosário Teixeira, "há explicações que justificam que se leve a julgamento os arguidos sob pena de haver uma rutura dos cidadãos na justiça".»

O embrulho é estritamente moral, dirige-se a luz para o que é legalmente irrelevante. A caixa embrulhada é feita de cartão populista, apelando ao “senso comum das pessoas da rua” para que elas legitimem uma acusação de sarjeta. E o conteúdo é cristalinamente o julgamento político de ex-governantes e de um partido político e suas políticas, da sua competência. A Operação Marquês concretizou com o recurso a dezenas ou centenas de agentes da Justiça essa lenga-lenga odiosa e odienta da criminalização dos socialistas; repetida desde 2007 pelos dirigentes políticos do PSD e CDS, a que se juntou rancoroso e golpista Cavaco Silva a partir de 2008. Daí se ter montado numa sala confortável da Procuradoria-Geral da República, algures em 2013 ou 2014, um megaprocesso onde se enfiou Salgado e Vara de forma a não deixar qualquer pedregulho da calçada com dúvidas sobre o que está politicamente em causa. O impante e ostensivo momento de glória da direita decadente na era democrática, a suprema manifestação da sua força nesta exibição em parada, acorrentado e chicoteado, do chefe bárbaro que só venceram à traição. Provas de crime? A vingança sabe melhor sem elas.

Do blogue Aspirina B


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