Neste momento são três horas –
não vale a pena dizer da manhã porque o dia é composto por vinte e quatro,
portanto devemos seguir a sua ascendência – no relógio do meu computador. Como
nos foi pedido para não sair de casa por causa da propagação do vírus – covid19
– o ficar retido leva-me a que durante o dia “descanse” no leito da minha cama
e de noite não sinta sono.
O que fazer neste entretanto? Ver
televisão! Será que vale a pena derivado à sua mediocridade? Não! Não faz
sentido.
Então dá-me para me entreter a
escrever uns textos. Mas também o dia – noite – não é das melhores.
Faz-me lembrar o tempo de namoro
que escrevia uns rascunhos para elaborar a carta que enviava à minha namorada.
Um atrás de outro era deitado ao
caixote do lixo. Caixote do lixo! Não. Era raro haver. Principalmente em
Balacende, Angola, onde permaneci vinte e três meses isolado. Aproveitava para
os pôr num lugar seguro que finda a escrita da carta queimava-os. Era que assim
ninguém se apoderava deles e fazer troça do que eles diziam.
No computador escrevo e se não
está do meu agrado carrego na tecla delete e lá vai ele para o caixote do lixo.
Aqui fica seguro.
É que nos textos convém ser
rápido e preciso. E haver a quietude da noite. É nestes momentos que melhor me
sai a escrita. Esta quietude é quebrada pelo som do meu telemóvel que está
“sintonizado” na Rádio Freamunde. Por enquanto só transmite música. Mas até ela
é quietude.
Já passam vários minutos das três
horas. Já enviei uns “rascunhos” para delete. Mas como tenho todo tempo do
mundo para dar por findo este texto e não cobro nada por este tempo. Se não
estivesse a escrever no computador estava deitado na cama a contar ovelhas.
Contar ovelhas! Passo a explicar:
Quando era menino e moço gostava
de ouvir histórias infantis. Nesse tempo havia a televisão, não em minha casa,
mas mesmo nas casas que havia ainda não transmitia histórias infantis.
Então como era um fervoroso
ouvinte de histórias infantis socorria-me da minha mãe para, mas contar. É
sabido que naquele tempo as mães, principalmente a minha, tinha uma catrefada
de filhos e pouco tempo para dispensar. Havia outras canseiras.
Mesmo assim conseguia com a minha
“chatice” que a minha mãe contasse. Depois de uma ou duas lá vinha a história
das ovelhas.
“Era uma vez – como começam todas
as histórias – um pastor tinha um rebanho de ovelhas, onde havia numa margem de
um ribeiro um campo com uma erva deliciosa para pasto dele. Esse rebanho era
enorme. A dividir a casa do pastor havia uma ponte velha de quase mil metros e
só suportava a passagem de uma ovelha de cada vez".
Começava a passar a primeira e a
minha mão calava-se. Na primeira vez que a minha mãe me contou esta história
tal era a minha ânsia de saber o resultado que dizia: conte, conte mãe. Mas
recebia como resposta de só poder dar seguimento à história depois de todas
terem passado a ponte. Ficava triste.
Um açambarcador de histórias como
eu não podia ficar de outra maneira. Não resistia e na próxima oportunidade lá
pedia à minha para contar mais histórias. Só que depois de contada uma ou duas
lá vinha a das ovelhas.
Como a sabia de cor e salteada
também sabia que era a forma de a minha mãe me dizer: já chega.
É o que vou fazer neste momento.
São três horas e cinquenta e seis minutos e vou-lhes contar a história do
pastor e o seu rebanho.
Começa assim...
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