Rádio Freamunde

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sexta-feira, 20 de março de 2020

A escrita:


Neste momento são três horas – não vale a pena dizer da manhã porque o dia é composto por vinte e quatro, portanto devemos seguir a sua ascendência – no relógio do meu computador. Como nos foi pedido para não sair de casa por causa da propagação do vírus – covid19 – o ficar retido leva-me a que durante o dia “descanse” no leito da minha cama e de noite não sinta sono.

O que fazer neste entretanto? Ver televisão! Será que vale a pena derivado à sua mediocridade? Não! Não faz sentido.

Então dá-me para me entreter a escrever uns textos. Mas também o dia – noite – não é das melhores.
Faz-me lembrar o tempo de namoro que escrevia uns rascunhos para elaborar a carta que enviava à minha namorada.

Um atrás de outro era deitado ao caixote do lixo. Caixote do lixo! Não. Era raro haver. Principalmente em Balacende, Angola, onde permaneci vinte e três meses isolado. Aproveitava para os pôr num lugar seguro que finda a escrita da carta queimava-os. Era que assim ninguém se apoderava deles e fazer troça do que eles diziam.

No computador escrevo e se não está do meu agrado carrego na tecla delete e lá vai ele para o caixote do lixo. Aqui fica seguro.

É que nos textos convém ser rápido e preciso. E haver a quietude da noite. É nestes momentos que melhor me sai a escrita. Esta quietude é quebrada pelo som do meu telemóvel que está “sintonizado” na Rádio Freamunde. Por enquanto só transmite música. Mas até ela é quietude.

Já passam vários minutos das três horas. Já enviei uns “rascunhos” para delete. Mas como tenho todo tempo do mundo para dar por findo este texto e não cobro nada por este tempo. Se não estivesse a escrever no computador estava deitado na cama a contar ovelhas. Contar ovelhas! Passo a explicar:

Quando era menino e moço gostava de ouvir histórias infantis. Nesse tempo havia a televisão, não em minha casa, mas mesmo nas casas que havia ainda não transmitia histórias infantis.

Então como era um fervoroso ouvinte de histórias infantis socorria-me da minha mãe para, mas contar. É sabido que naquele tempo as mães, principalmente a minha, tinha uma catrefada de filhos e pouco tempo para dispensar. Havia outras canseiras.

Mesmo assim conseguia com a minha “chatice” que a minha mãe contasse. Depois de uma ou duas lá vinha a história das ovelhas.

“Era uma vez – como começam todas as histórias – um pastor tinha um rebanho de ovelhas, onde havia numa margem de um ribeiro um campo com uma erva deliciosa para pasto dele. Esse rebanho era enorme. A dividir a casa do pastor havia uma ponte velha de quase mil metros e só suportava a passagem de uma ovelha de cada vez".

Começava a passar a primeira e a minha mão calava-se. Na primeira vez que a minha mãe me contou esta história tal era a minha ânsia de saber o resultado que dizia: conte, conte mãe. Mas recebia como resposta de só poder dar seguimento à história depois de todas terem passado a ponte. Ficava triste.

Um açambarcador de histórias como eu não podia ficar de outra maneira. Não resistia e na próxima oportunidade lá pedia à minha para contar mais histórias. Só que depois de contada uma ou duas lá vinha a das ovelhas.

Como a sabia de cor e salteada também sabia que era a forma de a minha mãe me dizer: já chega.

É o que vou fazer neste momento. São três horas e cinquenta e seis minutos e vou-lhes contar a história do pastor e o seu rebanho.

Começa assim...

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