Foi com duas palavras em
português que Brigitte Macron se dirigiu aos milhares de brasileiros que nas
redes sociais lançaram a campanha #DesculpeBrigitte. "Muito
obrigada", pronunciou a primeira-dama francesa. Já em francês, explicou o
porquê de se ter sentido comovida. "É por todas as mulheres. Todas as
mulheres se viram afetadas. As coisas estão a mudar. Todas as pessoas devem
estar conscientes disso. Há coisas que já não se podem dizer e coisas que não
se podem mais fazer".
Há quem considere o incidente
entre os presidentes da República de França e Brasil, depois de este ter
comentado uma piada sobre a diferença de idades entre as mulheres de ambos, um
simples fait divers ou mais um exemplo de mau gosto de Jair Bolsonaro. O
assunto é, contudo, muito mais sério do que parece. Pelo que denota do ambiente
social de esvaziamento do papel da mulher, evidente em tantas outras
declarações públicas de responsáveis políticos brasileiros. E pelo que revela
de como muitos homens continuam a qualificar as mulheres.
Por detrás das piadas sobre a
idade de Brigitte está o conceito de mulher mercadoria, que se quer nova e
lustrosa e que é exibida com entusiasmo. Que se reduz ao embrulho e é comparada
com o exemplar ao lado. Ao serviço de um homem que decide, controla e possui.
Não é assim tão raro ou excessivo. O sentimento de posse contamina, nos
pormenores mais subtis, milhões de relações em todo o Mundo.
A boçalidade de Bolsonaro tem
mais simpatizantes do que se esperaria num tempo em que tanto se tem feito pela
igualdade de género. Precisamente porque estamos em clima de mudança, mas muito
mais lenta do que seria desejável. Num país que já conta, só este ano, duas
dezenas de vítimas mortais de violência doméstica, só na aparência bocas sobre
a idade de mulheres são triviais. É preciso tratá-las com a seriedade que
merecem. Por todas as mulheres. E por todos os homens também.
*Diretora-adjunta do JN

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