«"De facto, não me recordo de ter conhecimento completo - já foi há muitos anos - entre relações familiares dentro do Governo, mas, por aquilo que li, não há comparação possível em relação ao Governo a que dei posse em 2015. E, segundo li também na comunicação social, parece que não há comparação em nenhum outro país democrático desenvolvido", afirmou Cavaco, quando questionado sobre a questão das relações familiares no Governo.
"Nos últimos dias aprendi bastante sobre as relações familiares entre membros do Governo e confesso que era bastante ignorante em relação a quase tudo aquilo que foi revelado, mas entendo que não devo fazer qualquer comentário porque já foi dito tudo ou quase tudo e eu não acrescentaria nada de novo", disse.
Cavaco Silva adiantou, depois, que "por curiosidade" foi verificar a composição dos três governos em que foi primeiro-ministro e não detetou lá nenhuma ligação familiar.»
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É não só possível como altamente provável que Cavaco não se lembre do que fez, e deixou fazer, nos seus Governos. Passaram-se mais de 30 anos desde que se estreou como primeiro-ministro, amnésia natural. Acresce que a memória em todos nós é selectiva, tende a soterrar o que doeu e faz doer, o que atormenta, vexa. Mas seria faltar ao respeito ao líder histórico da direita decadente portuguesa, a figura viva que melhor representa o espírito reaccionário e sonso que sobreviveu ao 25 de Abril, se desprezássemos as suas palavras. E o que nelas encontramos é a seguinte revelação: Cavaco depende do que lê na comunicação social para construir a sua visão do que se passou consigo próprio ao longo da sua carreira política.
Lê, ouve e acredita. Acredita e repete à comunicação social o que descobriu na comunicação social. Por exemplo, ficou a saber que o actual Governo é muito diferente do então mesmíssimo Governo a que deu posse em 2015, e que essas diferenças fazem com que Portugal já não possa ser visto como um “país democrático desenvolvido”. Por já não ser democrático ou não ser desenvolvido? Tanto faz, branco ou tinto, quer é o copo cheio. Como tem o cuidado de frisar duplamente, isto são coisas que ele não inventou, que não lhe apareceram de repente na cachimónia vindas sabe-se lá de que intentos canalhas. Não, nada disso. Ele apenas leu e tão-só repete, mas foram os outros que disseram. Os outros, pá, os que escrevem as notícias fresquinhas que ele papa guloso ao pequeno-almoço.
A relação de Cavaco com os canais mediáticos tende a ser vanguardista. Como podemos recordar viajando até ao debate presidencial que teve com Manuel Alegre, em 2011:
MA – [atabalhoada, confusa, errada, inepta apresentação do caso das escutas]
JS – Cavaco Silva, quer responder?
CS – Quero responder e mais do que isso… O sr. candidato anda muuuito distraído. Um candidato não pode andar distraído quando tem todos os seus meios à disposição. Pode ir consultar a página da Internet da Presidência da República e está lá tudo aquilo que eu devia dizer – e que é a verdade! Sabe, a verdade é muito fun-da-men-tal, principalmente para a resolução dos problemas de um país. Porque um cidadão in-for-mado, um povo informado, enfrenta melhor os problemas do País. A verdade gera confiança, enquanto a ilusão o que faz é gerar descrença.
Em diferentes ocasiões, enquanto Presidente da República, mandou jornalistas para o tal local na Internet onde estava a “verdade”, assim evitando perder tempo com declarações redundantes em certos assuntos para os quais não tinha paciência para aturar curiosos e atrevidos. Estávamos perante uma presidência digital, do mais avançado que se praticava no Mundo. Já quando Fernando Lima denunciou em público que – de facto, e como acabou por ser óbvio ainda em 2009 – tinha partido do Chefe de Estado a ordem para lançar a “Inventona de Belém”, aí Cavaco ficou caladinho. Explicação? Simples, a coisa tinha saído em livro. Ora, para quem tinha conseguido enfiar a “verdade” na Internet, deixava de fazer sentido gastar um segundo da sua atenção com esse meio tão arcaico para armazenar informação. Provavelmente, nem sequer terá reparado que Fernando Lima gastou 432 páginas só para inscrever na História que tivemos um Presidente da República conspirador e golpista, autor de uma inaudita violação do seu juramento e deveres constitucionais. Responsável por um colossal e cristalino atentado ao Estado de direito. Para Cavaco, essa gente que dá cabo das árvores só para sarapintar papéis com tinta não pode estar do lado da “verdade”. A “verdade”, pensa convicto e com toda a razão, jamais seria capaz de fazer mal ao lar dos passarinhos.
Há algum mistério neste ecossistema em que Cavaco tem a felicidade de encontrar na comunicação social uma imagem idílica da sua magnífica e impoluta pessoa? Népias. Podemos até ir buscar um cromo direitola para nos resumir o fenómeno em poucas palavras:
«O caso [compra e venda de acções do BPN por Cavaco e filha] passou e nunca se esclareceu totalmente se o lucro de Cavaco foi de favor. O desmentido do então Presidente acabou por ser de uma enorme competência, ao criar a ilusão de que havia um esclarecimento sem nada esclarecer. E de cada vez que surgia o assunto, os jornalistas eram remetidos para esse comunicado. Não foi, aliás, a única vez que Cavaco usou este expediente. Tudo isto é “normal” nas democracias, desde que o povo aceite.»
Eis o máximo a que chega Vítor Matos, um dos mais activos caçadores de socráticos, socialistas e esquerdalhos actualmente ao serviço do Expresso, vindo do Observador e com a escola Cofina. Mas o quase nada chega para se expor o essencial, o sistémico “nunca se esclareceu totalmente se” Cavaco isto ou aquilo. Nada se esclarece e tudo se disfarça e oculta pois os jornalistas só têm uma vida e, acima e antes de tudo, têm patrões. Que o diga Marcelo Rebelo de Sousa, um cúmplice de Cavaco na “Inventona de Belém”, tendo posto o seu enorme poder mediático ao serviço de uma operação de limpeza que em menos de nada tinha voltado a permitir ao nosso querido Aníbal passear a vista com um sorriso rasgado pela paisagem dos jornais e televisões. Uma comunicação social nas mãos da gente séria, pois claro, daí conseguir diariamente encontrar “verdades” tão interessantes e úteis sobre os bandalhos socialistas que teriam de nascer duas vezes para serem tão “honestos” como o homem que não detectou ligações familiares nos seus Governos. O tal primeiro-ministro que favoreceu a Universidade Católica contra os interesses do Estado, só por acaso a instituição onde ele e a mulher foram professores durante anos e anos. Um santo.
POR VALUPI
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