A desumanização parece ter se concluído em muitas pessoas. Situações assim são comuns em guerras. O outro, o adversário, o inimigo, é “desumanizado” e passa a ser tratado como se fosse uma “coisa”. Assim o governo norte-americano, por exemplo, fez com os coreanos do norte, com os vietnamitas do sul e com os japoneses. Eram os “gooks”. Não eram pessoas, eram inimigos a liquidar.
No
Brasil quem conhece bem isso são os negros, pois viveram e vivem a existência
de “inimigos” ou, no máximo, serviçais. Carregam na própria pele a
justificativa para a violência de que são objeto. Em verdade, é assim com todo
pobre, mas a gradação da violência varia com a maior ou menor possibilidade de
atenuar os sinais de pobreza.
Uma
roupa melhor, um modo de falar formalmente elaborado, certo domínio de
etiquetas sociais etc., tudo ajuda a dissimular a pobreza e a minimizar seus
efeitos sobre suas vítimas. Mas não há como se livrar da cor da pele, a não ser
deixando de ser pobre. Foi o que ensinou o brilhante e triste Michael Jackson.
Mas
voltando ao espetáculo mórbido de desumanização ao qual estamos sendo expostos
desde que essa família de doentes ganhou projeção política. Lula representa
para eles um inimigo a ser eliminado. Não é uma pessoa. Como não é ninguém que
seja diferente deles. Ou se é igual ou subordinado. Esse é o mundo lúgubre
dessa horda.
A
desumanidade implica a desumanização do outro. Para afirmá-la é preciso também
negá-la ao outro. Trata-se de um esforço monumental de rebaixamento geral das
poucas conquistas civilizatórias obtidas com muito custo.
Lula,
queira-se ou não, representa as ambiguidades de uma nação mergulhada em
desigualdades. É o único fruto dessa nação que se tornou seu líder. E como tal
foi capaz de governar.
Sabes
que sou um crítico dos governos de Lula e Dilma. Um crítico, quero acreditar, à
esquerda. Mas não tenho dúvida de que ele representa e encarna tudo o que
nossas elites mais odeiam e temem, a pobreza. Por isso, no Brasil de hoje o
extermínio da pobreza é igual ao extermínio dos pobres. Lula não é pobre, mas
representa a pobreza.
A luta
dessa gente desumana é para mostrar o “lugar dos pobres”, para mostrar que
pobre é bicho, precisa ser preso, não ter direitos, não ter família, não saber
o que é dignidade.
É muito
sério!!
É muito
grave!!
E que
haja tantas pessoas no país concordando com tudo isso é sinal alarmante de
nossa involução civilizatória.
Lula
revela para o mundo o que é ser pobre no Brasil. Aquilo pelo que está passando
é emblemático. E não tenho mais nenhuma dúvida de que em sua biografia
encontraremos a síntese mais que perfeita de nossa sociedade tupiniquim.
Eu
estou profundamente desalentado com o que estamos vivendo, vendo, sentindo.
Nem nos
meus prognósticos mais sombrios – e eles sempre são bem sombrios – eu consegui
imaginar algo assim.
Meu
esforço pessoal é para não me desumanizar e para continuar acreditando que
essas pessoas são doentes. Sua doença é não gostar de pessoas que não sejam
iguais a si mesmas ou aceitem subordinar-se a eles sem resistência.
Lula
sabe disso e de muito mais. Minhas críticas políticas a ele não apagam minha
admiração. Não é comum uma pessoa que sobrevive às injustiças e desumanidades a
que ele vem sendo submetido com a grandeza dele.
Preso, Lula é mais livre que toda essa gente. Grades contém o deslocamento do corpo. Mas o que dizer de mentes que impedem a formação de seres humanos?
por
Marcelo Seráfico, Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade
Federal do Amazonas | Texto em português do Brasil
Exclusivo
Editorial PV / Tornado

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