Em 1968 George Romero pregava-nos valente susto, quando dois irmãos eram atacados por um zombie num cemitério. Doravante não pararia de nos amedrontar com tais monstros até 2009, quando assinou o derradeiro título da sua filmografia. Pelo meio andou a alertar-nos para a importância de olharmos para esses filmes como sendo bem mais do que entretenimentos enquadrados no género do terror. Denúncia do capitalismo, esclarecia ele e, de facto, olhando para «Terra dos Mortos» (2005) com merecida atenção, está lá tudo quanto um empedernido marxista possa evocar sobre os malefícios do sistema económico baseado na exploração das mais valias inerentes à transação de mercadorias.
Fica,
assim, explicada a razão porque aprecio os filmes de Romero, mesmo que
insuportáveis nas escabrosas cenas em que os zombies se deliciam a provar os
corpos dos ainda vivos. Dá para perceber que são monstros terríveis, que
convirá serem circunscritos às suas sepulturas.
Não é
isso que, porém, vai acontecendo, como pudemos constatar nas notícias dos
últimos dias. Da algarvia urbanização da Coelha um, de Massamá outro, dois
mortos vivos saíram do respetivo recato e vieram assombrar-nos com os seus
gestos trôpegos e palavras inaudíveis. Uns supostos jornalistas andaram a
conjeturar o que disseram, mas não ficou provado que tenham tido substantivo
significado o que das suas bocas se ouviu. Por mor das dúvidas aos arquivos e
reciclaram algumas coisas requentadas, mesmo que com odor entre o mofo e o
fétido.
Porque
eram só dois não suscitaram grande sobressalto: das tumbas vieram, a elas
voltaram, sem grandes males que se reportassem. Mas justifica-se a atenção a
muitos outros, que possam engrossar-lhes a virulência. Nessa altura convirá
regressar à obra de Romero e recordar a melhor forma de os devolver
definitivamente à procedência.
Publicada
por jorge rocha à(s) 01:23
Em Ventos Semeados

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