Nunca tive grande simpatia por Torres Couto mas, na altura, considerei útil a criação da UGT como forma de não alienar o movimento sindical aos interesses exclusivos de um Partido.
Sucedeu-lhe
João Proença e cresceu a antipatia para com a organização por se assumir
progressivamente alinhada com os interesses das confederações patronais no
intuito de inverter os direitos na legislação laboral conquistados com a
Revolução de Abril.
No
tocante às classes marítimas, a UGT tornou-se feudo dos que tudo se dispuseram
a fazer para que os armadores da Marinha Mercante reduzissem drasticamente as
remunerações e os seus direitos, mormente os de descontarem para a Segurança
Social para virem a ter uma reforma digna.
No caso do Sindicato da minha classe, a dos Oficiais e Engenheiros
Maquinistas Mercantes, favoreceu a criação de uma organização paralela, quando
os cúmplices dos armadores sofreram uma calamitosa derrota nas eleições para os
corpos gerentes, logo sendo acarinhados na central como merecendo crédito
quanto à sua (ir)representatividade junto de quem se diziam «defensores».
Ficou
desmascarada a ética dos que mandavam na UGT: se se mostrassem dóceis aos
desígnios dos patrões os sindicatos nela filiados eram acarinhados, mas, caso
contrário, logo se arranjava forma de criar um outro paralelo para que o
objetivo final fosse garantido. Esse comportamento crapuloso não tardaria a
manifestar-se de outra forma sinistra: nas empresas de navegação, que o havia
apoiado, esse sindicato amarelo passou a ser de filiação obrigatória para quem
aí quisesse prosseguir a carreira. Os trabalhadores marítimos passaram a
ser coagidos a descontarem para esse
sindicato e para os que com ele criaram uma espécie de cartel mafioso. Os que
quiseram manter a filiação anterior tinham duas opções: ou despedirem-se ou
verem descontada a quota para o
sindicato paralelo pela empresa armadora, e pagarem à parte a que lhes manteria
pelo vínculo com a sua organização sindical de sempre. A tão veemente atropelo à liberdade de cada
trabalhador decidir sobre qual a organização sindical a que pretendia pertencer
João Proença limitou-se a encolher os ombros e até a levar ao colo o anónimo
militante laranja, que lidera esse sindicato paralelo a presidente da central.
Carlos
Silva só veio agravar a promiscuidade entre a UGT e o patronato. Ele é daqueles
supostos militantes, que qualquer Socialista com letra grande tem vergonha de
ter como camarada. Porque mostrou tanta compreensão com Ricardo Salgado, quando
estava escarrapachada a sua nociva gestão do BES. Porque andou nas palminhas
com o governo de Passos Coelho, quando ele violentou os rendimentos e os
direitos dos trabalhadores, a tudo dizendo ámen. Porque fez o que esteve ao seu
alcance - felizmente pouco! - para dificultar a ascensão de António Costa a
secretário-geral do Partido Socialista. Porque, ao longo da atual governação,
tem-se mostrado incomodado com a inversão de muitos dos agravos feitos aos
trabalhadores, quase parecendo que lhe tiram dentes, quando os partidos à
esquerda do PS se congratulam com a reconquista de alguns direitos perdidos.
Não
espanta que tenha prontamente acolhido no seio da central um dos sindicatos
amarelos dos enfermeiros, criado para o mesmo objetivo do que foi criado em
1991 na minha própria classe. Se o objetivo é apoiar os interesses dos grandes
grupos privados na área da Saúde o Silva da UGT está sempre disponível. Bem
como para debitar para os jornais afirmações insultuosas para com o
primeiro-ministro e para a ministra da Saúde.
Que
feita a prova dos nove, ele valha nada, demonstrou-o a greve hoje convocada
pela central para todo o setor público e cujos efeitos não se notaram em lado
algum. Nesse sentido a CGTP dar-lhe-á amanhã violenta chapada.
Quanto
a Carlos Silva restará questionar-nos se, tendo sempre ido de mal para pior, a
UGT conseguirá arranjar superar-se quando o substituir. A bitola já é tão
rasteirinha, que dificilmente será encontrado quem seja ainda mais subserviente
perante quem deveria, pelo contrário, mostrar atitude reivindicativa.
Publicada
por jorge rocha à(s) 16:18
Do blogue Ventos Semeados

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