quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Entre portas:


Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Uso este sofisma para dar forma ao que se vai passando “entre portas” que é o mesmo que dizer neste “admirável” concelho em que só existe a sua sede e o resto é paisagem.
Pelo menos é o sentir desta terra que derivado aos seus antepassados fizeram de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Se este era o sentir dos nossos antepassados deve de ser hoje o sentir de todos nós. Não darmos tréguas a quem por nós não tem consideração. Assim devemos pagar com a mesma moeda.
Aqui vai a tal “semelhança com a realidade”   
“Jorge Luís Borges: O grande mapa
Certo rei encomendou aos geógrafos um mapa do país. Mas exigiu que tal mapa fosse perfeito, com todos os detalhes. Os geógrafos mediram todos os locais, e fizeram um rascunho. Um deles comentou que ainda faltavam detalhes de rios.
Resolveram refazer o desenho numa escala bem maior. Quando ficou pronto, o mapa estava do tamanho do primeiro andar de um edifício; mesmo assim, alguns conselheiros do rei argumentaram:
- Não dá para ver os caminhos nos bosques.
E os sábios geógrafos foram desenhando mapas cada vez maiores, com detalhes e mais detalhes do país.
Quando, finalmente, conseguiram o mapa perfeito, chamaram o rei e o levaram a um imenso deserto. Ali chegando, mostraram uma estranha tenda, que se estendia até o horizonte.
- O que é isso?
- O mapa do país - responderam os geógrafos. - Como quisemos fazê-lo o mais próximo da realidade, ele ficou tão grande que ocupa o deserto inteiro.
- O medo de errar, na maior parte das vezes, termina nos conduzindo ao próprio erro - comentou o rei. - O mapa é tão detalhado, que não serve para nada.
E mandou enforcar os geógrafos.”

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