sábado, 24 de março de 2018

NUNCA É TARDE PARA SE SENTIR VERGONHA:


A vida prega-nos destas partidas, passamos décadas a conviver e a tropeçar na miséria, chegamos aos 7o anos e eis que vemos o que nunca vimos, depois de milhares de comentários e análises, depois de quatro anos a empobrecer ainda mais os que já eram os mais pobres, eis que surge uma luz, certamente vinda do divino, e vimos o que nunca vimos.

Mas nunca é tarde para vermos que o mundo não é só aquele que conhecíamos nos jantares dos banqueiros, nos almoços do Gigi, das festas da Quinta Patino ou da Quinta da Marinha, o nosso mundo, este nosso Portugal é um país com muita miséria, com muita gente sem recursos, com muita gente mal remunerada. É um país onde um grande partido garantia que seria o fim do mundo se os que ganham a miséria do ordenado mínimo recebessem mais uma dúzia de euros.
 A miséria é fotograficamente bonita, temos excelentes imagens da miséria quotidiana dignas de prémios fotográficos e até alguns romances que todos lemos, quem não apreciou as imagens dos emigrantes em Santa Apolónia ou dos pescadores da Póvoa, filmes como Aniki Bóbó ou muitos outros do velho cinema português? Mas a vida não são realizações fotográficas ou cinematográficas e aquela miséria com que passámos a vida a cruzar-nos era mesmo real, não eram encenações televisivas, a fome, as barracas, os filhos tirados aos pobres, tudo isso era real e sempre cá esteve para que sentíssemos vergonha.

Mas mesmo que muita gente não se tivesse sentido envergonhada no passado e só agora tenha reparado na miséria que ainda subsiste, já muita coisa acabou, já quase nos lembramos dos imensos bairros da lata que existiam em Lisboa, alguns bem no centro da cidade como as barracas na zona de Chelas, uma verdadeira cidade dentro da cidade. Felizmente há quem sinta vergonha há muitas décadas e, sendo gente de direita ou de esquerda, sempre combateram a miséria, recusando uma vida de futilidades palacianas.

Também é verdade que o combate à miséria deve ser penado no quadro das políticas governamentais, é a diferença entre empregar o Catroga na EDP e aumentar o IVA na eletricidade e nos bens básicos ou aumentar as prestações sociais e o ordenado mínimo. É a diferebça entre defender a escola pública para apostar na valorização profissional ou investir na privada e reduzir a pública a albergues de crianças mais pobres.

Há quem nunca acabe de descobrir a miséria e até tenha a brilhante ideia de exigir políticas ao governo. Até apetece perguntar a algumas pessoas onde estiveram nos últimos setenta anos. Ainda bem que nem todos andam distraídos e há muito que combatem a miséria, mesmo sem crise de caridade, sem visões cristãs da sociedade e sem preocupações com agendas e ambições políticas pessoais.

Do blogue (Jumento) 

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