sexta-feira, 23 de junho de 2017

Da Puerta de Alcalá para el mundo inteiro:

Um homem sentiu-se mal, perto do terraço do restaurante madrileno Ramsés, na Puerta de Alcalá, ontem. Havia muita gente nas ruas, apesar do início da madrugada. Chegou a ambulância e os enfermeiros inclinaram-se para o homem e, logo, deram um salto: ele tinha pacotes de plástico amarrados à volta do corpo. Bomba!!! Agentes da polícia municipal, que passavam por ali, conseguiram segurar os braços do homem, que não reagia, talvez porque a indisposição, que levou a ambulância à Plaza de la Independencia, fosse sincera.

Depois da descoberta do ataque terrorista iminente, chamou-se a brigada de minas e armadilhas, que logo fechou a circulação na praça e remeteu os clientes do Ramsés para o fundo do restaurante, local abrigado. Entre eles, eu. Desculpem, ainda não me apresentei, chamo-me Bond, Sebastião Bond. Na verdade, não é meu nome, é pseudónimo, nome de guerra ou de pena, como quiserem. Espero vender este artigo para o Diário de Notícias, de Lisboa. Vivo disso, à minha volta estão sempre a acontecer coisas extraordinárias. E a proximidade suscita o interesse dos jornais: certamente Lisboa vai querer saber o que se passou na madrugada de ontem em Madrid.

Acontecimento extraordinário é, por exemplo, um avião que não cai e as autoridades demorarem a reconhecer que não caiu. Quer dizer, um triângulo das Bermudas ainda mais espetacular. No último século, 50 navios e 20 aviões desapareceram no Caribe, mas eu refiro-me a um acontecimento ainda mais misterioso: um avião que deixa de existir ainda antes de ter existido. Chamariz que sou para acontecimentos assombrosos, o tal avião ainda me há de calhar. Entretanto, cá estava eu no fundo do restaurante Ramsés mas com boa vista para a Puerta de Alcalá, onde aconteciam coisas. Haveria de descobrir quão invulgares eram.

Desde logo, a monumental Puerta de Alcalá. Durante a Guerra Civil, na Madrid republicana, fez-se lá uma homenagem, com uma faixa "Viva a União Soviética" encimando três grandes fotos dos líderes soviéticos, Litvinov, Estaline e o marechal Voroshilov, penduradas nos arcos centrais. Finda a guerra, com a vitória de Franco, no sopé do monumento celebraram-se missas. Eu pensava nessas reviravoltas históricas, ao mesmo tempo que deitava um olhar para o terrorista no chão e os dois polícias municipais a mantê-lo de braços presos.

Comecei logo a alinhavar, no meu moleskine, a reportagem que haveria de enviar para o jornal que ia pagar-me a reportagem. Ainda pensei escrever um texto sobre os meandros psicológicos dos terroristas. Tão brutos nos atos e, depois, dá-lhes um chilique que alerta uma ambulância e esta estraga, ou pelo menos adia, a ida até às 77 virgens... Mas, refletindo melhor, considerei que o leitor português não está preparado para uma análise compassiva sobre terroristas. Quer se queira quer não, isto do jornalismo consiste muito em albardar o burro à vontade do dono.

Ficaram a perder os leitores. Há por aí um documentário sobre terroristas destinados a mártires em Raqqa, Síria, no começo da sublevação do Estado Islâmico. Um britânico convertido, estava excitado com a ideia, falava para a câmara ansiando pelo dia em que se faria explodir. No dia em que lhe anunciaram o glorioso destino, fosse por fraqueza de alma ou verdura de fé, foi-se abaixo das canetas. Como o coitado que eu via, de longe, na rua, de cócoras.

Sou um profissional, vivo disto de escrever e tinha de arranjar assunto. Lembrei-me, então. Não se hesita em abater uma útil mala solitária só porque se suspeita de explosivos. A polícia rebenta com tudo, couro e rodinhas. E, agora, um canalha de um assassino não levou logo com um tiro na testa! O que pouparia o trabalho dos polícias, obrigados a revezar-se para lhe tolher os movimentos. Arriscando até a vida da própria autoridade: quem nos dizia que o Daesh já não tinha inventado o botão detonador impulsionado pelo bater dos cílios? Pois ali estávamos, naquele compasso de espera, certamente ditado por ordens do governo...

Governo, é isso! Ah, isso, eu sabia que iria ter sucesso em Lisboa: noticiar em direto uma bagunça política em Madrid. E comecei a escrever: "A desastrosa gestão do ataque terrorista pode pôr fim à carreira política de Mariano Rajoy." Olhei à volta, eu era o único animado com alguma coisa. Os outros clientes, catrafiados no fundo do restaurante, deitavam olhares furibundos àquela espera toda. Escrevi: "Aluvião de críticas dos madrilenos contra Rajoy." E fui por aí adiante, em texto objetivo e seco (estive vai-não-vai para meter uma queda de avião na Puerta de Alcalá, mas reservei-a para outra ocasião). Hei de precisar do pseudónimo mais vezes. Entretanto, chegaram os cães que cheiram explosivos... Boa, mais um argumento. Escrevi no moleskine: "Governo espanhol expõe cães inocentes."

Foi então que levantei os olhos e reparei que os polícias municipais largaram o terrorista e os da brigada de minas puseram-se a mexer, primeiro com certo medo, depois à vontade, nos pacotes de dinamite. E deram-nos ordem para irmos para casa. Soube pela mulher de um polícia que os pacotes eram de dinheiro (180 mil euros, em notas de 100 e 500) e do homem nada se sabia, senão que um tipo que tem aquilo no corpo, a última coisa que queria era explodir-se...


Fiquei sem assunto, mas garanto-vos que o essencial que contei existe: a Puerta de Alcalá, há centenas de anos, e, ontem, um homem ter sido lá detido por levar 180 mil euros amarrados no corpo. Ah, outra coisa: e que do Rajoy muita gente não gosta, também suspeito, mas para eu o escrever num jornal prefiro dar o meu nome.

23 DE JUNHO DE 2017
No dn

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