terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Centeno, dá-lhes o arroz:

Consta que Robert Pirsig é o responsável pela popularidade da seguinte parábola: algures na Índia do Sul, algures no tempo, foi inventada uma armadilha para apanhar macacos que consistia em meter arroz dentro de um coco vazio, este tendo uma abertura que permite ao macaco enfiar a mão aberta mas sem conseguir retirá-la fechada – isto é, com o arrozito na mão, entenda-se para compreender a lição. Mesmo que seja uma tanga no plano histórico, no cognitivo é um tesouro de sapiência.
A nossa direita partidária, compulsivamente simiesca, está na mesma situação do macaquinho indiano. Em relação à CGD, viram ali a tábua de salvação perante um Governo improvável e original que superou todas as expectativas e é já uma referência e fonte de esperança na Europa, e também perante as sondagens que colocam o PSD à beira de uma defenestração da liderança. Pelo que reagiram de acordo com o que consideram ser o “fazer política”: uma estratégia de terra queimada cuja cegueira era reforçada pelo desespero de não terem discurso. Também em 2011 foi esse o critério, preferiram afundar o País numa estrita lógica de poder pelo poder, “custe o que custar”. Sabemos quanto custou esse colossal logro, mas ainda ninguém sabe quanto vão custar os danos que PSD e CDS querem intencionalmente provocar na CGD.
Lobo Xavier, na última Quadratura do Círculo, frisou que o ataque devia continuar. Terem conseguido o triunfo de dominarem há semanas a agenda política e mediática, atingindo vários alvos em simultâneo, desde Centeno a Marcelo, passando por Costa e CGD, e com o bónus de abafarem os resultados positivos de Portugal no plano económico, é pouco. Há que tirar o maior proveito de terem Centeno na fogueira e Marcelo de mãos atadas a assistir ao auto com um Costa de mordaça a fingir que não é nada com ele. Igualmente David Dinis usa o Público para apelar ao mesmo, disponibilizando-se para amplificar e prolongar a tal “descoberta da verdade” que poderá ocupar mais uns meses de cabeçalhos e muitas opiniões da rapaziada da cor. Cofina e Impresa, com os seus exércitos em papel e na TV, estão às ordens para o que for necessário.
Ora, no passado tal poderia ser feito sem qualquer risco. Nesse passado, o PCP e o BE alinhavam com palavras e actos, silêncios e passividades, no tiro aos socialistas por parte da nossa direita decadente. E o povoléu acreditava no berreiro, porque, como ensina diariamente o CM e a cada livro o sr. Cavaco, os políticos são uma cambada de incompetentes e ladrões. Só que agora estamos a viver o primeiro ciclo político na nossa democracia em que existe uma aliança das esquerdas ao serviço da governação. Tal nunca antes tinha acontecido, pelo que não espanta que os macaquinhos não estejam a perceber onde é que se estão a meter. Começar a ver o PCP, tão admirado pelos direitolas pela sua “integridade” granítica, a malhar sem dó nas hipocrisias e cinismos dos básicos que preenchem o PSD e o CDS leva a que o Zé que anda de autocarro comece a fazer contas ao que cada um dos lados está mesmo a querer dizer.
Avançando a nova comissão de inquérito, cuja finalidade é unicamente chafurdar numa situação normalíssima que só faz sentido discutir naquela câmara caso se queira mesmo criminalizar alguém, a esquerda terá literalmente a soberana oportunidade de denunciar o que o PSD e CDS estão a fazer. Trata-se de virar o feitiço contra o feiticeiro, mostrando como a única lógica do tempo gasto nessa comissão é a baixa política e o prejuízo demente que se vai tentar espalhar por pessoas e instituições públicas. Soberana oportunidade de mostrar como a cultura vigente nos actuais PSD e CDS é furiosamente contrária à resolução dos nossos problemas sociais, económicos e financeiros.

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