Vivemos de felicidades pequeninas, e inventamos esses instantes com a
intuição secreta de que são precários e fugazes. Pouco temos a que nos pegar.
Os amigos ou aqueles que estimamos vão-se embora, para outros sítios ou para
sempre, encerrando o anel que parecia ligar-nos. Agarramo-nos, com o desespero
de quem nada tem a perder e nada tem a ganhar, ao gosto de uma palavra, a um
sonho ou, até, a um jogo de futebol, criando a ilusão de que somos felizes. Mas
é sempre uma felicidade pequenina, e nós sabemo-lo com a noção dessa fatalidade
irrevogável. Fomos alguma vez grandes? Inculcam-nos a ideia de que sim. Mas
grandes para quem? Fomos nas caravelas, criámos um leito de nações deitando-nos
com tudo o que era mulher. Talvez a nossa grandeza resida aí: no gosto e no
apreço pela mulher.
Tudo o que trouxemos e roubámos foi para os outros. É sempre assim.
Jorge Brum do Canto, aquele realizador de cinema de que já ninguém fala, sequer
levemente, disse-me, um dia, no Botequim da Natália, que somos o mesquinho na
mesquinhez: pequeninos e queremos e gostamos de o ser. Precisamos de ídolos,
ídolos?, que completem a nossa incompletude. Agora, neste mesmo instante, é o
Cristiano Ronaldo, que se passeia num Lamborghini para satisfazer a nossa
inveja. Ele é a nossa vingança momentânea, também ela momentânea e precária,
enchemos as praças públicas, transferindo para ele as nossas frustrações e as
nossas derrotas. Perdemos. Levámos uma cabazada, e o inchaço da pequenina
esperança, tudo pequeno sempre muito pequeno, esvaziou-se como um balão. Lá
vamos, cantando e rindo, diz o hino mentiroso. Lá vamos.
Depois, esquecemos tudo. Até a miséria esfarrapada do nosso esfarrapado
viver. Protestamos sem ira nem cólera. Protestamos com estribilhos e dizeres em
cartazes, e vamos à vida que se faz tarde. Somos o Mundial! Gritam as
televisões, todas as televisões, durante todo o dia, e enviados especiais
embevecidos, comentadores severos, especialistas engravatados e graves
ensinam-nos as razões por que perdemos. Lá vamos, cantando e rindo. Dizia o
O"Neill: "Às duas por três nascemos/ às duas por três morremos/ e a
vida?, não a vivemos." O O"Neill é como o Pessoa: serve para explicar
o aparentemente inexplicável. Lemos os jornais, os que lêem, claro!, e o fastio
é tanto que só sabemos de futebol: decoramos os nomes, os lances e as jogadas,
nada de mais nada. Somos assustadoramente ignorantes, iletrados contundentes,
fecham-se escolas, reduz-se o dinheiro para o ensino, os miúdos vão para as
aulas em jejum, e temos, temos é como quem diz..., três jornais diários
consagrados ao futebol, fora o que escorre, uma multidão de programas de, sobre
e com futebol e adjacências; o mesquinho na mesquinhez elevado ao quadrado.
"Se fosses só três sílabas, Portugal..."
BAPTISTA-BASTOS
BAPTISTA-BASTOS
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