Era uma sexta-feira de maio de 1985. Ronald Reagan, presidente dos
Estados Unidos da América, estava de visita a Portugal. Deslocou-se então à
Assembleia da República para participar numa reunião plenária e usar da palavra
perante os deputados. A sessão era solene e de boas-vindas, pelo que um não
eleito para o Parlamento português poderia, mediante a concordância do
presidente da Assembleia da República, dirigir-se ao País na Casa da
Democracia.
Nesse princípio de tarde, os deputados do PCP optaram por abandonar a
sala e, tal como os eleitos pela UEDS, não participaram nas loas ao
"amigo" americano. Reagan acusou o toque e não resistiu a fazer uma
piadola no arranque da sua intervenção. "Tenho pena que algumas cadeiras à
esquerda pareçam desconfortáveis", lê-se no Diário das Sessões.
Passados quase 30 anos, e em vésperas das celebrações do 40.º
aniversário do 25 de Abril, nova polémica com sessões solenes volta a tomar
conta das notícias. Tem sido aliás assim nos últimos três anos. Os
"capitães", em protesto contra a atuação do Governo, têm recusado
participar nas comemorações oficiais.
Desta vez, porém, e perante o convite que sempre existiu da presidente
do Parlamento, o coronel Vasco Lourenço - militar de Abril, mas também de
Novembro, e um dos homens do chamado "Grupo dos 9" - predispôs-se a
ir a São Bento desde que pudesse, tal como Reagan em 1985, usar da palavra.
Vamos por partes. Devemos aos militares, que há 40 anos fizeram a
Revolução, o facto de terem sido uma espécie de parteiros da democracia. Devemos-lhes,
nas palavras de Ary dos Santos na Desfolhada Portuguesa de Simone de Oliveira,
o terem-no feito "por gosto" e sem qualquer outro interesse que não o
de devolver a liberdade aos portugueses. Foi por isso que não hesitaram, uma
vez consolidado o processo de transição para a democracia, em entregar o poder
aos políticos saindo de cena sem qualquer espécie de ressabiamento.
Devemos-lhes também a ideia de um projeto político que assentava sobretudo na
ideia de pluralismo e de desenvolvimento. Mas é preciso também afirmar que a
dívida de gratidão que temos para com estes homens não faz deles donos da
pátria ou do regime, nem tão-pouco tutores da democracia, como algumas vezes
parecem fazer crer.
NUNO SARAIVA
Hoje no DN
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